19.12.08

ERNESTO GRASSI

(…) As condições biográficas do autor de uma obra de arte nada nos revelam do processo artístico da sua composição, pois que as vivências «pessoais» do poeta não são diferentes, na maioria das vezes, das que são comuns aos seus contemporâneos e próximos que não foram capazes de extrair delas um sentido universal. Embora pareça contraditório, assim é: a personalidade que através da obra de arte nos fala é, sem dúvida, a de um indivíduo que se move em determinado condicionamento histórico, mas é sobretudo a encarnação de uma força impessoal cujo fito é configurar o objectivo e universal. Daí a impressão de um estranho anonimato no qual, todavia, se patenteia algo de muito pessoal, que no projecto criador transmuta e anula o meio ambiente e tem capacidade para tanto porque as suas raízes atingem o fundo último do ser, do indizível ignoto. É decerto este o sentido das palavras de Rimbaud:

(excerto de A Arte e o Mito, tradução de Manuela Pinto dos Santos, sem data – LBL Enciclopédia)
ARTHUR RIMBAUD

(…) A inteligência universal sempre arremessou as suas ideias com naturalidade; os homens recolhiam uma parte desses frutos do cérebro: agia-se em conformidade, escreviam-se livros: tal era o sentido das coisas, o homem não se trabalhando, não estando ainda desperto ou não mergulhando na plenitude do grande sonho. Funcionários, escreventes: autor, criador, poeta, esse homem nunca existiu!
O primeiro estudo para o homem que quer ser poeta é o próprio conhecimento, por inteiro; ele procura a sua alma, inspecciona-a, experimenta-a, apreende-a. Desde que a sabe, deve cultivá-la; isso parece simples: em todo o cérebro se dá um desenvolvimento natural; tantos egoístas se proclamam autores; muitos outros atribuem-se o seu próprio progresso intelectual! – Mas do que se trata é de tornar a alma monstruosa: a exemplo dos comprachicos, pois! Imagine um homem implantando e cultivando verrugas no seu próprio rosto.
(…)

(excerto de carta a Paul Demeny, datada de 15 de Maio de 1871, in Cartas do Visionário e mais nove poemas, tradução de Ângelo Novo, Fora do Texto, 1995)

18.12.08

AMADEU BAPTISTA

Ternura


A magnífica
refeição que o tratador
dá ao cavalo:
aveia,

duas dúzias de cenouras
e uma maçã vermelha.
Devolve-lhe o cavalo
a afeição

com um roçagar
leve da garupa.
Todo ele afecto,
a derramar ternura.

(de Os Cavalos a Correr, Trinta por uma linha, 2008 - recolhido no Porosidade Etérea)
Foram lançados recentemente mais dois novos livros de Amadeu Baptista:





















Os Cavalos a Correr,
livro de poemas para crianças ilustrado por Estela Baptista Costa
e editado pela editora Trinta por uma linha

e

Açougue
(XVI Prémio de Poesia Espiral Maior),
editado na Galiza pela Espiral Maior.

(entretanto, há notícia de que mais livros do Amadeu estão para chegar em breve)

16.12.08

EDWARD HOPPER


Empty Room, 1963
óleo sobre tela
Colecção particular



MÁRIO AVELAR

Promenade – Sol num quarto vazio
(Edward Hopper)


Às vezes sento-me na
sala a ouvir Coltrane,
my favorite things… O crepúsculo

da memória esbate-se
em ténues raios de
luz nos ecos desses dias:

Não vás ao mar, Tóin’… O tédio
dos sessenta, procissões,
indolentes romarias…

cheiro a fritos, farturas…
Nostalgia? Toca a
banda no coreto… Que

vontade de uivar, de
correr, de fugir p’ra longe
desse imenso torpor.

(de Pela mão de Mussorgski numa galeria com anjos, Black Sun editores, 2000)

15.12.08

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

A noite abre meus olhos


Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado

Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes

A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta

o amor é uma noite a que se chega só.

(de A Estrada Branca, 2005)

14.12.08

SANDRO PENNA

As Portas do mundo não sabem
que lá fora a chuva as procura.
As procura. As procura. Paciente
afasta-se, regressa. A luz
não sabe que há chuva. A chuva
não sabe que há luz. As portas,
as portas do mundo estão fechadas;
fechadas para a chuva,
fechadas para a luz.

(in No brando rumor da vida, tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo, Assírio & Alvim, 2003 – original de Poemas Inéditos (1927-1955))

13.12.08

CHARLES SIMIC

O tempo dos poetas menores está a chegar. Adeus Whitman, Dickinson, Frost. Bem-vindos vós cuja fama nunca passará da família mais chegada, e talvez um ou dois amigos íntimos reunidos depois do jantar à volta de um jarrão de rude vinho tinto... enquanto as crianças adormecem e se queixam do barulho que fazes ao vasculhar os armários à procura dos teu poemas antigos, com medo que a tua mulher os tenha deitado fora na limpeza da última primavera.
Neva, diz alguém que espreitou a noite escura e que, depois, também se volta para ti quando te preparas para ler, de uma forma algo teatral e uma face que cora, o longo e tortuoso poema de amor cuja estrofe final (que não sabes) falta sem remissão.

- segundo Aleksandar Ristóvič

(in Previsão de tempo para utopia e arredores, tradução de José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim, 2002 – documenta poetica)

12.12.08

CASIMIRO DE BRITO

481

Branco no branco, cantou
Bashô. Despes o vestido,
dispo o teu corpo.
A tua sombra na parede
branca. Sorris.
Apagas a luz.
Sabes que a tela da tua pele
me vai iluminar.
Debruças-te no meu peito:
sabes que o teu hálito me vai
acender. Branco
no branco.
Derramados
um no outro. Quem é luz?
Quem é sombra?
A cotovia
começa a cantar.

(de 69 Poemas de Amor, 4 Águas editora, 2008)

Hoje, pelas 18:00,
na Livraria Bulhosa de Entrecampos (Campo Grande, 10-B), em Lisboa,
será apresentada a antologia 69 POEMAS DE AMOR de Casimiro de Brito,
editada pela 4 Águas Editora.

A antologia será apresentada por Maria João Cantinho
e serão lidos poemas por várias personalidades,
seguindo-se um beberete.



«Sou essencialmente um poeta do amor. Talvez porque pense que o amor é inesgotável — embora possa naturalmente ter outros nomes. A própria morte, na minha poesia, significa “amor” — porque, na minha poesia, à morte, que é tão recorrente, não é mais nem menos do que mudança, transformação. Disse-o Camões.»

(Excerto da entrevista concedida por Casimiro de Brito ao suplemento Caderno de Artes, do semanário Postal do Algarve, 27 de Novembro de 2008)

11.12.08

JOSÉ MIGUEL SILVA

NON, OU A VÃ GLÓRIA DE MANDAR
- MANOEL DE OLIVEIRA (1990)


Diz o povo e com razão que no perder
é que está o ganho. Para alguma coisa
somos portugueses, «os de cabelo castanho»,
e que seria de nós se as lágrimas, os lenços

nos faltassem? Povos mais felizes alimentam-se
de lucros, de famas, de vitórias. Nós não,
preferimos o lamento, a beleza moral
do quase ter, do quase lá, do quase nunca.

A bola no poste é o nosso emblema, e o nosso
patriotismo exprime-se na derrota. Pois
no coração de cada português lateja a evidência
de que só no fracasso se alcança o verdadeiro

sabor de ser homem. A vitória é uma patranha
em que só caem os parvos, os que não sabem,
como nós sabemos, que não há nada a ganhar,
que todos os triunfos são triunfos da morte.

Devemos então assumir como desígnio nacional
a ambição de perder cada vez mais, cada vez melhor,
e fazer o possível por tirar proveito dessa situação,
tão favorável, que o fracasso nos confere.

Porque só quem aprendeu a amar a derrota,
a fazê-la sua, a lutar por ela, poderá desatrelar-se
do tandem de agonias que os antigos figuravam
sob o nome de temor e esperança.

(de Movimentos no Escuro, Relógio d’Água editores, 2005)

10.12.08

SEAMUS HEANEY

Da república da consciência


I

Ao aterrar na república da consciência
o silêncio era tal quando os motores pararam
que ouvi um maçarico, bem alto sobre a pista.
No balcão da imigração, o funcionário
era um velho que puxou de uma carteira
do seu saco artesanal, e me mostrou
uma fotografia do meu avô.
A mulher na alfândega quis que eu declarasse
as palavras ancestrais das nossas curas
e feitiços contra a mudez e o mau-olhado.
Nem um carregador, intérprete ou táxi.
Cada um transportava o seu fardo, e os sintomas
de insinuante privilégio em breve desapareciam.


II

Por lá, o nevoeiro é um augúrio temido,
mas o relâmpago promete o bem
universal, e os pais penduram bebés
nas árvores durante as trovoadas.
O sal é um mineral precioso.
E as conchas levam-se ao ouvido quando nasce
ou morre alguém. A base de toda e qualquer
tinta e pigmento é a água do mar.
o seu símbolo sagrado é um barco
estilizado. A vela é uma orelha, o mastro
uma caneta inclinada, o casco a forma
de uma boca, a quilha um olho aberto.
Ao tomarem posse, os dirigentes públicos
juram respeitar as leis não escritas, e choram
para expiar a presunção de ter um cargo –
e para afirmar a sua confiança
em que toda a vida nasceu das lágrimas
choradas pelo deus dos céus após sonhar
que a sua solidão não tinha fim.


III

Regressei dessa frugal república
de mãos a abanar, pois a mulher da alfândega
insistiu que a única mercadoria
que eu podia trazer era eu próprio.
O velho ergueu-se e olhou-me o rosto fixamente
e disse ser assim o reconhecimento
oficial da minha nacionalidade
dupla. Desejou pois ao regressar a casa
eu me considerasse representante
daquele país, e em seu nome falasse
na minha própria língua. As suas embaixadas
encontravam-se, disse, por todo o lado,
mas actuavam de forma independente,
e nenhum embaixador jamais seria
dispensado das suas funções.

(in Da Terra à Luz – Poemas 1966-1987, tradução de Rui Carvalho Homem, Relógio d’Água editores, 1997 – original de The Haw Lantern, 1987)

9.12.08

JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA

LEITOR II


Deixa que se fechem as pálpebras que já não
dominas,
enquanto o lobo uiva atrás das minhas costas.

Sentes a aragem que traz do sul um aroma de
acácias?
Vês a igreja, o adro, e na falésia distante,
entre as brumas,
os senhores das inaudíveis flautas que anunciam
a alba?

Aproxima-te então,
e toca-me ternamente no ombro,
para que se abram enfim os gladíolos da minha
pele à deriva,
no meio da terra.

(de Filho Pródigo, Assírio & Alvim, 2008)

8.12.08

ADÉLIA PRADO

Salve Rainha


A melancolia ameaça.
Queria ficar alegre
sem precisar escrever
sem pensar
que labor de abelhas
e vôo de borboletas
precisam desse registro.
Chorando seus casamentos
vejo mulheres que conheci na infância
como crianças felizes.
A vida é assim, Senhor?
Desabam mesmo
pele do rosto e sonhos?
Não é o que anuncio
- já vejo o fim destas linhas,
isto é um poema – tem ritmo,
obedece à ordem mais alta
e parece me ignorar.
Me acontecem maus sonhos:
a casa só tem uma porta,
casa-prisão,
paredes altas, cómodos estreitos.
Chamo pelo homem, ele já se foi,
quem se volta é um negro,
indiferente.
A criança que se perdera,
ou deixei perder-se de mim,
é um menino-lobo,
eu a encontro grunhindo,
com um casal velho de negros.
Por que os negros de novo?
Por que este sonho?
Gasto minhas horas em pedir socorro,
esgotando-me, monja extramuros,
em produzir espaços de silêncio
para encontrar Tua voz.
É medo meu apregoado amor,
uma fita gravada, meu contentamento.
O primeiro santo do Brasil
invocou para um pobre:
“Post-partum, Virgo Inviolata parmansisti.
Dei Genitrix, intercede pro nobis”.
Ó Virgem,
volte à minha alma a alegria,
também eu
estendo a mão a esta esmola.

(de Oráculos de Maio, 1999)

7.12.08

ANTÓNIO ALÇADA BAPTISTA

(…)
Naquilo que me toca, confesso que não me dá muito jeito sentir-me mortal. É verdade que as pessoas lá vão morrendo – quer se ajeitem quer não – e admito que a preocupação da morte criasse inquietações colectivas que, colectivamente, se procurassem resolver. Eu, que tenho pelo «comunitário» algum respeito, mantenho o «colectivo» à distância porque não tenho para ele nem paciência intelectual nem paciência tout court. Mais: acho que a passagem subtil e sinuosa que a «intelligentzia» do nosso tempo foi fazendo do comunitário para o colectivo constituiu uma das maiores fraudes intelectuais e éticas de que a minha geração foi vítima. Também posso acrescentar que se isso fosse uma forma de snobismo ela não me repugnaria – assumo o meu snobismo em áreas igualmente delicadas – mas não é: trata-se duma certa preocupação de não ser cúmplice naquela burla e de – à minha pequena medida – não querer que os meus netos me acusem de ter sido também o fautor dum processo mental e social que lhes entregou uma vida inteiramente degradada e lhes retirou a palavra felicidade de qualquer projecto individual ou social. Porque foi isso que fizeram os que, colectivamente, quiseram salvar o mundo.
É neste contexto – e no próprio interesse do mundo – que não estou interessado em salvá-lo, mas numa coisa bem mais simples: tenho uma vida que tem ficado aquém das possibilidades que me proporciona a minha imaginação, tenho uma morte à vista e vivo rodeado de seres humanos que não quero enganar, sobretudo enganando-me a mim próprio.
É este problema prático e rigorosamente pessoal que, no meu caso, me leva a bater, discretamente, à porta do misterioso.
(…)

(excerto de Peregrinação Interior ou Quadros da vida quotidiana numa sociedade em vias de desenvolvimento / VOL. II O anjo da Esperança ou Reflexões sobre algumas evidências do mundo e alguns esconderijos da alma, edições Uranus, 1982)