D. H. LAWRENCE
BOMBARDEAMENTO
A cidade abriu-se para o sol.
Como um lírio aberto, vermelho de mil pétalas
Ela revela-se, surge incompleta.
Um céu ardente vem pintar
Miríades de chaminés reluzentes no seu topo,
Enquanto ela, lenta, exala para o sol.
Criaturas apressadas correm
Pelo labirinto da sinistra flor.
De que é que fogem?
Uma ave negra cai do sol.
Curva-se de repente para o coração da enorme
Flor: o dia começou.
(tradução de Maria de Lourdes Guimarães, in Os Animais Evangélicos e outros poemas, Relógio d’Água editores, 1994)
10.1.09
9.1.09
HERBERTO HELDER
A teoria era esta: arrasar tudo — mas alguém pegou
na máquina de filmar e pôs em gravitação uma cabeça recolhendo-a
de um lado e descrevendo-a de outro lado num sulco
vibrante «parecia um meteoro»
como se fosse muito simples e então a cabeça desaparecia «a lua»
a ferver a grande velocidade pelo céu dentro
«um buraco»
via-se apenas a intensidade «estávamos com medo pois aquilo
assemelhava-se a uma revelação» e foi quando ele apanhou a cabeça
outra vez
e era agora uma cabeça furiosa
«cheia de peso» dizia-se «a luz agarra qualquer coisa»
oh sim: «com toda a violência»
pensai num bocado de carne despedaçado entre as mandíbulas
de um tigre: e depois deixou cair esse rosto sustentado atrás
pela bela caixa craniana com aquele rastro de cometa
«que é isto?» perguntou-se — e pusemo-nos todos a pensar bastante
«havia ali um senso arcaico da paixão»
talvez uma coisa tão remota e bárbara como: o fausto:
o pavor:
a caça: «é um movimento uma forma» disse ele
«é preciso voltar ao princípio»
e então começámos a usar os olhos com a ferocidade das objectivas
sem truques capturando tudo selvaticamente
e havia por vezes a vertente das espáduas desalojadas
um caudal sumptuoso
cortado «era tão estranho!» pela ligeireza dos dedos abertos
delicado pentagrama a duas alturas
«uma estrela refractada» para falar do que se viu
na projecção do filme e então podia-se adiar tudo menos aquela ideia
de que «não digo beleza» de que uma força
impelia tudo e a rapidez criava formas
linhas de translação feixes
de desenvolvimento ao longo das paisagens redondas como
abismos
recorria-se ainda a imagens para devolver essa cabeça
ao fulgor da sua precipitação contra os olhos
a queda «como oxigénio a arder» e a fuga
e a correria em que voltava para subir e rodar
de um modo que dizíamos: «indomavelmente»
porque vistas assim as coisas eram de uma fatalidade total
e a irrevogável maneira que tinham de ser livres
soltas
impunes
— na sua firmeza: «inocentes» — isso fazia medo
e havia em nós «um estilo de ver» que nos arrastava
implacavelmente para a loucura e a alegria
«porque era preciso destruir tudo» sim «de extremo a extremo»
para encontrar «o centro» onde o calcanhar gira
e roda o corpo todo
o sítio talvez onde se formam as massas dos espelhos
de que saltam fortemente «os astros os rostos»
e não haver «exemplo» mas apenas uma forma rudimentar
desfechada
contra tudo aqui escavando achado o veio
a limpidez primeiramente: aquilo: a cabeça móvel apanhada
(de Exemplos, in A Faca não Corta o Fogo – súmula & inédita, Assírio & Alvim, 2008 – grãos de pólen)
A teoria era esta: arrasar tudo — mas alguém pegou
na máquina de filmar e pôs em gravitação uma cabeça recolhendo-a
de um lado e descrevendo-a de outro lado num sulco
vibrante «parecia um meteoro»
como se fosse muito simples e então a cabeça desaparecia «a lua»
a ferver a grande velocidade pelo céu dentro
«um buraco»
via-se apenas a intensidade «estávamos com medo pois aquilo
assemelhava-se a uma revelação» e foi quando ele apanhou a cabeça
outra vez
e era agora uma cabeça furiosa
«cheia de peso» dizia-se «a luz agarra qualquer coisa»
oh sim: «com toda a violência»
pensai num bocado de carne despedaçado entre as mandíbulas
de um tigre: e depois deixou cair esse rosto sustentado atrás
pela bela caixa craniana com aquele rastro de cometa
«que é isto?» perguntou-se — e pusemo-nos todos a pensar bastante
«havia ali um senso arcaico da paixão»
talvez uma coisa tão remota e bárbara como: o fausto:
o pavor:
a caça: «é um movimento uma forma» disse ele
«é preciso voltar ao princípio»
e então começámos a usar os olhos com a ferocidade das objectivas
sem truques capturando tudo selvaticamente
e havia por vezes a vertente das espáduas desalojadas
um caudal sumptuoso
cortado «era tão estranho!» pela ligeireza dos dedos abertos
delicado pentagrama a duas alturas
«uma estrela refractada» para falar do que se viu
na projecção do filme e então podia-se adiar tudo menos aquela ideia
de que «não digo beleza» de que uma força
impelia tudo e a rapidez criava formas
linhas de translação feixes
de desenvolvimento ao longo das paisagens redondas como
abismos
recorria-se ainda a imagens para devolver essa cabeça
ao fulgor da sua precipitação contra os olhos
a queda «como oxigénio a arder» e a fuga
e a correria em que voltava para subir e rodar
de um modo que dizíamos: «indomavelmente»
porque vistas assim as coisas eram de uma fatalidade total
e a irrevogável maneira que tinham de ser livres
soltas
impunes
— na sua firmeza: «inocentes» — isso fazia medo
e havia em nós «um estilo de ver» que nos arrastava
implacavelmente para a loucura e a alegria
«porque era preciso destruir tudo» sim «de extremo a extremo»
para encontrar «o centro» onde o calcanhar gira
e roda o corpo todo
o sítio talvez onde se formam as massas dos espelhos
de que saltam fortemente «os astros os rostos»
e não haver «exemplo» mas apenas uma forma rudimentar
desfechada
contra tudo aqui escavando achado o veio
a limpidez primeiramente: aquilo: a cabeça móvel apanhada
(de Exemplos, in A Faca não Corta o Fogo – súmula & inédita, Assírio & Alvim, 2008 – grãos de pólen)
7.1.09
[60 anos]
HELDER MOURA PEREIRA
O chefe do bando desviava-se um pouco, quase
tocava as folhas, de zinco, duas telhas partidas,
a chaminé disfarçada de negro. O que se vê
da minha janela virada a oeste demora o tempo
entre as passagens da casa, vejo metade do rio,
metade do jardim, a rua toda, uma árvore a morrer
cada mês que passa. Este acto de estar tão parado
traz sombra de hesitação e temor, fecho os olhos,
heróis da infância recuperam a memória, roseiras
tiradas aos campos ficam em arco com o arame
preso, o mar tão longe da cidade grande, conchas
numa gaveta, o Almanaque aberto a meio com uma fita
encarnada. O que se vê da minha janela é mais
para dentro de mim, vou saber o que arde
nesta inquietude, vou semear paciências, rainhas
dos prados.
(de À Luz do Mistério, 1983)
Ipsis Verbis
Coisas, pequenas coisas, reunidas em sermões
para a morte, porque fugis de ouvir
os meus lamentos, imploro de noite
e não me atendeis, eu porém sou um verme
e não um homem, a abjecção da plebe,
ajudai-me que não há quem se aproxime.
O meu coração é cera que se derrete
dentro das minhas entranhas. Os meus ossos,
posso contá-los e no fim, alto e bom
som, não faltando nenhum, estremecerei
o mundo gritando Vivam para sempre,
para todo o sempre, os vossos corações.
(de Um Raio de Sol, Assírio & Alvim, 2000)
SOMBRA
Não posso falar dos meus começos,
porque não me lembro deles, mas posso
imaginá-los, porque é a única maneira
de invocar uma verdade que me escapa.
Isto sei: o pensamento vago de uma sombra
atravessou todo o corredor de melancolia.
Parti-me a rir, nunca o drama individual
conseguira mostrar em palavras tamanho
erro descritivo, de cinco em cinco anos,
coladas na parede, fotografias de tamanhos
variados, nem os dentes, nem o cabelo,
a expressão ou o género de roupa, nada
mostra alguma coisa do retrato de hoje.
Ou seja, a pessoa não existiu, foi
existindo, e em cada existência renasceu,
estupidamente renasceu, e para não ser
senão o pensamento vago de uma sombra.
(daqui)
HELDER MOURA PEREIRA
O chefe do bando desviava-se um pouco, quase
tocava as folhas, de zinco, duas telhas partidas,
a chaminé disfarçada de negro. O que se vê
da minha janela virada a oeste demora o tempo
entre as passagens da casa, vejo metade do rio,
metade do jardim, a rua toda, uma árvore a morrer
cada mês que passa. Este acto de estar tão parado
traz sombra de hesitação e temor, fecho os olhos,
heróis da infância recuperam a memória, roseiras
tiradas aos campos ficam em arco com o arame
preso, o mar tão longe da cidade grande, conchas
numa gaveta, o Almanaque aberto a meio com uma fita
encarnada. O que se vê da minha janela é mais
para dentro de mim, vou saber o que arde
nesta inquietude, vou semear paciências, rainhas
dos prados.
(de À Luz do Mistério, 1983)
Ipsis Verbis
Coisas, pequenas coisas, reunidas em sermões
para a morte, porque fugis de ouvir
os meus lamentos, imploro de noite
e não me atendeis, eu porém sou um verme
e não um homem, a abjecção da plebe,
ajudai-me que não há quem se aproxime.
O meu coração é cera que se derrete
dentro das minhas entranhas. Os meus ossos,
posso contá-los e no fim, alto e bom
som, não faltando nenhum, estremecerei
o mundo gritando Vivam para sempre,
para todo o sempre, os vossos corações.
(de Um Raio de Sol, Assírio & Alvim, 2000)
SOMBRA
Não posso falar dos meus começos,
porque não me lembro deles, mas posso
imaginá-los, porque é a única maneira
de invocar uma verdade que me escapa.
Isto sei: o pensamento vago de uma sombra
atravessou todo o corredor de melancolia.
Parti-me a rir, nunca o drama individual
conseguira mostrar em palavras tamanho
erro descritivo, de cinco em cinco anos,
coladas na parede, fotografias de tamanhos
variados, nem os dentes, nem o cabelo,
a expressão ou o género de roupa, nada
mostra alguma coisa do retrato de hoje.
Ou seja, a pessoa não existiu, foi
existindo, e em cada existência renasceu,
estupidamente renasceu, e para não ser
senão o pensamento vago de uma sombra.
(daqui)
5.1.09
[em face dos últimos acontecimentos]

ARNALDO SARAIVA
(excerto de) O ANÚNCIO
(1976)
(in Literatura Marginal izada – novos ensaios, edições Árvore, 1980)
[a imagem acima (clicar para ver melhor), conforme indicação do Autor do texto, foi recolhida do Expresso de 16 de Fevereiro de 1976]
ARNALDO SARAIVA
(excerto de) O ANÚNCIO
(…) O anúncio, que aparece geralmente sobre um suporte efémero, fala de produtos que o progresso pode desactualizar de um dia para o outro; além de que o capitalista, que é quem (mais) pode anunciar, se mostra com razão impaciente, porque o tempo joga contra ele (demasiado lentamente, é certo). Todo o anúncio parece dizer, se o não diz expressamente, ao seu leitor: «compre já»; «venha logo»; «não perca tempo».
Se trabalha sobre a actualidade, talvez seja incorrecto dizer simplesmente que a publicidade nos países capitalistas é uma arma da classe dominante, ou que só tem efeitos negativos, ou que só serve a ideologia burguesa. Porque ela é antes a ideologia de um presente ambíguo, a ideologia da ambiguidade. O anúncio tem provocado o progresso da leitura, da linguagem, da arte; o anúncio pode ser veículo de sugestões anti-burguesas; pode avançar, nem que seja pelo humor, hipóteses e soluções de progresso social. Surpreender-nos-á decerto a descoberta, nos interstícios do nosso texto, de uma problemática tão séria quanto esta:
— Os insectos assinaram «tréguas definitivas» ante o perigo comum do extermínio total; será que os dirigentes israelo-árabes (ou os homens em geral) preferem esta última solução?
— Os principais chefes de alguns países que se guerreiam não passam de …«Primeiros Insectos».
— Os «Primeiros Insectos» mosqueiros, quer dizer, os chefes de pequenos países assinam um tratado de paz e de defesa colectiva; mas de que lhes serve isso se uma super-potência vai exterminá-los?
Decerto que o nosso texto se coloca do lado da «super-potência» (insecticida), pois até a publicita; mas não se segue daí que o seu autor estaria disposto a propagandear uma super-potência — a sério — do mundo dos homens. Aliás, se esse autor se coloca do lado do poder, não há dúvida também de que pretende (talvez por manha, mas pouco importa) que toda a gente tenha o poder (o insecticida). E se os homens se parecem com os insectos, a inversa também é verdadeira: os insectos (- homens) são capazes de exterminar os homens (- insectos).
O curioso é que por vezes o leitor da publicidade também se parece com os insectos do nosso texto: é ameaçado se não se defende, e ameaçado se se defende. Perde se compra, e perde se não compra.
Mas assim é a vida, que exige atenção constante, e em que nenhuma atenção é suficiente para a preservar. Porque a vida, como a comunicação, como a publicidade, como os políticos do nosso texto, também tem um corpo híbrido: de insecto e de homem; de guerra e de paz.
Da guerra da necessidade e da sobrevivência; da paz (ou da alegria) do poético e do lúdico.
(1976)
(in Literatura Marginal izada – novos ensaios, edições Árvore, 1980)
[a imagem acima (clicar para ver melhor), conforme indicação do Autor do texto, foi recolhida do Expresso de 16 de Fevereiro de 1976]
[em face dos últimos acontecimentos]
SALIM AL-ZURKALI
PALESTINA
À tua lembrança como se aperta o teu coração!
Como ao som dessa lembrança a tua poesia flui!
Madrassas, hoje submetidas ao silêncio,
Têm a secreta eloquência que cobre de sangue as tribunas.
Elas voltam-se para o seu tempo passado
Em que o poder do seu ensino se espalhava pelo Mundo.
Tão pesada é a nostalgia que corrói o coração das pedras,
Tão triste que consome o espírito no coração do homem.
Madrassas, antigos paraísos,
De ribeiras fecundas e sonoras:
A vida fluía doce por entre as suas sombras,
Mil cores enfeitiçavam o nosso olhar na luz das palavras.
Árabes! Já caminhámos tempo de mais na obscuridade.
Vieram os invasores e devastaram a nossa terra!
Pacíficos, sim, nós éramos pacíficos.
Mas, agora, meus irmãos, despertemos
E esforcemo-nos por manter, com firmeza,
As nossas promessas na fé islâmica!
Contra o agressor,
Vomita, vulcão, vomita a tua cólera,
Porque, ó Palestina, pérola das nossas glórias,
Múltipla coroa em símbolo de dignidade,
O teu Evangelho anuncia a paz
E o teu Alcorão a justiça eterna.
(versão de M. A. R. B., in O Selo – Revista de Cultura Islâmica e Universal / nº 1, 1993)
SALIM AL-ZURKALI
PALESTINA
À tua lembrança como se aperta o teu coração!
Como ao som dessa lembrança a tua poesia flui!
Madrassas, hoje submetidas ao silêncio,
Têm a secreta eloquência que cobre de sangue as tribunas.
Elas voltam-se para o seu tempo passado
Em que o poder do seu ensino se espalhava pelo Mundo.
Tão pesada é a nostalgia que corrói o coração das pedras,
Tão triste que consome o espírito no coração do homem.
Madrassas, antigos paraísos,
De ribeiras fecundas e sonoras:
A vida fluía doce por entre as suas sombras,
Mil cores enfeitiçavam o nosso olhar na luz das palavras.
Árabes! Já caminhámos tempo de mais na obscuridade.
Vieram os invasores e devastaram a nossa terra!
Pacíficos, sim, nós éramos pacíficos.
Mas, agora, meus irmãos, despertemos
E esforcemo-nos por manter, com firmeza,
As nossas promessas na fé islâmica!
Contra o agressor,
Vomita, vulcão, vomita a tua cólera,
Porque, ó Palestina, pérola das nossas glórias,
Múltipla coroa em símbolo de dignidade,
O teu Evangelho anuncia a paz
E o teu Alcorão a justiça eterna.
(versão de M. A. R. B., in O Selo – Revista de Cultura Islâmica e Universal / nº 1, 1993)
[em face dos últimos acontecimentos]
YEHUDA AMICHAI
EU NÃO SEI SE A HISTÓRIA SE REPETE
Eu não sei se a história se repete
Mas eu sei que você - não.
Lembro-me que a cidade estava dividida
Não somente entre judeus e árabes,
Mas também entre você e eu,
Quando juntos lá estávamos.
Dos perigos, fizemo-nos um ventre,
Da guerra mortal, construímo-nos um lar,
Como o homem do norte distante
Que do gelo mortal,
Constrói para si uma casa
Protectora e aconchegante.
Reunificou-se a cidade,
Porém, juntos, lá não estávamos mais.
Sei eu, agora,
Que a história não se repete,
Assim como eu sempre soube que você - não.
(in ariel - Revista de Artes e Letras de Israel, 1983 - edição especial para língua portuguesa, recolhendo textos da edição normal - tradução de Clara Rosenberg)
YEHUDA AMICHAI
EU NÃO SEI SE A HISTÓRIA SE REPETE
Eu não sei se a história se repete
Mas eu sei que você - não.
Lembro-me que a cidade estava dividida
Não somente entre judeus e árabes,
Mas também entre você e eu,
Quando juntos lá estávamos.
Dos perigos, fizemo-nos um ventre,
Da guerra mortal, construímo-nos um lar,
Como o homem do norte distante
Que do gelo mortal,
Constrói para si uma casa
Protectora e aconchegante.
Reunificou-se a cidade,
Porém, juntos, lá não estávamos mais.
Sei eu, agora,
Que a história não se repete,
Assim como eu sempre soube que você - não.
(in ariel - Revista de Artes e Letras de Israel, 1983 - edição especial para língua portuguesa, recolhendo textos da edição normal - tradução de Clara Rosenberg)
4.1.09
MARIA DULCE GUERREIRO
13.
(de Assombrosamente os bichos atravessam as trevas, inédito - Menção Honrosa da 1ª edição do Prémio Manuel Alegre, promovido pela Câmara Municipal de Águeda)
13.
Os animais que descem a encosta alimentam-se com a coragem do olfacto. São as coisas vivas e convictas que aparecem diante dos olhos, repentinas e sem motivo, visões que se demoram nas pedras ásperas do tempo, no declive das gerações esfaimadas; são os bichos que assombrosamente atravessam as trevas sem nenhuma comoção, nenhum afecto elementar, as divinas coisas antes da origem do amor, no ponto do seu terrível e glorioso salto de fé.
Os animais da noite apelam à força bruta e urgente, inadiável, tão insistente, risível e quebradiça; atormentam como a lenta depuração do sangue na contingência argilosa da criação. Contemo-los para não morrermos no deslumbramento do luar, abominamo-los para que não se quebrem e desconcertem na irrelevância do seu poderoso instante. Nos primeiros dias do amor expande-se a rosa aérea e a respiração da ternura é a grande usurpadora. Assim é viver e caminhar na hora geral dos homens, desbravar a sarça, vibrar rapidamente nos múltiplos termos do coração que pulsa no tempo fabuloso das origens Todas as coisas magníficas se inclinam vertiginosamente para dentro, é preciso brutalmente acordar, brutalmente enlouquecer, é urgente a saliva na boca, a imensa alegria do fogo desenraizando da garganta um burburinho de palavras, é urgente a admissão dos acontecimentos excepcionais.
Com seus secretos instintos, sua pele incandescente, seu olho de natureza solar, sua confidência animal de corpo ígneo, liberta-se o conhecimento do amor no sentido extraordinário do seu fenómeno. Brota da terra primária feito em pedaços, numa festa de coisas gloriosas que parecem pertencer à duração; como água que explode da névoa vem o conhecimento do amor desassossegar os bichos em seu admirável balbucio, porque há essa necessidade tão grave quanto magnífica de se conhecer todas as coisas.
(de Assombrosamente os bichos atravessam as trevas, inédito - Menção Honrosa da 1ª edição do Prémio Manuel Alegre, promovido pela Câmara Municipal de Águeda)
3.1.09
VASCO MIRANDA
POEMAS EM PROSA
PRIMEIRO POEMA
SEGUNDO POEMA
TERCEIRO POEMA
QUARTO POEMA
QUINTO POEMA
SEXTO POEMA
(de Alfa e Ómega, 1951)
POEMAS EM PROSA
PRIMEIRO POEMA
Hoje pensei dois versos com a mesma naturalidade com que um botão se abre em flor. Se amanhã pensar outros dois igualmente intensivos e desigualmente naturais, poderei enfim convencer-me de que estou metido numa fogueira que me põe ao rubro e não consome.
SEGUNDO POEMA
Meteu o punhal dentro do bolso e saiu para a noite deserta. Deserta e escura. Seu desejo assassino era somente apunhalar as trevas e riscá-las de luz.
TERCEIRO POEMA
Quando as balas rasgaram a carne em estilhaços, o monstro ficou ali, na noite escura, para pasto dos corvos. Mas quando, ao acordar da manhã, lhe arrancaram a capa manchada de sangue e uma estrela riscou no azul a sentença decisiva, caíram fulminados pelo ódio do desespero ao ódio cego. Tinham morto o Poeta.
QUARTO POEMA
Nos bairros destruídos, nas casas pilhadas, nas moradias de lata, nos reféns amordaçados, nos presidiários humilhados, nas mulheres vendidas, em tudo ponho a minha assinatura. Acrescento-a simplesmente da palavra - perdão.
QUINTO POEMA
Avançam de todos os lados como para nos esmagar. Corcéis de fogo! Galope audaz! Marcha violenta na manhã carregada de sombras. Vozearia e fumo. Canções e trovão. A vida já não é recusa. O problema não é o da quadratura do círculo. O sol faz um desvio de graus. Só eu tenho a chave desta explosão que anda na boca de toda a gente. Porquê, então, voltar tragicamente as costas?...
SEXTO POEMA
Aceito a vida com a mesma força com que um crente tem fé. E porque a fonte é pura não careço de reacção. Nas minhas águas lavam-se os frutos. Posso mordê-los e dar a comer... Ah, que prazer sentir-me na terra como uma cerejeira que tem os braços erguidos para o céu e as cerejas a oferecer-se, pendentes, ao primeiro caminheiro errante!...
Isto, sim, é Alegria e estar Presente.
(de Alfa e Ómega, 1951)
2.1.09
1.1.09
ANTÓNIO LEITÃO
pomba
Aguardo uma pomba pequena
que chegue manhã com o sol,
que venha beijar-me este olhar
pisado de espera e vigília:
a pomba traz lume nas asas
e o céu fica roto de paz;
sustêm-se as coisas no assombro
da rota da pomba pequena!
Poema que eu vivo na alma
corado de ser esta pomba
pequena, de lume nas asas,
que chega manhã com o sol!
(de Chuva-Cântico-Esperança, edição do Autor, 1965)
pomba
Aguardo uma pomba pequena
que chegue manhã com o sol,
que venha beijar-me este olhar
pisado de espera e vigília:
a pomba traz lume nas asas
e o céu fica roto de paz;
sustêm-se as coisas no assombro
da rota da pomba pequena!
Poema que eu vivo na alma
corado de ser esta pomba
pequena, de lume nas asas,
que chega manhã com o sol!
(de Chuva-Cântico-Esperança, edição do Autor, 1965)
30.12.08
RUI TAVARES
(...) Descobrem que já eram amigos antes de se conhecerem. (...)
(in Olímpio, Diatribe, 2008)
(...) Descobrem que já eram amigos antes de se conhecerem. (...)
(in Olímpio, Diatribe, 2008)
27.12.08
ANA HATHERLY
HISTÓRIA DA MENINA LOUCA
Procuraram toda a casa, toda a terra,
Ninguém a achava.
Ela estava no telhado atrás da chaminé,
Olhava as estrelas e cantava.
Estava tão feliz e sossegada!
Olhava as estrelas e cantava.
Meu Deus, está louca!
Vamos levá-la.
Estava tão feliz!
Olhava as estrelas e cantava...
Dai-me, Senhor, um limite para a ambição,
Que a desmedida é grande impiedade!
Não se saber aonde se acaba
E até onde podemos nós sonhar...
Que, mesmo no sonho,
Eu quero me encontrar.
Se assim não fora,
Não poderia
Crer e amar.
A minha vida é poética:
Paira entre a vaga mentira e a realidade.
O amor me acontece
Como as folhas às árvores,
E tão singularmente,
Que já nem sei se é natural à árvore ter folhas
Ou estar nua...
(de Um Ritmo Perdido, edição da Autora, 1958)
O SEXTO SENTIDO
Estamos aqui
Em estado de liberdade
Condicionada pela enorme filáucia do próximo
Que um poeta desconhecido confirmou
Quando disse:
O sexo existe
Vem da palavra six
Igual a sexto sentido
Que é feminino
E acrescentou:
A maçã
É para ser comida
(de A Neo-Penélope, &etc, 2007)
HISTÓRIA DA MENINA LOUCA
Procuraram toda a casa, toda a terra,
Ninguém a achava.
Ela estava no telhado atrás da chaminé,
Olhava as estrelas e cantava.
Estava tão feliz e sossegada!
Olhava as estrelas e cantava.
Meu Deus, está louca!
Vamos levá-la.
Estava tão feliz!
Olhava as estrelas e cantava...
***
Dai-me, Senhor, um limite para a ambição,
Que a desmedida é grande impiedade!
Não se saber aonde se acaba
E até onde podemos nós sonhar...
Que, mesmo no sonho,
Eu quero me encontrar.
Se assim não fora,
Não poderia
Crer e amar.
***
A minha vida é poética:
Paira entre a vaga mentira e a realidade.
O amor me acontece
Como as folhas às árvores,
E tão singularmente,
Que já nem sei se é natural à árvore ter folhas
Ou estar nua...
(de Um Ritmo Perdido, edição da Autora, 1958)
O SEXTO SENTIDO
Estamos aqui
Em estado de liberdade
Condicionada pela enorme filáucia do próximo
Que um poeta desconhecido confirmou
Quando disse:
O sexo existe
Vem da palavra six
Igual a sexto sentido
Que é feminino
E acrescentou:
A maçã
É para ser comida
(de A Neo-Penélope, &etc, 2007)
[especialmente a pensar neste blogue]
GEORGE STEINER
(…)
(excerto de A Ideia de Europa, tradução de Maria de Fátima St. Aubyn, Gradiva, 2005)
GEORGE STEINER
(…)
A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. Não há cafés antigos ou definidores em Moscovo, que é já um subúrbio da Ásia. Poucos em Inglaterra, após um breve período em que estiveram na moda, no século XVIII. Nenhuns na América do Norte, para lá do posto avançado galicano de Nova Orleães. Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da «ideia de Europa».
O café é um local de entrevistas e conspirações, de debates intelectuais e mexericos, para o flâneur e o poeta ou metafísico debruçado sobre o bloco de apontamentos. Aberto a todos, é todavia um clube, uma franco-maçonaria de reconhecimento político ou artístico-literário e presença programática. Uma chávena de café, um copo de vinho, um chá com rum assegura um local onde trabalhar, sonhar, jogar xadrez ou simplesmente permanecer aquecido durante todo o dia. É o clube dos espirituosos e a posterestante dos sem-abrigo. Na Milão de Stendhal, na Veneza de Casanova, na Paris de Baudelaire, o café albergava o que existia de oposição política, de liberalismo clandestino. Três cafés principais da Viena imperial e entre as guerras forneceram a agora, o locus da eloquência e da rivalidade, a escolas adversárias de estética e economia política, de psicanálise e filosofia. Quem desejasse conhecer Freud ou Karl Kraus, Musil ou Carnap, sabia precisamente em que café procurar, a que Stammtisch tomar lugar. Danton e Robespierre encontraram-se uma última vez no Procope. Quando as luzes se apagaram na Europa, em Agosto de 1914, Jaurès foi assassinado num café. Num café de Genebra, Lenine escreveu o seu tratado sobre empiriocriticismo e jogou xadrez com Trotsky.
O café é um local de entrevistas e conspirações, de debates intelectuais e mexericos, para o flâneur e o poeta ou metafísico debruçado sobre o bloco de apontamentos. Aberto a todos, é todavia um clube, uma franco-maçonaria de reconhecimento político ou artístico-literário e presença programática. Uma chávena de café, um copo de vinho, um chá com rum assegura um local onde trabalhar, sonhar, jogar xadrez ou simplesmente permanecer aquecido durante todo o dia. É o clube dos espirituosos e a posterestante dos sem-abrigo. Na Milão de Stendhal, na Veneza de Casanova, na Paris de Baudelaire, o café albergava o que existia de oposição política, de liberalismo clandestino. Três cafés principais da Viena imperial e entre as guerras forneceram a agora, o locus da eloquência e da rivalidade, a escolas adversárias de estética e economia política, de psicanálise e filosofia. Quem desejasse conhecer Freud ou Karl Kraus, Musil ou Carnap, sabia precisamente em que café procurar, a que Stammtisch tomar lugar. Danton e Robespierre encontraram-se uma última vez no Procope. Quando as luzes se apagaram na Europa, em Agosto de 1914, Jaurès foi assassinado num café. Num café de Genebra, Lenine escreveu o seu tratado sobre empiriocriticismo e jogou xadrez com Trotsky.
Note-se as diferenças ontológicas. Um pub inglês e um bar irlandês têm a sua própria aura e mitologias. O que seria da literatura irlandesa sem os bares de Dublin? Onde, a não existir o Museum Tavern, teria o Dr. Watson encontrado Sherlock Holmes? Mas estes estabelecimentos não são cafés. Não têm mesas de xadrez, não há jornais à disposição dos clientes, nos seus suportes próprios. Só muito recentemente o próprio café se tornou hábito público na Grã-Bretanha, e mantém o seu halo italiano. O bar americano desempenha um papel vital na literatura americana e em Eros, no carisma icónico de Scott Fitzgerald e Humphrey Bogart. A história do jazz é inseparável dele. Mas o bar americano é um santuário de luzes desmaiadas, muitas vezes de escuridão. Vibra com música, muitas vezes ensurdecedora. A sua sociologia e o seu tecido psicológico são permeados pela sexualidade, pela presença – desejada, sonhada ou real – de mulheres. Ninguém redige tomos fenomenológicos à mesa de um bar americano (cf. Sartre). As bebidas têm de ser renovadas, se o cliente quiser continuar a ser desejado. Há «seguranças» que expulsam os indesejáveis. Cada uma destas características define uma ética radicalmente diferente daquela do Café Central ou do Deux Magots ou do Florian. «Haverá mitologia enquanto existirem pedintes», declarou Walter Benjamin, um connaisseur apaixonado e peregrino de cafés. Enquanto existirem cafetarias, a «ideia de Europa» terá conteúdo.
(…)(excerto de A Ideia de Europa, tradução de Maria de Fátima St. Aubyn, Gradiva, 2005)
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