ADÍLIA LOPES
Os peixes brancos
Um dos grandes temas da actualidade
é sem dúvida esta panela de esmalte
cheia de peixes brancos como panos
a cozer ao lume perguntar-me-ão
mas o que é que lhe aconteceu com os peixes brancos?
e eu perguntar-vos-ei
o que é acontecer?
esses peixes brancos aconteceram-me
eu mal olhei para eles
eles nem me viram
julgam que com as pessoas de quem
eu estou sempre a falar me aconteceu
muito mais do que com esses peixes brancos?
realmente aconteceu (os peixes brancos ainda não
me feriram) mas elas devem ter-se
apercebido tanto disso como esses peixes brancos
a minha vida está cheia de
importantíssimos peixes brancos
(não são para mim, são para o meu gato,)
Onde é que eu já a vi
Parece-me que é uma Ana Bela
que conheci há muito e muito tempo
não lhe vou falar lembro-me eu melhor
das outras pessoas do que elas de mim
e não tenho nada para lhe dizer
parece-me daquelas pessoas
que não vão a uma loja para comprar coisas
mas para serem compradas pelas coisas
que será feito da mãe da Ana Bela
estava convencida de que o mais importante
a fazer nesta vida era ser a esposa
de um sócio gerente da fábrica de
impermeáveis Parabellum inquiria
antes de convidar as meninas que a Ana Bela
conhecia o que é que os pais delas faziam
o teu aspira a sala? não faz nada?
o teu é escritor? mas isso dá alguma coisa?
o teu morreu? já não faz nada!
só o pai da Ana Bela fazia
alguma coisa que dava alguma coisa
a Ana Bela é que já deve ter descoberto
que os impermeáveis Parabellum
não fazem a felicidade de toda a gente
(de Um jogo bastante perigoso, edição da Autora, 1985 – um dos 500 exemplares deste livro, o primeiro da Autora, está a leilão num estabelecimento que ultrapassou há pouco a mítica barreira das 11,749 visitas)
30.1.09
29.1.09
EASTWOOD DA SILVA
(de 535 Máximas 535, &etc, 1999)
287. Salvo excepções, só se deve falar de coisas desagradáveis na perspectiva de as resolver, não como assunto de conversa.
(de 535 Máximas 535, &etc, 1999)
28.1.09
CARLOS MOTA DE OLIVEIRA
(excerto de) Estou Assim Uma Obra Feita
Também é verdade
que não meto
dente nenhum meu
em questões
de
Estado
ou em
assuntos
de Defesa
Nacional
e muito
menos
dou com
a língua
nos dentes.
Naturalmente,
olho
por olho
ou dente
por
dente
são
expressões
que
não uso.
E se
luto pouco
com unhas
e
dentes
é porque
já dei
muito ao dente
especialmente
chocolates
e carne picada.
Eu sei que há
dentes de siso
dentes do pente
dentes de velha
dentes de serra
dentes de leite
e até dentes
de
alguma engrenagem
mas o que agora
me interessa
é apenas contemplar
enxaguar
lavar
e escovar
quer
o marfim
quer
o esmalte
quer
o cimento
dos dois
coxos
caninos
que ainda
carrego na boca
e que têm
a
graça
ou
a loucura
de almoçar
comigo
todos
os dias
e até
ao
último ai
(de Este Outono Sobre os Moveis Doirados, edição do Autor, 2005)
(excerto de) Estou Assim Uma Obra Feita
Também é verdade
que não meto
dente nenhum meu
em questões
de
Estado
ou em
assuntos
de Defesa
Nacional
e muito
menos
dou com
a língua
nos dentes.
Naturalmente,
olho
por olho
ou dente
por
dente
são
expressões
que
não uso.
E se
luto pouco
com unhas
e
dentes
é porque
já dei
muito ao dente
especialmente
chocolates
e carne picada.
Eu sei que há
dentes de siso
dentes do pente
dentes de velha
dentes de serra
dentes de leite
e até dentes
de
alguma engrenagem
mas o que agora
me interessa
é apenas contemplar
enxaguar
lavar
e escovar
quer
o marfim
quer
o esmalte
quer
o cimento
dos dois
coxos
caninos
que ainda
carrego na boca
e que têm
a
graça
ou
a loucura
de almoçar
comigo
todos
os dias
e até
ao
último ai
(de Este Outono Sobre os Moveis Doirados, edição do Autor, 2005)
27.1.09
RAUL DE CARVALHO
ESOTERIA
Tenho mais que fazer que reler-me.
Reler-me custa. É pensar prisioneiro.
Nenhuma, cadeia nenhuma serve ao pensamento livre
E a cadeia que em nós pomos na cabeça
é a pior,
é a pior de todas.
Já alguém alguma vez viu no ar um pássaro voando com as suas próprias asas? não, isso é engano.
O pássaro que voa, voa ajudado pelo vento.
E faz de conta
que asas não tem.
O ar o ajuda? Talvez... O ar o ajuda…
Se o pássaro, porém, quiser voar
duas vezes:
não voa, não voa!, com as dele mesmo
asas.
Dele é e não é o voo que lhe pertence.
E irrepetível é o ar que o move.
Dentro de si circula.
(de Um e o Mesmo Livro, 1984)
ESOTERIA
Tenho mais que fazer que reler-me.
Reler-me custa. É pensar prisioneiro.
Nenhuma, cadeia nenhuma serve ao pensamento livre
E a cadeia que em nós pomos na cabeça
é a pior,
é a pior de todas.
Já alguém alguma vez viu no ar um pássaro voando com as suas próprias asas? não, isso é engano.
O pássaro que voa, voa ajudado pelo vento.
E faz de conta
que asas não tem.
O ar o ajuda? Talvez... O ar o ajuda…
Se o pássaro, porém, quiser voar
duas vezes:
não voa, não voa!, com as dele mesmo
asas.
Dele é e não é o voo que lhe pertence.
E irrepetível é o ar que o move.
Dentro de si circula.
(de Um e o Mesmo Livro, 1984)
Adenda ao post anterior:
A antologia
Os dias do Amor Um poema para cada dia do ano
leva a chancela da editora Ministério dos Livros
e será apresentada por Sérgio Godinho,
na próxima quinta-feira na FNAC do C. C. Colombo
Os dias do Amor Um poema para cada dia do ano
leva a chancela da editora Ministério dos Livros
e será apresentada por Sérgio Godinho,
na próxima quinta-feira na FNAC do C. C. Colombo
26.1.09

Já está nas livrarias a antologia
Os dias do Amor Um poema para cada dia do ano,
365 poemas de amor de 365 poetas de todos os tempos e de todos os lugares.
Posso testemunhar que, mais do que uma antologia de poemas de amor, esta é uma antologia que resulta do amor da Inês Ramos pela poesia.
O prefácio é do Henrique Manuel Bento Fialho, o que só por si é um bom sinal.
Como se não bastasse, na primeira apresentação deste livro haverá leitura de poemas por Maria do Céu Guerra, Álvaro Faria, Cristina Paiva, João Brás e Tiago Bensetil.
Será já no próximo dia 29 de Janeiro, na Fnac do Colombo, pelas 18h30m.
Estão agendadas outras apresentações nos seguintes dias e locais:
Porto: El Corte Inglés, 5 de Fevereiro, 19h30m
Viseu: Fnac Palácio do Gelo, 6 de Fevereiro, 21 horas
Faro: Livraria Pátio de Letras, 14 de Fevereiro, 17 horas
Évora: Bibliocafé Intensidez, 14 de Fevereiro, 21h30m
Os dias do Amor Um poema para cada dia do ano,
365 poemas de amor de 365 poetas de todos os tempos e de todos os lugares.
Posso testemunhar que, mais do que uma antologia de poemas de amor, esta é uma antologia que resulta do amor da Inês Ramos pela poesia.
O prefácio é do Henrique Manuel Bento Fialho, o que só por si é um bom sinal.
Como se não bastasse, na primeira apresentação deste livro haverá leitura de poemas por Maria do Céu Guerra, Álvaro Faria, Cristina Paiva, João Brás e Tiago Bensetil.
Será já no próximo dia 29 de Janeiro, na Fnac do Colombo, pelas 18h30m.
Estão agendadas outras apresentações nos seguintes dias e locais:
Porto: El Corte Inglés, 5 de Fevereiro, 19h30m
Viseu: Fnac Palácio do Gelo, 6 de Fevereiro, 21 horas
Faro: Livraria Pátio de Letras, 14 de Fevereiro, 17 horas
Évora: Bibliocafé Intensidez, 14 de Fevereiro, 21h30m
O texto
que valter hugo mãe leu no dia 16
na apresentação de
Para que ninguém sobreviva ao perdão,
de Pedro Gil-Pedro
(Cosmorama edições)
24.1.09
ÁLVARO LAPA
(de Raso como o chão, editorial Estampa, 1977)
A LIÇÃO DOS GRAFITTI
Varel caminha agora no campo ameno dos cactos, das trepadeiras, dos coelhos. Vai olhando em volta, satisfeito pela aragem que de momento se elevou. Afasta alguma sarça mais cerrada, busca o caminho por entre arbustos cada vez mais duros e a atenção eleva-se-lhe para o sol que oscila entre os ramos. O terreno desce agora para um ní¬tido vale onde avista pedras e um regato. Escorrega até ao fundo do pequeno abismo poeirento, e salta o regato para a outra margem. Sombrio, o lugar. Senta-se no chão e agarra o solo. A seu lado uma pedra grande, de sob cuja poeira irradia um nítido traçado intencional. Limpa e lê: O CAMPO É MUITO VASTO.
(de Raso como o chão, editorial Estampa, 1977)
23.1.09
ALEXANDRE ANDRADE
(excerto de Benoni, editorial Notícias, 1997)
Se alguém cometesse o erro flagrante de questionar Benoni sobre a natureza da consciência, olharia para um rosto em branco, de olhos perdidos, e não escutaria qualquer som. Se não se sentisse desencorajado pela vacuidade do olhar, pela palidez excessiva da pele, pela desconsoladora e insípida desordem das feições, poderia ser tentado a repetir a pergunta. Por exemplo: «Benoni, o que é para ti a consciência?» E desta vez obteria resposta. Oh sim, porque Benoni nunca negava resposta duas vezes à mesma pergunta. Em parte por causa de experiências pouco agradáveis guardadas na sua memória, em parte fruto da lógica binária que ele chegou a privilegiar. Não seria Benoni que deixaria uma pergunta duas vezes por responder, nunca Benoni. Simplesmente, seria difícil que a sua resposta pudesse ser satisfatória, mesmo para a mais aberta das mentalidades. Ainda que lhe fosse possível verbalizar, hipótese improvável, nunca as suas palavras formariam sentido. E mesmo que as suas palavras formassem sentido, hipótese improbabilíssima, nunca poderiam ser consideradas como resposta adequada a uma pergunta tão precisa. E mesmo que as suas palavras pudessem ser consideradas como resposta adequada, hipótese que ameaça os limites do absurdo, nunca exprimiriam aquilo que Benoni, de facto, sentia. E tudo isto por uma razão muito simples. Acontecia que a consciência era um dos problemas mais dramáticos que alguma vez lhe tinha sido posto. Sentir-se-ia feliz se o pudesse ignorar por completo. Benoni sentia um certo orgulho no equilíbrio, mais ou menos estável, que conseguira atingir entre o interior e o exterior, entre os ecos sinistros de galerias recônditas e a imensidão fria, brilhante, dispersa. Se se deixava cair na armadilha da consciência, sentia-se capaz de se fechar para sempre sobre si mesmo. «Estou consciente... de mim mesmo, por exemplo? Dos outros?», eis uma interrogação típica. Ignorar a consciência era, para ele, garantir a subsistência dos diversos compromissos que fora estabelecendo ao longo do tempo, compromissos que ele sabia não serem naturais, nem eternos, mas aos quais não ousava renunciar.
(excerto de Benoni, editorial Notícias, 1997)
22.1.09
HERBERTO HELDER
ou: o truque cardiovascular, ou:
a técnica da paixão, quero eu dizer: o estilo de
restituir ao seu conexo sobressalto, de sangue
autoral, os bruscos
poemas transracionais, ali, onde
o mundo reconhece o mundo,
sítio para sermos estudantes do sentido:
tão acima arrebatados pela
razão jubilatória:
porque
um poema é a melhor crítica a um poema,
John Cage,
se
se pensa na roupa: quando a talham, e a beleza atravessa o ar,
e alguém morre com ela, e o despem para o vestirem
com outra roupa, e entre
as duas cenas salta a luz naquele corpo que não morre nunca,
e é também um poema esta cena terceira,
digo:
porque se trata da luz a trabalhar e mais nada:
nasce de uma espécie de mecânica quântica, poema
nu ou vestido na escuridão, maravilha
irreal estroboscópica
da beleza como que
com
as janelas em volta: o videoclipe que transita,
o corpo que transita,
e o nome inominável, ele, o
écran plasma tv para o tremor dos fotões dentro e fora,
nem num sítio nem noutro,
cabeça, espáduas, membros, e o etc. geral conjunto, e as águas
destapadas que os abraçam,
poema contra poema, inóspita beleza! enquanto
o texto
se abrasa: outra
crítica, não a que não encarna, porque é milagre,
o âmago escrito, o minúsculo, o escondido,
mostra em grande plano a mão queimada se por exemplo
ao meio do clipe sombrio
é todo assim por baixo:
o fogo
(de A Faca não Corta o Fogo, in Ofício Cantante, Assírio & Alvim, 2009 – documenta poetica)
ou: o truque cardiovascular, ou:
a técnica da paixão, quero eu dizer: o estilo de
restituir ao seu conexo sobressalto, de sangue
autoral, os bruscos
poemas transracionais, ali, onde
o mundo reconhece o mundo,
sítio para sermos estudantes do sentido:
tão acima arrebatados pela
razão jubilatória:
porque
um poema é a melhor crítica a um poema,
John Cage,
se
se pensa na roupa: quando a talham, e a beleza atravessa o ar,
e alguém morre com ela, e o despem para o vestirem
com outra roupa, e entre
as duas cenas salta a luz naquele corpo que não morre nunca,
e é também um poema esta cena terceira,
digo:
porque se trata da luz a trabalhar e mais nada:
nasce de uma espécie de mecânica quântica, poema
nu ou vestido na escuridão, maravilha
irreal estroboscópica
da beleza como que
com
as janelas em volta: o videoclipe que transita,
o corpo que transita,
e o nome inominável, ele, o
écran plasma tv para o tremor dos fotões dentro e fora,
nem num sítio nem noutro,
cabeça, espáduas, membros, e o etc. geral conjunto, e as águas
destapadas que os abraçam,
poema contra poema, inóspita beleza! enquanto
o texto
se abrasa: outra
crítica, não a que não encarna, porque é milagre,
o âmago escrito, o minúsculo, o escondido,
mostra em grande plano a mão queimada se por exemplo
ao meio do clipe sombrio
é todo assim por baixo:
o fogo
(de A Faca não Corta o Fogo, in Ofício Cantante, Assírio & Alvim, 2009 – documenta poetica)
CARLO VITTORIO CATTANEO
Herberto
_______sobre uma pista de raízes queimadas nas cavernas
do metropolitano tenteaste os degraus
onde as grandes
flores da loucura emudeciam – a cada passo a casa
erguia-se tecendo tramas de corredores
no frio de quartos e janelas
escancaradas à negra fixidez dos sóis
entre os espelhos roídos pelos ventos de uma europa
que talvez fosse só juventude (o que mora
no alto é igual
ao que em baixo mora) – porém na confusa
medianidade da visão está o tributo
a cada conhecimento se se fecha o nó da dupla
solidão e cegos então cada coisa nos revela
o avesso como quando uma criança a ama
com o terror
que transforma a inocência em alegria
_______________________________quando o desconhecido
te invade os dias Herberto esquece o seu nome a comovida
obscuridade da mulher e os rostos cruzarão
sorrisos e ansiedade na rua de repente indecifráveis
porque o desconhecido é um muro onde não se filtra o amor
nem a ferocidade dos gestos quotidianos (como
um círculo de beleza em expansão uma luz que plasma
desertos onde pousa) e é festa de espinhos
um incêndio sacral assinalando a tua viagem com as cifras
menstruais já fim de uma infância perseguida
pelas visões – quem parte
deixa o corpo e entreabre a porta sobre as paisagens de sombra
até que se encante no ritmo a loucura encontrando
voz em cada meandro das fontes no meio das folhas
com olhos maternos de terra e os ossos se vistam
de um sólido nevoeiro porque a morte é uma ponte
batida pelos passos de quem ousou conhecer tensa para unir
a ferida de abismo que nos lacera por dentro (sem memória
de uma outra idade quando as mãos criavam palavras
para cada coisa desentranhada do silêncio de um tempo
ainda imóvel)
___________Herberto morremos e renascemos sós
não há companheiro que te possa vigiar o caminho
se o sono é um emaranhado de sarças pedras e vozes
enganadoras nem a mulher saberá decifrar os triunfos
da derrota – o viajante
estrangeiro voltará por entre os nomes esvaziados de cada vida
terá sílabas acesas por uma pasmada ternura
mas ninguém o escuta (o medo fecha
ao imprevisto as fendas mais secretas) e então surge
dura de ansioso amor a nova solidão e ao alto
dentro da casa irrompe como um vento a poesia
Roma, 1981
(de Três Solidões, versão portuguesa de “ilustres amigos” sobre uma tradução literal do Autor, Contexto, editora, 1982 – Cábulas de Navegação)
Herberto
_______sobre uma pista de raízes queimadas nas cavernas
do metropolitano tenteaste os degraus
onde as grandes
flores da loucura emudeciam – a cada passo a casa
erguia-se tecendo tramas de corredores
no frio de quartos e janelas
escancaradas à negra fixidez dos sóis
entre os espelhos roídos pelos ventos de uma europa
que talvez fosse só juventude (o que mora
no alto é igual
ao que em baixo mora) – porém na confusa
medianidade da visão está o tributo
a cada conhecimento se se fecha o nó da dupla
solidão e cegos então cada coisa nos revela
o avesso como quando uma criança a ama
com o terror
que transforma a inocência em alegria
_______________________________quando o desconhecido
te invade os dias Herberto esquece o seu nome a comovida
obscuridade da mulher e os rostos cruzarão
sorrisos e ansiedade na rua de repente indecifráveis
porque o desconhecido é um muro onde não se filtra o amor
nem a ferocidade dos gestos quotidianos (como
um círculo de beleza em expansão uma luz que plasma
desertos onde pousa) e é festa de espinhos
um incêndio sacral assinalando a tua viagem com as cifras
menstruais já fim de uma infância perseguida
pelas visões – quem parte
deixa o corpo e entreabre a porta sobre as paisagens de sombra
até que se encante no ritmo a loucura encontrando
voz em cada meandro das fontes no meio das folhas
com olhos maternos de terra e os ossos se vistam
de um sólido nevoeiro porque a morte é uma ponte
batida pelos passos de quem ousou conhecer tensa para unir
a ferida de abismo que nos lacera por dentro (sem memória
de uma outra idade quando as mãos criavam palavras
para cada coisa desentranhada do silêncio de um tempo
ainda imóvel)
___________Herberto morremos e renascemos sós
não há companheiro que te possa vigiar o caminho
se o sono é um emaranhado de sarças pedras e vozes
enganadoras nem a mulher saberá decifrar os triunfos
da derrota – o viajante
estrangeiro voltará por entre os nomes esvaziados de cada vida
terá sílabas acesas por uma pasmada ternura
mas ninguém o escuta (o medo fecha
ao imprevisto as fendas mais secretas) e então surge
dura de ansioso amor a nova solidão e ao alto
dentro da casa irrompe como um vento a poesia
Roma, 1981
(de Três Solidões, versão portuguesa de “ilustres amigos” sobre uma tradução literal do Autor, Contexto, editora, 1982 – Cábulas de Navegação)
21.1.09
PAULO CONDESSA
sessão de poesia
(de bizz dizz, Mariposa Azual, 2000)
sessão de poesia
n 14101999
Eu sei lá o que é a poesia, dizia o poeta. Fazem-me com cada pergunta. Escrevam aí silêncio. Silêncio. Eu era eu e muitas pessoas ao mesmo tempo. Estava aqui onde estou e vocês aí onde estão. Agora estou a ver se o fígado responde à vossa pergunta. Claro que o silêncio escondeu a vossa pergunta. Mas sei que a fizeram. Não vos escondeu os olhos. Nem essas luzinhas que alguns têm à volta da cabeça. Que pergunta. Eu sei lá o que é a poesia. Ora apalpem o fígado. O fígado tem uma opinião particular da poesia, como devem calcular Há gente que pensa que o fígado é amarelo. Eu pensava. Mas é castanho ou vermelho depende da lanterna. Apalpem o fígado mas ninguém apalpou. É sempre assim na poesia. As pessoas não a levam a sério. Se não a levam a sério para que raio querem saber o que é? Para pôr no telejornal? Não brinquem comigo. Se estivessem aqui crianças a conversa era outra. Uma criança joga logo a mão ao fígado. Experimenta. Sem experimentar não há poesia. Ora calcem lá umas luvas. Ora tirem lá as luvas. Qual é a diferença? O fígado é uma espécie de filtro, com guichets e barreiras que sobem e descem e olhos a espreitar lá de dentro. Um poema que entre no fígado faz maravilhas. Claro nos intestinos. No coração. Mas agora estamos no fígado e além disso os poemas não vão a todo o lado. Ora apalpem o fígado. Se os dedos forem estetoscópios, em vez dos esteticoscópios que abundam, sentem logo as vibrações do poema a rearranjar as ligações da linfa. Não são as letras que entram nos tecidos, é só um tremido, uma insubstância linfática que mexe nas células parecem uma orquestra escangalhada pede sempre ajuda a um menino. Não chorem. Está ao vosso alcance. Ponham coisas de parte. Deixem-se de merdas. Furem o espelho com os olhos de manhã. Uma coisa vos garanto. Sem perguntar ao fígado nunca vão saber a opinião do fígado sobre a poesia. Fazem-me com cada pergunta. São do telejornal? Mas não se importavam de ser, pois não? Aah.
(de bizz dizz, Mariposa Azual, 2000)
20.1.09
JORGE GONZÁLEZ BASTIAS
PERTO DO MAR A MÚSICA É MAIS SÁBIA
Perto do mar a música é mais sábia:
humaniza o seu som,
E põe nas suas cadências um estranho
estremecimento do coração.
À sua modulação humana, junta
esse gemer, esse implorar
que vem do fundo dos séculos
para na areia cantar.
Perto do mar há ternuras novas
em sua plena virtude,
e é maravilha na maravilhosa
natureza em plenitude.
Com mais eternidade nos seus timbres
grande e humilde é simultaneamente.
À alma oferece o seu recolhimento
em milagroso germinar.
À alma oferece tudo o que é vida:
o devaneio, a dor,
e tudo se torna puro e luminoso
banhado em ritmo criador.
(tradução de José Agostinho Baptista, in O Mar na Poesia da América Latina, selecção dos textos de Isabel Aguiar Barcelos, Assírio & Alvim, 1999 – documenta poetica)
PERTO DO MAR A MÚSICA É MAIS SÁBIA
Perto do mar a música é mais sábia:
humaniza o seu som,
E põe nas suas cadências um estranho
estremecimento do coração.
À sua modulação humana, junta
esse gemer, esse implorar
que vem do fundo dos séculos
para na areia cantar.
Perto do mar há ternuras novas
em sua plena virtude,
e é maravilha na maravilhosa
natureza em plenitude.
Com mais eternidade nos seus timbres
grande e humilde é simultaneamente.
À alma oferece o seu recolhimento
em milagroso germinar.
À alma oferece tudo o que é vida:
o devaneio, a dor,
e tudo se torna puro e luminoso
banhado em ritmo criador.
(tradução de José Agostinho Baptista, in O Mar na Poesia da América Latina, selecção dos textos de Isabel Aguiar Barcelos, Assírio & Alvim, 1999 – documenta poetica)
19.1.09
C. S. LEWIS
(excerto de Dor, tradução de Carlos Grifo Babo, Grifo – editores e livreiros, 1999)
Porque dou eu guarida no meu espírito a tanto lixo e disparate? Estarei na esperança de que, se o que sinto se disfarçar de pensamento, sentirei menos? Não serão todas estas notas as contorções sem sentido de um homem que não quer aceitar o facto de que nada há a fazer quanto ao sofrimento, a não ser sofrê-lo? Que ainda julga haver alguma manigância (se ao menos ele a conseguisse descobrir) que faça a dor deixar de ser dor. Mas, na realidade, pouco importa que nos agarremos aos braços da cadeira do dentista ou que mantenhamos as mãos quietas no colo. A broca continua a brocar.
E a dor continua a assemelhar-se ao medo. Talvez, mais precisamente, à ansiedade. Ou à expectativa. Estar simplesmente na expectativa de que alguma coisa aconteça. E isso dá à vida um sentido permanentemente provisório. Não parece que valha a pena começar a fazer seja o que for. Não consigo sossegar. Bocejo, agito-me, fumo demais. Até isto acontecer, tinha sempre demasiado pouco tempo. Agora não há mais nada senão tempo. Tempo quase puro, um vazio consecutivo.
(excerto de Dor, tradução de Carlos Grifo Babo, Grifo – editores e livreiros, 1999)
18.1.09
HELDER MACEDO
LIMIAR
Levanto a voz para invadir a treva.
A vida fustigada enfrenta o brusco
e fértil precipício que a sustém.
A própria identidade se suspende
e tomba, informe,
no impossível excesso
do canto que a revela.
Nada redime o logro
se a vida é o limite de ser outrem.
Porém que a voz assuma
e recupere
na sempre mais amarga ferida
a escuridão que gera o próprio canto.
E impessoal sibile
o frio surto que define e oculta
sabida, a treva, a só real,
já falsa.
(de Vesperal, 1957)
LIMIAR
Levanto a voz para invadir a treva.
A vida fustigada enfrenta o brusco
e fértil precipício que a sustém.
A própria identidade se suspende
e tomba, informe,
no impossível excesso
do canto que a revela.
Nada redime o logro
se a vida é o limite de ser outrem.
Porém que a voz assuma
e recupere
na sempre mais amarga ferida
a escuridão que gera o próprio canto.
E impessoal sibile
o frio surto que define e oculta
sabida, a treva, a só real,
já falsa.
(de Vesperal, 1957)
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