7.2.09

Dom HÉLDER CÂMARA

Que toda palavra

nasça
da ação e da meditação.
Sem ação
ou tendência à ação
ela será apenas teoria
que se juntará
ao excesso de teoria
que está levando os jovens
ao desespero.
Se ela é apenas ação
sem meditação
ela acabará no ativismo
sem fundamento,
sem conteúdo,
sem força...
Presta honras ao Verbo eterno
servindo-te da palavra
de forma
a recriar o mundo.

(de O Deserto é Fértil, editora Civilização Brasileira, 1976)

6.2.09

MANUEL RESENDE

ENTRE O PAPEL E A PALAVRA


1.

Entre o papel e a palavra, o travo
Amargo a sílaba nos lábios.
Sou sábio e sei-o. Descasco
(Estanhos duros lavo)

O metal doméstico que amestro
...nestas páginas alinho
Trigo limpo, água brava
– Palavras que o papel lavra –.

Furto larvado. Fruto lavado
Sobe do dorso surdo dos escravos
E nestas palavras bem o sabe.
(........................... se abre).

Vou assim os tempos apalavrando:
Sei muito bem, mas traduzo mal.
(A fair field full of folk:
Un campo bello loco de pueblo).

2.

Dedicam-se
Ao comércio
À indústria
Ao tamanho da terra
Séculos de mãos levedaram a dura pedra
O metal ardiloso
A argila (o
grito indomado
dos povos e oprimidos).

3.

Já não vale a pena sorrir
com ou sem piedade nem torcer
a ginástica fatal dos corpos
(o amor a violência o ódio)

Que tempos estes Que mortos
Já em nós esperam Que
silencioso carregamento de fúria
(o amor a violência o ódio)

Assim vamos antes que
seja tarde ..................A-
mestramos os corpos os seus
..................... artefactos.
(Deixai-me contar com ódio)

(de Natureza morta com desodorizante, Gota de Água / Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1983 – Plural)

4.2.09

ALEXANDRE ANDRADE


(…) Estou imóvel há pelo menos uma hora, à procura do encadeamento, do ritmo regular que é sucedâneo do silêncio absoluto. Encontro padrões na escuridão, não seguem nenhuma coreografia, nenhum ciclo, ludibriam os meus olhos, até a minha percepção, que devia saber melhor, disfarçam-se de alusões ou mnemónicas e já mordem a cauda ao pânico. Ignorar os estímulos, o frio intenso, ser dono de alguma coisa, fazer frente a este tropel que não me aproxima do fim da noite, empina e revolteia, bate-se com a enxurrada, fechar os olhos, fechar os olhos. Evocando aquele tempo em que encarava a poesia como o mais irredutível dos refúgios, lembro um poema e declamo-o em sussurros curtos e sincopados, sílaba a sílaba, lutando contra a saliva e contra a relutância de toda a caixa vocal. O poema é este:
Contém-no o que não existe:
Resgata-se agora a filigrana estreita,
Separa-se, e é contra a luz
De um Sol enevoado
Que se aguarda um fluxo ascendente,
Camada por camada;
Vou-te oferecer a mão como se salva uma rola,
E à maneira de um ósculo
Unir interior e exterior;
Ser eu caudal e conduta,
Estuário tranquilo da única
Verdadeira silenciosa beatitude,
Como no barro molhado outrora
Se escreveu.
e passou já por não poucas depurações. O ponto de partida é uma ideia de S. Tomás de Aquino. Segundo a sua opinião, qualquer ser finito tenderia para a realização, ou actualização, das suas potencialidades; realização essa concomitante com a posse, com o alcance de uma felicidade (beatitudo) ou bem final, indissociável, do seu ponto de vista, da contemplação de Deus. Todo o poema se desenvolve segundo este pressuposto. O primeiro verso acaba sendo o mais ambíguo. A potência não existe por si só, assim como a substância não existe sem a forma. Abusando um pouco da linguagem, pode-se afirmar que só o que não existe pode conter a potência, pois o que existe representa concretização dessa mesma potência. Este verso não faz qualquer sentido isolado, e os dois pontos remetem para o corpo do poema. Não quis ter o aspecto de quem procura carambolas místicas a todo o custo; procurei sempre as metáforas mais inócuas, dentro dos limites da adequação. A filigrana não representa senão o objecto do acto de resgatar, perseguir a intenção latente, oculta pela não existência (pisamos terreno traiçoeiro), assim como o nevoeiro obnubila o Sol. O fluxo ascendente evoca desde já a presença divina, sendo dado adquirido que Deus se assume como acto puro. «Unir interior e exterior», eis o verso que apenas graças ao instinto tem sobrevivido aos crivos sucessivos. Sinto-o em harmonia com a indefinição conceptual inerente a «Ser eu caudal e conduta», segunda etapa da imposição do sujeito poético, após o súbito e decisivo «Vou-te oferecer» (apreciem o ímpeto do som constritivo labial). A beatitude, único verdadeiro objectivo, é atingida na ausência de som e de movimento; em comparação com a turbulência do rio que a precedeu, será semelhante a um oceano eternamente abençoado pela calmaria. Os dois últimos versos reflectem a contingência deste percurso, a sua inscrição na própria natureza humana. Como no barro molhado se escreveu, antes de secar, promovido a mandamento.
Está exposto na Tate Gallery, de Londres, o quadro que me alimentou o ânimo quando chegou o momento deste poema. Chama-se Beata Beatrix, e foi pintado, cerca de 1863, por Dante Gabriel Rossetti. (…)

(excerto de Benoni, editorial Notícias, 1997)



DANTE GABRIEL ROSSETTI


Beata Beatrix, 1863
óleo sobre tela
86,3x66 cm
Londres, Tate Gallery

3.2.09

MARINA TSVÉTAÍEVA

Nós – as crianças, somos os reis
do mundo das visões nocturnas.
Caem sobre nós as alongadas sombras
brilham as lanternas por detrás das janelas,
escurece o tecto do salão,
os espelhos absorvem o seu rasto…
Não há tempo a perder!
Alguém sai do seu canto.
Debruçamo-nos os dois por cima do piano negro
e o medo chega-se a nós,
embrulhados num xaile da mamã
nem respiramos, pálidos de terror.
Vamos lá ver o que se passa
por baixo da cortina das trevas inimigas.
Os rostos deles fundiram-se no escuro,
– de novo saímos vencedores!
Somos os elos de uma mágica cadeia
e no fragor da batalha jamais desfalecemos.
Aproxima-se o combate derradeiro,
e com ele há-de perecer o reino das trevas.
Os adultos inspiram-nos desprezo,
pela rotina adormecida dos seus dias…
Nós sabemos, sabemos muita coisa
do muito que eles não sabem.

(in E cantou como canta a tempestade, selecção de Inês de Medeiros, tradução de António Mega Ferreira, Assírio & Alvim, 2007 – Gato Maltês)

2.2.09

Nunca li nenhum livro de Agustina Bessa-Luís e só agora me dou conta do que ando a perder.
MANUEL GUSMÃO

«A PERFEIÇÃO DAS COISAS» –


O vento – finalmente no fogo do dia – o vento do mundo
neste lugar aberto
escreve a inclinação dos jovens álamos na última colina
contra o céu para sempre novo e antigo.
As mãos do vento escrevem em verso ramos e folhas, pontos e traços
a sombra da luz; encurvam para a esquerda e em cima
as hastes longas e breves: as vogais aéreas
da paisagem terrestre que teríamos esquecido.
É subitamente que o vês claramente visto
repetindo a origem do tempo:
é uma caligrafia de acaso.
Mas é uma caligrafia minuciosa nítida;
inquieta e exacta;
ofuscante como a incriada perfeição das coisas.

Numa outra folha ou margem ou luz ou lugar do mundo
és tu agora. Levantas o vestido leve; os teus dedos
enrodilham-no, subindo-o numa onda irrepetível e
contudo, repetida vezes sem conto.
As tuas mãos enquanto quase quase danças – embora
apenas andes sobre o imortal chão da casa –
sobem o pano
de algodão, apanham a bainha, colhem as asas do escasso
mar
que te cobria e
levam-nas até à linha irrevogável das ancas
como se fossem prender o vestido à levíssima ondulação
do mundo andante.

É como se uma onda no corpo abrisse lenta e fulminante
a incalculável praia ao esplendor em que cada coisa se diz
como se cantasse o nome do sem nome.

A curvatura daquelas hastes e a onda vertical que o teu gesto inventa
escrevem então a infindável passagem entre os separados mundos
e a isso só podemos chamar a alegria.

(de Teatros do Tempo (1994-2000), editorial Caminho, 2001)

30.1.09

ADÍLIA LOPES

Os peixes brancos


Um dos grandes temas da actualidade
é sem dúvida esta panela de esmalte
cheia de peixes brancos como panos
a cozer ao lume perguntar-me-ão
mas o que é que lhe aconteceu com os peixes brancos?
e eu perguntar-vos-ei
o que é acontecer?
esses peixes brancos aconteceram-me
eu mal olhei para eles
eles nem me viram
julgam que com as pessoas de quem
eu estou sempre a falar me aconteceu
muito mais do que com esses peixes brancos?
realmente aconteceu (os peixes brancos ainda não
me feriram) mas elas devem ter-se
apercebido tanto disso como esses peixes brancos
a minha vida está cheia de
importantíssimos peixes brancos
(não são para mim, são para o meu gato,)
Onde é que eu já a vi
Parece-me que é uma Ana Bela
que conheci há muito e muito tempo
não lhe vou falar lembro-me eu melhor
das outras pessoas do que elas de mim
e não tenho nada para lhe dizer
parece-me daquelas pessoas
que não vão a uma loja para comprar coisas
mas para serem compradas pelas coisas
que será feito da mãe da Ana Bela
estava convencida de que o mais importante
a fazer nesta vida era ser a esposa
de um sócio gerente da fábrica de
impermeáveis Parabellum inquiria
antes de convidar as meninas que a Ana Bela
conhecia o que é que os pais delas faziam
o teu aspira a sala? não faz nada?
o teu é escritor? mas isso dá alguma coisa?
o teu morreu? já não faz nada!
só o pai da Ana Bela fazia
alguma coisa que dava alguma coisa
a Ana Bela é que já deve ter descoberto
que os impermeáveis Parabellum
não fazem a felicidade de toda a gente

(de Um jogo bastante perigoso, edição da Autora, 1985 – um dos 500 exemplares deste livro, o primeiro da Autora, está a leilão num estabelecimento que ultrapassou há pouco a mítica barreira das 11,749 visitas)

29.1.09

EASTWOOD DA SILVA

287. Salvo excepções, só se deve falar de coisas desagradáveis na perspectiva de as resolver, não como assunto de conversa.

(de 535 Máximas 535, &etc, 1999)

28.1.09

CARLOS MOTA DE OLIVEIRA

(excerto de) Estou Assim Uma Obra Feita

Também é verdade
que não meto
dente nenhum meu

em questões
de
Estado

ou em
assuntos

de Defesa
Nacional

e muito
menos

dou com
a língua
nos dentes.

Naturalmente,
olho
por olho

ou dente
por
dente

são
expressões

que
não uso.

E se
luto pouco

com unhas
e
dentes

é porque
já dei
muito ao dente

especialmente
chocolates
e carne picada.

Eu sei que há
dentes de siso

dentes do pente
dentes de velha

dentes de serra
dentes de leite

e até dentes
de
alguma engrenagem

mas o que agora
me interessa
é apenas contemplar

enxaguar
lavar
e escovar

quer
o marfim

quer
o esmalte

quer
o cimento

dos dois
coxos
caninos

que ainda
carrego na boca

e que têm
a
graça

ou
a loucura

de almoçar
comigo

todos
os dias

e até
ao
último ai

(de Este Outono Sobre os Moveis Doirados, edição do Autor, 2005)

27.1.09

RAUL DE CARVALHO

ESOTERIA


Tenho mais que fazer que reler-me.
Reler-me custa. É pensar prisioneiro.
Nenhuma, cadeia nenhuma serve ao pensamento livre
E a cadeia que em nós pomos na cabeça
é a pior,
é a pior de todas.
Já alguém alguma vez viu no ar um pássaro voando com as suas próprias asas? não, isso é engano.
O pássaro que voa, voa ajudado pelo vento.
E faz de conta
que asas não tem.
O ar o ajuda? Talvez... O ar o ajuda…
Se o pássaro, porém, quiser voar
duas vezes:
não voa, não voa!, com as dele mesmo
asas.
Dele é e não é o voo que lhe pertence.
E irrepetível é o ar que o move.
Dentro de si circula.


(de Um e o Mesmo Livro, 1984)
Adenda ao post anterior:

A antologia
Os dias do Amor Um poema para cada dia do ano
leva a chancela da editora Ministério dos Livros
e será apresentada por Sérgio Godinho,
na próxima quinta-feira na FNAC do C. C. Colombo

26.1.09



Já está nas livrarias a antologia
Os dias do Amor Um poema para cada dia do ano,
365 poemas de amor de 365 poetas de todos os tempos e de todos os lugares.

Posso testemunhar que, mais do que uma antologia de poemas de amor, esta é uma antologia que resulta do amor da Inês Ramos pela poesia.
O prefácio é do Henrique Manuel Bento Fialho, o que só por si é um bom sinal.

Como se não bastasse, na primeira apresentação deste livro haverá leitura de poemas por Maria do Céu Guerra, Álvaro Faria, Cristina Paiva, João Brás e Tiago Bensetil.

Será já no próximo dia 29 de Janeiro, na Fnac do Colombo, pelas 18h30m.

Estão agendadas outras apresentações nos seguintes dias e locais:
Porto: El Corte Inglés, 5 de Fevereiro, 19h30m
Viseu: Fnac Palácio do Gelo, 6 de Fevereiro, 21 horas
Faro: Livraria Pátio de Letras, 14 de Fevereiro, 17 horas
Évora: Bibliocafé Intensidez, 14 de Fevereiro, 21h30m


O texto
que valter hugo mãe leu no dia 16
na apresentação de
Para que ninguém sobreviva ao perdão,
de Pedro Gil-Pedro
(Cosmorama edições)

24.1.09

ÁLVARO LAPA

A LIÇÃO DOS GRAFITTI

Varel caminha agora no campo ameno dos cactos, das trepadeiras, dos coelhos. Vai olhando em volta, satisfeito pela aragem que de momento se elevou. Afasta alguma sarça mais cerrada, busca o caminho por entre arbustos cada vez mais duros e a atenção eleva-se-lhe para o sol que oscila entre os ramos. O terreno desce agora para um ní¬tido vale onde avista pedras e um regato. Escorrega até ao fundo do pequeno abismo poeirento, e salta o regato para a outra margem. Sombrio, o lugar. Senta-se no chão e agarra o solo. A seu lado uma pedra grande, de sob cuja poeira irradia um nítido traçado intencional. Limpa e lê: O CAMPO É MUITO VASTO.

(de Raso como o chão, editorial Estampa, 1977)

23.1.09

ALEXANDRE ANDRADE

Se alguém cometesse o erro flagrante de questionar Benoni sobre a natureza da consciência, olharia para um rosto em branco, de olhos perdidos, e não escutaria qualquer som. Se não se sentisse desencorajado pela vacuidade do olhar, pela palidez excessiva da pele, pela desconsoladora e insípida desordem das feições, poderia ser tentado a repetir a pergunta. Por exemplo: «Benoni, o que é para ti a consciência?» E desta vez obteria resposta. Oh sim, porque Benoni nunca negava resposta duas vezes à mesma pergunta. Em parte por causa de experiências pouco agradáveis guardadas na sua memória, em parte fruto da lógica binária que ele chegou a privilegiar. Não seria Benoni que deixaria uma pergunta duas vezes por responder, nunca Benoni. Simplesmente, seria difícil que a sua resposta pudesse ser satisfatória, mesmo para a mais aberta das mentalidades. Ainda que lhe fosse possível verbalizar, hipótese improvável, nunca as suas palavras formariam sentido. E mesmo que as suas palavras formassem sentido, hipótese improbabilíssima, nunca poderiam ser consideradas como resposta adequada a uma pergunta tão precisa. E mesmo que as suas palavras pudessem ser consideradas como resposta adequada, hipótese que ameaça os limites do absurdo, nunca exprimiriam aquilo que Benoni, de facto, sentia. E tudo isto por uma razão muito simples. Acontecia que a consciência era um dos problemas mais dramáticos que alguma vez lhe tinha sido posto. Sentir-se-ia feliz se o pudesse ignorar por completo. Benoni sentia um certo orgulho no equilíbrio, mais ou menos estável, que conseguira atingir entre o interior e o exterior, entre os ecos sinistros de galerias recônditas e a imensidão fria, brilhante, dispersa. Se se deixava cair na armadilha da consciência, sentia-se capaz de se fechar para sempre sobre si mesmo. «Estou consciente... de mim mesmo, por exemplo? Dos outros?», eis uma interrogação típica. Ignorar a consciência era, para ele, garantir a subsistência dos diversos compromissos que fora estabelecendo ao longo do tempo, compromissos que ele sabia não serem naturais, nem eternos, mas aos quais não ousava renunciar.

(excerto de Benoni, editorial Notícias, 1997)