LEONARDO GANDOLFI
- QUEM SÃO ESTES? (excerto)
A casa está vazia não por mera ausência,
mas para o aprendizado da subtração.
E a chuva, porque cai desde o terceiro verso,
além de chuva é extensão desse elefante.
A casa está vazia para que se saiba
do desapego que há em insistir no mesmo.
Mesa e pausa. A chuva caindo talvez
e apenas como efeito de profundidade.
Depois um dos cachorros. Não, acho que só
seu deslocar-se repetido até a porta.
A metodologia seguida do gesto.
Alguns pássaros seguem para o noroeste.
Tudo começa no elefante. Lentamente
a bala dentro do tambor, as leis da física.
(in Antologia de Poesia Brasileira do Início do Terceiro Milénio, selecção e organização de Cláudio Daniel, Exodus, 2008)
17.2.09
16.2.09
IOSIF BRODSKII
TRANSATLÂNTICO
Os últimos vinte anos foram bons praticamente para toda a gente
menos para os mortos. Mas talvez também para eles.
Talvez o Todo-Poderoso-em-Pessoa se tenha tornado um tanto burguês
e use cartão de crédito. Pois doutra maneira a passagem do tempo
não faz sentido. Daí as recordações, as memórias,
os valores, as maneiras de sociedade. Esperamos não termos
gasto a mãe ou o pai ou ambos, ou uma mão cheia de amigos até ao
último, pelo facto de deixarem de nos povoar os sonhos. Os sonhos,
ao contrário da cidade, despovoam-se
à medida que envelhecemos. Por isso é que o eterno descanso
oblitera a análise. Os últimos vinte anos foram bons
praticamente para toda a gente e constituíram
a vida no outro mundo para os mortos. A qualidade dessa vida podia ser
questionada mas não a duração. Os mortos, supõe-se, não se
importariam de conseguir o estatuto de sem-abrigo e dormir em passagens
pedonais, ou de ficar a ver os submarinos grávidos regressarem
ao curral onde nasceram no fim duma viagem à volta do mundo
sem destruírem vida na terra, sem terem
sequer um pavilhão decente para içarem.
(de Paisagem com Inundação, tradução de Carlos Leite, edições Cotovia, 2001)
TRANSATLÂNTICO
Os últimos vinte anos foram bons praticamente para toda a gente
menos para os mortos. Mas talvez também para eles.
Talvez o Todo-Poderoso-em-Pessoa se tenha tornado um tanto burguês
e use cartão de crédito. Pois doutra maneira a passagem do tempo
não faz sentido. Daí as recordações, as memórias,
os valores, as maneiras de sociedade. Esperamos não termos
gasto a mãe ou o pai ou ambos, ou uma mão cheia de amigos até ao
último, pelo facto de deixarem de nos povoar os sonhos. Os sonhos,
ao contrário da cidade, despovoam-se
à medida que envelhecemos. Por isso é que o eterno descanso
oblitera a análise. Os últimos vinte anos foram bons
praticamente para toda a gente e constituíram
a vida no outro mundo para os mortos. A qualidade dessa vida podia ser
questionada mas não a duração. Os mortos, supõe-se, não se
importariam de conseguir o estatuto de sem-abrigo e dormir em passagens
pedonais, ou de ficar a ver os submarinos grávidos regressarem
ao curral onde nasceram no fim duma viagem à volta do mundo
sem destruírem vida na terra, sem terem
sequer um pavilhão decente para içarem.
1991
(de Paisagem com Inundação, tradução de Carlos Leite, edições Cotovia, 2001)
7.2.09
Dom HÉLDER CÂMARA
Que toda palavra
nasça
da ação e da meditação.
Sem ação
ou tendência à ação
ela será apenas teoria
que se juntará
ao excesso de teoria
que está levando os jovens
ao desespero.
Se ela é apenas ação
sem meditação
ela acabará no ativismo
sem fundamento,
sem conteúdo,
sem força...
Presta honras ao Verbo eterno
servindo-te da palavra
de forma
a recriar o mundo.
(de O Deserto é Fértil, editora Civilização Brasileira, 1976)
Que toda palavra
nasça
da ação e da meditação.
Sem ação
ou tendência à ação
ela será apenas teoria
que se juntará
ao excesso de teoria
que está levando os jovens
ao desespero.
Se ela é apenas ação
sem meditação
ela acabará no ativismo
sem fundamento,
sem conteúdo,
sem força...
Presta honras ao Verbo eterno
servindo-te da palavra
de forma
a recriar o mundo.
(de O Deserto é Fértil, editora Civilização Brasileira, 1976)
6.2.09
MANUEL RESENDE
ENTRE O PAPEL E A PALAVRA
1.
Entre o papel e a palavra, o travo
Amargo a sílaba nos lábios.
Sou sábio e sei-o. Descasco
(Estanhos duros lavo)
O metal doméstico que amestro
...nestas páginas alinho
Trigo limpo, água brava
– Palavras que o papel lavra –.
Furto larvado. Fruto lavado
Sobe do dorso surdo dos escravos
E nestas palavras bem o sabe.
(........................... se abre).
Vou assim os tempos apalavrando:
Sei muito bem, mas traduzo mal.
(A fair field full of folk:
Un campo bello loco de pueblo).
2.
Dedicam-se
Ao comércio
À indústria
Ao tamanho da terra
Séculos de mãos levedaram a dura pedra
O metal ardiloso
A argila (o
grito indomado
dos povos e oprimidos).
3.
Já não vale a pena sorrir
com ou sem piedade nem torcer
a ginástica fatal dos corpos
(o amor a violência o ódio)
Que tempos estes Que mortos
Já em nós esperam Que
silencioso carregamento de fúria
(o amor a violência o ódio)
Assim vamos antes que
seja tarde ..................A-
mestramos os corpos os seus
..................... artefactos.
(Deixai-me contar com ódio)
(de Natureza morta com desodorizante, Gota de Água / Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1983 – Plural)
ENTRE O PAPEL E A PALAVRA
1.
Entre o papel e a palavra, o travo
Amargo a sílaba nos lábios.
Sou sábio e sei-o. Descasco
(Estanhos duros lavo)
O metal doméstico que amestro
...nestas páginas alinho
Trigo limpo, água brava
– Palavras que o papel lavra –.
Furto larvado. Fruto lavado
Sobe do dorso surdo dos escravos
E nestas palavras bem o sabe.
(........................... se abre).
Vou assim os tempos apalavrando:
Sei muito bem, mas traduzo mal.
(A fair field full of folk:
Un campo bello loco de pueblo).
2.
Dedicam-se
Ao comércio
À indústria
Ao tamanho da terra
Séculos de mãos levedaram a dura pedra
O metal ardiloso
A argila (o
grito indomado
dos povos e oprimidos).
3.
Já não vale a pena sorrir
com ou sem piedade nem torcer
a ginástica fatal dos corpos
(o amor a violência o ódio)
Que tempos estes Que mortos
Já em nós esperam Que
silencioso carregamento de fúria
(o amor a violência o ódio)
Assim vamos antes que
seja tarde ..................A-
mestramos os corpos os seus
..................... artefactos.
(Deixai-me contar com ódio)
(de Natureza morta com desodorizante, Gota de Água / Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1983 – Plural)
4.2.09
ALEXANDRE ANDRADE
(excerto de Benoni, editorial Notícias, 1997)
DANTE GABRIEL ROSSETTI

(…) Estou imóvel há pelo menos uma hora, à procura do encadeamento, do ritmo regular que é sucedâneo do silêncio absoluto. Encontro padrões na escuridão, não seguem nenhuma coreografia, nenhum ciclo, ludibriam os meus olhos, até a minha percepção, que devia saber melhor, disfarçam-se de alusões ou mnemónicas e já mordem a cauda ao pânico. Ignorar os estímulos, o frio intenso, ser dono de alguma coisa, fazer frente a este tropel que não me aproxima do fim da noite, empina e revolteia, bate-se com a enxurrada, fechar os olhos, fechar os olhos. Evocando aquele tempo em que encarava a poesia como o mais irredutível dos refúgios, lembro um poema e declamo-o em sussurros curtos e sincopados, sílaba a sílaba, lutando contra a saliva e contra a relutância de toda a caixa vocal. O poema é este:
Contém-no o que não existe:
Resgata-se agora a filigrana estreita,
Separa-se, e é contra a luz
De um Sol enevoado
Que se aguarda um fluxo ascendente,
Camada por camada;
Vou-te oferecer a mão como se salva uma rola,
E à maneira de um ósculo
Unir interior e exterior;
Ser eu caudal e conduta,
Estuário tranquilo da única
Verdadeira silenciosa beatitude,
Como no barro molhado outrora
Se escreveu.
e passou já por não poucas depurações. O ponto de partida é uma ideia de S. Tomás de Aquino. Segundo a sua opinião, qualquer ser finito tenderia para a realização, ou actualização, das suas potencialidades; realização essa concomitante com a posse, com o alcance de uma felicidade (beatitudo) ou bem final, indissociável, do seu ponto de vista, da contemplação de Deus. Todo o poema se desenvolve segundo este pressuposto. O primeiro verso acaba sendo o mais ambíguo. A potência não existe por si só, assim como a substância não existe sem a forma. Abusando um pouco da linguagem, pode-se afirmar que só o que não existe pode conter a potência, pois o que existe representa concretização dessa mesma potência. Este verso não faz qualquer sentido isolado, e os dois pontos remetem para o corpo do poema. Não quis ter o aspecto de quem procura carambolas místicas a todo o custo; procurei sempre as metáforas mais inócuas, dentro dos limites da adequação. A filigrana não representa senão o objecto do acto de resgatar, perseguir a intenção latente, oculta pela não existência (pisamos terreno traiçoeiro), assim como o nevoeiro obnubila o Sol. O fluxo ascendente evoca desde já a presença divina, sendo dado adquirido que Deus se assume como acto puro. «Unir interior e exterior», eis o verso que apenas graças ao instinto tem sobrevivido aos crivos sucessivos. Sinto-o em harmonia com a indefinição conceptual inerente a «Ser eu caudal e conduta», segunda etapa da imposição do sujeito poético, após o súbito e decisivo «Vou-te oferecer» (apreciem o ímpeto do som constritivo labial). A beatitude, único verdadeiro objectivo, é atingida na ausência de som e de movimento; em comparação com a turbulência do rio que a precedeu, será semelhante a um oceano eternamente abençoado pela calmaria. Os dois últimos versos reflectem a contingência deste percurso, a sua inscrição na própria natureza humana. Como no barro molhado se escreveu, antes de secar, promovido a mandamento.
Está exposto na Tate Gallery, de Londres, o quadro que me alimentou o ânimo quando chegou o momento deste poema. Chama-se Beata Beatrix, e foi pintado, cerca de 1863, por Dante Gabriel Rossetti. (…)
(excerto de Benoni, editorial Notícias, 1997)
DANTE GABRIEL ROSSETTI

Beata Beatrix, 1863
óleo sobre tela
86,3x66 cm
Londres, Tate Gallery
óleo sobre tela
86,3x66 cm
Londres, Tate Gallery
3.2.09
MARINA TSVÉTAÍEVA
Nós – as crianças, somos os reis
do mundo das visões nocturnas.
Caem sobre nós as alongadas sombras
brilham as lanternas por detrás das janelas,
escurece o tecto do salão,
os espelhos absorvem o seu rasto…
Não há tempo a perder!
Alguém sai do seu canto.
Debruçamo-nos os dois por cima do piano negro
e o medo chega-se a nós,
embrulhados num xaile da mamã
nem respiramos, pálidos de terror.
Vamos lá ver o que se passa
por baixo da cortina das trevas inimigas.
Os rostos deles fundiram-se no escuro,
– de novo saímos vencedores!
Somos os elos de uma mágica cadeia
e no fragor da batalha jamais desfalecemos.
Aproxima-se o combate derradeiro,
e com ele há-de perecer o reino das trevas.
Os adultos inspiram-nos desprezo,
pela rotina adormecida dos seus dias…
Nós sabemos, sabemos muita coisa
do muito que eles não sabem.
(in E cantou como canta a tempestade, selecção de Inês de Medeiros, tradução de António Mega Ferreira, Assírio & Alvim, 2007 – Gato Maltês)
Nós – as crianças, somos os reis
do mundo das visões nocturnas.
Caem sobre nós as alongadas sombras
brilham as lanternas por detrás das janelas,
escurece o tecto do salão,
os espelhos absorvem o seu rasto…
Não há tempo a perder!
Alguém sai do seu canto.
Debruçamo-nos os dois por cima do piano negro
e o medo chega-se a nós,
embrulhados num xaile da mamã
nem respiramos, pálidos de terror.
Vamos lá ver o que se passa
por baixo da cortina das trevas inimigas.
Os rostos deles fundiram-se no escuro,
– de novo saímos vencedores!
Somos os elos de uma mágica cadeia
e no fragor da batalha jamais desfalecemos.
Aproxima-se o combate derradeiro,
e com ele há-de perecer o reino das trevas.
Os adultos inspiram-nos desprezo,
pela rotina adormecida dos seus dias…
Nós sabemos, sabemos muita coisa
do muito que eles não sabem.
(in E cantou como canta a tempestade, selecção de Inês de Medeiros, tradução de António Mega Ferreira, Assírio & Alvim, 2007 – Gato Maltês)
2.2.09
Nunca li nenhum livro de Agustina Bessa-Luís e só agora me dou conta do que ando a perder.
MANUEL GUSMÃO
«A PERFEIÇÃO DAS COISAS» –
O vento – finalmente no fogo do dia – o vento do mundo
neste lugar aberto
escreve a inclinação dos jovens álamos na última colina
contra o céu para sempre novo e antigo.
As mãos do vento escrevem em verso ramos e folhas, pontos e traços
a sombra da luz; encurvam para a esquerda e em cima
as hastes longas e breves: as vogais aéreas
da paisagem terrestre que teríamos esquecido.
É subitamente que o vês claramente visto
repetindo a origem do tempo:
é uma caligrafia de acaso.
Mas é uma caligrafia minuciosa nítida;
inquieta e exacta;
ofuscante como a incriada perfeição das coisas.
Numa outra folha ou margem ou luz ou lugar do mundo
és tu agora. Levantas o vestido leve; os teus dedos
enrodilham-no, subindo-o numa onda irrepetível e
contudo, repetida vezes sem conto.
As tuas mãos enquanto quase quase danças – embora
apenas andes sobre o imortal chão da casa –
sobem o pano
de algodão, apanham a bainha, colhem as asas do escasso
mar
que te cobria e
levam-nas até à linha irrevogável das ancas
como se fossem prender o vestido à levíssima ondulação
do mundo andante.
É como se uma onda no corpo abrisse lenta e fulminante
a incalculável praia ao esplendor em que cada coisa se diz
como se cantasse o nome do sem nome.
A curvatura daquelas hastes e a onda vertical que o teu gesto inventa
escrevem então a infindável passagem entre os separados mundos
e a isso só podemos chamar a alegria.
(de Teatros do Tempo (1994-2000), editorial Caminho, 2001)
«A PERFEIÇÃO DAS COISAS» –
O vento – finalmente no fogo do dia – o vento do mundo
neste lugar aberto
escreve a inclinação dos jovens álamos na última colina
contra o céu para sempre novo e antigo.
As mãos do vento escrevem em verso ramos e folhas, pontos e traços
a sombra da luz; encurvam para a esquerda e em cima
as hastes longas e breves: as vogais aéreas
da paisagem terrestre que teríamos esquecido.
É subitamente que o vês claramente visto
repetindo a origem do tempo:
é uma caligrafia de acaso.
Mas é uma caligrafia minuciosa nítida;
inquieta e exacta;
ofuscante como a incriada perfeição das coisas.
Numa outra folha ou margem ou luz ou lugar do mundo
és tu agora. Levantas o vestido leve; os teus dedos
enrodilham-no, subindo-o numa onda irrepetível e
contudo, repetida vezes sem conto.
As tuas mãos enquanto quase quase danças – embora
apenas andes sobre o imortal chão da casa –
sobem o pano
de algodão, apanham a bainha, colhem as asas do escasso
mar
que te cobria e
levam-nas até à linha irrevogável das ancas
como se fossem prender o vestido à levíssima ondulação
do mundo andante.
É como se uma onda no corpo abrisse lenta e fulminante
a incalculável praia ao esplendor em que cada coisa se diz
como se cantasse o nome do sem nome.
A curvatura daquelas hastes e a onda vertical que o teu gesto inventa
escrevem então a infindável passagem entre os separados mundos
e a isso só podemos chamar a alegria.
(de Teatros do Tempo (1994-2000), editorial Caminho, 2001)
30.1.09
ADÍLIA LOPES
Os peixes brancos
Um dos grandes temas da actualidade
é sem dúvida esta panela de esmalte
cheia de peixes brancos como panos
a cozer ao lume perguntar-me-ão
mas o que é que lhe aconteceu com os peixes brancos?
e eu perguntar-vos-ei
o que é acontecer?
esses peixes brancos aconteceram-me
eu mal olhei para eles
eles nem me viram
julgam que com as pessoas de quem
eu estou sempre a falar me aconteceu
muito mais do que com esses peixes brancos?
realmente aconteceu (os peixes brancos ainda não
me feriram) mas elas devem ter-se
apercebido tanto disso como esses peixes brancos
a minha vida está cheia de
importantíssimos peixes brancos
(não são para mim, são para o meu gato,)
Onde é que eu já a vi
Parece-me que é uma Ana Bela
que conheci há muito e muito tempo
não lhe vou falar lembro-me eu melhor
das outras pessoas do que elas de mim
e não tenho nada para lhe dizer
parece-me daquelas pessoas
que não vão a uma loja para comprar coisas
mas para serem compradas pelas coisas
que será feito da mãe da Ana Bela
estava convencida de que o mais importante
a fazer nesta vida era ser a esposa
de um sócio gerente da fábrica de
impermeáveis Parabellum inquiria
antes de convidar as meninas que a Ana Bela
conhecia o que é que os pais delas faziam
o teu aspira a sala? não faz nada?
o teu é escritor? mas isso dá alguma coisa?
o teu morreu? já não faz nada!
só o pai da Ana Bela fazia
alguma coisa que dava alguma coisa
a Ana Bela é que já deve ter descoberto
que os impermeáveis Parabellum
não fazem a felicidade de toda a gente
(de Um jogo bastante perigoso, edição da Autora, 1985 – um dos 500 exemplares deste livro, o primeiro da Autora, está a leilão num estabelecimento que ultrapassou há pouco a mítica barreira das 11,749 visitas)
Os peixes brancos
Um dos grandes temas da actualidade
é sem dúvida esta panela de esmalte
cheia de peixes brancos como panos
a cozer ao lume perguntar-me-ão
mas o que é que lhe aconteceu com os peixes brancos?
e eu perguntar-vos-ei
o que é acontecer?
esses peixes brancos aconteceram-me
eu mal olhei para eles
eles nem me viram
julgam que com as pessoas de quem
eu estou sempre a falar me aconteceu
muito mais do que com esses peixes brancos?
realmente aconteceu (os peixes brancos ainda não
me feriram) mas elas devem ter-se
apercebido tanto disso como esses peixes brancos
a minha vida está cheia de
importantíssimos peixes brancos
(não são para mim, são para o meu gato,)
Onde é que eu já a vi
Parece-me que é uma Ana Bela
que conheci há muito e muito tempo
não lhe vou falar lembro-me eu melhor
das outras pessoas do que elas de mim
e não tenho nada para lhe dizer
parece-me daquelas pessoas
que não vão a uma loja para comprar coisas
mas para serem compradas pelas coisas
que será feito da mãe da Ana Bela
estava convencida de que o mais importante
a fazer nesta vida era ser a esposa
de um sócio gerente da fábrica de
impermeáveis Parabellum inquiria
antes de convidar as meninas que a Ana Bela
conhecia o que é que os pais delas faziam
o teu aspira a sala? não faz nada?
o teu é escritor? mas isso dá alguma coisa?
o teu morreu? já não faz nada!
só o pai da Ana Bela fazia
alguma coisa que dava alguma coisa
a Ana Bela é que já deve ter descoberto
que os impermeáveis Parabellum
não fazem a felicidade de toda a gente
(de Um jogo bastante perigoso, edição da Autora, 1985 – um dos 500 exemplares deste livro, o primeiro da Autora, está a leilão num estabelecimento que ultrapassou há pouco a mítica barreira das 11,749 visitas)
29.1.09
EASTWOOD DA SILVA
(de 535 Máximas 535, &etc, 1999)
287. Salvo excepções, só se deve falar de coisas desagradáveis na perspectiva de as resolver, não como assunto de conversa.
(de 535 Máximas 535, &etc, 1999)
28.1.09
CARLOS MOTA DE OLIVEIRA
(excerto de) Estou Assim Uma Obra Feita
Também é verdade
que não meto
dente nenhum meu
em questões
de
Estado
ou em
assuntos
de Defesa
Nacional
e muito
menos
dou com
a língua
nos dentes.
Naturalmente,
olho
por olho
ou dente
por
dente
são
expressões
que
não uso.
E se
luto pouco
com unhas
e
dentes
é porque
já dei
muito ao dente
especialmente
chocolates
e carne picada.
Eu sei que há
dentes de siso
dentes do pente
dentes de velha
dentes de serra
dentes de leite
e até dentes
de
alguma engrenagem
mas o que agora
me interessa
é apenas contemplar
enxaguar
lavar
e escovar
quer
o marfim
quer
o esmalte
quer
o cimento
dos dois
coxos
caninos
que ainda
carrego na boca
e que têm
a
graça
ou
a loucura
de almoçar
comigo
todos
os dias
e até
ao
último ai
(de Este Outono Sobre os Moveis Doirados, edição do Autor, 2005)
(excerto de) Estou Assim Uma Obra Feita
Também é verdade
que não meto
dente nenhum meu
em questões
de
Estado
ou em
assuntos
de Defesa
Nacional
e muito
menos
dou com
a língua
nos dentes.
Naturalmente,
olho
por olho
ou dente
por
dente
são
expressões
que
não uso.
E se
luto pouco
com unhas
e
dentes
é porque
já dei
muito ao dente
especialmente
chocolates
e carne picada.
Eu sei que há
dentes de siso
dentes do pente
dentes de velha
dentes de serra
dentes de leite
e até dentes
de
alguma engrenagem
mas o que agora
me interessa
é apenas contemplar
enxaguar
lavar
e escovar
quer
o marfim
quer
o esmalte
quer
o cimento
dos dois
coxos
caninos
que ainda
carrego na boca
e que têm
a
graça
ou
a loucura
de almoçar
comigo
todos
os dias
e até
ao
último ai
(de Este Outono Sobre os Moveis Doirados, edição do Autor, 2005)
27.1.09
RAUL DE CARVALHO
ESOTERIA
Tenho mais que fazer que reler-me.
Reler-me custa. É pensar prisioneiro.
Nenhuma, cadeia nenhuma serve ao pensamento livre
E a cadeia que em nós pomos na cabeça
é a pior,
é a pior de todas.
Já alguém alguma vez viu no ar um pássaro voando com as suas próprias asas? não, isso é engano.
O pássaro que voa, voa ajudado pelo vento.
E faz de conta
que asas não tem.
O ar o ajuda? Talvez... O ar o ajuda…
Se o pássaro, porém, quiser voar
duas vezes:
não voa, não voa!, com as dele mesmo
asas.
Dele é e não é o voo que lhe pertence.
E irrepetível é o ar que o move.
Dentro de si circula.
(de Um e o Mesmo Livro, 1984)
ESOTERIA
Tenho mais que fazer que reler-me.
Reler-me custa. É pensar prisioneiro.
Nenhuma, cadeia nenhuma serve ao pensamento livre
E a cadeia que em nós pomos na cabeça
é a pior,
é a pior de todas.
Já alguém alguma vez viu no ar um pássaro voando com as suas próprias asas? não, isso é engano.
O pássaro que voa, voa ajudado pelo vento.
E faz de conta
que asas não tem.
O ar o ajuda? Talvez... O ar o ajuda…
Se o pássaro, porém, quiser voar
duas vezes:
não voa, não voa!, com as dele mesmo
asas.
Dele é e não é o voo que lhe pertence.
E irrepetível é o ar que o move.
Dentro de si circula.
(de Um e o Mesmo Livro, 1984)
Adenda ao post anterior:
A antologia
Os dias do Amor Um poema para cada dia do ano
leva a chancela da editora Ministério dos Livros
e será apresentada por Sérgio Godinho,
na próxima quinta-feira na FNAC do C. C. Colombo
Os dias do Amor Um poema para cada dia do ano
leva a chancela da editora Ministério dos Livros
e será apresentada por Sérgio Godinho,
na próxima quinta-feira na FNAC do C. C. Colombo
26.1.09

Já está nas livrarias a antologia
Os dias do Amor Um poema para cada dia do ano,
365 poemas de amor de 365 poetas de todos os tempos e de todos os lugares.
Posso testemunhar que, mais do que uma antologia de poemas de amor, esta é uma antologia que resulta do amor da Inês Ramos pela poesia.
O prefácio é do Henrique Manuel Bento Fialho, o que só por si é um bom sinal.
Como se não bastasse, na primeira apresentação deste livro haverá leitura de poemas por Maria do Céu Guerra, Álvaro Faria, Cristina Paiva, João Brás e Tiago Bensetil.
Será já no próximo dia 29 de Janeiro, na Fnac do Colombo, pelas 18h30m.
Estão agendadas outras apresentações nos seguintes dias e locais:
Porto: El Corte Inglés, 5 de Fevereiro, 19h30m
Viseu: Fnac Palácio do Gelo, 6 de Fevereiro, 21 horas
Faro: Livraria Pátio de Letras, 14 de Fevereiro, 17 horas
Évora: Bibliocafé Intensidez, 14 de Fevereiro, 21h30m
Os dias do Amor Um poema para cada dia do ano,
365 poemas de amor de 365 poetas de todos os tempos e de todos os lugares.
Posso testemunhar que, mais do que uma antologia de poemas de amor, esta é uma antologia que resulta do amor da Inês Ramos pela poesia.
O prefácio é do Henrique Manuel Bento Fialho, o que só por si é um bom sinal.
Como se não bastasse, na primeira apresentação deste livro haverá leitura de poemas por Maria do Céu Guerra, Álvaro Faria, Cristina Paiva, João Brás e Tiago Bensetil.
Será já no próximo dia 29 de Janeiro, na Fnac do Colombo, pelas 18h30m.
Estão agendadas outras apresentações nos seguintes dias e locais:
Porto: El Corte Inglés, 5 de Fevereiro, 19h30m
Viseu: Fnac Palácio do Gelo, 6 de Fevereiro, 21 horas
Faro: Livraria Pátio de Letras, 14 de Fevereiro, 17 horas
Évora: Bibliocafé Intensidez, 14 de Fevereiro, 21h30m
O texto
que valter hugo mãe leu no dia 16
na apresentação de
Para que ninguém sobreviva ao perdão,
de Pedro Gil-Pedro
(Cosmorama edições)
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