25.4.09

"para se ser cidadão era necessário mais alguma coisa do que meter um voto numa urna"

JOSÉ AFONSO






Papuça

Olha enfia a carapuça
Mas não compres o velho fato
De ananás
O estilo não se empresta
E nada tem sentido
A tua falta, meu papuça
Se podes ou não podes
Tanto faz

Experimenta sair
Um pouco, está bom tempo
Na Arrábida para os ninhos
Meu rapaz
Amanhã é feriado em Paio Pires
Aguça
O teu ouvido rouco-mouco
Em aguarrás

A multidão na rua
- É Zé!
Ouve-se a banda tocando
O M. F. A.
Vai o Borges, o Pina, o Xaimite e a Bibas
Balouçando
A revolução é p'ra já

A bota trocada
O canto na varanda
De rota batida
Para Luanda
Só menos um furo
No cinto apertado
É já Primavera
Amar não é pecado
Na fímbria da saia
A lagartixa verde
E um dia alegre
À nossa espera, bebe

Estamos na seca
A paz é pouca
Dorme uma soneca
A tia louca
Limpa os sovacos
Com esse spray
Amanhã é dia
De «Dancing Days»

Põe nessa boca
Uma chupeta
Amanhá é dia
De Dona Xepa

(do álbum Como se fora seu filho, 1983 - no vídeo: ao vivo, no Coliseu de Lisboa, em 29 de Janeiro de 1983)

17.4.09

Hoje.

Murmúrios de um Lugar Branco
(Indícios de Oiro),
de Ana Viana,
é apresentado por Pedro Teixeira da Mota
na Casa Fernando Pessoa, Lisboa,
pelas 18h30.


Versos Olímpicos
(Deriva),
de José Ricardo Nunes,
é apresentado por Henrique Manuel Bento Fialho
no Chá de Limão, Caldas da Rainha,
pelas 21H30.
SILVA CARVALHO

A TARDE ILEGÍVEL ALEGRIA


A tarde ilegível, meu olhar roto de azul
perplexo na entidade da luz que em ramos
de árvore volteia verde e tremulina.
Sente-se a água num antegosto do ser,
mas que presença, nos arvora ou define?
Uma nitidez total, quem está aqui é aqui
mais do que texto ou pura necessidade,
a linguagem infiltra-se de súbito silêncio
e sente-se mentalmente a dor da mentira.
Venho até mim como uma apoplexia da sombra,
este calor atávico perdido nos sentidos
que se buscam e acham no perímetro do fogo,
não me reconheço de tanto me desejar vivo,
nenhum passado para nenhum futuro, mas o horror,
o súbito amor, estar presente como árvore
ou azul de céu irremediavelmente objectivo.
Preciso, cicio, voltar atrás, ao zelo e ao sigilo
da infância destituída ou pela memória cega,
uma origem que me abra, uma fonte que me diga
de onde a onde respiro, onde me encontro,
qual o lugar a festejar na pele da terra,
que tempo me inclui na sua desmedida.
Há possivelmente uma outra palavra exacta
para o que não é loucura nem age como acaso,
em que língua a possuir, em que canto revivê-la?
Nunca como agora o simulacro da vida me feriu
tanto de tão diversa maneira, até sentir
a morte me advém impossível ou difícil,
como se se tratasse de uma ideia ou de um mito,
do inexistente que galvaniza os poderes
do que se eleva como mediocridade e história.
Passei por muitos olhares seduzido pelo olhar,
nada me bastou ou foi peremptoriamente essencial,
como justificar tal ingratidão dos sentidos?
Que monstro se apossou de minha alma?
Voltar atrás, refazer caminho, sem lembrança
nem ilusões, soletrando pela primeira vez
uma estadia possível toldada por esta alegria.


7/1/87

(de Da Estupidez, Brasília editora, 1988)

16.4.09

JOÃO CAMILO

3


citai-vos uns aos outros, ó metidos até aos olhos no óleo castanho da nossa civilização milenária, cantai-vos, também, não me convidareis a mim para a celebração dos vossos banquetes inevitáveis, não respondereis às minhas cartas quando da cave das cidades vo-las envio, haveis de detestar-me e esquecer-me-eis antes que eu vos esqueça, será porque não participo convosco do ritual com que prateais as atmosferas, porque não toco as vossas mãos nem estendo a minha língua à comunhão do pão quotidiano que entre vós dividis? e no entanto como eu vos admiro quando da humidade dos cafés de bairro, sentado à mesa das tabernas, infeliz, anónimo, mal vestido, vos recordo, por vossa causa também as raparigas são menos raparigas — ao aceitarem das vossas mãos as palavras com que se abriria um caminho na cidade, por que deveriam ser amadas, não recebem mais do que o cobre que a humidade corroeu, moeda triste com que não poderão comprar nada que não seja de segunda mão. havia de chicotear-me até ao sangue só porque em qualquer parte vos citais e vos amais e continuais a contribuir para a decadência do que vale? vós não me conheceis, quem sabe o significado que os mais atentos de vós atribuiriam ao meu protesto.


(de aos modernos, in Os Filmes Coloridos, edições Árvore, 1978)

15.4.09

JOÃO MIGUEL HENRIQUES

PROMETERAM-NOS BOMBAS


prometeram-nos bombas
os mentirosos,
perdeu-se uma boa ideia
eu tenho pena

o deserto atómico
ter-nos-ia ensinado
a morrer desprevenidos.
e passado o inverno rigoroso
eu teria regressado um cão.
sim, um cão pardo
triste e escanzelado
a farejar os restos insondáveis
da casa dos meus pais.
perdido na poeira dos mortos
entregue a tudo
os olhos humedecidos
amarrados a mim mesmo
pelas patas da frente

(de O Sopro da Tartaruga, edição do Autor, 2005)

13.4.09

IRENE LISBOA

PENSAMENTOS TIDOS NUM SÓTÃO


1

E eu disse-me a mim mesma,
naquele dia casual:
Sim,
em cada livro
ou em cada folha que encheres
assinala a tua mudança!
Não é o fato das pintinhas,
com que te vêem
e já te viram,
o que melhor te veste...
Nem o teu gesto irritado,
nem tão-pouco o abatido
que mais te individualizam.
Vai! Vai seguindo,
indiferente e fiel,
pelo fino traço do teu capricho,
um traço solto,
mas severo e sincero...

E assim,
depois das mais breves
e das mais resumidas frases,
do teu laconismo mais acre,
alaga-te em palavras.
Abre-te em palavras!
Que as palavras às bagoadas
te serenem e reconfortem.

Embora não valham nada!
Palavras!
Matilha desordenada e feliz,
lançada atrás de uma pista,
excitante e enganosa...

2

Olhos novos,
meus olhos novos,
sempre ingénuos e sempre imprevidentes,
colhei impressões,
uma a uma, uma a uma,
como se fossem flores...
E virai-vos para cima, para o ar.

O ar, a eterna surpresa!
Linda coisa!
A sua cor...
Posso não ter nada
e não tenho,
nem desejos, nem sonhos,
mas tenho o ar!
Este fino ar,
que cobre todos os telhados...
O ar!

3

Coração robusto,
hostil e robusto,
que queres quebrar e enfraquecer,
em ti há
não sei que dureza profunda,
que febra,
que lucidez e que violência
que sempre te sustentam!

A cada momento te fechas
como uma ardente flor ferida...
Robusto coração sem consolo,
grosseiro novelo sem ponta!
Mundo, afinal...
Mundo,
força débil e improfícua
mas indestrutível.

João Falco

(in Folhas Soltas da Seara Nova (1929-1955), Antologia, Prefacio e Notas de Paula Morão, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1986 – Biblioteca de Autores Portugueses)
RAUL DE CARVALHO

TAUTOLOGIAS

1958

A Irene Lisboa

O tempo imovível...
Irene Lisboa

Uns pingos de sangue
seco.
Umas rugas na cara
de semblante impávido.
Um olhar parado
e de vidro.
Um riso de espada
afiada.
Lágrimas? Esquecidas.

Apenas um som
movendo-se oblíquo
no tempo imovível.

Eis que o lápis pousa
e logo se arrepende.
Medita, primeiro.
E depois desiste.

Cansa-se, é o caso.
Perguntas tão várias
e tão parecidas...

Todas convergindo,
refluindo, indo...

No vaivém da alma,
carrinho de mão...

E impeditivas todas
que o lápis se fixe,
se ajuste, se ligue,
apanhe a memória.

E tudo indeciso
entre começar e recomeçar.

Quantas coisas sempre
e tão obscuras...

Por que fiz eu isto?...
E por que mo fizeram?...

Uma decepção
passageira outrora
que deixou de o ser.

Enfim, um destino
por demais puído.
Gasto, rebentado, é o que é.

Queixas ou desculpas
de outro mundo...

Que fazeis agora
comigo indiferente.

Deitado. Repleto.
Com sombras a mais.

Um corpo que ainda
permanece equívoco.

Tempo... que demora…


Um tempo em que o corpo
substituía
a alma...

Agora nem uma
nem outra coisa.

Um cansaço estreme.


E uma confusão...
Um distraimento
lívido...

Um pensar sem causa
nem predestinação.

O peso, a medida de cada palavra.
Auxiliando a alma.
O único auxílio.

Regista-se, e pronto.
Nada nos pertence.


Um entendimento
nebuloso,
teimoso.
Desesperado.

Uma aranha ou unha.
Cravando. Arranhando.
Imperceptivelmente.

Mas doendo tanto.


Grades. Muitas grades.
E os olhos passam
por elas.

Só os olhos. O resto
de nós em nós fica.

Exausto. Indisposto
a acompanhar-nos
por outros caminhos.

Tudo igual. Afinal
tudo igual.

Só esta casa
não muda.

Este ar.
Este fumo.
Este cheiro.
Esta gaiola.

Este corpo preso.
Esta alma aflita.
Esta inquietação
obscura, inanimada, certa, conivente.

Perseguindo o quê?
Coisas, coisas que não valem a pena…

Gosto imenso desta
camisa já velha.
É das poucas coisas
a que, durante a vida,
eu me habituei
e se me habituaram.

Faz-me companhia.
Pequena e gasta
sombra do fino ramo
dum salgueiro
no rio...


A dificuldade
de seguir um traço
até ao fim.

Há sempre um momento
em que uma recordação
muda o curso ao pensamento.

O coração contrai-se.
O risco foge.
A alma ausenta-se.

Nunca mais a gente
sabe aonde está.

Hoje igual a ontem.
E é tudo.

Gasto. Nu. Diferente
da mesma maneira.

A porta fechou-se.
Nunca mais se abre.
A mão todavia
bate por bater.

É por vício ou gosto?
Ou monotonia?

Os peixes
mesmo depois de apanhados
na rede
continuam a
debater-se...

Assim eu. A vida
é assim tão importante?...


Claras, claras coisas.

Muito exactas. Simples. Sóbrias e poucas.
Sem música. Alegres. Mas só de existir.
De estar ali. De se deixarem ver. Imunemente.

Leves, leves os passos de quem entra.
Um andar sem esforço, sem ambição de maior.

A não ser, talvez,
o desejo inconsciente
de não pedir
nem dar.

De ser, unicamente.


Desfiar
sem pressas
um rosário de contas
frias.

Sabê-lo pelo tacto.
Achar correspondências
felizes sem motivo.

Não ter mais sentimentos. Ter ideias.
Mas estas
limitadas e poucas. Meia dúzia.

Limpar a alma
com uma vassoura
Fora! fora tudo o que está a mais.


Fazer dos poemas
passeios.
Longos. Deslembrados. Meio loucos.

Um pêndulo.
Com a palavra agindo
por sua conta.

Águas irrigando
vidas alheias.

A nossa, seca.
Seca e longe. E longe.


Páginas, páginas soltas.
Uma coisa qualquer
que se esqueceram de juntar.

E ficou assim.
Esquecida. Solta. Inútil.


Medo. Medo que a memória
reincida na dor.

Os disfarces são
estas e as outras palavras.

As que não procuram
ser meigas nem belas.
As que são as nossas
únicas amigas.
As que não se iludem
a nosso respeito.
As que sabem tudo,
tudo da nossa vida.
Enfim, as nossas
fiéis companheiras.

Se não fossem elas,
ai de nós, enlouquecíamos…


Cada palavra
é uma comporta
num rio...

E o rio corre.
Sentimo-lo correr.
Há alívio, há mágoa,
há sossego nisso.

Voltaremos sempre
ao ponto onde o rio
começa a correr:

Antes não fora água.
Antes não fora mágoa.
Antes não fora rio.


Pedras, pedrinhas que se atiram.

E depois se apanham, se acolhem, se afagam, se espiam.

Uma ocupação
como qualquer outra...


Só desolação
à volta.
Que espectáculo triste
o azul da água
dum rio
correndo
desamparado
por entre campos e campos
áridos, secos, sós.

Sem palavra amena.
Sem carinho de asa.
Sem uma chaminé
com o lume aceso.

Sem árvore ou pessoa
que dê pela nossa
presença.

Que ajude a correr
Prazenteiramente
a água do rio.

Deste rio sem margens
ou talvez sem fundo.

Que nos molha as mãos.
Que nos tolhe a vida.

Horas e horas, dias e dias, anos e anos
sobre a mesma terra
que nos ignora.


Quem me dera pôr
um ponto final
nisto tudo...


26, 27, 28 e 29 de Agosto,
1 e 2 de Setembro de 1958.


POSFÁCIO

Creio que três palavras sintetizam, em minha consciência, a necessidade e o curso deste poema. São elas: lição, admiração, libertação.

Lição: de sobriedade, limpidez, precisão, emoção captada — que tudo isso eu vejo luminosamente espelhado na obra de Irene Lisboa. E lição esta que eu gostaria tanto de aprender um pouco... Porque vejo nela, hoje e talvez sempre, os essenciais pontinhos luminosos para que aponta, percebe-se, a mais forte ambição dum escritor ou poeta, aquilo que dá vida longa e digna ao que vai pensando e escrevendo, escrevendo e pensando...

Admiração. Já se sabe que a própria admiração — humedecida... — que se sente por um Escritor e obra que quase nos intimidam, nos desencorajam, nos fazem ver (nos abrem os olhos!...) a nossa pobreza, a nossa ignorância. Mas, o curioso, é que há conforto nisso, nesse puro sentimento de admiração sincera, uma nossa irmã.

Libertação, por fim. E apenas direi: Também em Literatura, neste tête-à-tête de autor para autor, o amor pelos outros é alienatório. Coercitivo. Um peso. Sobretudo em razões do estilo. Quando os sentimentos e o mais que a forma veicula e desnuda são comunicados, assim, tão infalivelmente... espreita-nos o perigo que sabeis qual é. A ele honestamente aludo, e é dele no fim e ao cabo — mas não por orgulho, por fidelidade, sim — que me quero libertar. Não passa este poema duma tentativa: humilde, duma vez; e julgo que necessária. Senti-o passo a passo (aqui mais, ali menos) mas sempre objectiva e serenamente. No fim, com algum contentamento. O de não faltar, digo, à responsabilidade que implica ter lido como eu li uma Obra que está, sinto-o, dentro e fora de mim, em mim e para além de mim...
A publicação do poema corresponde, muito, a este último desiderato.


2-IX-58.


(de Tautologias, 1968)
A Rute podia ter sido amiga da Irene e criou um blogue para a lembrar. Vale a pena lá ir e descobrir o mais que se pode encontrar na net sobre Irene Lisboa e que está referenciado na barra da direita.
Irene Lisboa é um dos casos mais injustos de esquecimento da nossa literatura. Injusto por ser uma obra belíssima, reveladora de uma voz original e de abertura de novos caminhos para alguns dos que a leram.
Também por este blogue, Irene Lisboa tem aparecido pouco, mas um dos primeiros posts que aqui coloquei foi dedicado a ela. Convém lembrar o que dizem Paula Morão (responsável pela reedição e por um esforço de divulgação da sua obra) e José Gomes Ferreira.

11.4.09

CRISTINA CAMPO

RÁDONITZA
(Anúncio da Páscoa aos mortos)


Vento de primavera
translúcido como espada:
afasta do sépalo afiado
a corola carmesim que ainda treme,
como na alma o espírito,
o sangue da veia.
O inverno, oculta haste
que balouçou os desejos, assombrou as mortais hesitações,
decepada sem um grito;
a velhice interior decepa
da terrível vida.
Páscoa da incorrupção!
No vento de primavera
a antiga igreja indivisa
anuncia aos mortos que indivisa é a vida:
sobre as lápides dos túmulos
pousa os sépalos que ainda tremem
e no centro, no plexo, no coração,
lá onde está sepultado o Sol,
lá onde está sepultado o Dom,
o pequeno ovo carmesim do perene retorno,
do humilde, irreconhecível
transfigurado retorno.
Páscoa que libertas todas as culpas!
Paradoxal deserto
de um cemitério metropolitano
entre suavíssimas asas
de andorinhas e véus: quinto tom,
gritos de boiardos sem postura, a espada exposta
na celeste Cidade tomada,
que se cruza e enrola, oitavo tom,
- como à vivificante, venerável Cruz
do Arqueiro a rosa que ainda treme -
naquele tão terno lamento fúnebre:
Páscoa, memória eterna!

Patética, patrícia
morte da morte metropolitana
testemunhada por escassas e imóveis bonecas
da Corte asiática: carmesim, prata e ouro.
Pálpebras escavadas,
pálpebras afiadas,
olhares fixos, parados, empedrados
sobre os túmulos de cada lugar, cada memória, cada estirpe,
cada psique que morre.
Lenços enxugam furtivos
os cantos da boca que rega como sangue
o divino grito, as raízes carbonizadas da água
inexaurível da notícia tremenda:
Páscoa, memória eterna!

(de Poemas Dispersos, in O Passo do Adeus, tradução de José Tolentino Mendonça, Assírio & Alvim, 2002 – documenta poetica)

10.4.09

RUY CINATTI

CONSUMMATUM EST


Consummatum est,
e eu me consumo
acervo de unhas que me dilaceram
e eu estacado
perfil – homem de figura,
mas assombrado.

Consummatum est,
por nascer ainda
no meu pecado.

Consummatum est,
Minha voz grita
(acaso não grita)
a minha blasfémia.

Consummatum est
,
Cristo retirado,
eu posto na cruz.

(de Corpo – Alma, editorial Presença, 1994 – colecção forma)

2.4.09

CARLOS ALBERTO MACHADO

(7)


O mundo está ali
e de repente fraquejas
o mesmo pânico que sentias
no escuro repentino da rua
quando regressavas a casa a sonhar
com o homem invisível da tv
falas depressa de mais
as palavras partem-se nos dentes
e na língua cresce o medo e suas
o peso do mundo está sobre ti
as luzes teimam em perseguir-te
e não há porra de porta que se abra
uma luz que de repente se apague.

(de Mundo de Aventuras, ATAEGINA – Associação de Produções Culturais, 2000)

1.4.09

FRANCISCO SÁ DE MIRANDA

(final do) Dialogo em Prosa
Da mentira e desquerição.


(…)
Disquerição. Ora te digo que em estremo me espanto com usares tam facilmente cousas dos môres inimigos que tens, porque claro está que o natural contrairo da mentira é a verdade; pois em verdadeira amizade e licita obrigação quem viu mentira? pelo qual cada vez mais e mais me espanto de assi domesticamente usares esses vestidos, assi que para meu desenleo te rogo dizer me queiras: isto como é?
Mentira. Como te eu já disse? eu sou fea e negra e manca e finalmente tam torpe que muitos me têm por estremo de fealdade e torpeza, de maneira que, pera cobrir estas tachas que em mim conheço haver, era necessário andar vestida; e achando me sem vestidos, detreminei a alguem os furtar; e já nisto detreminada, correu me á memória que, pera effeituar meus desejos, nenhums trajos erão milhores que os que menos meus parecessem. Assi que, isto considerado, achei erão certos os da verdade. A qual causa conhecendo, detreminei de palpar todas as vias que para os haver achasse. E foi me nisto a fortuna tam favoravel que com pouco trabalho pus em obra meu desejo porque, como deus criou a verdade tam fermosa e clara, preza se muito d'andar despida pera milhor se enxergarem suas perfeiçõis, e o mesmo fazem a obrigação e amizade, que também estimão pouco estes vestidos, assi que eu tenho tempo pera os poder furtar pera me d'eles aproveitar quando d'eles tenho necessidade.
Disquerição. Também queria saber, se te aprouvesse, de que são estes vestidos? e como se chamão?
Mentira. Estes vestidos são de boas palavras, perfeitas oraçõis que soão bem ás orelhas; chamão lhe algums eloquencia, outros oratoria. E finalmente outros lhe chamão: saber exprimir os conceitos da vontade.
Disquerição. Assaz de contente estou do que sei de teus trajos; queria agora saber donde naceste? e quem gerou tam torpe cousa?
Mentira. A mim fizerão me os homens, minha mai foi a desculpa. E fica te embora, que não posso mais deter me, que vejo la vir quem me destruirá se me achar.
Disquerição. Torna ca, mentira, dize me de que foges?
Mentira. Ou tu es cega ou não es a desquericão como eu cuidava! Pois não vês a pressa com que o tempo vem trazendo a verdade ás costas? polo qual eu não posso mais aguardar.
Disquerição. Vai embora! que assaz de pouco juizo tem quem te ouve, e menos quem te cre, e nenhum quem comtigo trata. Que posto que ás vezes tarde em lhe dar o pago, a ousadas, que não vão sem lho dares como sua bestialidade merece, por se abraçarem comtigo deixando a verdade, em cuja busca eu tanto tempo tenho andado, sem em nenhuma parte a achar. E pois aqui vem, quero a ir receber e abraçar como é rezão que faça, todas as vezes que a vir, e mais sendo esta a primeira.

(in Poesia de Francisco de Sá de Miranda, edição de Carolina Michaëlis de Vasconcelos, reprodução em fac-simile do exemplar com data de 1885 da Biblioteca Nacional, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1989)

20.2.09

JORGE DE SENA

O RECORDAR E NÃO


I

Que se recorda não recorda nunca,
e sonha-se dormindo o que vivido foi
mas entendido não, ou não assim.
Só que o lembrar de vida se sustenta,
e não sonhamos de ontem quanto não tornámos
a repetir, ainda que diverso,
com outra gente mesmo, num lugar de agora.
Sonha-se em sonhos do sonhado em vida,
à volta ou dentro do que se é memória
de haver sonhado o recordar futuro.
Porém se não recorda nem se sonha
o que saudade seja de haver tido
quanto lembramos só como saudade
que foi perdendo o rosto e o som da voz,
e nova carne não tomou da vida.

II

Felizes que de imagens e palavras
como da cor e som de umas e doutras
se iludem e contentam, são felizes
em verso e em vida, e no louvor dos que
nada mais querem que o prazer fingindo
por cor e som que não existe em nada.
E tristes os que têm por seu destino
o muito que viveram sem tentar-se
a imaginar uma alegria alheia
no que nos outros nos engana sempre.

III

Esses que chamam vida ao não-vivido,
que escrevem dela e disso o mais dos versos
quais é estimado que a não-vida escreva
para delíquio e orgasmo dos medrosos,
de vida ou de memória não precisam,
de havê-las tido ou não não é que sofrem
mas só da raiva de que por castrados
aos medrosos fascinam. Quanta imagem,
quanta palavra após palavra vácua,
quanto venéreo suas partes pinguem
de escassas aventuras sem prazer,
oh quanto encanta o imaginar de quantos
olham trementes e gulosos tudo
o que de medo não fizeram nunca
e menos os assusta quando é dito em nada.

IV

Que todos se consolem e se acarinhem
com as mãos, a língua, a máquina em que escrevem.
A vida é breve, e a arte mais comprida
que o mais comprido sexo sonhado.
Fazê-lo ejacular é um fácil gesto
de solitário adolescente. Mas
não mãos ou bocas essa outra arte abarcam,
nem há na vida sempre os orifícios
profundos e cingidos, húmidos e ardentes,
aonde essa arte encontre o que lhe foi medida.

V

Oh vem silêncio serenado e oculto
de um recordar que a vida só repete
se a repetirmos de memória antiga!
Oh vem só do pensar e do sentir lembranças
que de fugidas se entredoem tanto!
Oh vem. E desce, e aboca, e prende, e rasga
esta de sonhos tão sonhado vida!
Só disso existirás. Que te não leiam,
te não entendam ou de ti não falem
os que de imagens e de sons se vivem.
23/9/1970

(de Exorcimos, 1972)

19.2.09

MARIA ALBERTA MENÉRES

Constróis o dia olhando aquela pedra:
do meu olhar em ti se constrói o meu dia.
Que mundos sucessivos se encadeiam nos homens?
Que mar de ondas inquietas sob o tranquilo mar?

Ao nosso olhar apenas se decompõe o mundo,
se decompõe a pedra em fantásticos gestos,
insuspeitados seres, insuspeitada angústia
arrancando de si o mágico sentido.

Constróis o dia olhando a beleza escondida:
da mesma solidão se constrói o meu dia.
Que harmonia se inventa dos meus olhos no ar?
Para a pedra desfeita, que harmonia se inventa?

(de Água-Memória, 1960)

18.2.09

[lido hoje, na Casa da América Latina, em Lisboa, por Hector Abad]

JAIME GIL DE BIEDMA

NO VOLVERÉ A SER JOVEN


Que la vida iba en serio
uno lo empieza a comprender más tarde
-como todos los jóvenes, yo vine
a llevarme la vida por delante.

Dejar huella quería
y marcharme entre aplausos
-envejecer, morir, eran tan sólo
las dimensiones del teatro.

Pero ha pasado el tiempo
y la verdad desagradable asoma:
envejecer, morir,
es el único argumento de la obra.

(de Poemas Póstumos, 1968)