29.4.09

[Quis o acaso que eu lesse este poema a bordo do autocarro suburbano, quando subia (ronceiramente) do viaduto Duarte Pacheco para Monsanto. Nunca tinha sentido tão explicitamente que ler um texto é, também (sempre?), fazer o percurso inverso àquele que o Autor fez.]

JOSÉ MÁRIO SILVA

citröen 2 cv


Para o João Almeida

Na descida de Monsanto
para o viaduto Duarte
Pacheco, o ponteiro
da velocidade desaparecia
completam ente, perdido
para lá da marca laranja
dos 120 quilómetros por hora.
O carro trepidava e tudo à nossa
volta – o motor em alta rotação,
as estrelas através da capota aberta,
a silhueta de Lisboa, as infinitas
bifurcações da juventude - tudo
à nossa volta era uma vertigem.

(de Luz Indecisa, Oceanos, 2009)
LUDWIG VAN BEETHOVEN

Piano Concerto No 2


(Berlin Philharmoniker, conduzida por Claudio Abbado; Solista: Mikhail Pletnev)*



(continua aqui, aqui e aqui)


JOÃO CAMILO

NÚMERO DOIS


Beethoven, concerto número dois para piano.
Com um canivete corta-me devagar por dentro
a parte da alma mais encostada à carne.
O prazer que a Camões também doía e as palavras
de depois de inventá-lo. O sol que brilha e ilumina
o verde das primaveras que nesta se repetem. Enu-
merar: como quem coloca cada som depois do outro
e parte para a solidão. Uma lâmina pequena corta-me
por dentro das próprias veias no meu corpo
desconhecido as mais pequenas fibras. E sei que
existem e é delas que se extrai
a revolta com que vou nascendo para
ver-me de pé enquanto reaprendo
a não esquecer que um dia finalmente
tudo terá passado. E esta aventura
de estar aqui hoje há-de perder-se
no tempo que consome tudo e nos consome
a nós no uso de nós mesmos. Afeiçoarei o meu
corpo cada dia mais definitivamente à imagem
da pequena morte que nos chega que toca
os olhos na retina os ouvidos na membrana
do tímpano e passa a circular no sangue com a
embriaguez. Assassínio lento de mim mesmo,
Claudio Arrau pianista chileno vai
pontuando o tactear da lâmina
no meu corpo e eu sentado contemplo as cores
dos objectos à minha volta e vou dando pelo
espanto de assistir à passagem de mim
mesmo pelo que me rodeia.



O CAMPEÃO DE ROLAND GARROS

Esta tarde sou eu o homem da raqueta mágica.
A minha juventude resplandece no terreno central
de Roland Garros. Ergo o braço vigoroso, olho fixamente
o meu adversário ao fundo sobre a linha a saltitar.
Lanço a bola ao ar e bato com força, vejo-a rasar a rede,
quem poderia pará-la e devolver-ma perigosamente?
O público aplaude e eu limpo o suor do rosto com a mão,
tomo posição de novo e vou bater a bola com a mesma convicção.
A minha perna esquerda suporta o peso do corpo, a mão direita
segura na raqueta com energia e o braço corta o ar veloz
enquanto o ruído seco da bola batendo na terra soa no silêncio
como a música da perfeição. Mais quinze pontos. Dentro de pouco
tempo tenho mais um jogo ganho. Para isso passei as manhãs em exercícios,
me privei do álcool e do fumo, das distracções fugazes e inúteis.
Se o olhar das raparigas não me escapa, nem os belos dentes
brancos que elas têm, nem os seus braços nus, os seios redondos,
a minha preocupação maior é respeitar o andamento deste concerto,
responder ao meu adversário com o rigor dos gestos que surpreendem
e causam admiração. Dói-me como o problema do desemprego
nas sociedades modernas escravas do lucro e da vontade de produzir
a bola mal batida que sai fora das linhas brancas deste jogo.
Tem-me atormentado noites inteiras a devolução defeituosa
que fiz de uma bola fácil que me enviara um jogador medíocre.
Às vezes impede-me de comer a sensação que tenho de não poder
colocar todas as bolas no interior do rectângulo. Mas o homem
é um ser imperfeito apesar de todas as horas de aprendizagem,
de todos os minutos passados a aperfeiçoar os gestos mais simples.
Erros de cálculo, a bola que devia passar a rede e não passou,
ou a que vai sair ligeiramente ao lado dos limites fixados.
Esta tarde, porém, a sorte sorri-me. Ou antes: os meus gestos
são de uma perfeição à medida da minha lucidez e energia.
A consciência que eu tenho de dominar os elementos inebria-me
e em cada corrida que dou crescem-me asas e aumenta
a minha confiança nos limites e capacidades humanas. Estou
contente comigo mesmo. Não sou vaidoso, estou apenas satisfeito
com este rigor. O meu adversário é obrigado a deslocar-se
de um canto do terreno para o outro a toda a velocidade. Às vezes,
claro, não chega a tempo. Terá trabalhado tanto como eu, passado tantas horas
a ensinar o corpo a obedecer-lhe, a não traí-lo? A atenção,
a enorme concentração é que explicam em grande parte a minha precisão.
Conheço também as manhas e manias das bolas que batidas
vêm a rodar sobre si mesmas ao encontro da minha raqueta.
O meu jogo de pernas, segundo os entendidos, assemelha-se ao de um
jogador de golfe, ou de hóquei, ou de boxe. A mim parece-me
que sobretudo é idêntico ao gesto do violinista que percorre a corda
e cria o som de um rigor e intensidade que penetram
em todas as fibras do espírito. A minha única vaidade é estar contente.
Bem sei que à margem deste campo desportivo (com gente sentada nas bancadas
a seguir atentamente o mais pequeno dos meus gestos) existem
outras coisas. O desemprego dos jovens, a ameaça atómica, a vida absurda
nas cidades modernas, porém, não me são desconhecidos. Sei também
que a beleza é um pássaro excessivo ao lado da miséria e dos defeitos físicos.
Ao ver-me agir, porém, e ignorando quanto da minha imperfeição se esconde
na facilidade com que executo estes gestos rituais e calorosos,
quantos não terão sentido por momentos que a força secreta
que governa o nosso destino se podia finalmente libertar?
Nunca discuto a decisão do árbitro, mesmo se o público assobia,
mesmo se vi a bola cair dentro ou fora ao contrário do que ele diz:
o jogo é humano e os homens erram, tenho muitas bolas
e toda a tarde para provar o meu talento e a minha força.
É altura de pôr em jogo bolas novas. Vejo-as brancas
a saltitar na terra vermelha e tomo-lhe o peso, sinto
na mão a aspereza nova dos seus pêlos. Ah, ser sempre jovem.
Bato-as com força e o meu adversário do outro lado da rede
não consegue resistir durante muito tempo à pressão que eu exerço.
A dado momento acaba por enervar-se, pensa que vai surpreender-me,
e lança a bola para lá do risco. Paço depressa quarenta pontos.
O jogo está muito perto do fim. Admiro o jogador
que me faz correr a mim e me obriga a ser inteligente,
é ele o instrumento da minha glória e do meu contentamento.
É ele, também, quem me impede de atingir enfim a perfeição divina.
É por isso que não sorrio por fora, que nem sequer deixo o entusiasmo
ganhar-me muito por dentro? Continuo sem perturbar-me
a executar da maneira mais austera esta partição.


(de Na Pista Entre as Linhas, Gota de Água e Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1982 - Plural)


* Aparentemente, o Concerto No 2 é o único de Beethoven que não se encontra no YouTube interpretado por Claudio Arrau, o intérprete referido no poema.

28.4.09

Amanhã.

Livraria Pó dos Livros, 19h00.
Jorge Silva Melo apresenta o livro (em jeito de conversa).
Miguel-Manso lê alguns poemas.
JOÃO CAMILO

NAS ALÇAS DA MEMÓRIA


Chovia. Na minha memória.
E eu chorava. Mas não chorava.
Lágrimas ou as saudades das manhãs no campo
eu sou um ser remarcavelmente com saúde.
A água corria. Na torneira estornecia.
Ou entornava-se ou destorneirava-se
a mim é que ninguém vinha dizer
os hinos que se escutam nas banheiras
nas tardes em que o sol aquece porque sim. E porque não.
E amarela e vai descolorindo. As paredes.
Dos conventos. Os muros das adegas das aldeias
as torres das igrejas nas planícies. Histórias.
A minha infância que me caía ou escorria
não sei se dos meus pés se do tecto branco
da casa branca onde então seguia. Vivia
e ia morrendo. Mas vivia. Dava por isso
quando punha o cinzeiro na frente da mulher
em quem as minhas mãos procuravam recordar-me
de qualquer coisa em que não pensavam.
Se estar vivo é isto de tão triste e não saber.
Se saber é triste de tão isto e não estar.
Que sei lá. Quem o dirá ou o diria
a mim que com olhos verdes me arrependo
me arrepenteio nos cabelos dos meus dias? Assim?
Assim. Há caranguejos e outras banalidades
há a mesa em que me apoio e os prédios ao lado
de que serviria pô-los para cima? Assim.
É assim que se dá conta do olhar com óculos
que do buraco de madeira cavado no vazio
me lançava as chispas com que se misturam
à noite em casa os ócios e o desejo. E a raiva.
Mas quem dessa camisa com suor na manga
havia de extrair o papel branco
com o poema quase redigido? Uma camisa
é uma camisa. Nada a fazer. Constatar
que um homem dorme quando o sol circula
nas alturas pouco vertiginosamente. E a pressa.
E o binóculo. E morrer e pedir e esquecer
e esmolar com que se esmurre a cara
daqueles que nos têm ofendido. Que são
muitos. Eu estava e estive
tenho estado e revejo que estarei
para suportar o peso ainda desses anos
em que a camisa finalmente despedida
– ah as histórias que a gente inventa
para não ter de falar da viabilidade da vida.
Ou é nos intervalos do silêncio
que se rompem os vidros da janela
onde estivemos com ideias de voltar?
E não voltámos não revimos nunca mais
esse quarto de cama essa cama de quarto
esses bonecos espintalgados na parede.
Na parede branca. E havia a janela.
E o tecto era baixo e estava-se bem
ali certamente no outro dia de manhã
longe dos homens com aquele corpo
com aqueles olhos da desperdiçada rapariga.
E hoje é isto. Vaga recordação de natais que se perderam
olhos e lâmpadas ruas de cidade onde passámos
muito brevemente numa janela de comboio de viagem.


À HORA DO CAFÉ

Há salgueiros na margem e um rio sobe nas tuas pernas,
a planície começa na lenta rampa do teu seio.
Os peixes jovens exploram a areia,
conserva a montanha suave o segredo da solidão.
É não provocar no sangue que corre sobressaltos
enormes que é melhor. Mas a inocente
violência da infância tão cedo terminada,
a exigência áspera dos ossos dos joelhos?
Antes de ires, desconhecida, olha para mim.
Como se te bastasse estar ao meu lado no cinema
ou fôssemos depois de amanhã passear à tarde no campo.
Antes de partires, e nunca mais te verei,
de me pores, como à carne quase crua e doce, de lado
na tua memória.


(de O Ruído Fino, in A Jovem Poesia Portuguesa / 1, Limiar, 1979 – Os Olhos e a Memória)

27.4.09

O Beato Nuno



Vi hoje o filme de João Pinto Nogueira, U OMÃI QE DAVA PULUS
[morreu no sábado passado – ver notícia aqui]

TOMÁS JORGE

PETRÓLEO


Afinal aqueles imbondeiros
Paquidermes de raízes e flores
Soldados fantasmas
Eram os guardas verdadeiros
Permanentes e firmes
Aos ventos e aos calores
Por sobre um tesouro milenário.

Guardaram com os seus braços levantados
E seus corpos dilatados
Ocupando
Todo o areal enorme
Imenso
Como fantoches disfarçados
Afugentando os homens
Com os seus corpos feios
Blindados de chumbo.

Afinal aqueles imbondeiros
São os guardas que foram vencidos
Todos
Quase todos serão sepultados
Sobre eles cairão
As torres de ferro e de triunfo.

Um novo poema em gritos de luz e de força
Surgirá das profundidades do vasto areal
Haverá mais trabalho e felicidade
Em nova fase de visões e fatalidades.

Eu como poeta
Dono da fantasia e da realidade
Dono de tudo sem querer nada
Em novos Cânticos sociais e humanos
Cantarei humanamente
A minha terra e o meu petróleo.

(de Areal, Colecção Imbondeiro, 1961)

26.4.09

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

[excerto de] FLOR DA ROSA

Na passagem do século XIII para o século XIV, D. Gonçalo Pereira teve filhos e filhas que não interessam para a chegada, até nós, da fundação do mosteiro da Flor da Rosa. Mas houve um filho que teve o seu exacto nome, Gonçalo Pereira, e que foi arcebispo de Braga. Este arcebispo um outro filho teve, Dom frei Álvaro Gonçalves Pereira, que foi prior do Hospital e que depois de ter vivido na sede da sua ordem, na ilha de Rodes, viria a erguer a igreja de Santa Maria da Flor da Rosa. Igreja, mosteiro e fortaleza ficam nas proximidades do Crato. Entre filhos e filhas, em número superior a trinta, ele seria o pai de D. Nuno Álvares Pereira, segundo o capítulo inicial da «Coronica do Condestabre».
(…)

(in A Flor da Rosa, Relógio d’Água editores, 2000)



MÁRIO BEIRÃO

NUN'ÁLVARES


Senhor! Por mim, teu espírito visita
O Reino onde servi como soldado,
Por ti, meu coração alevantado,
Por ti, este burel de carmelita!

A humilde cela que o teu filho habita
É um cárcere de lágrimas banhado;
Condoa-se do olhar do emparedado,
A luz desses teus olhos, infinita!

Senhor, perdoa ao monge arrependido
Se ainda não mereço a tua dor,
Reduz-me à escuridão do eterno olvido!

Soberbo eu fui, perdoa ao vencedor,
Ao vencedor dos homens, - o vencido
Por teu pranto humaníssimo, Senhor!

(de Lusitânia, 1917 / 2ª edição: Livraria Tavares Martins, 1964)



ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA

EXORTAÇÃO FRENTE À ESTÁTUA DO CONDESTÁVEL NA BATALHA



Para Mário Saraiva


Cavalga no bronze da glória
À ilharga do túmulo real,
Aqui, onde ficou, em pedra e fé, memória
Da mais vital vitória
De Portugal.

E ergue a espada nua. (Em certo dia
Bastara meia espada
Para enfrentar a cobardia
E vencer a batalha antes de começada.)

E o peito ovante oculta, floreada,
A cruz do seu brasão:
Como a sua alma e coração (branca e encarnada),
É divina divisa devotada
Ao Mestre, ao Rei e ao Irmão.

E olha o céu, caminho seu, seguro,
Pois sabe que no céu tudo se escoa
E Deus é sempre o futuro,
O último senhor do ceptro e da coroa.

Ó português que passas, indiferente,
Frente à estátua do Santo, do Herói:
Não te dói o presente?
A tua pátria doente
Não te dói?

Não sentes o desejo, o ímpeto de orar
Àquele que nos foi o salvador;
Pedir-lhe para regressar,
Formar quadrado contra o agressor?

De ter de novo como Capitão,
Por Deus e Pátria e Rei, o Herói, o Santo?
E de poder dizer altivamente não,
Seguindo o seu pendão,
Onde arde a esperança que perdeste há tanto?

Ah, se não queres marchar, em som de guerra,
Tal como ele, por um ideal,
É que não vale a pena o sangue, a terra,
E morre Portugal.

(de Estado Estacionário, edições Cultura Monárquica, 1988)

25.4.09

"para se ser cidadão era necessário mais alguma coisa do que meter um voto numa urna"

JOSÉ AFONSO






Papuça

Olha enfia a carapuça
Mas não compres o velho fato
De ananás
O estilo não se empresta
E nada tem sentido
A tua falta, meu papuça
Se podes ou não podes
Tanto faz

Experimenta sair
Um pouco, está bom tempo
Na Arrábida para os ninhos
Meu rapaz
Amanhã é feriado em Paio Pires
Aguça
O teu ouvido rouco-mouco
Em aguarrás

A multidão na rua
- É Zé!
Ouve-se a banda tocando
O M. F. A.
Vai o Borges, o Pina, o Xaimite e a Bibas
Balouçando
A revolução é p'ra já

A bota trocada
O canto na varanda
De rota batida
Para Luanda
Só menos um furo
No cinto apertado
É já Primavera
Amar não é pecado
Na fímbria da saia
A lagartixa verde
E um dia alegre
À nossa espera, bebe

Estamos na seca
A paz é pouca
Dorme uma soneca
A tia louca
Limpa os sovacos
Com esse spray
Amanhã é dia
De «Dancing Days»

Põe nessa boca
Uma chupeta
Amanhá é dia
De Dona Xepa

(do álbum Como se fora seu filho, 1983 - no vídeo: ao vivo, no Coliseu de Lisboa, em 29 de Janeiro de 1983)

17.4.09

Hoje.

Murmúrios de um Lugar Branco
(Indícios de Oiro),
de Ana Viana,
é apresentado por Pedro Teixeira da Mota
na Casa Fernando Pessoa, Lisboa,
pelas 18h30.


Versos Olímpicos
(Deriva),
de José Ricardo Nunes,
é apresentado por Henrique Manuel Bento Fialho
no Chá de Limão, Caldas da Rainha,
pelas 21H30.
SILVA CARVALHO

A TARDE ILEGÍVEL ALEGRIA


A tarde ilegível, meu olhar roto de azul
perplexo na entidade da luz que em ramos
de árvore volteia verde e tremulina.
Sente-se a água num antegosto do ser,
mas que presença, nos arvora ou define?
Uma nitidez total, quem está aqui é aqui
mais do que texto ou pura necessidade,
a linguagem infiltra-se de súbito silêncio
e sente-se mentalmente a dor da mentira.
Venho até mim como uma apoplexia da sombra,
este calor atávico perdido nos sentidos
que se buscam e acham no perímetro do fogo,
não me reconheço de tanto me desejar vivo,
nenhum passado para nenhum futuro, mas o horror,
o súbito amor, estar presente como árvore
ou azul de céu irremediavelmente objectivo.
Preciso, cicio, voltar atrás, ao zelo e ao sigilo
da infância destituída ou pela memória cega,
uma origem que me abra, uma fonte que me diga
de onde a onde respiro, onde me encontro,
qual o lugar a festejar na pele da terra,
que tempo me inclui na sua desmedida.
Há possivelmente uma outra palavra exacta
para o que não é loucura nem age como acaso,
em que língua a possuir, em que canto revivê-la?
Nunca como agora o simulacro da vida me feriu
tanto de tão diversa maneira, até sentir
a morte me advém impossível ou difícil,
como se se tratasse de uma ideia ou de um mito,
do inexistente que galvaniza os poderes
do que se eleva como mediocridade e história.
Passei por muitos olhares seduzido pelo olhar,
nada me bastou ou foi peremptoriamente essencial,
como justificar tal ingratidão dos sentidos?
Que monstro se apossou de minha alma?
Voltar atrás, refazer caminho, sem lembrança
nem ilusões, soletrando pela primeira vez
uma estadia possível toldada por esta alegria.


7/1/87

(de Da Estupidez, Brasília editora, 1988)

16.4.09

JOÃO CAMILO

3


citai-vos uns aos outros, ó metidos até aos olhos no óleo castanho da nossa civilização milenária, cantai-vos, também, não me convidareis a mim para a celebração dos vossos banquetes inevitáveis, não respondereis às minhas cartas quando da cave das cidades vo-las envio, haveis de detestar-me e esquecer-me-eis antes que eu vos esqueça, será porque não participo convosco do ritual com que prateais as atmosferas, porque não toco as vossas mãos nem estendo a minha língua à comunhão do pão quotidiano que entre vós dividis? e no entanto como eu vos admiro quando da humidade dos cafés de bairro, sentado à mesa das tabernas, infeliz, anónimo, mal vestido, vos recordo, por vossa causa também as raparigas são menos raparigas — ao aceitarem das vossas mãos as palavras com que se abriria um caminho na cidade, por que deveriam ser amadas, não recebem mais do que o cobre que a humidade corroeu, moeda triste com que não poderão comprar nada que não seja de segunda mão. havia de chicotear-me até ao sangue só porque em qualquer parte vos citais e vos amais e continuais a contribuir para a decadência do que vale? vós não me conheceis, quem sabe o significado que os mais atentos de vós atribuiriam ao meu protesto.


(de aos modernos, in Os Filmes Coloridos, edições Árvore, 1978)

15.4.09

JOÃO MIGUEL HENRIQUES

PROMETERAM-NOS BOMBAS


prometeram-nos bombas
os mentirosos,
perdeu-se uma boa ideia
eu tenho pena

o deserto atómico
ter-nos-ia ensinado
a morrer desprevenidos.
e passado o inverno rigoroso
eu teria regressado um cão.
sim, um cão pardo
triste e escanzelado
a farejar os restos insondáveis
da casa dos meus pais.
perdido na poeira dos mortos
entregue a tudo
os olhos humedecidos
amarrados a mim mesmo
pelas patas da frente

(de O Sopro da Tartaruga, edição do Autor, 2005)

13.4.09

IRENE LISBOA

PENSAMENTOS TIDOS NUM SÓTÃO


1

E eu disse-me a mim mesma,
naquele dia casual:
Sim,
em cada livro
ou em cada folha que encheres
assinala a tua mudança!
Não é o fato das pintinhas,
com que te vêem
e já te viram,
o que melhor te veste...
Nem o teu gesto irritado,
nem tão-pouco o abatido
que mais te individualizam.
Vai! Vai seguindo,
indiferente e fiel,
pelo fino traço do teu capricho,
um traço solto,
mas severo e sincero...

E assim,
depois das mais breves
e das mais resumidas frases,
do teu laconismo mais acre,
alaga-te em palavras.
Abre-te em palavras!
Que as palavras às bagoadas
te serenem e reconfortem.

Embora não valham nada!
Palavras!
Matilha desordenada e feliz,
lançada atrás de uma pista,
excitante e enganosa...

2

Olhos novos,
meus olhos novos,
sempre ingénuos e sempre imprevidentes,
colhei impressões,
uma a uma, uma a uma,
como se fossem flores...
E virai-vos para cima, para o ar.

O ar, a eterna surpresa!
Linda coisa!
A sua cor...
Posso não ter nada
e não tenho,
nem desejos, nem sonhos,
mas tenho o ar!
Este fino ar,
que cobre todos os telhados...
O ar!

3

Coração robusto,
hostil e robusto,
que queres quebrar e enfraquecer,
em ti há
não sei que dureza profunda,
que febra,
que lucidez e que violência
que sempre te sustentam!

A cada momento te fechas
como uma ardente flor ferida...
Robusto coração sem consolo,
grosseiro novelo sem ponta!
Mundo, afinal...
Mundo,
força débil e improfícua
mas indestrutível.

João Falco

(in Folhas Soltas da Seara Nova (1929-1955), Antologia, Prefacio e Notas de Paula Morão, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1986 – Biblioteca de Autores Portugueses)
RAUL DE CARVALHO

TAUTOLOGIAS

1958

A Irene Lisboa

O tempo imovível...
Irene Lisboa

Uns pingos de sangue
seco.
Umas rugas na cara
de semblante impávido.
Um olhar parado
e de vidro.
Um riso de espada
afiada.
Lágrimas? Esquecidas.

Apenas um som
movendo-se oblíquo
no tempo imovível.

Eis que o lápis pousa
e logo se arrepende.
Medita, primeiro.
E depois desiste.

Cansa-se, é o caso.
Perguntas tão várias
e tão parecidas...

Todas convergindo,
refluindo, indo...

No vaivém da alma,
carrinho de mão...

E impeditivas todas
que o lápis se fixe,
se ajuste, se ligue,
apanhe a memória.

E tudo indeciso
entre começar e recomeçar.

Quantas coisas sempre
e tão obscuras...

Por que fiz eu isto?...
E por que mo fizeram?...

Uma decepção
passageira outrora
que deixou de o ser.

Enfim, um destino
por demais puído.
Gasto, rebentado, é o que é.

Queixas ou desculpas
de outro mundo...

Que fazeis agora
comigo indiferente.

Deitado. Repleto.
Com sombras a mais.

Um corpo que ainda
permanece equívoco.

Tempo... que demora…


Um tempo em que o corpo
substituía
a alma...

Agora nem uma
nem outra coisa.

Um cansaço estreme.


E uma confusão...
Um distraimento
lívido...

Um pensar sem causa
nem predestinação.

O peso, a medida de cada palavra.
Auxiliando a alma.
O único auxílio.

Regista-se, e pronto.
Nada nos pertence.


Um entendimento
nebuloso,
teimoso.
Desesperado.

Uma aranha ou unha.
Cravando. Arranhando.
Imperceptivelmente.

Mas doendo tanto.


Grades. Muitas grades.
E os olhos passam
por elas.

Só os olhos. O resto
de nós em nós fica.

Exausto. Indisposto
a acompanhar-nos
por outros caminhos.

Tudo igual. Afinal
tudo igual.

Só esta casa
não muda.

Este ar.
Este fumo.
Este cheiro.
Esta gaiola.

Este corpo preso.
Esta alma aflita.
Esta inquietação
obscura, inanimada, certa, conivente.

Perseguindo o quê?
Coisas, coisas que não valem a pena…

Gosto imenso desta
camisa já velha.
É das poucas coisas
a que, durante a vida,
eu me habituei
e se me habituaram.

Faz-me companhia.
Pequena e gasta
sombra do fino ramo
dum salgueiro
no rio...


A dificuldade
de seguir um traço
até ao fim.

Há sempre um momento
em que uma recordação
muda o curso ao pensamento.

O coração contrai-se.
O risco foge.
A alma ausenta-se.

Nunca mais a gente
sabe aonde está.

Hoje igual a ontem.
E é tudo.

Gasto. Nu. Diferente
da mesma maneira.

A porta fechou-se.
Nunca mais se abre.
A mão todavia
bate por bater.

É por vício ou gosto?
Ou monotonia?

Os peixes
mesmo depois de apanhados
na rede
continuam a
debater-se...

Assim eu. A vida
é assim tão importante?...


Claras, claras coisas.

Muito exactas. Simples. Sóbrias e poucas.
Sem música. Alegres. Mas só de existir.
De estar ali. De se deixarem ver. Imunemente.

Leves, leves os passos de quem entra.
Um andar sem esforço, sem ambição de maior.

A não ser, talvez,
o desejo inconsciente
de não pedir
nem dar.

De ser, unicamente.


Desfiar
sem pressas
um rosário de contas
frias.

Sabê-lo pelo tacto.
Achar correspondências
felizes sem motivo.

Não ter mais sentimentos. Ter ideias.
Mas estas
limitadas e poucas. Meia dúzia.

Limpar a alma
com uma vassoura
Fora! fora tudo o que está a mais.


Fazer dos poemas
passeios.
Longos. Deslembrados. Meio loucos.

Um pêndulo.
Com a palavra agindo
por sua conta.

Águas irrigando
vidas alheias.

A nossa, seca.
Seca e longe. E longe.


Páginas, páginas soltas.
Uma coisa qualquer
que se esqueceram de juntar.

E ficou assim.
Esquecida. Solta. Inútil.


Medo. Medo que a memória
reincida na dor.

Os disfarces são
estas e as outras palavras.

As que não procuram
ser meigas nem belas.
As que são as nossas
únicas amigas.
As que não se iludem
a nosso respeito.
As que sabem tudo,
tudo da nossa vida.
Enfim, as nossas
fiéis companheiras.

Se não fossem elas,
ai de nós, enlouquecíamos…


Cada palavra
é uma comporta
num rio...

E o rio corre.
Sentimo-lo correr.
Há alívio, há mágoa,
há sossego nisso.

Voltaremos sempre
ao ponto onde o rio
começa a correr:

Antes não fora água.
Antes não fora mágoa.
Antes não fora rio.


Pedras, pedrinhas que se atiram.

E depois se apanham, se acolhem, se afagam, se espiam.

Uma ocupação
como qualquer outra...


Só desolação
à volta.
Que espectáculo triste
o azul da água
dum rio
correndo
desamparado
por entre campos e campos
áridos, secos, sós.

Sem palavra amena.
Sem carinho de asa.
Sem uma chaminé
com o lume aceso.

Sem árvore ou pessoa
que dê pela nossa
presença.

Que ajude a correr
Prazenteiramente
a água do rio.

Deste rio sem margens
ou talvez sem fundo.

Que nos molha as mãos.
Que nos tolhe a vida.

Horas e horas, dias e dias, anos e anos
sobre a mesma terra
que nos ignora.


Quem me dera pôr
um ponto final
nisto tudo...


26, 27, 28 e 29 de Agosto,
1 e 2 de Setembro de 1958.


POSFÁCIO

Creio que três palavras sintetizam, em minha consciência, a necessidade e o curso deste poema. São elas: lição, admiração, libertação.

Lição: de sobriedade, limpidez, precisão, emoção captada — que tudo isso eu vejo luminosamente espelhado na obra de Irene Lisboa. E lição esta que eu gostaria tanto de aprender um pouco... Porque vejo nela, hoje e talvez sempre, os essenciais pontinhos luminosos para que aponta, percebe-se, a mais forte ambição dum escritor ou poeta, aquilo que dá vida longa e digna ao que vai pensando e escrevendo, escrevendo e pensando...

Admiração. Já se sabe que a própria admiração — humedecida... — que se sente por um Escritor e obra que quase nos intimidam, nos desencorajam, nos fazem ver (nos abrem os olhos!...) a nossa pobreza, a nossa ignorância. Mas, o curioso, é que há conforto nisso, nesse puro sentimento de admiração sincera, uma nossa irmã.

Libertação, por fim. E apenas direi: Também em Literatura, neste tête-à-tête de autor para autor, o amor pelos outros é alienatório. Coercitivo. Um peso. Sobretudo em razões do estilo. Quando os sentimentos e o mais que a forma veicula e desnuda são comunicados, assim, tão infalivelmente... espreita-nos o perigo que sabeis qual é. A ele honestamente aludo, e é dele no fim e ao cabo — mas não por orgulho, por fidelidade, sim — que me quero libertar. Não passa este poema duma tentativa: humilde, duma vez; e julgo que necessária. Senti-o passo a passo (aqui mais, ali menos) mas sempre objectiva e serenamente. No fim, com algum contentamento. O de não faltar, digo, à responsabilidade que implica ter lido como eu li uma Obra que está, sinto-o, dentro e fora de mim, em mim e para além de mim...
A publicação do poema corresponde, muito, a este último desiderato.


2-IX-58.


(de Tautologias, 1968)
A Rute podia ter sido amiga da Irene e criou um blogue para a lembrar. Vale a pena lá ir e descobrir o mais que se pode encontrar na net sobre Irene Lisboa e que está referenciado na barra da direita.
Irene Lisboa é um dos casos mais injustos de esquecimento da nossa literatura. Injusto por ser uma obra belíssima, reveladora de uma voz original e de abertura de novos caminhos para alguns dos que a leram.
Também por este blogue, Irene Lisboa tem aparecido pouco, mas um dos primeiros posts que aqui coloquei foi dedicado a ela. Convém lembrar o que dizem Paula Morão (responsável pela reedição e por um esforço de divulgação da sua obra) e José Gomes Ferreira.