[Quis o acaso que eu lesse este poema a bordo do autocarro suburbano, quando subia (ronceiramente) do viaduto Duarte Pacheco para Monsanto. Nunca tinha sentido tão explicitamente que ler um texto é, também (sempre?), fazer o percurso inverso àquele que o Autor fez.]
JOSÉ MÁRIO SILVA
citröen 2 cv
Para o João Almeida
Na descida de Monsanto para o viaduto Duarte Pacheco, o ponteiro da velocidade desaparecia completam ente, perdido para lá da marca laranja dos 120 quilómetros por hora. O carro trepidava e tudo à nossa volta – o motor em alta rotação, as estrelas através da capota aberta, a silhueta de Lisboa, as infinitas bifurcações da juventude - tudo à nossa volta era uma vertigem.
(de Luz Indecisa, Oceanos, 2009)
LUDWIG VAN BEETHOVEN
Piano Concerto No 2
(Berlin Philharmoniker, conduzida por Claudio Abbado; Solista: Mikhail Pletnev)*
Beethoven, concerto número dois para piano. Com um canivete corta-me devagar por dentro a parte da alma mais encostada à carne. O prazer que a Camões também doía e as palavras de depois de inventá-lo. O sol que brilha e ilumina o verde das primaveras que nesta se repetem. Enu- merar: como quem coloca cada som depois do outro e parte para a solidão. Uma lâmina pequena corta-me por dentro das próprias veias no meu corpo desconhecido as mais pequenas fibras. E sei que existem e é delas que se extrai a revolta com que vou nascendo para ver-me de pé enquanto reaprendo a não esquecer que um dia finalmente tudo terá passado. E esta aventura de estar aqui hoje há-de perder-se no tempo que consome tudo e nos consome a nós no uso de nós mesmos. Afeiçoarei o meu corpo cada dia mais definitivamente à imagem da pequena morte que nos chega que toca os olhos na retina os ouvidos na membrana do tímpano e passa a circular no sangue com a embriaguez. Assassínio lento de mim mesmo, Claudio Arrau pianista chileno vai pontuando o tactear da lâmina no meu corpo e eu sentado contemplo as cores dos objectos à minha volta e vou dando pelo espanto de assistir à passagem de mim mesmo pelo que me rodeia.
O CAMPEÃO DE ROLAND GARROS
Esta tarde sou eu o homem da raqueta mágica. A minha juventude resplandece no terreno central de Roland Garros. Ergo o braço vigoroso, olho fixamente o meu adversário ao fundo sobre a linha a saltitar. Lanço a bola ao ar e bato com força, vejo-a rasar a rede, quem poderia pará-la e devolver-ma perigosamente? O público aplaude e eu limpo o suor do rosto com a mão, tomo posição de novo e vou bater a bola com a mesma convicção. A minha perna esquerda suporta o peso do corpo, a mão direita segura na raqueta com energia e o braço corta o ar veloz enquanto o ruído seco da bola batendo na terra soa no silêncio como a música da perfeição. Mais quinze pontos. Dentro de pouco tempo tenho mais um jogo ganho. Para isso passei as manhãs em exercícios, me privei do álcool e do fumo, das distracções fugazes e inúteis. Se o olhar das raparigas não me escapa, nem os belos dentes brancos que elas têm, nem os seus braços nus, os seios redondos, a minha preocupação maior é respeitar o andamento deste concerto, responder ao meu adversário com o rigor dos gestos que surpreendem e causam admiração. Dói-me como o problema do desemprego nas sociedades modernas escravas do lucro e da vontade de produzir a bola mal batida que sai fora das linhas brancas deste jogo. Tem-me atormentado noites inteiras a devolução defeituosa que fiz de uma bola fácil que me enviara um jogador medíocre. Às vezes impede-me de comer a sensação que tenho de não poder colocar todas as bolas no interior do rectângulo. Mas o homem é um ser imperfeito apesar de todas as horas de aprendizagem, de todos os minutos passados a aperfeiçoar os gestos mais simples. Erros de cálculo, a bola que devia passar a rede e não passou, ou a que vai sair ligeiramente ao lado dos limites fixados. Esta tarde, porém, a sorte sorri-me. Ou antes: os meus gestos são de uma perfeição à medida da minha lucidez e energia. A consciência que eu tenho de dominar os elementos inebria-me e em cada corrida que dou crescem-me asas e aumenta a minha confiança nos limites e capacidades humanas. Estou contente comigo mesmo. Não sou vaidoso, estou apenas satisfeito com este rigor. O meu adversário é obrigado a deslocar-se de um canto do terreno para o outro a toda a velocidade. Às vezes, claro, não chega a tempo. Terá trabalhado tanto como eu, passado tantas horas a ensinar o corpo a obedecer-lhe, a não traí-lo? A atenção, a enorme concentração é que explicam em grande parte a minha precisão. Conheço também as manhas e manias das bolas que batidas vêm a rodar sobre si mesmas ao encontro da minha raqueta. O meu jogo de pernas, segundo os entendidos, assemelha-se ao de um jogador de golfe, ou de hóquei, ou de boxe. A mim parece-me que sobretudo é idêntico ao gesto do violinista que percorre a corda e cria o som de um rigor e intensidade que penetram em todas as fibras do espírito. A minha única vaidade é estar contente. Bem sei que à margem deste campo desportivo (com gente sentada nas bancadas a seguir atentamente o mais pequeno dos meus gestos) existem outras coisas. O desemprego dos jovens, a ameaça atómica, a vida absurda nas cidades modernas, porém, não me são desconhecidos. Sei também que a beleza é um pássaro excessivo ao lado da miséria e dos defeitos físicos. Ao ver-me agir, porém, e ignorando quanto da minha imperfeição se esconde na facilidade com que executo estes gestos rituais e calorosos, quantos não terão sentido por momentos que a força secreta que governa o nosso destino se podia finalmente libertar? Nunca discuto a decisão do árbitro, mesmo se o público assobia, mesmo se vi a bola cair dentro ou fora ao contrário do que ele diz: o jogo é humano e os homens erram, tenho muitas bolas e toda a tarde para provar o meu talento e a minha força. É altura de pôr em jogo bolas novas. Vejo-as brancas a saltitar na terra vermelha e tomo-lhe o peso, sinto na mão a aspereza nova dos seus pêlos. Ah, ser sempre jovem. Bato-as com força e o meu adversário do outro lado da rede não consegue resistir durante muito tempo à pressão que eu exerço. A dado momento acaba por enervar-se, pensa que vai surpreender-me, e lança a bola para lá do risco. Paço depressa quarenta pontos. O jogo está muito perto do fim. Admiro o jogador que me faz correr a mim e me obriga a ser inteligente, é ele o instrumento da minha glória e do meu contentamento. É ele, também, quem me impede de atingir enfim a perfeição divina. É por isso que não sorrio por fora, que nem sequer deixo o entusiasmo ganhar-me muito por dentro? Continuo sem perturbar-me a executar da maneira mais austera esta partição.
(de Na Pista Entre as Linhas, Gota de Água e Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1982 - Plural)
* Aparentemente, o Concerto No 2 é o único de Beethoven que não se encontra no YouTube interpretado por Claudio Arrau, o intérprete referido no poema.
Livraria Pó dos Livros, 19h00. Jorge Silva Melo apresenta o livro (em jeito de conversa). Miguel-Manso lê alguns poemas.
JOÃO CAMILO
NAS ALÇAS DA MEMÓRIA
Chovia. Na minha memória. E eu chorava. Mas não chorava. Lágrimas ou as saudades das manhãs no campo eu sou um ser remarcavelmente com saúde. A água corria. Na torneira estornecia. Ou entornava-se ou destorneirava-se a mim é que ninguém vinha dizer os hinos que se escutam nas banheiras nas tardes em que o sol aquece porque sim. E porque não. E amarela e vai descolorindo. As paredes. Dos conventos. Os muros das adegas das aldeias as torres das igrejas nas planícies. Histórias. A minha infância que me caía ou escorria não sei se dos meus pés se do tecto branco da casa branca onde então seguia. Vivia e ia morrendo. Mas vivia. Dava por isso quando punha o cinzeiro na frente da mulher em quem as minhas mãos procuravam recordar-me de qualquer coisa em que não pensavam. Se estar vivo é isto de tão triste e não saber. Se saber é triste de tão isto e não estar. Que sei lá. Quem o dirá ou o diria a mim que com olhos verdes me arrependo me arrepenteio nos cabelos dos meus dias? Assim? Assim. Há caranguejos e outras banalidades há a mesa em que me apoio e os prédios ao lado de que serviria pô-los para cima? Assim. É assim que se dá conta do olhar com óculos que do buraco de madeira cavado no vazio me lançava as chispas com que se misturam à noite em casa os ócios e o desejo. E a raiva. Mas quem dessa camisa com suor na manga havia de extrair o papel branco com o poema quase redigido? Uma camisa é uma camisa. Nada a fazer. Constatar que um homem dorme quando o sol circula nas alturas pouco vertiginosamente. E a pressa. E o binóculo. E morrer e pedir e esquecer e esmolar com que se esmurre a cara daqueles que nos têm ofendido. Que são muitos. Eu estava e estive tenho estado e revejo que estarei para suportar o peso ainda desses anos em que a camisa finalmente despedida – ah as histórias que a gente inventa para não ter de falar da viabilidade da vida. Ou é nos intervalos do silêncio que se rompem os vidros da janela onde estivemos com ideias de voltar? E não voltámos não revimos nunca mais esse quarto de cama essa cama de quarto esses bonecos espintalgados na parede. Na parede branca. E havia a janela. E o tecto era baixo e estava-se bem ali certamente no outro dia de manhã longe dos homens com aquele corpo com aqueles olhos da desperdiçada rapariga. E hoje é isto. Vaga recordação de natais que se perderam olhos e lâmpadas ruas de cidade onde passámos muito brevemente numa janela de comboio de viagem.
À HORA DO CAFÉ
Há salgueiros na margem e um rio sobe nas tuas pernas, a planície começa na lenta rampa do teu seio. Os peixes jovens exploram a areia, conserva a montanha suave o segredo da solidão. É não provocar no sangue que corre sobressaltos enormes que é melhor. Mas a inocente violência da infância tão cedo terminada, a exigência áspera dos ossos dos joelhos? Antes de ires, desconhecida, olha para mim. Como se te bastasse estar ao meu lado no cinema ou fôssemos depois de amanhã passear à tarde no campo. Antes de partires, e nunca mais te verei, de me pores, como à carne quase crua e doce, de lado na tua memória.
(de O Ruído Fino, in A Jovem Poesia Portuguesa / 1, Limiar, 1979 – Os Olhos e a Memória)
Afinal aqueles imbondeiros Paquidermes de raízes e flores Soldados fantasmas Eram os guardas verdadeiros Permanentes e firmes Aos ventos e aos calores Por sobre um tesouro milenário.
Guardaram com os seus braços levantados E seus corpos dilatados Ocupando Todo o areal enorme Imenso Como fantoches disfarçados Afugentando os homens Com os seus corpos feios Blindados de chumbo.
Afinal aqueles imbondeiros São os guardas que foram vencidos Todos Quase todos serão sepultados Sobre eles cairão As torres de ferro e de triunfo.
Um novo poema em gritos de luz e de força Surgirá das profundidades do vasto areal Haverá mais trabalho e felicidade Em nova fase de visões e fatalidades.
Eu como poeta Dono da fantasia e da realidade Dono de tudo sem querer nada Em novos Cânticos sociais e humanos Cantarei humanamente A minha terra e o meu petróleo.
(de Areal, Colecção Imbondeiro, 1961)
26.4.09
JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE
[excerto de] FLOR DA ROSA
Na passagem do século XIII para o século XIV, D. Gonçalo Pereira teve filhos e filhas que não interessam para a chegada, até nós, da fundação do mosteiro da Flor da Rosa. Mas houve um filho que teve o seu exacto nome, Gonçalo Pereira, e que foi arcebispo de Braga. Este arcebispo um outro filho teve, Dom frei Álvaro Gonçalves Pereira, que foi prior do Hospital e que depois de ter vivido na sede da sua ordem, na ilha de Rodes, viria a erguer a igreja de Santa Maria da Flor da Rosa. Igreja, mosteiro e fortaleza ficam nas proximidades do Crato. Entre filhos e filhas, em número superior a trinta, ele seria o pai de D. Nuno Álvares Pereira, segundo o capítulo inicial da «Coronica do Condestabre».
(…)
(in A Flor da Rosa, Relógio d’Água editores, 2000)
MÁRIO BEIRÃO
NUN'ÁLVARES
Senhor! Por mim, teu espírito visita O Reino onde servi como soldado, Por ti, meu coração alevantado, Por ti, este burel de carmelita!
A humilde cela que o teu filho habita É um cárcere de lágrimas banhado; Condoa-se do olhar do emparedado, A luz desses teus olhos, infinita!
Senhor, perdoa ao monge arrependido Se ainda não mereço a tua dor, Reduz-me à escuridão do eterno olvido!
Soberbo eu fui, perdoa ao vencedor, Ao vencedor dos homens, - o vencido Por teu pranto humaníssimo, Senhor!
(de Lusitânia, 1917 / 2ª edição: Livraria Tavares Martins, 1964)
ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA
EXORTAÇÃO FRENTE À ESTÁTUA DO CONDESTÁVEL NA BATALHA
Para Mário Saraiva
Cavalga no bronze da glória À ilharga do túmulo real, Aqui, onde ficou, em pedra e fé, memória Da mais vital vitória De Portugal.
E ergue a espada nua. (Em certo dia Bastara meia espada Para enfrentar a cobardia E vencer a batalha antes de começada.)
E o peito ovante oculta, floreada, A cruz do seu brasão: Como a sua alma e coração (branca e encarnada), É divina divisa devotada Ao Mestre, ao Rei e ao Irmão.
E olha o céu, caminho seu, seguro, Pois sabe que no céu tudo se escoa E Deus é sempre o futuro, O último senhor do ceptro e da coroa.
Ó português que passas, indiferente, Frente à estátua do Santo, do Herói: Não te dói o presente? A tua pátria doente Não te dói?
Não sentes o desejo, o ímpeto de orar Àquele que nos foi o salvador; Pedir-lhe para regressar, Formar quadrado contra o agressor?
De ter de novo como Capitão, Por Deus e Pátria e Rei, o Herói, o Santo? E de poder dizer altivamente não, Seguindo o seu pendão, Onde arde a esperança que perdeste há tanto?
Ah, se não queres marchar, em som de guerra, Tal como ele, por um ideal, É que não vale a pena o sangue, a terra, E morre Portugal.
(de Estado Estacionário, edições Cultura Monárquica, 1988)
Olha enfia a carapuça Mas não compres o velho fato De ananás O estilo não se empresta E nada tem sentido A tua falta, meu papuça Se podes ou não podes Tanto faz
Experimenta sair Um pouco, está bom tempo Na Arrábida para os ninhos Meu rapaz Amanhã é feriado em Paio Pires Aguça O teu ouvido rouco-mouco Em aguarrás
A multidão na rua - É Zé! Ouve-se a banda tocando O M. F. A. Vai o Borges, o Pina, o Xaimite e a Bibas Balouçando A revolução é p'ra já
A bota trocada O canto na varanda De rota batida Para Luanda Só menos um furo No cinto apertado É já Primavera Amar não é pecado Na fímbria da saia A lagartixa verde E um dia alegre À nossa espera, bebe
Estamos na seca A paz é pouca Dorme uma soneca A tia louca Limpa os sovacos Com esse spray Amanhã é dia De «Dancing Days»
Põe nessa boca Uma chupeta Amanhá é dia De Dona Xepa
(do álbum Como se fora seu filho, 1983 - no vídeo: ao vivo, no Coliseu de Lisboa, em 29 de Janeiro de 1983)
17.4.09
Hoje.
Murmúrios de um Lugar Branco (Indícios de Oiro), de Ana Viana, é apresentado por Pedro Teixeira da Mota na Casa Fernando Pessoa, Lisboa, pelas 18h30.
Versos Olímpicos (Deriva), de José Ricardo Nunes, é apresentado por Henrique Manuel Bento Fialho no Chá de Limão, Caldas da Rainha, pelas 21H30.
SILVA CARVALHO
A TARDE ILEGÍVEL ALEGRIA
A tarde ilegível, meu olhar roto de azul perplexo na entidade da luz que em ramos de árvore volteia verde e tremulina. Sente-se a água num antegosto do ser, mas que presença, nos arvora ou define? Uma nitidez total, quem está aqui é aqui mais do que texto ou pura necessidade, a linguagem infiltra-se de súbito silêncio e sente-se mentalmente a dor da mentira. Venho até mim como uma apoplexia da sombra, este calor atávico perdido nos sentidos que se buscam e acham no perímetro do fogo, não me reconheço de tanto me desejar vivo, nenhum passado para nenhum futuro, mas o horror, o súbito amor, estar presente como árvore ou azul de céu irremediavelmente objectivo. Preciso, cicio, voltar atrás, ao zelo e ao sigilo da infância destituída ou pela memória cega, uma origem que me abra, uma fonte que me diga de onde a onde respiro, onde me encontro, qual o lugar a festejar na pele da terra, que tempo me inclui na sua desmedida. Há possivelmente uma outra palavra exacta para o que não é loucura nem age como acaso, em que língua a possuir, em que canto revivê-la? Nunca como agora o simulacro da vida me feriu tanto de tão diversa maneira, até sentir a morte me advém impossível ou difícil, como se se tratasse de uma ideia ou de um mito, do inexistente que galvaniza os poderes do que se eleva como mediocridade e história. Passei por muitos olhares seduzido pelo olhar, nada me bastou ou foi peremptoriamente essencial, como justificar tal ingratidão dos sentidos? Que monstro se apossou de minha alma? Voltar atrás, refazer caminho, sem lembrança nem ilusões, soletrando pela primeira vez uma estadia possível toldada por esta alegria.
7/1/87
(de Da Estupidez, Brasília editora, 1988)
16.4.09
JOÃO CAMILO
3
citai-vos uns aos outros, ó metidos até aos olhos no óleo castanho da nossa civilização milenária, cantai-vos, também, não me convidareis a mim para a celebração dos vossos banquetes inevitáveis, não respondereis às minhas cartas quando da cave das cidades vo-las envio, haveis de detestar-me e esquecer-me-eis antes que eu vos esqueça, será porque não participo convosco do ritual com que prateais as atmosferas, porque não toco as vossas mãos nem estendo a minha língua à comunhão do pão quotidiano que entre vós dividis? e no entanto como eu vos admiro quando da humidade dos cafés de bairro, sentado à mesa das tabernas, infeliz, anónimo, mal vestido, vos recordo, por vossa causa também as raparigas são menos raparigas — ao aceitarem das vossas mãos as palavras com que se abriria um caminho na cidade, por que deveriam ser amadas, não recebem mais do que o cobre que a humidade corroeu, moeda triste com que não poderão comprar nada que não seja de segunda mão. havia de chicotear-me até ao sangue só porque em qualquer parte vos citais e vos amais e continuais a contribuir para a decadência do que vale? vós não me conheceis, quem sabe o significado que os mais atentos de vós atribuiriam ao meu protesto.
(de aos modernos, in Os Filmes Coloridos, edições Árvore, 1978)
15.4.09
JOÃO MIGUEL HENRIQUES
PROMETERAM-NOS BOMBAS
prometeram-nos bombas os mentirosos, perdeu-se uma boa ideia eu tenho pena
o deserto atómico ter-nos-ia ensinado a morrer desprevenidos. e passado o inverno rigoroso eu teria regressado um cão. sim, um cão pardo triste e escanzelado a farejar os restos insondáveis da casa dos meus pais. perdido na poeira dos mortos entregue a tudo os olhos humedecidos amarrados a mim mesmo pelas patas da frente
(de O Sopro da Tartaruga, edição do Autor, 2005)
13.4.09
IRENE LISBOA
PENSAMENTOS TIDOS NUM SÓTÃO
1
E eu disse-me a mim mesma, naquele dia casual: Sim, em cada livro ou em cada folha que encheres assinala a tua mudança! Não é o fato das pintinhas, com que te vêem e já te viram, o que melhor te veste... Nem o teu gesto irritado, nem tão-pouco o abatido que mais te individualizam. Vai! Vai seguindo, indiferente e fiel, pelo fino traço do teu capricho, um traço solto, mas severo e sincero...
E assim, depois das mais breves e das mais resumidas frases, do teu laconismo mais acre, alaga-te em palavras. Abre-te em palavras! Que as palavras às bagoadas te serenem e reconfortem.
Embora não valham nada! Palavras! Matilha desordenada e feliz, lançada atrás de uma pista, excitante e enganosa...
2
Olhos novos, meus olhos novos, sempre ingénuos e sempre imprevidentes, colhei impressões, uma a uma, uma a uma, como se fossem flores... E virai-vos para cima, para o ar.
O ar, a eterna surpresa! Linda coisa! A sua cor... Posso não ter nada e não tenho, nem desejos, nem sonhos, mas tenho o ar! Este fino ar, que cobre todos os telhados... O ar!
3
Coração robusto, hostil e robusto, que queres quebrar e enfraquecer, em ti há não sei que dureza profunda, que febra, que lucidez e que violência que sempre te sustentam!
A cada momento te fechas como uma ardente flor ferida... Robusto coração sem consolo, grosseiro novelo sem ponta! Mundo, afinal... Mundo, força débil e improfícua mas indestrutível.
João Falco
(in Folhas Soltas da Seara Nova (1929-1955), Antologia, Prefacio e Notas de Paula Morão, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1986 – Biblioteca de Autores Portugueses)
RAUL DE CARVALHO
TAUTOLOGIAS 1958
A Irene Lisboa
O tempo imovível... Irene Lisboa
Uns pingos de sangue seco. Umas rugas na cara de semblante impávido. Um olhar parado e de vidro. Um riso de espada afiada. Lágrimas? Esquecidas.
Apenas um som movendo-se oblíquo no tempo imovível.
Eis que o lápis pousa e logo se arrepende. Medita, primeiro. E depois desiste.
Cansa-se, é o caso. Perguntas tão várias e tão parecidas...
Todas convergindo, refluindo, indo...
No vaivém da alma, carrinho de mão...
E impeditivas todas que o lápis se fixe, se ajuste, se ligue, apanhe a memória.
E tudo indeciso entre começar e recomeçar.
Quantas coisas sempre e tão obscuras...
Por que fiz eu isto?... E por que mo fizeram?...
Uma decepção passageira outrora que deixou de o ser.
Enfim, um destino por demais puído. Gasto, rebentado, é o que é.
Queixas ou desculpas de outro mundo...
Que fazeis agora comigo indiferente.
Deitado. Repleto. Com sombras a mais.
Um corpo que ainda permanece equívoco.
Tempo... que demora…
Um tempo em que o corpo substituía a alma...
Agora nem uma nem outra coisa.
Um cansaço estreme.
E uma confusão... Um distraimento lívido...
Um pensar sem causa nem predestinação.
O peso, a medida de cada palavra. Auxiliando a alma. O único auxílio.
Regista-se, e pronto. Nada nos pertence.
Um entendimento nebuloso, teimoso. Desesperado.
Uma aranha ou unha. Cravando. Arranhando. Imperceptivelmente.
Mas doendo tanto.
Grades. Muitas grades. E os olhos passam por elas.
Só os olhos. O resto de nós em nós fica.
Exausto. Indisposto a acompanhar-nos por outros caminhos.
Tudo igual. Afinal tudo igual.
Só esta casa não muda.
Este ar. Este fumo. Este cheiro. Esta gaiola.
Este corpo preso. Esta alma aflita. Esta inquietação obscura, inanimada, certa, conivente.
Perseguindo o quê? Coisas, coisas que não valem a pena…
Gosto imenso desta camisa já velha. É das poucas coisas a que, durante a vida, eu me habituei e se me habituaram.
Faz-me companhia. Pequena e gasta sombra do fino ramo dum salgueiro no rio...
A dificuldade de seguir um traço até ao fim.
Há sempre um momento em que uma recordação muda o curso ao pensamento.
O coração contrai-se. O risco foge. A alma ausenta-se.
Nunca mais a gente sabe aonde está.
Hoje igual a ontem. E é tudo.
Gasto. Nu. Diferente da mesma maneira.
A porta fechou-se. Nunca mais se abre. A mão todavia bate por bater.
É por vício ou gosto? Ou monotonia?
Os peixes mesmo depois de apanhados na rede continuam a debater-se...
Assim eu. A vida é assim tão importante?...
Claras, claras coisas.
Muito exactas. Simples. Sóbrias e poucas. Sem música. Alegres. Mas só de existir. De estar ali. De se deixarem ver. Imunemente.
Leves, leves os passos de quem entra. Um andar sem esforço, sem ambição de maior.
A não ser, talvez, o desejo inconsciente de não pedir nem dar.
De ser, unicamente.
Desfiar sem pressas um rosário de contas frias.
Sabê-lo pelo tacto. Achar correspondências felizes sem motivo.
Não ter mais sentimentos. Ter ideias. Mas estas limitadas e poucas. Meia dúzia.
Limpar a alma com uma vassoura Fora! fora tudo o que está a mais.
Fazer dos poemas passeios. Longos. Deslembrados. Meio loucos.
Um pêndulo. Com a palavra agindo por sua conta.
Águas irrigando vidas alheias.
A nossa, seca. Seca e longe. E longe.
Páginas, páginas soltas. Uma coisa qualquer que se esqueceram de juntar.
E ficou assim. Esquecida. Solta. Inútil.
Medo. Medo que a memória reincida na dor.
Os disfarces são estas e as outras palavras.
As que não procuram ser meigas nem belas. As que são as nossas únicas amigas. As que não se iludem a nosso respeito. As que sabem tudo, tudo da nossa vida. Enfim, as nossas fiéis companheiras.
Se não fossem elas, ai de nós, enlouquecíamos…
Cada palavra é uma comporta num rio...
E o rio corre. Sentimo-lo correr. Há alívio, há mágoa, há sossego nisso.
Voltaremos sempre ao ponto onde o rio começa a correr:
Antes não fora água. Antes não fora mágoa. Antes não fora rio.
Pedras, pedrinhas que se atiram.
E depois se apanham, se acolhem, se afagam, se espiam.
Uma ocupação como qualquer outra...
Só desolação à volta. Que espectáculo triste o azul da água dum rio correndo desamparado por entre campos e campos áridos, secos, sós.
Sem palavra amena. Sem carinho de asa. Sem uma chaminé com o lume aceso.
Sem árvore ou pessoa que dê pela nossa presença.
Que ajude a correr Prazenteiramente a água do rio.
Deste rio sem margens ou talvez sem fundo.
Que nos molha as mãos. Que nos tolhe a vida.
Horas e horas, dias e dias, anos e anos sobre a mesma terra que nos ignora.
Quem me dera pôr um ponto final nisto tudo...
26, 27, 28 e 29 de Agosto, 1 e 2 de Setembro de 1958.
POSFÁCIO
Creio que três palavras sintetizam, em minha consciência, a necessidade e o curso deste poema. São elas: lição, admiração, libertação.
Lição: de sobriedade, limpidez, precisão, emoção captada — que tudo isso eu vejo luminosamente espelhado na obra de Irene Lisboa. E lição esta que eu gostaria tanto de aprender um pouco... Porque vejo nela, hoje e talvez sempre, os essenciais pontinhos luminosos para que aponta, percebe-se, a mais forte ambição dum escritor ou poeta, aquilo que dá vida longa e digna ao que vai pensando e escrevendo, escrevendo e pensando...
Admiração. Já se sabe que a própria admiração — humedecida... — que se sente por um Escritor e obra que quase nos intimidam, nos desencorajam, nos fazem ver (nos abrem os olhos!...) a nossa pobreza, a nossa ignorância. Mas, o curioso, é que há conforto nisso, nesse puro sentimento de admiração sincera, uma nossa irmã.
Libertação, por fim. E apenas direi: Também em Literatura, neste tête-à-tête de autor para autor, o amor pelos outros é alienatório. Coercitivo. Um peso. Sobretudo em razões do estilo. Quando os sentimentos e o mais que a forma veicula e desnuda são comunicados, assim, tão infalivelmente... espreita-nos o perigo que sabeis qual é. A ele honestamente aludo, e é dele no fim e ao cabo — mas não por orgulho, por fidelidade, sim — que me quero libertar. Não passa este poema duma tentativa: humilde, duma vez; e julgo que necessária. Senti-o passo a passo (aqui mais, ali menos) mas sempre objectiva e serenamente. No fim, com algum contentamento. O de não faltar, digo, à responsabilidade que implica ter lido como eu li uma Obra que está, sinto-o, dentro e fora de mim, em mim e para além de mim...
A publicação do poema corresponde, muito, a este último desiderato.
2-IX-58.
(de Tautologias, 1968)
A Rute podia ter sido amiga da Irene e criou um blogue para a lembrar. Vale a pena lá ir e descobrir o mais que se pode encontrar na net sobre Irene Lisboa e que está referenciado na barra da direita.
Irene Lisboa é um dos casos mais injustos de esquecimento da nossa literatura. Injusto por ser uma obra belíssima, reveladora de uma voz original e de abertura de novos caminhos para alguns dos que a leram.
Também por este blogue, Irene Lisboa tem aparecido pouco, mas um dos primeiros posts que aqui coloquei foi dedicado a ela. Convém lembrar o que dizem Paula Morão (responsável pela reedição e por um esforço de divulgação da sua obra) e José Gomes Ferreira.