RIBEIRO COUTO
CAMONOCÓRDIA NUM CAIS DE LISBOA
A rocha de cristal, Camões. Nós outros,
Irisações de sol, pobre poeira.
Língua que foste de uns e foste de outros,
Língua de continentes, marinheira,
Língua de Brancos, Negros e ainda outros,
Que bom haver quem como nós te queira!
Pintores, músicos e artistas outros
Entendidos serão na terra inteira,
Léguas e léguas de países outros.
Poetas, não. A Língua é prisioneira.
A voz com que cantamos, uns e outros,
Será sempre aos de além voz estrangeira.
Filhos do burgo ocidental, nós outros,
Fiéis a tanto afã, tanta canseira,
Ao bem da fama como a tantos outros
Sabemos renunciar de alma fagueira:
Em paga deste amor, maior que os outros,
Baste o poder cantar de tal maneira.
(de Longe, Livros do Brasil, 1961)
10.6.09
9.6.09
O fascismo é uma minhoca
que se infiltra na maçã
ou vem com botas cardadas
ou com pezinhos de lã
(Sérgio Godinho)
que se infiltra na maçã
ou vem com botas cardadas
ou com pezinhos de lã
(Sérgio Godinho)
Pedindo desculpa aos citados por os juntar num mesmo post, não posso deixar de dar relevo a textos de hoje de Eduardo Pitta e de Paulo da Costa Domingos (que cita, a propósito, este texto de José Saramago) a alertar para uma realidade que não pode ser despachada com frases do tipo "ah, isso são os histéricos do costume". Porque não são. A extrema-direita, as suas intolerâncias e os seus ódios são uma realidade que anda por aí e exige a maior vigilância por parte de todos.
PEDRO BRAGA FALCÃO
XXIV
Se houvesse faróis suficientes
em todas as encostas e cabos,
se toda a deriva trouxesse
cantos épicos e novos sinos,
por deus, escreveria odes
outras que não te canto.
Tanta praia a escurecer,
tanto sol-posto, sentado,
debruçado sobre um sem tempo,
esperado pelo mundo,
comungando sem desejo.
Que houvesse monges e milénios
de um ócio inexpugnável,
que a alma vazia fosse mansão
de um ruído semelhante ao mar
para que eu fosse por ti desejado,
tanto quanto aqui existisse amor.
Esse espaço não tem sentido,
que ocupas.
Tanto és como outra surges.
A inconstância custa-me a paz,
e as línguas de terra pelo ponto adentro
iluminam sempre a mesma costa,
jogos de três espelhos, sem arcos.
A viciosa sorte desanima-me,
os joguetes de mãos nocivas
esgueiram-se entre os arvoredos.
Talvez consolado por essa água
que de sal me apresenta a noite,
caí sem oriente.
O corpo ferido reclama o teu descanso,
misteriosamente minha.
Estou sujo. Os faróis morrem.
Encontrasse eu outros portos
onde menos fosse o vento
e mais a tua presença.
(de Do princípio, edições Cotovia, 2009)
XXIV
Se houvesse faróis suficientes
em todas as encostas e cabos,
se toda a deriva trouxesse
cantos épicos e novos sinos,
por deus, escreveria odes
outras que não te canto.
Tanta praia a escurecer,
tanto sol-posto, sentado,
debruçado sobre um sem tempo,
esperado pelo mundo,
comungando sem desejo.
Que houvesse monges e milénios
de um ócio inexpugnável,
que a alma vazia fosse mansão
de um ruído semelhante ao mar
para que eu fosse por ti desejado,
tanto quanto aqui existisse amor.
Esse espaço não tem sentido,
que ocupas.
Tanto és como outra surges.
A inconstância custa-me a paz,
e as línguas de terra pelo ponto adentro
iluminam sempre a mesma costa,
jogos de três espelhos, sem arcos.
A viciosa sorte desanima-me,
os joguetes de mãos nocivas
esgueiram-se entre os arvoredos.
Talvez consolado por essa água
que de sal me apresenta a noite,
caí sem oriente.
O corpo ferido reclama o teu descanso,
misteriosamente minha.
Estou sujo. Os faróis morrem.
Encontrasse eu outros portos
onde menos fosse o vento
e mais a tua presença.
(de Do princípio, edições Cotovia, 2009)
8.6.09
CAMILO CASTELO BRANCO
(...)
(in A Queda de um Anjo, 1865)
(...)
- Onde é a Europa? - perguntou D. Teodora colérica.
- A Europa é este mundo por onde anda a gente, minha senhora - respondeu prontamente a viúva.
(...)(in A Queda de um Anjo, 1865)
6.6.09
[repost]
FAUSTO
EUROPA QUERIDA EUROPA
Europa nascida na Ásia profunda
ó filha do rei fenício Agenor
que Zeus entranhado no corpo de um touro
levou-te p'ra Creta cativo de amor
Europa é de Homero
de helénicas formas
do forum romano e da cruz
de tantas nações
ariana e semita
ventre das descobertas
da luz
do diverso sistema do modo diferente
da era da guerra e agora da paz
és assim querida Europa
vem que eu te quero toda do mar à montanha
vem que eu quero muito mais bela que o mar
vem vencendo cizânias que os povos sem feudos
sempre se amaram brilhantes em todo o lugar
o teu chão não é traste
de meros mercados
de pauta aduaneira
ou cifrão
é um terrunho de almas
uma ideia
um desejo
de uma nova maneira
em fusão
desfazendo complexos d mapas cor-de-rosa
sem a má consciência no verso e na prosa
só por ti querida Europa
para que sejas tu mesma a decidir o teu uso
para que sejas tu mesma ainda mais natural
não me toques o "beat" à americana
que esse já nós conhecemos na versão original
aguenta-te firme
livre de imitações
espera só mais um pouco
já vai
o que resta e o que sobra
aquela mesma saudade
toda a imaginação
ainda mais
não sentes um vago um suave cheiro a sardinhas
a algazarra nas ruas e o troar dos tambores
somos nós querida Europa
(do álbum Para além das Cordilheiras, de 1987)
FAUSTO
EUROPA QUERIDA EUROPA
Europa nascida na Ásia profunda
ó filha do rei fenício Agenor
que Zeus entranhado no corpo de um touro
levou-te p'ra Creta cativo de amor
Europa é de Homero
de helénicas formas
do forum romano e da cruz
de tantas nações
ariana e semita
ventre das descobertas
da luz
do diverso sistema do modo diferente
da era da guerra e agora da paz
és assim querida Europa
vem que eu te quero toda do mar à montanha
vem que eu quero muito mais bela que o mar
vem vencendo cizânias que os povos sem feudos
sempre se amaram brilhantes em todo o lugar
o teu chão não é traste
de meros mercados
de pauta aduaneira
ou cifrão
é um terrunho de almas
uma ideia
um desejo
de uma nova maneira
em fusão
desfazendo complexos d mapas cor-de-rosa
sem a má consciência no verso e na prosa
só por ti querida Europa
para que sejas tu mesma a decidir o teu uso
para que sejas tu mesma ainda mais natural
não me toques o "beat" à americana
que esse já nós conhecemos na versão original
aguenta-te firme
livre de imitações
espera só mais um pouco
já vai
o que resta e o que sobra
aquela mesma saudade
toda a imaginação
ainda mais
não sentes um vago um suave cheiro a sardinhas
a algazarra nas ruas e o troar dos tambores
somos nós querida Europa
(do álbum Para além das Cordilheiras, de 1987)
4.6.09
[Prémio Camões – ler aqui e ouvir aqui]
ARMÉNIO VIEIRA
LISBOA - 1971
Em verdade Lisboa não estava ali para nos saudar.
Eis-nos enfim transidos e quase perdidos
no meio de guardas e aviões da Portela.
Em verdade éramos o gado mais pobre
d'África trazido àquele lugar
e como folhas varridas pela vassoura do vento
nossos paramentos de presunção e de casta.
E quando mais tarde surpreendemos o espanto
da mulher que vendia maçãs
e queria saber d'onde… ao que vínhamos
descobrimos o logro a circular no coração do Império.
Porém o desencanto, que desce ao peito
e trepa a montanha,
necessita da levedura que o tempo fornece.
E num camião, por entre caixotes e resquícios da véspera,
fomos seguindo nosso destino
naquela manhã friorenta e molhada por chuviscos d'inverno.
(de Poesia Um – 1971-1974, in Poemas, Ilhéu editora, 1998)
SER TIGRE
O tigre ignora a liberdade do salto,
É como se uma mola
O compelisse a saltar
O tigre não ama.
Ele busca a fêmea
Como quem procura comida.
Sem tempo na alma,
É no presente
Que o tigre existe.
Entre o cio e a cópula.
Nenhuma voz lhe fala de Deus,
O tigre não morre, dorme e passa.
(de Poesia Três – Após 1981, in Poemas, Ilhéu editora, 1998)
Graças dou por Luís Vaz,
Ele-Mesmo, varão audaz,
como Ulisses, natatório,
ululado por ciclópicos
bêbedos canibais.
Mas quem pode afogar
tal homem, decepar suas mãos,
liquefazer seu poema?
Se é verdade que o Novo Reino
sucumbiu à foice com que Deus
decepa a espiga ruim, também é certo
que a partir de um bla-bla ruidoso
com que Viriato, mais que a funda,
espantava os filhos de Eneias,
Luís Vaz, pegando nele, criou o poema
e a pátria que deveras conta.
ANTIPOEMA
Já sei a eternidade: é puro orgasmo.
Como assim, meu caro Drummond,
se o que se segue ao sémen
são as sobras de uma laranja
cortada em dois, sendo que
uma das metades é apenas casca
lembrando a pele que as múmias
costumam ter, enquanto a parte
que teima em ficar redonda
é só a metade de uma geometria
que já foi doçura e polpa,
agora acre e assassina mais que a faca,
ao lado da qual jaz, definitivamente torpe,
já que as próprias moscas, apavoradas, fogem.
EXCENTRICIDADES GREGAS
Zenão rejeitava o óbvio
- entre o arqueiro e o alvo
o percurso da flecha é infindável,
de forma que o célere Aquiles
nunca apanha a tartaruga.
Platão era o oposto, afirmava
o improvável - a Ilíada, por
exemplo, era um mero duplicado
de um original escrito por um poeta
anterior ao nascimento
das estrelas, cujos símbolos
são a Esfera, a Luz e a Palavra.
Pitágoras era de opinião
que os números pares são demoníacos,
razão por que o três é melhor
que o seis, o cinco preferível
ao quatro e assim sucessivamente.
Nunca se deve comer feijões.
Quem o fizer corta o fio das
reincarnações, de sorte que a alma
fica prisioneira num eterno triângulo,
ou seja, entre dois catetos
e uma hipotenusa guardados por um dragão
de mil olhos e três línguas de fogo.
MALAE TENEBRAE
Never more! crocitava
o corvo Poe
aspergindo gordura
fervente e fétida
sobre os defuntos
que o chifrudo rei
dos pés-juntos
se aprestava
para transportar
ao reino onde as maçãs
nascem já podres
e os escorpiões
jamais param de crescer
para o tormento
das almas.
(de MITOgrafias, Ilhéu editora, 2006)
ARMÉNIO VIEIRA
LISBOA - 1971
A Ovídio Martins e Osvaldo Osório
Em verdade Lisboa não estava ali para nos saudar.
Eis-nos enfim transidos e quase perdidos
no meio de guardas e aviões da Portela.
Em verdade éramos o gado mais pobre
d'África trazido àquele lugar
e como folhas varridas pela vassoura do vento
nossos paramentos de presunção e de casta.
E quando mais tarde surpreendemos o espanto
da mulher que vendia maçãs
e queria saber d'onde… ao que vínhamos
descobrimos o logro a circular no coração do Império.
Porém o desencanto, que desce ao peito
e trepa a montanha,
necessita da levedura que o tempo fornece.
E num camião, por entre caixotes e resquícios da véspera,
fomos seguindo nosso destino
naquela manhã friorenta e molhada por chuviscos d'inverno.
(de Poesia Um – 1971-1974, in Poemas, Ilhéu editora, 1998)
SER TIGRE
O tigre ignora a liberdade do salto,
É como se uma mola
O compelisse a saltar
O tigre não ama.
Ele busca a fêmea
Como quem procura comida.
Sem tempo na alma,
É no presente
Que o tigre existe.
Entre o cio e a cópula.
Nenhuma voz lhe fala de Deus,
O tigre não morre, dorme e passa.
(de Poesia Três – Após 1981, in Poemas, Ilhéu editora, 1998)
Graças dou por Luís Vaz,
Ele-Mesmo, varão audaz,
como Ulisses, natatório,
ululado por ciclópicos
bêbedos canibais.
Mas quem pode afogar
tal homem, decepar suas mãos,
liquefazer seu poema?
Se é verdade que o Novo Reino
sucumbiu à foice com que Deus
decepa a espiga ruim, também é certo
que a partir de um bla-bla ruidoso
com que Viriato, mais que a funda,
espantava os filhos de Eneias,
Luís Vaz, pegando nele, criou o poema
e a pátria que deveras conta.
ANTIPOEMA
Já sei a eternidade: é puro orgasmo.
Como assim, meu caro Drummond,
se o que se segue ao sémen
são as sobras de uma laranja
cortada em dois, sendo que
uma das metades é apenas casca
lembrando a pele que as múmias
costumam ter, enquanto a parte
que teima em ficar redonda
é só a metade de uma geometria
que já foi doçura e polpa,
agora acre e assassina mais que a faca,
ao lado da qual jaz, definitivamente torpe,
já que as próprias moscas, apavoradas, fogem.
EXCENTRICIDADES GREGAS
Zenão rejeitava o óbvio
- entre o arqueiro e o alvo
o percurso da flecha é infindável,
de forma que o célere Aquiles
nunca apanha a tartaruga.
Platão era o oposto, afirmava
o improvável - a Ilíada, por
exemplo, era um mero duplicado
de um original escrito por um poeta
anterior ao nascimento
das estrelas, cujos símbolos
são a Esfera, a Luz e a Palavra.
Pitágoras era de opinião
que os números pares são demoníacos,
razão por que o três é melhor
que o seis, o cinco preferível
ao quatro e assim sucessivamente.
Nunca se deve comer feijões.
Quem o fizer corta o fio das
reincarnações, de sorte que a alma
fica prisioneira num eterno triângulo,
ou seja, entre dois catetos
e uma hipotenusa guardados por um dragão
de mil olhos e três línguas de fogo.
MALAE TENEBRAE
Never more! crocitava
o corvo Poe
aspergindo gordura
fervente e fétida
sobre os defuntos
que o chifrudo rei
dos pés-juntos
se aprestava
para transportar
ao reino onde as maçãs
nascem já podres
e os escorpiões
jamais param de crescer
para o tormento
das almas.
(de MITOgrafias, Ilhéu editora, 2006)
3.6.09
[ver outras evocações aqui, aqui e aqui]
GLÓRIA DE SANT’ANNA
até que volte a ver-vos me reconhecereis
não pela face desnecessária mas
porque aí estareis apenas
e quando vos movimentardes (se)
a agitação perturbada que sereis
vos dará a imponderável consistência
de entre mim e vós
não haverá gestos e até nem vozes (acredito)
só a lancinante serenidade resultante
e o desconhecido imerso (ou emerso) azul alívio
mas por outro lado poderia romper-se também
num relâmpago visível pelo que se chama céu
a nossa alegria
e voariam pássaros inacreditáveis pelo que se chama céu
e poldros de crinas longas até ao vento
bateriam os cascos nunca ferrados em galope sobre
o que semelhasse campina
e alguém poderia afirmar que nos viu
pela força incontrolável da nossa alegria
(a força incontrolável da nossa alegria
que deslassa os fios de qualquer pensamento
e despedaça as palavras em risadas e lágrimas
e se alimenta do horizonte dos dias
e é como uma sentinela no umbral da porta à noite
molhada de luar e arrepiada pelo gume das folhagens
escolhendo em silêncio uma estrela longínqua
e simultaneamente é áspera e doce)
mas quem o afirmasse seria apontado
como espontaneamente louco voluntariamente interpondo-se
a vós
tão desesperadamente ocultos
nas linhas do meu rosto
(de Gritoacanto (1970-1974), in Amaranto / Poesia 1951-1983, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1988 – Biblioteca de Autores Portugueses; o 2º e o 3º poemas haviam sido antes publicados em Junho de 1972, no número 3/4 de Caliban, em Lourenço Marques)
GLÓRIA DE SANT’ANNA
até que volte a ver-vos me reconhecereis
não pela face desnecessária mas
porque aí estareis apenas
e quando vos movimentardes (se)
a agitação perturbada que sereis
vos dará a imponderável consistência
de entre mim e vós
não haverá gestos e até nem vozes (acredito)
só a lancinante serenidade resultante
e o desconhecido imerso (ou emerso) azul alívio
mas por outro lado poderia romper-se também
num relâmpago visível pelo que se chama céu
a nossa alegria
e voariam pássaros inacreditáveis pelo que se chama céu
e poldros de crinas longas até ao vento
bateriam os cascos nunca ferrados em galope sobre
o que semelhasse campina
e alguém poderia afirmar que nos viu
pela força incontrolável da nossa alegria
(a força incontrolável da nossa alegria
que deslassa os fios de qualquer pensamento
e despedaça as palavras em risadas e lágrimas
e se alimenta do horizonte dos dias
e é como uma sentinela no umbral da porta à noite
molhada de luar e arrepiada pelo gume das folhagens
escolhendo em silêncio uma estrela longínqua
e simultaneamente é áspera e doce)
mas quem o afirmasse seria apontado
como espontaneamente louco voluntariamente interpondo-se
a vós
tão desesperadamente ocultos
nas linhas do meu rosto
(de Gritoacanto (1970-1974), in Amaranto / Poesia 1951-1983, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1988 – Biblioteca de Autores Portugueses; o 2º e o 3º poemas haviam sido antes publicados em Junho de 1972, no número 3/4 de Caliban, em Lourenço Marques)
2.6.09
VITTORE CARPACCIO

LUÍS QUINTAIS
O sonho de Santa Úrsula
(Carpaccio)
Disse-te que não seria capaz de escrever
um poema de amor.
Como representar a luz quando essa luz
é o véu que recobre o sonho de outrém?
Assim é aquilo que a palavra amor diz,
aponta, descreve em seu secreto centro.
Íntimo lugar onde um anjo se abeira
da tua morte, da minha morte, e nos enlaça
sob a luz recíproca, como se pudéssemos
sonhar, ambos, o mesmo sonho, a mesma dor,
o mesmo movimento, lento e obscuro,
de um deus frágil e atento.
Seríamos o imaginado centro
desta sala, deste limiar, deste medo
que o anjo diz sem dizer, que o anjo
persegue sem sinal de perseguição sequer.
Algo se diz, inapelável, atrás
do umbral que não vemos.
(de Duelo, edições Cotovia, 2004)

O Sonho de Santa Úrsula, 1495
óleo sobre tela
274x267 cm
Veneza, Galleria dell'Accademia
óleo sobre tela
274x267 cm
Veneza, Galleria dell'Accademia
LUÍS QUINTAIS
O sonho de Santa Úrsula
(Carpaccio)
Disse-te que não seria capaz de escrever
um poema de amor.
Como representar a luz quando essa luz
é o véu que recobre o sonho de outrém?
Assim é aquilo que a palavra amor diz,
aponta, descreve em seu secreto centro.
Íntimo lugar onde um anjo se abeira
da tua morte, da minha morte, e nos enlaça
sob a luz recíproca, como se pudéssemos
sonhar, ambos, o mesmo sonho, a mesma dor,
o mesmo movimento, lento e obscuro,
de um deus frágil e atento.
Seríamos o imaginado centro
desta sala, deste limiar, deste medo
que o anjo diz sem dizer, que o anjo
persegue sem sinal de perseguição sequer.
Algo se diz, inapelável, atrás
do umbral que não vemos.
(de Duelo, edições Cotovia, 2004)
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ecfrase,
Luís Quintais,
pintura,
Portuguesa
1.6.09
ARMINDO TREVISAN
HOMO VIATOR
Sou homem… Que bom é ser
qualquer coisa, assim, ao léu,
uma pluma de vender,
um pensamento, um chapéu,
enfim ser tão somente isto,
ser apenas pelo meio,
sem um nome, sem um misto
de ancoragem ou de enleio,
ser nada (não é possível)
ser tudo (mas é demais)
ser então o indefinível
nem tão pouco, nem demais.
Ser no amor o amor calado
meio nu, meio essencial,
porque tudo o que é colmado
bem parece horizontal.
Só o que não se aprimora
até ao pormenor existe:
o dia é adulto na aurora,
a noite mais bela, triste.
Por isso, desejo ser
sendo apenas o que sou:
um pouco de parecer
e muito que não chegou.
(in dois poetas novos do Brasil, Moraes editores, 1972 – Círculo de Poesia)
HOMO VIATOR
Sou homem… Que bom é ser
qualquer coisa, assim, ao léu,
uma pluma de vender,
um pensamento, um chapéu,
enfim ser tão somente isto,
ser apenas pelo meio,
sem um nome, sem um misto
de ancoragem ou de enleio,
ser nada (não é possível)
ser tudo (mas é demais)
ser então o indefinível
nem tão pouco, nem demais.
Ser no amor o amor calado
meio nu, meio essencial,
porque tudo o que é colmado
bem parece horizontal.
Só o que não se aprimora
até ao pormenor existe:
o dia é adulto na aurora,
a noite mais bela, triste.
Por isso, desejo ser
sendo apenas o que sou:
um pouco de parecer
e muito que não chegou.
(in dois poetas novos do Brasil, Moraes editores, 1972 – Círculo de Poesia)
30.5.09
JOÃO CÉSAR MONTEIRO

(imagem de Fragmentos de um Filme-Esmola, 1972)
FRANGIS PONGE
A LARANJA
(in Alguns Poemas, tradução de Manuel Gusmão, edições Cotovia, 1996 – original de Le parti pris des choses / O partido tomado pelas coisas, 1942)
(imagem de Fragmentos de um Filme-Esmola, 1972)
FRANGIS PONGE
A LARANJA
Como na esponja há na laranja uma aspiração a retomar a forma depois de ter sofrido a prova da expressão. Mas enquanto a esponja o consegue sempre, a laranja nunca: porque as suas células estoiraram, os seus tecidos rasgaram-se. Enquanto que só a casca se restabeleceu languidamente na sua forma, graças à sua elasticidade, um líquido de âmbar derramou-se, acompanhado por um frescor e perfume suaves, é certo, – mas muitas vezes também pela consciência amarga de uma expulsão prematura de caroços.
Será necessário tomar partido entre estas duas maneiras de suportar mal a opressão? – A esponja é apenas músculo e enche-se de vento, de água limpa ou suja, consoante: essa ginástica é ignóbil. A laranja sabe melhor, mas é demasiado passiva, – e esse sacrifício odorífero... é de facto vender-se barato ao opressor.
Mas não é um dizer que baste sobre a laranja o ter lembrado a sua particular maneira de perfumar o ar e de deliciar o seu carrasco. É preciso pôr o acento na coloração gloriosa do líquido que daí resulta, e que, melhor do que o sumo de limão, obriga a laringe a abrir-se largamente para a prolação da palavra como para a ingestão do líquido, sem nenhuma careta apreensiva por dentro da boca, uma vez que ele não faz com que as papilas se arrepiem.
Além disso, fica-se sem palavras para confessar a admiração que merece o invólucro deste terno, frágil e róseo balão oval nesse espesso mata-borrão húmido cuja epiderme extremamente fina mas muito pigmentada, acerbamente sápida, é suficientemente rugosa para prender dignamente a luz na perfeita forma do fruto.
Mas no fim de um demasiado breve estudo, conduzido tão redonda e expeditamente quanto possível, – é preciso chegar ao caroço. Este grão, com a forma de um minúsculo limão, apresenta no exterior a cor da madeira branca de limoeiro, no interior um verde de ervilha ou de rebento tenro. É nele que se reencontram, depois da explosão sensacional da lanterna veneziana de sabores, cores e perfumes que o balão frutado em si mesmo constitui, – a dureza relativa e o verdor (não aliás inteiramente insípido) da madeira, do ramo, da folha: bem pequena suma, embora com certeza a razão de ser do fruto.
(in Alguns Poemas, tradução de Manuel Gusmão, edições Cotovia, 1996 – original de Le parti pris des choses / O partido tomado pelas coisas, 1942)
LEONARD COHEN
Last Year's Man
The rain falls down on last year's man,
that's a jew's harp on the table,
that's a crayon in his hand.
And the corners of the blueprint are ruined since they rolled
far past the stems of thumbtacks
that still throw shadows on the wood.
And the skylight is like skin for a drum I'll never mend
and all the rain falls down amen
on the works of last year's man.
I met a lady, she was playing with her soldiers in the dark
oh one by one she had to tell them
that her name was Joan of Arc.
I was in that army, yes I stayed a little while;
I want to thank you, Joan of Arc,
for treating me so well.
And though I wear a uniform I was not born to fight;
all these wounded boys you lie beside,
goodnight, my friends, goodnight.
I came upon a wedding that old families had contrived;
Bethlehem the bridegroom,
Babylon the bride.
Great Babylon was naked, oh she stood there trembling for me,
and Bethlehem inflamed us both
like the shy one at some orgy.
And when we fell together all our flesh was like a veil
that I had to draw aside to see
the serpent eat its tail.
Some women wait for Jesus, and some women wait for Cain
so I hang upon my altar
and I hoist my axe again.
And I take the one who finds me back to where it all began
when Jesus was the honeymoon
and Cain was just the man.
And we read from pleasant Bibles that are bound in blood and skin
that the wilderness is gathering
all its children back again.
The rain falls down on last year's man,
an hour has gone by
and he has not moved his hand.
But everything will happen if he only gives the word;
the lovers will rise up
and the mountains touch the ground.
But the skylight is like skin for a drum I'll never mend
and all the rain falls down amen
on the works of last year's man.
(do álbum Songs Of Love And Hove, 1970)
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Leonard Cohen
2.5.09
[para uma antologia de bicicletas - 15]
JOÃO CAMILO
DE BICICLETA
Como se o teu olhar me perseguisse,
eu preocupava-me em executar da maneira mais perfeita
todos os gestos. Via-me de fora como tu me verias
se fosses atrás de mim quando pedalava na bicicleta,
sentada no banco confortável de um automóvel.
O rio à direita da estrada tinha certa beleza
e as árvores, como sempre, faziam do asfalto preto por onde eu ia
um caminho em que apetece passear ao fim da tarde.
Enquanto me olhavas ias conversando para o lado
com os teus companheiros de viagem. O cabelo
loiro sobre os ombros iluminava o teu rosto à janela
e aqueles que te viam passar ficavam a pensar em ti.
eu lá ia, tranquilo e inquieto a pedalar,
convencido de que ao ver-me sem esperar assim ali
descobrias mais duas ou três razões para me amares.
Não olhava para trás para que tu não te escondesses
e em cada pedalada deixava a atenção
com que poderias falar-me e eu escutar-te.
MEMÓRIA DE RUY BELO
Madrid está deserta do teu corpo, só os fantasmas
do desejo se digladiam ainda ao sol das praças.
Era tão curta a distância entre a eternidade
e a luz nas esplanadas dos cafés, na pedra dos edifícios?
O amor, ave desencontrada das estações, acena ainda
nos olhos das raparigas de braços nus. E tu,
morto mais discreto da pátria, adormeceste
sem ter beijado a mulher e os filhos, longe
para sempre das romarias e do mar.
(de A mais nobre das artes, editorial Caminho, 1991)
(daqui)
JOÃO CAMILO
DE BICICLETA
Como se o teu olhar me perseguisse,
eu preocupava-me em executar da maneira mais perfeita
todos os gestos. Via-me de fora como tu me verias
se fosses atrás de mim quando pedalava na bicicleta,
sentada no banco confortável de um automóvel.
O rio à direita da estrada tinha certa beleza
e as árvores, como sempre, faziam do asfalto preto por onde eu ia
um caminho em que apetece passear ao fim da tarde.
Enquanto me olhavas ias conversando para o lado
com os teus companheiros de viagem. O cabelo
loiro sobre os ombros iluminava o teu rosto à janela
e aqueles que te viam passar ficavam a pensar em ti.
eu lá ia, tranquilo e inquieto a pedalar,
convencido de que ao ver-me sem esperar assim ali
descobrias mais duas ou três razões para me amares.
Não olhava para trás para que tu não te escondesses
e em cada pedalada deixava a atenção
com que poderias falar-me e eu escutar-te.
MEMÓRIA DE RUY BELO
Madrid está deserta do teu corpo, só os fantasmas
do desejo se digladiam ainda ao sol das praças.
Era tão curta a distância entre a eternidade
e a luz nas esplanadas dos cafés, na pedra dos edifícios?
O amor, ave desencontrada das estações, acena ainda
nos olhos das raparigas de braços nus. E tu,
morto mais discreto da pátria, adormeceste
sem ter beijado a mulher e os filhos, longe
para sempre das romarias e do mar.
(de A mais nobre das artes, editorial Caminho, 1991)
(…) quando jogava futebol na equipa da Faculdade de Letras de Lisboa nunca joguei a guarda-redes, em geral jogava a defesa direito, às vezes ao lado do Ruy Belo ou do Arnaldo Saraiva, do Moreira, do Madeira, do Carlos Correia, etc.; e gostava muito de arrancar por aí adiante a caminho da baliza adversária. Uma vez, depois de vários passes com o Pissarra, um puto cheio de talento, fui rasteirado na área adversária e tivemos direito a uma grande penalidade. Imagino que o Pissarra a deve ter transformado em golo. Velhos tempos. (…)
(daqui)
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1.5.09
JOÃO CAMILO
OS POETAS SÃO SERES DOENTES
Muitas vezes os poetas confundiram a poesia
com a arte de cantar. E outras vezes
procuraram dolorosamente um ritmo digno das histórias
da literatura, esses monumentos ao tédio.
A rapariga que atravessava a rua à sombra dos plátanos
com a simplicidade inquietante da sua beleza fê-los sofrer,
mas em vez de falar do segredo eterno das suas pernas
e do perfil pesado dos seus seios nus debaixo da camisa aberta
esforçaram-se por esconder a perturbação e o pressentimento da morte
no castelo de mármore barroco dos símbolos e das metáforas.
Para aquele que não sabe olhar todas as tardes são a mesma tarde
e para quem não sabe ouvir todos os sons se assemelham ao ruído.
As pessoas passavam. Homens e mulheres que não iam a lado nenhum
e no entanto concentravam o espírito cheio de perguntas
nas pedras amarelas do passeio. Rapazes e raparigas
sentavam-se nas esplanadas dos cafés. Tinham os olhos
tão limpos. Neles podia reflectir-se
o universo inteiro e observando-os de longe
adivinhava-se que as palavras com que tentamos orientar-nos
no nevoeiro da existência são todas excessivas e até erradas.
E no entanto eles ignoravam as árvores e as casas, só sabiam
olhar para si mesmos. Como se um lume oculto
os subjugasse e faziam pensar na borboleta que queima as asas
na claridade brutal da lâmpada eléctrica. A tarde avançava.
Os poetas são seres doentes e têm medo da vida. Sem fim
apagam as luzes para que o quarto fique às escuras. As coisas
ferem-nos, pesam-lhes excessivamente no espírito. E eles preferem
a espessura protectora das sombras. É tão injusto ter de viver
para além da infância e da adolescência. Mas pelas persianas de madeira
o ar e a música da rua não cessam de querer entrar. E de longe
as montanhas e os rios enviam o cheiro de arbustos, de pinheiros.
Para resistir os poetas começam a cantar. Ou enterram debaixo das palavras
a violência demasiado quotidiana, excessivamente selvagem do mundo.
REALIDADE
Já não sei por que razão
escrevi o meu primeiro poema.
Os sentimentos «delicados» alguma vez me interessaram?
Nem eles nem a «beleza», verdadeiramente.
Foi por isso talvez que uma tarde me sentei num banco
e enchi a primeira página de palavras.
O sentimento poético no meu caso não é
exactamente o sentimento poético no caso dos outros.
Mas nesse tempo eu ainda não tinha aprendido
a respirar segundo o meu próprio ritmo.
Toda a gente viu o que fez um dos irmãos Marx
à roupa que ficou de fora da mala fechada:
pegou na tesoura e cortou-a.
Ou era o Charlie Chaplin e estou a confundir?
Todo o meu esforço tem consistido
em fazer entrar na mala o que lá não cabia.
Realidade, o máximo de realidade que for possível,
tem sido a ideia que me tem guiado.
E nada de comover-se com as palavras,
opor-se sem piedade aos desejos que elas têm
de ser aristocratas entre a plebe anónima da frase.
Tratei-as a todas segundo o princípio da igualdade,
em todo o caso esforcei-me por isso.
Não nego que tenho tido preferências e obsessões;
mas a privilegiada de um verso confunde-se
no seguinte com a sua sombra na parede.
A sociedade deve-me muita coisa e eu devia-lhe isto:
estar-me nas tintas para as suas estátuas,
para o oiro e a prata que ela distribui.
Não me ajoelharei diante de altar nenhum.
Quanto às palavras, trato-as como o domesticador
ao tigre e ao leão que depois do espectáculo
regressam humildemente às grades da jaula.
Escrever poesia é a minha maneira de participar
na luta das classes.
A tentação da beleza e os sentimentos delicados afogo-os
na velocidade do verso democraticamente longo.
E o «transporte» permite-me viajar de um verso
para o seguinte sem perder de vista a luz
ao fundo do túnel. Um subterfúgio ainda, evidentemente,
para meter dentro da mala pequena
o excesso de roupa que apesar de tudo possuo.
A César o que é de César e a cada palavra
o papel que é o seu. Se alguma
tem de brilhar, que brilhe; mas não contem
comigo para me prostrar aos seus pés embevecido.
De qualquer modo poucas ou nenhuma valem o bastante
para ocupar sozinhas o pedestal do verso inteiro.
Penso estas coisas e convenço-me
de que tenho vindo a abrir caminho com a proa
do barco da minha pouca ou nenhuma estima
pelos sentimentos dos que nos oprimem.
Há dias, porém, não li em Theodor Adorno
que o artista se confronta simultaneamente
aos materiais da sua arte e à sociedade?
Não escrevemos o que queremos escrever,
não cantamos o que nos apetece cantar;
escrevemos e cantamos as palavras e a música
que a sociedade, insidiosa, deixou ao nosso alcance.
Do estilo e da sintaxe é ela que decide.
É provável que eu não o ignorasse;
mas fiquei um pouco desiludido.
A liberdade que eu pensava que tinha conquistado
era apenas aquela que me tinham imposto.
Perdera tempo a reflectir e a lutar por ela,
exercitara-me em estratégias e manhas subtis;
mas em vez de alargar os limites da experiência,
tinha ficado no mesmo sítio a marcar passo.
Tudo estava previsto de antemão. Riam-se de mim:
não pus no papel o que senti, não disse o que pensava,
não me opus tanto como o imaginava
à ditadura de tudo o que não sou;
só falei daquilo de que podia falar
E o censor não era eu? Queria que me lessem.
Devo ter esperado que me amassem pelo que escrevia.
E não tive asas, limitei-me
a andar de gatas à volta da mesa
a que tinha presa a perna com um cordel.
Se é verdade que lutei contra o desejo
que tem as palavras de se lhes dar importância,
não posso negar que me servi da tesoira salvadora:
borracha que apaga o que não cabia na página do caderno,
cortina que esconde o que não fazia parte do cenário.
Ter preferido o país democrático da frase
à monarquia absoluta da palavra
não pôde livrar-me dessa insuficiência.
Este poema, pelo menos, podia ser o início de outra era.
Mas calha mal. Já passa das duas da manhã
e arrefecem-me os ossos na sala onde entra o vento.
Além disso, antes de ser definitivamente mal-educado
tenho de dar algumas provas mais de respeito e consideração.
É por isso que o poema vai terminar aqui:
o poeta, coitado, está cheio de sono,
tem a cabeça baralhada por causa do Theodor Adorno
e raciocinará mais tarde sobre a essência da poesia.
(de A Mala dos Marx Brothers, editorial Caminho, 1988)
OS POETAS SÃO SERES DOENTES
Muitas vezes os poetas confundiram a poesia
com a arte de cantar. E outras vezes
procuraram dolorosamente um ritmo digno das histórias
da literatura, esses monumentos ao tédio.
A rapariga que atravessava a rua à sombra dos plátanos
com a simplicidade inquietante da sua beleza fê-los sofrer,
mas em vez de falar do segredo eterno das suas pernas
e do perfil pesado dos seus seios nus debaixo da camisa aberta
esforçaram-se por esconder a perturbação e o pressentimento da morte
no castelo de mármore barroco dos símbolos e das metáforas.
Para aquele que não sabe olhar todas as tardes são a mesma tarde
e para quem não sabe ouvir todos os sons se assemelham ao ruído.
As pessoas passavam. Homens e mulheres que não iam a lado nenhum
e no entanto concentravam o espírito cheio de perguntas
nas pedras amarelas do passeio. Rapazes e raparigas
sentavam-se nas esplanadas dos cafés. Tinham os olhos
tão limpos. Neles podia reflectir-se
o universo inteiro e observando-os de longe
adivinhava-se que as palavras com que tentamos orientar-nos
no nevoeiro da existência são todas excessivas e até erradas.
E no entanto eles ignoravam as árvores e as casas, só sabiam
olhar para si mesmos. Como se um lume oculto
os subjugasse e faziam pensar na borboleta que queima as asas
na claridade brutal da lâmpada eléctrica. A tarde avançava.
Os poetas são seres doentes e têm medo da vida. Sem fim
apagam as luzes para que o quarto fique às escuras. As coisas
ferem-nos, pesam-lhes excessivamente no espírito. E eles preferem
a espessura protectora das sombras. É tão injusto ter de viver
para além da infância e da adolescência. Mas pelas persianas de madeira
o ar e a música da rua não cessam de querer entrar. E de longe
as montanhas e os rios enviam o cheiro de arbustos, de pinheiros.
Para resistir os poetas começam a cantar. Ou enterram debaixo das palavras
a violência demasiado quotidiana, excessivamente selvagem do mundo.
REALIDADE
Já não sei por que razão
escrevi o meu primeiro poema.
Os sentimentos «delicados» alguma vez me interessaram?
Nem eles nem a «beleza», verdadeiramente.
Foi por isso talvez que uma tarde me sentei num banco
e enchi a primeira página de palavras.
O sentimento poético no meu caso não é
exactamente o sentimento poético no caso dos outros.
Mas nesse tempo eu ainda não tinha aprendido
a respirar segundo o meu próprio ritmo.
Toda a gente viu o que fez um dos irmãos Marx
à roupa que ficou de fora da mala fechada:
pegou na tesoura e cortou-a.
Ou era o Charlie Chaplin e estou a confundir?
Todo o meu esforço tem consistido
em fazer entrar na mala o que lá não cabia.
Realidade, o máximo de realidade que for possível,
tem sido a ideia que me tem guiado.
E nada de comover-se com as palavras,
opor-se sem piedade aos desejos que elas têm
de ser aristocratas entre a plebe anónima da frase.
Tratei-as a todas segundo o princípio da igualdade,
em todo o caso esforcei-me por isso.
Não nego que tenho tido preferências e obsessões;
mas a privilegiada de um verso confunde-se
no seguinte com a sua sombra na parede.
A sociedade deve-me muita coisa e eu devia-lhe isto:
estar-me nas tintas para as suas estátuas,
para o oiro e a prata que ela distribui.
Não me ajoelharei diante de altar nenhum.
Quanto às palavras, trato-as como o domesticador
ao tigre e ao leão que depois do espectáculo
regressam humildemente às grades da jaula.
Escrever poesia é a minha maneira de participar
na luta das classes.
A tentação da beleza e os sentimentos delicados afogo-os
na velocidade do verso democraticamente longo.
E o «transporte» permite-me viajar de um verso
para o seguinte sem perder de vista a luz
ao fundo do túnel. Um subterfúgio ainda, evidentemente,
para meter dentro da mala pequena
o excesso de roupa que apesar de tudo possuo.
A César o que é de César e a cada palavra
o papel que é o seu. Se alguma
tem de brilhar, que brilhe; mas não contem
comigo para me prostrar aos seus pés embevecido.
De qualquer modo poucas ou nenhuma valem o bastante
para ocupar sozinhas o pedestal do verso inteiro.
Penso estas coisas e convenço-me
de que tenho vindo a abrir caminho com a proa
do barco da minha pouca ou nenhuma estima
pelos sentimentos dos que nos oprimem.
Há dias, porém, não li em Theodor Adorno
que o artista se confronta simultaneamente
aos materiais da sua arte e à sociedade?
Não escrevemos o que queremos escrever,
não cantamos o que nos apetece cantar;
escrevemos e cantamos as palavras e a música
que a sociedade, insidiosa, deixou ao nosso alcance.
Do estilo e da sintaxe é ela que decide.
É provável que eu não o ignorasse;
mas fiquei um pouco desiludido.
A liberdade que eu pensava que tinha conquistado
era apenas aquela que me tinham imposto.
Perdera tempo a reflectir e a lutar por ela,
exercitara-me em estratégias e manhas subtis;
mas em vez de alargar os limites da experiência,
tinha ficado no mesmo sítio a marcar passo.
Tudo estava previsto de antemão. Riam-se de mim:
não pus no papel o que senti, não disse o que pensava,
não me opus tanto como o imaginava
à ditadura de tudo o que não sou;
só falei daquilo de que podia falar
E o censor não era eu? Queria que me lessem.
Devo ter esperado que me amassem pelo que escrevia.
E não tive asas, limitei-me
a andar de gatas à volta da mesa
a que tinha presa a perna com um cordel.
Se é verdade que lutei contra o desejo
que tem as palavras de se lhes dar importância,
não posso negar que me servi da tesoira salvadora:
borracha que apaga o que não cabia na página do caderno,
cortina que esconde o que não fazia parte do cenário.
Ter preferido o país democrático da frase
à monarquia absoluta da palavra
não pôde livrar-me dessa insuficiência.
Este poema, pelo menos, podia ser o início de outra era.
Mas calha mal. Já passa das duas da manhã
e arrefecem-me os ossos na sala onde entra o vento.
Além disso, antes de ser definitivamente mal-educado
tenho de dar algumas provas mais de respeito e consideração.
É por isso que o poema vai terminar aqui:
o poeta, coitado, está cheio de sono,
tem a cabeça baralhada por causa do Theodor Adorno
e raciocinará mais tarde sobre a essência da poesia.
(de A Mala dos Marx Brothers, editorial Caminho, 1988)
30.4.09
MANOEL DE BARROS
O VENTO
Queria transformar o vento.
Dar ao vento uma forma concreta e apta a foto.
Eu precisava pelo menos de enxergar uma parte física
do vento: uma costela, o olho...
Mas a forma do vento me fugia que nem as formas
de uma voz.
Quando se disse que o vento empurrava a canoa do
índio para o barranco
Imaginei um vento pintado de urucum a empurrar a
canoa do índio para o barranco.
Mas essa imagem me pareceu imprecisa ainda.
Estava quase a desistir quando me lembrei do menino
montado no cavalo do vento – que lera em
Shakespeare.
Imaginei as crinas soltas do vento a disparar pelos
prados com o menino.
Fotografei aquele vento de crinas soltas.
(de Ensaios Fotográficos, editora Record, 2000)
O VENTO
Queria transformar o vento.
Dar ao vento uma forma concreta e apta a foto.
Eu precisava pelo menos de enxergar uma parte física
do vento: uma costela, o olho...
Mas a forma do vento me fugia que nem as formas
de uma voz.
Quando se disse que o vento empurrava a canoa do
índio para o barranco
Imaginei um vento pintado de urucum a empurrar a
canoa do índio para o barranco.
Mas essa imagem me pareceu imprecisa ainda.
Estava quase a desistir quando me lembrei do menino
montado no cavalo do vento – que lera em
Shakespeare.
Imaginei as crinas soltas do vento a disparar pelos
prados com o menino.
Fotografei aquele vento de crinas soltas.
(de Ensaios Fotográficos, editora Record, 2000)
JOÃO CAMILO
AS CRINAS DO VENTO
O vento: música ou murmúrio da árvore.
Encosta a obsessão à parede branca dos quintais.
Vento de mar? E jovem leva a nuvem.
Os sinos de bronze, o cimo das searas:
viver é brusco, tão incerto.
E a minha mão, desabituada de sentir que toca
e é gesto
e me deixa possuir,
a minha mão quer a janela aberta. O vento não tem,
não, não tem
crinas.
Nem as costas luzidias de cavalo ou égua.
Áspero,
vidro partido espetado na terra.
Os dentes de uma serra,
espaço de repouso e cume que agride.
Pôr a mão em tanto
e sem respirar
quando parecia que era tarde e apenas
hora de dormir?
ABRIL PROVENÇAL
A noite de primavera imobilizada na sua quietude.
O ar quase quente, o azul do céu entre os ramos das árvores,
enquanto na avenida as pessoas não paravam de passar.
Um rapaz em tronco nu deitava-se nos vidros partidos,
um violino e uma flauta cantavam na esquina de uma rua.
Os braços despidos das raparigas, os olhos com que elas olhavam,
com sombras azuis na pele tão jovem das pálpebras.
E debaixo das camisas os seios nus como os rebentos nas árvores
iam surgindo do inverno, incitavam-nos a ver no verão
o tempo da nossa plenitude. A noite: horas que o sol
usa para colorir frutos distantes de outros continentes.
E raparigas aproveitam para sorrir nas margens desses rios,
no centro dessas cidades, às janelas entreabertas sobre a manhã.
Concentrada na perfeição em que se fixara,
a cor azul, como a ausência de vento, dir-se-ia eterna,
destinada a noite a não viver senão certa idade jovem,
a morrer adolescente nos braços trágicos de uma luz brusca.
(de Para a Desconhecida, Fenda edições, 1983)
AS CRINAS DO VENTO
O vento: música ou murmúrio da árvore.
Encosta a obsessão à parede branca dos quintais.
Vento de mar? E jovem leva a nuvem.
Os sinos de bronze, o cimo das searas:
viver é brusco, tão incerto.
E a minha mão, desabituada de sentir que toca
e é gesto
e me deixa possuir,
a minha mão quer a janela aberta. O vento não tem,
não, não tem
crinas.
Nem as costas luzidias de cavalo ou égua.
Áspero,
vidro partido espetado na terra.
Os dentes de uma serra,
espaço de repouso e cume que agride.
Pôr a mão em tanto
e sem respirar
quando parecia que era tarde e apenas
hora de dormir?
ABRIL PROVENÇAL
A noite de primavera imobilizada na sua quietude.
O ar quase quente, o azul do céu entre os ramos das árvores,
enquanto na avenida as pessoas não paravam de passar.
Um rapaz em tronco nu deitava-se nos vidros partidos,
um violino e uma flauta cantavam na esquina de uma rua.
Os braços despidos das raparigas, os olhos com que elas olhavam,
com sombras azuis na pele tão jovem das pálpebras.
E debaixo das camisas os seios nus como os rebentos nas árvores
iam surgindo do inverno, incitavam-nos a ver no verão
o tempo da nossa plenitude. A noite: horas que o sol
usa para colorir frutos distantes de outros continentes.
E raparigas aproveitam para sorrir nas margens desses rios,
no centro dessas cidades, às janelas entreabertas sobre a manhã.
Concentrada na perfeição em que se fixara,
a cor azul, como a ausência de vento, dir-se-ia eterna,
destinada a noite a não viver senão certa idade jovem,
a morrer adolescente nos braços trágicos de uma luz brusca.
(de Para a Desconhecida, Fenda edições, 1983)
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