BERNARDO PINTO DE ALMEIDA
o mar em chamas
todos os livros que leio me falam da tua morte
mas não se pode acreditar em tudo o que se lê
e sabendo embora que a tristeza não existe
não posso deixar de me sentar com a cara apoiada numa das mãos
a vida é uma doença de que alguns se curaram
passo os dias sentado num café à distância
e entre mim e mim existe já uma intimidade insuportável
(como dar de novo ouvidos aos meus mestres de outrora?)
fui dos que julgaram ter nascido para tornar grande o mundo
mas atrasei-me de propósito num quarto cheio de homens
– procuro perceber que tempo é que me cabe –
uma noite fui visto a lançar fogo ao mar
(de A Substância da Saudade (ou os últimos poemas de Américo Radar), in e outros poemas, Quetzal editores, 2002 – este poema pode ser ouvido, na voz do Autor, no cd O Vento a Escrever, Sombra do Amor edições, 2007)
8.7.09
7.7.09
JORGE DE AMORIM
AS MÃOS
Margens derivam. Lisura
das mãos, não rígidas. Rectas.
Nem açude: a que submetas,
torrencial, a ternura.
Murmulho. Espuma: fervente
caudal! Paralelamente,
ternas, derivam. E as horas
nas palmas brancas esquivo.
Ah, mãos? Nunca agarradoras
do coração fugitivo.
(de A Beleza e as Lágrimas, edição do Autor, 1957)
AS MÃOS
Margens derivam. Lisura
das mãos, não rígidas. Rectas.
Nem açude: a que submetas,
torrencial, a ternura.
Murmulho. Espuma: fervente
caudal! Paralelamente,
ternas, derivam. E as horas
nas palmas brancas esquivo.
Ah, mãos? Nunca agarradoras
do coração fugitivo.
(de A Beleza e as Lágrimas, edição do Autor, 1957)
6.7.09
[para uma antologia de bicicletas – 16 e 17]
KATIE MELUA
HUGO MILHANAS MACHADO
KATIE MELUA
Nove milhões de bicicletas em Pequim
muitas muitas bicicletas em Pequim e bom
são afinal bicicletas ou todas as bicicletas
e bem vendo aqui triste e aqui assim
tão poucas bicicletas aquelas bicicletas
nove milhões de bicicletas em Pequim
e aqui arrumadas ao pé da letra aqui
tão poucas bicicletas
se Katie Melua oh Katie Melua tantas
bicicletas são nove milhões de bicicletas
nove nove milhões de bicicletas em Pequim.
(de Clave do Mundo, Sombra do Amor edições, 2007)
KATIE MELUA
HUGO MILHANAS MACHADO
KATIE MELUA
Nove milhões de bicicletas em Pequim
muitas muitas bicicletas em Pequim e bom
são afinal bicicletas ou todas as bicicletas
e bem vendo aqui triste e aqui assim
tão poucas bicicletas aquelas bicicletas
nove milhões de bicicletas em Pequim
e aqui arrumadas ao pé da letra aqui
tão poucas bicicletas
se Katie Melua oh Katie Melua tantas
bicicletas são nove milhões de bicicletas
nove nove milhões de bicicletas em Pequim.
(de Clave do Mundo, Sombra do Amor edições, 2007)
5.7.09
10.6.09
RIBEIRO COUTO
CAMONOCÓRDIA NUM CAIS DE LISBOA
A rocha de cristal, Camões. Nós outros,
Irisações de sol, pobre poeira.
Língua que foste de uns e foste de outros,
Língua de continentes, marinheira,
Língua de Brancos, Negros e ainda outros,
Que bom haver quem como nós te queira!
Pintores, músicos e artistas outros
Entendidos serão na terra inteira,
Léguas e léguas de países outros.
Poetas, não. A Língua é prisioneira.
A voz com que cantamos, uns e outros,
Será sempre aos de além voz estrangeira.
Filhos do burgo ocidental, nós outros,
Fiéis a tanto afã, tanta canseira,
Ao bem da fama como a tantos outros
Sabemos renunciar de alma fagueira:
Em paga deste amor, maior que os outros,
Baste o poder cantar de tal maneira.
(de Longe, Livros do Brasil, 1961)
CAMONOCÓRDIA NUM CAIS DE LISBOA
A rocha de cristal, Camões. Nós outros,
Irisações de sol, pobre poeira.
Língua que foste de uns e foste de outros,
Língua de continentes, marinheira,
Língua de Brancos, Negros e ainda outros,
Que bom haver quem como nós te queira!
Pintores, músicos e artistas outros
Entendidos serão na terra inteira,
Léguas e léguas de países outros.
Poetas, não. A Língua é prisioneira.
A voz com que cantamos, uns e outros,
Será sempre aos de além voz estrangeira.
Filhos do burgo ocidental, nós outros,
Fiéis a tanto afã, tanta canseira,
Ao bem da fama como a tantos outros
Sabemos renunciar de alma fagueira:
Em paga deste amor, maior que os outros,
Baste o poder cantar de tal maneira.
(de Longe, Livros do Brasil, 1961)
9.6.09
O fascismo é uma minhoca
que se infiltra na maçã
ou vem com botas cardadas
ou com pezinhos de lã
(Sérgio Godinho)
que se infiltra na maçã
ou vem com botas cardadas
ou com pezinhos de lã
(Sérgio Godinho)
Pedindo desculpa aos citados por os juntar num mesmo post, não posso deixar de dar relevo a textos de hoje de Eduardo Pitta e de Paulo da Costa Domingos (que cita, a propósito, este texto de José Saramago) a alertar para uma realidade que não pode ser despachada com frases do tipo "ah, isso são os histéricos do costume". Porque não são. A extrema-direita, as suas intolerâncias e os seus ódios são uma realidade que anda por aí e exige a maior vigilância por parte de todos.
PEDRO BRAGA FALCÃO
XXIV
Se houvesse faróis suficientes
em todas as encostas e cabos,
se toda a deriva trouxesse
cantos épicos e novos sinos,
por deus, escreveria odes
outras que não te canto.
Tanta praia a escurecer,
tanto sol-posto, sentado,
debruçado sobre um sem tempo,
esperado pelo mundo,
comungando sem desejo.
Que houvesse monges e milénios
de um ócio inexpugnável,
que a alma vazia fosse mansão
de um ruído semelhante ao mar
para que eu fosse por ti desejado,
tanto quanto aqui existisse amor.
Esse espaço não tem sentido,
que ocupas.
Tanto és como outra surges.
A inconstância custa-me a paz,
e as línguas de terra pelo ponto adentro
iluminam sempre a mesma costa,
jogos de três espelhos, sem arcos.
A viciosa sorte desanima-me,
os joguetes de mãos nocivas
esgueiram-se entre os arvoredos.
Talvez consolado por essa água
que de sal me apresenta a noite,
caí sem oriente.
O corpo ferido reclama o teu descanso,
misteriosamente minha.
Estou sujo. Os faróis morrem.
Encontrasse eu outros portos
onde menos fosse o vento
e mais a tua presença.
(de Do princípio, edições Cotovia, 2009)
XXIV
Se houvesse faróis suficientes
em todas as encostas e cabos,
se toda a deriva trouxesse
cantos épicos e novos sinos,
por deus, escreveria odes
outras que não te canto.
Tanta praia a escurecer,
tanto sol-posto, sentado,
debruçado sobre um sem tempo,
esperado pelo mundo,
comungando sem desejo.
Que houvesse monges e milénios
de um ócio inexpugnável,
que a alma vazia fosse mansão
de um ruído semelhante ao mar
para que eu fosse por ti desejado,
tanto quanto aqui existisse amor.
Esse espaço não tem sentido,
que ocupas.
Tanto és como outra surges.
A inconstância custa-me a paz,
e as línguas de terra pelo ponto adentro
iluminam sempre a mesma costa,
jogos de três espelhos, sem arcos.
A viciosa sorte desanima-me,
os joguetes de mãos nocivas
esgueiram-se entre os arvoredos.
Talvez consolado por essa água
que de sal me apresenta a noite,
caí sem oriente.
O corpo ferido reclama o teu descanso,
misteriosamente minha.
Estou sujo. Os faróis morrem.
Encontrasse eu outros portos
onde menos fosse o vento
e mais a tua presença.
(de Do princípio, edições Cotovia, 2009)
8.6.09
CAMILO CASTELO BRANCO
(...)
(in A Queda de um Anjo, 1865)
(...)
- Onde é a Europa? - perguntou D. Teodora colérica.
- A Europa é este mundo por onde anda a gente, minha senhora - respondeu prontamente a viúva.
(...)(in A Queda de um Anjo, 1865)
6.6.09
[repost]
FAUSTO
EUROPA QUERIDA EUROPA
Europa nascida na Ásia profunda
ó filha do rei fenício Agenor
que Zeus entranhado no corpo de um touro
levou-te p'ra Creta cativo de amor
Europa é de Homero
de helénicas formas
do forum romano e da cruz
de tantas nações
ariana e semita
ventre das descobertas
da luz
do diverso sistema do modo diferente
da era da guerra e agora da paz
és assim querida Europa
vem que eu te quero toda do mar à montanha
vem que eu quero muito mais bela que o mar
vem vencendo cizânias que os povos sem feudos
sempre se amaram brilhantes em todo o lugar
o teu chão não é traste
de meros mercados
de pauta aduaneira
ou cifrão
é um terrunho de almas
uma ideia
um desejo
de uma nova maneira
em fusão
desfazendo complexos d mapas cor-de-rosa
sem a má consciência no verso e na prosa
só por ti querida Europa
para que sejas tu mesma a decidir o teu uso
para que sejas tu mesma ainda mais natural
não me toques o "beat" à americana
que esse já nós conhecemos na versão original
aguenta-te firme
livre de imitações
espera só mais um pouco
já vai
o que resta e o que sobra
aquela mesma saudade
toda a imaginação
ainda mais
não sentes um vago um suave cheiro a sardinhas
a algazarra nas ruas e o troar dos tambores
somos nós querida Europa
(do álbum Para além das Cordilheiras, de 1987)
FAUSTO
EUROPA QUERIDA EUROPA
Europa nascida na Ásia profunda
ó filha do rei fenício Agenor
que Zeus entranhado no corpo de um touro
levou-te p'ra Creta cativo de amor
Europa é de Homero
de helénicas formas
do forum romano e da cruz
de tantas nações
ariana e semita
ventre das descobertas
da luz
do diverso sistema do modo diferente
da era da guerra e agora da paz
és assim querida Europa
vem que eu te quero toda do mar à montanha
vem que eu quero muito mais bela que o mar
vem vencendo cizânias que os povos sem feudos
sempre se amaram brilhantes em todo o lugar
o teu chão não é traste
de meros mercados
de pauta aduaneira
ou cifrão
é um terrunho de almas
uma ideia
um desejo
de uma nova maneira
em fusão
desfazendo complexos d mapas cor-de-rosa
sem a má consciência no verso e na prosa
só por ti querida Europa
para que sejas tu mesma a decidir o teu uso
para que sejas tu mesma ainda mais natural
não me toques o "beat" à americana
que esse já nós conhecemos na versão original
aguenta-te firme
livre de imitações
espera só mais um pouco
já vai
o que resta e o que sobra
aquela mesma saudade
toda a imaginação
ainda mais
não sentes um vago um suave cheiro a sardinhas
a algazarra nas ruas e o troar dos tambores
somos nós querida Europa
(do álbum Para além das Cordilheiras, de 1987)
4.6.09
[Prémio Camões – ler aqui e ouvir aqui]
ARMÉNIO VIEIRA
LISBOA - 1971
Em verdade Lisboa não estava ali para nos saudar.
Eis-nos enfim transidos e quase perdidos
no meio de guardas e aviões da Portela.
Em verdade éramos o gado mais pobre
d'África trazido àquele lugar
e como folhas varridas pela vassoura do vento
nossos paramentos de presunção e de casta.
E quando mais tarde surpreendemos o espanto
da mulher que vendia maçãs
e queria saber d'onde… ao que vínhamos
descobrimos o logro a circular no coração do Império.
Porém o desencanto, que desce ao peito
e trepa a montanha,
necessita da levedura que o tempo fornece.
E num camião, por entre caixotes e resquícios da véspera,
fomos seguindo nosso destino
naquela manhã friorenta e molhada por chuviscos d'inverno.
(de Poesia Um – 1971-1974, in Poemas, Ilhéu editora, 1998)
SER TIGRE
O tigre ignora a liberdade do salto,
É como se uma mola
O compelisse a saltar
O tigre não ama.
Ele busca a fêmea
Como quem procura comida.
Sem tempo na alma,
É no presente
Que o tigre existe.
Entre o cio e a cópula.
Nenhuma voz lhe fala de Deus,
O tigre não morre, dorme e passa.
(de Poesia Três – Após 1981, in Poemas, Ilhéu editora, 1998)
Graças dou por Luís Vaz,
Ele-Mesmo, varão audaz,
como Ulisses, natatório,
ululado por ciclópicos
bêbedos canibais.
Mas quem pode afogar
tal homem, decepar suas mãos,
liquefazer seu poema?
Se é verdade que o Novo Reino
sucumbiu à foice com que Deus
decepa a espiga ruim, também é certo
que a partir de um bla-bla ruidoso
com que Viriato, mais que a funda,
espantava os filhos de Eneias,
Luís Vaz, pegando nele, criou o poema
e a pátria que deveras conta.
ANTIPOEMA
Já sei a eternidade: é puro orgasmo.
Como assim, meu caro Drummond,
se o que se segue ao sémen
são as sobras de uma laranja
cortada em dois, sendo que
uma das metades é apenas casca
lembrando a pele que as múmias
costumam ter, enquanto a parte
que teima em ficar redonda
é só a metade de uma geometria
que já foi doçura e polpa,
agora acre e assassina mais que a faca,
ao lado da qual jaz, definitivamente torpe,
já que as próprias moscas, apavoradas, fogem.
EXCENTRICIDADES GREGAS
Zenão rejeitava o óbvio
- entre o arqueiro e o alvo
o percurso da flecha é infindável,
de forma que o célere Aquiles
nunca apanha a tartaruga.
Platão era o oposto, afirmava
o improvável - a Ilíada, por
exemplo, era um mero duplicado
de um original escrito por um poeta
anterior ao nascimento
das estrelas, cujos símbolos
são a Esfera, a Luz e a Palavra.
Pitágoras era de opinião
que os números pares são demoníacos,
razão por que o três é melhor
que o seis, o cinco preferível
ao quatro e assim sucessivamente.
Nunca se deve comer feijões.
Quem o fizer corta o fio das
reincarnações, de sorte que a alma
fica prisioneira num eterno triângulo,
ou seja, entre dois catetos
e uma hipotenusa guardados por um dragão
de mil olhos e três línguas de fogo.
MALAE TENEBRAE
Never more! crocitava
o corvo Poe
aspergindo gordura
fervente e fétida
sobre os defuntos
que o chifrudo rei
dos pés-juntos
se aprestava
para transportar
ao reino onde as maçãs
nascem já podres
e os escorpiões
jamais param de crescer
para o tormento
das almas.
(de MITOgrafias, Ilhéu editora, 2006)
ARMÉNIO VIEIRA
LISBOA - 1971
A Ovídio Martins e Osvaldo Osório
Em verdade Lisboa não estava ali para nos saudar.
Eis-nos enfim transidos e quase perdidos
no meio de guardas e aviões da Portela.
Em verdade éramos o gado mais pobre
d'África trazido àquele lugar
e como folhas varridas pela vassoura do vento
nossos paramentos de presunção e de casta.
E quando mais tarde surpreendemos o espanto
da mulher que vendia maçãs
e queria saber d'onde… ao que vínhamos
descobrimos o logro a circular no coração do Império.
Porém o desencanto, que desce ao peito
e trepa a montanha,
necessita da levedura que o tempo fornece.
E num camião, por entre caixotes e resquícios da véspera,
fomos seguindo nosso destino
naquela manhã friorenta e molhada por chuviscos d'inverno.
(de Poesia Um – 1971-1974, in Poemas, Ilhéu editora, 1998)
SER TIGRE
O tigre ignora a liberdade do salto,
É como se uma mola
O compelisse a saltar
O tigre não ama.
Ele busca a fêmea
Como quem procura comida.
Sem tempo na alma,
É no presente
Que o tigre existe.
Entre o cio e a cópula.
Nenhuma voz lhe fala de Deus,
O tigre não morre, dorme e passa.
(de Poesia Três – Após 1981, in Poemas, Ilhéu editora, 1998)
Graças dou por Luís Vaz,
Ele-Mesmo, varão audaz,
como Ulisses, natatório,
ululado por ciclópicos
bêbedos canibais.
Mas quem pode afogar
tal homem, decepar suas mãos,
liquefazer seu poema?
Se é verdade que o Novo Reino
sucumbiu à foice com que Deus
decepa a espiga ruim, também é certo
que a partir de um bla-bla ruidoso
com que Viriato, mais que a funda,
espantava os filhos de Eneias,
Luís Vaz, pegando nele, criou o poema
e a pátria que deveras conta.
ANTIPOEMA
Já sei a eternidade: é puro orgasmo.
Como assim, meu caro Drummond,
se o que se segue ao sémen
são as sobras de uma laranja
cortada em dois, sendo que
uma das metades é apenas casca
lembrando a pele que as múmias
costumam ter, enquanto a parte
que teima em ficar redonda
é só a metade de uma geometria
que já foi doçura e polpa,
agora acre e assassina mais que a faca,
ao lado da qual jaz, definitivamente torpe,
já que as próprias moscas, apavoradas, fogem.
EXCENTRICIDADES GREGAS
Zenão rejeitava o óbvio
- entre o arqueiro e o alvo
o percurso da flecha é infindável,
de forma que o célere Aquiles
nunca apanha a tartaruga.
Platão era o oposto, afirmava
o improvável - a Ilíada, por
exemplo, era um mero duplicado
de um original escrito por um poeta
anterior ao nascimento
das estrelas, cujos símbolos
são a Esfera, a Luz e a Palavra.
Pitágoras era de opinião
que os números pares são demoníacos,
razão por que o três é melhor
que o seis, o cinco preferível
ao quatro e assim sucessivamente.
Nunca se deve comer feijões.
Quem o fizer corta o fio das
reincarnações, de sorte que a alma
fica prisioneira num eterno triângulo,
ou seja, entre dois catetos
e uma hipotenusa guardados por um dragão
de mil olhos e três línguas de fogo.
MALAE TENEBRAE
Never more! crocitava
o corvo Poe
aspergindo gordura
fervente e fétida
sobre os defuntos
que o chifrudo rei
dos pés-juntos
se aprestava
para transportar
ao reino onde as maçãs
nascem já podres
e os escorpiões
jamais param de crescer
para o tormento
das almas.
(de MITOgrafias, Ilhéu editora, 2006)
3.6.09
[ver outras evocações aqui, aqui e aqui]
GLÓRIA DE SANT’ANNA
até que volte a ver-vos me reconhecereis
não pela face desnecessária mas
porque aí estareis apenas
e quando vos movimentardes (se)
a agitação perturbada que sereis
vos dará a imponderável consistência
de entre mim e vós
não haverá gestos e até nem vozes (acredito)
só a lancinante serenidade resultante
e o desconhecido imerso (ou emerso) azul alívio
mas por outro lado poderia romper-se também
num relâmpago visível pelo que se chama céu
a nossa alegria
e voariam pássaros inacreditáveis pelo que se chama céu
e poldros de crinas longas até ao vento
bateriam os cascos nunca ferrados em galope sobre
o que semelhasse campina
e alguém poderia afirmar que nos viu
pela força incontrolável da nossa alegria
(a força incontrolável da nossa alegria
que deslassa os fios de qualquer pensamento
e despedaça as palavras em risadas e lágrimas
e se alimenta do horizonte dos dias
e é como uma sentinela no umbral da porta à noite
molhada de luar e arrepiada pelo gume das folhagens
escolhendo em silêncio uma estrela longínqua
e simultaneamente é áspera e doce)
mas quem o afirmasse seria apontado
como espontaneamente louco voluntariamente interpondo-se
a vós
tão desesperadamente ocultos
nas linhas do meu rosto
(de Gritoacanto (1970-1974), in Amaranto / Poesia 1951-1983, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1988 – Biblioteca de Autores Portugueses; o 2º e o 3º poemas haviam sido antes publicados em Junho de 1972, no número 3/4 de Caliban, em Lourenço Marques)
GLÓRIA DE SANT’ANNA
até que volte a ver-vos me reconhecereis
não pela face desnecessária mas
porque aí estareis apenas
e quando vos movimentardes (se)
a agitação perturbada que sereis
vos dará a imponderável consistência
de entre mim e vós
não haverá gestos e até nem vozes (acredito)
só a lancinante serenidade resultante
e o desconhecido imerso (ou emerso) azul alívio
mas por outro lado poderia romper-se também
num relâmpago visível pelo que se chama céu
a nossa alegria
e voariam pássaros inacreditáveis pelo que se chama céu
e poldros de crinas longas até ao vento
bateriam os cascos nunca ferrados em galope sobre
o que semelhasse campina
e alguém poderia afirmar que nos viu
pela força incontrolável da nossa alegria
(a força incontrolável da nossa alegria
que deslassa os fios de qualquer pensamento
e despedaça as palavras em risadas e lágrimas
e se alimenta do horizonte dos dias
e é como uma sentinela no umbral da porta à noite
molhada de luar e arrepiada pelo gume das folhagens
escolhendo em silêncio uma estrela longínqua
e simultaneamente é áspera e doce)
mas quem o afirmasse seria apontado
como espontaneamente louco voluntariamente interpondo-se
a vós
tão desesperadamente ocultos
nas linhas do meu rosto
(de Gritoacanto (1970-1974), in Amaranto / Poesia 1951-1983, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1988 – Biblioteca de Autores Portugueses; o 2º e o 3º poemas haviam sido antes publicados em Junho de 1972, no número 3/4 de Caliban, em Lourenço Marques)
2.6.09
VITTORE CARPACCIO

LUÍS QUINTAIS
O sonho de Santa Úrsula
(Carpaccio)
Disse-te que não seria capaz de escrever
um poema de amor.
Como representar a luz quando essa luz
é o véu que recobre o sonho de outrém?
Assim é aquilo que a palavra amor diz,
aponta, descreve em seu secreto centro.
Íntimo lugar onde um anjo se abeira
da tua morte, da minha morte, e nos enlaça
sob a luz recíproca, como se pudéssemos
sonhar, ambos, o mesmo sonho, a mesma dor,
o mesmo movimento, lento e obscuro,
de um deus frágil e atento.
Seríamos o imaginado centro
desta sala, deste limiar, deste medo
que o anjo diz sem dizer, que o anjo
persegue sem sinal de perseguição sequer.
Algo se diz, inapelável, atrás
do umbral que não vemos.
(de Duelo, edições Cotovia, 2004)

O Sonho de Santa Úrsula, 1495
óleo sobre tela
274x267 cm
Veneza, Galleria dell'Accademia
óleo sobre tela
274x267 cm
Veneza, Galleria dell'Accademia
LUÍS QUINTAIS
O sonho de Santa Úrsula
(Carpaccio)
Disse-te que não seria capaz de escrever
um poema de amor.
Como representar a luz quando essa luz
é o véu que recobre o sonho de outrém?
Assim é aquilo que a palavra amor diz,
aponta, descreve em seu secreto centro.
Íntimo lugar onde um anjo se abeira
da tua morte, da minha morte, e nos enlaça
sob a luz recíproca, como se pudéssemos
sonhar, ambos, o mesmo sonho, a mesma dor,
o mesmo movimento, lento e obscuro,
de um deus frágil e atento.
Seríamos o imaginado centro
desta sala, deste limiar, deste medo
que o anjo diz sem dizer, que o anjo
persegue sem sinal de perseguição sequer.
Algo se diz, inapelável, atrás
do umbral que não vemos.
(de Duelo, edições Cotovia, 2004)
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Portuguesa
1.6.09
ARMINDO TREVISAN
HOMO VIATOR
Sou homem… Que bom é ser
qualquer coisa, assim, ao léu,
uma pluma de vender,
um pensamento, um chapéu,
enfim ser tão somente isto,
ser apenas pelo meio,
sem um nome, sem um misto
de ancoragem ou de enleio,
ser nada (não é possível)
ser tudo (mas é demais)
ser então o indefinível
nem tão pouco, nem demais.
Ser no amor o amor calado
meio nu, meio essencial,
porque tudo o que é colmado
bem parece horizontal.
Só o que não se aprimora
até ao pormenor existe:
o dia é adulto na aurora,
a noite mais bela, triste.
Por isso, desejo ser
sendo apenas o que sou:
um pouco de parecer
e muito que não chegou.
(in dois poetas novos do Brasil, Moraes editores, 1972 – Círculo de Poesia)
HOMO VIATOR
Sou homem… Que bom é ser
qualquer coisa, assim, ao léu,
uma pluma de vender,
um pensamento, um chapéu,
enfim ser tão somente isto,
ser apenas pelo meio,
sem um nome, sem um misto
de ancoragem ou de enleio,
ser nada (não é possível)
ser tudo (mas é demais)
ser então o indefinível
nem tão pouco, nem demais.
Ser no amor o amor calado
meio nu, meio essencial,
porque tudo o que é colmado
bem parece horizontal.
Só o que não se aprimora
até ao pormenor existe:
o dia é adulto na aurora,
a noite mais bela, triste.
Por isso, desejo ser
sendo apenas o que sou:
um pouco de parecer
e muito que não chegou.
(in dois poetas novos do Brasil, Moraes editores, 1972 – Círculo de Poesia)
30.5.09
JOÃO CÉSAR MONTEIRO

(imagem de Fragmentos de um Filme-Esmola, 1972)
FRANGIS PONGE
A LARANJA
(in Alguns Poemas, tradução de Manuel Gusmão, edições Cotovia, 1996 – original de Le parti pris des choses / O partido tomado pelas coisas, 1942)
(imagem de Fragmentos de um Filme-Esmola, 1972)
FRANGIS PONGE
A LARANJA
Como na esponja há na laranja uma aspiração a retomar a forma depois de ter sofrido a prova da expressão. Mas enquanto a esponja o consegue sempre, a laranja nunca: porque as suas células estoiraram, os seus tecidos rasgaram-se. Enquanto que só a casca se restabeleceu languidamente na sua forma, graças à sua elasticidade, um líquido de âmbar derramou-se, acompanhado por um frescor e perfume suaves, é certo, – mas muitas vezes também pela consciência amarga de uma expulsão prematura de caroços.
Será necessário tomar partido entre estas duas maneiras de suportar mal a opressão? – A esponja é apenas músculo e enche-se de vento, de água limpa ou suja, consoante: essa ginástica é ignóbil. A laranja sabe melhor, mas é demasiado passiva, – e esse sacrifício odorífero... é de facto vender-se barato ao opressor.
Mas não é um dizer que baste sobre a laranja o ter lembrado a sua particular maneira de perfumar o ar e de deliciar o seu carrasco. É preciso pôr o acento na coloração gloriosa do líquido que daí resulta, e que, melhor do que o sumo de limão, obriga a laringe a abrir-se largamente para a prolação da palavra como para a ingestão do líquido, sem nenhuma careta apreensiva por dentro da boca, uma vez que ele não faz com que as papilas se arrepiem.
Além disso, fica-se sem palavras para confessar a admiração que merece o invólucro deste terno, frágil e róseo balão oval nesse espesso mata-borrão húmido cuja epiderme extremamente fina mas muito pigmentada, acerbamente sápida, é suficientemente rugosa para prender dignamente a luz na perfeita forma do fruto.
Mas no fim de um demasiado breve estudo, conduzido tão redonda e expeditamente quanto possível, – é preciso chegar ao caroço. Este grão, com a forma de um minúsculo limão, apresenta no exterior a cor da madeira branca de limoeiro, no interior um verde de ervilha ou de rebento tenro. É nele que se reencontram, depois da explosão sensacional da lanterna veneziana de sabores, cores e perfumes que o balão frutado em si mesmo constitui, – a dureza relativa e o verdor (não aliás inteiramente insípido) da madeira, do ramo, da folha: bem pequena suma, embora com certeza a razão de ser do fruto.
(in Alguns Poemas, tradução de Manuel Gusmão, edições Cotovia, 1996 – original de Le parti pris des choses / O partido tomado pelas coisas, 1942)
LEONARD COHEN
Last Year's Man
The rain falls down on last year's man,
that's a jew's harp on the table,
that's a crayon in his hand.
And the corners of the blueprint are ruined since they rolled
far past the stems of thumbtacks
that still throw shadows on the wood.
And the skylight is like skin for a drum I'll never mend
and all the rain falls down amen
on the works of last year's man.
I met a lady, she was playing with her soldiers in the dark
oh one by one she had to tell them
that her name was Joan of Arc.
I was in that army, yes I stayed a little while;
I want to thank you, Joan of Arc,
for treating me so well.
And though I wear a uniform I was not born to fight;
all these wounded boys you lie beside,
goodnight, my friends, goodnight.
I came upon a wedding that old families had contrived;
Bethlehem the bridegroom,
Babylon the bride.
Great Babylon was naked, oh she stood there trembling for me,
and Bethlehem inflamed us both
like the shy one at some orgy.
And when we fell together all our flesh was like a veil
that I had to draw aside to see
the serpent eat its tail.
Some women wait for Jesus, and some women wait for Cain
so I hang upon my altar
and I hoist my axe again.
And I take the one who finds me back to where it all began
when Jesus was the honeymoon
and Cain was just the man.
And we read from pleasant Bibles that are bound in blood and skin
that the wilderness is gathering
all its children back again.
The rain falls down on last year's man,
an hour has gone by
and he has not moved his hand.
But everything will happen if he only gives the word;
the lovers will rise up
and the mountains touch the ground.
But the skylight is like skin for a drum I'll never mend
and all the rain falls down amen
on the works of last year's man.
(do álbum Songs Of Love And Hove, 1970)
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