ARJEN DUINKER
X
As esquinas estão nuas.
As palavras estão nuas.
Em Córdoba há uma esquina onde os homens mijam
Quando têm a barriga a rebentar da cerveja,
Gemendo de alívio,
De olhos semi-cerrados.
Em Lisboa há também uma esquina assim,
Nem o vento a chegar sobre o Tejo
Consegue limpá-la.
Parei para ver,
Surpreendido pela nudez daquela esquina.
De uma varanda alguém me gritou. «Estás à procura de quê?
Oh, rapaz, esta esquina é muito especial.
Cada ano cinco mortos! Olha bem
E volta para casa.
Volta para casa.»
A mulher pigarreou e mandou um escarro valente.
E eu, fugindo a sete pés,
Admirei-me da nudez daquela esquina.
(in A canção sublime de um talvez, selecção e tradução de Arie Pos, editorial Teorema, 2003 – original de Losse gedichen / Poemas soltos, 1990)
17.7.09
15.7.09

Chave de ignição
o novo livro de poesia de
Ruy Ventura,
editado pela Labirinto
vai ser lançado amanhã,
pelas 21h00,
na Biblioteca Municipal de Sesimbra
14.7.09
RUI PIRES CABRAL
Montanha
Eu fiz das grandes cidades o meu desejo,
nelas subia à montanha invisível onde era quente
e seguro. Na impressão da tua boca havia uma árvore
que me abraçava contra a frialdade do céu.
Veríamos essas praças cheias de gente inócua,
os palácios pequenos e arrumados como num livro
que já não apetece. Perder o sentido ao mundo
era apenas como perder o caminho
para casa, uma questão simplesmente
topográfica. E eu trocava a nata de um ano inteiro
pelos primeiros segundos da tua respiração,
dava-te os meus pulsos a beber
na latitude conquistada aos últimos pássaros.
(de A Super-Realidade, edição do Autor, 1995)
Montanha
Eu fiz das grandes cidades o meu desejo,
nelas subia à montanha invisível onde era quente
e seguro. Na impressão da tua boca havia uma árvore
que me abraçava contra a frialdade do céu.
Veríamos essas praças cheias de gente inócua,
os palácios pequenos e arrumados como num livro
que já não apetece. Perder o sentido ao mundo
era apenas como perder o caminho
para casa, uma questão simplesmente
topográfica. E eu trocava a nata de um ano inteiro
pelos primeiros segundos da tua respiração,
dava-te os meus pulsos a beber
na latitude conquistada aos últimos pássaros.
(de A Super-Realidade, edição do Autor, 1995)
13.7.09
CATARINA COSTA
esqueceste o que perguntarias
àquele que se retirou antes da estranheza da tua vida
mais fácil trautear sábias cançonetas
aos que sacham contigo as terras
para que a vegetação desborde em parcerias
questionas pouco
negoceias algo
mostras o chapéu apropriado ao sol
que entrelaçaste nos interregnos do crescimento
enquanto ouvias alguém da tua idade
a ensaiar o concerto à memória de um anjo
(de Marcas de urze, Cosmorama edições, 2008)
esqueceste o que perguntarias
àquele que se retirou antes da estranheza da tua vida
mais fácil trautear sábias cançonetas
aos que sacham contigo as terras
para que a vegetação desborde em parcerias
questionas pouco
negoceias algo
mostras o chapéu apropriado ao sol
que entrelaçaste nos interregnos do crescimento
enquanto ouvias alguém da tua idade
a ensaiar o concerto à memória de um anjo
(de Marcas de urze, Cosmorama edições, 2008)
12.7.09
JOSÉ ÁLVARO AFONSO
A janela ilumina o deserto
Procura de outras margens
Limite adivinhado das águas
Corrente cativa as palavras
Soam como vidros quebrando-se
A pele hirta por há muito as esperar
Água escrevo como escrevi paz
Como de novo o medo
Exorcismo – convocar as luzes
As navegações de vidas só além
– Perplexo repito: Onde está a nudez
Dos sentidos impossíveis de trocar?
O sol brilha
Até amanhã
Chamo-te silêncio sem poesia
Como quem lavra a terra e
Constrói noite dentro a casa do gado
(de Furtiva a Luz, edições Salamandra, 1999 – colecção Garajau)
A janela ilumina o deserto
Procura de outras margens
Limite adivinhado das águas
Corrente cativa as palavras
Soam como vidros quebrando-se
A pele hirta por há muito as esperar
Água escrevo como escrevi paz
Como de novo o medo
Exorcismo – convocar as luzes
As navegações de vidas só além
– Perplexo repito: Onde está a nudez
Dos sentidos impossíveis de trocar?
O sol brilha
Até amanhã
Chamo-te silêncio sem poesia
Como quem lavra a terra e
Constrói noite dentro a casa do gado
(de Furtiva a Luz, edições Salamandra, 1999 – colecção Garajau)
10.7.09
RUI KNOPFLI
APRENDIZ NA OFICINA DA POESIA
Não rimes.
Ou rima, se quiseres,
mas não violentes
a palavra.
Não busques ansioso,
qual amante inexperiente,
a palavra.
Espera antes
a sua vinda.
Música e rima
são acessórios dispensáveis:
O poema é outra coisa.
Deixa, pois
que as palavras acordem
na matriz
e caiam maduras.
Áridas ou frias,
secas e imperturbáveis,
orvalhadas, humildes,
estropiadas até,
que sejam precisas,
prenhes de significado.
Espera as palavras.
Elas viajam misteriosas,
desconhecidas ainda,
elas germinam
em ti.
Caem. Juntam-se.
Doloridas, feias
sob o visco placentário,
deselegantes por vezes,
elas procuram-se
e organizam-se.
Juntas transcendem-se,
há algo de íntimo,
coeso e secreto
nelas.
O poema está aí.
(de Reino Submarino, 1962)
APRENDIZ NA OFICINA DA POESIA
Não rimes.
Ou rima, se quiseres,
mas não violentes
a palavra.
Não busques ansioso,
qual amante inexperiente,
a palavra.
Espera antes
a sua vinda.
Música e rima
são acessórios dispensáveis:
O poema é outra coisa.
Deixa, pois
que as palavras acordem
na matriz
e caiam maduras.
Áridas ou frias,
secas e imperturbáveis,
orvalhadas, humildes,
estropiadas até,
que sejam precisas,
prenhes de significado.
Espera as palavras.
Elas viajam misteriosas,
desconhecidas ainda,
elas germinam
em ti.
Caem. Juntam-se.
Doloridas, feias
sob o visco placentário,
deselegantes por vezes,
elas procuram-se
e organizam-se.
Juntas transcendem-se,
há algo de íntimo,
coeso e secreto
nelas.
O poema está aí.
(de Reino Submarino, 1962)
9.7.09
OLGA SAVARY
MERGULHO
Com certeza não foi aqui
onde a pedra no fundo d'água
era apenas essa coisa: medo.
Água
(flor carregada de perguntas,
nuvem onde me esgarço, líquida),
a idade da pedra se soubesses
não passearias assim tua tranquilidade.
Água,
responderias talvez com alguma praia
mesmo que as houvesse submersas,
que retivessem um corpo magiciado
– não mais corpo mas só algas,
algas se desfazendo em água.
Eu não saberia dizê-lo certo
mas com certeza não foi aqui.
E o não saber a perda onde encontrar
e o quanto é grande, a água que me chama
me inventa em secreto mar.
(de Espelho Provisório, livraria José Olympio editora, 1970)
MERGULHO
Com certeza não foi aqui
onde a pedra no fundo d'água
era apenas essa coisa: medo.
Água
(flor carregada de perguntas,
nuvem onde me esgarço, líquida),
a idade da pedra se soubesses
não passearias assim tua tranquilidade.
Água,
responderias talvez com alguma praia
mesmo que as houvesse submersas,
que retivessem um corpo magiciado
– não mais corpo mas só algas,
algas se desfazendo em água.
Eu não saberia dizê-lo certo
mas com certeza não foi aqui.
E o não saber a perda onde encontrar
e o quanto é grande, a água que me chama
me inventa em secreto mar.
RIO, NOV. 1961
(de Espelho Provisório, livraria José Olympio editora, 1970)
8.7.09
BERNARDO PINTO DE ALMEIDA
o mar em chamas
todos os livros que leio me falam da tua morte
mas não se pode acreditar em tudo o que se lê
e sabendo embora que a tristeza não existe
não posso deixar de me sentar com a cara apoiada numa das mãos
a vida é uma doença de que alguns se curaram
passo os dias sentado num café à distância
e entre mim e mim existe já uma intimidade insuportável
(como dar de novo ouvidos aos meus mestres de outrora?)
fui dos que julgaram ter nascido para tornar grande o mundo
mas atrasei-me de propósito num quarto cheio de homens
– procuro perceber que tempo é que me cabe –
uma noite fui visto a lançar fogo ao mar
(de A Substância da Saudade (ou os últimos poemas de Américo Radar), in e outros poemas, Quetzal editores, 2002 – este poema pode ser ouvido, na voz do Autor, no cd O Vento a Escrever, Sombra do Amor edições, 2007)
o mar em chamas
todos os livros que leio me falam da tua morte
mas não se pode acreditar em tudo o que se lê
e sabendo embora que a tristeza não existe
não posso deixar de me sentar com a cara apoiada numa das mãos
a vida é uma doença de que alguns se curaram
passo os dias sentado num café à distância
e entre mim e mim existe já uma intimidade insuportável
(como dar de novo ouvidos aos meus mestres de outrora?)
fui dos que julgaram ter nascido para tornar grande o mundo
mas atrasei-me de propósito num quarto cheio de homens
– procuro perceber que tempo é que me cabe –
uma noite fui visto a lançar fogo ao mar
(de A Substância da Saudade (ou os últimos poemas de Américo Radar), in e outros poemas, Quetzal editores, 2002 – este poema pode ser ouvido, na voz do Autor, no cd O Vento a Escrever, Sombra do Amor edições, 2007)
7.7.09
JORGE DE AMORIM
AS MÃOS
Margens derivam. Lisura
das mãos, não rígidas. Rectas.
Nem açude: a que submetas,
torrencial, a ternura.
Murmulho. Espuma: fervente
caudal! Paralelamente,
ternas, derivam. E as horas
nas palmas brancas esquivo.
Ah, mãos? Nunca agarradoras
do coração fugitivo.
(de A Beleza e as Lágrimas, edição do Autor, 1957)
AS MÃOS
Margens derivam. Lisura
das mãos, não rígidas. Rectas.
Nem açude: a que submetas,
torrencial, a ternura.
Murmulho. Espuma: fervente
caudal! Paralelamente,
ternas, derivam. E as horas
nas palmas brancas esquivo.
Ah, mãos? Nunca agarradoras
do coração fugitivo.
(de A Beleza e as Lágrimas, edição do Autor, 1957)
6.7.09
[para uma antologia de bicicletas – 16 e 17]
KATIE MELUA
HUGO MILHANAS MACHADO
KATIE MELUA
Nove milhões de bicicletas em Pequim
muitas muitas bicicletas em Pequim e bom
são afinal bicicletas ou todas as bicicletas
e bem vendo aqui triste e aqui assim
tão poucas bicicletas aquelas bicicletas
nove milhões de bicicletas em Pequim
e aqui arrumadas ao pé da letra aqui
tão poucas bicicletas
se Katie Melua oh Katie Melua tantas
bicicletas são nove milhões de bicicletas
nove nove milhões de bicicletas em Pequim.
(de Clave do Mundo, Sombra do Amor edições, 2007)
KATIE MELUA
HUGO MILHANAS MACHADO
KATIE MELUA
Nove milhões de bicicletas em Pequim
muitas muitas bicicletas em Pequim e bom
são afinal bicicletas ou todas as bicicletas
e bem vendo aqui triste e aqui assim
tão poucas bicicletas aquelas bicicletas
nove milhões de bicicletas em Pequim
e aqui arrumadas ao pé da letra aqui
tão poucas bicicletas
se Katie Melua oh Katie Melua tantas
bicicletas são nove milhões de bicicletas
nove nove milhões de bicicletas em Pequim.
(de Clave do Mundo, Sombra do Amor edições, 2007)
5.7.09
10.6.09
RIBEIRO COUTO
CAMONOCÓRDIA NUM CAIS DE LISBOA
A rocha de cristal, Camões. Nós outros,
Irisações de sol, pobre poeira.
Língua que foste de uns e foste de outros,
Língua de continentes, marinheira,
Língua de Brancos, Negros e ainda outros,
Que bom haver quem como nós te queira!
Pintores, músicos e artistas outros
Entendidos serão na terra inteira,
Léguas e léguas de países outros.
Poetas, não. A Língua é prisioneira.
A voz com que cantamos, uns e outros,
Será sempre aos de além voz estrangeira.
Filhos do burgo ocidental, nós outros,
Fiéis a tanto afã, tanta canseira,
Ao bem da fama como a tantos outros
Sabemos renunciar de alma fagueira:
Em paga deste amor, maior que os outros,
Baste o poder cantar de tal maneira.
(de Longe, Livros do Brasil, 1961)
CAMONOCÓRDIA NUM CAIS DE LISBOA
A rocha de cristal, Camões. Nós outros,
Irisações de sol, pobre poeira.
Língua que foste de uns e foste de outros,
Língua de continentes, marinheira,
Língua de Brancos, Negros e ainda outros,
Que bom haver quem como nós te queira!
Pintores, músicos e artistas outros
Entendidos serão na terra inteira,
Léguas e léguas de países outros.
Poetas, não. A Língua é prisioneira.
A voz com que cantamos, uns e outros,
Será sempre aos de além voz estrangeira.
Filhos do burgo ocidental, nós outros,
Fiéis a tanto afã, tanta canseira,
Ao bem da fama como a tantos outros
Sabemos renunciar de alma fagueira:
Em paga deste amor, maior que os outros,
Baste o poder cantar de tal maneira.
(de Longe, Livros do Brasil, 1961)
9.6.09
O fascismo é uma minhoca
que se infiltra na maçã
ou vem com botas cardadas
ou com pezinhos de lã
(Sérgio Godinho)
que se infiltra na maçã
ou vem com botas cardadas
ou com pezinhos de lã
(Sérgio Godinho)
Pedindo desculpa aos citados por os juntar num mesmo post, não posso deixar de dar relevo a textos de hoje de Eduardo Pitta e de Paulo da Costa Domingos (que cita, a propósito, este texto de José Saramago) a alertar para uma realidade que não pode ser despachada com frases do tipo "ah, isso são os histéricos do costume". Porque não são. A extrema-direita, as suas intolerâncias e os seus ódios são uma realidade que anda por aí e exige a maior vigilância por parte de todos.
PEDRO BRAGA FALCÃO
XXIV
Se houvesse faróis suficientes
em todas as encostas e cabos,
se toda a deriva trouxesse
cantos épicos e novos sinos,
por deus, escreveria odes
outras que não te canto.
Tanta praia a escurecer,
tanto sol-posto, sentado,
debruçado sobre um sem tempo,
esperado pelo mundo,
comungando sem desejo.
Que houvesse monges e milénios
de um ócio inexpugnável,
que a alma vazia fosse mansão
de um ruído semelhante ao mar
para que eu fosse por ti desejado,
tanto quanto aqui existisse amor.
Esse espaço não tem sentido,
que ocupas.
Tanto és como outra surges.
A inconstância custa-me a paz,
e as línguas de terra pelo ponto adentro
iluminam sempre a mesma costa,
jogos de três espelhos, sem arcos.
A viciosa sorte desanima-me,
os joguetes de mãos nocivas
esgueiram-se entre os arvoredos.
Talvez consolado por essa água
que de sal me apresenta a noite,
caí sem oriente.
O corpo ferido reclama o teu descanso,
misteriosamente minha.
Estou sujo. Os faróis morrem.
Encontrasse eu outros portos
onde menos fosse o vento
e mais a tua presença.
(de Do princípio, edições Cotovia, 2009)
XXIV
Se houvesse faróis suficientes
em todas as encostas e cabos,
se toda a deriva trouxesse
cantos épicos e novos sinos,
por deus, escreveria odes
outras que não te canto.
Tanta praia a escurecer,
tanto sol-posto, sentado,
debruçado sobre um sem tempo,
esperado pelo mundo,
comungando sem desejo.
Que houvesse monges e milénios
de um ócio inexpugnável,
que a alma vazia fosse mansão
de um ruído semelhante ao mar
para que eu fosse por ti desejado,
tanto quanto aqui existisse amor.
Esse espaço não tem sentido,
que ocupas.
Tanto és como outra surges.
A inconstância custa-me a paz,
e as línguas de terra pelo ponto adentro
iluminam sempre a mesma costa,
jogos de três espelhos, sem arcos.
A viciosa sorte desanima-me,
os joguetes de mãos nocivas
esgueiram-se entre os arvoredos.
Talvez consolado por essa água
que de sal me apresenta a noite,
caí sem oriente.
O corpo ferido reclama o teu descanso,
misteriosamente minha.
Estou sujo. Os faróis morrem.
Encontrasse eu outros portos
onde menos fosse o vento
e mais a tua presença.
(de Do princípio, edições Cotovia, 2009)
8.6.09
CAMILO CASTELO BRANCO
(...)
(in A Queda de um Anjo, 1865)
(...)
- Onde é a Europa? - perguntou D. Teodora colérica.
- A Europa é este mundo por onde anda a gente, minha senhora - respondeu prontamente a viúva.
(...)(in A Queda de um Anjo, 1865)
Subscrever:
Mensagens (Atom)