ANTÓNIO QUADROS FERRO
EXERCÍCIO
Deixa
lentamente
que a tarde finde
verás depois ou entretanto
depende
que o que deixas acabar
não é mais do que a parte que a ti
te pertence.
Ali,
onde tu vês o que não existe
saberás, se te perderes um pouco,
que esse céu que o teu olhar
tantas vezes fingiu
fingiu uma vida inteira.
Depois, quando regressares,
e não souberes quem és,
isto é, quando te perderes de vez,
e tiveres aprendido por duas vezes
tudo o que há para aprender nesta vida
é possível que eu queira, se é que isto existe,
morrer contigo, morrer melhor.
Mas como te percebo,
eu próprio nunca abri os olhos
nunca me perdi antes
nunca me achei em nenhum céu.
Nunca, sequer, me levei de uma cor à outra.
A noite escura nunca me levou ao lugar que eu queria.
Morri apenas.
Demorei uma vida a morrer.
Como desejei.
Aos poucos,
ou de uma vez só,
como a tristeza quis.
(de Um Pouco de Morte, edição do Autor, 2009)
30.7.09
29.7.09
GÖRAN SONNEVI
Nitidez
A pedra cai
como se fosse em água transparente
mais fundo cada vez mais fundo
Aqui posso perguntar
que água?
que pedra?
e aqui está a dissolução, o desaparecimento.
O que resta
clareza, mergulho, profundidade.
(tradução de Ana Hatherly, in 21 Poetas Suecos, Vega, 1981)
Nitidez
A pedra cai
como se fosse em água transparente
mais fundo cada vez mais fundo
Aqui posso perguntar
que água?
que pedra?
e aqui está a dissolução, o desaparecimento.
O que resta
clareza, mergulho, profundidade.
(tradução de Ana Hatherly, in 21 Poetas Suecos, Vega, 1981)
28.7.09
DAVID MESTRE
GEOPOLÍTICA DO MEDO
À frente da história seguem os heróis
os santos e os poetas. E os que sobram
da provada culpa do vento, marinheiros
de cana rapados à venérea idade
do mar. E os que viemos depois
na cauda do açoite
mover os braços reter o corpo
para cá da barra, e a voz
de piratas trincados pela raiz.
Daqui nos damos notícia, corsários
do medo auriculado na gengiva
dos séculos. E dos que partiram
sem barco de feição ou anel
para os dedos abertos no pródigo mês
da idade.
Já nada nos destrói. Nem a lágrima
encalhada na dentícula vegetal para o amor.
Nem ela.
(de Do Canto à Idade, Centelha, 1977 – Poesia Nosso Tempo)
GEOPOLÍTICA DO MEDO
À frente da história seguem os heróis
os santos e os poetas. E os que sobram
da provada culpa do vento, marinheiros
de cana rapados à venérea idade
do mar. E os que viemos depois
na cauda do açoite
mover os braços reter o corpo
para cá da barra, e a voz
de piratas trincados pela raiz.
Daqui nos damos notícia, corsários
do medo auriculado na gengiva
dos séculos. E dos que partiram
sem barco de feição ou anel
para os dedos abertos no pródigo mês
da idade.
Já nada nos destrói. Nem a lágrima
encalhada na dentícula vegetal para o amor.
Nem ela.
(de Do Canto à Idade, Centelha, 1977 – Poesia Nosso Tempo)
marcadores:
Angolana,
David Mestre,
Portuguesa
27.7.09
[poemas que fazem lembrar dos amigos – 1 (André Simões)]
ANTHONY THWAITE
ESCRITA ARÁBICA
Como aranha por tinta, alguém diz, trocando: vê-a
Confusa nos jornais ou em anúncios de néon
E sugere um silabário infinitamente plástico,
Feminino, todo traços diacríticos, travessões
Nadando juntos como um cardume de vairões,
Resoluta mas indócil, medida vacilante
Dançada no sentido, ocultando vogais e exalação.
Mas em Sidi Kreibish, entre os túmulos,
Onde os crânios se ocultam em raízes de cactos,
Garras róseas estalando lápidas e pedras angulares,
Cada ponta carnosa furando para atingir a luz,
Cada pico uma híspida agulha, vê-se o severo
Limite da língua, cúfico, como uma cimitarra
Curvada num açoite, um clarão de consoantes
Como agitada esse dia saindo de Medina
Na longa punição para oeste, por ruínas e flácidos colonos,
Um vórtice de pendões negros, crescentes brancos, uma linguagem de espadas.
(tradução de Manuel de Seabra, in Antologia da Poesia Britânica Contemporânea, livros Horizonte, 1982 – original de The stones of emptiness, 1967)
ANTHONY THWAITE
ESCRITA ARÁBICA
Como aranha por tinta, alguém diz, trocando: vê-a
Confusa nos jornais ou em anúncios de néon
E sugere um silabário infinitamente plástico,
Feminino, todo traços diacríticos, travessões
Nadando juntos como um cardume de vairões,
Resoluta mas indócil, medida vacilante
Dançada no sentido, ocultando vogais e exalação.
Mas em Sidi Kreibish, entre os túmulos,
Onde os crânios se ocultam em raízes de cactos,
Garras róseas estalando lápidas e pedras angulares,
Cada ponta carnosa furando para atingir a luz,
Cada pico uma híspida agulha, vê-se o severo
Limite da língua, cúfico, como uma cimitarra
Curvada num açoite, um clarão de consoantes
Como agitada esse dia saindo de Medina
Na longa punição para oeste, por ruínas e flácidos colonos,
Um vórtice de pendões negros, crescentes brancos, uma linguagem de espadas.
(tradução de Manuel de Seabra, in Antologia da Poesia Britânica Contemporânea, livros Horizonte, 1982 – original de The stones of emptiness, 1967)
26.7.09
Isto um tipo anda distraído com coisas sem importância e acaba por se esquecer do que realmente faz sentido:
o Henrique Fialho está de volta à blogolândia!
o Henrique Fialho está de volta à blogolândia!
JOSÉ DO CARMO FRANCISCO
Balada de Holloway Hill
Isabel leva um sorriso
A enfrentar a paisagem
Porque sorrir é preciso
Na duração da viagem
É de novo pequenina
Neste dia a decorrer
Na voz, mulher-menina
No B.I., menina-mulher
Tem no cristal da voz
Luz que vem do litoral
Quando os laços e os nós
São o som de Portugal
No menino que nasceu
Uma teimosa alegria
Na avó que está no céu
Há memória e nostalgia
Casa junto a rio pequeno
Em tempos era a azenha
Lá o tempo era sereno
E o pão cozido a lenha
Naquela casa gigante
Os moinhos de brincar
O dia era um instante
Nos relógios do lugar
E naquela loja antiga
Tecidos e mercearia
O correio era cantiga
Nas cartas da alegria
Se a chuva tão teimosa
Chega no pó da estrada
A balada traz uma rosa
Numa canção encantada
Na parede do calendário
O poema é uma certeza
No dia do aniversário
Deixo os votos na mesa
São votos de felicidade
Na distância dum país
Há passeios de saudade
No caminho de ser feliz
(inédito - oferta do Autor)
Balada de Holloway Hill
Isabel leva um sorriso
A enfrentar a paisagem
Porque sorrir é preciso
Na duração da viagem
É de novo pequenina
Neste dia a decorrer
Na voz, mulher-menina
No B.I., menina-mulher
Tem no cristal da voz
Luz que vem do litoral
Quando os laços e os nós
São o som de Portugal
No menino que nasceu
Uma teimosa alegria
Na avó que está no céu
Há memória e nostalgia
Casa junto a rio pequeno
Em tempos era a azenha
Lá o tempo era sereno
E o pão cozido a lenha
Naquela casa gigante
Os moinhos de brincar
O dia era um instante
Nos relógios do lugar
E naquela loja antiga
Tecidos e mercearia
O correio era cantiga
Nas cartas da alegria
Se a chuva tão teimosa
Chega no pó da estrada
A balada traz uma rosa
Numa canção encantada
Na parede do calendário
O poema é uma certeza
No dia do aniversário
Deixo os votos na mesa
São votos de felicidade
Na distância dum país
Há passeios de saudade
No caminho de ser feliz
(inédito - oferta do Autor)
25.7.09
[um galego em dia de Santiago]
CELSO EMILIO FERREIRO
DEITADO FRENTE AO MAR...
Lingoa proletária do meu pobo
eu fáloa porque si, porque me gosta,
porque me peta e quero e dame a ganha
porque me sai de dentro, ala do fondo
dunha tristura aceda que me abrangue
ao ver tanto patufos desleigados,
pequenos mequetrefes sin raíces
que ao pôr a garabata xá non saben
afirmarse no amor dos devanceiros,
falar a fala nai,
a fala dos abós que temos mortos,
e ser, co rostro erguido,
marinheiros, labregos do língoaxe,
remo i arado, proa e relha sempre.
Eu fáloa porque si, porque me gosta
e quero estar cos meus, coa xente minha,
perto dos homes bós que sofren longo
unha historia contada en outra lingoa.
Non falo pra os soberbios,
non falo pra os ruís e poderosos,
non falo pra os finchados,
non falo pra os estúpidos,
non falo pra os valeiros,
que falo pra os que agoantan rexamente
mentiras e inxusticias de cotio;
pra os que súan e choran
un pranto cotidián de volvoretas,
de lume e vento sobre os olhos núos.
Eu non podo arredar as minhas verbas
de tódolos que sofren neste mundo.
E ti vives no mundo, terra minha,
berce da minha estirpe,
Galícia, doce mágoa das Espanhas,
deitada rente ao mar, ise caminho...
(in Autoescolha Poética (1954-1971), Razão Actual, 1972 - original de Longa Noite de Pedra, 1962)
CELSO EMILIO FERREIRO
DEITADO FRENTE AO MAR...
Lingoa proletária do meu pobo
eu fáloa porque si, porque me gosta,
porque me peta e quero e dame a ganha
porque me sai de dentro, ala do fondo
dunha tristura aceda que me abrangue
ao ver tanto patufos desleigados,
pequenos mequetrefes sin raíces
que ao pôr a garabata xá non saben
afirmarse no amor dos devanceiros,
falar a fala nai,
a fala dos abós que temos mortos,
e ser, co rostro erguido,
marinheiros, labregos do língoaxe,
remo i arado, proa e relha sempre.
Eu fáloa porque si, porque me gosta
e quero estar cos meus, coa xente minha,
perto dos homes bós que sofren longo
unha historia contada en outra lingoa.
Non falo pra os soberbios,
non falo pra os ruís e poderosos,
non falo pra os finchados,
non falo pra os estúpidos,
non falo pra os valeiros,
que falo pra os que agoantan rexamente
mentiras e inxusticias de cotio;
pra os que súan e choran
un pranto cotidián de volvoretas,
de lume e vento sobre os olhos núos.
Eu non podo arredar as minhas verbas
de tódolos que sofren neste mundo.
E ti vives no mundo, terra minha,
berce da minha estirpe,
Galícia, doce mágoa das Espanhas,
deitada rente ao mar, ise caminho...
Glossário:
Petar – bater com a aldraba (da porta), apetecer.
Patufo – néscio.
Mequetrefe – homem intrometido, de pouco proveito.
Devanceiro – antepassado.
Labrego – camponês.
Finchado – vaidoso.
Valeiro – vazio, oco.
Volvoreta – borboleta.
(in Autoescolha Poética (1954-1971), Razão Actual, 1972 - original de Longa Noite de Pedra, 1962)
24.7.09
23.7.09

O texto de apresentação do livro Chave de ignição (de onde retirei o poema do post anterior), do meu Amigo Ruy Ventura, está acessível.
O Autor é o Poeta João Candeias.
O Autor é o Poeta João Candeias.
RUY VENTURA
a carne queima a sombra e a memória.
deixa sobre os olhos um traço negro.
a água não consegue lavar a cinza deste corpo,
sem membros, o tronco enegrece sobre a terra,
deixa nas árvores o último grito –
lançado na hora do abate.
que corpo resguardava esta carne?
trago às palavras um nome, um gesto, uma fronteira.
sem vida, o meu olhar descobre nas vísceras
vestígios de saudade
que a tarde não conseguiu matar.
sangue apenas?
coágulos dissolvem o centro da cidade.
o metal atravessa as estrelas,
reconhece na carne os odores da última viagem.
que noite vivo?
a memória enegrece, mas persiste,
escavo o esquecimento.
a fotografia permanece
– calcinando o fogo.
(de Chave de ignição, editora Labirinto, 2009)
a carne queima a sombra e a memória.
deixa sobre os olhos um traço negro.
a água não consegue lavar a cinza deste corpo,
sem membros, o tronco enegrece sobre a terra,
deixa nas árvores o último grito –
lançado na hora do abate.
que corpo resguardava esta carne?
trago às palavras um nome, um gesto, uma fronteira.
sem vida, o meu olhar descobre nas vísceras
vestígios de saudade
que a tarde não conseguiu matar.
sangue apenas?
coágulos dissolvem o centro da cidade.
o metal atravessa as estrelas,
reconhece na carne os odores da última viagem.
que noite vivo?
a memória enegrece, mas persiste,
escavo o esquecimento.
a fotografia permanece
– calcinando o fogo.
(de Chave de ignição, editora Labirinto, 2009)
22.7.09
ADRIAN HENRI
ESTA NOITE AO MEIO-DIA (*)
(para Charles Mingus e os Clayton Squares)
(para Charles Mingus e os Clayton Squares)
Esta noite ao meio-dia
Os supermercados anunciarão DESCONTO em tudo
Esta noite ao meio-dia
As crianças de famílias felizes serão mandadas para um asilo
Os elefantes contarão uns aos outros anedotas humanas
A América vai declarar paz à Rússia
Generais da Grande Guerra venderão capacetes nas ruas no 11 de Novembro
Os primeiros narcisos do Outono hão-de aparecer
Quando as folhas caírem para as árvores
Esta noite ao meio-dia
Os pombos vão caçar gatos pelos quintais
Hitler dir-nos-á que lutemos nas costas e nas praias
Um túnel será aberto sob Liverpul
Serão avistados porcos voando em formação sobre Woolton
e Nelson não só receberá o olho de volta mas também o braço
Os Americanos brancos exigirão igualdade de direitos
em frente da Casa Preta
e o Monstro acaba de criar o Dr. Frankenstein
Moças em bikini estão a banhar-se na lua
Canções populares estão sendo cantadas por autêntico povo
As galerias de arte são interditas a maiores de 21 anos
Os poetas vêem os seus poemas no Top 20.
Os políticos são eleitos para manicómios
Há empregos para todos e ninguém os quer
Em ruelas escusas amantes adolescentes beijam-se
à luz do dia
Em campas esquecidas em toda a parte os mortos calmamente
enterrarão os vivos
e
Tu dir-me-ás que me amas
Esta noite ao meio-dia
* O título deste poema é tirado dum L. P. de Charles Mingus ‘Tonight at Noon’, Atlanta 1416. (Nota do Autor).
(tradução de Manuel de Seabra, in Antologia da Poesia Britânica Contemporânea, livros Horizonte, 1982 – original de Tonight at Noon, 1969; o tema no vídeo é do álbum referido em nota)
marcadores:
Adrian Henri,
Inglesa,
música
21.7.09
ELISABETH BISHOP
MAÇARICO
Aceita como tal qualquer bramido a seu lado
e que o mundo, de quando em quando, seja obrigado a agitar-se.
Corre, corre para sul, meticuloso, desastrado,
num estado de pânico controlado, um estudioso de Blake.
A praia rechina como gordura. À sua esquerda, um lençol
de água descontínua que vai e vem
acetinada sobre as suas patas escuras e frágeis.
Corre, corre em linha recta por ela, observando os dedos.
– Ou, melhor, observando os espaços de areia entre eles,
onde (nem que seja um diminuto pormenor) o Atlântico se escoa
rápido, recuando e afundando-se, enquanto corre
a olhar os grãos de areia que são arrastados.
O mundo é uma névoa. E a seguir o mundo fica
diminuto e vasto e límpido. A maré
ou está mais alta ou mais baixa: era incapaz, de nos dizer.
O seu bico encontra uma direcção; está preocupado,
procurando alguma coisa, alguma coisa, alguma coisa.
Pobre pássaro, está obcecado!
Os milhões de grãos são negros, brancos, bronzeados e cinzentos,
misturados com grãos de quartzo, rosa e ametista.
(tradução de Maria de Lourdes Guimarães, in Poemas de Marianne Moore e Elisabeth Bishop, editora Campo das Letras, 1999 – colecção o aprendiz de feiticeiro)
MAÇARICO
Aceita como tal qualquer bramido a seu lado
e que o mundo, de quando em quando, seja obrigado a agitar-se.
Corre, corre para sul, meticuloso, desastrado,
num estado de pânico controlado, um estudioso de Blake.
A praia rechina como gordura. À sua esquerda, um lençol
de água descontínua que vai e vem
acetinada sobre as suas patas escuras e frágeis.
Corre, corre em linha recta por ela, observando os dedos.
– Ou, melhor, observando os espaços de areia entre eles,
onde (nem que seja um diminuto pormenor) o Atlântico se escoa
rápido, recuando e afundando-se, enquanto corre
a olhar os grãos de areia que são arrastados.
O mundo é uma névoa. E a seguir o mundo fica
diminuto e vasto e límpido. A maré
ou está mais alta ou mais baixa: era incapaz, de nos dizer.
O seu bico encontra uma direcção; está preocupado,
procurando alguma coisa, alguma coisa, alguma coisa.
Pobre pássaro, está obcecado!
Os milhões de grãos são negros, brancos, bronzeados e cinzentos,
misturados com grãos de quartzo, rosa e ametista.
(tradução de Maria de Lourdes Guimarães, in Poemas de Marianne Moore e Elisabeth Bishop, editora Campo das Letras, 1999 – colecção o aprendiz de feiticeiro)
20.7.09
CARLOS DE OLIVEIRA
REBANHO
Poeira que o granito
desprende na sua
respiração difícil: prata
sem consistência, faz
pensar num resíduo de estrelas
acumulado pela noite; cor
e peso na leveza da lã,
cai sobre os animais? ou paira
etérea, estranha
à essência da terra?
A segunda poeira nasce
quando se ouve
o toque trémulo dos cascos contra
o chão; opõe-se
à que poisou nocturnamente
e a pedra agora exala;
resguarda o gado, isola-o,
cada vez mais densa,
dessa ameaça do ar.
Quanto ao pastor,
como pode um detrito
de astros lembrar-se dele?
embora a natureza
de ambos pareça confluir:
mas apenas na intuição
sublunar; tão predisposta
a conceber um só
deserto inicial.
(de Pastoral, 1977 – in Trabalho Poético, 3ª edição: livraria Sá da Costa, 1998)
REBANHO
Poeira que o granito
desprende na sua
respiração difícil: prata
sem consistência, faz
pensar num resíduo de estrelas
acumulado pela noite; cor
e peso na leveza da lã,
cai sobre os animais? ou paira
etérea, estranha
à essência da terra?
A segunda poeira nasce
quando se ouve
o toque trémulo dos cascos contra
o chão; opõe-se
à que poisou nocturnamente
e a pedra agora exala;
resguarda o gado, isola-o,
cada vez mais densa,
dessa ameaça do ar.
Quanto ao pastor,
como pode um detrito
de astros lembrar-se dele?
embora a natureza
de ambos pareça confluir:
mas apenas na intuição
sublunar; tão predisposta
a conceber um só
deserto inicial.
(de Pastoral, 1977 – in Trabalho Poético, 3ª edição: livraria Sá da Costa, 1998)
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