5.8.09

ANTÓNIO DACOSTA





ÁLAMO OLIVEIRA

ilha


a ilha ao fundo__funda saudade
que emerge do horizonte.
azulíneos__os gestos do pincel
sedimentam as águas
de míticas inquietações.

ninguém sabe que peixes
habitam no mar.
se há nevoeiro dom sebastião não vem.
o céu__único infinito que passa
pela janela da casa de janville.

no peitoril__os calos dos cotovelos do silêncio.

(de antónio porta-te como uma flor, edições Salamandra, 1998 - o quadro acima acompanha o poema, nesta edição)

4.8.09

MARQUESA DE ALORNA


QUANDO ME PENHORARAM INJUSTAMENTE TODOS OS MEUS BENS


À Fortuna


Fortuna, que me persegues,
Pequeno triunfo tens:
Eu desejo só vontades,
Tu disputas-me vinténs.
Basta-me o que me deixares,
Quando tudo me levares.

Basta-me esta alma que tenho,
Constante como os penedos;
Bastam-me as águas das fontes,
E a sombra dos arvoredos;
Ponho-me ao fresco no Estio,
E aquento-me, andando ao frio.

Basta-me o Sol, que não podes
Apagar, e à noite a Lua.
Se me tirares a casa,
Irei dormir para a rua.
Sopa, não me dá cuidado,
Tem muitas plantas o prado.

Se o teu rigor se estendesse
A tirar-me o meu tinteiro,
Escreveria nos troncos,
Com um prego, este letreiro:
«Vim ao mundo sem camisa,
Ninguém, morrendo, a precisa.»

(in Poesias, selecção, prefácio e notas do Prof. Hernâni Cidade, 2ª ed.: livraria Sá da Costa editora, 1960)




Parece que os comerciantes de livros, jornais e revistas apostam é na bandidagem.
Três casos flagrantes, cujos alvos não se calaram:

- Pedro Vieira (o Irmão Lúcia);

- Paulo Nozolino (não se assustem com o aviso do blogger e não deixem de ler até ao fim);

- Fernando Aguiar.


Como diz o José Mário Silva, a propósito do primeiro caso:

"Roubo descarado. Roubo sem vergonha. Roubo escandaloso. (...) o caso não se resolve apenas com o repúdio (espero que generalizado) da blogosfera e o eventual boicote dos leitores. Até pelos precedentes que abre, a infracção deve ser punida exemplarmente."


(ao alto, as provas dos delitos)

3.8.09

M. S. LOURENÇO


CAMILO PESSANHA
SOBE OS DEGRAUS DO PARNASO

I

Antes de tudo a Música.
Onde prefiro o tempo ímpar,
Mais vasto & mais solúvel no ar,
Sem nada nele que pese ou pose.
Passo por isso ao peito
O som das sílabas, na grande oitava.
Nada mais sublime que a frase da chuva,
Onde o Indeciso soa com o Preciso.


II

Pelos silêncios amigos da lua,
Elevada a espuma, a névoa
Com pontas de sol & diamante
Espalha os anéis do sal, até que a Poente
Trazem, em porte circular, as nuvens
Agora lentas, ao subir para a bruma do cais,
Para a espuma da areia,
O sol iluminado pela noite.


III

No tom calmo através do fumo,
Na onda lenta que o fim do dia solta,
A tarde vibra violeta & eu sigo
O grave & o agudo da chuva.
Seis sentidos para ascender
Ao encontro das harmonias da noite.
Só a ressonância delas junta o sonho
Ao sino & a flauta ao gongo.


IV

Uma jarra de dálias sobre a mesa
Repousa no seu perfume de sândalo,
Em tempos de um alaúde
Ou de uma flauta.
Uma cabeça de ouro
Incensa a página que reflecte,
Iluminada, o texto de trevas,
Em tempos de vésperas ou completas.


V

Agnosco veteris
Vestigia flammae.
Quase sinestésico o vitral
Que arranca a harpa ao anjo,
Em curso no seu voo da noite.
Uma melodia plagal
Equilibra o alto sobre um acorde
Composto de três silêncios.


VI

Fujo da palavra sem timbre
Da expressão sem tom,
Da língua turva, do enunciado impuro,
Onde as arcadas do violoncelo choram.
Exaustos os rapsódicos rios de leones,
Fundo o murmúrio fluvial da estrofe,
Ouvindo interiormente,
Com as pálpebras cerradas.


VII

No céu as estrelas movem-se,
Uma a uma, até que soam
De cristal as cadências da noite.
A chuva canta ao meio, lenta & longa.
A mim só me resta,
Numa polifonia que tudo contém,
Puro, um deus que cresça,
A aproximar-se, por degraus, da Morte.


VIII

Musica et nunc et semper.
O meu poema é um enigma.
Ouve-se dele sair a alma que sobe
Para outros céus, para novos amores.
Seja o meu poema a liturgia cantada,
No ópio da manhã crispada,
Em que o vento verga a orquídea do Tibete.
& o som do vento é literatura.


(de Nada Brahma, Assírio & Alvim, 1991 – Peninsulares / Literatura)

2.8.09

[morreu ontem – ver notícia aqui e aqui]

M. S. LOURENÇO

III


Vejo que não queres a equação de uma linha,
Os pontos compostos todos à sua volta,
Uma regra para dispor em cada caso
A ordenar por dentro o conjunto inteiro.
Não queres, dizes, a máquina funcional
Que calcula a posição de cada ponto –
Deixa-los expandir ao acaso, uma nebulosa
Que cresce sem limites num impulso variável.

Que linha é essa no entanto quando olhas
Sem ver nas partes um eixo dominante?
Em breve o horizonte esgota-se e o que fora
Uma explosão do sol é uma área trivial.
Extinto o cânon não distingues mais
Uma barra firme dum traço instável.
Por fim vibras com o intervalo subtil,
Voltas do nó orgânico à fuga poligonal.

Não se tocam as linhas de um compasso,
Deixam-se suspensas numa presença imóvel,
Perpendiculares ao fundo a bater o tempo,
Um guia silencioso no texto medieval.
Ficam a raiz do desenho, o arame da frase
Como um esqueleto de metro no meio do verso livre:
Soam no osso a respiração do bloco,
Um andaime dobrado numa fibra contínua.

Não há volumes de uma só faceta
Em movimento paralelo ao mesmo plano.
Não medimos só ponto contra ponto
Nas imagens discretas da mesma linha,
Mas também o acordo da figura vertical
Em que o bloco ressalta integrável.
A treva desce aos vapores do fundo:
A face sua oblíqua através do espelho.

(de Arte Combinatória, Moraes editores, 1971 – Círculo de Poesia)
[faria hoje 80 anos]


1.8.09

[poemas que fazem lembrar dos amigos – 2 (Henrique Manuel Bento Fialho)]

JORGE DE SENA

ALCANCE EFICAZ


Alcance eficaz: distância à qual uma bala ainda é mortal.
(MANUAL DO GRADUADO DE INFANTARIA)

Não falo para os consolados, os satisfeitos de si, os que nem riem
porque o riso ainda é sinal de alguma coisa que falta.
Ah vida! alguns te cantam para sentir-te nos lábios,
mas outros pedem-te a si próprios, não contentes contigo,
e as suas palavras terão apenas o obscuro nexo dos abismos sem nome
e a estranha música das mãos cortando o vazio intratável.
A minha voz é misteriosa de mais para que me compreendam.
Seria preciso ter uma alegria de pássaro para com as migalhas da vida
e a mágoa de não ser um pássaro a contentar-se com elas...
Seria preciso saber que não há palavras que cheguem onde não há conversa,
onde o silêncio é um vai-vem de moscas sobre um prato servido.

(de Pedra Filosofal, 1950)

31.7.09

LÊDO IVO

SONETO DAS CATORZE JANELAS


O que se esquiva em mim mais se levanta
no sul da arte poética, no drama
onde o meu ser transfigurado clama
que eu escreva a canção que não me encanta

mas, por falar de mim, sempre me espanta
pela perícia com que me proclama.
E eu destruo o supérfluo, usando a chama
que sobre o meu trabalho o sol decanta

Não se faz um soneto; ele acontece
e irrompe da alquimia do que somos
subindo as altas torres do não ser

Nas rimas que ninguém nos oferece,
pungentes, nós seguimos, e fitamos
catorze casas para nos conter.

(de Acontecimento do Sonêto, 1946)

30.7.09

ANTÓNIO QUADROS FERRO

EXERCÍCIO


Deixa
lentamente
que a tarde finde
verás depois ou entretanto
depende
que o que deixas acabar
não é mais do que a parte que a ti
te pertence.

Ali,
onde tu vês o que não existe
saberás, se te perderes um pouco,
que esse céu que o teu olhar
tantas vezes fingiu
fingiu uma vida inteira.

Depois, quando regressares,
e não souberes quem és,
isto é, quando te perderes de vez,
e tiveres aprendido por duas vezes
tudo o que há para aprender nesta vida
é possível que eu queira, se é que isto existe,
morrer contigo, morrer melhor.

Mas como te percebo,
eu próprio nunca abri os olhos
nunca me perdi antes
nunca me achei em nenhum céu.
Nunca, sequer, me levei de uma cor à outra.
A noite escura nunca me levou ao lugar que eu queria.

Morri apenas.
Demorei uma vida a morrer.
Como desejei.
Aos poucos,
ou de uma vez só,
como a tristeza quis.

(de Um Pouco de Morte, edição do Autor, 2009)

29.7.09

GÖRAN SONNEVI

Nitidez


A pedra cai
como se fosse em água transparente
mais fundo cada vez mais fundo

Aqui posso perguntar
que água?
que pedra?
e aqui está a dissolução, o desaparecimento.

O que resta
clareza, mergulho, profundidade.

(tradução de Ana Hatherly, in 21 Poetas Suecos, Vega, 1981)

28.7.09

DAVID MESTRE

GEOPOLÍTICA DO MEDO


À frente da história seguem os heróis
os santos e os poetas. E os que sobram
da provada culpa do vento, marinheiros
de cana rapados à venérea idade
do mar. E os que viemos depois
na cauda do açoite

mover os braços reter o corpo
para cá da barra, e a voz
de piratas trincados pela raiz.

Daqui nos damos notícia, corsários
do medo auriculado na gengiva
dos séculos. E dos que partiram
sem barco de feição ou anel
para os dedos abertos no pródigo mês
da idade.

Já nada nos destrói. Nem a lágrima
encalhada na dentícula vegetal para o amor.
Nem ela.

(de Do Canto à Idade, Centelha, 1977 – Poesia Nosso Tempo)

27.7.09

[poemas que fazem lembrar dos amigos – 1 (André Simões)]

ANTHONY THWAITE

ESCRITA ARÁBICA


Como aranha por tinta, alguém diz, trocando: vê-a
Confusa nos jornais ou em anúncios de néon
E sugere um silabário infinitamente plástico,
Feminino, todo traços diacríticos, travessões
Nadando juntos como um cardume de vairões,
Resoluta mas indócil, medida vacilante
Dançada no sentido, ocultando vogais e exalação.
Mas em Sidi Kreibish, entre os túmulos,
Onde os crânios se ocultam em raízes de cactos,
Garras róseas estalando lápidas e pedras angulares,
Cada ponta carnosa furando para atingir a luz,
Cada pico uma híspida agulha, vê-se o severo
Limite da língua, cúfico, como uma cimitarra
Curvada num açoite, um clarão de consoantes
Como agitada esse dia saindo de Medina
Na longa punição para oeste, por ruínas e flácidos colonos,
Um vórtice de pendões negros, crescentes brancos, uma linguagem de espadas.


(tradução de Manuel de Seabra, in Antologia da Poesia Britânica Contemporânea, livros Horizonte, 1982 – original de The stones of emptiness, 1967)

26.7.09

Isto um tipo anda distraído com coisas sem importância e acaba por se esquecer do que realmente faz sentido:

o Henrique Fialho está de volta à blogolândia!
JOSÉ DO CARMO FRANCISCO

Balada de Holloway Hill



Isabel leva um sorriso
A enfrentar a paisagem
Porque sorrir é preciso
Na duração da viagem
É de novo pequenina
Neste dia a decorrer
Na voz, mulher-menina
No B.I., menina-mulher
Tem no cristal da voz
Luz que vem do litoral
Quando os laços e os nós
São o som de Portugal
No menino que nasceu
Uma teimosa alegria
Na avó que está no céu
Há memória e nostalgia
Casa junto a rio pequeno
Em tempos era a azenha
Lá o tempo era sereno
E o pão cozido a lenha

Naquela casa gigante
Os moinhos de brincar
O dia era um instante
Nos relógios do lugar
E naquela loja antiga
Tecidos e mercearia
O correio era cantiga
Nas cartas da alegria
Se a chuva tão teimosa
Chega no pó da estrada
A balada traz uma rosa
Numa canção encantada
Na parede do calendário
O poema é uma certeza
No dia do aniversário
Deixo os votos na mesa
São votos de felicidade
Na distância dum país
Há passeios de saudade
No caminho de ser feliz

(inédito - oferta do Autor)