D. Frei ALEXANDRE DA SAGRADA FAMÍLIA
À meninice
____Da bela natureza
Que viçosa frescura! o vício feio
Não a pode abafar co'as negras asas,
____Murchar c'o bafo ardente.
A paz, filha do céu, repoisa n'alma,
A alegria no plácido semblante
____Do tenro pequenino.
A saraiva cruel assole os campos,
Ou torrada a seara as esperanças
____Do lavrador desminta.
Negros fumos espalhe sobre as terras,
De humano sangue tinja as águas claras
____A guerra assoladora.
Junto à fonte brincando, alvas pedrinhas
Ajunta e lança ao rio sem cuidado.
____De rosas, de mosquetas,
Co'a murta verde tece uma capela
Para a mãe, que nos braços o agasalha.
____Que beijinhos tão doces
Em os beiços maternos colhe alegres!
Se pudéreis voltar, dias antigos!
(in Poesia Açoriana do Século XVIII a 1975, selecção, prefácio e notas de Pedro da Silveira, livraria Sá da Costa, 1977 - recolhido de D. Frei Alexandre da Sagrada Família, a Sua Espiritualidade e a Sua Poética, de Ofélia M. Caldas Paiva Monteiro, 1974)
15.8.09
14.8.09
[Em face dos últimos acontecimentos]
JOSÉ GOMES FERREIRA
V
A palavra República
tornou-se de repente tão real,
sonho com recorte
— envólucro de chamas,
corpo de mulher ritual
que todas as noites condenava o sol à guilhotina,
para sentirmos respirar melhor a morte.
Uma palavra
que tornava a liberdade mais misteriosa
para além da luz e das trevas.
República
— religião em que os deuses se evadiam dos templos
para se misturarem com os homens no suor das labaredas!
VI
As mãos fugiram, dos braços!
e durante a noite
entraram no sonho exacto
de colarem com pincéis de lume
nas esquinas das ruas
os editais da cólera
a favor da morte com sentido
(a morte no passado é o que depois chamamos tempo):
ÀS ARMAS, CIDADÃOS!
Era nítido que todos queriam continuar a sonhar em comum,
e recusavam as superfícies com fronteiras.
ÀS ARMAS, CIDADÃOS! ÀS ARMAS!
Todos metem à pressa nos olhos os incêndios necessários
para acordar em asas
a liberdade presa ao vento do agitar das bandeiras.
(de Memória - III, 1962-1963, in Poeta Militante - Viagem do Século Vinte em mim, Moraes editores, 1983 - Círculo de Poesia)
JOSÉ GOMES FERREIRA
V
(Lágrimas de raiva nos olhos. Ainda água.
Notícia da proclamação da Monarquia no
Porto. As pedras preparam-se para acor-
dar. Em 1918-1919 a República era uma
religião burguesa muito grave.)
A palavra República
tornou-se de repente tão real,
sonho com recorte
— envólucro de chamas,
corpo de mulher ritual
que todas as noites condenava o sol à guilhotina,
para sentirmos respirar melhor a morte.
Uma palavra
que tornava a liberdade mais misteriosa
para além da luz e das trevas.
República
— religião em que os deuses se evadiam dos templos
para se misturarem com os homens no suor das labaredas!
VI
(A bandeira monárquica içada no Mon-
santo em Janeiro de 1919. As pedras acor-
daram. O povo assalta os museus para
se munir das armas velhas que lhes res-
tam. Cantava-se «sobre a terra, sobre o mar».)
e durante a noite
entraram no sonho exacto
de colarem com pincéis de lume
nas esquinas das ruas
os editais da cólera
a favor da morte com sentido
(a morte no passado é o que depois chamamos tempo):
ÀS ARMAS, CIDADÃOS!
Era nítido que todos queriam continuar a sonhar em comum,
e recusavam as superfícies com fronteiras.
ÀS ARMAS, CIDADÃOS! ÀS ARMAS!
Todos metem à pressa nos olhos os incêndios necessários
para acordar em asas
a liberdade presa ao vento do agitar das bandeiras.
(de Memória - III, 1962-1963, in Poeta Militante - Viagem do Século Vinte em mim, Moraes editores, 1983 - Círculo de Poesia)
MIGUEL TORGA
(de Diário XI, 1973; 2.ª ed. revista: edição do Autor, 1991)
Angra do Heroísmo, 18 de Março de 1970 — Aprendida nos livros e descrita de viva voz, a Terceira era na minha imaginação uma abstracta mistura de história e pitoresco. Base naval na era dos Descobrimentos; baluarte das liberdades pátrias em várias ocasiões; tombo de nomes gloriosos — Vasco da Gama, Colombo, Vieira e Garrett —; redondel de touradas de corda; refúgio medieval do Espírito Santo... E é outra ilha que levo daqui, depois de a relancear de fugida — com paragens demoradas apenas na Praia da Vitória e nas Lajes, em nome dum velho afecto revivido e dum súbito patriotismo vigilante —, e de ter tido alguns contactos humanos imprevistos. Longe da surpresa, à hora do embarque encontrei no cais, esfumados no lusco-fusco que me toldava os olhos e o entendimento, meia dúzia de jovens à minha espera, de microfone em riste. Neguei a entrevista, claro, mas convidei-os a subir a bordo. E foi no longo serão que acabámos de passar juntos que a imagem literária se transformou na visão objectiva de uma realidade física e espiritual, que tem na angústia indígena a designação bifurcada de «insularidade e contestação».
— Insularidade! — ponderei. — Mas insular é o próprio continente português, cercado de solidão por todos os lados! Insular é o próprio globo em relação ao mundo universo! O que são as viagens à lua, senão tentativas de fuga à insularidade da Terra? A insularidade é uma situação, não é uma condenação...
Quanto ao segundo termo do binómio, à contestação, perguntei apenas que juventude deixou de a fazer algum dia em qualquer latitude, e se não seria justamente razão de optimismo o facto de ela ser possível também ali...
Assim falei, sem grande esperança de os convencer. Com horizontes abertos em todas as direcções — que Anteros e Teófilos o não compreenderam? —, a que outra largueza geográfica e mental aspiravam aquelas almas juvenis? «Português do mar alto» chamou alguém ao homem açoreano. Mas não é fácil às vezes compreender que empoleirado numa gávea de terra se pode ver mais do que sentado num café de Paris...
(de Diário XI, 1973; 2.ª ed. revista: edição do Autor, 1991)
13.8.09
JOSÉ DO CARMO FRANCISCO
Sobre um tema de Vitorino Nemésio
Viver nas ilhas pequenas
É ter mais tempo nos dias
Entre manhãs tão serenas
E as noites longas e frias
O dia tem horas cheias
Passam os vários vapores
E na sombra das baleias
Há vozes de trancadores
O vinho das cepas velhas
Desce com a neve do Pico
Desde a porta até às telhas
É nesta adega que eu fico
No sossego das lagoas
Na distância das fajãs
Perdi a voz das pessoas
Na gramática das manhãs
Viver nas ilhas pequenas
É comprar paz com desconto
Ter numa factura apenas
A vida ponto por ponto
Sobre um tema de Emanuel Félix
O motor duma traineira
Que fundeou na baía
Trabalhou a noite inteira
Mas só o poeta o ouvia
O motor duma traineira
Que fundeou na baía
Trabalha a noite inteira
Numa faina de alegria
E faz à sua maneira
Sumário dum novo dia
Como se uma feiticeira
Desenhasse a profecia
Duma vida verdadeira
Longe da monotonia
O motor duma traineira
Vem acordar o poema
Numa mesa de madeira
O poeta tem um dilema
Há a palavra pioneira
Que desenha no cinema
O fogo de uma lareira
Criando um novo sistema
O poeta escuta a traineira
Que dá a força ao poema
O motor duma traineira
Que fundeou na baía
Trabalhou a noite inteira
Mas só o poeta o ouvia
(inéditos, gentilmente oferecidos pelo Autor. O primeiro destes poemas foi musicado pelo Maestro Emílio Porto)
Sobre um tema de Vitorino Nemésio
Viver nas ilhas pequenas
É comprar paz com desconto
(Vitorino Nemésio)
É comprar paz com desconto
(Vitorino Nemésio)
Viver nas ilhas pequenas
É ter mais tempo nos dias
Entre manhãs tão serenas
E as noites longas e frias
O dia tem horas cheias
Passam os vários vapores
E na sombra das baleias
Há vozes de trancadores
O vinho das cepas velhas
Desce com a neve do Pico
Desde a porta até às telhas
É nesta adega que eu fico
No sossego das lagoas
Na distância das fajãs
Perdi a voz das pessoas
Na gramática das manhãs
Viver nas ilhas pequenas
É comprar paz com desconto
Ter numa factura apenas
A vida ponto por ponto
Sobre um tema de Emanuel Félix
(poema - autógrafo para Manuel Emílio Porto)
O motor duma traineira
Que fundeou na baía
Trabalhou a noite inteira
Mas só o poeta o ouvia
O motor duma traineira
Que fundeou na baía
Trabalha a noite inteira
Numa faina de alegria
E faz à sua maneira
Sumário dum novo dia
Como se uma feiticeira
Desenhasse a profecia
Duma vida verdadeira
Longe da monotonia
O motor duma traineira
Vem acordar o poema
Numa mesa de madeira
O poeta tem um dilema
Há a palavra pioneira
Que desenha no cinema
O fogo de uma lareira
Criando um novo sistema
O poeta escuta a traineira
Que dá a força ao poema
O motor duma traineira
Que fundeou na baía
Trabalhou a noite inteira
Mas só o poeta o ouvia
(inéditos, gentilmente oferecidos pelo Autor. O primeiro destes poemas foi musicado pelo Maestro Emílio Porto)
12.8.09
JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE
[excerto de] VEÍCULO PERFEITO
(...)
Uma outra casa. Recém-pintada de um azul.
Aí viveu no mês de maio do segundo ano do século
o rapaz Pessoa. Na rua da Palha
o 26 tem um barbeiro na porta ao lado. No tempo
distante de sua mãe ouvia odeio o céu o mar
a minha terra o meu sangue o meu futuro o meu presente
o meu passado eu odeio esta coisa sagrada da
pátria incómoda cadeira dourado subterrâneo.
(de Terra Nostra, editorial Presença, 1992 - colecção forma)
11.8.09
VITORINO NEMÉSIO
CANTIGAS À ILHA TERCEIRA,
À CIDADE, À PRAIA, E AOS MONTES
Lá vai a Ilha Terceira
Por riba dos mares afoitos,
Carregadinha de amores,
De mistérios e biscoitos!
Esta nossa Ilha Terceira
Sempre foi alto lugar:
Em amores, bodos e toiros
Fica bem a desbancar.
A Ilha Terceira é fêmea,
Sã Miguel saiu varão,
A Graciosa rapariga
E Sã Jorge tubarão...
Olha os Ilhéus a Sã Bento,
Olha Sã Jorge à Feiteira!
Olha o meu amor comigo
Numa cisma verdadeira!
A nossa Ilha Terceira
Em dois pontos fica atrás:
De Deus do Céu o de ti
Que tanta graça lhe dás!
A Graciosa lá longe
Quando te viu na Sarreta
Teve tanta invejidade
Que de roxa ficou preta!
Ó Angra, nobre cidade,
Que tens baraço e cutelo!
Vê-se a croinha do Pico
Das muralhas do Castelo.
Não subo ao Monte Brasil,
Não sou facheiro nem facho:
Tenho o navio no peito,
Quando o quero sempre o acho.
Ó leal cidade de Angra,
Mimória do meu amor,
Pisão da minha alegria,
Castelo da minha dor!
Angra, maioral cidade,
Desterro do Gungunhana,
Onde fui às cavalhadas
No meu cavalo de cana.
Ó Angra da fidalguia
E da procissão do Triunfo!
Em amores puxei-lhe espadas,
Ganhou-me a dama do trunfo.
Eu fui aos toiros de praça
No dia de S. João:
O meu bem era o capinha,
Atirei-lhe o coração!
Não há terra como a Praia,
Nem abrasão como o seu,
Não há gente como aquela,
Não há amor como o meu!
O meu bem não é da Praia
Porque a sorte na no quis,
Mas como eu nasci na areia
Lá o plantei de raiz.
Ó Praia, muro da fama,
Vila de tanto autorizo,
Só te faltava aquele anjo
Para seres o paraíso!
A Praia é peixe de caldo,
Damasqueiros, escrivães,
E os filhos que vão prà América
Contra vontade das mães.
Quando chegou a Sã Lazro
O meu bem adivinhou
Que eu gostava da ermidinha
Que o verde junco juncou.
Lá foi ver o cemitério
Cheio de saudades minhas
Plantadas pelo Saldanha
Com pena das lazarinhas.
Fez os olhos mais compridos
(Oh que lindo modo o seu!),
Lá disse: «Quero esta cova
Pra me enterrar mais o meu!»
Quatro portões tinha a Praia,
O das Chagas era um:
Falta o da Luz dos teus olhos
E não sei de mais nenhum.
Olha a Praia espaireçosa
Co ua baía daquelas,
E o meu amor embarcado
Dentro das suas janelas!
Quatro torres tem a Praia:
Espital, Cambra e Matriz;
Falta a torre do teu peito,
Quem no sabe é quem no diz!
Sã Bertolameu é faca,
Sã João uma águia tem:
Troixe no bico palhinhas
Pràs meninas de Belém.
Sã Carlos é espaircimento,
Pico da Urze desvio,
As Bicas são n'os teus olhos,
Tuas lágrimas em fio.
O meu amor é das Cinco,
Para lá de Sã Mateus:
É daquelas Cinco Chagas
Que temos do amor de Deus.
A Sarreta são romeiros,
Santa Barba caras lindas,
As Doze – doze confeitos
Que tu, meu anjo, me guindas.
Os Altares é casamento,
Os Biscoitos vinho novo,
Raminho festa de igreja,
A Terceira pão e povo.
Quatro Ribeiras é lenha,
Biscoito Brabo brabeza,
O das Colmeias é mel:
Terceira, tanta beleza!
Ó Agualva do alvoredo,
Da farinha e do castanho,
Ó mãe daquela beleza
Duma tia que lá tenho!
Nossa Senhora da Ajuda
É a mãe de Vila Nova,
Branquinha a pé do Calvário
Como galinha na cova.
Sã Brás do estreito! se diz
À goela do engasgado.
Viva a terra da Mariana,
Com flores nos cornos do gado!
As Lajes era pão alvo,
Agora é «olha o balão!»
E toiradas, «coisa braba!»
Com favica pelo chão.
Cabo da Praia é tabaco,
Pontinhas teia que eu deite,
Cá'da Ribeira o meu quarto,
Canada dos Pastos leite.
Ah, Porto Martim das uvas,
Baga de faia cheirosa,
Minha maçã redondinha,
Pedra negra preciosa!
A nossa Fonte Bastarda
É uma filha da mãe
Que nasceu como um jarrinho
Das muitas grotas que tem.
Ribeira Seca molhada
De leite e de vinho novo,
Minha galinhinha branca,
Massa cevada! meu ovo!
Dizem que a Vila que é feia...
É linda como uma moça!
Teve Cambra e o prevelégio
De lá passares de carroça.
Porto Judeu são casinhas,
Santo Amaro boa vista,
Feiteira uma presa à prova
Da alma que lhe resista.
No guião da Ribeirinha
Vê-se a firmeza do moço
Para trastejar a casa
E pôr a corda ao pescoço.
Terceira, volta da ilha
E moças pelas paredes,
E este cego de cantar
Aquela que vós não vedes!
Pobre da Ilha Terceira!
Coitado de quem é mãe!
Mesmo se um filho é queimado,
Teve as dores... quere-lhe bem!
E as canadas que esqueci
Lá no céu terão a palma:
Seja a terra da Terceira
A nossa coberta de alma!
(de Festa Redonda, 1950)
CANTIGAS À ILHA TERCEIRA,
À CIDADE, À PRAIA, E AOS MONTES
Lá vai a Ilha Terceira
Por riba dos mares afoitos,
Carregadinha de amores,
De mistérios e biscoitos!
Esta nossa Ilha Terceira
Sempre foi alto lugar:
Em amores, bodos e toiros
Fica bem a desbancar.
A Ilha Terceira é fêmea,
Sã Miguel saiu varão,
A Graciosa rapariga
E Sã Jorge tubarão...
Olha os Ilhéus a Sã Bento,
Olha Sã Jorge à Feiteira!
Olha o meu amor comigo
Numa cisma verdadeira!
A nossa Ilha Terceira
Em dois pontos fica atrás:
De Deus do Céu o de ti
Que tanta graça lhe dás!
A Graciosa lá longe
Quando te viu na Sarreta
Teve tanta invejidade
Que de roxa ficou preta!
Ó Angra, nobre cidade,
Que tens baraço e cutelo!
Vê-se a croinha do Pico
Das muralhas do Castelo.
Não subo ao Monte Brasil,
Não sou facheiro nem facho:
Tenho o navio no peito,
Quando o quero sempre o acho.
Ó leal cidade de Angra,
Mimória do meu amor,
Pisão da minha alegria,
Castelo da minha dor!
Angra, maioral cidade,
Desterro do Gungunhana,
Onde fui às cavalhadas
No meu cavalo de cana.
Ó Angra da fidalguia
E da procissão do Triunfo!
Em amores puxei-lhe espadas,
Ganhou-me a dama do trunfo.
Eu fui aos toiros de praça
No dia de S. João:
O meu bem era o capinha,
Atirei-lhe o coração!
Não há terra como a Praia,
Nem abrasão como o seu,
Não há gente como aquela,
Não há amor como o meu!
O meu bem não é da Praia
Porque a sorte na no quis,
Mas como eu nasci na areia
Lá o plantei de raiz.
Ó Praia, muro da fama,
Vila de tanto autorizo,
Só te faltava aquele anjo
Para seres o paraíso!
A Praia é peixe de caldo,
Damasqueiros, escrivães,
E os filhos que vão prà América
Contra vontade das mães.
Quando chegou a Sã Lazro
O meu bem adivinhou
Que eu gostava da ermidinha
Que o verde junco juncou.
Lá foi ver o cemitério
Cheio de saudades minhas
Plantadas pelo Saldanha
Com pena das lazarinhas.
Fez os olhos mais compridos
(Oh que lindo modo o seu!),
Lá disse: «Quero esta cova
Pra me enterrar mais o meu!»
Quatro portões tinha a Praia,
O das Chagas era um:
Falta o da Luz dos teus olhos
E não sei de mais nenhum.
Olha a Praia espaireçosa
Co ua baía daquelas,
E o meu amor embarcado
Dentro das suas janelas!
Quatro torres tem a Praia:
Espital, Cambra e Matriz;
Falta a torre do teu peito,
Quem no sabe é quem no diz!
Sã Bertolameu é faca,
Sã João uma águia tem:
Troixe no bico palhinhas
Pràs meninas de Belém.
Sã Carlos é espaircimento,
Pico da Urze desvio,
As Bicas são n'os teus olhos,
Tuas lágrimas em fio.
O meu amor é das Cinco,
Para lá de Sã Mateus:
É daquelas Cinco Chagas
Que temos do amor de Deus.
A Sarreta são romeiros,
Santa Barba caras lindas,
As Doze – doze confeitos
Que tu, meu anjo, me guindas.
Os Altares é casamento,
Os Biscoitos vinho novo,
Raminho festa de igreja,
A Terceira pão e povo.
Quatro Ribeiras é lenha,
Biscoito Brabo brabeza,
O das Colmeias é mel:
Terceira, tanta beleza!
Ó Agualva do alvoredo,
Da farinha e do castanho,
Ó mãe daquela beleza
Duma tia que lá tenho!
Nossa Senhora da Ajuda
É a mãe de Vila Nova,
Branquinha a pé do Calvário
Como galinha na cova.
Sã Brás do estreito! se diz
À goela do engasgado.
Viva a terra da Mariana,
Com flores nos cornos do gado!
As Lajes era pão alvo,
Agora é «olha o balão!»
E toiradas, «coisa braba!»
Com favica pelo chão.
Cabo da Praia é tabaco,
Pontinhas teia que eu deite,
Cá'da Ribeira o meu quarto,
Canada dos Pastos leite.
Ah, Porto Martim das uvas,
Baga de faia cheirosa,
Minha maçã redondinha,
Pedra negra preciosa!
A nossa Fonte Bastarda
É uma filha da mãe
Que nasceu como um jarrinho
Das muitas grotas que tem.
Ribeira Seca molhada
De leite e de vinho novo,
Minha galinhinha branca,
Massa cevada! meu ovo!
Dizem que a Vila que é feia...
É linda como uma moça!
Teve Cambra e o prevelégio
De lá passares de carroça.
Porto Judeu são casinhas,
Santo Amaro boa vista,
Feiteira uma presa à prova
Da alma que lhe resista.
No guião da Ribeirinha
Vê-se a firmeza do moço
Para trastejar a casa
E pôr a corda ao pescoço.
Terceira, volta da ilha
E moças pelas paredes,
E este cego de cantar
Aquela que vós não vedes!
Pobre da Ilha Terceira!
Coitado de quem é mãe!
Mesmo se um filho é queimado,
Teve as dores... quere-lhe bem!
E as canadas que esqueci
Lá no céu terão a palma:
Seja a terra da Terceira
A nossa coberta de alma!
(de Festa Redonda, 1950)
10.8.09
LUÍSA RIBEIRO
CINCO
(de Outros Frutos, ediciones Dauro, 2005)
CINCO
Sou peregrina de Compostela à Serreta. Faço descalça qualquer trilho, rumo infinito.
Prometo aos pés doidas caminhadas. Guardo num vaso o cabelo rapado. Não evito urtigas, agulhas, espinhos e vou forte prometer a vida.
Peço três desejos de águia.
No regresso, tomo o caminho do Paraíso.
(de Outros Frutos, ediciones Dauro, 2005)
9.8.09
8.8.09
EMANUEL FÉLIX
PALAVRA O AÇOITE
Todo o santo nevoeiro esta manhã de glória
pátria filho
um rugir absoluto
de botas um secreto
martelar de silêncio
filho
medo
Todo o santo silêncio este espanto este espesso
sangue suor e água e mar e mágoa
e o amor e o amor e o amor em reserva
o trigo inteiro e digo amor o dia
inteiro por ceifar
E toda a santa esperança este dia esta noite
este vago vagar de sulcos rodas rosas
rasas
a relva a alva
o alvo
corpo inteiro da esperança
Todo o santo nevoeiro esta pressa este instante
este loiro este negro este infante fantasma
(de A Palavra O Açoite, 1977)
PALAVRA O AÇOITE
Todo o santo nevoeiro esta manhã de glória
pátria filho
um rugir absoluto
de botas um secreto
martelar de silêncio
filho
medo
Todo o santo silêncio este espanto este espesso
sangue suor e água e mar e mágoa
e o amor e o amor e o amor em reserva
o trigo inteiro e digo amor o dia
inteiro por ceifar
E toda a santa esperança este dia esta noite
este vago vagar de sulcos rodas rosas
rasas
a relva a alva
o alvo
corpo inteiro da esperança
Todo o santo nevoeiro esta pressa este instante
este loiro este negro este infante fantasma
(de A Palavra O Açoite, 1977)
7.8.09
IVONE CHINITA
POEMA TREMENDO
do tremendo poema que já fiz
ou antes do tremendo poema ficaram
gestos poucos diluídos
no ar pesado para respirar
como cinzenta era a ilha
e tremenda a solidão dos passos
deslocados sob os pés de
marinhante
a tristeza da criança
sentada ao meu lado
ocultando as nódoas da blusa
a roupa inevitável pendurada
nas cordas
a dor nas costas da mãe
lavando uma vida toda
lavando uma vida toda
mas tremenda, tremenda mesmo
é esta tarde parada
em que não temos coragem
de soprar no vento
(de Outra versão da casa, edições Base, 1980)
POEMA TREMENDO
do tremendo poema que já fiz
ou antes do tremendo poema ficaram
gestos poucos diluídos
no ar pesado para respirar
como cinzenta era a ilha
e tremenda a solidão dos passos
deslocados sob os pés de
marinhante
a tristeza da criança
sentada ao meu lado
ocultando as nódoas da blusa
a roupa inevitável pendurada
nas cordas
a dor nas costas da mãe
lavando uma vida toda
lavando uma vida toda
mas tremenda, tremenda mesmo
é esta tarde parada
em que não temos coragem
de soprar no vento
(de Outra versão da casa, edições Base, 1980)
J. H. SANTOS BARROS
Para uma Arqueologia de ser Angrense
(de S. Mateus, outros lugares e nomes, editorial Vega, 1981 – o chão da palavra)
Para uma Arqueologia de ser Angrense
«A Prática é a Arte. Se desistis estais perdido». William Blake
Se quiséssemos usar uma figura de polarizadora linguagem do profissionalismo político mais em voga, poderíamos dizer que Angra é uma cidade que não tem dissidentes.
Os angrenses, aqueles que engrossaram as vagas da emigração açoriana, usam de um silêncio de catedral quando interpelados sobre a sua cidade de origem, seja para fins de inquérito étnico ou sócio-político ou em simples conversa de correr com o tempo. Há neste procedimento algo que se nega à decifração, por uma espécie de alquimia que opera em dois sentidos – a origem está em si, isto é, o angrense é a cidade; o texto da polis (primitiva evoluiu, por processos que remontam à cabala judaica, aos signos berberes e à exegese cristã filtrada pela filosofia do século V grego, para um texto do imaginário, geograficamente artocentista mas de efectiva comunicação sensual e afectiva entre os pólos: Corvo / Santa Maria; Europa/América; Mar de Sargaços/Mar Nostrum, etc. Atlântida remota ou do porvir? Lumen do quinto império do padre António Vieira e de Fernando Pessoa? Ilha de Vénus de Camões? A questão não reside aí, mas de certo são referências a reter e que Angra guarda das Portas Falsas à Memória.
Que isto possa ser destruído, arrasado? É duvidoso. O abalo sísmico visto como pulsão do magma oceânico duma natureza identificada com a unidade dos outros mundos perdidos, pode que seja um acto herético de Poesis. Mas quem negará, freudiano ou não, a ligação do instinto vital, sexual, ao instinto da morte, destrutivo? Gerar vida e consumi-la. Terríveis as consequências que todavia são uma pequenina parte do que podemos ver no texto de S. João, legível neste tempo pelos fragmentos que estão à vista: a poluição, os mísseis, as bombas de hidrogénio, etc.
*
E os passageiros de Angra? Os castelhanos foi o que se sabe, mas legaram-nos uma cidade e uma ilha muralhadas, impenetráveis. No tempo histórico, o coração do arquipélago, por empatia, encolheu-se e voltou a distender-se para trabalhar com mais rigor e, armado embora, com uma suavidade indescritível. Pode-se imaginar um Capitão Boid, um qualquer corsário com êxito na abordagem da cidade, sem o contracanto dos idílios freiráticos? Honestamente, não. Pense-se nessa Angra como que recoberta da Praça às Covas de pinheiros mansos do Monte Brasil. E na periferia, as árvores e os frutos: laranjas, corações-negros, morangos, etc.
Lichonstein fez-se angrense. Os Van der Hagen açorianizaram-se a partir de Angra.
A «Angra no último quartel do século XVI» foi projectada por Emanuel Félix para um tempo a-histórico. Isto é, só é possível compreendê-la já fora do século XX e muitos de nós não chegaremos lá. O poeta recuperou o passado que persiste e é o sopro do futuro que nele (por ele, poeta) se anuncia.
Os cautos, os calculistas, hábeis manejadores, seres perfeitamente computatoriais, não entenderão, dirão mesmo que isto «(o texto)» é da ordem do trâns-curso, do transeoceanismo aéreo ou submarino. Mais tolerantes, os cultos, dirão que é assim que se faz a liberdade, e os bravos do Mindelo já o sabiam. Mas não se trata de angelismo demoníaco ou da intemporalidade grata aos homens que se desejam deuses, as representações aqui descritas.
*
Angra mulher, poesia, religião, festa e tragédia. Uma autobiografia simbólica. Angra aprisionada pela história e da história das prisões (Afonso VI, Gungumhana, primeiros resistentes ao salazarismo). Angra da peste e da fome, da humidade que corrói os ossos e o trabalho. Do sol de Dezembro, do inesperado lago que é a sua baía em Agosto, da comunidade do justo com o seu senhor; Angra da paz e sossego e dos levantes! e esperas de gado bravo; dos ritos iniciáticos da maturação dos mitos endróginos ocultos e dos rituais públicos da missa das onze em S. Pedro e das sete na Sé. Angra da Lusitânia («aqui só já foi Portugal») e do Lusitânia '(«campeão dos campeões açorianos»). Angra para amar e detestar, seguindo a dualidade que a filosofia escolástica faz escorrer dos muros e dos musgos do seu seminário, dos seus templos. Há uma Angra para o gosto de cada um, para exaltar e dignificar a vida, para a ternura na solidão mesmo nas tardes de nada acontecer de jardim público e páteo da alfândega, nas procissões e coroações de impérios. Ternura que suaviza a solidão de alguns, poucos, humilhados; uma alegria rubra levantada nas festas populares, paradoxo em dique erguido sobre o isolamento – esse deserto' de água que se enxerga por aí fora. Desta Angra – a angra / âncora de cada um – nada caiu, e até os mortos hão-de ressuscitar segundo a fé comum.
A outra Angra, é quase só perceptível aos seus naturais e amigos. A que faz doer fundo. Refere a epistolografia dos dias de Janeiro, a dialéctica da «tragédia da rotina» dos abrigos precários, das necessidades antigas postas mais a nu, expectativas tão intensas carregadas de anos e anos de trabalho horizontalmente reduzidos a pó e escombros frente às poucas casas mais sólidas não destruídas frente aos egoísmos de aquário, frente a certa chantagem no contrabando da esperança. Tudo tão pobremente ilhéu! Mas seria realmente tudo, estaria o quadro completo? – Não, Do marmoto que não houve, uma vaga enorme de entusiasmo fraterno e solidário houve a unir os angrenses – falou-se por esses dias de experimentação concreta dum outro mundo e seria errado ver-se nisso meras refracções do pesadelo, da hipnose do terror, do sonambulismo.
Seria esse o mundo visionado pelos poetas quando faziam a lei? Era esse o mundo que Blake «viu» e dele nos transmitiu que Cristo, os apóstolos e os discípulos eram todos artistas mas que a Arte necessitava de prática permanente? Então era possível Angra mover-se do fundo dos séculos?
O texto remove-se.
(de S. Mateus, outros lugares e nomes, editorial Vega, 1981 – o chão da palavra)
6.8.09
JOSÉ ÁLVARO AFONSO
O sol das férias desfaz sem remédio
Os ramos da estreia deixados na gaveta
No labirinto das hipóteses vãs
Insistem dolentes melodias roucas
Presentes por abrir abandonados nus
Já tardia a sombra desce sobre a nuca
Repete para dentro o que estava longe
Vislumbrada a fugitiva ausência
– Sede de mel a mel semelhante
Prisão de asas em desalinho –
Vai descontar à perfeição o inconsútil
Tolerar gladíolos e o primeiro frio
(de Furtiva a Luz, edições Salamandra, 1999 – colecção Garajau)
O sol das férias desfaz sem remédio
Os ramos da estreia deixados na gaveta
No labirinto das hipóteses vãs
Insistem dolentes melodias roucas
Presentes por abrir abandonados nus
Já tardia a sombra desce sobre a nuca
Repete para dentro o que estava longe
Vislumbrada a fugitiva ausência
– Sede de mel a mel semelhante
Prisão de asas em desalinho –
Vai descontar à perfeição o inconsútil
Tolerar gladíolos e o primeiro frio
(de Furtiva a Luz, edições Salamandra, 1999 – colecção Garajau)
5.8.09
ANTÓNIO DACOSTA
VARANDA da minha infância
Cidade feliz
De teus ócios merecidos
Chegou o fim amargo
Do meu último olhar
Vejo enfim as calmas areias quentes
Os fetos das fontes que o tempo secou
O fundo poço que sou e é velho e é triste
Nada muda o destino deste parado barco
O mar dorme em paz e sossego
A terra mostra ao sol os seios preguiçosos
As mulheres espreitam arrepiadas às janelas
Do caminho sobem ao céu súbitas nuvens de poeira
Tudo é divino à luz dourada dourado
Só eu sou levado de mim e me perco
(in A Cal dos Muros, selecção e apresentação de Bernardo Pinto de Almeida, Assírio & Alvim, 1994 – Peninsulares / Literatura)
VARANDA da minha infância
Cidade feliz
De teus ócios merecidos
Chegou o fim amargo
Do meu último olhar
Vejo enfim as calmas areias quentes
Os fetos das fontes que o tempo secou
O fundo poço que sou e é velho e é triste
Nada muda o destino deste parado barco
O mar dorme em paz e sossego
A terra mostra ao sol os seios preguiçosos
As mulheres espreitam arrepiadas às janelas
Do caminho sobem ao céu súbitas nuvens de poeira
Tudo é divino à luz dourada dourado
Só eu sou levado de mim e me perco
(in A Cal dos Muros, selecção e apresentação de Bernardo Pinto de Almeida, Assírio & Alvim, 1994 – Peninsulares / Literatura)
ANTÓNIO DACOSTA

ÁLAMO OLIVEIRA
ilha
a ilha ao fundo__funda saudade
que emerge do horizonte.
azulíneos__os gestos do pincel
sedimentam as águas
de míticas inquietações.
ninguém sabe que peixes
habitam no mar.
se há nevoeiro dom sebastião não vem.
o céu__único infinito que passa
pela janela da casa de janville.
no peitoril__os calos dos cotovelos do silêncio.
(de antónio porta-te como uma flor, edições Salamandra, 1998 - o quadro acima acompanha o poema, nesta edição)

ÁLAMO OLIVEIRA
ilha
a ilha ao fundo__funda saudade
que emerge do horizonte.
azulíneos__os gestos do pincel
sedimentam as águas
de míticas inquietações.
ninguém sabe que peixes
habitam no mar.
se há nevoeiro dom sebastião não vem.
o céu__único infinito que passa
pela janela da casa de janville.
no peitoril__os calos dos cotovelos do silêncio.
(de antónio porta-te como uma flor, edições Salamandra, 1998 - o quadro acima acompanha o poema, nesta edição)
4.8.09
MARQUESA DE ALORNA
QUANDO ME PENHORARAM INJUSTAMENTE TODOS OS MEUS BENS
À Fortuna
Fortuna, que me persegues,
Pequeno triunfo tens:
Eu desejo só vontades,
Tu disputas-me vinténs.
Basta-me o que me deixares,
Quando tudo me levares.
Basta-me esta alma que tenho,
Constante como os penedos;
Bastam-me as águas das fontes,
E a sombra dos arvoredos;
Ponho-me ao fresco no Estio,
E aquento-me, andando ao frio.
Basta-me o Sol, que não podes
Apagar, e à noite a Lua.
Se me tirares a casa,
Irei dormir para a rua.
Sopa, não me dá cuidado,
Tem muitas plantas o prado.
Se o teu rigor se estendesse
A tirar-me o meu tinteiro,
Escreveria nos troncos,
Com um prego, este letreiro:
«Vim ao mundo sem camisa,
Ninguém, morrendo, a precisa.»
(in Poesias, selecção, prefácio e notas do Prof. Hernâni Cidade, 2ª ed.: livraria Sá da Costa editora, 1960)
QUANDO ME PENHORARAM INJUSTAMENTE TODOS OS MEUS BENS
À Fortuna
Fortuna, que me persegues,
Pequeno triunfo tens:
Eu desejo só vontades,
Tu disputas-me vinténs.
Basta-me o que me deixares,
Quando tudo me levares.
Basta-me esta alma que tenho,
Constante como os penedos;
Bastam-me as águas das fontes,
E a sombra dos arvoredos;
Ponho-me ao fresco no Estio,
E aquento-me, andando ao frio.
Basta-me o Sol, que não podes
Apagar, e à noite a Lua.
Se me tirares a casa,
Irei dormir para a rua.
Sopa, não me dá cuidado,
Tem muitas plantas o prado.
Se o teu rigor se estendesse
A tirar-me o meu tinteiro,
Escreveria nos troncos,
Com um prego, este letreiro:
«Vim ao mundo sem camisa,
Ninguém, morrendo, a precisa.»
(in Poesias, selecção, prefácio e notas do Prof. Hernâni Cidade, 2ª ed.: livraria Sá da Costa editora, 1960)
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