21.8.09

(Oceano Atlântico, ao largo da Ilha Terceira - Agosto de 2009)


JUAN RAMÓN JIMENEZ

DIA ENTRE OS AÇORES

9 da manhã.

O Sol, que se acende, lento, em branca luz, ao apurarem-se as nuvens de água, ilumina de prata verde o azul do mar de chumbo carminoso. Gotas doces de chuvisco varrido e gotas amargas de onda assaltadora chegam-nos confundidas aos lábios e aos olhos. Vamos para o Verão, afundados até às orelhas nas peles de Dezembro.

1 da tarde.

MAR SÓLIDO

Está o mar de pedra, e as ondas baralham-se como cartas ou lascas de ardósia. Aqui e acolá, indefinidas malaquites de imponderáveis verdes, profundos e finos mármores negros que desceram, em escadarias magnetizadas, ao mistério. Em súbitas aparências volúveis, sobre a crista das mudáveis e minúsculas cordilheiras de ondas, remoinhos de gesso. Parece que é pó a brisa. A boca e a alma têm sedes.

2 da tarde.

Ao subirmos da sala de jantar, não há mar. Todos, sem o ver, continuam crendo-o ali. Mas não está. Não, não há mar. O sol contagia toda a atmosfera chuviscosa, e tudo é só luz branca, suave, velada. Na unânime claridade, breves sangues derramados por feridas de alvor, leves grinaldas vivas — de quê? — não sei se pela água se pelo céu.

5 da tarde.

ADEUS!

Que distante já a triste cova chorosa, de que acabámos de sair agora mesmo, dos «Açores da chuva permanente»! Saudação alegre da aberta tarde de sol! O mar, prússia outra vez, está como talhado em infinitos planos de escuras cores luminosas, que se complicam em cambiantes inumeráveis, como se cada onda tivera um parto perpétuo de ondinhas. Claridades de nuvens afogueadas deslumbram-no sem repouso, e nas espumas de cada onda desfeita um arco-íris eleva a sua lira de cores. — Assim as Musas celebrando o Génio «mensageiro de luz» de Puvis de Chavannes, femininas ondas brancas de um mar ideal. — O céu é hoje maior que o mundo, e parece que a sua glória desceu ao ocaso, que está aí perto, entre os seus jardins aquáticos. A última ilha, quase de música, suma da ilusão, sai, como uma proa de luz cristalizada, de entre as nuvens baixas, que a abraçam, que a colgam, que a coroam imensamente, na desproporção mágica — pobres de nós! — da sua magnificência apoteótica!

6 da tarde.

A ILHA TRANSFIGURADA

Malva, de ouro e vaga — tal qual um grande barco revirado no mar concentrado e azul-ultramarino —, num ocaso amarelo que ornam mágicas nuvens incolores, gritos complicados de luz, a «Ilha dos Mortos», de Bocklin. Mas os ciprestes estão ardendo esta tarde e os mortos estão ressuscitando. Ouro, fogo, purificação. O mar soa a César Franck.

7 ½ da da tarde.

Transfigurada já e ardida, entre o Sol do ocaso e o seu longo derramamento no mar azul, como uma brasa viva que se apaga rubra, malva e cor-de-cinza — negra em sítios, carvão que permanece — a «Ilha — Adeus, adeus, adeus! — do Juízo Final».

(tradução de Pedro da Silveira, in Mesa de Amigos – versões de poesia, Direcção Regional dos Assuntos Culturais / Secretaria Regional da Educação e Cultura, 1986 – Colecção Gaivota)

20.8.09

J. H. BORGES MARTINS

escrito no jardim da cidade


senhor que escreveste
em sânscrito no jardim das amendoeiras

que puseste os cegos a ver as maravilhas
da tua criação

e fizeste os coxos andar
pelas ruas desertas de jerusalém

vem visitar os cabarés do ocidente
e ver o pesadelo dos mortos nos rituais
do sétimo dia.

ensina os animais a falar e a sorrir
distante da solidão dos espelhos.

vem apreciar os jogadores triviais
das bolsas de nova iorque e de tóquio

todos querem ver a tua arte de falar
e curar os sifilíticos e impuros

não deixes___senhor___o perfil caótico
das imagens escapar à denúncia
consciente dos olhos.

(de nas barbas de deus, edições Salamandra, 1999 – Colecção Garajau)

19.8.09

(Furna do Enxofre, Ilha Terceira - Agosto de 2009)


JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

A FURNA DO ENXOFRE


A primeira coisa que se conhece é uma longa
escadaria que leva à espessura, a um velório
de vegetação sombria. Ergue-se por entre a
rocha que ladeia os degraus, até ao momento
em que mergulha na golpeada ressonância da
caverna. Não há corpos projectados pelo
fogo, apenas o enxofre se consome e a furna
se transforma num pequeno altar de lama que
sustenta extrema temperatura. Ninguém nomeia
a asa de um morcego e o rasgão de luz
desce a altíssima gruta para que possamos
atribuir uma forma aos objectos reais: a
laguna onde o pequeno barco aguarda a voz da
sombra que se desdobra em múltiplos ecos:
fantasmas, coisas vãs que ficaram fora do
coração da ilha: no líquido exílio, sob a
ilha, está um campo subterrado, bolsa imensa
que sustém a própria ilha: e os olhos vindos
das trevas regressam à plácida luz, como
quem ressuscita, numa súplica, a tristeza das
_______________________coisas.

(de Bellis Azorica, Relógio d’Água editores, 1999)

18.8.09

CARLOS BESSA

o desemprego à janela numa ilha


Um silêncio d'alma nós à janela
Uma janela sobre Angra
Com o seu casario maioritariamente branco.
À janela o território, pão e vigilância
Advém moldura onde se fecha a memória
Com a luz coada de uma folhagem que
Até ao mar cai em íngremes socalcos.
Uma espuma negra e industrial
De restos e contentores
Cheios de gatos vagarosos e cães que rangem
Ao sol, ao tanto sol do pátio da alfândega
Onde, com o salário por um fio
Andam homens e mulheres à deriva
Enquanto nós, sopa pão sumo de laranja
Sorrimos, sorrimos.

(de Em Trânsito, &etc, 2003)
ANA PAULA INÁCIO

transporto material muito fino
vidro assoprado
por ares assassinos
vitrais doloridos
no ventre macerado
de Santa Bárbara
como um trovão

o amor alongado
por malhas largas
onde erramos a pescaria
e encontramos os corpos
dos nossos próprios pés
atados por limos


(da As vinhas de meu pai, Quasi edições, 2000 - biblioteca "uma existência de papel")



(imagem obtida através do Google Earth)



17.8.09

JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES

[excerto inicial de] «DAS VIDAS, MORTES DURAS»

O vapor em que Camilo Pessanha seguia para Macau — e por razões que para ele próprio ficaram completamente secretas — teve de parar durante alguns dias no porto de Angra. Falou-se de uma improvável avaria demorada, depois de alguns dias de tempestade, o que não parecia fazer sentido algum. Havia, contudo, maus ventos e o próprio ancoradouro agitava excessivamente o navio. Pessanha resolveu procurar alojamento na ilha, de tal modo lhe era insuportável o quotidiano a bordo, mas foi impossível encontrar sequer um quarto na cidade. Apenas na Praia da Vitória a viúva de um juiz lhe cedeu onde ficar, devido ao súbito acaso da descoberta de o professor de Macau ter sido colega de seu marido em Coimbra.
Camilo Pessanha levou consigo uma pequena mala de couro já muito gasto. O imediato, um holandês de Utrecht chamado Langendorff que também se interessava pela dinastia Ming, avisá-lo-ia de véspera, pois precisava de meio-dia para regressar, embora se sentisse no sorriso alheado do professor que lhe seria indiferente continuar a viagem ou perdê-la. A casa ficava numa zona abrigada da vila e, na noite em que chegou, ouviu ondas dobrarem para lá de um morro.
Na manhã seguinte, a viúva tinha já partido para a missa e a mesa, numa pequena sala perto da cozinha, tinha leite e pão. Uma criada baixinha perguntou-lhe se queria chá, por certo incomodada pelos escarros que juntava num largo lenço já bastante sujo. Uma bola, quase lhe parecera de trapo, bateu na vidraça. Um rapazote saltava do pátio de uma casa com muitas varandas de madeira. "É o menino Vitorino, anda sempre com livros e não tem modos de crescer As tias não têm mão nele, mas devem gostar assim. O senhor quer mais leite?"
A limpeza da casa e o vazio das paredes sem qualquer sentido de acumulação acentuavam-lhe o tédio. Os seus olhos mortos viam no lambril da sala o primeiro sol. Essa hora de luz acordava-lhe nos braços um torpor onde nenhum elixir triunfava da ausência do outro corpo caído, muito longe, sobre qualquer chão nu. Fechava os punhos indecisos entre o guardanapo e os talheres, o pescoço metido nos ombros, os pés como que suspensos do soalho, os olhos vesgos e de cor diferente, abraçado pela memória, pela despedida, pela desrazão.
Diante da janela uma liliácea, sorriu. Uma pseudo-árvore, o dragoeiro, inclinava os seus galhos inúmeros à pressão de antiquíssimos vento. Sangue de drago, ocorreu a Pessanha. A goma tinturial toldou-lhe uma gargalhada, mas enterneceu-o pensar que nos seus dias, o que fora um produto capaz de servir a imaginação da cor não passava de um decorativo elemento de jardim. Os fundos que foram líquidos ferventes, que depois formaram a manta de pedra viva dos polmes, dobravam-se agora na placidez que esquece os cataclismos, como dentro de si os olhos esqueciam enquanto olhava o canto vegetal. A frágil agitação das gingkobilobas, essas árvores ternas onde os raios de ventos e sol soçobram, ligava-o ao mundo dos seres extintos, mas ainda absurdamente sobrevivos.
[...]

(in Do Corvo a Santa Maria, com fotografias de José Sousa Gomes, Relógio D'Água editores, 1993)

15.8.09


[Angra do Heroísmo, Agosto de 2009]


ALMEIDA GARRETT

A MEU TIO
D. ALEXANDRE DA SAGRADA FAMÍLIA


LOUSA da morte! as lagrimas não podem
______Amolgar-te a dureza:
Nem mais sobeja do que tristes lagrimas;
______Que o mais, tu o roubaste
A enferrujada chave do sepulchro,
______Mal deu a fatal volta,
Some-se, e affunda ao pego das edades...
______Nem ha tornar a vêl-a.
A mui pesada mão da eternidade
______Carrega o sêllo eterno
Nos ângulos da campa; e sobre a lagem
______Mui breve se condensam
Geladas aguas de lodoso olvido
______Acaso alguns momentos
Morredoura saudade emtôrno adeja,
______Que mal de escasso pranto
Amor ou gratidão lhe rociaram
______As curtas, débeis pennas:
Até que, pouco e pouco, ao longe a afasta
______A viração do tempo,
Ou do ingrato assettear de cru desprezo
______Acinte mal-ferida,
Cae d'aza morta ás ribas descuidadas
______Do paludoso Lethes.
Ah! que os olhos ainda se me arrasam,
______Ainda agradecidas
Em fio e fio as lagrimas deslisam!
______Tu, varão extremado,
Tu não morreste ainda no meu peito:
______Tu que em minha alma tenra
As primeiras sementes desparziste
______Das lettras, da virtude,
Que á sombra augusta de teu nobre exemplo
______Tenras desabrochando,
Cresceram quanto são. Infante ainda,
______O ânimo singelo
Me avigoraste da constância tua,
______Da nobre fortaleza
Com que, dignos de Roma, a Lysia deste
______De alto valor exemplos.
Oh! que o meu coração sobre essa lagem
______De angústia se espedaça!
Eu não te verei mais, rugosa face
______Do venerando velho,
Que da existencia na vereda ingreme
______As primeiras pisadas
Me endireitou no trilho da justiça!
______Orpham de tal amigo
Terei de ir só avante, onde é mais árdua,
______Mais difficil a estrada!
Sagrados manes, allumiae-me a vida
______C'um facho lá do Elysio:
Sêde-me guia na escabrosa senda
______Que temeroso enceto,
Porque vossas pegadas retrilhando
______Qual fostes seja, um homem.
Angra — Junho, 1821.
(de Lyrica de João Mínimo, 1829; in Lírica Completa, editora Arcádia, 1971)


D. Frei ALEXANDRE DA SAGRADA FAMÍLIA

À meninice


____Da bela natureza
Que viçosa frescura! o vício feio
Não a pode abafar co'as negras asas,
____Murchar c'o bafo ardente.
A paz, filha do céu, repoisa n'alma,
A alegria no plácido semblante
____Do tenro pequenino.
A saraiva cruel assole os campos,
Ou torrada a seara as esperanças
____Do lavrador desminta.
Negros fumos espalhe sobre as terras,
De humano sangue tinja as águas claras
____A guerra assoladora.
Junto à fonte brincando, alvas pedrinhas
Ajunta e lança ao rio sem cuidado.
____De rosas, de mosquetas,
Co'a murta verde tece uma capela
Para a mãe, que nos braços o agasalha.
____Que beijinhos tão doces
Em os beiços maternos colhe alegres!
Se pudéreis voltar, dias antigos!

(in Poesia Açoriana do Século XVIII a 1975, selecção, prefácio e notas de Pedro da Silveira, livraria Sá da Costa, 1977 - recolhido de D. Frei Alexandre da Sagrada Família, a Sua Espiritualidade e a Sua Poética, de Ofélia M. Caldas Paiva Monteiro, 1974)

14.8.09

[Em face dos últimos acontecimentos]

JOSÉ GOMES FERREIRA


V

(Lágrimas de raiva nos olhos. Ainda água.
Notícia da proclamação da Monarquia no
Porto. As pedras preparam-se para acor-
dar. Em 1918-1919 a República era uma
religião burguesa muito grave.)


A palavra República
tornou-se de repente tão real,
sonho com recorte
— envólucro de chamas,
corpo de mulher ritual
que todas as noites condenava o sol à guilhotina,
para sentirmos respirar melhor a morte.

Uma palavra
que tornava a liberdade mais misteriosa
para além da luz e das trevas.

República
— religião em que os deuses se evadiam dos templos
para se misturarem com os homens no suor das labaredas!


VI
(A bandeira monárquica içada no Mon-
santo em Janeiro de 1919. As pedras acor-
daram. O povo assalta os museus para
se munir das armas velhas que lhes res-
tam. Cantava-se «sobre a terra, sobre o mar».)

As mãos fugiram, dos braços!
e durante a noite
entraram no sonho exacto
de colarem com pincéis de lume
nas esquinas das ruas
os editais da cólera
a favor da morte com sentido
(a morte no passado é o que depois chamamos tempo):

ÀS ARMAS, CIDADÃOS!

Era nítido que todos queriam continuar a sonhar em comum,
e recusavam as superfícies com fronteiras.

ÀS ARMAS, CIDADÃOS! ÀS ARMAS!

Todos metem à pressa nos olhos os incêndios necessários
para acordar em asas
a liberdade presa ao vento do agitar das bandeiras.

(de Memória - III, 1962-1963, in Poeta Militante - Viagem do Século Vinte em mim, Moraes editores, 1983 - Círculo de Poesia)
MIGUEL TORGA


Angra do Heroísmo, 18 de Março de 1970 — Aprendida nos livros e descrita de viva voz, a Terceira era na minha imaginação uma abstracta mistura de história e pitoresco. Base naval na era dos Descobrimentos; baluarte das liberdades pátrias em várias ocasiões; tombo de nomes gloriosos — Vasco da Gama, Colombo, Vieira e Garrett —; redondel de touradas de corda; refúgio medieval do Espírito Santo... E é outra ilha que levo daqui, depois de a relancear de fugida — com paragens demoradas apenas na Praia da Vitória e nas Lajes, em nome dum velho afecto revivido e dum súbito patriotismo vigilante —, e de ter tido alguns contactos humanos imprevistos. Longe da surpresa, à hora do embarque encontrei no cais, esfumados no lusco-fusco que me toldava os olhos e o entendimento, meia dúzia de jovens à minha espera, de microfone em riste. Neguei a entrevista, claro, mas convidei-os a subir a bordo. E foi no longo serão que acabámos de passar juntos que a imagem literária se transformou na visão objectiva de uma realidade física e espiritual, que tem na angústia indígena a designação bifurcada de «insularidade e contestação».
— Insularidade! — ponderei. — Mas insular é o próprio continente português, cercado de solidão por todos os lados! Insular é o próprio globo em relação ao mundo universo! O que são as viagens à lua, senão tentativas de fuga à insularidade da Terra? A insularidade é uma situação, não é uma condenação...
Quanto ao segundo termo do binómio, à contestação, perguntei apenas que juventude deixou de a fazer algum dia em qualquer latitude, e se não seria justamente razão de optimismo o facto de ela ser possível também ali...
Assim falei, sem grande esperança de os convencer. Com horizontes abertos em todas as direcções — que Anteros e Teófilos o não compreenderam? —, a que outra largueza geográfica e mental aspiravam aquelas almas juvenis? «Português do mar alto» chamou alguém ao homem açoreano. Mas não é fácil às vezes compreender que empoleirado numa gávea de terra se pode ver mais do que sentado num café de Paris...

(de Diário XI, 1973; 2.ª ed. revista: edição do Autor, 1991)

13.8.09

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


Sobre um tema de Vitorino Nemésio


Viver nas ilhas pequenas
É comprar paz com desconto


(Vitorino Nemésio)

Viver nas ilhas pequenas
É ter mais tempo nos dias
Entre manhãs tão serenas
E as noites longas e frias

O dia tem horas cheias
Passam os vários vapores
E na sombra das baleias
Há vozes de trancadores

O vinho das cepas velhas
Desce com a neve do Pico
Desde a porta até às telhas
É nesta adega que eu fico

No sossego das lagoas
Na distância das fajãs
Perdi a voz das pessoas
Na gramática das manhãs

Viver nas ilhas pequenas
É comprar paz com desconto
Ter numa factura apenas
A vida ponto por ponto


Sobre um tema de Emanuel Félix

(poema - autógrafo para Manuel Emílio Porto)

O motor duma traineira
Que fundeou na baía
Trabalhou a noite inteira
Mas só o poeta o ouvia

O motor duma traineira
Que fundeou na baía
Trabalha a noite inteira
Numa faina de alegria
E faz à sua maneira
Sumário dum novo dia
Como se uma feiticeira
Desenhasse a profecia
Duma vida verdadeira
Longe da monotonia

O motor duma traineira
Vem acordar o poema
Numa mesa de madeira
O poeta tem um dilema
Há a palavra pioneira
Que desenha no cinema
O fogo de uma lareira
Criando um novo sistema
O poeta escuta a traineira
Que dá a força ao poema

O motor duma traineira
Que fundeou na baía
Trabalhou a noite inteira
Mas só o poeta o ouvia

(inéditos, gentilmente oferecidos pelo Autor. O primeiro destes poemas foi musicado pelo Maestro Emílio Porto)

12.8.09


[Angra do Heroísmo, Agosto de 2009]


JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE

[excerto de] VEÍCULO PERFEITO

(...)
Uma outra casa. Recém-pintada de um azul.
Aí viveu no mês de maio do segundo ano do século
o rapaz Pessoa. Na rua da Palha
o 26 tem um barbeiro na porta ao lado. No tempo
distante de sua mãe ouvia odeio o céu o mar
a minha terra o meu sangue o meu futuro o meu presente
o meu passado eu odeio esta coisa sagrada da
pátria incómoda cadeira dourado subterrâneo.

(de Terra Nostra, editorial Presença, 1992 - colecção forma)

11.8.09

VITORINO NEMÉSIO

CANTIGAS À ILHA TERCEIRA,
À CIDADE, À PRAIA, E AOS MONTES


Lá vai a Ilha Terceira
Por riba dos mares afoitos,
Carregadinha de amores,
De mistérios e biscoitos!

Esta nossa Ilha Terceira
Sempre foi alto lugar:
Em amores, bodos e toiros
Fica bem a desbancar.

A Ilha Terceira é fêmea,
Sã Miguel saiu varão,
A Graciosa rapariga
E Sã Jorge tubarão...

Olha os Ilhéus a Sã Bento,
Olha Sã Jorge à Feiteira!
Olha o meu amor comigo
Numa cisma verdadeira!

A nossa Ilha Terceira
Em dois pontos fica atrás:
De Deus do Céu o de ti
Que tanta graça lhe dás!

A Graciosa lá longe
Quando te viu na Sarreta
Teve tanta invejidade
Que de roxa ficou preta!

Ó Angra, nobre cidade,
Que tens baraço e cutelo!
Vê-se a croinha do Pico
Das muralhas do Castelo.

Não subo ao Monte Brasil,
Não sou facheiro nem facho:
Tenho o navio no peito,
Quando o quero sempre o acho.

Ó leal cidade de Angra,
Mimória do meu amor,
Pisão da minha alegria,
Castelo da minha dor!

Angra, maioral cidade,
Desterro do Gungunhana,
Onde fui às cavalhadas
No meu cavalo de cana.

Ó Angra da fidalguia
E da procissão do Triunfo!
Em amores puxei-lhe espadas,
Ganhou-me a dama do trunfo.

Eu fui aos toiros de praça
No dia de S. João:
O meu bem era o capinha,
Atirei-lhe o coração!

Não há terra como a Praia,
Nem abrasão como o seu,
Não há gente como aquela,
Não há amor como o meu!

O meu bem não é da Praia
Porque a sorte na no quis,
Mas como eu nasci na areia
Lá o plantei de raiz.

Ó Praia, muro da fama,
Vila de tanto autorizo,
Só te faltava aquele anjo
Para seres o paraíso!

A Praia é peixe de caldo,
Damasqueiros, escrivães,
E os filhos que vão prà América
Contra vontade das mães.

Quando chegou a Sã Lazro
O meu bem adivinhou
Que eu gostava da ermidinha
Que o verde junco juncou.

Lá foi ver o cemitério
Cheio de saudades minhas
Plantadas pelo Saldanha
Com pena das lazarinhas.

Fez os olhos mais compridos
(Oh que lindo modo o seu!),
Lá disse: «Quero esta cova
Pra me enterrar mais o meu!»

Quatro portões tinha a Praia,
O das Chagas era um:
Falta o da Luz dos teus olhos
E não sei de mais nenhum.

Olha a Praia espaireçosa
Co ua baía daquelas,
E o meu amor embarcado
Dentro das suas janelas!

Quatro torres tem a Praia:
Espital, Cambra e Matriz;
Falta a torre do teu peito,
Quem no sabe é quem no diz!

Sã Bertolameu é faca,
Sã João uma águia tem:
Troixe no bico palhinhas
Pràs meninas de Belém.

Sã Carlos é espaircimento,
Pico da Urze desvio,
As Bicas são n'os teus olhos,
Tuas lágrimas em fio.

O meu amor é das Cinco,
Para lá de Sã Mateus:
É daquelas Cinco Chagas
Que temos do amor de Deus.

A Sarreta são romeiros,
Santa Barba caras lindas,
As Doze – doze confeitos
Que tu, meu anjo, me guindas.

Os Altares é casamento,
Os Biscoitos vinho novo,
Raminho festa de igreja,
A Terceira pão e povo.

Quatro Ribeiras é lenha,
Biscoito Brabo brabeza,
O das Colmeias é mel:
Terceira, tanta beleza!

Ó Agualva do alvoredo,
Da farinha e do castanho,
Ó mãe daquela beleza
Duma tia que lá tenho!

Nossa Senhora da Ajuda
É a mãe de Vila Nova,
Branquinha a pé do Calvário
Como galinha na cova.

Sã Brás do estreito! se diz
À goela do engasgado.
Viva a terra da Mariana,
Com flores nos cornos do gado!

As Lajes era pão alvo,
Agora é «olha o balão!»
E toiradas, «coisa braba!»
Com favica pelo chão.

Cabo da Praia é tabaco,
Pontinhas teia que eu deite,
Cá'da Ribeira o meu quarto,
Canada dos Pastos leite.

Ah, Porto Martim das uvas,
Baga de faia cheirosa,
Minha maçã redondinha,
Pedra negra preciosa!

A nossa Fonte Bastarda
É uma filha da mãe
Que nasceu como um jarrinho
Das muitas grotas que tem.

Ribeira Seca molhada
De leite e de vinho novo,
Minha galinhinha branca,
Massa cevada! meu ovo!

Dizem que a Vila que é feia...
É linda como uma moça!
Teve Cambra e o prevelégio
De lá passares de carroça.

Porto Judeu são casinhas,
Santo Amaro boa vista,
Feiteira uma presa à prova
Da alma que lhe resista.

No guião da Ribeirinha
Vê-se a firmeza do moço
Para trastejar a casa
E pôr a corda ao pescoço.

Terceira, volta da ilha
E moças pelas paredes,
E este cego de cantar
Aquela que vós não vedes!

Pobre da Ilha Terceira!
Coitado de quem é mãe!
Mesmo se um filho é queimado,
Teve as dores... quere-lhe bem!

E as canadas que esqueci
Lá no céu terão a palma:
Seja a terra da Terceira
A nossa coberta de alma!

(de Festa Redonda, 1950)

10.8.09

LUÍSA RIBEIRO

CINCO

Sou peregrina de Compostela à Serreta. Faço descalça qualquer trilho, rumo infinito.
Prometo aos pés doidas caminhadas. Guardo num vaso o cabelo rapado. Não evito urtigas, agulhas, espinhos e vou forte prometer a vida.
Peço três desejos de águia.
No regresso, tomo o caminho do Paraíso.

(de Outros Frutos, ediciones Dauro, 2005)

9.8.09

VASCO PEREIRA DA COSTA


PRIMA TERRA


A rua__no mar__vagas
na casa assaltando o sono.
Um barco uma ave. A aeronave.
Quando a manhã chegava à rua ao mar
sempre navios e pássaros
e quantas terras
no mar na rua
Direita aos portos do mundo.

(de Terras, Campo das Letras, 1997)