10.9.09

RUY CINATTI

A MARGEM DO PÂNTANO


Para Jorge de Sena

Tudo me dói como se fora medo
ou ânsia de ficar aquém da morte
brincando na ilusão de estar vivendo
medos perdidos, pélagos selados.
Sonhos não chegam para tamanha sorte
ou chegam, mas são fúria lá no centro
de um mundo onde não vivo, iluminado
por mão intemerata já sem norte.
Acaso quebro lages, desço fundo,
laços desfaço de invisível corda.
Ao centro que me foge e que não quero
logo deslizo como quem se avilta
no lixo temporal muro fechado.
Enquanto o dia não chega a febre aumenta.
Vozes insistem pela madrugada.
Lanço de mim o grito inesperado:
eu vivo, sou, e sonho, ou desespero!
realidade és medo, a dor é nada!

(de Conversa de Rotina, 1973)

9.9.09

JOSÉ BLANC DE PORTUGAL

IX.9
FILIORUMQUE


Eles cantam e tocam nas suas violas
Eles rasgam os seus corações
Não os seus vestidos
Como disse o Senhor ao seu Profeta
Que fizessem e o lembram
Aos cristãos na Quarta de Cinzas...

Nós seguimos inanes caranguejolas
Disfarçando muito bem os tropeções
Com o falso cismar dos distraídos
E fumaça de falsas mofetas
E falso lembrar de se quebrarem
P'ra sempre as urnas doutras cinzas
Pó dos tempos a esconder-me o tempo.

Eles cantam e tocam as suas violas...
Rasgai os corações e não vossos vestidos
Disse o Profeta do Senhor. . .
Eles não tocam para os já vencidos
Eles não cantam para os sem-amor.

Tanto quanto os há na terra, deuses é que eles são…
Tocam e cantam e assim vão criando
Mundos que não são nada ilusões
Mundos em que o som outros sons cria
Em que essa união constante
É a ponte única que liga
Aqui e o lugar distante
Onde pode ser que ainda exista

O que me fez escrever sem que razão
Aparente p'ra fazê-lo subsista...
Bem sei que não são versos para ouvidos finos
Bem sei; mas eu, sinceramente, meus meninos,
Não creio que o sejam — finos os ouvidos, quero eu dizer… –
Pois se o fossem
Era p'ra eles que serviam estes versos. . .

8/9.2.67

(de Enéadas – 9 Novenas, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1989 – Biblioteca de Autores Portugueses)

8.9.09

HERBERTO HELDER

TEORIA SENTADA



I

Um lento prazer esgota a minha voz. Quem
canta empobrece nas frementes cidades
revividas. Empobrece com a alegria
por onde se conduz, e então é doce
e mortal. Um lento
prazer de escrever, imitando
cantar. E vendo a voz disposta
nos seus sinais, revelada entre a humidade
dos corpos e a sua
glória secular. Uma dor esgota
a idade, com cravos, da minha voz.
E eu escrevo como quem imita uma vida e a vida
de uma inconcebível
magnitude. Ou somente de uma
voz. Um lento desprazer, uma
solidão verde, ou azul, esgota por dentro e para cima,
como um silêncio, o antigo
de minha voz.

O que digo é rápido, e somente o modo
de sofrer
é lento e lento. É rapidamente fácil e mortal
o que agora digo, e só
as mãos lentamente levantam o álcool
da canção e a formosura
de um tempo absorvido. Digo tudo o que é
mais fácil da vida, e o fácil
é duro e batido pela paciência.
Porque a terra dorme e acorda de uma
para outra estação.

Porque vi crianças alojadas nos meus
melhores instantes, e vi
pedaços celestes fulminados na minha
paixão, e vi
textos de sangue marcados desordenadamente
pelo ouro. Porque vi e vi, na saída
de um dia para o começo
da primeira noite, e no despedaçar da noite.
E porque me levantei para sorrir
e ser cândido. E porque então
estremeci com a rapidez das palavras e a quente
morosidade
da vida. Eu disse o que era fácil
para dizer e eu tão
dificilmente havia reconhecido. Porque eu disse:
um prazer, um pesado prazer de cantar
a vida, consome a única voz
de uma vida mais sombria e mais funda.
E eu mudo sobre este campo parado
de cravos, quando a lua
rebenta, quando
sóis e raios crescem para todos os lados do seu
fulminante país.

Alguém se debruça para gritar e ouvir em meus
vales
o eco, e sentir a alegria de sua expressa
existência. Alguém chama por si próprio,
sobre mim, em seus terríficos confins.
E eu tremo de gosto, ardo, consumo
o pensamento, ressuscito
dons esgotados. Escrevo à minha volta,
esquecido de que é fácil, crendo
só no antigo gesto que alarga a solidão contra
a solidão do amor.
Escrevo o que bate em mim — a voz
fria, a alarmada malícia
das vozes, os ecos de alegria e a escuridão
das gargantas lascadas. Para os lados,
como se abrisse, com a doçura de um espelho
infiltrado na sombra. Fiel
como um punhal voltado para o amor
total de quem o empunha.

Alguém se procura dentro de meu ardor
escuro, e reconhece as noites
espantosas do seu próprio silêncio. E eu falo,
e vejo as mudanças e o imóvel
sentido do meu amor, e vejo
minha boca aberta contra minha própria boca
num amargo fundo de vozes
universais.

Alguém procura onde eu estou só, e encontra
o campo desbaratado
e branco da sua
solidão.

(de Lugar, 1962, in Ofício Cantante – poesia completa, Assírio & Alvim, 2009 – documenta poetica)

7.9.09


ANTÓNIO CUNHA RIBEIRO

Nasceu em 1957 em Angra do Heroísmo. No seu primeiro livro, escrito aos 13 anos, Emanuel Félix interpela-o com estas palavras:
«Há gente tranquila. Há gente sossegada. Há gente tranquilamente sossegada. E um rapaz com um búzio pode quebrar a espessura da sua noite ou espantar o medo da sua vigília.
Ora acontece que tu, aos treze anos, és o rapaz com um búzio. E o búzio a figuração da poesia. Forma, significado, melodia. A receita do poema.»

Foi jornalista na Reuters e colaborou nos jornais Le Monde, Le Figaro e Daily Telegraph, além de outros órgãos de comunicação nacionais e regionais dos Açores. Foi também funcionário político da OLP (Organização para a Libertação da Palestina).
Além dos aqui referidos, publicou ainda, em 1985, Raiz Renovada, em edição da Câmara Municipal do Montijo. De entre os seus inéditos, encontram-se traduções de poemas de autores árabes contemporâneos.
Morreu em 1994.



PREFÁCIO

O poeta consome a dor
da desigualdade
nas palavras

O poeta desperta os outros
da fome calada

O poeta sente pelos outros
por eles vive
e fala


NOITE CERRADA

Ainda é noite
cerrada.

Agitam-se os braços
em vagarosos gestos de saudade
do dia que nunca virá.

Fantasmas espreitam
por entre as árvores
impedindo a nossa evasão.

De longe chegam gritos abafados
pelo rumorejar
da vegetação.

Uma única esperança nos resta,
camarada:
que o fogo nos ilumine
para que não nos percamos
na floresta.

E um desejo:
de que o dia claro
seja em breve
uma realidade.

(de Rapaz com um Búzio, Edição do Autor, 1971 – Colecção Gávea/Glacial)


Ritual

Provavelmente nunca iremos ver-nos, tocar a face um do outro, fecundar os lençóis brancos de uma cama. Mas se puder prefiro encontrar-te à saída cansada da usina, na tasca ou na rua. Aí melhor enfrentaremos o Sol e o Sal.
O sonho é o meu lugar e escrevo para que existas. Pelo caminho da escrita sofro longos orgasmos, e sei que tu também, qualquer que seja o teu rosto e o teu sonho. Qualquer que seja o teu caminho.
Por vezes cansa-me o halo dos mortais. É a distância que nos faz irmãos. Da mesma partida ao retorno, a mesma viagem de que nada fica. No fim foi só a vertigem, e só a vertigem nos acompanha.


Canto animal

Deixem o poema ser homem
e poisar na carne do homem

Deixem o poema ter saliva e ter medo
e sangue e braços que abracem
longamente em cada gesto cada gesto
o gesto do animal cio

até à exaustão que branca se derrama
e no branco se tinge de vida

o sal o musgo a fímbria dos corpos
que um no outro se completam


Bilhete para Tawfik az’Zayyad

Todas as celas fechadas
todos os pulsos sangrando urgência

Talvez amanhã
rasgaremos a pedra da noite
Talvez

(de Esta palavra escrita, Signo, 1985 - colecção Palco no Vento)


O SANGUE

Escrevo estes versos de grãos de terra na mão: eis a prova.
Tenho a certeza dos passos. Todos temos. Só no mais diferimos.
Era uma longa subida. Era a certeza
da nossa própria emigração. A mais bela,
a mais funda companhia. A perfeita igualdade do transporte
foi amassada em três quedas. Um braço, outro braço, um corpo
e a longa subida.

E agora: a tua pele
Revejo: é manso o mar.
E sei que o vento corre e que por ele
se colam no teu corpo lembranças de luar.

Descanso: os teus cabelos.
Entrego: já é dia.
Os caules são serenos
e no côncavo das mãos o sol nascia.

(inédito, gentilmente cedido por Luísa Ribeiro, irmã do Autor)
LUÍSA RIBEIRO

A memória é a gaveta com as palavras eternizadas.

O incêndio alastra-se nas veias
seduz o esmagado sol das manhãs
e purifica as ideias.
Gosto dele
como do veludo e da cor dos pêssegos.
Ele fecha a porta
e desce as escadas da rua
com a lentidão sorridente da volúpia.
Fala-me num tom severo que me inutiliza…

Uma noite contou-me os poemas da mãe
e prendeu-me aí.

(À beira-mar em recanto de festa, gostei de te escutar)


(de Fogo Branco, Direcção Regional dos Assuntos Culturais / Secretaria Regional da Educação e Cultura, 1986 – Colecção Gaivota)

6.9.09

GRAÇA PIRES


Todos me falam de ti
com palavras ambíguas.
Fui, eu sei, uma suspeita
de luz em teu olhar.
Virados a levante,
os meus cabelos
eram labaredas em teus dedos.
Na hora do combate
me nomeavas,
como se rezasses.
Pinto-a na minha imaginação
como a desejo, tanto na beleza
como na nobreza
, disseste.
E vejo a minha expressão
na cor dos teus olhos.
Tão cúmplice, eu,
de tamanho assombro.

(de Uma extensa mancha de sonhos, editora Labirinto, 2008)

5.9.09

LUÍS BRITO PEDROSO

MANHÃ


Caminho pelo granito de mil cidades e pergunto-me:
será que a manhã acabou?
Durante a manhã não importa em que cidade estamos.
Apenas aquela que vemos

Durante a manhã não sabemos sequer que existimos
Vivemos uma extensão do sonho
do sono
Mas parece que a manhã está a findar

Ao pisar essa pedra pensei:
preciso de um lugar onde me possa esconder do fim
da manhã
Onde não possa ser detectado pelo meio-dia
e tudo o resto demore mais a chegar

Espero pela noite mas vou visitando a madrugada.

(de O Meu Nome e a Noite, Papiro editora, 2007)

4.9.09

ISABEL FRAGA

O LAGO


Os remos afundaram-se
No olhar do lago

Levando ao longo
Das raízes líquidas
O peito estreito e fundo
Onde cabíamos

Perdi o tempo
 beira da consciência
Onde fiquei
Rocha, frágil, areia
Tocando aquele olhar
Doído e claro
Que o sol tornava
O espaço
De todos os sons

Por muitos meses
Busquei os pássaros
E os peixes

Para reconhecer
Um pouco de alma
Na imagem fria
E alongada
Que bebiam

Quando por vezes
No corpo
Do céu líquido
Se olhavam estranhos
Parecendo conhecer-se.

(de Face, Gota de Água / Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1984 – colecção Plural)

3.9.09

VICENTE ALEIXANDRE

O MAR LIGEIRO


O mar fustiga asperamente o ruído das botas
que passam sem receio de pisar os rostos
daqueles que ao beijarem-se sobre a areia lisa
tomam a forma de conchas bivalves.

O mar rebenta sozinho como um espelho,
como uma ilusão de ar,
esse cristal a prumo onde a secura do deserto
finge uma água ou um rumor de espadas perseguindo-se.

O mar, encerrado num cubo,
desencadeia a sua fúria ou uma gota prisioneira,
coração cujos bordos inundariam o mundo
e que só podem estancar-se com um sorriso ou um limite.

O mar palpita como a flor do cardo,
como essa facilidade de voar aos céus,
aérea ligeireza do que a nada se prende,
leve arfar dum peito juvenil apenas.

O mar ou enfeitiçada pluma,
ou pluma desatada,
ou gracioso descuido,
o mar ou pé veloz
que encerra o abismo e foge de corpo ligeiro.

O mar ou palmas frescas,
as que gostosamente se deixam nas mãos das virgens,
as que repousam nos peitos esquecidos das profundidades,
deliciosa superfície que um suave vento faz ondular

O mar ou talvez o cabelo,
o adorno,
o derradeiro toucado,
a flor que balança numa fita azulada,
da qual, se se desata, voará como pólen.

(de A Destruição ou o Amor, tradução de Luís Pignatelli, publicações Dom Quixote, 1977 – poesia século XX)

2.9.09

EGITO GONÇALVES

Que resgato com o poema?

Que amálgama de sóis, sangue,
domínio de cinzas recupero?

Que aniquilo com o poema?

Que sobe em mim ao grito da distância,
ao apelo telefónico dum estribilho,
à gasta, espira dum disco de adeleiro?
Que compro com o poema?

A força de enfrentar a solidão
que ignorava? O desfrute
de abandonar o abismo que me extraiu
o sumo?

Que poema cavalgo?,
ou sento-me no chão?

(de O Fósforo na Palha, publicações Dom Quixote, 1970 – cadernos de poesia)

1.9.09

THOM GUNN

Sempre ao Redor


O mundo do faroleiro é redondo,
os seus haveres erguendo-se num círculo
— Lá dentro tudo o que o homem pode desejar,
Uma mulher, um rádio, pão, geleia, sabão;
Porém, aos poucos a sua esperança fatigada
Irrompe para viver sobre o som
Que as ondas rodopiando fazem ao rebentar
À custa do seu próprio esforço
— O mundo do faroleiro é redondo.

Interroga-se, subindo a escada em caracol
para dirigir a lanterna que ilumina os barcos,
Por que razão aquilo que sempre foi dele se ergue
Com o rosto voltado para o centro;
Dos livros, amontoados nas mesas, aprendeu
Que os mundos do litoral são também redondos, não quadrados,
Mas lá as coisas dançam com os rostos voltados
Para o exterior rostos de medo e dúvida?
Interroga-se, subindo a escada em caracol.

Quando há acalmia, são seguros os rochedos
Para fazer um pouco de exercício,
Mas tudo o que faz é fixar os seus olhos
Sobre aquele totem enorme de onde saiu
E onde os pensamentos dançam em redor do que não mudará
— O seu secreto e silencioso desgosto.
As ondas não têm sol, mas são apanhadas pelos raios
Ao rolarem mais abaixo dos seus pés, perverso sal,
Quando, numa acalmia, são seguros os rochedos.

(in Destruição do Nada e outros poemas, tradução de Maria de Lourdes Guimarães, Relógio d’Água, 1993)

31.8.09

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

JORGE DE SENA E A RÁDIO MACAU


1.

Devagar, registando como tão facilmente poderia
esquecê-lo, fugiu de quê? Não sabe, ou não quer
responder? Favorecido pelo estrondo nocturno
das trovoadas e por urna língua que desconhece,
a sorrir manso, como se quisesse entender.

Foi a sua prática semanal e como se desembaraçou
da leitura! Outros se exilaram por razões
sérias e para cidades menos levianas, sem
preencher formulários e com dietas estreitas.
Renegou de vícios pequenos, supondo atingir a evidência

– uma configuração de alma sem acidentes,
uma vontade como terra de sequeiro e a memória
um filme mudo: poupando o álcool dos nervos,
que a procissão do tempo lhe fosse sendo escrita.

2.

Pudesse surgir da música um sopro deserto
e um destino imprevidente, náufrago que se obstina
em regressar do fundo até se agarrar a um destroço,
segue à deriva, repetindo trambolhões e quedas:
quem se condoeu dessa carta, quem esmolou

medida e regra? Por mais que o pão fosse
de trigo e a mesa trôpega, poderia recordar
quem lhe curou a sede, desprezar quem lhe compôs
cama de giesta? Alguém teria sempre melhor
razão do que a que tinha, ou maior queixa?

Uma história que ignorou auspícios, as dores
pequeninas de quem ficou em terra, por ter pontual
o relógio dos intestinos e a estrela dos navios
e a morada, como qualquer outra, incerta.

(de Mais Tarde, Assírio & Alvim, 2003)

30.8.09

PAUL ÉLUARD

GRITAR


Aqui a acção simplifica-se
Derrubei a paisagem inexplicável da mentira
Derrubei os gestos sem luz e os dias impotentes
Lancei por terra os propósitos lidos e ouvidos
Ponho-me a gritar
Todos falavam demasiado baixo falavam e escreviam
Demasiado baixo

Fiz retroceder os limites do grito

A acção simplifica-se

Porque eu arrebato à morte essa visão da vida
Que lhe destinava um lugar perante mim

Com um grito

Tantas coisas desapareceram
Que nunca mais voltará a desaparecer
Nada do que merece viver

Estou perfeitamente seguro agora que o Verão
Canta debaixo das portas frias
Sob armaduras opostas
Ardem no meu coração as estações
As estações dos homens os seus astros
Trémulos de tão semelhantes serem

E o meu grito nu sobe um degrau
Da escadaria imensa da alegria

E esse fogo nu que me pesa
Torna a minha força suave e dura

Eis aqui a amadurecer um fruto
Ardendo de frio orvalhado de suor
Eis aqui o lugar generoso
Onde só dormem os que sonham
O tempo está bom gritemos com mais força
Para que os sonhadores durmam melhor
Envoltos em palavras
Que põem o bom tempo nos meus olhos

Estou seguro de que a todo o momento
Filha e avó dos meus amores
Da minha esperança
A felicidade jorra do meu grito

Para a mais alta busca
Um grito de que o meu seja o eco

(in Algumas das palavras, tradução de António Ramos Rosa e Luiza Neto Jorge, 2ª ed.: publicações Dom Quixote, 1977 – poesia século XX)

29.8.09

RICARDO ÁLVARO

II


Porque estes dedos lambidos na escuridão escrevem o teu nome quando procuro entender a pureza do pão e do barro sobre a mesa, os talheres junto ao sangue, o peso do ar nos pulmões ou o movimento da língua na língua. Estás ao centro, demorada nas minhas noites como o batimento da água interior nas entranhas. Escrevo-te toda, dos filamentos das lâmpadas ao leite morno da manhã. E esta é a obra secreta de quem decifra as profundas raízes do coração, com os joelhos na terra e as mãos na cabeça. E em volta o amor debruçado sobre os pulsos, a entrelaçar o obscuro pavio de uma vida.

(de O Espantador, Apenas livros, 2009 – literatralhas Nobelizáveis)

23.8.09

EDUÍNO DE JESUS

REGRESSO ETERNO


Outra vez o grito
da minha antiguidade:
e eu mesmo repetido
outra vez marinheiro.

Outra vez o grito
da esperança renascida,
e eu mesmo repetido
outra vez afogado.

Outra vez o grito
dos teus olhos esperando o meu regresso:
e eu mesmo repetido
outra vez o mar dando à costa o meu corpo roído dos peixes.

1952


(de O Rei Lua, 1955; in Os Silos do Silêncio – Poesia (1948-2004), Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2005 – Biblioteca de Autores Portugueses)