NUNO DEMPSTER
O COMBOIO
Digamos no final deste sábado que
a novidade foi nada se ter passado,
que tudo cada vez se volve mais eterno,
profundamente chato e sem contornos,
e que não é possível um pássaro de fogo
entrar-me no escritório, vulgo biblioteca.
Sei tão bem as cidades por onde caminhei
que bocejo somente em pensar ir
até ao aeroporto. Todas essas cidades
se resumem à estrada que vai por aqui
não me interessa aonde.
Mesmo a rapariga que achei bela,
a semana passada desfeou-se
e as árvores, porque é Outono,
perderam todo o brilho que tiveram,
e nada disto é digno de citar-se.
Portanto regressemos ao princípio.
Nada sucede, e o meu coração lança
a crédito outro dia que jamais
poderei reaver. E quantos dias
assim hão-de somar-se em anos idos?
Oxalá não me ponha a fazer contas
a esse tempo que vou perdendo
nem escute o comboio em que, miúdo,
pensei fugir de casa para sempre.
(de Osmose; in Dispersão – Poesia Reunida, edições Sempre-Em-Pé, 2008)
26.9.09
25.9.09

JOSÉ MIGUEL SILVA
MORANGOS SILVESTRES — INGMAR BERGMAN (1957)
Para a Berta Neto
Um ser humano é um combinado de egoísmo,
sofrimento e necedade. Não comove ninguém.
Uma pedra não comove ninguém. A beleza
é um acidente banal e pressupõe a morte;
muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala,
chega a ser assustador. A inteligência, refrescante
como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora,
que é Inverno toda a vida, que lugar atribuir
à inteligência? O de criada de servir nos aposentos
da ganância. Não comove, é evidente, ninguém.
A bondade, sim, comove. Mas é tão débil
e tão rara que ninguém a ouve. Não é fácil,
assim, encontrar algo que possamos amar. Eu
tenho procurado, eu juro que não sei o que fazer:
tudo me parece, até a música, produto de uma falha.
Vou por essas ruas ao acaso e não acerto a conhecer
quem me convença que bem outra poderia ser
a vida. Tudo se mostra sob espelhos deformantes,
tudo arde numa estranha aceitação. Francamente,
não consigo perceber. E gostava tanto, mas tanto,
que alguém me demonstrasse que não tenho razão.
(de Movimentos no Escuro, Relógio d’Água editores, 2005)
24.9.09
23.9.09
[olha se ela por acaso fosse escritora...]
RITA F.
Uma ficção eleitoral
RITA F.
Uma ficção eleitoral
Se eu por acaso fosse escritora, escreveria sobre um homem que vai votar, no dia das eleições, e está até ao último minuto para se decidir, de tal modo que está já com o boletim de voto na mão e mesmo assim não sabe, a decidir, a decidir, e depois põe a cruz no partido X, vai à urna, o papel escorrega lá para dentro a muito custo, e de repente o homem muda de ideias e quer à força que abram a urna para sacar o seu papelinho, que com certeza será fácil de identificar porque foi o último a cair para o monte, mas não o deixam, e ele lá vai para casa muito agastado, e depois vem a descobrir que o partido vencedor venceu por um único voto apenas, um simples e insignificante votinho. O homem sente-se muito mal, cheio de remorsos, afinal devia ter votado no partido Y, e agora se alguma coisa acontecer a culpa é dele, a culpa é toda dele, de tal forma que os meios de comunicação social passam a entrevistá-lo de cada vez que algo nefasto acontece no país, os impostos, os escândalos, a corrupção, tudo por sua culpa exclusiva, o homem a arranjar justificação atrás de justificação, mas sem nada que o justifique, o remorso a crescer, a culpa, o homem já cheio de olheiras e sem dormir, se é Verão há incêndios, se é Inverno há cheias, se não fosse o seu voto eram outros no lugar do Governo a endireitar o país, mas ele votou e estragou tudo, e continua no seu sofrimento até que vêm outras eleições. E o homem vota no partido Y. E descobre que o partido X voltou a ganhar, mas apenas por um voto, um único e mísero voto, que não foi o seu, e é a completa redenção. Os meios de comunicação social passam a entrevistar um outro homem, outro qualquer, outro que podia ser ele, outro homem que também não consegue dormir, se é Verão há incêndios, se é Inverno há cheias, os escândalos, a corrupção, tudo por causa do seu insignificante voto. O primeiro homem dorme descansado. O segundo homem morre de remorsos.
E vêm novamente as eleições. O partido X volta a ganhar por um voto. O segundo homem dorme descansado. O terceiro homem morre de remorsos.
22.9.09
GONÇALO M. TAVARES
Poesia
Poesia
Construíram uma prisão cujos limites exteriores eram redes onde, através da torção dos arames, se encontravam escritos alguns dos mais belos poemas dos principais poetas do país.
Essa rede de versos que contornava toda a prisão era eléctrica: quem a tocasse apanharia um choque mortal.
(de Senhor Brecht, editorial Caminho, 2004)
(de Senhor Brecht, editorial Caminho, 2004)
21.9.09
LUÍS AMARO
CONQUISTA
Na miséria mais funda
cintila uma estrela
a dizer que a vida
é bela.
No silêncio aflito
da noite (naufrágio
dos tristes)
alguém sonha e canta
virgens alegrias.
A manhã nascente
para ser merecida
tem que ser sangrada
com a própria vida.
(de Dádiva, 1949)
CONQUISTA
a Murilo Mendes
Na miséria mais funda
cintila uma estrela
a dizer que a vida
é bela.
No silêncio aflito
da noite (naufrágio
dos tristes)
alguém sonha e canta
virgens alegrias.
A manhã nascente
para ser merecida
tem que ser sangrada
com a própria vida.
(de Dádiva, 1949)
MURILO MENDES
SINTRA
A Luís Amaro
A paisagem redonda (claro que considerável), a mata (com ou sem aspidistras, palavra que encontrei num texto de José Rodrigues Miguéis, e que pressupõe uma áspida — talvez de cabeleira — na aliás planta), etc.
•
Obrigatoriamente, a figuração retórica de Byron, personagem da linha grande reverência.
•
O Castelo da Pena, caleidoscópico, e que poderia resultar da paranóia de Luís II da Baviera aliada à de Salvador Dali.
•
“O mistério da estrada de Sintra.”
•
As queijadas de Sintra, monumento nacional. Categoria!
•
O encontro com Ferreira de Castro, que há vários anos escapa ao verão num hotel de Sintra; suas janelas disparam ar e verde. Depois do seu já remoto sejur no Brasil, que lhe fornecera a matéria dum livro marcante, deu a volta ao mundo. Regressando-se, viu que tudo cresce e se transforma; conforme o Padre Vieira, neste mundo só o céu não cresce. O escritor persiste idêntico a si mesmo, bom, amigo das nossas coisas; não estranha mais a espantosa bagunça brasileira. Continua a se interessar pelos problemas do homem, o que o torna atual; mesmo porque a maior volta que se pode dar ainda é mesmo dentro do homem. Montaigne dixit.
•
Desloca-se a grafia da Cintra para Sintra; com vantagem, pois letra S é sinuosa tal os caminhos de Sintra; serpentina; e ninguém ignora que Veneza toma a forma dum S. Claro que Sintra não tem relação com Veneza; mas vimo-lo, a letra S, de Sintra, sim.
•
Nenhum quadro alusivo a Sintra; duas ou três fotografias; um futuro documentário cinematográfico, televisivo ou de ou de outra técnica então mais perfeita, a ser transmitido por satélite aos habitantes de Vénus e Marte, boquiabertos; mas temo que estes não existam.
(de Janelas Verdes, edições Quasi, 2003 – biblioteca arranjos para assobio)
20.9.09
DIOGO VAZ PINTO
I.
Tenho sonhos tão mal frequentados, clichés
de toda a ordem, corações mal iniciados
ou com tão podres usos, e no entanto,
por vezes ainda te vejo num café,
uma água com gás e um livro do tempo
em que eu não sabia ler. Aproximo-me,
e perco depressa a iniciativa de se passar
tudo isto apenas na minha cabeça.
Apesar de tudo
continuo a não contrariar a realidade
e o que de nós ali fica são duas bocas
a comerem o mesmo silêncio,
nas horas, nos mostradores,
na não correspondência que mais me magoou.
Enfim, o meu mundo também
foi começando e acabando à volta de um perfume
de mulher. Das poucas que não se deixam
escrever ou glosar, nem estão dispostas
a ficar de helenas para algum estupro literário.
É ela quem ainda concebe no ventre os meus
únicos filhos,
mas nunca os deixa partir, como nunca
me deixou tocar-lhe em nove dos anos sentados
na escola, na carteira logo atrás dela,
com a respiração
obedecendo a cada gesto que fazia.
Existe mesmo e pode ser vista. Levou daqui a elegância
a outros olhos, mas visita-me entre perturbações
do sono, passeando tão devagar
com uma serpente enrolada nos tornozelos,
abocanhando-lhe, mais acima, o sexo.
Tem envolvido no pescoço um colar de dentes arrancados
às noivas que até hoje fui entretendo com conversas
sobre o futuro, antes de lhe perder todo o interesse.
Assim me explico e a tantos versos. Naturalmente,
a rejeição é de longe o meu tema preferido.
Daí o sangue nos joelhos, na mesa
de cabeceira o revólver em cima do livro
que estiver a ler, balas das que assobiam para
o lado e veneno dos que matam com extrema
doçura. Os meus crimes até para mim estão a ficar
sem importância. Não durmo para seguir madrugadas,
espremo leite das sombras que me trazem, tenho
as pálpebras humedecidas de assaltos, sirenes,
fúrias venéreas e pássaros que contra elas se esmagam.
Tenho nos bolsos listas de palavras
para as quais procuro significado, artigos
de higiene e outros, além dos hotéis
com as melhores vistas
para o sórdido vazio que vai ajardinando
a minha relativa indisposição para a vida.
II.
Sei que acredito em alguma coisa,
qualquer coisa – que se pode começar
a escrever por uma mulher, esquecê-la noite após
noite e de dia não pensar em mais nada além
do que hão-de ser as epopeias do século XXI.
Imaginar o que pode nascer dos estilhaços mitológicos
cravados nas nossas deambulações e voos rasos
de uma livraria para um bar, num táxi
que nos devolve a cidade às quatro da manhã,
do quarto à cozinha, passando pela casa-de-banho
onde os olhos escorrem no espelho
e se desequilibram como frutos negros
na gaguez absurda que ali arvora.
Qualquer coisa me serve.
Acredito no dia seguinte – em sair da cama
feio como quem nasce de um pesadelo, mas
com uma vaidade
que podia dar vida a cem bibliotecas.
Acredito no que me apetecer.
Acredito que estamos juntos nisto. Logo
pela manhã os clássicos, com calma, vão uns
a seguir aos outros ao pequeno-almoço. Ao meio-dia
já demos conta dos românticos, parnasianos,
simbolistas e dentro de momentos seguem
os modernistas, este ou aquele surrealista menos
empenhado com aquilo,
e alguns dissidentes. Já almoçamos
com os beatnicks que de um abraço nos levam
para dar uma volta, lubrificar o espírito
e dançarmos descalços ao som de ventos marados,
nalgum jardim público. À tarde, para o lanche,
passamos num drive-in e vimos de lá
com sacos cheios desse fast food lírico
que engorda os nossos dias.
Só mais para a frente, com a noite,
vão chegando os convidados para jantar.
Uns trazem aperitivos e refrigerantes, saladas
e umas coisas mais light. Alguém
fez um arroz de pato à maneira, abrimos
uns tintos, falamos mais alto, zangamo-nos,
comemos a sobremesa em silêncio, depois vêm
os digestivos, whisky, brandy, e volta a ficar
tudo bem. Há um momento em que damos
por gastas as piadas e disparates, só então
começa a falar um de cada vez.
Tiramos umas notas, comparamos ideias,
vamos avançando com as primeiras noções
para pôr esta porra a mexer.
No fim, com as sobras, enchem-se uns tupperwares
e ainda redigimos uma acta. Aí começa por ler-se:
Outros sacudiram daqui o peso da rima e
o das sílabas contadas, talvez nos cumpra a nós
tirar de vez o açaime à besta, largá-la nas ruas
e deixar que morda, rasgue, estrafegue e fôda
tudo o que cheire a mijo, hesitação e medo.
(in Criatura, N.º 3 - Abril de 2009)
Pelo meu relógio são horas de matar,
de chamar o amor para a mesa dos sanguinários.
de chamar o amor para a mesa dos sanguinários.
António José Forte
I.
Tenho sonhos tão mal frequentados, clichés
de toda a ordem, corações mal iniciados
ou com tão podres usos, e no entanto,
por vezes ainda te vejo num café,
uma água com gás e um livro do tempo
em que eu não sabia ler. Aproximo-me,
e perco depressa a iniciativa de se passar
tudo isto apenas na minha cabeça.
Apesar de tudo
continuo a não contrariar a realidade
e o que de nós ali fica são duas bocas
a comerem o mesmo silêncio,
nas horas, nos mostradores,
na não correspondência que mais me magoou.
Enfim, o meu mundo também
foi começando e acabando à volta de um perfume
de mulher. Das poucas que não se deixam
escrever ou glosar, nem estão dispostas
a ficar de helenas para algum estupro literário.
É ela quem ainda concebe no ventre os meus
únicos filhos,
mas nunca os deixa partir, como nunca
me deixou tocar-lhe em nove dos anos sentados
na escola, na carteira logo atrás dela,
com a respiração
obedecendo a cada gesto que fazia.
Existe mesmo e pode ser vista. Levou daqui a elegância
a outros olhos, mas visita-me entre perturbações
do sono, passeando tão devagar
com uma serpente enrolada nos tornozelos,
abocanhando-lhe, mais acima, o sexo.
Tem envolvido no pescoço um colar de dentes arrancados
às noivas que até hoje fui entretendo com conversas
sobre o futuro, antes de lhe perder todo o interesse.
Assim me explico e a tantos versos. Naturalmente,
a rejeição é de longe o meu tema preferido.
Daí o sangue nos joelhos, na mesa
de cabeceira o revólver em cima do livro
que estiver a ler, balas das que assobiam para
o lado e veneno dos que matam com extrema
doçura. Os meus crimes até para mim estão a ficar
sem importância. Não durmo para seguir madrugadas,
espremo leite das sombras que me trazem, tenho
as pálpebras humedecidas de assaltos, sirenes,
fúrias venéreas e pássaros que contra elas se esmagam.
Tenho nos bolsos listas de palavras
para as quais procuro significado, artigos
de higiene e outros, além dos hotéis
com as melhores vistas
para o sórdido vazio que vai ajardinando
a minha relativa indisposição para a vida.
II.
Sei que acredito em alguma coisa,
qualquer coisa – que se pode começar
a escrever por uma mulher, esquecê-la noite após
noite e de dia não pensar em mais nada além
do que hão-de ser as epopeias do século XXI.
Imaginar o que pode nascer dos estilhaços mitológicos
cravados nas nossas deambulações e voos rasos
de uma livraria para um bar, num táxi
que nos devolve a cidade às quatro da manhã,
do quarto à cozinha, passando pela casa-de-banho
onde os olhos escorrem no espelho
e se desequilibram como frutos negros
na gaguez absurda que ali arvora.
Qualquer coisa me serve.
Acredito no dia seguinte – em sair da cama
feio como quem nasce de um pesadelo, mas
com uma vaidade
que podia dar vida a cem bibliotecas.
Acredito no que me apetecer.
Acredito que estamos juntos nisto. Logo
pela manhã os clássicos, com calma, vão uns
a seguir aos outros ao pequeno-almoço. Ao meio-dia
já demos conta dos românticos, parnasianos,
simbolistas e dentro de momentos seguem
os modernistas, este ou aquele surrealista menos
empenhado com aquilo,
e alguns dissidentes. Já almoçamos
com os beatnicks que de um abraço nos levam
para dar uma volta, lubrificar o espírito
e dançarmos descalços ao som de ventos marados,
nalgum jardim público. À tarde, para o lanche,
passamos num drive-in e vimos de lá
com sacos cheios desse fast food lírico
que engorda os nossos dias.
Só mais para a frente, com a noite,
vão chegando os convidados para jantar.
Uns trazem aperitivos e refrigerantes, saladas
e umas coisas mais light. Alguém
fez um arroz de pato à maneira, abrimos
uns tintos, falamos mais alto, zangamo-nos,
comemos a sobremesa em silêncio, depois vêm
os digestivos, whisky, brandy, e volta a ficar
tudo bem. Há um momento em que damos
por gastas as piadas e disparates, só então
começa a falar um de cada vez.
Tiramos umas notas, comparamos ideias,
vamos avançando com as primeiras noções
para pôr esta porra a mexer.
No fim, com as sobras, enchem-se uns tupperwares
e ainda redigimos uma acta. Aí começa por ler-se:
Outros sacudiram daqui o peso da rima e
o das sílabas contadas, talvez nos cumpra a nós
tirar de vez o açaime à besta, largá-la nas ruas
e deixar que morda, rasgue, estrafegue e fôda
tudo o que cheire a mijo, hesitação e medo.
(in Criatura, N.º 3 - Abril de 2009)
19.9.09
MIGUEL MARTINS
De vez em quando, do outro lado da linha,
há um silêncio, um choro emudecido,
uma canção que queremos tua e minha,
e, ao chegar ao fim, há um estampido.
A garganta rebenta, o coração implode,
e, no silêncio triste, fica a esperança
do que parece não poder mas pode
ressuscitar, ser de novo criança.
Todos os dias, todo o dia morro,
há meses, anos, que estou pensando em ti,
rogando o teu regresso em meu socorro,
como naquele dia em que te vi.
***
semente de luz fechada entre teus seios
como uma madrugada sempre à espera
que eu fosse quem queria mas não era
capaz de fazer teus os meus enleios
cujos nós somos nós e quem me dera
fossem outros e como os crês alheios
para que em tua ausência não sangrasse
a cada esquina de alma num assombro
que cada umbral me parece o teu ombro
e um beco sem saída um desenlace
pois o amor descobre no seu escombro
outro modo de dar a mesma face
já que melhor não sou nem me adivinho
posto em sossego podando o teu jardim
a ver se o meio me justifica o fim
eis-me lavrando canções de verde pinho
eis-me morrendo suspenso do teu sim
eis-me aqui suplicando pelo teu linho
nestas linhas cerzidas a saliva
esfriada nas manhãs de mãos vazias
que são as minhas mãos todos os dias
perdidas e achadas à deriva
tacteando-te o ventre em pedras frias
matéria morta em que te sei tão viva
(daqui e daqui, respectivamente)
De vez em quando, do outro lado da linha,
há um silêncio, um choro emudecido,
uma canção que queremos tua e minha,
e, ao chegar ao fim, há um estampido.
A garganta rebenta, o coração implode,
e, no silêncio triste, fica a esperança
do que parece não poder mas pode
ressuscitar, ser de novo criança.
Todos os dias, todo o dia morro,
há meses, anos, que estou pensando em ti,
rogando o teu regresso em meu socorro,
como naquele dia em que te vi.
***
semente de luz fechada entre teus seios
como uma madrugada sempre à espera
que eu fosse quem queria mas não era
capaz de fazer teus os meus enleios
cujos nós somos nós e quem me dera
fossem outros e como os crês alheios
para que em tua ausência não sangrasse
a cada esquina de alma num assombro
que cada umbral me parece o teu ombro
e um beco sem saída um desenlace
pois o amor descobre no seu escombro
outro modo de dar a mesma face
já que melhor não sou nem me adivinho
posto em sossego podando o teu jardim
a ver se o meio me justifica o fim
eis-me lavrando canções de verde pinho
eis-me morrendo suspenso do teu sim
eis-me aqui suplicando pelo teu linho
nestas linhas cerzidas a saliva
esfriada nas manhãs de mãos vazias
que são as minhas mãos todos os dias
perdidas e achadas à deriva
tacteando-te o ventre em pedras frias
matéria morta em que te sei tão viva
(daqui e daqui, respectivamente)
18.9.09
JOSEFA DE AYALA
(reproduzido a partir de Linha do Oeste - Óbidos e Momentos Artísticos Circundantes, coordenação de Benedita Pestana, Assírio & Alvim, 1998 - volume adquirido ao Henrique, na companhia do José do Carmo Francisco)
RUY BELO
O BENEFICIADO FAUSTINO DAS NEVES
Quem seria o beneficiado faustino das neves
que vê de viés quem o visita alguma vez?
Pergunto e não quero que ninguém me responda
perguntar por perguntar pode ser a mais alta forma de saber
A pergunta ondula no ar ou na alma como uma nuvem
será talvez um til num texto uma ruga na testa
um gesto de quem contesta uma leve crispação da crista
Não importa talvez o que se pergunta mas como se pergunta
a ânsia na voz o brilho nos olhos um movimento de pés
Que me importa a mim faustino das neves mero pretexto para isolar
da boca cariada do tempo um simples olhar?
Que importa um olhar a análise dos tecidos orgânicos
dos olhos das células vivas de súbito impressionadas
e das fotografias logo reveladas na câmara escura do cérebro?
Um olhar interroga um olhar duvida talvez um olhar é coisa de tempo
é a mais funda fala de quem num momento se sente bem
se despede de si mesmo de todos se isola cortante como uma proa na vida
Olhar é talvez como que pensar como sentir como dissimular que se sente
e às vezes dar vida a casas costumes coisas ao vento
ao vento que varre todos os gestos que desenhamos nos dias
é lutar corpo a corpo com corpos provisoriamente opostos ao nada
é uma sala de estar onde os amigos podem entrar de chapéu na cabeça
tuna sala onde a luz levanta a manta de velhas coisas inúteis envoltas em volta
Nos olhos começa às vezes o mar os olhos animam nas coisas o vento
nascem nos olhos as nuvens que arrastam consigo a tristeza para o lado sul
Faustino das neves não é homem de anjos
repele discretamente as mãos coercivas do transcendente
joga tudo na vida volta-se de uma vez para sempre para estes dias
emerge da sombra para os mais leves sintomas do sol
sai das mãos de josefa pra uma tela sombria do século dezassete
abandona na ponta dos pés a igreja da santa casa da misericórdia
pisa na noite as pedras da vila de óbidos
Faustino das neves muda de roupa põe o breviário de lado
actualiza certos aspectos antiquados do seu português
submete-se às leis da fonética embora saiba que há quem negue que sejam leis
responde aos inquéritos linguísticos por correspondência do doutor paiva boleo
enriquece o léxico com nomes de coisas do novo mundo com termos técnicos
com construções colhidas nas páginas de aquilino ribeiro ou guimarães rosa
maneja também para isso os modernos meios audio-visuais
anda a par das novas conquistas do estruturalismo evita os vários suplementos literários
embora tenha ouvido falar de fernando luso soares e alberto ferreira
acompanha mesmo as novas correntes do pensamento
Faustino das neves caminha por óbidos mas é um homem do nosso tempo
sensível aos slogans ao chamamento luminoso das montras
recorre ao crédito contribui irresistivelmente para a inflação
que um governo em guerra prometeu combater não sabe bem como
não tem precisão de emigrar mas intervém nos problemas do nosso tempo
assina o seu nome em listas apresenta-se como intelectual responsável
é até dos homens mais à esquerda do nosso país
pensa talvez promover ortodoxamente em portugal
exactamente a revolução russa de mil novecentos e dezassete
Faustino das neves olha através dos séculos
coloca o pé pisa as pedras as nuvens com elegância
conspira diz mal calcula caminha na vida
O beneficiado não crê na promessa do dia nem na verde alegria
de banhar o rosto num instante na própria fonte
de ver sequer de passagem mais que a sua simples imagem
esse núcleo de luz ardente que agora tenho na minha frente
essa fuga feliz a um mundo onde dia a dia me afundo
talvez a única sombra que a mim me deslumbra
sonhada morada nunca conseguida
sensível e audível e palpável mas inconcebível
desmedido portal onde poderá começar o ignoto mundo do mal
onde uma coisa logo que nomeada é coisa realizada
Josefa foi a submissa foi decerto a pintora mas foi também
doméstica e simples e amiga e mãe
Josefa de óbidos não pinta há muito anda assustada
o seu cliente beneficiado fugiu-lhe ingratamente das mãos
não a respeita não reconhece que só graças a ela chegou até hoje
e a pintora tem o seu nome uma reputação nacional e até
internacional devida talvez a josé augusto frança
começa a recear as consequências de ter criado tal criatura
Josefa de óbidos ficou no seu tempo pintou metafisicamente um olhar
meteu-o na cara de um homem enquadrou esse homem numa classe
ficou descansada tinha a imortalidade assegurada
mas agora até pensa deixar talvez de pintar
Josefa de óbidos noutro país talvez tivesse pintado
essas bolas de sabão que manet continua a soprar até nós de um longínquo verão
como imagem do tempo da vida da terra em breve desaparecida
ou aquele menino togado mas truncado
que jaz no prado irremediavelmente ameaçado
pelo perene fado essa mensagem do passado
transmitida ao presente eternamente
ou aquela dama romana donde intermitentemente mana
o mar de recordar esse insistente soluçar
de quem tem no olhar uma forma garantida de passar
a vida indiferentemente recordada esquecida
mais tarde também josefa se fosse um homem
ou enfim defendesse a liberdade sexual da mulher
talvez decerto com a sua dose de sorte se chamasse goya
assistisse a touradas pusesse saber e sabor em pintar aquele picador
que pica um touro castigado nalgum domingo do século passado
ou se não mais na sua linha um cardeal de goya frio fixo como uma jóia
que um homem depois de ver de boamente consente em morrer
ou as perfeitas santas justa e rufina onde se afina e refina
a mão que por vezes guia a loucura através do pretexto da pintura
Mão que não sentiu a pouco e pouco gastar os dedos do autor a pintar
que pintou noite e dia sem sentir que se desfazia
para para sempre ficar num grupo álacre que a dançar
envolve na roda a distância do requinte e da elegância
de quem num instante ímpar se desenha no ar
para tudo e todos imolar ou pelo menos diminuir
Josefa não pode parar talvez quem saiba consiga pintar
a maja desnuda ou a maja vestida
os velhos vorazes que no comer põem a mais viva forma de morrer
essa romaria de santo isidro onde há gente que deve os olhos de vidro
ao vinho e à mais triste alegria que num madrid há muito passado se construía
ou o cão já meio afogado só salvo depois de pintado
com a raiva de quem assassinasse talvez a própria mãe
ou a si mesmo se houvesse matado ao deixar-se auto-retratado
A pintora de óbidos desconhece a finura o donaire o sorriso dessa figura
helena fourment modelo de rubens uma criatura da terra que até hoje perdura
não viu uma velha de duas igrejas fiar e de fuso na mão para sempre ficar
com o tempo todo na face mãos fechadas sobre a velhice
ou a usurária de ribera mulher que é hoje na tela mais que no tempo era
mulher mumificada na mão levemente destacada
território de rugas talvez onde se intensifica a luz
rosto rijo e rigoroso onde o boletim meteorológico anuncia sempre tempo invernoso
olhos que no campo circunscrito da parecença
distinguem a distância que existe entre quem começa
e quem a vida já vela com um véu de névoa
Josefa pinta como quem pensa ou considera e só assim recupera
esse passado mais que no nome na realidade inexoravelmente passado
por ser a mesma mulher e serem freiras e serem viúvas ou outras quaisquer
ou esse santo por heredia pintado e depois disso irremediavelmente degolado
e não menos que o anterior cão deixado nas águas do tempo afogado
Josefa na arte comprometida passaria o pincel pela vida
pelo baile campestre alegre e triste
onde é visível o vento que apenas dura nesse momento
em que se dança intensamente e alguém vai e vence
com a decisão inabalável das marés do mar o bailarino mais exímio a dançar
casamento campestre conjunto de gestos urbanos num meio agreste
neptuno do olhar velado neste mesmo instante emerso do mar do passado
objecto de gesto jamais talvez ultrapassado apesar do desígnio sempre esboçado
por quem um dia nalguma parte deu o que tinha e não tinha pela arte
Josefa de óbidos assustou-se porém pois podiam dizer a alguém
que pintar implica ao fim e ao cabo ter um pacto com o diabo
pois o diabo vivia nos dias de então vestia a toga da inquisição
e a pintora pensou deixar a pintura com medo da alma e da censura
Não existe decerto censura mas o gesto foi sábio porquanto existe o exame prévio
e se formos a pensar um bocado é realmente perigoso pintar um beneficiado
pois bem vistas as coisas o homem às vezes é vário muda de roupa deixa o breviário
sopram os ventos da história e modificam a forma de toda a matéria
e talvez tenha sido assim que faustino se pôs a pensar josefa que foste tu fazer
(de Toda a Terra, 1976)
Retrato do Beneficiado Faustino das Neves, c. 1670
Igreja de Santa Maria de Óbidos
Igreja de Santa Maria de Óbidos
(reproduzido a partir de Linha do Oeste - Óbidos e Momentos Artísticos Circundantes, coordenação de Benedita Pestana, Assírio & Alvim, 1998 - volume adquirido ao Henrique, na companhia do José do Carmo Francisco)
RUY BELO
O BENEFICIADO FAUSTINO DAS NEVES
Quem seria o beneficiado faustino das neves
que vê de viés quem o visita alguma vez?
Pergunto e não quero que ninguém me responda
perguntar por perguntar pode ser a mais alta forma de saber
A pergunta ondula no ar ou na alma como uma nuvem
será talvez um til num texto uma ruga na testa
um gesto de quem contesta uma leve crispação da crista
Não importa talvez o que se pergunta mas como se pergunta
a ânsia na voz o brilho nos olhos um movimento de pés
Que me importa a mim faustino das neves mero pretexto para isolar
da boca cariada do tempo um simples olhar?
Que importa um olhar a análise dos tecidos orgânicos
dos olhos das células vivas de súbito impressionadas
e das fotografias logo reveladas na câmara escura do cérebro?
Um olhar interroga um olhar duvida talvez um olhar é coisa de tempo
é a mais funda fala de quem num momento se sente bem
se despede de si mesmo de todos se isola cortante como uma proa na vida
Olhar é talvez como que pensar como sentir como dissimular que se sente
e às vezes dar vida a casas costumes coisas ao vento
ao vento que varre todos os gestos que desenhamos nos dias
é lutar corpo a corpo com corpos provisoriamente opostos ao nada
é uma sala de estar onde os amigos podem entrar de chapéu na cabeça
tuna sala onde a luz levanta a manta de velhas coisas inúteis envoltas em volta
Nos olhos começa às vezes o mar os olhos animam nas coisas o vento
nascem nos olhos as nuvens que arrastam consigo a tristeza para o lado sul
Faustino das neves não é homem de anjos
repele discretamente as mãos coercivas do transcendente
joga tudo na vida volta-se de uma vez para sempre para estes dias
emerge da sombra para os mais leves sintomas do sol
sai das mãos de josefa pra uma tela sombria do século dezassete
abandona na ponta dos pés a igreja da santa casa da misericórdia
pisa na noite as pedras da vila de óbidos
Faustino das neves muda de roupa põe o breviário de lado
actualiza certos aspectos antiquados do seu português
submete-se às leis da fonética embora saiba que há quem negue que sejam leis
responde aos inquéritos linguísticos por correspondência do doutor paiva boleo
enriquece o léxico com nomes de coisas do novo mundo com termos técnicos
com construções colhidas nas páginas de aquilino ribeiro ou guimarães rosa
maneja também para isso os modernos meios audio-visuais
anda a par das novas conquistas do estruturalismo evita os vários suplementos literários
embora tenha ouvido falar de fernando luso soares e alberto ferreira
acompanha mesmo as novas correntes do pensamento
Faustino das neves caminha por óbidos mas é um homem do nosso tempo
sensível aos slogans ao chamamento luminoso das montras
recorre ao crédito contribui irresistivelmente para a inflação
que um governo em guerra prometeu combater não sabe bem como
não tem precisão de emigrar mas intervém nos problemas do nosso tempo
assina o seu nome em listas apresenta-se como intelectual responsável
é até dos homens mais à esquerda do nosso país
pensa talvez promover ortodoxamente em portugal
exactamente a revolução russa de mil novecentos e dezassete
Faustino das neves olha através dos séculos
coloca o pé pisa as pedras as nuvens com elegância
conspira diz mal calcula caminha na vida
O beneficiado não crê na promessa do dia nem na verde alegria
de banhar o rosto num instante na própria fonte
de ver sequer de passagem mais que a sua simples imagem
esse núcleo de luz ardente que agora tenho na minha frente
essa fuga feliz a um mundo onde dia a dia me afundo
talvez a única sombra que a mim me deslumbra
sonhada morada nunca conseguida
sensível e audível e palpável mas inconcebível
desmedido portal onde poderá começar o ignoto mundo do mal
onde uma coisa logo que nomeada é coisa realizada
Josefa foi a submissa foi decerto a pintora mas foi também
doméstica e simples e amiga e mãe
Josefa de óbidos não pinta há muito anda assustada
o seu cliente beneficiado fugiu-lhe ingratamente das mãos
não a respeita não reconhece que só graças a ela chegou até hoje
e a pintora tem o seu nome uma reputação nacional e até
internacional devida talvez a josé augusto frança
começa a recear as consequências de ter criado tal criatura
Josefa de óbidos ficou no seu tempo pintou metafisicamente um olhar
meteu-o na cara de um homem enquadrou esse homem numa classe
ficou descansada tinha a imortalidade assegurada
mas agora até pensa deixar talvez de pintar
Josefa de óbidos noutro país talvez tivesse pintado
essas bolas de sabão que manet continua a soprar até nós de um longínquo verão
como imagem do tempo da vida da terra em breve desaparecida
ou aquele menino togado mas truncado
que jaz no prado irremediavelmente ameaçado
pelo perene fado essa mensagem do passado
transmitida ao presente eternamente
ou aquela dama romana donde intermitentemente mana
o mar de recordar esse insistente soluçar
de quem tem no olhar uma forma garantida de passar
a vida indiferentemente recordada esquecida
mais tarde também josefa se fosse um homem
ou enfim defendesse a liberdade sexual da mulher
talvez decerto com a sua dose de sorte se chamasse goya
assistisse a touradas pusesse saber e sabor em pintar aquele picador
que pica um touro castigado nalgum domingo do século passado
ou se não mais na sua linha um cardeal de goya frio fixo como uma jóia
que um homem depois de ver de boamente consente em morrer
ou as perfeitas santas justa e rufina onde se afina e refina
a mão que por vezes guia a loucura através do pretexto da pintura
Mão que não sentiu a pouco e pouco gastar os dedos do autor a pintar
que pintou noite e dia sem sentir que se desfazia
para para sempre ficar num grupo álacre que a dançar
envolve na roda a distância do requinte e da elegância
de quem num instante ímpar se desenha no ar
para tudo e todos imolar ou pelo menos diminuir
Josefa não pode parar talvez quem saiba consiga pintar
a maja desnuda ou a maja vestida
os velhos vorazes que no comer põem a mais viva forma de morrer
essa romaria de santo isidro onde há gente que deve os olhos de vidro
ao vinho e à mais triste alegria que num madrid há muito passado se construía
ou o cão já meio afogado só salvo depois de pintado
com a raiva de quem assassinasse talvez a própria mãe
ou a si mesmo se houvesse matado ao deixar-se auto-retratado
A pintora de óbidos desconhece a finura o donaire o sorriso dessa figura
helena fourment modelo de rubens uma criatura da terra que até hoje perdura
não viu uma velha de duas igrejas fiar e de fuso na mão para sempre ficar
com o tempo todo na face mãos fechadas sobre a velhice
ou a usurária de ribera mulher que é hoje na tela mais que no tempo era
mulher mumificada na mão levemente destacada
território de rugas talvez onde se intensifica a luz
rosto rijo e rigoroso onde o boletim meteorológico anuncia sempre tempo invernoso
olhos que no campo circunscrito da parecença
distinguem a distância que existe entre quem começa
e quem a vida já vela com um véu de névoa
Josefa pinta como quem pensa ou considera e só assim recupera
esse passado mais que no nome na realidade inexoravelmente passado
por ser a mesma mulher e serem freiras e serem viúvas ou outras quaisquer
ou esse santo por heredia pintado e depois disso irremediavelmente degolado
e não menos que o anterior cão deixado nas águas do tempo afogado
Josefa na arte comprometida passaria o pincel pela vida
pelo baile campestre alegre e triste
onde é visível o vento que apenas dura nesse momento
em que se dança intensamente e alguém vai e vence
com a decisão inabalável das marés do mar o bailarino mais exímio a dançar
casamento campestre conjunto de gestos urbanos num meio agreste
neptuno do olhar velado neste mesmo instante emerso do mar do passado
objecto de gesto jamais talvez ultrapassado apesar do desígnio sempre esboçado
por quem um dia nalguma parte deu o que tinha e não tinha pela arte
Josefa de óbidos assustou-se porém pois podiam dizer a alguém
que pintar implica ao fim e ao cabo ter um pacto com o diabo
pois o diabo vivia nos dias de então vestia a toga da inquisição
e a pintora pensou deixar a pintura com medo da alma e da censura
Não existe decerto censura mas o gesto foi sábio porquanto existe o exame prévio
e se formos a pensar um bocado é realmente perigoso pintar um beneficiado
pois bem vistas as coisas o homem às vezes é vário muda de roupa deixa o breviário
sopram os ventos da história e modificam a forma de toda a matéria
e talvez tenha sido assim que faustino se pôs a pensar josefa que foste tu fazer
(de Toda a Terra, 1976)
17.9.09
VASCO MIRANDA
3
Rios de sombra e ciúme
Cavalgando a antemanhã
E nas esporas de meu canto
Velas de barcos aportando
Velas de todos os ventos
Velas de todos os cais
Velas de todas as lotações
Poeta e navio singrando
Nas ondas submergidas
As moídas canções de regresso
Tatuagens a cobardia e silêncio
Nas gargantas enrouquecidas
De vermes encadernados
Rios de sombra e ciúme
Como de inúteis distâncias
Poeira de ventos apenas
Dispersas mortes errando
(de Invenção da Manhã, 1963)
3
Rios de sombra e ciúme
Cavalgando a antemanhã
E nas esporas de meu canto
Velas de barcos aportando
Velas de todos os ventos
Velas de todos os cais
Velas de todas as lotações
Poeta e navio singrando
Nas ondas submergidas
As moídas canções de regresso
Tatuagens a cobardia e silêncio
Nas gargantas enrouquecidas
De vermes encadernados
Rios de sombra e ciúme
Como de inúteis distâncias
Poeira de ventos apenas
Dispersas mortes errando
(de Invenção da Manhã, 1963)
16.9.09
LARS FORSSELL
Eu queria escrever mas
porque é que se tem de organizar tudo
tão exactamente
As coisas não são tão rigorosas
A estrada do tinteiro à página
é comprida demais e além disso
é preciso segurar a pena de uma
maneira especial como eu fazia quando tinha seis anos e
a língua pousava no — era o canto esquerdo
da boca? e eu aprendi tudo o que
quer que foi
que eu aprendi
Agora aprendi algo diferente
Despejo o tinteiro no papel
Dá uma imagem do que eu quero dizer
Dá uma imagem perfeitamente clara
de tudo o que aprendi
(tradução de Vasco Graça Moura, in 21 Poetas Suecos, Vega, s. d.)
Eu queria escrever mas
porque é que se tem de organizar tudo
tão exactamente
As coisas não são tão rigorosas
A estrada do tinteiro à página
é comprida demais e além disso
é preciso segurar a pena de uma
maneira especial como eu fazia quando tinha seis anos e
a língua pousava no — era o canto esquerdo
da boca? e eu aprendi tudo o que
quer que foi
que eu aprendi
Agora aprendi algo diferente
Despejo o tinteiro no papel
Dá uma imagem do que eu quero dizer
Dá uma imagem perfeitamente clara
de tudo o que aprendi
(tradução de Vasco Graça Moura, in 21 Poetas Suecos, Vega, s. d.)
15.9.09
FILINTO ELÍSIO
ODE
Em 23 de Dezembro de 1805, dia dos meus anos
Vate, que mandar quer à eternidade
Seu nome e seus escritos
Talhe os seus pensamentos, talhe as vozes
Pelos moldes de Píndaro.
Imprima na memória que, sentado
Coas Musas, com Horácio,
O vê num tribunal severo, augusto,
Onde condena e risca
Quanto mingua da lírica sublime,
Que em seus cantos ressoa.
Assim moldava Elpino as suas odes,
E com nobre ousadia
Ia ao conclave douto apresentá-las.
De Elpino ao lado, Alfeno
Cantatas e sonetos e altos hinos
Também lá modulava.
Ambos louvor das Musas conseguiam.
Pobre de mim, coitado,
Que nunca irei, coa minha ensossa prosa,
Causticar os ouvidos
Das Musas, nem de Horácio, nem de Píndaro,
Quando mormente a idade
Com mão avara me murchou na mente
Toda a flor, todo o brilho
De ingenhosas ficções, de altivo canto!
Muito há que é já volvido
O tempo em que eu cantei Gama, Albuquerque,
Cantei Delmiras, Márcias,
Com sons que eu escutava à minha Clio,
Essa Clio, que, olhando
Minhas cãs, me deixou ao desemparo,
Para ir folgar mui pronta
Cos alunos, que inspira lá na Elísia.
Traz mágoas mil consigo
A velhice; e não é a menor delas
Quebrantar os impulsos
Com que o génio ao sublime se arremessa.
Hoje mesmo, que esforços
Mais que sobejos fiz por dar um salto
Às margens do Permesso,
Exausto o corpo, os pés enfraquecidos
Negaram obediência.
Fiz promessas a Febo, invoquei Musas;
Contei-lhes que era o ano
Sobreposto ao meu lustro quatorzeno;
Inculquei-lhes, com súplica,
Que dois leais amigos, que Delmira
Em dia tal esperam
Divinos toques de canoro plectro
Que celebrem o assunto.
Inútil foi o esforço, o rogo inútil,
Fiquei aquém das margens
Lastimando meus fados desvalidos.
Apenas lá de um eco
Respirou uma voz fraca e mesquinha,
Com este desconsolo:
— És velho, e um velho só com sons caducos
Desentoa ruins trovas.
(in Poesias, livraria Sá da Costa, 1941)
ODE
Em 23 de Dezembro de 1805, dia dos meus anos
Vate, que mandar quer à eternidade
Seu nome e seus escritos
Talhe os seus pensamentos, talhe as vozes
Pelos moldes de Píndaro.
Imprima na memória que, sentado
Coas Musas, com Horácio,
O vê num tribunal severo, augusto,
Onde condena e risca
Quanto mingua da lírica sublime,
Que em seus cantos ressoa.
Assim moldava Elpino as suas odes,
E com nobre ousadia
Ia ao conclave douto apresentá-las.
De Elpino ao lado, Alfeno
Cantatas e sonetos e altos hinos
Também lá modulava.
Ambos louvor das Musas conseguiam.
Pobre de mim, coitado,
Que nunca irei, coa minha ensossa prosa,
Causticar os ouvidos
Das Musas, nem de Horácio, nem de Píndaro,
Quando mormente a idade
Com mão avara me murchou na mente
Toda a flor, todo o brilho
De ingenhosas ficções, de altivo canto!
Muito há que é já volvido
O tempo em que eu cantei Gama, Albuquerque,
Cantei Delmiras, Márcias,
Com sons que eu escutava à minha Clio,
Essa Clio, que, olhando
Minhas cãs, me deixou ao desemparo,
Para ir folgar mui pronta
Cos alunos, que inspira lá na Elísia.
Traz mágoas mil consigo
A velhice; e não é a menor delas
Quebrantar os impulsos
Com que o génio ao sublime se arremessa.
Hoje mesmo, que esforços
Mais que sobejos fiz por dar um salto
Às margens do Permesso,
Exausto o corpo, os pés enfraquecidos
Negaram obediência.
Fiz promessas a Febo, invoquei Musas;
Contei-lhes que era o ano
Sobreposto ao meu lustro quatorzeno;
Inculquei-lhes, com súplica,
Que dois leais amigos, que Delmira
Em dia tal esperam
Divinos toques de canoro plectro
Que celebrem o assunto.
Inútil foi o esforço, o rogo inútil,
Fiquei aquém das margens
Lastimando meus fados desvalidos.
Apenas lá de um eco
Respirou uma voz fraca e mesquinha,
Com este desconsolo:
— És velho, e um velho só com sons caducos
Desentoa ruins trovas.
(in Poesias, livraria Sá da Costa, 1941)
13.9.09
ALBERTO PIMENTA
jardim zoológico
dum lado da jaula
os que vêem
do outro
os que são vistos
e vice-versa

VOX POPULI
– Ó homem, não te vás, anda pràqui ver.
– Ver o quê? É algum strip-tease?
– Não, parece que vão cantar o fado.
– É para fazer algum exercício.
– Olha, ele aí vem, há espectáculo. Eu vou ver isto.
– Aí vem ele, meu Deus, vamos embora.
– Olha o homem, olha! Que vem a ser isto?
– Se calhar não tem casa. É a primeira vez que vejo isto.
– Aquilo ali é um homem, estás a ver?
– Espera aí que já vai dar. – Dar o quê?
– Ó pá, anda cá ver isto! Aqui o macaco é um homem.
– Ó pá, isto é um festival do caraças. Vamos embora, que isto é para nos tramar.
– Já me estão a lixar, o gajo está ali a fazer a caricatura da malta.
– Tem cara de parvo, deve ser anormal.
– Tem um tipo esquisito.
– Se calhar é tarado sexual. – Não, ele é racional. – Mas não fala.
– Vamos mas é embora daqui.
– Ele é português? – Deve ser estrangeiro.
– Ele que ali está, é porque alguma fez.
– Ai que impressão isto faz, na quarta-feira ainda não estava cá nada.
– Ainda há bocado cá passei e quem estava era o gorila.
– Não percebo o que ele quer! Que é que quer dizer «homo sapiens»?
– Então, é uma espécie de macaco. É um animal como os outros.
– Pois, ele parece um homem em tudo... está vestido.
– Então havia de estar nu? – Sei lá!
– É um reclame qualquer, é só um reclame.
– É um homem, mas deve ser uma espécie rara.
– Isto não havia antes. São estes tempos, anda tudo maluco.
– Eu tenho a impressão que é um homem normal.
– Não, normal não pode ser, senão não estava ali. É maluco, anda à solta.
– Ou tarado sexual.
– Ora, isto é tudo preparado.
– Ele que está ali tem que ter um significado.
– Então, é uma ideia nova.
– Quem vai reagir mal são os católicos: isto quer dizer que o homem descende do macaco.
– O raio do homem é muito habilitado a estas coisas, mas não há-de ser mais nada.
– Que horror isto!
– O aspecto dele é que me confunde. Se tivesse ar andrajoso, ainda estava bem. Mas assim...
– Já há portugueses enjaulados? Já não servem as cadeias?
– Ele não é português.
– Isto deve ter um mistério qualquer.
– Devem-lhe ter pago, ou então gosta. – Está ali, está a ganhar bem.
– Na minha, ele fez alguma coisa.
– Se ele fala, por que é que não diz por que é que está ali?
– Então, a gente diverte-se a olhar para ele, e ele diverte-se a olhar para a gente.
– Como é que é permitido isto é que a gente não percebe.
– É uma vergonha para o país.
– Ele é estrangeiro.
– Por que é que não fax isto na terra dele?
– Ele está a olhar para nós com aquele olhar fixo...
– Os macacos às vezes também é assim.
– Está ali um senhor dentro da jaula. O que é, paizinho?
– Não sei, filho, não sei. Não gosto de ver isto, meu Deus, vamos embora.
– Será parvo? Aquilo é lugar para um homem?
– Se calhar é para ver a reacção do público.
– Não, ele não sabe fazer nada, tem aquele ar imóvel.
– Fez alguma coisa má, e prenderam-no ali.
– A vergonha é para os outros, é para nós. – Sim, que é que a gente está aqui parado a fazer? Homens não faltam, não é preciso vir cá vê-lo.
– Pois é, mas os que estão presos, a gente não vê.
– Se calhar é isso que ele quer dizer.
– Isto é muito raro num jardim zoológico.
– É preciso ser chanfrado.
– É preciso é ter uma coragem do caraças.
– Então, não somos também animais?
– É o homem-macaco. Caçaram-no por lá na selva.
– Eu já ouvi falar. – É, é conhecido. – É o homem sapiens, é o homem da selva.
– E ele faz ali as necessidades?
– Isso acho que não. Ainda não se viu.
– Olha, filho, olha um mono igual a ti.
– Está o macaco, está o homem.
– É gente parva. Que espectáculo!
– Olha, uma coisa que eu não esperava. Já viste?
– Isto é novo aqui.
– Ai que rico espectáculo, um homem na jaula. E de borla. Ai que macacão!
– Eu até gosto de ver isto. Deviam era estar lá mais como ele.
– Que escândalo, meu Deus! Se o pusessem noutro sítio, ao pé das aves, ainda vá, mas aqui ao pé dos macacos!
– Então a polícia já não serve para estas coisas? Que é que ele está a fazer lá dentro?
– Ele não tem medo de estar ali? – Por que é que havia de ter?
– Vocês vão andando, eu fico; quero ver o que isto dá até ao fim.
– É o homem da nossa época.
– Não se entende!
– Aquilo é qualquer coisa.
– É o mundo em que vivemos.
– Faz impressão.
etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc
(de IV de Ouros, Fenda edições, 1992 – foto de Jacques Minassian)
jardim zoológico
dum lado da jaula
os que vêem
do outro
os que são vistos
e vice-versa
No dia 31 de Julho de 1977, Alberto Pimenta, cidadão nacional n.º 0727697, esteve exposto entre as 16 e as 18 horas numa jaula do Palácio dos Chimpanzés do Jardim Zoológico de Lisboa.
Em Abril de 1981, o Rádio-teatro de Estocolmo emitiu uma adaptação radiofónica do acto, da autoria de Margareta Ahlberg. Na sequência disso, Per-Eric Gustavsson repetiu o acto no Zoo de Estocolmo, e o actor espanhol Alberto Vilar encenou-o em vários Jardins Zoológicos.

APÊNDICE
MATERIAIS PARA A ELABORAÇÃO DUM DE PAUS E OUTRO DE COPAS
MATERIAIS PARA A ELABORAÇÃO DUM DE PAUS E OUTRO DE COPAS
VOX POPULI
– Ó homem, não te vás, anda pràqui ver.
– Ver o quê? É algum strip-tease?
– Não, parece que vão cantar o fado.
– É para fazer algum exercício.
– Olha, ele aí vem, há espectáculo. Eu vou ver isto.
– Aí vem ele, meu Deus, vamos embora.
– Olha o homem, olha! Que vem a ser isto?
– Se calhar não tem casa. É a primeira vez que vejo isto.
– Aquilo ali é um homem, estás a ver?
– Espera aí que já vai dar. – Dar o quê?
– Ó pá, anda cá ver isto! Aqui o macaco é um homem.
– Ó pá, isto é um festival do caraças. Vamos embora, que isto é para nos tramar.
– Já me estão a lixar, o gajo está ali a fazer a caricatura da malta.
– Tem cara de parvo, deve ser anormal.
– Tem um tipo esquisito.
– Se calhar é tarado sexual. – Não, ele é racional. – Mas não fala.
– Vamos mas é embora daqui.
– Ele é português? – Deve ser estrangeiro.
– Ele que ali está, é porque alguma fez.
– Ai que impressão isto faz, na quarta-feira ainda não estava cá nada.
– Ainda há bocado cá passei e quem estava era o gorila.
– Não percebo o que ele quer! Que é que quer dizer «homo sapiens»?
– Então, é uma espécie de macaco. É um animal como os outros.
– Pois, ele parece um homem em tudo... está vestido.
– Então havia de estar nu? – Sei lá!
– É um reclame qualquer, é só um reclame.
– É um homem, mas deve ser uma espécie rara.
– Isto não havia antes. São estes tempos, anda tudo maluco.
– Eu tenho a impressão que é um homem normal.
– Não, normal não pode ser, senão não estava ali. É maluco, anda à solta.
– Ou tarado sexual.
– Ora, isto é tudo preparado.
– Ele que está ali tem que ter um significado.
– Então, é uma ideia nova.
– Quem vai reagir mal são os católicos: isto quer dizer que o homem descende do macaco.
– O raio do homem é muito habilitado a estas coisas, mas não há-de ser mais nada.
– Que horror isto!
– O aspecto dele é que me confunde. Se tivesse ar andrajoso, ainda estava bem. Mas assim...
– Já há portugueses enjaulados? Já não servem as cadeias?
– Ele não é português.
– Isto deve ter um mistério qualquer.
– Devem-lhe ter pago, ou então gosta. – Está ali, está a ganhar bem.
– Na minha, ele fez alguma coisa.
– Se ele fala, por que é que não diz por que é que está ali?
– Então, a gente diverte-se a olhar para ele, e ele diverte-se a olhar para a gente.
– Como é que é permitido isto é que a gente não percebe.
– É uma vergonha para o país.
– Ele é estrangeiro.
– Por que é que não fax isto na terra dele?
– Ele está a olhar para nós com aquele olhar fixo...
– Os macacos às vezes também é assim.
– Está ali um senhor dentro da jaula. O que é, paizinho?
– Não sei, filho, não sei. Não gosto de ver isto, meu Deus, vamos embora.
– Será parvo? Aquilo é lugar para um homem?
– Se calhar é para ver a reacção do público.
– Não, ele não sabe fazer nada, tem aquele ar imóvel.
– Fez alguma coisa má, e prenderam-no ali.
– A vergonha é para os outros, é para nós. – Sim, que é que a gente está aqui parado a fazer? Homens não faltam, não é preciso vir cá vê-lo.
– Pois é, mas os que estão presos, a gente não vê.
– Se calhar é isso que ele quer dizer.
– Isto é muito raro num jardim zoológico.
– É preciso ser chanfrado.
– É preciso é ter uma coragem do caraças.
– Então, não somos também animais?
– É o homem-macaco. Caçaram-no por lá na selva.
– Eu já ouvi falar. – É, é conhecido. – É o homem sapiens, é o homem da selva.
– E ele faz ali as necessidades?
– Isso acho que não. Ainda não se viu.
– Olha, filho, olha um mono igual a ti.
– Está o macaco, está o homem.
– É gente parva. Que espectáculo!
– Olha, uma coisa que eu não esperava. Já viste?
– Isto é novo aqui.
– Ai que rico espectáculo, um homem na jaula. E de borla. Ai que macacão!
– Eu até gosto de ver isto. Deviam era estar lá mais como ele.
– Que escândalo, meu Deus! Se o pusessem noutro sítio, ao pé das aves, ainda vá, mas aqui ao pé dos macacos!
– Então a polícia já não serve para estas coisas? Que é que ele está a fazer lá dentro?
– Ele não tem medo de estar ali? – Por que é que havia de ter?
– Vocês vão andando, eu fico; quero ver o que isto dá até ao fim.
– É o homem da nossa época.
– Não se entende!
– Aquilo é qualquer coisa.
– É o mundo em que vivemos.
– Faz impressão.
etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc etc
(de IV de Ouros, Fenda edições, 1992 – foto de Jacques Minassian)
Subscrever:
Mensagens (Atom)
