ANTÓNIO PEDRO
I
Ai árvores ali
e duras!,… ai!:
e aqui
terra queimada
só.
Bé!,
o pó
da ventania
sufoca!
…Lá na baía
ou doca
ou o que é,
lá do vapor
parecia
melhor,
embora fosse careca
a terra seca,
e o sol queimasse
e adormentasse
já.
Cá
há mais do que calor,
há dor
do sol!
…e a preta
De lenço branco
Lá no barranco
Da achada
Tem o ar de um sobressalto
…E andam sombras
pelas sombras
como havia no mar alto…
No entanto,
de não estar
habituado a encontrar
estas sombras aqui,
ainda não consegui
o meu encanto:
pasmar
- Paisagem, quem me adivinha? –
E andam sombras pelas sombras
enquanto a noite caminha,
dês que o luar dealbou…
Que tentaram ensombrar-me
- Mas quem foi que me assombrou?
Quem me ensombra
não me assombra!
…Apenas me sobressalta
não ver os mortos da sombra
que me fazem tanta falta!...
(de Diário, 1929)
26.10.09
25.10.09
MANUEL LOPES
MAR-ALTO
E porque teu coração encerra
a saudade do mar e a saudade da terra
- tua ilha é grande...
E porque teus sentidos traçam norte e sul
e traçam leste e oeste norte e sul
- tua ilha é grande...
E porque tens os olhos virados para o azul
para lá do azul e para cá do azul
- tua ilha é grande...
E porque no teu sangue se deu o encontro de tantas raças
no mesmo latejar de ansiedades e resignações
dores alegrias e desgraças
- tua ilha é grande...
E porque a tua vida marca cada hora
como a onda dominadora
na alegria que chora
ou na tristeza que ri,
tua divisa ora
- em cada hora nasci...
(de Crioulo e outros poemas, 1964)
LEANDRO
(Os Flagelados do Vento Leste)
Querias que os montes fossem gentes
e as gentes montes.
Que se misturassem
confundissem
e falassem
e depois tivessem a magia
de distinguir os montes das gentes
até chegar à humana conclusão
de que eram iguais
com a mesma linguagem
as mesmas lutas e ódios
e em cada despedida
a mesma esperança desesperada
a mesma saudade mentida a mesma ilusão
as mesmas ameaças ou o mesmo perdão
a mesma indiferença
a mesma sorte
desmentida
sob os escombros da vida
que se recusa na morte...
(in Falucho Ancorado, edições Cosmos, 1997)
MAR-ALTO
E porque teu coração encerra
a saudade do mar e a saudade da terra
- tua ilha é grande...
E porque teus sentidos traçam norte e sul
e traçam leste e oeste norte e sul
- tua ilha é grande...
E porque tens os olhos virados para o azul
para lá do azul e para cá do azul
- tua ilha é grande...
E porque no teu sangue se deu o encontro de tantas raças
no mesmo latejar de ansiedades e resignações
dores alegrias e desgraças
- tua ilha é grande...
E porque a tua vida marca cada hora
como a onda dominadora
na alegria que chora
ou na tristeza que ri,
tua divisa ora
- em cada hora nasci...
(de Crioulo e outros poemas, 1964)
LEANDRO
(Os Flagelados do Vento Leste)
Querias que os montes fossem gentes
e as gentes montes.
Que se misturassem
confundissem
e falassem
e depois tivessem a magia
de distinguir os montes das gentes
até chegar à humana conclusão
de que eram iguais
com a mesma linguagem
as mesmas lutas e ódios
e em cada despedida
a mesma esperança desesperada
a mesma saudade mentida a mesma ilusão
as mesmas ameaças ou o mesmo perdão
a mesma indiferença
a mesma sorte
desmentida
sob os escombros da vida
que se recusa na morte...
(in Falucho Ancorado, edições Cosmos, 1997)
19.10.09
[outros melros LVI]
RUI PEDRO GONÇALVES
Desta vez não houve lezírias em pano de fundo.
Deixei as searas sossegadas
Imaginando o orvalho acordando os melros e as folhas da videira.
Imaginei demasiadas coisas (penso),
Enquanto os dedos da costureira nada consertam: nem o riso,
Nem a casa fechada na penumbra de uma rua qualquer.
Por acaso, abri um armário e li
Nitratos do Chile
E pensei – o mundo está bem adubado,
Bem temperado de sal, pimenta, picantes corpos.
E não encontrei nitratos no amor (erro meu, má sorte).
(in Telhados de Vidro - N.º 12 * Maio * 2009)
RUI PEDRO GONÇALVES
Desta vez não houve lezírias em pano de fundo.
Deixei as searas sossegadas
Imaginando o orvalho acordando os melros e as folhas da videira.
Imaginei demasiadas coisas (penso),
Enquanto os dedos da costureira nada consertam: nem o riso,
Nem a casa fechada na penumbra de uma rua qualquer.
Por acaso, abri um armário e li
Nitratos do Chile
E pensei – o mundo está bem adubado,
Bem temperado de sal, pimenta, picantes corpos.
E não encontrei nitratos no amor (erro meu, má sorte).
(in Telhados de Vidro - N.º 12 * Maio * 2009)
18.10.09
[a propósito desta passagem do livro que a Catarina anda a ler]
JORGE DE SENA
"La Cathédrale engloutie", de Debussy
Creio que nunca perdoarei o que me fez esta música.
Eu nada sabia de poesia, de literatura, e o piano
era, para mim, sem distinção entre a Viúva Alegre e Mozart,
o grande futuro paralelo a tudo o que eu seria
para satisfação dos meus parentes todos. Mesmo a Música,
eles achavam-na demais, imprópria de um rapaz
que era pretendido igual a todos eles:
alto ou baixo funcionário público,
civil ou militar. Eu lia muito, é certo. Lera
o Ponson du Terrail, o Campos Júnior, o Verne e o Salgari,
e o Eça e o Pascoaes. E lera também
nuns caderninhos que me eram permitidos
porque aperfeiçoavam o francês,
e a Livraria Larousse editava para crianças mais novas
do que eu era,
a história da catedral de Ys submersa nas águas.
Um dia, no rádio Pilot da minha Avó, ouvi
uma série de acordes aquáticos, que os pedais faziam pensativos,
mas cujas dissonâncias eram a imagem tremulante
daquelas fendas ténues que na vida,
na minha e na dos outros, ou havia ou faltavam.
Foi como se as águas se me abrissem para ouvir os sinos,
os cânticos, e o eco das abóbadas, e ver as altas torres
sobre que as ondas glaucas se espumavam tranquilas.
Nas naves povoadas de limos e de anémonas, vi que perpassavam
almas penadas como as do Marão e que eu temia
em todos os estalidos e cantos escuros da casa.
Ante um caderno, tentei dizer tudo isso. Mas
só a música que comprei e estudei ao piano mo ensinou
mas sem palavras. Escrevi. Como o vaso da China,
pomposo e com dragões em relevo, que havia na sala,
e que uma criada ao espanejar partiu,
e dele saíram lixo e papéis velhos lá caídos,
as fissuras da vida abriram-se-me para sempre,
ainda que o sentido de muitas eu só entendesse mais tarde.
Submersa catedral inacessível! Como perdoarei
aquele momento em que do rádio vieste,
solene e vaga e grave, de sob as águas que
marinhas me seriam meu destino perdido?
É desta imprecisão que eu tenho ódio:
nunca mais pude ser eu mesmo - esse homem parvo
que, nascido do jovem tiranizado e triste,
viveria tranquilamente arreliado até à morte.
Passei a ser esta soma teimosa do que não existe:
exigência, anseio, dúvida e gosto
de impor aos outros a visão profunda,
não a visão que eles fingem,
mas a visão que recusam:
esse lixo do mundo e papéis velhos
que sai dum jarrão exótico que a criada partiu,
como a catedral se iria em acordes que ficam
na memória das coisas como um livro infantil
de lendas de outras terras que não são a minha.
Os acordes perpassam cristalinos sob um fundo surdo
que docemente ecoa. Música literata e fascinante,
nojenta do que por ela em mim se fez poesia,
esta desgraça impotente de actuar no mundo,
e que só sabe negar-se e constranger-me a ser
o que luta no vácuo de si mesmo e dos outros.
Ó catedral de sons e de água! Ó música
sombria e luminosa! Ó vácua solidão
tranquila! Ó agonia doce e calculada!
Ah como havia em ti, tão só prelúdio,
tamanho alvorecer, por sob ou sobre as águas,
de negros sóis e brancos céus nocturnos?
Eu hei-de perdoar-te? Eu hei-de ouvir-te ainda?
Mais uma vez eu te ouço, ou tu, perdão, me escutas?
(de Arte de Música, 1968 - o poema pode ser ouvido aqui, na voz de Luís Lucas)
JORGE DE SENA
"La Cathédrale engloutie", de Debussy
Creio que nunca perdoarei o que me fez esta música.
Eu nada sabia de poesia, de literatura, e o piano
era, para mim, sem distinção entre a Viúva Alegre e Mozart,
o grande futuro paralelo a tudo o que eu seria
para satisfação dos meus parentes todos. Mesmo a Música,
eles achavam-na demais, imprópria de um rapaz
que era pretendido igual a todos eles:
alto ou baixo funcionário público,
civil ou militar. Eu lia muito, é certo. Lera
o Ponson du Terrail, o Campos Júnior, o Verne e o Salgari,
e o Eça e o Pascoaes. E lera também
nuns caderninhos que me eram permitidos
porque aperfeiçoavam o francês,
e a Livraria Larousse editava para crianças mais novas
do que eu era,
a história da catedral de Ys submersa nas águas.
Um dia, no rádio Pilot da minha Avó, ouvi
uma série de acordes aquáticos, que os pedais faziam pensativos,
mas cujas dissonâncias eram a imagem tremulante
daquelas fendas ténues que na vida,
na minha e na dos outros, ou havia ou faltavam.
Foi como se as águas se me abrissem para ouvir os sinos,
os cânticos, e o eco das abóbadas, e ver as altas torres
sobre que as ondas glaucas se espumavam tranquilas.
Nas naves povoadas de limos e de anémonas, vi que perpassavam
almas penadas como as do Marão e que eu temia
em todos os estalidos e cantos escuros da casa.
Ante um caderno, tentei dizer tudo isso. Mas
só a música que comprei e estudei ao piano mo ensinou
mas sem palavras. Escrevi. Como o vaso da China,
pomposo e com dragões em relevo, que havia na sala,
e que uma criada ao espanejar partiu,
e dele saíram lixo e papéis velhos lá caídos,
as fissuras da vida abriram-se-me para sempre,
ainda que o sentido de muitas eu só entendesse mais tarde.
Submersa catedral inacessível! Como perdoarei
aquele momento em que do rádio vieste,
solene e vaga e grave, de sob as águas que
marinhas me seriam meu destino perdido?
É desta imprecisão que eu tenho ódio:
nunca mais pude ser eu mesmo - esse homem parvo
que, nascido do jovem tiranizado e triste,
viveria tranquilamente arreliado até à morte.
Passei a ser esta soma teimosa do que não existe:
exigência, anseio, dúvida e gosto
de impor aos outros a visão profunda,
não a visão que eles fingem,
mas a visão que recusam:
esse lixo do mundo e papéis velhos
que sai dum jarrão exótico que a criada partiu,
como a catedral se iria em acordes que ficam
na memória das coisas como um livro infantil
de lendas de outras terras que não são a minha.
Os acordes perpassam cristalinos sob um fundo surdo
que docemente ecoa. Música literata e fascinante,
nojenta do que por ela em mim se fez poesia,
esta desgraça impotente de actuar no mundo,
e que só sabe negar-se e constranger-me a ser
o que luta no vácuo de si mesmo e dos outros.
Ó catedral de sons e de água! Ó música
sombria e luminosa! Ó vácua solidão
tranquila! Ó agonia doce e calculada!
Ah como havia em ti, tão só prelúdio,
tamanho alvorecer, por sob ou sobre as águas,
de negros sóis e brancos céus nocturnos?
Eu hei-de perdoar-te? Eu hei-de ouvir-te ainda?
Mais uma vez eu te ouço, ou tu, perdão, me escutas?
(de Arte de Música, 1968 - o poema pode ser ouvido aqui, na voz de Luís Lucas)
30.9.09
[em face dos últimos acontecimentos...]
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
EM FACE DOS ÚLTIMOS ACONTECIMENTOS
Oh! sejamos pornográficos
(docemente pornográficos).
Por que seremos mais castos
que o nosso avô português?
Oh! sejamos navegantes,
bandeirantes e guerreiros,
sejamos tudo o que quiserem,
sobretudo pornográficos.
A tarde pode ser triste
e as mulheres podem doer
como dói um soco no olho
(pornográficos, pornográficos).
Teus amigos estão sorrindo
de tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
fosse a última resolução.
Não compreenderam, coitados,
que o melhor é ser pornográfico.
Propõe isso a teu vizinho,
ao condutor do teu bonde,
a todas as criaturas
que são inúteis e existem,
propõe ao homem de óculos
e à mulher da trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
não quereis ser pornográficos?
(de Brejo das Almas, 1934)
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
EM FACE DOS ÚLTIMOS ACONTECIMENTOS
Oh! sejamos pornográficos
(docemente pornográficos).
Por que seremos mais castos
que o nosso avô português?
Oh! sejamos navegantes,
bandeirantes e guerreiros,
sejamos tudo o que quiserem,
sobretudo pornográficos.
A tarde pode ser triste
e as mulheres podem doer
como dói um soco no olho
(pornográficos, pornográficos).
Teus amigos estão sorrindo
de tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
fosse a última resolução.
Não compreenderam, coitados,
que o melhor é ser pornográfico.
Propõe isso a teu vizinho,
ao condutor do teu bonde,
a todas as criaturas
que são inúteis e existem,
propõe ao homem de óculos
e à mulher da trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
não quereis ser pornográficos?
(de Brejo das Almas, 1934)
27.9.09
[em dia de eleições]
PAULO DA COSTA DOMINGOS
De mal'a pior, julgam estar bem
e vão votar. O trânsito para
a época seguinte nem requer
certo teor dinâmico de vivência
interior, a surda tendência ou a mesma
ciente aspiração à mudança
na postura da mente, tal
como a forma e o perfume das flores
resultam da natureza da seiva
e do cuidado com as raízes. Uma
intuição, porém, logrou emergir
e ficar: pressaga, divinatória, sombra
de uma encoberta sombra... –
apenas rasgada pelo assalto policial.
De mal’aviada, julgam estar bem
e vão viajar. Dizendo que é a «vida
livre» um bem precioso.
(de Nas Alturas, frenesi, 2006)
PAULO DA COSTA DOMINGOS
De mal'a pior, julgam estar bem
e vão votar. O trânsito para
a época seguinte nem requer
certo teor dinâmico de vivência
interior, a surda tendência ou a mesma
ciente aspiração à mudança
na postura da mente, tal
como a forma e o perfume das flores
resultam da natureza da seiva
e do cuidado com as raízes. Uma
intuição, porém, logrou emergir
e ficar: pressaga, divinatória, sombra
de uma encoberta sombra... –
apenas rasgada pelo assalto policial.
De mal’aviada, julgam estar bem
e vão viajar. Dizendo que é a «vida
livre» um bem precioso.
(de Nas Alturas, frenesi, 2006)
26.9.09
NUNO DEMPSTER
O COMBOIO
Digamos no final deste sábado que
a novidade foi nada se ter passado,
que tudo cada vez se volve mais eterno,
profundamente chato e sem contornos,
e que não é possível um pássaro de fogo
entrar-me no escritório, vulgo biblioteca.
Sei tão bem as cidades por onde caminhei
que bocejo somente em pensar ir
até ao aeroporto. Todas essas cidades
se resumem à estrada que vai por aqui
não me interessa aonde.
Mesmo a rapariga que achei bela,
a semana passada desfeou-se
e as árvores, porque é Outono,
perderam todo o brilho que tiveram,
e nada disto é digno de citar-se.
Portanto regressemos ao princípio.
Nada sucede, e o meu coração lança
a crédito outro dia que jamais
poderei reaver. E quantos dias
assim hão-de somar-se em anos idos?
Oxalá não me ponha a fazer contas
a esse tempo que vou perdendo
nem escute o comboio em que, miúdo,
pensei fugir de casa para sempre.
(de Osmose; in Dispersão – Poesia Reunida, edições Sempre-Em-Pé, 2008)
O COMBOIO
Digamos no final deste sábado que
a novidade foi nada se ter passado,
que tudo cada vez se volve mais eterno,
profundamente chato e sem contornos,
e que não é possível um pássaro de fogo
entrar-me no escritório, vulgo biblioteca.
Sei tão bem as cidades por onde caminhei
que bocejo somente em pensar ir
até ao aeroporto. Todas essas cidades
se resumem à estrada que vai por aqui
não me interessa aonde.
Mesmo a rapariga que achei bela,
a semana passada desfeou-se
e as árvores, porque é Outono,
perderam todo o brilho que tiveram,
e nada disto é digno de citar-se.
Portanto regressemos ao princípio.
Nada sucede, e o meu coração lança
a crédito outro dia que jamais
poderei reaver. E quantos dias
assim hão-de somar-se em anos idos?
Oxalá não me ponha a fazer contas
a esse tempo que vou perdendo
nem escute o comboio em que, miúdo,
pensei fugir de casa para sempre.
(de Osmose; in Dispersão – Poesia Reunida, edições Sempre-Em-Pé, 2008)
25.9.09

JOSÉ MIGUEL SILVA
MORANGOS SILVESTRES — INGMAR BERGMAN (1957)
Para a Berta Neto
Um ser humano é um combinado de egoísmo,
sofrimento e necedade. Não comove ninguém.
Uma pedra não comove ninguém. A beleza
é um acidente banal e pressupõe a morte;
muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala,
chega a ser assustador. A inteligência, refrescante
como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora,
que é Inverno toda a vida, que lugar atribuir
à inteligência? O de criada de servir nos aposentos
da ganância. Não comove, é evidente, ninguém.
A bondade, sim, comove. Mas é tão débil
e tão rara que ninguém a ouve. Não é fácil,
assim, encontrar algo que possamos amar. Eu
tenho procurado, eu juro que não sei o que fazer:
tudo me parece, até a música, produto de uma falha.
Vou por essas ruas ao acaso e não acerto a conhecer
quem me convença que bem outra poderia ser
a vida. Tudo se mostra sob espelhos deformantes,
tudo arde numa estranha aceitação. Francamente,
não consigo perceber. E gostava tanto, mas tanto,
que alguém me demonstrasse que não tenho razão.
(de Movimentos no Escuro, Relógio d’Água editores, 2005)
24.9.09
23.9.09
[olha se ela por acaso fosse escritora...]
RITA F.
Uma ficção eleitoral
RITA F.
Uma ficção eleitoral
Se eu por acaso fosse escritora, escreveria sobre um homem que vai votar, no dia das eleições, e está até ao último minuto para se decidir, de tal modo que está já com o boletim de voto na mão e mesmo assim não sabe, a decidir, a decidir, e depois põe a cruz no partido X, vai à urna, o papel escorrega lá para dentro a muito custo, e de repente o homem muda de ideias e quer à força que abram a urna para sacar o seu papelinho, que com certeza será fácil de identificar porque foi o último a cair para o monte, mas não o deixam, e ele lá vai para casa muito agastado, e depois vem a descobrir que o partido vencedor venceu por um único voto apenas, um simples e insignificante votinho. O homem sente-se muito mal, cheio de remorsos, afinal devia ter votado no partido Y, e agora se alguma coisa acontecer a culpa é dele, a culpa é toda dele, de tal forma que os meios de comunicação social passam a entrevistá-lo de cada vez que algo nefasto acontece no país, os impostos, os escândalos, a corrupção, tudo por sua culpa exclusiva, o homem a arranjar justificação atrás de justificação, mas sem nada que o justifique, o remorso a crescer, a culpa, o homem já cheio de olheiras e sem dormir, se é Verão há incêndios, se é Inverno há cheias, se não fosse o seu voto eram outros no lugar do Governo a endireitar o país, mas ele votou e estragou tudo, e continua no seu sofrimento até que vêm outras eleições. E o homem vota no partido Y. E descobre que o partido X voltou a ganhar, mas apenas por um voto, um único e mísero voto, que não foi o seu, e é a completa redenção. Os meios de comunicação social passam a entrevistar um outro homem, outro qualquer, outro que podia ser ele, outro homem que também não consegue dormir, se é Verão há incêndios, se é Inverno há cheias, os escândalos, a corrupção, tudo por causa do seu insignificante voto. O primeiro homem dorme descansado. O segundo homem morre de remorsos.
E vêm novamente as eleições. O partido X volta a ganhar por um voto. O segundo homem dorme descansado. O terceiro homem morre de remorsos.
22.9.09
GONÇALO M. TAVARES
Poesia
Poesia
Construíram uma prisão cujos limites exteriores eram redes onde, através da torção dos arames, se encontravam escritos alguns dos mais belos poemas dos principais poetas do país.
Essa rede de versos que contornava toda a prisão era eléctrica: quem a tocasse apanharia um choque mortal.
(de Senhor Brecht, editorial Caminho, 2004)
(de Senhor Brecht, editorial Caminho, 2004)
21.9.09
LUÍS AMARO
CONQUISTA
Na miséria mais funda
cintila uma estrela
a dizer que a vida
é bela.
No silêncio aflito
da noite (naufrágio
dos tristes)
alguém sonha e canta
virgens alegrias.
A manhã nascente
para ser merecida
tem que ser sangrada
com a própria vida.
(de Dádiva, 1949)
CONQUISTA
a Murilo Mendes
Na miséria mais funda
cintila uma estrela
a dizer que a vida
é bela.
No silêncio aflito
da noite (naufrágio
dos tristes)
alguém sonha e canta
virgens alegrias.
A manhã nascente
para ser merecida
tem que ser sangrada
com a própria vida.
(de Dádiva, 1949)
MURILO MENDES
SINTRA
A Luís Amaro
A paisagem redonda (claro que considerável), a mata (com ou sem aspidistras, palavra que encontrei num texto de José Rodrigues Miguéis, e que pressupõe uma áspida — talvez de cabeleira — na aliás planta), etc.
•
Obrigatoriamente, a figuração retórica de Byron, personagem da linha grande reverência.
•
O Castelo da Pena, caleidoscópico, e que poderia resultar da paranóia de Luís II da Baviera aliada à de Salvador Dali.
•
“O mistério da estrada de Sintra.”
•
As queijadas de Sintra, monumento nacional. Categoria!
•
O encontro com Ferreira de Castro, que há vários anos escapa ao verão num hotel de Sintra; suas janelas disparam ar e verde. Depois do seu já remoto sejur no Brasil, que lhe fornecera a matéria dum livro marcante, deu a volta ao mundo. Regressando-se, viu que tudo cresce e se transforma; conforme o Padre Vieira, neste mundo só o céu não cresce. O escritor persiste idêntico a si mesmo, bom, amigo das nossas coisas; não estranha mais a espantosa bagunça brasileira. Continua a se interessar pelos problemas do homem, o que o torna atual; mesmo porque a maior volta que se pode dar ainda é mesmo dentro do homem. Montaigne dixit.
•
Desloca-se a grafia da Cintra para Sintra; com vantagem, pois letra S é sinuosa tal os caminhos de Sintra; serpentina; e ninguém ignora que Veneza toma a forma dum S. Claro que Sintra não tem relação com Veneza; mas vimo-lo, a letra S, de Sintra, sim.
•
Nenhum quadro alusivo a Sintra; duas ou três fotografias; um futuro documentário cinematográfico, televisivo ou de ou de outra técnica então mais perfeita, a ser transmitido por satélite aos habitantes de Vénus e Marte, boquiabertos; mas temo que estes não existam.
(de Janelas Verdes, edições Quasi, 2003 – biblioteca arranjos para assobio)
20.9.09
DIOGO VAZ PINTO
I.
Tenho sonhos tão mal frequentados, clichés
de toda a ordem, corações mal iniciados
ou com tão podres usos, e no entanto,
por vezes ainda te vejo num café,
uma água com gás e um livro do tempo
em que eu não sabia ler. Aproximo-me,
e perco depressa a iniciativa de se passar
tudo isto apenas na minha cabeça.
Apesar de tudo
continuo a não contrariar a realidade
e o que de nós ali fica são duas bocas
a comerem o mesmo silêncio,
nas horas, nos mostradores,
na não correspondência que mais me magoou.
Enfim, o meu mundo também
foi começando e acabando à volta de um perfume
de mulher. Das poucas que não se deixam
escrever ou glosar, nem estão dispostas
a ficar de helenas para algum estupro literário.
É ela quem ainda concebe no ventre os meus
únicos filhos,
mas nunca os deixa partir, como nunca
me deixou tocar-lhe em nove dos anos sentados
na escola, na carteira logo atrás dela,
com a respiração
obedecendo a cada gesto que fazia.
Existe mesmo e pode ser vista. Levou daqui a elegância
a outros olhos, mas visita-me entre perturbações
do sono, passeando tão devagar
com uma serpente enrolada nos tornozelos,
abocanhando-lhe, mais acima, o sexo.
Tem envolvido no pescoço um colar de dentes arrancados
às noivas que até hoje fui entretendo com conversas
sobre o futuro, antes de lhe perder todo o interesse.
Assim me explico e a tantos versos. Naturalmente,
a rejeição é de longe o meu tema preferido.
Daí o sangue nos joelhos, na mesa
de cabeceira o revólver em cima do livro
que estiver a ler, balas das que assobiam para
o lado e veneno dos que matam com extrema
doçura. Os meus crimes até para mim estão a ficar
sem importância. Não durmo para seguir madrugadas,
espremo leite das sombras que me trazem, tenho
as pálpebras humedecidas de assaltos, sirenes,
fúrias venéreas e pássaros que contra elas se esmagam.
Tenho nos bolsos listas de palavras
para as quais procuro significado, artigos
de higiene e outros, além dos hotéis
com as melhores vistas
para o sórdido vazio que vai ajardinando
a minha relativa indisposição para a vida.
II.
Sei que acredito em alguma coisa,
qualquer coisa – que se pode começar
a escrever por uma mulher, esquecê-la noite após
noite e de dia não pensar em mais nada além
do que hão-de ser as epopeias do século XXI.
Imaginar o que pode nascer dos estilhaços mitológicos
cravados nas nossas deambulações e voos rasos
de uma livraria para um bar, num táxi
que nos devolve a cidade às quatro da manhã,
do quarto à cozinha, passando pela casa-de-banho
onde os olhos escorrem no espelho
e se desequilibram como frutos negros
na gaguez absurda que ali arvora.
Qualquer coisa me serve.
Acredito no dia seguinte – em sair da cama
feio como quem nasce de um pesadelo, mas
com uma vaidade
que podia dar vida a cem bibliotecas.
Acredito no que me apetecer.
Acredito que estamos juntos nisto. Logo
pela manhã os clássicos, com calma, vão uns
a seguir aos outros ao pequeno-almoço. Ao meio-dia
já demos conta dos românticos, parnasianos,
simbolistas e dentro de momentos seguem
os modernistas, este ou aquele surrealista menos
empenhado com aquilo,
e alguns dissidentes. Já almoçamos
com os beatnicks que de um abraço nos levam
para dar uma volta, lubrificar o espírito
e dançarmos descalços ao som de ventos marados,
nalgum jardim público. À tarde, para o lanche,
passamos num drive-in e vimos de lá
com sacos cheios desse fast food lírico
que engorda os nossos dias.
Só mais para a frente, com a noite,
vão chegando os convidados para jantar.
Uns trazem aperitivos e refrigerantes, saladas
e umas coisas mais light. Alguém
fez um arroz de pato à maneira, abrimos
uns tintos, falamos mais alto, zangamo-nos,
comemos a sobremesa em silêncio, depois vêm
os digestivos, whisky, brandy, e volta a ficar
tudo bem. Há um momento em que damos
por gastas as piadas e disparates, só então
começa a falar um de cada vez.
Tiramos umas notas, comparamos ideias,
vamos avançando com as primeiras noções
para pôr esta porra a mexer.
No fim, com as sobras, enchem-se uns tupperwares
e ainda redigimos uma acta. Aí começa por ler-se:
Outros sacudiram daqui o peso da rima e
o das sílabas contadas, talvez nos cumpra a nós
tirar de vez o açaime à besta, largá-la nas ruas
e deixar que morda, rasgue, estrafegue e fôda
tudo o que cheire a mijo, hesitação e medo.
(in Criatura, N.º 3 - Abril de 2009)
Pelo meu relógio são horas de matar,
de chamar o amor para a mesa dos sanguinários.
de chamar o amor para a mesa dos sanguinários.
António José Forte
I.
Tenho sonhos tão mal frequentados, clichés
de toda a ordem, corações mal iniciados
ou com tão podres usos, e no entanto,
por vezes ainda te vejo num café,
uma água com gás e um livro do tempo
em que eu não sabia ler. Aproximo-me,
e perco depressa a iniciativa de se passar
tudo isto apenas na minha cabeça.
Apesar de tudo
continuo a não contrariar a realidade
e o que de nós ali fica são duas bocas
a comerem o mesmo silêncio,
nas horas, nos mostradores,
na não correspondência que mais me magoou.
Enfim, o meu mundo também
foi começando e acabando à volta de um perfume
de mulher. Das poucas que não se deixam
escrever ou glosar, nem estão dispostas
a ficar de helenas para algum estupro literário.
É ela quem ainda concebe no ventre os meus
únicos filhos,
mas nunca os deixa partir, como nunca
me deixou tocar-lhe em nove dos anos sentados
na escola, na carteira logo atrás dela,
com a respiração
obedecendo a cada gesto que fazia.
Existe mesmo e pode ser vista. Levou daqui a elegância
a outros olhos, mas visita-me entre perturbações
do sono, passeando tão devagar
com uma serpente enrolada nos tornozelos,
abocanhando-lhe, mais acima, o sexo.
Tem envolvido no pescoço um colar de dentes arrancados
às noivas que até hoje fui entretendo com conversas
sobre o futuro, antes de lhe perder todo o interesse.
Assim me explico e a tantos versos. Naturalmente,
a rejeição é de longe o meu tema preferido.
Daí o sangue nos joelhos, na mesa
de cabeceira o revólver em cima do livro
que estiver a ler, balas das que assobiam para
o lado e veneno dos que matam com extrema
doçura. Os meus crimes até para mim estão a ficar
sem importância. Não durmo para seguir madrugadas,
espremo leite das sombras que me trazem, tenho
as pálpebras humedecidas de assaltos, sirenes,
fúrias venéreas e pássaros que contra elas se esmagam.
Tenho nos bolsos listas de palavras
para as quais procuro significado, artigos
de higiene e outros, além dos hotéis
com as melhores vistas
para o sórdido vazio que vai ajardinando
a minha relativa indisposição para a vida.
II.
Sei que acredito em alguma coisa,
qualquer coisa – que se pode começar
a escrever por uma mulher, esquecê-la noite após
noite e de dia não pensar em mais nada além
do que hão-de ser as epopeias do século XXI.
Imaginar o que pode nascer dos estilhaços mitológicos
cravados nas nossas deambulações e voos rasos
de uma livraria para um bar, num táxi
que nos devolve a cidade às quatro da manhã,
do quarto à cozinha, passando pela casa-de-banho
onde os olhos escorrem no espelho
e se desequilibram como frutos negros
na gaguez absurda que ali arvora.
Qualquer coisa me serve.
Acredito no dia seguinte – em sair da cama
feio como quem nasce de um pesadelo, mas
com uma vaidade
que podia dar vida a cem bibliotecas.
Acredito no que me apetecer.
Acredito que estamos juntos nisto. Logo
pela manhã os clássicos, com calma, vão uns
a seguir aos outros ao pequeno-almoço. Ao meio-dia
já demos conta dos românticos, parnasianos,
simbolistas e dentro de momentos seguem
os modernistas, este ou aquele surrealista menos
empenhado com aquilo,
e alguns dissidentes. Já almoçamos
com os beatnicks que de um abraço nos levam
para dar uma volta, lubrificar o espírito
e dançarmos descalços ao som de ventos marados,
nalgum jardim público. À tarde, para o lanche,
passamos num drive-in e vimos de lá
com sacos cheios desse fast food lírico
que engorda os nossos dias.
Só mais para a frente, com a noite,
vão chegando os convidados para jantar.
Uns trazem aperitivos e refrigerantes, saladas
e umas coisas mais light. Alguém
fez um arroz de pato à maneira, abrimos
uns tintos, falamos mais alto, zangamo-nos,
comemos a sobremesa em silêncio, depois vêm
os digestivos, whisky, brandy, e volta a ficar
tudo bem. Há um momento em que damos
por gastas as piadas e disparates, só então
começa a falar um de cada vez.
Tiramos umas notas, comparamos ideias,
vamos avançando com as primeiras noções
para pôr esta porra a mexer.
No fim, com as sobras, enchem-se uns tupperwares
e ainda redigimos uma acta. Aí começa por ler-se:
Outros sacudiram daqui o peso da rima e
o das sílabas contadas, talvez nos cumpra a nós
tirar de vez o açaime à besta, largá-la nas ruas
e deixar que morda, rasgue, estrafegue e fôda
tudo o que cheire a mijo, hesitação e medo.
(in Criatura, N.º 3 - Abril de 2009)
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