[nos 20 anos da queda do Muro de Berlim]
(voz de João Afonso)
JOSÉ AFONSO
UTOPIA
Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo, mas irmão
Capital da alegria
Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu a ti o deves
lança o teu desafio
Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso, a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio, este rumo, esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?
(do álbum Como Se Fora Seu Filho, 1983)
9.11.09
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28.10.09
RUY CINATTI
XIII
Quando vier da minha terra que é no mundo
prá minha terra que é do coração,
usarei as minhas ferramentas
para arrazar vulcões estéreis
e conhecer os frutos que nos são negados.
Furos, nascentes, pás e picaretas,
agrónomos, hidráulicos, correcção, levadas,
estas serão as minhas ferramentas
para combater as secas prolongadas
e colher os frutos que nos são negados.
O resto, é história antiga: não interessa
senão para ilustrar a condição
que moveu os braços musculados
e aos filhos futuros nossos consentiu
colher os frutos que nos são negados.
(de Crónica Cabo-Verdiana, 1967)
XIII
Quando vier da minha terra que é no mundo
prá minha terra que é do coração,
usarei as minhas ferramentas
para arrazar vulcões estéreis
e conhecer os frutos que nos são negados.
Furos, nascentes, pás e picaretas,
agrónomos, hidráulicos, correcção, levadas,
estas serão as minhas ferramentas
para combater as secas prolongadas
e colher os frutos que nos são negados.
O resto, é história antiga: não interessa
senão para ilustrar a condição
que moveu os braços musculados
e aos filhos futuros nossos consentiu
colher os frutos que nos são negados.
(de Crónica Cabo-Verdiana, 1967)
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FILINTO ELÍSIO
9.
sabe o poeta que a hora é plácida
pedestal caindo
estrela cadente
estrelas do mar
algas da sorte
(retornando à ida)
timbre de voz
que o poeta pressente...
(de Do lado de cá da rosa, Instituto Caboverdeano do Livro e do Disco, 1995)
7.
Perdoa-me mas não me ocorre a Atlântida de Platão
As ilhas têm uma só raiz: o amor!
O resto é ínsula língua do mar coxas d’areia
Macaronésia só de mamas arquipélago de gemidos
Barlaventos de braços sotaventos de pernas
A Vénus sai das águas e o Caliban da terra é fome
São as ilhas o reverso do Paraíso sem molduras
Mangas cocos tâmaras musgos seixos espumas
Serpentes sem pecado sem veneno sem Bíblia!
(de O Inferno do Riso, Instituto da Biblioteca Nacional, 2001)
3
As frutas, uma a uma, darão suas entranhas à boca
O roçar leve de língua ao gosto de todas as coisas,
As frutas saberão trazer do antanho nossas memórias
Em paraísos de proibir nas árvores todo o proibido.
Uma a uma, não nos poderemos delas jamais apartar,
Sílabas poderosas no ulterior dos verbos acamados
Nos leitos de horizontes surgidos do útero da baía
E nas janelas abertas para o império dos sentidos.
De quantas frutas somos benditos no ventre das vontades,
Quantas lágrimas, suores e sémenes, vagidos de nada,
A esventrar a espessura de tudo ser mais prima matéria.
Ajoelhados ante o silêncio, soletraremos ao infinito
O que desta idade temos ainda de eterna saudade
E entoaremos, de sussurros tão-somente, o hino às frutas.
(de Das Frutas Serenadas, Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 2007)
9.
sabe o poeta que a hora é plácida
pedestal caindo
estrela cadente
estrelas do mar
algas da sorte
(retornando à ida)
timbre de voz
que o poeta pressente...
(de Do lado de cá da rosa, Instituto Caboverdeano do Livro e do Disco, 1995)
7.
Perdoa-me mas não me ocorre a Atlântida de Platão
As ilhas têm uma só raiz: o amor!
O resto é ínsula língua do mar coxas d’areia
Macaronésia só de mamas arquipélago de gemidos
Barlaventos de braços sotaventos de pernas
A Vénus sai das águas e o Caliban da terra é fome
São as ilhas o reverso do Paraíso sem molduras
Mangas cocos tâmaras musgos seixos espumas
Serpentes sem pecado sem veneno sem Bíblia!
(de O Inferno do Riso, Instituto da Biblioteca Nacional, 2001)
3
As frutas, uma a uma, darão suas entranhas à boca
O roçar leve de língua ao gosto de todas as coisas,
As frutas saberão trazer do antanho nossas memórias
Em paraísos de proibir nas árvores todo o proibido.
Uma a uma, não nos poderemos delas jamais apartar,
Sílabas poderosas no ulterior dos verbos acamados
Nos leitos de horizontes surgidos do útero da baía
E nas janelas abertas para o império dos sentidos.
De quantas frutas somos benditos no ventre das vontades,
Quantas lágrimas, suores e sémenes, vagidos de nada,
A esventrar a espessura de tudo ser mais prima matéria.
Ajoelhados ante o silêncio, soletraremos ao infinito
O que desta idade temos ainda de eterna saudade
E entoaremos, de sussurros tão-somente, o hino às frutas.
(de Das Frutas Serenadas, Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 2007)
27.10.09
SÉRGIO GODINHO
Chuvas de Cabo Verde
Há quantos meses não chove
parece que nove
parece que nove
se chover nos três que resta
parece que há festa
parece que há festa
Beleza de Cabo Verde
não se vê do avião
país que é novo tem sede
do que faz fazer o pão
este socalco foi milho
e aquelas pedras, feijão
ensinava a mãe ao filho
repete o filho ao irmão
Há quantos meses não chove
parece que nove
parece que nove
se chover nos três que resta
parece que há festa
parece que há festa
Beleza de Cabo Verde
está na maneira de olhar
árvore que tinha sede
foi-se também emigrar
nela encostado, o emigrante
trinca do fruto da morna
não há nenhum que não cante
a vez em que à terra torna
Beleza de Cabo Verde
está na razão de cantar
música não mata a sede
mas se pudesse matar
com água por melodia
e por batuque irrigado
(do álbum Aos Amores, 1989)
(vozes de Sérgio Godinho e Tito Paris, no álbum O Irmão do Meio, 2003)
26.10.09
ANTÓNIO PEDRO
I
Ai árvores ali
e duras!,… ai!:
e aqui
terra queimada
só.
Bé!,
o pó
da ventania
sufoca!
…Lá na baía
ou doca
ou o que é,
lá do vapor
parecia
melhor,
embora fosse careca
a terra seca,
e o sol queimasse
e adormentasse
já.
Cá
há mais do que calor,
há dor
do sol!
…e a preta
De lenço branco
Lá no barranco
Da achada
Tem o ar de um sobressalto
…E andam sombras
pelas sombras
como havia no mar alto…
No entanto,
de não estar
habituado a encontrar
estas sombras aqui,
ainda não consegui
o meu encanto:
pasmar
- Paisagem, quem me adivinha? –
E andam sombras pelas sombras
enquanto a noite caminha,
dês que o luar dealbou…
Que tentaram ensombrar-me
- Mas quem foi que me assombrou?
Quem me ensombra
não me assombra!
…Apenas me sobressalta
não ver os mortos da sombra
que me fazem tanta falta!...
(de Diário, 1929)
I
Ai árvores ali
e duras!,… ai!:
e aqui
terra queimada
só.
Bé!,
o pó
da ventania
sufoca!
…Lá na baía
ou doca
ou o que é,
lá do vapor
parecia
melhor,
embora fosse careca
a terra seca,
e o sol queimasse
e adormentasse
já.
Cá
há mais do que calor,
há dor
do sol!
…e a preta
De lenço branco
Lá no barranco
Da achada
Tem o ar de um sobressalto
…E andam sombras
pelas sombras
como havia no mar alto…
No entanto,
de não estar
habituado a encontrar
estas sombras aqui,
ainda não consegui
o meu encanto:
pasmar
- Paisagem, quem me adivinha? –
E andam sombras pelas sombras
enquanto a noite caminha,
dês que o luar dealbou…
Que tentaram ensombrar-me
- Mas quem foi que me assombrou?
Quem me ensombra
não me assombra!
…Apenas me sobressalta
não ver os mortos da sombra
que me fazem tanta falta!...
(de Diário, 1929)
25.10.09
MANUEL LOPES
MAR-ALTO
E porque teu coração encerra
a saudade do mar e a saudade da terra
- tua ilha é grande...
E porque teus sentidos traçam norte e sul
e traçam leste e oeste norte e sul
- tua ilha é grande...
E porque tens os olhos virados para o azul
para lá do azul e para cá do azul
- tua ilha é grande...
E porque no teu sangue se deu o encontro de tantas raças
no mesmo latejar de ansiedades e resignações
dores alegrias e desgraças
- tua ilha é grande...
E porque a tua vida marca cada hora
como a onda dominadora
na alegria que chora
ou na tristeza que ri,
tua divisa ora
- em cada hora nasci...
(de Crioulo e outros poemas, 1964)
LEANDRO
(Os Flagelados do Vento Leste)
Querias que os montes fossem gentes
e as gentes montes.
Que se misturassem
confundissem
e falassem
e depois tivessem a magia
de distinguir os montes das gentes
até chegar à humana conclusão
de que eram iguais
com a mesma linguagem
as mesmas lutas e ódios
e em cada despedida
a mesma esperança desesperada
a mesma saudade mentida a mesma ilusão
as mesmas ameaças ou o mesmo perdão
a mesma indiferença
a mesma sorte
desmentida
sob os escombros da vida
que se recusa na morte...
(in Falucho Ancorado, edições Cosmos, 1997)
MAR-ALTO
E porque teu coração encerra
a saudade do mar e a saudade da terra
- tua ilha é grande...
E porque teus sentidos traçam norte e sul
e traçam leste e oeste norte e sul
- tua ilha é grande...
E porque tens os olhos virados para o azul
para lá do azul e para cá do azul
- tua ilha é grande...
E porque no teu sangue se deu o encontro de tantas raças
no mesmo latejar de ansiedades e resignações
dores alegrias e desgraças
- tua ilha é grande...
E porque a tua vida marca cada hora
como a onda dominadora
na alegria que chora
ou na tristeza que ri,
tua divisa ora
- em cada hora nasci...
(de Crioulo e outros poemas, 1964)
LEANDRO
(Os Flagelados do Vento Leste)
Querias que os montes fossem gentes
e as gentes montes.
Que se misturassem
confundissem
e falassem
e depois tivessem a magia
de distinguir os montes das gentes
até chegar à humana conclusão
de que eram iguais
com a mesma linguagem
as mesmas lutas e ódios
e em cada despedida
a mesma esperança desesperada
a mesma saudade mentida a mesma ilusão
as mesmas ameaças ou o mesmo perdão
a mesma indiferença
a mesma sorte
desmentida
sob os escombros da vida
que se recusa na morte...
(in Falucho Ancorado, edições Cosmos, 1997)
19.10.09
[outros melros LVI]
RUI PEDRO GONÇALVES
Desta vez não houve lezírias em pano de fundo.
Deixei as searas sossegadas
Imaginando o orvalho acordando os melros e as folhas da videira.
Imaginei demasiadas coisas (penso),
Enquanto os dedos da costureira nada consertam: nem o riso,
Nem a casa fechada na penumbra de uma rua qualquer.
Por acaso, abri um armário e li
Nitratos do Chile
E pensei – o mundo está bem adubado,
Bem temperado de sal, pimenta, picantes corpos.
E não encontrei nitratos no amor (erro meu, má sorte).
(in Telhados de Vidro - N.º 12 * Maio * 2009)
RUI PEDRO GONÇALVES
Desta vez não houve lezírias em pano de fundo.
Deixei as searas sossegadas
Imaginando o orvalho acordando os melros e as folhas da videira.
Imaginei demasiadas coisas (penso),
Enquanto os dedos da costureira nada consertam: nem o riso,
Nem a casa fechada na penumbra de uma rua qualquer.
Por acaso, abri um armário e li
Nitratos do Chile
E pensei – o mundo está bem adubado,
Bem temperado de sal, pimenta, picantes corpos.
E não encontrei nitratos no amor (erro meu, má sorte).
(in Telhados de Vidro - N.º 12 * Maio * 2009)
18.10.09
[a propósito desta passagem do livro que a Catarina anda a ler]
JORGE DE SENA
"La Cathédrale engloutie", de Debussy
Creio que nunca perdoarei o que me fez esta música.
Eu nada sabia de poesia, de literatura, e o piano
era, para mim, sem distinção entre a Viúva Alegre e Mozart,
o grande futuro paralelo a tudo o que eu seria
para satisfação dos meus parentes todos. Mesmo a Música,
eles achavam-na demais, imprópria de um rapaz
que era pretendido igual a todos eles:
alto ou baixo funcionário público,
civil ou militar. Eu lia muito, é certo. Lera
o Ponson du Terrail, o Campos Júnior, o Verne e o Salgari,
e o Eça e o Pascoaes. E lera também
nuns caderninhos que me eram permitidos
porque aperfeiçoavam o francês,
e a Livraria Larousse editava para crianças mais novas
do que eu era,
a história da catedral de Ys submersa nas águas.
Um dia, no rádio Pilot da minha Avó, ouvi
uma série de acordes aquáticos, que os pedais faziam pensativos,
mas cujas dissonâncias eram a imagem tremulante
daquelas fendas ténues que na vida,
na minha e na dos outros, ou havia ou faltavam.
Foi como se as águas se me abrissem para ouvir os sinos,
os cânticos, e o eco das abóbadas, e ver as altas torres
sobre que as ondas glaucas se espumavam tranquilas.
Nas naves povoadas de limos e de anémonas, vi que perpassavam
almas penadas como as do Marão e que eu temia
em todos os estalidos e cantos escuros da casa.
Ante um caderno, tentei dizer tudo isso. Mas
só a música que comprei e estudei ao piano mo ensinou
mas sem palavras. Escrevi. Como o vaso da China,
pomposo e com dragões em relevo, que havia na sala,
e que uma criada ao espanejar partiu,
e dele saíram lixo e papéis velhos lá caídos,
as fissuras da vida abriram-se-me para sempre,
ainda que o sentido de muitas eu só entendesse mais tarde.
Submersa catedral inacessível! Como perdoarei
aquele momento em que do rádio vieste,
solene e vaga e grave, de sob as águas que
marinhas me seriam meu destino perdido?
É desta imprecisão que eu tenho ódio:
nunca mais pude ser eu mesmo - esse homem parvo
que, nascido do jovem tiranizado e triste,
viveria tranquilamente arreliado até à morte.
Passei a ser esta soma teimosa do que não existe:
exigência, anseio, dúvida e gosto
de impor aos outros a visão profunda,
não a visão que eles fingem,
mas a visão que recusam:
esse lixo do mundo e papéis velhos
que sai dum jarrão exótico que a criada partiu,
como a catedral se iria em acordes que ficam
na memória das coisas como um livro infantil
de lendas de outras terras que não são a minha.
Os acordes perpassam cristalinos sob um fundo surdo
que docemente ecoa. Música literata e fascinante,
nojenta do que por ela em mim se fez poesia,
esta desgraça impotente de actuar no mundo,
e que só sabe negar-se e constranger-me a ser
o que luta no vácuo de si mesmo e dos outros.
Ó catedral de sons e de água! Ó música
sombria e luminosa! Ó vácua solidão
tranquila! Ó agonia doce e calculada!
Ah como havia em ti, tão só prelúdio,
tamanho alvorecer, por sob ou sobre as águas,
de negros sóis e brancos céus nocturnos?
Eu hei-de perdoar-te? Eu hei-de ouvir-te ainda?
Mais uma vez eu te ouço, ou tu, perdão, me escutas?
(de Arte de Música, 1968 - o poema pode ser ouvido aqui, na voz de Luís Lucas)
JORGE DE SENA
"La Cathédrale engloutie", de Debussy
Creio que nunca perdoarei o que me fez esta música.
Eu nada sabia de poesia, de literatura, e o piano
era, para mim, sem distinção entre a Viúva Alegre e Mozart,
o grande futuro paralelo a tudo o que eu seria
para satisfação dos meus parentes todos. Mesmo a Música,
eles achavam-na demais, imprópria de um rapaz
que era pretendido igual a todos eles:
alto ou baixo funcionário público,
civil ou militar. Eu lia muito, é certo. Lera
o Ponson du Terrail, o Campos Júnior, o Verne e o Salgari,
e o Eça e o Pascoaes. E lera também
nuns caderninhos que me eram permitidos
porque aperfeiçoavam o francês,
e a Livraria Larousse editava para crianças mais novas
do que eu era,
a história da catedral de Ys submersa nas águas.
Um dia, no rádio Pilot da minha Avó, ouvi
uma série de acordes aquáticos, que os pedais faziam pensativos,
mas cujas dissonâncias eram a imagem tremulante
daquelas fendas ténues que na vida,
na minha e na dos outros, ou havia ou faltavam.
Foi como se as águas se me abrissem para ouvir os sinos,
os cânticos, e o eco das abóbadas, e ver as altas torres
sobre que as ondas glaucas se espumavam tranquilas.
Nas naves povoadas de limos e de anémonas, vi que perpassavam
almas penadas como as do Marão e que eu temia
em todos os estalidos e cantos escuros da casa.
Ante um caderno, tentei dizer tudo isso. Mas
só a música que comprei e estudei ao piano mo ensinou
mas sem palavras. Escrevi. Como o vaso da China,
pomposo e com dragões em relevo, que havia na sala,
e que uma criada ao espanejar partiu,
e dele saíram lixo e papéis velhos lá caídos,
as fissuras da vida abriram-se-me para sempre,
ainda que o sentido de muitas eu só entendesse mais tarde.
Submersa catedral inacessível! Como perdoarei
aquele momento em que do rádio vieste,
solene e vaga e grave, de sob as águas que
marinhas me seriam meu destino perdido?
É desta imprecisão que eu tenho ódio:
nunca mais pude ser eu mesmo - esse homem parvo
que, nascido do jovem tiranizado e triste,
viveria tranquilamente arreliado até à morte.
Passei a ser esta soma teimosa do que não existe:
exigência, anseio, dúvida e gosto
de impor aos outros a visão profunda,
não a visão que eles fingem,
mas a visão que recusam:
esse lixo do mundo e papéis velhos
que sai dum jarrão exótico que a criada partiu,
como a catedral se iria em acordes que ficam
na memória das coisas como um livro infantil
de lendas de outras terras que não são a minha.
Os acordes perpassam cristalinos sob um fundo surdo
que docemente ecoa. Música literata e fascinante,
nojenta do que por ela em mim se fez poesia,
esta desgraça impotente de actuar no mundo,
e que só sabe negar-se e constranger-me a ser
o que luta no vácuo de si mesmo e dos outros.
Ó catedral de sons e de água! Ó música
sombria e luminosa! Ó vácua solidão
tranquila! Ó agonia doce e calculada!
Ah como havia em ti, tão só prelúdio,
tamanho alvorecer, por sob ou sobre as águas,
de negros sóis e brancos céus nocturnos?
Eu hei-de perdoar-te? Eu hei-de ouvir-te ainda?
Mais uma vez eu te ouço, ou tu, perdão, me escutas?
(de Arte de Música, 1968 - o poema pode ser ouvido aqui, na voz de Luís Lucas)
30.9.09
[em face dos últimos acontecimentos...]
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
EM FACE DOS ÚLTIMOS ACONTECIMENTOS
Oh! sejamos pornográficos
(docemente pornográficos).
Por que seremos mais castos
que o nosso avô português?
Oh! sejamos navegantes,
bandeirantes e guerreiros,
sejamos tudo o que quiserem,
sobretudo pornográficos.
A tarde pode ser triste
e as mulheres podem doer
como dói um soco no olho
(pornográficos, pornográficos).
Teus amigos estão sorrindo
de tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
fosse a última resolução.
Não compreenderam, coitados,
que o melhor é ser pornográfico.
Propõe isso a teu vizinho,
ao condutor do teu bonde,
a todas as criaturas
que são inúteis e existem,
propõe ao homem de óculos
e à mulher da trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
não quereis ser pornográficos?
(de Brejo das Almas, 1934)
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
EM FACE DOS ÚLTIMOS ACONTECIMENTOS
Oh! sejamos pornográficos
(docemente pornográficos).
Por que seremos mais castos
que o nosso avô português?
Oh! sejamos navegantes,
bandeirantes e guerreiros,
sejamos tudo o que quiserem,
sobretudo pornográficos.
A tarde pode ser triste
e as mulheres podem doer
como dói um soco no olho
(pornográficos, pornográficos).
Teus amigos estão sorrindo
de tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
fosse a última resolução.
Não compreenderam, coitados,
que o melhor é ser pornográfico.
Propõe isso a teu vizinho,
ao condutor do teu bonde,
a todas as criaturas
que são inúteis e existem,
propõe ao homem de óculos
e à mulher da trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
não quereis ser pornográficos?
(de Brejo das Almas, 1934)
27.9.09
[em dia de eleições]
PAULO DA COSTA DOMINGOS
De mal'a pior, julgam estar bem
e vão votar. O trânsito para
a época seguinte nem requer
certo teor dinâmico de vivência
interior, a surda tendência ou a mesma
ciente aspiração à mudança
na postura da mente, tal
como a forma e o perfume das flores
resultam da natureza da seiva
e do cuidado com as raízes. Uma
intuição, porém, logrou emergir
e ficar: pressaga, divinatória, sombra
de uma encoberta sombra... –
apenas rasgada pelo assalto policial.
De mal’aviada, julgam estar bem
e vão viajar. Dizendo que é a «vida
livre» um bem precioso.
(de Nas Alturas, frenesi, 2006)
PAULO DA COSTA DOMINGOS
De mal'a pior, julgam estar bem
e vão votar. O trânsito para
a época seguinte nem requer
certo teor dinâmico de vivência
interior, a surda tendência ou a mesma
ciente aspiração à mudança
na postura da mente, tal
como a forma e o perfume das flores
resultam da natureza da seiva
e do cuidado com as raízes. Uma
intuição, porém, logrou emergir
e ficar: pressaga, divinatória, sombra
de uma encoberta sombra... –
apenas rasgada pelo assalto policial.
De mal’aviada, julgam estar bem
e vão viajar. Dizendo que é a «vida
livre» um bem precioso.
(de Nas Alturas, frenesi, 2006)
26.9.09
NUNO DEMPSTER
O COMBOIO
Digamos no final deste sábado que
a novidade foi nada se ter passado,
que tudo cada vez se volve mais eterno,
profundamente chato e sem contornos,
e que não é possível um pássaro de fogo
entrar-me no escritório, vulgo biblioteca.
Sei tão bem as cidades por onde caminhei
que bocejo somente em pensar ir
até ao aeroporto. Todas essas cidades
se resumem à estrada que vai por aqui
não me interessa aonde.
Mesmo a rapariga que achei bela,
a semana passada desfeou-se
e as árvores, porque é Outono,
perderam todo o brilho que tiveram,
e nada disto é digno de citar-se.
Portanto regressemos ao princípio.
Nada sucede, e o meu coração lança
a crédito outro dia que jamais
poderei reaver. E quantos dias
assim hão-de somar-se em anos idos?
Oxalá não me ponha a fazer contas
a esse tempo que vou perdendo
nem escute o comboio em que, miúdo,
pensei fugir de casa para sempre.
(de Osmose; in Dispersão – Poesia Reunida, edições Sempre-Em-Pé, 2008)
O COMBOIO
Digamos no final deste sábado que
a novidade foi nada se ter passado,
que tudo cada vez se volve mais eterno,
profundamente chato e sem contornos,
e que não é possível um pássaro de fogo
entrar-me no escritório, vulgo biblioteca.
Sei tão bem as cidades por onde caminhei
que bocejo somente em pensar ir
até ao aeroporto. Todas essas cidades
se resumem à estrada que vai por aqui
não me interessa aonde.
Mesmo a rapariga que achei bela,
a semana passada desfeou-se
e as árvores, porque é Outono,
perderam todo o brilho que tiveram,
e nada disto é digno de citar-se.
Portanto regressemos ao princípio.
Nada sucede, e o meu coração lança
a crédito outro dia que jamais
poderei reaver. E quantos dias
assim hão-de somar-se em anos idos?
Oxalá não me ponha a fazer contas
a esse tempo que vou perdendo
nem escute o comboio em que, miúdo,
pensei fugir de casa para sempre.
(de Osmose; in Dispersão – Poesia Reunida, edições Sempre-Em-Pé, 2008)
25.9.09

JOSÉ MIGUEL SILVA
MORANGOS SILVESTRES — INGMAR BERGMAN (1957)
Para a Berta Neto
Um ser humano é um combinado de egoísmo,
sofrimento e necedade. Não comove ninguém.
Uma pedra não comove ninguém. A beleza
é um acidente banal e pressupõe a morte;
muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala,
chega a ser assustador. A inteligência, refrescante
como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora,
que é Inverno toda a vida, que lugar atribuir
à inteligência? O de criada de servir nos aposentos
da ganância. Não comove, é evidente, ninguém.
A bondade, sim, comove. Mas é tão débil
e tão rara que ninguém a ouve. Não é fácil,
assim, encontrar algo que possamos amar. Eu
tenho procurado, eu juro que não sei o que fazer:
tudo me parece, até a música, produto de uma falha.
Vou por essas ruas ao acaso e não acerto a conhecer
quem me convença que bem outra poderia ser
a vida. Tudo se mostra sob espelhos deformantes,
tudo arde numa estranha aceitação. Francamente,
não consigo perceber. E gostava tanto, mas tanto,
que alguém me demonstrasse que não tenho razão.
(de Movimentos no Escuro, Relógio d’Água editores, 2005)
24.9.09
23.9.09
[olha se ela por acaso fosse escritora...]
RITA F.
Uma ficção eleitoral
RITA F.
Uma ficção eleitoral
Se eu por acaso fosse escritora, escreveria sobre um homem que vai votar, no dia das eleições, e está até ao último minuto para se decidir, de tal modo que está já com o boletim de voto na mão e mesmo assim não sabe, a decidir, a decidir, e depois põe a cruz no partido X, vai à urna, o papel escorrega lá para dentro a muito custo, e de repente o homem muda de ideias e quer à força que abram a urna para sacar o seu papelinho, que com certeza será fácil de identificar porque foi o último a cair para o monte, mas não o deixam, e ele lá vai para casa muito agastado, e depois vem a descobrir que o partido vencedor venceu por um único voto apenas, um simples e insignificante votinho. O homem sente-se muito mal, cheio de remorsos, afinal devia ter votado no partido Y, e agora se alguma coisa acontecer a culpa é dele, a culpa é toda dele, de tal forma que os meios de comunicação social passam a entrevistá-lo de cada vez que algo nefasto acontece no país, os impostos, os escândalos, a corrupção, tudo por sua culpa exclusiva, o homem a arranjar justificação atrás de justificação, mas sem nada que o justifique, o remorso a crescer, a culpa, o homem já cheio de olheiras e sem dormir, se é Verão há incêndios, se é Inverno há cheias, se não fosse o seu voto eram outros no lugar do Governo a endireitar o país, mas ele votou e estragou tudo, e continua no seu sofrimento até que vêm outras eleições. E o homem vota no partido Y. E descobre que o partido X voltou a ganhar, mas apenas por um voto, um único e mísero voto, que não foi o seu, e é a completa redenção. Os meios de comunicação social passam a entrevistar um outro homem, outro qualquer, outro que podia ser ele, outro homem que também não consegue dormir, se é Verão há incêndios, se é Inverno há cheias, os escândalos, a corrupção, tudo por causa do seu insignificante voto. O primeiro homem dorme descansado. O segundo homem morre de remorsos.
E vêm novamente as eleições. O partido X volta a ganhar por um voto. O segundo homem dorme descansado. O terceiro homem morre de remorsos.
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