8.2.10

[outros melros LVII]

CARLOS MOTA DE OLIVEIRA

A BAGAGEM


Acomodo a um canto do barco a minha pasta e Maria toma-lhe o peso. Só lá tenho coisas leves: castanhas, queijos, azeite, tecidos brancos de algodão, maçãs vermelhas, chapéus de feltro, raposas negras, vinho de palmeira, madeiras valiosas, milho, feijão, um lápis, uma borracha, sete ou oito poemas sobre a praia da Galé, um lenço, vinho novo para oferecer a Júpiter e alguns melros com o peito alaranjado.


(de Rio Arade, Edição de Autor, 1989)

7.2.10

CABRAL DO NASCIMENTO

CANTIGA


Coração, onde vos tinha
Posto, se aí vos ficáreis,
Não veríeis novas caras.

Mudei sempre a minha rota,
Deixei isto por aquilo,
Troquei a vida por outra,
Desiludi o destino.
Pus o Norte onde era o Sul,
Do que era noite fiz dia;
Porque não ficastes mudo,
Coração, onde vos tinha?

Torci a roda do leme,
Rasguei as folhas dos mapas,
Tornei as horas incertas,
Depois de serem exactas!
Mas sempre, sempre a meu lado
Alguma coisa caminha;
Antes ficásseis calado,
Coração, onde vos tinha.

(de Confidência, 1945)

6.2.10

ROSA ALICE BRANCO

FLOR DE TINTA


O poema é o desenho desta letra
inclinada pelo rumor do vento
quando lhe peço abrigo
e vejo nele o espelho do meu corpo
repousando nos teus braços de ontem.

A tinta ainda não acabou de secar.
O cheiro fresco da página vira-se para a página seguinte
e a minha voz ouve-se melhor ao vento
quando conspiramos no silêncio
a próxima letra
e a exactidão do seu desenho.

Agora há mimosas nas árvores
e lá em baixo o rio já não é como era
nem saberia sê-lo.
Esqueci como se bebe a água pela mão
ou como se bebe a mão
do rio.

Eu existia nessa transparência,
na flor espiritual e líquida
da tinta
que retoca no papel a sua vida.
Esta letra é o meu nome soletrado por ti,
o meu nome que ainda não está seco
e te olha nas acácias florindo em amarelo
no rigor do inverno.

Qualquer palavra tua me desenha
e assim começa qualquer coisa
que me estava destinada desde sempre.

(de O Único Traço do Pincel, 1997)

5.2.10

ANTÓNIO BARAHONA

VIII


Os relâmpagos iluminam um busto no telhado:
monumento ao Poeta Desconhecido, disfarçado de pássaro
com bico de homem a beber a chuva de vinho novo

Nos socalcos da cidade cresce a videira brava,
as gavinhas atam os meus dedos aos prédios
e há gaviões predadores de gatos pretos
em voo muito baixo junto aos tornozelos

Turbas de trovões atravessam o tecto
Vê-se um livro aberto diante dum espelho
a falar sozinho, a virar as páginas com cheiro a sândalo
e um cigarro, esquecido no cinzeiro, ilumina o poema
que gasta montes de dinheiro a subornar o sono

Porto, 22.IX.90
(de Noite do meu Inverno, ΙΧΘΥΣ, 2001)

4.2.10




Divina Música – Antologia de Poesia sobre Música
é uma edição comemorativa do 25.º Aniversário do Conservatório Regional de Música de Viseu. A organização coube ao poeta Amadeu Baptista e a capa é de Inês Ramos.
Colaboram:
Adalberto Alves, Affonso Romano de Sant’Ana, Albano Martins, Alexandra Malheiro, Alexandre Vargas, Alexei Bueno, Amadeu Baptista, Ana Hatherly, Ana Luísa Amaral, Ana Mafalda Leite, Ana Marques Gastão, Ana Salomé, Ana Sousa, António Brasileiro, António Cabrita, António Cândido Franco, António Ferra, António Gregório, António José Queirós, António Osório, António Rebordão Navarro, António Salvado, Artur Aleixo, Bruno Béu, C. Ronald, Camilo Mota, Carlos Felipe Moisés, Carlos Garcia de Castro, Casimiro de Brito, Cláudio Daniel, Cristina Carvalho, Daniel Abrunheiro, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Danny Spínola, Davi Reis, Donizete Galvão, E.M. de Melo e Castro, Edimilson de Almeida Pereira, Eduardo Bettencourt Pinto, Eduíno de Jesus, Ernesto Rodrigues, Eunice Arruda, Fernando de Castro Branco, Fernando Echevarría, Fernando Esteves Pinto, Fernando Fábio Fiorese Furtado, Fernando Grade, Fernando Guimarães, Fernando Pinto do Amaral, Francisco Curate, Gonçalo Salvado, Graça Magalhães, Graça Pires, Henrique Manuel Bento Fialho, Hugo Milhanas Machado, Iacyr Anderson Freitas, Inês Lourenço, Isabel Cristina Pires, Jaime Rocha, Joaquim Cardoso Dias, João Aparício, João Camilo, João Candeias, João Manuel Ribeiro, João Moita, João Rasteiro, João Rios, João Rui de Sousa, João Tala, Joaquim Feio, Jorge Arrimar, Jorge Reis-Sá, Jorge Velhote, José Agostinho Baptista, José Carlos Barros, José do Carmo Francisco, José Luís Mendonça, José Luís Peixoto, José Manuel Vasconcelos, José Mário Silva, José Miguel Silva, José Tolentino de Mendonça, Júlio Polidoro, Levi Condinho, Luís Amorim de Sousa, Luís Filipe Cristóvão, Luís Quintais, Luís Soares Barbosa, manuel a. domingos, Margarida Vale de Gato, Maria Andersen, Maria Estela Guedes, Maria João Reynaud, Maria Teresa Horta, Miguel-Manso, Miguel Martins, Myriam Jubilot de Carvalho, Nicolau Saião, Nuno Dempster, Nuno Júdice, Nuno Rebocho, Ondjaki, Ozias Filho, Patrícia Tenório, Paula Cristina Costa, Paulo Ramalho, Paulo Tavares, Prisca Agustoni, Risoleta Pinto Pedro, Roberval Alves Pereira, Rosa Alice Branco, Rui Almeida, Rui Caeiro, Rui Coias, Rui Costa, Ruy Ventura, Sara Canelhas, Soledade Santos, Teresa Tudela, Torquato da Luz, Urbano Bettencourt, Vasco Graça Moura, Vera Lúcia de Oliveira, Vergílio Alberto Vieira, Victor Oliveira Mateus, Virgílio de Lemos, Vítor Nogueira, Vítor Oliveira Jorge, Yvette K. Centeno, Zetho Cunha Gonçalves.


The Great Gig in the Sky (Pink Floyd)


Fixa os olhos no grande bloco de basalto
E escuta atentamente.
Este alçapão para onde te deixas ir

É a voz de uma mulher.
Uma voz inteira. Oscila e avança,
É a pele de um corpo enorme, suspenso

A fazer-te arriscar o que tens de céu
Com os golpes agudos de metal
Maleáveis, a ferir os ouvidos.

Não deixes de olhar a grande pedra à tua frente,
A voz é um grito a absorver o tacto,
A concentrar a luz no imo da garganta.

E faz doer os músculos
De quem não tem outra dor para sentir,
Como se fosse uma palavra recorrente

Misturada com o vento
Portador da angústia das ruas
E a fixar-se nos passos de cada um.

O que ouves é a multidão,
O peso já sem melodia – apenas fôlego –,
Um rumor denso diante dos olhos

Acessível à mão.
É o instrumento com que arrancas
Algo cravado no teu peito,

Uma voz a simular o firmamento
A ocupar os espaços vagos na tua alma
Que continua a ouvir-se depois de terminar.

(in Divina Música - Antologia de Poesia sobre Música, Conservatório Regional de Música de Viseu, 2009)

3.2.10

ROSA LOBATO DE FARIA

11.


Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantiga dos búzios e do mar
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.

Quem me quiser há-de saber as fontes
a laranjeira em flor a cor do feno
a saudade lilás que há nos poentes
o cheiro de maçãs que há no inverno.

Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.

Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.

Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.


(de Memória do Corpo, Textual editores, 1992)

2.2.10

[na morte de Manuel Serra]



(Voz de Francisco Fanhais)


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


Porque



Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

(de Mar Novo, 1958)

1.2.10

JOÃO RUI DE SOUSA

VIDA E MORTE DAS PALAVRAS


São vivas quando
o coração do vento amadurece
e a voz vem de repente
e não se esquece
de estremecer as trevas
ou de roer as malhas
da rotina
ou de dar lenha e fogo
(matéria inesperada
e sibilina)
a um barco que arrefece.

São mortas quando
a morte nelas cresce
- com os seus cabelos ralos,
suas ramagens crespas, desgastadas,
seus ossos cabisbaixos
rolados sobre o nada.
São mortas se não queimam
a limalha sobrante - esse pó
de cães exaustos, de dias
fatigantes -
e em podridão se instalam.

(de Quarteto para as próximas chuvas, publicações Dom Quixote, 2008)

9.11.09

[nos 20 anos da queda do Muro de Berlim]


(voz de João Afonso)

JOSÉ AFONSO

UTOPIA


Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo, mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu a ti o deves
lança o teu desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso, a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio, este rumo, esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?

(do álbum Como Se Fora Seu Filho, 1983)

28.10.09

RUY CINATTI


XIII


Quando vier da minha terra que é no mundo
prá minha terra que é do coração,
usarei as minhas ferramentas
para arrazar vulcões estéreis
e conhecer os frutos que nos são negados.

Furos, nascentes, pás e picaretas,
agrónomos, hidráulicos, correcção, levadas,
estas serão as minhas ferramentas
para combater as secas prolongadas
e colher os frutos que nos são negados.

O resto, é história antiga: não interessa
senão para ilustrar a condição
que moveu os braços musculados
e aos filhos futuros nossos consentiu
colher os frutos que nos são negados.

(de Crónica Cabo-Verdiana, 1967)
FILINTO ELÍSIO

9.


sabe o poeta que a hora é plácida
pedestal caindo
estrela cadente
estrelas do mar
algas da sorte
(retornando à ida)
timbre de voz
que o poeta pressente...

(de Do lado de cá da rosa, Instituto Caboverdeano do Livro e do Disco, 1995)


7.

Perdoa-me mas não me ocorre a Atlântida de Platão
As ilhas têm uma só raiz: o amor!
O resto é ínsula língua do mar coxas d’areia

Macaronésia só de mamas arquipélago de gemidos
Barlaventos de braços sotaventos de pernas
A Vénus sai das águas e o Caliban da terra é fome

São as ilhas o reverso do Paraíso sem molduras
Mangas cocos tâmaras musgos seixos espumas
Serpentes sem pecado sem veneno sem Bíblia!

(de O Inferno do Riso, Instituto da Biblioteca Nacional, 2001)


3

As frutas, uma a uma, darão suas entranhas à boca
O roçar leve de língua ao gosto de todas as coisas,
As frutas saberão trazer do antanho nossas memórias
Em paraísos de proibir nas árvores todo o proibido.

Uma a uma, não nos poderemos delas jamais apartar,
Sílabas poderosas no ulterior dos verbos acamados
Nos leitos de horizontes surgidos do útero da baía
E nas janelas abertas para o império dos sentidos.

De quantas frutas somos benditos no ventre das vontades,
Quantas lágrimas, suores e sémenes, vagidos de nada,
A esventrar a espessura de tudo ser mais prima matéria.

Ajoelhados ante o silêncio, soletraremos ao infinito
O que desta idade temos ainda de eterna saudade
E entoaremos, de sussurros tão-somente, o hino às frutas.

(de Das Frutas Serenadas, Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 2007)

27.10.09

(Ilha de Santiago, Outubro de 2009)


SÉRGIO GODINHO

Chuvas de Cabo Verde


Há quantos meses não chove
parece que nove
parece que nove
se chover nos três que resta
parece que há festa
parece que há festa

Beleza de Cabo Verde
não se vê do avião
país que é novo tem sede
do que faz fazer o pão
este socalco foi milho
e aquelas pedras, feijão
ensinava a mãe ao filho
repete o filho ao irmão

Há quantos meses não chove
parece que nove
parece que nove
se chover nos três que resta
parece que há festa
parece que há festa

Beleza de Cabo Verde
está na maneira de olhar
árvore que tinha sede
foi-se também emigrar
nela encostado, o emigrante
trinca do fruto da morna
não há nenhum que não cante
a vez em que à terra torna

Beleza de Cabo Verde
está na razão de cantar
música não mata a sede
mas se pudesse matar
com água por melodia
e por batuque irrigado

(do álbum Aos Amores, 1989)



(vozes de Sérgio Godinho e Tito Paris, no álbum O Irmão do Meio, 2003)

26.10.09

ANTÓNIO PEDRO

I

Ai árvores ali
e duras!,… ai!:
e aqui
terra queimada
só.

Bé!,
o pó
da ventania
sufoca!
…Lá na baía
ou doca
ou o que é,
lá do vapor
parecia
melhor,
embora fosse careca
a terra seca,
e o sol queimasse
e adormentasse
já.


há mais do que calor,
há dor
do sol!

…e a preta
De lenço branco
Lá no barranco
Da achada
Tem o ar de um sobressalto

…E andam sombras
pelas sombras
como havia no mar alto…

No entanto,
de não estar
habituado a encontrar
estas sombras aqui,
ainda não consegui
o meu encanto:
pasmar
- Paisagem, quem me adivinha? –

E andam sombras pelas sombras
enquanto a noite caminha,
dês que o luar dealbou…

Que tentaram ensombrar-me
- Mas quem foi que me assombrou?

Quem me ensombra
não me assombra!
…Apenas me sobressalta
não ver os mortos da sombra
que me fazem tanta falta!...

(de Diário, 1929)

25.10.09

MANUEL LOPES

MAR-ALTO


E porque teu coração encerra
a saudade do mar e a saudade da terra
- tua ilha é grande...

E porque teus sentidos traçam norte e sul
e traçam leste e oeste norte e sul
- tua ilha é grande...

E porque tens os olhos virados para o azul
para lá do azul e para cá do azul
- tua ilha é grande...

E porque no teu sangue se deu o encontro de tantas raças
no mesmo latejar de ansiedades e resignações
dores alegrias e desgraças
- tua ilha é grande...

E porque a tua vida marca cada hora
como a onda dominadora
na alegria que chora
ou na tristeza que ri,
tua divisa ora
- em cada hora nasci...

(de Crioulo e outros poemas, 1964)



LEANDRO
(Os Flagelados do Vento Leste)


Querias que os montes fossem gentes
e as gentes montes.
Que se misturassem
confundissem
e falassem
e depois tivessem a magia
de distinguir os montes das gentes
até chegar à humana conclusão
de que eram iguais
com a mesma linguagem
as mesmas lutas e ódios
e em cada despedida
a mesma esperança desesperada
a mesma saudade mentida a mesma ilusão
as mesmas ameaças ou o mesmo perdão
a mesma indiferença
a mesma sorte
desmentida

sob os escombros da vida
que se recusa na morte...

(in Falucho Ancorado, edições Cosmos, 1997)