11.2.10

FERNANDO GRADE

BECO DE CÂNDIDOS SARILHOS



Cidade de becos, pedra preta, lontras.
O que as pessoas cospem ou pensam
ou dizem é sempre pouco.
Ver julgar diverte-me.
Mas são apenas fardos de palha, palavras
à procura de uma bala.
E um dia as balas serão belas.
O pai traz o guarda-chuva, a boina e as bandeiras.
A prima traz o medo e a fruta táctil.
A má escondeu as bonecas no meio do restolho.
Mãe beijada.
Mãe vassoura.
Oh mãe de perfumados frutos castos.
Há-de ser fogosa a obra ida sogra.

Não acredito senão em carroças sonolentas
e a água que criei era de moscas.
Cuspi no dia manso por atalhos de água.
Ao fundo — no feno —, os vícios continuam:
o pai traz o porco cálido e as canastras;
a mãe tem um avental rigoroso como as serpentes e os beijos.
Não acredito que numa noite de muito vento
os remorsos não desçam das árvores
e peguem fogo ao teu caminho.

Não era de veludo o lobo que criaste,

17-3-1984


(de Alma Burra, edições Mic, 1987

10.2.10

ANTÓNIO OSÓRIO


OS LOUCOS


Há vários tipos de louco.

O hitleriano, que barafusta.
O solícito, que dirige o trânsito.
O maníaco fala-só.

O idiota que se baba,
explicado pelo psiquiatra gago.
O legatário de outros,
o que nos governa.

O depressivo que salva
o mundo. Aqueles que o destroem.

E há sempre um
(o mais intratável) que não desiste
e escreve versos.

Não gosto destes loucos.
(Torturados pela escuridão, pela morte?)
Gosto desta velha senhora
que ri, manso, pela rua, de felicidade.


(de A Ignorância da Morte, 1978)

9.2.10

MARIA ALBERTA MENÉRES


Inquieto sono o teu, sobre a copa das árvores.
A cada voz de pássaro ocultado
estremecem teus lábios virtuais!

Uma pequena saudade vem de ti
e do próximo rumor da madrugada
onde vais esquecendo teu primeiro sentido.

Já subindo da terra te oferecem as flores,
em cada gesto igual que as distingue,
o alimento para a tua fome.

E entrarás no primeiro segredo
e teus lábios virtuais repetirão as flores
abençoadas na carne e pelo tempo!

Já nos teus olhos correm as cascatas do mundo,
as belas cascatas indomáveis
onde a pequena pedra tem um corpo alegre!

Mas tu não ris, que o riso partiria
mais solto do que o vento, mais leve que a neblina,
e viria tocar breve o teu sono.

Mas tu não ris: e fácil, redimido,
entrarás no primeiro segredo
que para nós se oculta sob a copa das árvores.


(de Cântico de Barro, 1954)
LUIS CERNUDA

ONDE HABITE O ESQUECIMENTO


Onde habite o esquecimento,
Nos vastos jardins sem madrugada;
Onde eu seja somente
Lembrança de uma pedra sepultada entre urtigas
Sobre a qual o vento foge à sua insónia.

Onde o meu nome deixe
O corpo que ele aponta entre os braços dos séculos,
Onde o desejo não exista.

Nessa grande região onde o mar, anjo terrível,
Não esconda como espada
Sua asa em meu peito,
Sorrindo cheio de graça etérea enquanto cresce a dor.

Além onde termine este anseio que exige um dono à sua imagem,
Submetendo a sua vida a outra vida,
Sem mais horizonte que outros olhos frente a frente.

Onde dores e alegrias não sejam mais que nomes,
Céu e terra nativos em redor de uma lembrança;
Onde ao fim fique livre sem eu mesmo o saber,
Dissolvido em névoa, ausência,
Ausência leve como carne de uma criança.

Além, além, longe;
Onde habite o esquecimento.

(tradução de José Bento, in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea, Assírio & Alvim, 1985 - documenta poetica)

8.2.10

HENRI MICHAUX

— E é sempre —


E é sempre o lanho feito com a lança
o enxame de vespas que ataca os olhos
a lepra
e é sempre o flanco aberto

e é sempre o enterrado vivo
e é sempre o tabernáculo partido
o braço fraco como um cílio contra o rio
e é sempre a noite que volta
o espaço vazio que espiona

e é sempre a velha correia
e é sempre o enterrado vivo
e é sempre o balcão desmoronado.
O nervo trilhado no fundo do coração que recorda
o pássaro-baobá a chicotear o cérebro
a torrente onde o ser se precipita

e é sempre o encontro no meio da tempestade
e é sempre a orla do eclipse
e é sempre atrás do renque das células
o horizonte recuando, recuando...


(mudado para português por Herberto Helder, in Doze Nós Numa Corda, Assírio & Alvim, 1997)
[outros melros LVII]

CARLOS MOTA DE OLIVEIRA

A BAGAGEM


Acomodo a um canto do barco a minha pasta e Maria toma-lhe o peso. Só lá tenho coisas leves: castanhas, queijos, azeite, tecidos brancos de algodão, maçãs vermelhas, chapéus de feltro, raposas negras, vinho de palmeira, madeiras valiosas, milho, feijão, um lápis, uma borracha, sete ou oito poemas sobre a praia da Galé, um lenço, vinho novo para oferecer a Júpiter e alguns melros com o peito alaranjado.


(de Rio Arade, Edição de Autor, 1989)

7.2.10

CABRAL DO NASCIMENTO

CANTIGA


Coração, onde vos tinha
Posto, se aí vos ficáreis,
Não veríeis novas caras.

Mudei sempre a minha rota,
Deixei isto por aquilo,
Troquei a vida por outra,
Desiludi o destino.
Pus o Norte onde era o Sul,
Do que era noite fiz dia;
Porque não ficastes mudo,
Coração, onde vos tinha?

Torci a roda do leme,
Rasguei as folhas dos mapas,
Tornei as horas incertas,
Depois de serem exactas!
Mas sempre, sempre a meu lado
Alguma coisa caminha;
Antes ficásseis calado,
Coração, onde vos tinha.

(de Confidência, 1945)

6.2.10

ROSA ALICE BRANCO

FLOR DE TINTA


O poema é o desenho desta letra
inclinada pelo rumor do vento
quando lhe peço abrigo
e vejo nele o espelho do meu corpo
repousando nos teus braços de ontem.

A tinta ainda não acabou de secar.
O cheiro fresco da página vira-se para a página seguinte
e a minha voz ouve-se melhor ao vento
quando conspiramos no silêncio
a próxima letra
e a exactidão do seu desenho.

Agora há mimosas nas árvores
e lá em baixo o rio já não é como era
nem saberia sê-lo.
Esqueci como se bebe a água pela mão
ou como se bebe a mão
do rio.

Eu existia nessa transparência,
na flor espiritual e líquida
da tinta
que retoca no papel a sua vida.
Esta letra é o meu nome soletrado por ti,
o meu nome que ainda não está seco
e te olha nas acácias florindo em amarelo
no rigor do inverno.

Qualquer palavra tua me desenha
e assim começa qualquer coisa
que me estava destinada desde sempre.

(de O Único Traço do Pincel, 1997)

5.2.10

ANTÓNIO BARAHONA

VIII


Os relâmpagos iluminam um busto no telhado:
monumento ao Poeta Desconhecido, disfarçado de pássaro
com bico de homem a beber a chuva de vinho novo

Nos socalcos da cidade cresce a videira brava,
as gavinhas atam os meus dedos aos prédios
e há gaviões predadores de gatos pretos
em voo muito baixo junto aos tornozelos

Turbas de trovões atravessam o tecto
Vê-se um livro aberto diante dum espelho
a falar sozinho, a virar as páginas com cheiro a sândalo
e um cigarro, esquecido no cinzeiro, ilumina o poema
que gasta montes de dinheiro a subornar o sono

Porto, 22.IX.90
(de Noite do meu Inverno, ΙΧΘΥΣ, 2001)

4.2.10




Divina Música – Antologia de Poesia sobre Música
é uma edição comemorativa do 25.º Aniversário do Conservatório Regional de Música de Viseu. A organização coube ao poeta Amadeu Baptista e a capa é de Inês Ramos.
Colaboram:
Adalberto Alves, Affonso Romano de Sant’Ana, Albano Martins, Alexandra Malheiro, Alexandre Vargas, Alexei Bueno, Amadeu Baptista, Ana Hatherly, Ana Luísa Amaral, Ana Mafalda Leite, Ana Marques Gastão, Ana Salomé, Ana Sousa, António Brasileiro, António Cabrita, António Cândido Franco, António Ferra, António Gregório, António José Queirós, António Osório, António Rebordão Navarro, António Salvado, Artur Aleixo, Bruno Béu, C. Ronald, Camilo Mota, Carlos Felipe Moisés, Carlos Garcia de Castro, Casimiro de Brito, Cláudio Daniel, Cristina Carvalho, Daniel Abrunheiro, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Danny Spínola, Davi Reis, Donizete Galvão, E.M. de Melo e Castro, Edimilson de Almeida Pereira, Eduardo Bettencourt Pinto, Eduíno de Jesus, Ernesto Rodrigues, Eunice Arruda, Fernando de Castro Branco, Fernando Echevarría, Fernando Esteves Pinto, Fernando Fábio Fiorese Furtado, Fernando Grade, Fernando Guimarães, Fernando Pinto do Amaral, Francisco Curate, Gonçalo Salvado, Graça Magalhães, Graça Pires, Henrique Manuel Bento Fialho, Hugo Milhanas Machado, Iacyr Anderson Freitas, Inês Lourenço, Isabel Cristina Pires, Jaime Rocha, Joaquim Cardoso Dias, João Aparício, João Camilo, João Candeias, João Manuel Ribeiro, João Moita, João Rasteiro, João Rios, João Rui de Sousa, João Tala, Joaquim Feio, Jorge Arrimar, Jorge Reis-Sá, Jorge Velhote, José Agostinho Baptista, José Carlos Barros, José do Carmo Francisco, José Luís Mendonça, José Luís Peixoto, José Manuel Vasconcelos, José Mário Silva, José Miguel Silva, José Tolentino de Mendonça, Júlio Polidoro, Levi Condinho, Luís Amorim de Sousa, Luís Filipe Cristóvão, Luís Quintais, Luís Soares Barbosa, manuel a. domingos, Margarida Vale de Gato, Maria Andersen, Maria Estela Guedes, Maria João Reynaud, Maria Teresa Horta, Miguel-Manso, Miguel Martins, Myriam Jubilot de Carvalho, Nicolau Saião, Nuno Dempster, Nuno Júdice, Nuno Rebocho, Ondjaki, Ozias Filho, Patrícia Tenório, Paula Cristina Costa, Paulo Ramalho, Paulo Tavares, Prisca Agustoni, Risoleta Pinto Pedro, Roberval Alves Pereira, Rosa Alice Branco, Rui Almeida, Rui Caeiro, Rui Coias, Rui Costa, Ruy Ventura, Sara Canelhas, Soledade Santos, Teresa Tudela, Torquato da Luz, Urbano Bettencourt, Vasco Graça Moura, Vera Lúcia de Oliveira, Vergílio Alberto Vieira, Victor Oliveira Mateus, Virgílio de Lemos, Vítor Nogueira, Vítor Oliveira Jorge, Yvette K. Centeno, Zetho Cunha Gonçalves.


The Great Gig in the Sky (Pink Floyd)


Fixa os olhos no grande bloco de basalto
E escuta atentamente.
Este alçapão para onde te deixas ir

É a voz de uma mulher.
Uma voz inteira. Oscila e avança,
É a pele de um corpo enorme, suspenso

A fazer-te arriscar o que tens de céu
Com os golpes agudos de metal
Maleáveis, a ferir os ouvidos.

Não deixes de olhar a grande pedra à tua frente,
A voz é um grito a absorver o tacto,
A concentrar a luz no imo da garganta.

E faz doer os músculos
De quem não tem outra dor para sentir,
Como se fosse uma palavra recorrente

Misturada com o vento
Portador da angústia das ruas
E a fixar-se nos passos de cada um.

O que ouves é a multidão,
O peso já sem melodia – apenas fôlego –,
Um rumor denso diante dos olhos

Acessível à mão.
É o instrumento com que arrancas
Algo cravado no teu peito,

Uma voz a simular o firmamento
A ocupar os espaços vagos na tua alma
Que continua a ouvir-se depois de terminar.

(in Divina Música - Antologia de Poesia sobre Música, Conservatório Regional de Música de Viseu, 2009)

3.2.10

ROSA LOBATO DE FARIA

11.


Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantiga dos búzios e do mar
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.

Quem me quiser há-de saber as fontes
a laranjeira em flor a cor do feno
a saudade lilás que há nos poentes
o cheiro de maçãs que há no inverno.

Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.

Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.

Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.


(de Memória do Corpo, Textual editores, 1992)

2.2.10

[na morte de Manuel Serra]



(Voz de Francisco Fanhais)


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


Porque



Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

(de Mar Novo, 1958)

1.2.10

JOÃO RUI DE SOUSA

VIDA E MORTE DAS PALAVRAS


São vivas quando
o coração do vento amadurece
e a voz vem de repente
e não se esquece
de estremecer as trevas
ou de roer as malhas
da rotina
ou de dar lenha e fogo
(matéria inesperada
e sibilina)
a um barco que arrefece.

São mortas quando
a morte nelas cresce
- com os seus cabelos ralos,
suas ramagens crespas, desgastadas,
seus ossos cabisbaixos
rolados sobre o nada.
São mortas se não queimam
a limalha sobrante - esse pó
de cães exaustos, de dias
fatigantes -
e em podridão se instalam.

(de Quarteto para as próximas chuvas, publicações Dom Quixote, 2008)

9.11.09

[nos 20 anos da queda do Muro de Berlim]


(voz de João Afonso)

JOSÉ AFONSO

UTOPIA


Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo, mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu a ti o deves
lança o teu desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso, a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio, este rumo, esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?

(do álbum Como Se Fora Seu Filho, 1983)