EMILY DICKINSON
I never saw a Moor —
I never saw the Sea —
Yet know I how the Heather looks
And what a Billow be.
I never spoke with God
Nor visited in Heaven —
Yet certain am I of the spot
As if the Checks were given —
c. 1865 / 1890
Eu nunca vi Charnecas —
Nunca vi o mar —
Mas sei como é uma Urze,
Como serão as Vagas.
Nunca falei com Deus
Nem visitei o céu —
Mas sei tão bem o caminho
Qual se o Mapa fora meu.
c. 1865 / 1890
(in 80 Poemas de Emily Dickinson, tradução de Jorge de Sena, edições 70, 1979)
24.3.10
23.3.10
[outros melros LVIII]
JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES
Cape Cod Evening
Subo no fim da tarde
com os fumos das ervas secas
ao alto donde se vê o mar.
Recolho os cereais cortados.
A hera cresce pelo choupo.
Os plátanos raiam com a luz.
A rã saiu do lodo para a fonte.
Os bugalhos tombam
no barro dos campos.
Cantam os melros no trigo colhido.
Voltei, vê tu, dizem as coisas.
A luz interior acende-se
no poço da voz, mortal
e pronta a não mais findar.
(de Alguns Livros Reunidos, Contexto, 1987)
JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES
Cape Cod Evening
Subo no fim da tarde
com os fumos das ervas secas
ao alto donde se vê o mar.
Recolho os cereais cortados.
A hera cresce pelo choupo.
Os plátanos raiam com a luz.
A rã saiu do lodo para a fonte.
Os bugalhos tombam
no barro dos campos.
Cantam os melros no trigo colhido.
Voltei, vê tu, dizem as coisas.
A luz interior acende-se
no poço da voz, mortal
e pronta a não mais findar.
(de Alguns Livros Reunidos, Contexto, 1987)
22.3.10
LUIZA NETO JORGE
«MONUMENTO ÀS AVES»
Com a exacta segurança do guindaste
erguem-se transportando
o peso intenso
do objecto que se ergue
Atmosfera de pássaros
(mágicos cavalgando
a alta realidade)
montanha aérea transposta
por nós aves
O peso desses gordos pássaros
o extenso facto de voo dessas aves
conduz a nossa emigração
(de O Seu a Seu Tempo, 1966)
«MONUMENTO ÀS AVES»
Com a exacta segurança do guindaste
erguem-se transportando
o peso intenso
do objecto que se ergue
Atmosfera de pássaros
(mágicos cavalgando
a alta realidade)
montanha aérea transposta
por nós aves
O peso desses gordos pássaros
o extenso facto de voo dessas aves
conduz a nossa emigração
(de O Seu a Seu Tempo, 1966)
GASTÃO CRUZ
As aves que se movem já não têm
esta vida das folhas apagada
aves apenas mortas e sem nada
que lhes suprima a morte ou dê sequer
o movimento pálido do ar
nelas passando vezes que não é
possível já contar pois tantas vezes
o ar as move que se movem aves
embora no outono já não caiam
folhas ou aves ou talvez só caia
o movimento destas folhas morto
pois é pálido o ar aves e folhas
morrem na seca palidez que o move
e porque os homens não os move o ar
(de As Aves, 1969)
As aves que se movem já não têm
esta vida das folhas apagada
aves apenas mortas e sem nada
que lhes suprima a morte ou dê sequer
o movimento pálido do ar
nelas passando vezes que não é
possível já contar pois tantas vezes
o ar as move que se movem aves
embora no outono já não caiam
folhas ou aves ou talvez só caia
o movimento destas folhas morto
pois é pálido o ar aves e folhas
morrem na seca palidez que o move
e porque os homens não os move o ar
(de As Aves, 1969)
21.3.10
LEVI CONDINHO
ALPHAVILLE
Perseguimos ainda um tempo de vida iluminada
Mas não é disso que nos falam
Eles falam de outras coisas
Coisas muito concretas aparentemente inofensivas
Não há memória nos seus olhos
Não há olhos nos seus olhos
A raiva e as lágrimas os sorrisos do fim da noite
(Quando é de braços entrelaçados a noite)
Nada disso lhes diz respeito
Coração? Dúvida? — coisas de menor importância
A riscar da vida
Nos nossos lábios ainda e sempre húmidos
Nas nossas pálpebras pássaros inquietos
Perdura o rio da infância e é de amor que nós falamos
Rebenta o nosso peito ao querer dizer o indizível
Perante isto eles riem metalicamente
Pensando o escárnio
Pensando a morte sobre nós
Pois bem: resistiremos
E a Paixão será reposta no mundo
Liberta finalmente de significados dúbios
(de Para que alguns me possam amar, edições Távola Redonda, 1977 - série «Taboada da Marginal-Idade»)
ALPHAVILLE
Perseguimos ainda um tempo de vida iluminada
Mas não é disso que nos falam
Eles falam de outras coisas
Coisas muito concretas aparentemente inofensivas
Não há memória nos seus olhos
Não há olhos nos seus olhos
A raiva e as lágrimas os sorrisos do fim da noite
(Quando é de braços entrelaçados a noite)
Nada disso lhes diz respeito
Coração? Dúvida? — coisas de menor importância
A riscar da vida
Nos nossos lábios ainda e sempre húmidos
Nas nossas pálpebras pássaros inquietos
Perdura o rio da infância e é de amor que nós falamos
Rebenta o nosso peito ao querer dizer o indizível
Perante isto eles riem metalicamente
Pensando o escárnio
Pensando a morte sobre nós
Pois bem: resistiremos
E a Paixão será reposta no mundo
Liberta finalmente de significados dúbios
(de Para que alguns me possam amar, edições Távola Redonda, 1977 - série «Taboada da Marginal-Idade»)
20.3.10
VASCO GATO
5
Os tigres mediterrânicos somos nós,
compassos cravados
no músculo tardio do desejo.
Hausto submerso, patas
numa cicatriz acordada
entre a tua carne
e a minha.
Remendados assim,
tão
lentos.
(de Cerco Voluntário, Cadernos do Campo Alegre, 2009)
5
Os tigres mediterrânicos somos nós,
compassos cravados
no músculo tardio do desejo.
Hausto submerso, patas
numa cicatriz acordada
entre a tua carne
e a minha.
Remendados assim,
tão
lentos.
(de Cerco Voluntário, Cadernos do Campo Alegre, 2009)
15.3.10
PAULO JOSÉ MIRANDA
[...]
(excerto de Natureza Morta, livros Cotovia, 1998 – três razões)
JEAN-BAPTISTE-SIMÉON CHARDIN

LÍDIA JORGE
[…]
(excerto de A Costa dos Murmúrios, 1988)
[...]
Em Paris, em casa de um amigo, João [Domingos Bomtempo] pôde presenciar um quadro de Chardin que não mais esquecera e havia de o tentar continuamente, Cesta de pêssegos com nozes, groselhas e cerejas. O quadro caía novamente pelo interior da sua atenção. No centro, os pêssegos ordenados, empilhados, aprisionados na cesta, era o que primeiro nos surgia, num leve muito leve contraste com o fundo, a parede escura, porque também eles eram escuros, principalmente os que se viam no rebordo da cesta. Havia contudo um pêssego, quase no centro da cesta, no centro do quadro, que clareava, mais claro do que as nozes à esquerda fora da cesta e onde uma luz incidia, ou mais claro do que as groselhas que, do lado direito do pêssego e do lado esquerdo das cerejas, estas encostadas, completavam a matéria orgânica. Havia ainda uma pequena cereja abandonada entre as nozes e as groselhas. A mesa também apresentava um matiz mais claro do que a parede. Mas a luz naquele pêssego era um segredo, como se viesse do seu interior e não do exterior, alguém no meio do nada a querer impor uma fé, um sentido a toda aquela morte. Se os frutos pudessem aguardar alguma coisa, aguardavam apenas o apodrecimento. Separados das suas árvores nada mais poderiam esperar. E um só pêssego parecia contrariar todo o abandono a que aquela breve vida estava votada. E é do abandono a que sempre estive exposto, mas que só agora com a morte de meu tio consciencializei, que esta composição deverá tratar. Por conseguinte, agora é que já não podiam existir quaisquer dúvidas acerca da natureza desta composição. E definitivamente um Requiem: lembrar a Deus as almas daqueles que me morreram. As almas, que para Deus são pêssegos sobre uma mesa.
[…](excerto de Natureza Morta, livros Cotovia, 1998 – três razões)
JEAN-BAPTISTE-SIMÉON CHARDIN

Basket of Plums, c. 1765
óleo sobre tela
Norfolk, Chrysler Museum of Art
óleo sobre tela
Norfolk, Chrysler Museum of Art
LÍDIA JORGE
[…]
Imerso, claro, o que não poderia ser doutro modo. O sentido da sua recordação, atendendo ao que recorda, mantém-se tão inviolável quanto o é, por exemplo, a razão profunda do pêssego. Nessa matéria, é um erro imaginar que as pessoas sejam superiores às aves, às trutas ou aos pêssegos. No pêssego, como em qualquer outro corpo, tudo converge para um caroço inquebrável que existe dentro e fora de todo o caroço, e que não se vê nem se acha na implosão dos frutos, nem na explosão deles até às coisas siderais. Sabe bem como um pêssego peludo, no meio dum prato, é um razoável mistério. Ora bem, não será perverso dizer a quem pretender achar o âmago dessa pequena recordação, que não o acha, mesmo que, um a um, persiga os passos de todas as figuras que patinharam nesse Verão secreto, até ao último instante. Misterioso como o pêssego – uma memória fluida é tudo o que fica de qualquer tempo, por mais intenso que tenha sido o sentimento, e só fica enquanto não se dispersa no ar. Embora, ao contrário do que pensa, não ignore a História. Acho até interessante a pretensão da História, ela é um jogo muito mais útil e complexo do que as cartas de jogar. Mas neste caso, porque insiste em História e em memória, e ideias dessas que tanto inquietam? Ah, se conta, conte por contar, e é tudo o que vale e fica dessa canseira! Se é com uma outra intenção, deixe-se disso – reprima-se, deite-se, tome uma pastilha e durma a noite toda, porque o que possa ficar da sua memória sobre a minha memória não vale a casca de um fruto deixado a meio dum prato. Como lhe disse, maravilha-me esse relato sobretudo pela verdade do cheiro e do som.
Não, não é pouco o cheiro e o som.
Se entender apenas o cheiro da fruta que lá tão rapidamente apodrecia, ou o som do mar tão idêntico em todo o mundo, sim, seria. Pense, porém, como o som das figuras pode ser a sua voz, o perfume delas pode ser tão intenso que constitua sem querer o halo perfeito das suas almas. Há outras coincidências para além do cheiro e do som.
Aconselho-o, porém, a que não se preocupe com a verdade que não se reconstitui, nem com a verosimilhança que é uma ilusão dos sentidos. Preocupe-se com a correspondência. Ou acredita noutra verdade que não seja a que se consegue a partir da correspondência? […]
(excerto de A Costa dos Murmúrios, 1988)
11.2.10
MARIA TERESA DUARTE MARTINHO
2008-2009
Ondula bandeira esvoaça cortina
Abre-se janela liberta-se ar
Presa palmeira a cena sonha:
De vez fogem aves
Largam pouso esquecem horas
Só seu voo perseguem
Outro avião as nuvens ilude
Alta torre também voa,
O céu risca
Em desapego espectacular
(in Telhados de Vidro, N.º 13 - Novembro 2009)
2008-2009
Ondula bandeira esvoaça cortina
Abre-se janela liberta-se ar
Presa palmeira a cena sonha:
De vez fogem aves
Largam pouso esquecem horas
Só seu voo perseguem
Outro avião as nuvens ilude
Alta torre também voa,
O céu risca
Em desapego espectacular
(in Telhados de Vidro, N.º 13 - Novembro 2009)
FERNANDO GRADE
BECO DE CÂNDIDOS SARILHOS
Cidade de becos, pedra preta, lontras.
O que as pessoas cospem ou pensam
ou dizem é sempre pouco.
Ver julgar diverte-me.
Mas são apenas fardos de palha, palavras
à procura de uma bala.
E um dia as balas serão belas.
O pai traz o guarda-chuva, a boina e as bandeiras.
A prima traz o medo e a fruta táctil.
A má escondeu as bonecas no meio do restolho.
Mãe beijada.
Mãe vassoura.
Oh mãe de perfumados frutos castos.
Há-de ser fogosa a obra ida sogra.
Não acredito senão em carroças sonolentas
e a água que criei era de moscas.
Cuspi no dia manso por atalhos de água.
Ao fundo — no feno —, os vícios continuam:
o pai traz o porco cálido e as canastras;
a mãe tem um avental rigoroso como as serpentes e os beijos.
Não acredito que numa noite de muito vento
os remorsos não desçam das árvores
e peguem fogo ao teu caminho.
Não era de veludo o lobo que criaste,
17-3-1984
(de Alma Burra, edições Mic, 1987
BECO DE CÂNDIDOS SARILHOS
Cidade de becos, pedra preta, lontras.
O que as pessoas cospem ou pensam
ou dizem é sempre pouco.
Ver julgar diverte-me.
Mas são apenas fardos de palha, palavras
à procura de uma bala.
E um dia as balas serão belas.
O pai traz o guarda-chuva, a boina e as bandeiras.
A prima traz o medo e a fruta táctil.
A má escondeu as bonecas no meio do restolho.
Mãe beijada.
Mãe vassoura.
Oh mãe de perfumados frutos castos.
Há-de ser fogosa a obra ida sogra.
Não acredito senão em carroças sonolentas
e a água que criei era de moscas.
Cuspi no dia manso por atalhos de água.
Ao fundo — no feno —, os vícios continuam:
o pai traz o porco cálido e as canastras;
a mãe tem um avental rigoroso como as serpentes e os beijos.
Não acredito que numa noite de muito vento
os remorsos não desçam das árvores
e peguem fogo ao teu caminho.
Não era de veludo o lobo que criaste,
17-3-1984
(de Alma Burra, edições Mic, 1987
10.2.10
ANTÓNIO OSÓRIO
OS LOUCOS
Há vários tipos de louco.
O hitleriano, que barafusta.
O solícito, que dirige o trânsito.
O maníaco fala-só.
O idiota que se baba,
explicado pelo psiquiatra gago.
O legatário de outros,
o que nos governa.
O depressivo que salva
o mundo. Aqueles que o destroem.
E há sempre um
(o mais intratável) que não desiste
e escreve versos.
Não gosto destes loucos.
(Torturados pela escuridão, pela morte?)
Gosto desta velha senhora
que ri, manso, pela rua, de felicidade.
(de A Ignorância da Morte, 1978)
OS LOUCOS
Há vários tipos de louco.
O hitleriano, que barafusta.
O solícito, que dirige o trânsito.
O maníaco fala-só.
O idiota que se baba,
explicado pelo psiquiatra gago.
O legatário de outros,
o que nos governa.
O depressivo que salva
o mundo. Aqueles que o destroem.
E há sempre um
(o mais intratável) que não desiste
e escreve versos.
Não gosto destes loucos.
(Torturados pela escuridão, pela morte?)
Gosto desta velha senhora
que ri, manso, pela rua, de felicidade.
(de A Ignorância da Morte, 1978)
9.2.10
MARIA ALBERTA MENÉRES
Inquieto sono o teu, sobre a copa das árvores.
A cada voz de pássaro ocultado
estremecem teus lábios virtuais!
Uma pequena saudade vem de ti
e do próximo rumor da madrugada
onde vais esquecendo teu primeiro sentido.
Já subindo da terra te oferecem as flores,
em cada gesto igual que as distingue,
o alimento para a tua fome.
E entrarás no primeiro segredo
e teus lábios virtuais repetirão as flores
abençoadas na carne e pelo tempo!
Já nos teus olhos correm as cascatas do mundo,
as belas cascatas indomáveis
onde a pequena pedra tem um corpo alegre!
Mas tu não ris, que o riso partiria
mais solto do que o vento, mais leve que a neblina,
e viria tocar breve o teu sono.
Mas tu não ris: e fácil, redimido,
entrarás no primeiro segredo
que para nós se oculta sob a copa das árvores.
(de Cântico de Barro, 1954)
Inquieto sono o teu, sobre a copa das árvores.
A cada voz de pássaro ocultado
estremecem teus lábios virtuais!
Uma pequena saudade vem de ti
e do próximo rumor da madrugada
onde vais esquecendo teu primeiro sentido.
Já subindo da terra te oferecem as flores,
em cada gesto igual que as distingue,
o alimento para a tua fome.
E entrarás no primeiro segredo
e teus lábios virtuais repetirão as flores
abençoadas na carne e pelo tempo!
Já nos teus olhos correm as cascatas do mundo,
as belas cascatas indomáveis
onde a pequena pedra tem um corpo alegre!
Mas tu não ris, que o riso partiria
mais solto do que o vento, mais leve que a neblina,
e viria tocar breve o teu sono.
Mas tu não ris: e fácil, redimido,
entrarás no primeiro segredo
que para nós se oculta sob a copa das árvores.
(de Cântico de Barro, 1954)
LUIS CERNUDA
ONDE HABITE O ESQUECIMENTO
Onde habite o esquecimento,
Nos vastos jardins sem madrugada;
Onde eu seja somente
Lembrança de uma pedra sepultada entre urtigas
Sobre a qual o vento foge à sua insónia.
Onde o meu nome deixe
O corpo que ele aponta entre os braços dos séculos,
Onde o desejo não exista.
Nessa grande região onde o mar, anjo terrível,
Não esconda como espada
Sua asa em meu peito,
Sorrindo cheio de graça etérea enquanto cresce a dor.
Além onde termine este anseio que exige um dono à sua imagem,
Submetendo a sua vida a outra vida,
Sem mais horizonte que outros olhos frente a frente.
Onde dores e alegrias não sejam mais que nomes,
Céu e terra nativos em redor de uma lembrança;
Onde ao fim fique livre sem eu mesmo o saber,
Dissolvido em névoa, ausência,
Ausência leve como carne de uma criança.
Além, além, longe;
Onde habite o esquecimento.
(tradução de José Bento, in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea, Assírio & Alvim, 1985 - documenta poetica)
ONDE HABITE O ESQUECIMENTO
Onde habite o esquecimento,
Nos vastos jardins sem madrugada;
Onde eu seja somente
Lembrança de uma pedra sepultada entre urtigas
Sobre a qual o vento foge à sua insónia.
Onde o meu nome deixe
O corpo que ele aponta entre os braços dos séculos,
Onde o desejo não exista.
Nessa grande região onde o mar, anjo terrível,
Não esconda como espada
Sua asa em meu peito,
Sorrindo cheio de graça etérea enquanto cresce a dor.
Além onde termine este anseio que exige um dono à sua imagem,
Submetendo a sua vida a outra vida,
Sem mais horizonte que outros olhos frente a frente.
Onde dores e alegrias não sejam mais que nomes,
Céu e terra nativos em redor de uma lembrança;
Onde ao fim fique livre sem eu mesmo o saber,
Dissolvido em névoa, ausência,
Ausência leve como carne de uma criança.
Além, além, longe;
Onde habite o esquecimento.
(tradução de José Bento, in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea, Assírio & Alvim, 1985 - documenta poetica)
8.2.10
HENRI MICHAUX
— E é sempre —
E é sempre o lanho feito com a lança
o enxame de vespas que ataca os olhos
a lepra
e é sempre o flanco aberto
e é sempre o enterrado vivo
e é sempre o tabernáculo partido
o braço fraco como um cílio contra o rio
e é sempre a noite que volta
o espaço vazio que espiona
e é sempre a velha correia
e é sempre o enterrado vivo
e é sempre o balcão desmoronado.
O nervo trilhado no fundo do coração que recorda
o pássaro-baobá a chicotear o cérebro
a torrente onde o ser se precipita
e é sempre o encontro no meio da tempestade
e é sempre a orla do eclipse
e é sempre atrás do renque das células
o horizonte recuando, recuando...
(mudado para português por Herberto Helder, in Doze Nós Numa Corda, Assírio & Alvim, 1997)
— E é sempre —
E é sempre o lanho feito com a lança
o enxame de vespas que ataca os olhos
a lepra
e é sempre o flanco aberto
e é sempre o enterrado vivo
e é sempre o tabernáculo partido
o braço fraco como um cílio contra o rio
e é sempre a noite que volta
o espaço vazio que espiona
e é sempre a velha correia
e é sempre o enterrado vivo
e é sempre o balcão desmoronado.
O nervo trilhado no fundo do coração que recorda
o pássaro-baobá a chicotear o cérebro
a torrente onde o ser se precipita
e é sempre o encontro no meio da tempestade
e é sempre a orla do eclipse
e é sempre atrás do renque das células
o horizonte recuando, recuando...
(mudado para português por Herberto Helder, in Doze Nós Numa Corda, Assírio & Alvim, 1997)
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Michaux
[outros melros LVII]
CARLOS MOTA DE OLIVEIRA
A BAGAGEM
(de Rio Arade, Edição de Autor, 1989)
CARLOS MOTA DE OLIVEIRA
A BAGAGEM
Acomodo a um canto do barco a minha pasta e Maria toma-lhe o peso. Só lá tenho coisas leves: castanhas, queijos, azeite, tecidos brancos de algodão, maçãs vermelhas, chapéus de feltro, raposas negras, vinho de palmeira, madeiras valiosas, milho, feijão, um lápis, uma borracha, sete ou oito poemas sobre a praia da Galé, um lenço, vinho novo para oferecer a Júpiter e alguns melros com o peito alaranjado.
(de Rio Arade, Edição de Autor, 1989)
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Carlos Mota Oliveira,
melros,
prosa
7.2.10
CABRAL DO NASCIMENTO
CANTIGA
Coração, onde vos tinha
Posto, se aí vos ficáreis,
Não veríeis novas caras.
Mudei sempre a minha rota,
Deixei isto por aquilo,
Troquei a vida por outra,
Desiludi o destino.
Pus o Norte onde era o Sul,
Do que era noite fiz dia;
Porque não ficastes mudo,
Coração, onde vos tinha?
Torci a roda do leme,
Rasguei as folhas dos mapas,
Tornei as horas incertas,
Depois de serem exactas!
Mas sempre, sempre a meu lado
Alguma coisa caminha;
Antes ficásseis calado,
Coração, onde vos tinha.
(de Confidência, 1945)
CANTIGA
Coração, onde vos tinha
Posto, se aí vos ficáreis,
Não veríeis novas caras.
Mudei sempre a minha rota,
Deixei isto por aquilo,
Troquei a vida por outra,
Desiludi o destino.
Pus o Norte onde era o Sul,
Do que era noite fiz dia;
Porque não ficastes mudo,
Coração, onde vos tinha?
Torci a roda do leme,
Rasguei as folhas dos mapas,
Tornei as horas incertas,
Depois de serem exactas!
Mas sempre, sempre a meu lado
Alguma coisa caminha;
Antes ficásseis calado,
Coração, onde vos tinha.
(de Confidência, 1945)
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