MANUEL GUSMÃO
g;
A mão do poema folheia a minha vida procurando
o sítio onde algo se passou, o sobressalto que ainda
hoje te mantém suspenso, indeciso sobre quem vive
na tua vida? Não eu esta mão guio; quem a guia então
se é ela quem me guia? Que podem os versos saber
desse sítio que o papel não chega para estancar.
O sítio retrai-se quando a mão se aproxima e contudo
é uma figura do medo que nele pulsa e se projecta
por cada vinco e dobra do teu corpo desconhecido.
O poema troca de mão e insiste que o que procura
é o sítio onde por duas vezes olhaste a tua morte
e não era a mesma
(de A Terceira Mão, editorial Caminho, 2007 - o campo da palavra)
30.4.10
29.4.10
VITORINO MAGALHÃES GODINHO
(último parágrafo de A Europa como Projecto, edições Colibri, 2007)
RODOLFO ALONSO
Coda a los ganados y a las mises
Atrás quedó el futuro.
El mañana fue ayer.
Nuestras horas no incluyen
porvenir ni horizonte.
Hubo un tiempo en que había
olores de esperanza.
Hoy es haber perdido
lo que ayer fue mañana.
Hubo. Ya no hay. Ni aquellos
sueños que nos soñaban
hoy se dejan soñar.
De haber sido futuro
hemos sólo pasado.
Pasado del futuro.
(encontrado aqui)
No meio dos regimes totalitários e das incompletas e frágeis democracias do século XX havia esperança acalentada por várias ilusões, pulsava uma tensão para um futuro que a prática efectiva tornava inexequível. Um poema de Rodolfo Alonso (que a Revista Brasileira acaba de republicar, n° 50, 2007, p. 6o), "Coda a los ganados y a las mieses", traduz bem o nosso desacerto perante a derrocada dessas miragens. Houve um tempo de esperança, mas perdemos o que ontem era amanhã; então sonho de porvir, para nós já é passado que não se realizou. Estamos sem futuro nem horizontes; nem sequer podemos sonhar os sonhos que sonhávamos.
«De haber sido futuro
hemos solo pasado.
Pasado del futuro.»
(último parágrafo de A Europa como Projecto, edições Colibri, 2007)
RODOLFO ALONSO
Coda a los ganados y a las mises
Atrás quedó el futuro.
El mañana fue ayer.
Nuestras horas no incluyen
porvenir ni horizonte.
Hubo un tiempo en que había
olores de esperanza.
Hoy es haber perdido
lo que ayer fue mañana.
Hubo. Ya no hay. Ni aquellos
sueños que nos soñaban
hoy se dejan soñar.
De haber sido futuro
hemos sólo pasado.
Pasado del futuro.
(encontrado aqui)
28.4.10
ERNESTO SAMPAIO
DUETO
À beira do Ganges
em fila indiana
no tempo dos reis
frigorificados
havia donzeis
muito mal tratados
Saques fogo posto
tapetes rolantes
e a contragosto
padres saltitantes
Obras completas
concursos torneios
os fins das selectas
justificam os meios
Mulheres fatais
entradas saídas
doenças banais
falsas partidas
Vidas anteriores
fadigas supremas
homens superiores
tis e tremas
Grande abundância
de ninharias
Camões em Constância
Fialho em Pias
Comendas drageias
salões tatuagens
muitas cadeias
poucas aragens
Sorrisos consensos
leilões desgraças
bandeiras e lenços
roídos pelas traças
(de Feriados Nacionais, Fenda edições, 1999 - Fenda Luminosa)
DUETO
À beira do Ganges
em fila indiana
no tempo dos reis
frigorificados
havia donzeis
muito mal tratados
Saques fogo posto
tapetes rolantes
e a contragosto
padres saltitantes
Obras completas
concursos torneios
os fins das selectas
justificam os meios
Mulheres fatais
entradas saídas
doenças banais
falsas partidas
Vidas anteriores
fadigas supremas
homens superiores
tis e tremas
Grande abundância
de ninharias
Camões em Constância
Fialho em Pias
Comendas drageias
salões tatuagens
muitas cadeias
poucas aragens
Sorrisos consensos
leilões desgraças
bandeiras e lenços
roídos pelas traças
(com o Parricida dos Anjos)
(de Feriados Nacionais, Fenda edições, 1999 - Fenda Luminosa)
27.4.10
CARLOS GARCIA DE CASTRO
Manifesto
Mágicas, ainda existem
as grandes Tabacarias,
como atractivo mesteiral das artes.
— Mas são diferentes os ócios.
Não produzimos frenesins pacíficos.
Freud ensinou-nos a ciência dúplice
de preservar, vigilantes,
as almas adolescentes
permanentes
e a carne complicada de incapazes.
Estes poetas não precisam já
dos dramas do onanismo,
não se amedrontam dos seus próprios quartos.
Estes poetas não precisam já
de violoncelos.
— Nem de procissões!
santos, teologias,
fingimentos, Renascenças,
senhoras-mães-dependências
profissionais e mentais
da esplendorosa preguiça
que a rastos se faz enorme
presunção da burguesia
liberal, nacionalista,
de absinto, com sopeiras.
Esoterismo, o plâncton
das mansas esquizofrenias
que a natureza desculpa
com pontes do tédio alado.
A salvação, maravilha
das anarquias domésticas,
crucianas, pelos Cafés,
com verbos e metafísica.
Estes poetas já não são suicidas.
Já não se diz nem faz só por dizer-se.
A nova história será sempre a mesma,
não se provoca só por bem falar.
— Lá muito adiante a eternidade é escusa.
(E estes poetas já serão poetas?)
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Sair de casa de manhã, tratado,
já predisposto mais um dia solto,
— quanto me custa por haver emprego!
(de Rato do campo, edições Colibri, 1998)
Manifesto
Mágicas, ainda existem
as grandes Tabacarias,
como atractivo mesteiral das artes.
— Mas são diferentes os ócios.
Não produzimos frenesins pacíficos.
Freud ensinou-nos a ciência dúplice
de preservar, vigilantes,
as almas adolescentes
permanentes
e a carne complicada de incapazes.
Estes poetas não precisam já
dos dramas do onanismo,
não se amedrontam dos seus próprios quartos.
Estes poetas não precisam já
de violoncelos.
— Nem de procissões!
santos, teologias,
fingimentos, Renascenças,
senhoras-mães-dependências
profissionais e mentais
da esplendorosa preguiça
que a rastos se faz enorme
presunção da burguesia
liberal, nacionalista,
de absinto, com sopeiras.
Esoterismo, o plâncton
das mansas esquizofrenias
que a natureza desculpa
com pontes do tédio alado.
A salvação, maravilha
das anarquias domésticas,
crucianas, pelos Cafés,
com verbos e metafísica.
Estes poetas já não são suicidas.
Já não se diz nem faz só por dizer-se.
A nova história será sempre a mesma,
não se provoca só por bem falar.
— Lá muito adiante a eternidade é escusa.
(E estes poetas já serão poetas?)
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Sair de casa de manhã, tratado,
já predisposto mais um dia solto,
— quanto me custa por haver emprego!
Fevereiro, 1988
(de Rato do campo, edições Colibri, 1998)
26.4.10
HELDER MOURA PEREIRA
EXORCISMO [excerto]
[...]
Sei de sacanas que lêem
Herberto Helder, Cesariny,
João Miguel Fernandes Jorge.
Sei de um deputado do ps
que nunca havia de meter mulheres
numa empresa que tivesse.
Os sacanas são mais que as mães,
fingem até concordar com
Joaquim Manuel Magalhães.
Ninguém me enganou, ninguém
me traiu, assim esboço
o caminho da minha empresa.
(de Em Cima do Acontecimento, edição do Autor, s. d. [1995] - em nota que abre o livro, o Autor refere, entre outras coisas, que "Todas as referências concretas são abstractas.")
EXORCISMO [excerto]
[...]
Sei de sacanas que lêem
Herberto Helder, Cesariny,
João Miguel Fernandes Jorge.
Sei de um deputado do ps
que nunca havia de meter mulheres
numa empresa que tivesse.
Os sacanas são mais que as mães,
fingem até concordar com
Joaquim Manuel Magalhães.
Ninguém me enganou, ninguém
me traiu, assim esboço
o caminho da minha empresa.
(de Em Cima do Acontecimento, edição do Autor, s. d. [1995] - em nota que abre o livro, o Autor refere, entre outras coisas, que "Todas as referências concretas são abstractas.")
25.4.10
FERNANDO SYLVAN
NATAL PORTUGUÊS
Menino Jesus, Menino irmão:
Deixa-me contar ao povo português,
como se contasse «Era uma vez...»
que errada estava a tua certidão.
O dia estava certo, o mês, porém, não.
«...pois nesse tempo na Judeia se enganaram
quando o seu nascimento registaram...»
Menino Jesus, Menino Irmão:
Deixa que os Meninos, aqui, em Portugal,
a 25 de Abril celebrem o Natal.
(de Meninas e Meninos, 1979)
NATAL PORTUGUÊS
Menino Jesus, Menino irmão:
Deixa-me contar ao povo português,
como se contasse «Era uma vez...»
que errada estava a tua certidão.
O dia estava certo, o mês, porém, não.
«...pois nesse tempo na Judeia se enganaram
quando o seu nascimento registaram...»
Menino Jesus, Menino Irmão:
Deixa que os Meninos, aqui, em Portugal,
a 25 de Abril celebrem o Natal.
(de Meninas e Meninos, 1979)
JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES
25 DE ABRIL DE 1974 [excerto]
O telefone tocou. Tão de noite
e sem sentido que temi acordar-me.
A minha irmã agitava-se do Minho
que Lisboa estava cercada.
Não sabia como nem porquê. Nem o rádio
com marchas. É o Programa da Noite
com folclore de estádio, pensei eu
a caminho de nova campainha.
Era a vez algarvia da Ana. Sublevação,
confiava ela. E de comunicado,
ouvíamos os dois na Emissora
com Hino fora do encerramento.
A confusão adensava mas sempre era
confusão, ao menos isso.
Vesti-me e fomos para a rua
acordar o Palolo. “É uma revolução!”
Foi à janela e viu gente a correr.
“Agora! É a feira cá do bairro.”
Ríamo-nos nesse dia de mais mercado
a uma luz matinal estremunhada
que nunca mais voltaria a haver.
Andámos por todo o lado a ver a tropa
nos blindados de fantasia.
(de Os dias, pequenos charcos, editorial Presença, 1981)
25 DE ABRIL DE 1974 [excerto]
O telefone tocou. Tão de noite
e sem sentido que temi acordar-me.
A minha irmã agitava-se do Minho
que Lisboa estava cercada.
Não sabia como nem porquê. Nem o rádio
com marchas. É o Programa da Noite
com folclore de estádio, pensei eu
a caminho de nova campainha.
Era a vez algarvia da Ana. Sublevação,
confiava ela. E de comunicado,
ouvíamos os dois na Emissora
com Hino fora do encerramento.
A confusão adensava mas sempre era
confusão, ao menos isso.
Vesti-me e fomos para a rua
acordar o Palolo. “É uma revolução!”
Foi à janela e viu gente a correr.
“Agora! É a feira cá do bairro.”
Ríamo-nos nesse dia de mais mercado
a uma luz matinal estremunhada
que nunca mais voltaria a haver.
Andámos por todo o lado a ver a tropa
nos blindados de fantasia.
(de Os dias, pequenos charcos, editorial Presença, 1981)
24.4.10
TASSOS DENEGRIS
NÃO SEI AFINAL O QUE DIZER
Quero falar sobre os laços
Da Primavera
A torrente das frustrações
Os fantasmas no túnel do sono
Nós na boca do lobo
O rio das mulheres
O rio dos corajosos.
Esta Primavera
Quebra-nos os ossos
E conduz à beira da loucura
Aqueles que aspiram
Ao mar
Como ideia como água
Como visão e glória.
Quero falar sobre os laços
Que se tornarão mais sensíveis
E insuportáveis
Com a chegada da Primavera ática.
(de A Outra Versão, tradução colectiva (Outubro de 1992), revista e apresentada por Fiama Hasse Pais Brandão com a colaboração de Nuno Júdice, Quetzal editores, 1994 - Poetas em Mateus)
NÃO SEI AFINAL O QUE DIZER
Quero falar sobre os laços
Da Primavera
A torrente das frustrações
Os fantasmas no túnel do sono
Nós na boca do lobo
O rio das mulheres
O rio dos corajosos.
Esta Primavera
Quebra-nos os ossos
E conduz à beira da loucura
Aqueles que aspiram
Ao mar
Como ideia como água
Como visão e glória.
Quero falar sobre os laços
Que se tornarão mais sensíveis
E insuportáveis
Com a chegada da Primavera ática.
22 de Novembro de 1971
(de A Outra Versão, tradução colectiva (Outubro de 1992), revista e apresentada por Fiama Hasse Pais Brandão com a colaboração de Nuno Júdice, Quetzal editores, 1994 - Poetas em Mateus)
23.4.10
NUNO MILAGRE
um plástico a voar
um saco de plástico no ar
saco preto que range baixinho
plástico fininho
desses que dão para quase tudo
um saco vazio a voar
inspiro, subo mais alto
plástico à vela
à altura de um nono andar, ou mais
um desses sacos esgaçados
que nada pesam
e dão para quase tudo, até voar
somos plásticos no ar
roçando prédios e árvores
plásticos quase brilhantes
pretos meio transparentes
opacos brilhando do alto
vendo as terras do espaço
ou presos a arame farpado
um plástico a voar no dia feriado
ainda não é tarde, são catorze e trinta
(de Um beijo no meio da crise, edição do Autor, 2009)
um plástico a voar
um saco de plástico no ar
saco preto que range baixinho
plástico fininho
desses que dão para quase tudo
um saco vazio a voar
inspiro, subo mais alto
plástico à vela
à altura de um nono andar, ou mais
um desses sacos esgaçados
que nada pesam
e dão para quase tudo, até voar
somos plásticos no ar
roçando prédios e árvores
plásticos quase brilhantes
pretos meio transparentes
opacos brilhando do alto
vendo as terras do espaço
ou presos a arame farpado
um plástico a voar no dia feriado
ainda não é tarde, são catorze e trinta
(de Um beijo no meio da crise, edição do Autor, 2009)
22.4.10
SAINT JOHN-PERSE
IX
IX
De parcela em parcela do tempo parcial, o pássaro criador do seu voo sobe escadas invisíveis e ganha altura...
Como se fora uma corrente de escovém, desde a nossa profundidade nocturna, enquanto ganha o largo, puxa a si o traço interminável do homem que não pára de lhe agravar o peso. Do alto segura o fio da nossa vigília. E uma noite soltará esse pio sei lá de onde, que em sonhos faz erguer a cabeça ao adormecido.
Chegámos a vê-lo no velino de uma aurora: ou de passagem, negro — quer dizer branco — no espelho de uma noite de outono, com os gansos bravos dos velhos poetas Song, e deixava-nos sem fala no bronze dos gongues.
De ser inteiro tende para lugares sem paragem. É nosso emissário e quem nos inicia. «Senhor do Sonho, conta-nos o sonho!...»
Porém ele, vestido com pouco cinzento ou a despir-se dele para um dia nos explicar melhor a inaderência da cor — em todo este leite de uma lua parda ou verde e de feliz semente, em toda esta claridade de nácar verde ou rósea, que é também a do sonho por ser a dos pólos e das pérolas no fundo do mar — ele navegava diante do sonho e dava esta resposta: «Chegar mais longe!...»
Entre os animais que não deixaram de habitar o homem como uma arca viva, o pássaro, com um piar muito prolongado, com o seu incitamento ao voo, foi o único a dotar o homem de uma nova audácia.
(de Pássaros, tradução de Aníbal Fernandes, Hiena editora, 1994)
(de Pássaros, tradução de Aníbal Fernandes, Hiena editora, 1994)
21.4.10
(Óbidos, 21 de Abril de 2010)
JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE
UM PASSO DENTRO DA VILA
Nenhum dos vivos escapará à pedra de toque que
é a morte. Mas primeiro passou pelo limite do deserto — a dor
e as areias crescem ao seu redor. Por entre as casas da aldeia
jamais são portadoras de um acaso feliz
sobem a rua direita de grande laje
da porta da muralha à igreja mais cimeira. Em Óbidos
ouve-se melhor o de profundis, há um registo daquilo que se
perdeu.
A laje, dizem que foi lançada para o passo do viático.
Passo último que concede transfiguração. Quem
hoje pisar o longo dessa pedra
perdido no abismo mais íntimo das areias do deserto
na vegetação da floresta
já não atende ao som breve da torre sineira. A violência é
o que recebe de próximos e
vizinhos quando não se ajustam, como a palma das mãos, ao seu
olhar; desterrado, dentro do termo de Óbidos (as margens vão
até ao mar, morrem nas salinas a oriente
e a norte, a grande nave cobre-lhe os sentidos), respira o
espaço longínquo e o tempo remoto para além, muito além do
espesso muro da matéria.
(de Termo de Óbidos, Relógio d'Água, 2006)
20.4.10
FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO
10
Admiro a tecedora porque tem consentido
que a assemelhem à poesia.
Mesmo com os cílios a perturbar-lhe
o movimento dos fios e os dedos
tocados por uma estranha resignação,
ela tece os caudais líquidos
que escorrem na sensibilidade do poeta
desde que era criança. Aqueles
que não imaginaram na ceifeira de uhland
o cântico mais remoto da nova
ceifeira de fernando pessoa podem
agora começar a imaginá-lo. Mas eu admiro
sobretudo a injustiça para com
a tecedora, a de atribuir
aos seus dedos esfacelados
a incipiência do poema. Ela soube
ser responsável pela perdição
ou a desaparição dos homens nas palavras,
até estes voltarem a emergir
dessas palavras alteradas e inalteradas.
A poesia iludira-se ao pensar
que a alteração que atingira os objectos
deixara ser idêntico, até nova comparação,
o poeta. O próprio termo poesia
pudera orientar a sua sombra
no sentido de manter cintilante
a metáfora da tecedora, até terminar
e recomeçar a teia, com o ritmo
passando a tempos regulares
os fios obliquados pela luz.
Toda a crítica tem exaltado o poema
como uma produção da mecânica manual
oposta à idade do amor espontâneo,
os jorros do lirismo.
Eu abjuro da tecedora porque
muitas vezes tem correspondido
a quem lhe diz que a harpa produz
estopa. Se nem um tecido
é rigoroso com traços e sombreados
quando muito harmoniosos, nunca simétricos,
como o pode ser a soldagem
dos termos lexicais ligados
continuamente por espaços brancos.
Como evitar que o fim da página
se ligue ao cosmos materialmente
e, em vez de tornar-se um tecido
tranquilo, o poema se desagregue,
repetindo assim o movimento
de que nascera e fora contrariado
pela escrita. Ao chocalhar
todas as frases, os versos
caem uns dentro dos outros,
e o poeta vê-se perante a impotência
de os refazer sílaba a sílaba.
Só a tecedora tem o privilégio
de romper os fios pelo fogo.
(de Área Branca, 1979)
10
Admiro a tecedora porque tem consentido
que a assemelhem à poesia.
Mesmo com os cílios a perturbar-lhe
o movimento dos fios e os dedos
tocados por uma estranha resignação,
ela tece os caudais líquidos
que escorrem na sensibilidade do poeta
desde que era criança. Aqueles
que não imaginaram na ceifeira de uhland
o cântico mais remoto da nova
ceifeira de fernando pessoa podem
agora começar a imaginá-lo. Mas eu admiro
sobretudo a injustiça para com
a tecedora, a de atribuir
aos seus dedos esfacelados
a incipiência do poema. Ela soube
ser responsável pela perdição
ou a desaparição dos homens nas palavras,
até estes voltarem a emergir
dessas palavras alteradas e inalteradas.
A poesia iludira-se ao pensar
que a alteração que atingira os objectos
deixara ser idêntico, até nova comparação,
o poeta. O próprio termo poesia
pudera orientar a sua sombra
no sentido de manter cintilante
a metáfora da tecedora, até terminar
e recomeçar a teia, com o ritmo
passando a tempos regulares
os fios obliquados pela luz.
Toda a crítica tem exaltado o poema
como uma produção da mecânica manual
oposta à idade do amor espontâneo,
os jorros do lirismo.
Eu abjuro da tecedora porque
muitas vezes tem correspondido
a quem lhe diz que a harpa produz
estopa. Se nem um tecido
é rigoroso com traços e sombreados
quando muito harmoniosos, nunca simétricos,
como o pode ser a soldagem
dos termos lexicais ligados
continuamente por espaços brancos.
Como evitar que o fim da página
se ligue ao cosmos materialmente
e, em vez de tornar-se um tecido
tranquilo, o poema se desagregue,
repetindo assim o movimento
de que nascera e fora contrariado
pela escrita. Ao chocalhar
todas as frases, os versos
caem uns dentro dos outros,
e o poeta vê-se perante a impotência
de os refazer sílaba a sílaba.
Só a tecedora tem o privilégio
de romper os fios pelo fogo.
Julho 76
(de Área Branca, 1979)
19.4.10
JOSÉ OLIVEIRA
VALE DO SILÊNCIO
A noite estende-se, discreta,
sobre o mar.
E um silêncio gelado invade
as águas.
Refugio-me. Estou deitado sobre
o tempo.
Digo em voz alta os nomes castos
das coisas.
Já não há cistros.
Apenas uma tisana para tomar
de madrugada.
quando o medo aperta.
Sigo com o vento.
Oriento-me pelo rasto de sangue
das aves.
Subitamente um corpo estendido
na estrada.
Suor. Recuo. Febre.
Abrigo-me na sombra pura
dos álamos.
Os olhos virados para o silêncio.
Desejaria agora um rosto,
um campo de sargaços,
uma pedra fria, ou o cheiro
da resina.
Um bosque rente à boca.
Mas conheço unicamente o interior
ácido das letras.
Esse rio de melancolia que vai do
corpo à palavra.
(de ciclo do mar, edição do Autor, 1984)
VALE DO SILÊNCIO
A noite estende-se, discreta,
sobre o mar.
E um silêncio gelado invade
as águas.
Refugio-me. Estou deitado sobre
o tempo.
Digo em voz alta os nomes castos
das coisas.
Já não há cistros.
Apenas uma tisana para tomar
de madrugada.
quando o medo aperta.
Sigo com o vento.
Oriento-me pelo rasto de sangue
das aves.
Subitamente um corpo estendido
na estrada.
Suor. Recuo. Febre.
Abrigo-me na sombra pura
dos álamos.
Os olhos virados para o silêncio.
Desejaria agora um rosto,
um campo de sargaços,
uma pedra fria, ou o cheiro
da resina.
Um bosque rente à boca.
Mas conheço unicamente o interior
ácido das letras.
Esse rio de melancolia que vai do
corpo à palavra.
(de ciclo do mar, edição do Autor, 1984)
JOSÉ OLIVEIRA
TACTO
escrever para me ouvir.
Onde o rosto colide e esmaga os dias.
Compreendo a revelação das fomes, dos hinos,
sequências de puro fascínio.
Onde o verão se torna habitável: todo o gesto
desvenda um horizonte de chuva,
de cantos rasos — esta hora por uma vez definitiva,
antes dos nomes.
Que verbo se eleva para o próximo silêncio?
a máquina hesitante? o obscuro ofício?
sei de mim por onde amo o que existe,
a transparência do branco, o subúrbio das feridas,
o nome dos incêndios.
Não consinto a esta noite a luz fácil dos olhos
porque não posso.
Eis minha doença mais secreta: a mortífera habitação
de certos dias
quando em certos dias nada mais existe.
O que passa então pelas mãos?
a ignorância da noite? a vizinhança dos mitos?
trata-se de antecipar as horas mais difíceis.
Nesta casa vem a luz depositar seus tempos de cegueira
o recolhido gesto dos amantes, a última faca.
Já não vejo. Tudo se reduz agora aos domínios pressentidos
seu terminar lento, sua inviolável aparência.
Escrevo porque não conheço a luz.
Outra forma de amar as silhuetas.
(de Melancolismos, edições Inapa, 1989)
TACTO
escrever para me ouvir.
Onde o rosto colide e esmaga os dias.
Compreendo a revelação das fomes, dos hinos,
sequências de puro fascínio.
Onde o verão se torna habitável: todo o gesto
desvenda um horizonte de chuva,
de cantos rasos — esta hora por uma vez definitiva,
antes dos nomes.
Que verbo se eleva para o próximo silêncio?
a máquina hesitante? o obscuro ofício?
sei de mim por onde amo o que existe,
a transparência do branco, o subúrbio das feridas,
o nome dos incêndios.
Não consinto a esta noite a luz fácil dos olhos
porque não posso.
Eis minha doença mais secreta: a mortífera habitação
de certos dias
quando em certos dias nada mais existe.
O que passa então pelas mãos?
a ignorância da noite? a vizinhança dos mitos?
trata-se de antecipar as horas mais difíceis.
Nesta casa vem a luz depositar seus tempos de cegueira
o recolhido gesto dos amantes, a última faca.
Já não vejo. Tudo se reduz agora aos domínios pressentidos
seu terminar lento, sua inviolável aparência.
Escrevo porque não conheço a luz.
Outra forma de amar as silhuetas.
(de Melancolismos, edições Inapa, 1989)
18.4.10
MANUEL DE CASTRO
ICH BIN EIN KROKODIL
ICH BIN EIN KROKODIL
COMO se a febre me tivesse cegado, aqui permaneço, desperto e todavia quieto, até ao momento em que algo vivo se agita (diária e regularmente isto acontece), se agita sobre o pequeno lago artificial cercado por uma alta vedação metálica, onde desde há algum tempo (quanto?) me encerraram.
Sou ainda bastante rápido: ao cair na água, o alimento — carne putrefacta, sem a cor atraente do sangue — produz um surdo «plop» e um instante fulguro depois eu encontro-me sob a superfície da água com a minha boca muito aberta no lugar onde submerge a dose quotidiana de, vida; ao fechá-la os dentes encaixam ruidosamente uns nos outros e o som propaga-se pelo minúsculo oceano circundante. Regresso lentamente à areia.
A carne. É uma matéria que se instala em mim, provisoriamente, é certo, porém que se incorpora no volume que constituo, perturbando-o, alterando-o. Até à defecação, ao uso total daquele alimento, eu sou qualquer coisa de, aumentado, de, por assim dizer, um pouco outro.
Privado de lutas e movimentos largos, a situação é todavia confortável; e esta quantidade de calor, de alimento, embora corrupto e insípido, a nenhum esforço me obriga, excepto o breve mergulho, a velocíssima deglutição.
Acontecem ruídos, vozes.
Inicialmente deixava os meus olhos seguirem uma certa curiosidade que os movia, lentamente, sonolentos, vagarosos, por sobre as coisas e a fútil agitação dos outros animais, principalmente aqueles, extremamente vivazes e inquietos, que rodeiam, de quando em quando, a alta vedação metálica que dá uma dimensão ao meu universo e uma medida (relativa, relativa...) ao meu corpo. Contudo habituei-me. Agora as vozes transformaram-se apenas no cantochão, no fundo sonoro da minha contínua sonolência. Dormito, morno.
O horizonte de que disponho sofre unicamente modificações subtis, quase imponderáveis, que aderem a esta peculiar posição em que me observo, intransmissível e integrada nos limites da minha existência total e absoluta. Os objectos, escravizados pela rotina das gradações sucessivas de claridade, vivem com uma paciência que me é também um pouco própria, submetidos à minha atenção letárgica e no entanto presente, presente, incapaz de os mover porém receptiva e perigosamente sensível. Envolvido por uma aura de líquen e forte temperatura, é uma tepidez húmida, salobra, espessa, que se me vai acumulando sobre a carcassa, como se o tempo esperasse construir um verniz baço que me defenda das mutações bruscas. Esta capa protectora é um sinal da mansa reconciliação que se desenvolve entre mim e o vagaroso universo silente de que participo. Areia, água, o metal das grades, as plantas aquáticas, os resíduos que de um exterior desconhecido para aqui são arrastados, os movimentos aparentemente absurdos dos animais excitados que me olham com uma repugnância oculta, disfarçada, todos estes elementos se dissolvem nas pequenas nuances abafadas que compõem o tom desta infinita vida de crocodilo, deste reduzido infinito da minha existência de sáurio, cujo comportamento, qualidade e alcance, absorvem, respiram a envolvente luminosidade tíbia e conferem permanência ao perpétuo movimento circular de todas as coisas.
(in Antologia da Poesia Portuguesa 1940-1977 - 2º volume, M. Alberta Menéres e E. M. de Melo e Castro (org.), Moraes editores, 1979 - Círculo de Poesia / original in & etc, 1968)
(in Antologia da Poesia Portuguesa 1940-1977 - 2º volume, M. Alberta Menéres e E. M. de Melo e Castro (org.), Moraes editores, 1979 - Círculo de Poesia / original in & etc, 1968)
Subscrever:
Mensagens (Atom)