8.5.10

JACKSON POLLOCK


Eyes in the Heat, 1946
óleo sobre tela
54x43 cm
Colecção Peggy Guggenheim, Veneza




MARIA TERESA DUARTE MARTINHO


Um quadro

(Eyes in the Heat, Jackson Pollock)

Se fosse um padrão,
teria sido papel abstracto com as cores do Natal
(servira, por exemplo,
para forrar gavetas e livros,
espalhando ideias de pintura,
até entre os que diziam não a ver).
Se fosse um tecido,
era lã e dava uma saia em viés.
Se fosse um espelho,
seríamos, por exemplo,
nós todos,
cada um abraçado ao seu rodopio


(de Visões e Demonstrações, edições Vendaval, 2006)

7.5.10

PEDRO DE ORAÁ


BARAGAÑO ENTRA NO ESPELHO


Enfebrecido pela humidade de uma paisagem mísera de três paredes,
entra na água do espelho sobre a bacia amarelenta,
água cujas reminiscências apagam rostos tão lúcidos
como o seu muitas tardes no porto ou nos alfarrabistas:
aí costumava fazer ironia e sorrir, aí recordava
o terceto de Quevedo e a cidade ilusória,
o flutuar da sua sombra e a sagacidade de Artaud,
ali tirava o sobretudo preto do seu triste coração

Estou certo de que o seu coração clamava aos gritos
contra a postura sardónica, contra o nariz peçonhento,
a sua tendência para dar à língua noite adentro,
para amigos inverosímeis e as companhias gastas:
pálido vinha, desolado de ruas exterminadas à chuva,
de escrutar neves espessas à Poesia, sua jactância admirável
ou a sua má língua: quem o tornou assim se não a Poesia,
o seu amor extremista, o seu ódio à mudez?
Queria conhecê-la como ninguém, à Poesia,
levá-la nas roupas, na mão,
como as pequenas moedas que não chegavam para nada,
e sempre que assim fosse, nos precipitavam
sobressaltados aos cafés e aos lupanares.
Então sentíamo-nos maiores e ele era realmente grande:
em Paris vira os pérfidos delírios de Lautréamont,
conversara sobre a infância cinzenta com a governanta
de Milosz, enfim, ia a Paris para a explorar.

E um dia, entre tolos os dias implacável, instaurou a sua manhã
diferente de teor e humor: voltou transfigurado
das neves, pôs-nos sobre o ombro o seu nome confesso,
José Álvarez. Mas todos regressávamos de obstinados crepúsculos,
de ruas nuas, de amarguras, de pratos frios.
Decidiu, connosco, defender o raio de sol na parede raspada.
Agora, a mão cheia de poesia tem a expressão mais lenta, arranja a gravata:
Baragaño contempla o queixo vaidoso e entra no espelho.


(de Poesia Cubana da Revolução, tradução de Manuel de Seabra, editorial Futura, 1975)
JOSÉ ÁLVAREZ BARAGAÑO


DE POESIAS REVOLUCIONÁRIAS


Serei parco
Para falar da fome da doença da morte
Das ilhas de fruta-pão
Das rosas abanadas por um vento caótico
Falei da vida
Falei do amor
Conheço os ares que se tomam matutando um nome, uma resposta.

Para a casa com todas as portas fechadas
Que só abre as mãos entreabertas do tempo
Nas diversas esmeraldas dos olhos marinhos.

Não o nada e o vazio
Não espalham as cinzas solares à volta do vinho
E as donzelas nuas vencidas por todas as línguas
O oráculo
Olha-me com os seus olhos penetrantes
— Só aquilo que tocares com paixão
O que beijares com os teus lábios de febre
O que insultares através de um véu de sangue
Quando os teus dedos não temem
O punho da faca
— Oh, mentiroso
Tu não recebeste os grandes mensageiros
A beleza
Troa aos teus ouvidos com zumbido de grande voo
Compreende a morte que te espera
Altivo companheiro da tua pureza
Que reconheces a miséria do mundo
Quando aos teus ouvidos onde se fundem os ventos
Dizem:
Quem és irmão que não me tens compreendido?


(de Poesia Cubana da Revolução, tradução de Manuel de Seabra, editorial Futura, 1975)

6.5.10

GUERRA JUNQUEIRO


ORAÇÃO À LUZ


Claro mistério
Do azul etéreo!
Sonho sidéreo!
Luz!

Da terra dorida
Alento e guarida!
Fermente, da vida,
Luz !

Eucaristia santa,
Vinho e pão que alevanta
Homem, rochedo e planta...
Luz !

Virgem ígnea das sete cores,
Toda abrasada d'esplendores,
Mãe dos heróis e mãe das flores,
Luz!

Fiat harmónico e jocundo,
Verbo diáfano e profundo,
Alma do sol, corpo do mundo,
Luz!

Luz-esp'rança, luz rútila da aurora,
Vida vibrando na amplidão sonora,
Vida cantando pela vida fora,
Luz!

Luz que nos dás o pão, ó luz amada!
Luz que rios dás o sangue, ó luz doirada!
Luz que nos dás o olhar, luz encantada!
Bemdita sejas, luz, bemdita sejas!

Sejas bemdita em nós, ó fonte de harmonia!
Sejas bemdita em nós, ó urna de alegria!
Bemdito seja o filho teu, o alvor do dia!
Perpetuamente, ó luz, ó mãe, bemdita sejas!


(de Oração à Luz, 1904)

5.5.10

RUSSELL EDSON

UM OBSERVADOR DE ACASOS


Um seixo no chão. Outro. Um grupo, uma colónia deles...
Parecem ter deixado entrar uma casca de árvore na sua companhia. Mas será que deixaram? Ou foi a casca que se fez convidada?
Talvez possamos ter o privilégio de assistir a mais um exemplo de acaso...

Uma cabeça de formiga separada do corpo. Será um troféu, ou é apenas mais uma possibilidade que encontramos em colecções cujo único critério é não estarem os objectos que as constituem ainda mais separados?

É uma questão de espaçamento. Quão distantes podem as coisas estar umas das outras e, ainda assim, considerarem-se um grupo.
Uma questão de tempo. A coincidência que permite que os seixos e a tal casca se sobreponham a uma cabeça de formiga.
Já para não falar daquele que, ao observar esta cena, também passa a pertencer ao grupo.
É um intruso? Ou é simplesmente aceite numa democracia inconsciente de acasos?
Talvez seja mais simples dizer que a maior parte das vezes passa despercebido como qualquer outro acaso.

Ainda assim, se tivesse um desses seixos para poder observar o acaso mais de perto, deslocá-lo-ia do seu contexto e transformá-lo-ia num monumento do acaso...

Conclusão: O acaso é meramente teórico. Pois se dele nos apercebermos, imediatamente se desloca para o centro da nossa atenção, fazendo com que tudo o mais participe do acaso, incluindo o observador de acasos...

(de O Espelho Atormentado, tradução de Guilherme Mendonça, OVNI, 2008)

4.5.10

MARIA ANDRESEN


OS CÃES DO MAR


Dizem que há ondas de dez metros e eu venho
a um paredão da costa para olhá-las
Venho para ver a precipitação do mar e como seu fundo mais idêntico
nós a passarmos,
nós na teimosia de sermos de passarmos como os cães marítimos,
um pouco alheadamente, tresmalhados, e muito sem um aceno, um pacto;
Nós a passarmos em frente às grandes paredes maciças e moventes
surpresos, suspensos, presos à linha da sentença que se move,
precipita
Nós sem podermos ceder a atenção a mais
que a este medo, ou à espécie de júbilo que nos tresmalha
como aos tais cães do mar


(in Relâmpago / Revista de Poesia, 25 - Outubro de 2009)

3.5.10

VASCO COSTA MARQUES


Trago um poeta na algibeira visto-lhe
o tecto dos meus dedos o tabaco
entre duas facturas lençóis velhos
permeáveis ao frio da manhã

Recolhe cedo a casa longos pássaros
debicam-lhe o silêncio ardem-lhe o corpo
Ele próprio o procura.


(de Um Beco no Espaço, editora Ulisseia, 1970 - Col. Poesia e Ensaio)

2.5.10

[mais uma, para juntar a estas]

WILLIAM SHAKESPEARE


XV


Quando observo que todo o ser vivente
Por pouco tempo atinge a perfeição,
Que os astros influem secretamente
Nas peças que no grande palco vão.
Que homens, plantas, dependem por igual
Das vaias e vivas do firmamento.
Cheios de seiva, de nada lhes vale,
Tudo perdem e cai no esquecimento -
Neste estado de mudança repentina,
Surge então tua juvenil figura,
Em que o tempo com a morte combina
Dum jovem dia fazer noite escura -
Contra o tempo luto deste modo:
O que ele te rouba eu reponho logo.


(tradução de António Simões, in Soneto de Água e outros, Manhã Nova edições, 1994)

1.5.10

ANTÓNIO ALÇADA BAPTISTA

Aquilo a que, normalmente, chamam «o trabalho» é, do mesmo modo, uma palavra equívoca que contém, simultaneamente, coisas preciosas e degradantes. Os bem pensantes da direita e da esquerda, e muitos outros especialistas na arte de degradar, à mínima atrapalhação atiram com o trabalho para a frente como palavra-mito, sem distinguir, por conveniência ou incapacidade, as coisas boas e más que ela interiormente contém.
O facto é que uma geral pedagogia aceite e apregoada por todos, nomeadamente pelos que nada fazem, insiste no trabalho como o grande e nobilitante motivo que redime e justifica o pedaço da nossa existência. Qualquer manualzinho de ética escolar dizia, à primeira oportunidade, que o trabalho «é força, é saúde, é vigor». A minha selecta de francês, pródiga em textos fàceizinhos de ler, consagrava ao trabalho pesada cópia de poesia e prosa e, daquela, uma terminava assim:
«une seule avarice bonne,
c'est l'avarice de son temps».
Por outro lado, há que constatar, sem parcialidade, que o próprio adagiário popular dedica ao trabalho muito mais conselhos do que os que refere ao capital:
«Semeia e fia, terás alegria».
«Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje».
«A ociosidade é a mãe de todos os vícios».
Quero desde já prevenir que este problema para mim não é simples. Preocupa-me o tempo perdido e o gaspillage quotidiano da energia do homem, mas tenho que reconhecer que a humanidade tem sido vítima de «trabalhadores incansáveis», da praga incontida dos «escravos do dever» e que, por outro lado, passagens serenas de ociosos boémios suavizaram o mundo do peso da sua geral servidão.
Entre as muitas feias acusações com que se tem difamado a sociedade capitalista está a de que «nela, uma minoria ociosa usufrui do trabalho duma maioria oprimida», necessariamente trabalhadora. Marx escreveu até sobre esse assunto um livro tão grande que os trabalhadores nunca o puderam ler. As considerações aí feitas foram muito proveitosas para a dinamização do processo histórico mas não ajudaram grande coisa no aspecto que agora me preocupa. Outrossim fui levado a verificar:

1.° Quanto à sociedade capitalista:
— Na minoria privilegiada há elementos extraordinariamente «trabalhadores» que, com essa «qualidade», asseguram normalmente o processo de exploração da maioria.
— Na maioria explorada há elementos extraordinariamente «ociosos» que, com esse «vício», conseguem, alguns, atenuar a exploração que os oprime.
— Os casos raros de passagem da classe explorada à classe privilegiada vêm exactamente daqueles elementos cuja vida foi «um exemplo constante de acrisolado amor ao trabalho» e que, pela sua ascensão, comprovam a sua crença e a sua devoção ao sistema, razão pela qual, na sua velhice, recebem dos altos poderes altas comendas, do Comércio, da Indústria ou da Agricultura.
2.° Quanto à sociedade socialista:
— Na minoria privilegiada há elementos extraordinariamente «trabalhadores» que, com essa «qualidade», asseguram normalmente o processo de opressão da maioria.
— Na maioria oprimida há elementos extraordinariamente «ociosos» que, com esse «vício», conseguem atenuar a opressão que os explora.
— Os casos raros de passagem da classe oprimida à classe privilegiada vêm exactamente daqueles elementos que, ademais da sua crença devotada ao sistema, tiveram uma vida que foi «um exemplo de trabalho e dedicação», razão pela qual, na sua velhice, lhes são dadas comendas cujo nome me não lembra.

(excerto de Peregrinação Interior I - Reflexões sobre Deus, Moraes editores, 1971)
ALEXANDRE O'NEILL


SABER VIVER É VENDER A ALMA AO DIABO


Gosto dos que não sabem viver,
dos que se esquecem de comer a sopa
(«Allez-vous bientôt manger votre soupe,
s... b... de marchand de nuages?»)
e embarcam na primeira nuvem
para um reino sem pressa e sem dever.

Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
transborda e escorre, já rio no chão,
e gosto de quem lhes segue o sonho
e lhes margina o rio com árvores de papel.

Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.

Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»

(Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?..)

Gosto do Napoleão-dos-Manicómios,
da Julieta-das-Trapeiras,
do Tenório-dos-Bairros
que passa fomeca mas não perde proa e parlapié...

Passarinheiros, também gosto de vocês!
Será isso viver, vender canários
que mais parecem sabonetes de limão,
vender fuliginosos passarocos implumes?

Não é viver.
É arte, lazeira, briol, poesia pura!

Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme...)
com gerações perdidas.

Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como as pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!

E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia...

Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p'ra morrer?

Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés,
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!

Les portugueux...
_____não pensam noutra coisa
_____senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
_____nos pintores, nas aflitas,
_____no tojé, na grana, no tempero,
_____nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
... sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes...

Dize tu: - Já começou, porém, a racionalização do trabalho.
Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!

*

Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim...


(de Abandono Vigiado, 1960)

30.4.10

MANUEL GUSMÃO


g;


A mão do poema folheia a minha vida procurando
o sítio onde algo se passou, o sobressalto que ainda
hoje te mantém suspenso, indeciso sobre quem vive

na tua vida? Não eu esta mão guio; quem a guia então
se é ela quem me guia? Que podem os versos saber
desse sítio que o papel não chega para estancar.

O sítio retrai-se quando a mão se aproxima e contudo
é uma figura do medo que nele pulsa e se projecta
por cada vinco e dobra do teu corpo desconhecido.

O poema troca de mão e insiste que o que procura
é o sítio onde por duas vezes olhaste a tua morte

e não era a mesma


(de A Terceira Mão, editorial Caminho, 2007 - o campo da palavra)

29.4.10

VITORINO MAGALHÃES GODINHO

No meio dos regimes totalitários e das incompletas e frágeis democracias do século XX havia esperança acalentada por várias ilusões, pulsava uma tensão para um futuro que a prática efectiva tornava inexequível. Um poema de Rodolfo Alonso (que a Revista Brasileira acaba de republicar, n° 50, 2007, p. 6o), "Coda a los ganados y a las mieses", traduz bem o nosso desacerto perante a derrocada dessas miragens. Houve um tempo de esperança, mas perdemos o que ontem era amanhã; então sonho de porvir, para nós já é passado que não se realizou. Estamos sem futuro nem horizontes; nem sequer podemos sonhar os sonhos que sonhávamos.
«De haber sido futuro
hemos solo pasado.
Pasado del futuro.»

(último parágrafo de A Europa como Projecto, edições Colibri, 2007)



RODOLFO ALONSO


Coda a los ganados y a las mises


Atrás quedó el futuro.
El mañana fue ayer.
Nuestras horas no incluyen
porvenir ni horizonte.

Hubo un tiempo en que había
olores de esperanza.
Hoy es haber perdido
lo que ayer fue mañana.

Hubo. Ya no hay. Ni aquellos
sueños que nos soñaban
hoy se dejan soñar.

De haber sido futuro
hemos sólo pasado.
Pasado del futuro.


(encontrado aqui)

28.4.10

ERNESTO SAMPAIO


DUETO


À beira do Ganges
em fila indiana
no tempo dos reis
frigorificados
havia donzeis
muito mal tratados

Saques fogo posto
tapetes rolantes
e a contragosto
padres saltitantes

Obras completas
concursos torneios
os fins das selectas
justificam os meios

Mulheres fatais
entradas saídas
doenças banais
falsas partidas

Vidas anteriores
fadigas supremas
homens superiores
tis e tremas

Grande abundância
de ninharias
Camões em Constância
Fialho em Pias

Comendas drageias
salões tatuagens
muitas cadeias
poucas aragens

Sorrisos consensos
leilões desgraças
bandeiras e lenços
roídos pelas traças
(com o Parricida dos Anjos)

(de Feriados Nacionais, Fenda edições, 1999 - Fenda Luminosa)

27.4.10

CARLOS GARCIA DE CASTRO


Manifesto


Mágicas, ainda existem
as grandes Tabacarias,
como atractivo mesteiral das artes.

— Mas são diferentes os ócios.

Não produzimos frenesins pacíficos.

Freud ensinou-nos a ciência dúplice
de preservar, vigilantes,
as almas adolescentes
permanentes
e a carne complicada de incapazes.

Estes poetas não precisam já
dos dramas do onanismo,
não se amedrontam dos seus próprios quartos.
Estes poetas não precisam já
de violoncelos.
— Nem de procissões!
santos, teologias,
fingimentos, Renascenças,
senhoras-mães-dependências
profissionais e mentais
da esplendorosa preguiça
que a rastos se faz enorme
presunção da burguesia
liberal, nacionalista,
de absinto, com sopeiras.

Esoterismo, o plâncton
das mansas esquizofrenias
que a natureza desculpa
com pontes do tédio alado.
A salvação, maravilha
das anarquias domésticas,
crucianas, pelos Cafés,
com verbos e metafísica.

Estes poetas já não são suicidas.

Já não se diz nem faz só por dizer-se.

A nova história será sempre a mesma,
não se provoca só por bem falar.

— Lá muito adiante a eternidade é escusa.

(E estes poetas já serão poetas?)

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Sair de casa de manhã, tratado,
já predisposto mais um dia solto,
— quanto me custa por haver emprego!
Fevereiro, 1988

(de Rato do campo, edições Colibri, 1998)

26.4.10

HELDER MOURA PEREIRA


EXORCISMO
[excerto]

[...]

Sei de sacanas que lêem
Herberto Helder, Cesariny,
João Miguel Fernandes Jorge.

Sei de um deputado do ps
que nunca havia de meter mulheres
numa empresa que tivesse.

Os sacanas são mais que as mães,
fingem até concordar com
Joaquim Manuel Magalhães.

Ninguém me enganou, ninguém
me traiu, assim esboço
o caminho da minha empresa.


(de Em Cima do Acontecimento, edição do Autor, s. d. [1995] - em nota que abre o livro, o Autor refere, entre outras coisas, que "Todas as referências concretas são abstractas.")