24.5.10

PHILIP LARKIN


As árvores

As folhas rebentam nas árvores
Como algo que quase se diz;
Os novos botões espreguiçam-se,
O verde é uma forma de mágoa.

Será que renascem, e nós
A envelhecer? Não, também morrem.
O truque que as faz parecer novas
Está escrito no grão dos anéis.

Porém os castelos inquietos
Adensam e crescem com o Maio.
Dizem: "passou, morreu o ano —
Recomecem, recomecem..."


(de High windows / Janelas altas, tradução de Rui Carvalho Homem, edições Cotovia, 2004)

21.5.10

ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE


syrinx, ficção pastoral


XI


Está tudo errado, tudo, ou quase: na verdade, apenas
um salto quântico de computador,
um fio trocado na electrónica mente
que manda nos horóscopos, e já se perde
a metamorfose de outro sapo;
não encomendei! não pedi! não quero
no lugar reservado à favorita imagem
este caso-problema que se droga e vende
e tem de todo errada a identidade,
a idade, o sexo, a cara indiferente.
Quando abre a boca avisto com terror
a língua, inteira, rósea, e gengivas com dentes
capazes de ladrar, de me morder,
de em público me dizer inexistente,
de me abrir pelo meio e me tirar
tudo o que tenho, como um ladrão demente.


XII

Fico interdito, não sei

de que lado me hei-de pôr,

que sabonete se usa

em que mão, se é bem preciso

lavar sempre as almofadas,

se se permitem as rimas,

onde fica o alçapão.

Já faltei à minha jura,

fumei cinza, comi vento,

abri fendas na janela,

pendurei-me no jardim;

só subindo aos ramos altos

é que enfim adormeci;

sonhei que estava dormindo

numa folha de papel

amarela, de cetim.



(de Quatro Caprichos, Assírio & Alvim, 1999)

14.5.10

[poemas com o Papa por cá - IV]

JOSÉ BLANC DE PORTUGAL



DE «AS OBRAS DE MISERICÓRDIA»

DAR BOM CONSELHO


O conselho é tocar, provar,
Aspirar todos os cheiros do inundo,
Ouvir sempre e ver eternamente,
Abrir as cinco portas; por mais só que estejas
O que entra chega bem para mil vidas.
Depois... é tê-las escancaradas
Pois nada foge e, embora
Saia e entre a cada instante tudo,
É só assim que é possível
Ter e não ter pra sempre tudo.

Casar a pobreza e a riqueza
Viver e morrer mil vezes por segundo
Mudar e ser igual no tempo todo
Cada presente ser
Passado e futuro.

Recusar é deixar;
Conceder tirar;
Tirar é pôr num outro lado;
Pôr é mover;
Mover é fixar num móvel;
Fixar seria
Mudar o futuro.
Esperar é caminhar pra ele.


(de O Espaço Prometido, livraria Moraes editores, 1960 - Círculo de Poesia)

13.5.10

[poemas com o Papa por cá - III]

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA


A presença mais pura


Nada do mundo mais próximo
mas aqueles a quem negamos a palavra
o amor, certas enfermidades, a presença mais pura
ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância da língua comum deixaste
o teu coração?»

A altura desesperada do azul
no teu retrato de adolescente há centenas de anos
a extinção dos lírios no jardim municipal
o mar desta baía em ruínas ou se quiseres
os sacos do supermercado que se expandem nas gavetas
as conversas ainda surpreendentemente escolares
soletradas em família
a fadiga da corrida domingueira pela mata
as senhas da lavandaria com um 'não esquecer' fixado
o terror que temos
de certos encontros de acaso
porque deixamos de saber dos outros
coisas tão elementares
o próprio nome

Ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância deixaste
o coração?»


(de A Que Distância Deixaste o Coração, 1998)

12.5.10

[poemas com o Papa por cá - II]

MARIA DE LOURDES BELCHIOR



PALAVRA


Onde as palavras lisas e límpidas
capazes de transportar
esta quotidiana inquietação
ração diária de gozo e dor?
Onde as palavras purificadas
do lastro do uso das nossas falas mortais?
Não mais na linha do horizonte a Palavra?
Enraizadas no terrunho; carregadas de sonoridade
sujas, enfarinhadas, as palavras senha do nosso falar comum
fabricam o pão alimento, suporte do diálogo impossível.
Só palavras genesíacas, lustrais, abissais,
hão-de revelar e decifrar o verdadeiro nome das coisas?
Que linguagem, miragem do ser e do estar
há-de dizer homem, mundo, amor?
Na linha do horizonte impossível?
a Palavra?
Só no fim dos tempos decifrada?


(de Gramática do Mundo, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1985 - Biblioteca de Autores Portugueses)

11.5.10

[poemas com o Papa por cá - I]

JOSÉ AUGUSTO MOURÃO


das coisas peregrinas


que ousemos o entusiasmo
da luz de cada dia,
a agilidade dos vindimadores
socalco acima

mantém-nos, Deus ao rés da terra
e altos, de inquietos, vigilantes voos

não se esgotem as cisternas
da paciência para a vida,
nem os agapantos azuis
nos encharquem de clandestina morte

dá-nos o paladar das coisas peregrinas,
o lugar do vento que não sabe donde,
o sítio dos comboios nos apeadeiros breves

que no rodopio das horas
a tua mão nos mostre o pino do sol
e o cheiro a mosto e a pão de milho
anuncie a ceia, a mesa da justiça, do bem e da beleza


(de dizer DEUS ao (des)abrigo do Nome, 1991)

10.5.10

MANUEL MARÍA


O POEMA


UN poema é un ser vivo que anda,
respira, soña, chora, salouca,
ama, berra, cintila, escurece,
cala, aborrece a mentira,
sente ódio e tenrura, desángrase,
fala de intimidade a intimidade
coas cousas e coa xente, suxere
mundos posíbeis e imposíbeis,
sua, cansa, sofre sede e fame,
adoece, agoniza. E nunca morre.


(in Antoloxía Poética, Espiral Maior, 1993 - original de A luz ressuscitada, 1984)

Salouca = soluça

9.5.10

LI SHANG-YIN

CHUVA NA PRIMAVERA

Deito-me vestido de branco, a Primavera aproxima-se.
Penso na Cidade das Portas Brancas, onde não posso estar.
Os teus aposentos vermelhos, ocultos pela chuva, acossados pelo frio.
Recordo esse dia distante, em que parti.
As noites são longas, intervalos breves de sono.
Envio-te este presente, um par de brincos de jade -
Contemplo um ganso solitário, entre a vastidão das nuvens.


(de Chuva na Primavera e outros poemas, tradução de José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim, 2001 - Gato Maltês)

8.5.10

JACKSON POLLOCK


Eyes in the Heat, 1946
óleo sobre tela
54x43 cm
Colecção Peggy Guggenheim, Veneza




MARIA TERESA DUARTE MARTINHO


Um quadro

(Eyes in the Heat, Jackson Pollock)

Se fosse um padrão,
teria sido papel abstracto com as cores do Natal
(servira, por exemplo,
para forrar gavetas e livros,
espalhando ideias de pintura,
até entre os que diziam não a ver).
Se fosse um tecido,
era lã e dava uma saia em viés.
Se fosse um espelho,
seríamos, por exemplo,
nós todos,
cada um abraçado ao seu rodopio


(de Visões e Demonstrações, edições Vendaval, 2006)

7.5.10

PEDRO DE ORAÁ


BARAGAÑO ENTRA NO ESPELHO


Enfebrecido pela humidade de uma paisagem mísera de três paredes,
entra na água do espelho sobre a bacia amarelenta,
água cujas reminiscências apagam rostos tão lúcidos
como o seu muitas tardes no porto ou nos alfarrabistas:
aí costumava fazer ironia e sorrir, aí recordava
o terceto de Quevedo e a cidade ilusória,
o flutuar da sua sombra e a sagacidade de Artaud,
ali tirava o sobretudo preto do seu triste coração

Estou certo de que o seu coração clamava aos gritos
contra a postura sardónica, contra o nariz peçonhento,
a sua tendência para dar à língua noite adentro,
para amigos inverosímeis e as companhias gastas:
pálido vinha, desolado de ruas exterminadas à chuva,
de escrutar neves espessas à Poesia, sua jactância admirável
ou a sua má língua: quem o tornou assim se não a Poesia,
o seu amor extremista, o seu ódio à mudez?
Queria conhecê-la como ninguém, à Poesia,
levá-la nas roupas, na mão,
como as pequenas moedas que não chegavam para nada,
e sempre que assim fosse, nos precipitavam
sobressaltados aos cafés e aos lupanares.
Então sentíamo-nos maiores e ele era realmente grande:
em Paris vira os pérfidos delírios de Lautréamont,
conversara sobre a infância cinzenta com a governanta
de Milosz, enfim, ia a Paris para a explorar.

E um dia, entre tolos os dias implacável, instaurou a sua manhã
diferente de teor e humor: voltou transfigurado
das neves, pôs-nos sobre o ombro o seu nome confesso,
José Álvarez. Mas todos regressávamos de obstinados crepúsculos,
de ruas nuas, de amarguras, de pratos frios.
Decidiu, connosco, defender o raio de sol na parede raspada.
Agora, a mão cheia de poesia tem a expressão mais lenta, arranja a gravata:
Baragaño contempla o queixo vaidoso e entra no espelho.


(de Poesia Cubana da Revolução, tradução de Manuel de Seabra, editorial Futura, 1975)
JOSÉ ÁLVAREZ BARAGAÑO


DE POESIAS REVOLUCIONÁRIAS


Serei parco
Para falar da fome da doença da morte
Das ilhas de fruta-pão
Das rosas abanadas por um vento caótico
Falei da vida
Falei do amor
Conheço os ares que se tomam matutando um nome, uma resposta.

Para a casa com todas as portas fechadas
Que só abre as mãos entreabertas do tempo
Nas diversas esmeraldas dos olhos marinhos.

Não o nada e o vazio
Não espalham as cinzas solares à volta do vinho
E as donzelas nuas vencidas por todas as línguas
O oráculo
Olha-me com os seus olhos penetrantes
— Só aquilo que tocares com paixão
O que beijares com os teus lábios de febre
O que insultares através de um véu de sangue
Quando os teus dedos não temem
O punho da faca
— Oh, mentiroso
Tu não recebeste os grandes mensageiros
A beleza
Troa aos teus ouvidos com zumbido de grande voo
Compreende a morte que te espera
Altivo companheiro da tua pureza
Que reconheces a miséria do mundo
Quando aos teus ouvidos onde se fundem os ventos
Dizem:
Quem és irmão que não me tens compreendido?


(de Poesia Cubana da Revolução, tradução de Manuel de Seabra, editorial Futura, 1975)

6.5.10

GUERRA JUNQUEIRO


ORAÇÃO À LUZ


Claro mistério
Do azul etéreo!
Sonho sidéreo!
Luz!

Da terra dorida
Alento e guarida!
Fermente, da vida,
Luz !

Eucaristia santa,
Vinho e pão que alevanta
Homem, rochedo e planta...
Luz !

Virgem ígnea das sete cores,
Toda abrasada d'esplendores,
Mãe dos heróis e mãe das flores,
Luz!

Fiat harmónico e jocundo,
Verbo diáfano e profundo,
Alma do sol, corpo do mundo,
Luz!

Luz-esp'rança, luz rútila da aurora,
Vida vibrando na amplidão sonora,
Vida cantando pela vida fora,
Luz!

Luz que nos dás o pão, ó luz amada!
Luz que rios dás o sangue, ó luz doirada!
Luz que nos dás o olhar, luz encantada!
Bemdita sejas, luz, bemdita sejas!

Sejas bemdita em nós, ó fonte de harmonia!
Sejas bemdita em nós, ó urna de alegria!
Bemdito seja o filho teu, o alvor do dia!
Perpetuamente, ó luz, ó mãe, bemdita sejas!


(de Oração à Luz, 1904)

5.5.10

RUSSELL EDSON

UM OBSERVADOR DE ACASOS


Um seixo no chão. Outro. Um grupo, uma colónia deles...
Parecem ter deixado entrar uma casca de árvore na sua companhia. Mas será que deixaram? Ou foi a casca que se fez convidada?
Talvez possamos ter o privilégio de assistir a mais um exemplo de acaso...

Uma cabeça de formiga separada do corpo. Será um troféu, ou é apenas mais uma possibilidade que encontramos em colecções cujo único critério é não estarem os objectos que as constituem ainda mais separados?

É uma questão de espaçamento. Quão distantes podem as coisas estar umas das outras e, ainda assim, considerarem-se um grupo.
Uma questão de tempo. A coincidência que permite que os seixos e a tal casca se sobreponham a uma cabeça de formiga.
Já para não falar daquele que, ao observar esta cena, também passa a pertencer ao grupo.
É um intruso? Ou é simplesmente aceite numa democracia inconsciente de acasos?
Talvez seja mais simples dizer que a maior parte das vezes passa despercebido como qualquer outro acaso.

Ainda assim, se tivesse um desses seixos para poder observar o acaso mais de perto, deslocá-lo-ia do seu contexto e transformá-lo-ia num monumento do acaso...

Conclusão: O acaso é meramente teórico. Pois se dele nos apercebermos, imediatamente se desloca para o centro da nossa atenção, fazendo com que tudo o mais participe do acaso, incluindo o observador de acasos...

(de O Espelho Atormentado, tradução de Guilherme Mendonça, OVNI, 2008)

4.5.10

MARIA ANDRESEN


OS CÃES DO MAR


Dizem que há ondas de dez metros e eu venho
a um paredão da costa para olhá-las
Venho para ver a precipitação do mar e como seu fundo mais idêntico
nós a passarmos,
nós na teimosia de sermos de passarmos como os cães marítimos,
um pouco alheadamente, tresmalhados, e muito sem um aceno, um pacto;
Nós a passarmos em frente às grandes paredes maciças e moventes
surpresos, suspensos, presos à linha da sentença que se move,
precipita
Nós sem podermos ceder a atenção a mais
que a este medo, ou à espécie de júbilo que nos tresmalha
como aos tais cães do mar


(in Relâmpago / Revista de Poesia, 25 - Outubro de 2009)

3.5.10

VASCO COSTA MARQUES


Trago um poeta na algibeira visto-lhe
o tecto dos meus dedos o tabaco
entre duas facturas lençóis velhos
permeáveis ao frio da manhã

Recolhe cedo a casa longos pássaros
debicam-lhe o silêncio ardem-lhe o corpo
Ele próprio o procura.


(de Um Beco no Espaço, editora Ulisseia, 1970 - Col. Poesia e Ensaio)