2.7.10

PAULO NOZOLINO

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COMUNICADO
/ DEVOLUÇÃO DO PRÉMIO AICA/MC

Recuso na sua totalidade o Prémio AICA/MC 2009 em repúdio pelo comportamento obsceno e de má fé que caracteriza a actuação do Estado português na efectiva atribuição do valor monetário do mesmo. O Estado, representado na figura do Ministério da Cultura (DGARTES), em vez de premiar um artista reconhecido por um júri idóneo pune-o! Ao abrigo de “um parecer” obscuro do Ministério das Finanças, todos os prémios de teor literário, artístico e científico não sujeitos a concurso são taxados em 10% em sede de IRS, ao contrário do que acontece com todos os prémios do mesmo cariz abertos a candidaturas.
A saber: Quem concorre para ganhar um prémio está isento de impostos pelo Código de IRS. Quem, sem pedir, é premiado tem que dividir o seu valor com o Estado!
Na cerimónia de atribuição do Prémio foi-me entregue um envelope não com o esperado cheque de dez mil euros, como anunciado publicamente, mas sim com uma promessa de transferência bancária dessa mesma soma, assinada por Jorge Barreto Xavier, Director Geral das Artes. No dia seguinte, depois do espectáculo, das luzes e do social, recebo um e-mail exigindo-me que fornecesse, para que essa transferência fosse efectuada, certidões actualizadas da minha situação contributiva e tributária, bem como o preenchimento de uma nota de honorários, onde me aplicam a mencionada taxa de 10%, cuja existência é justificada pelo Director Geral das Artes como decorrendo de um pedido efectuado por aquela entidade à Direcção-Geral dos Impostos para emitir “um parecer no sentido de que, regra geral, o valor destes prémios fosse sujeito a IRS”.
Tomo o pedido de apresentação das certidões como uma acusação da parte do Estado de que não tenho a minha situação fiscal em dia e considero esse pedido uma atitude de má fé. A nota de honorários implica que prestei serviços à DGARTES. Não é verdade. Nunca poderia assinar tal documento.
Se tivesse sido informado do presente envenenado em que tudo isto consiste não teria aceite passar por esta charada.
Nunca, em todos os prémios que recebi, privados ou públicos, no país ou no estrangeiro, senti esta desconfiança e mesquinhez. É a primeira vez que sinto a burocracia e a avidez da parte de quem pretende premiar Arte. Não vou permitir ser aproveitado por um Ministério da Cultura ao qual nunca pedi nada. Recuso a penhora do meu nome e obra com estas perversas condições. Devolvo o diploma à AICA, rejeito o dinheiro do Estado e exijo não constar do historial deste prémio.

Paulo Nozolino
1 de Julho de 2010


Retirado daqui. Não receiem seguir o link, é um site completamente seguro, apesar do disparatado aviso do blogger.

29.6.10

CARLOS QUEIROZ


APELO À POESIA


Porque vieste? — Não chamei por ti!
Era tão natural o que eu pensava,
(Nem triste, nem alegre, de maneira
Que pudesse sentir a tua falta...)
E tu vieste,
Como se fosses necessária!

Poesia! nunca mais venhas assim:
Pé ante pé, cobardemente oculta
Nas ideias mais simples,
Nos mais ingénuos sentimentos:
Um sorriso, um olhar, uma lembrança...
— Não sejas como o Amor!

É verdade que vens, como se fosses
Uma parte de mim que vive longe,
Presa ao meu coração
Por um elo invisível;
Mas não regresses mais sem que eu te chame,
— Não sejas como a Saudade!

De súbito, arrebatas-me, através
De zonas espectrais, de ignotos climas;
E, quando desço à vida, já não sei
Onde era o meu lugar...
Poesia! nunca mais venhas assim,
— Não sejas como a Loucura!

Embora a dor me fira, de tal modo
Que só as tuas mãos saibam curar-me,
Ou ninguém, se não tu, possa entender
O meu contentamento,
Não venhas nunca mais sem que eu te chame,
— Não sejas como a Morte!


(de Desaparecido, 1935)

27.6.10


Poemas transmitidos oralmente por Silvina da Conceição Leal (27/06/1910 – 27/09/1997), minha Avó.


Quando Salomão morreu
Deu o corpo à sepultura
Na caveira lhe puseram
Uma árvem de grande altura
Casa cheia tem fartura
Não sou só eu que o digo
Vão as galinhas ao trigo
Quem paga são os pardais
O burro tem atafais
E também tem seus estribos
Na praça se vendem figos
P´ra contentar os rapazes
No mar voam alcatrazes
Também lá se pescam gaivotas
Menina das penas tortas
Todos lhe chamam caneja
Vão-se as sezões com desejos
E as feridas com unguentos
Roda o moinho é com o vento
Quem faz a teia é a aranha
Esta cantiga é tamanha
Que não tem cabo nem fim
Num raminho de alecrim
Que se dá aos namorados
Se forem muito amiguinhos
Por Deus serão ajudados
Fazem-se as armas
É p’rós soldados
E também p’rós caçadores
Menina se tem amores
Diligente deve andar
Faz-se a gaita é p’ra tocar
E o pente é p’rá cabeça
Menina não endoideça
Que ‘inda pode ser feliz
Porque tem tamanho nariz
Que lhe vai da testa ao seio
Todo o mundo fala e diz
Que tem mais de palmo e meio
«Já mo vieram gabar
P’rá bigorna dum ferreiro
E também dum ferrador
P’rá rabiça dum arado
E p’ró cajado dum pastor.»

(transcrito de memória)


Recebi há bocadinho
Uma carta do priminho
A primeira
Que alegria
Eu contá-lo não devia
Mas no entanto
Dizer-lhes vou
Como isto começou
(Não digam nada ao meu avô)
O priminho
Costumava ir dez, doze vezes por mês
A casa dos avós jantar
Pedia para ficar à mesa
Sentado a meu lado
Com a cadeira muito chegada para mim
E com o pé tocava-me assim
O atrevido um dia
Diz-me baixinho ao ouvido
«Ai priminha, o meu desejo,
Agora, era dar-te um beijo»
Eu fiz-me muito corada
À mamã não contei nada
Só ao priminho é que disse
«Isso é uma patetice.
Se me pretende namorar
Com ideias de casar
Deve ter muito juízo
E esperar o tempo preciso
Em que o papá lhe dará a minha mão
Eu por mim não direi que não
Podemos ser, enfim, uns namorados
Como muitos que por aí vejo
Deve ir passear a meu lado
Também me deve escrever»
Um certo dia
Em que eu pensava
O priminho ter-me abandonado
Sinto bater à porta
Umas pancadinhas medrosas
Era ele! O priminho!
Com certo ar de medo
Trazia nas suas mãos uma carta
Subscritada
Que dizia o seguinte:
«Minha encantadora prima
(Bravo!
E o priminho já se anima
A tratar-me por encantadora
Mas enfim, vamos ao resto)
Vou participar a teu papá
Sem consultar com a mamã
Para te comprar uma boneca
Que o Matos Moreira tem na montra
Pois às crianças
Se deve comprar
Bonecas para brincar»
Ó, eu criança?
Olha o maroto!
Mas não cai em saco roto
Sem pau nem pedra o castigo
Vou já, já,
Mandar por aí um criado
Com o retrato que me deu
Para em troca o meu
Nem pintado o quero ver
Quem tanto me fez sofrer
Com ofensivos gracejos
Não me volta a roubar beijos
Como ‘inda há pouco
O maroto fez
O maroto esta manhã
Como a tempo não fugi
Deu-me três beijos aqui
Que eu bem senti
Todos três
Mas se voltar outra vez
Há-de ficar em jejum
Não me rouba mais nem um!!

(transcrito de gravação)


– Que bonita, esta moça
De corada como está
Desde que vim do Brasil
‘Inda não vi outra cá
Isto é cor da menina
Ou pintura que lhe dá

– É porque o senhor não vê bem
Ou bom da vista não vai
Ainda que lave o rosto
Esta cor daqui não sai

– Já vejo que é cor natural
Que faces rosadas tem
Vou-lhe a meter um partido
Se a menina lhe convém
Ir comigo p’ró Brasil
Se não tiver pai nem mãe

– Obrigado, meu senhor
Mas não posso aceitar
Toda a vida tive medo
De passar águas do mar

– O mar é uma brincadeira
Não custa nada a passar
Até dá gosto à gente
Quando vai a balançar
Lembra-me certas coisinhas
Quando me ponho a cismar

[ai… aqui é que me falta não sei o quê]

– Vem comigo, não te importes
Que o Brasil é bem bonito
E assim que tu lá chegares
Eu compro-te um periquito

– Evita de me prometer
Com isso não me leva lá
Periquitos que eu deseje
Também há muitos por cá
Mais lindos e com mais graça
Do que o Brasil tem por lá

– Até eu também tenho um
Que te posso fazer presente
Quando vê moças bonitas
Até pula de contente

– Até pula de contente
Eu em si acho tolice
O que poderia ele fazer
Se não o ajuda velhice?

– A um homem da minha idade
Ninguém de mim faça troça
Eu sou velho de bom tempo
Lidei com gente na roça
Nunca foi muito de meu costume
Meter-me a trabalho que não possa

– Se se acha com coragem
De todo o trabalho fazer
Veja se tem rendimentos
Para me dar de comer
Vestidos para vestir
E teatro p’ra me entreter

– Nunca te há-de faltar nada
Comer bem, beber melhor
Vestidos de seda fina
E teatro do maior

– Fiz-me muito esquisita
E fui sempre muito forte
Vou fazer muitas festinhas
Ao periquito do velhote

(transcrito de gravação)


Adeus, adeus ameixeira
Adeus ameixas e tudo
Sabe Deus quem chegará
A outro dia de Entrudo

(transcrito de gravação)

24.6.10

JOÃO RUI DE SOUSA


RUMOROSAS VOZES


Rumorosas vozes vinham
e depois paravam.

Talvez fossem só lágrimas caindo.
Talvez campos de sal que nos desciam
desde um horizonte de clausura
até às pálpebras:
para mostrarem como a vida estala
quando a alegria morre ou não cintila
em braços esplendorosos, na redondez
de um colo, na casa que é bem nossa
e pousa na cabeça,
e mesmo na grata circunstância
de trabalharmos tanto
no trato de um jardim desordenado
— sem árvores alinhadas nem canteiros,
sem corações opressos
por rectilíneas áleas.


(de Quarteto para as próximas chuvas, publicações Dom Quixote, 2008)

23.6.10

JOANA BÉRTHOLO

[...] não se pode dar ouvidos à minha irmã Karenyina.
- Porquê?
- Ela é boa pequena. Bonita como há poucas. Mas é meio-louca. Por isso é que o povo gosta tanto dela. Desde pequenina que só sabe abrir a boca para contar mentiras. Por isso é que o povo gosta tanto dela. Porque de vez em quando, acerta.
Acerta como?
- Conta histórias de coisas que ninguém sabe. E depois quando se vai a ver, são verdade.
[...]

(excerto de Diálogos para o fim do mundo, editorial Caminho, 2010 - o campo da palavra)

21.6.10

GRAÇA MORAIS


JOSÉ SARAMAGO



30

Uma vez mais os lugares conhecidos os lugares de solidão e de morte os centímetros quadrados de tortura as cores do sangue até à sua final cor de terra

Uma vez mais o infinito combate as batalhas aquelas que se ganharam e essas outras humildes perdidas e de que não se quer falar

Uma vez mais os suspiros sobretudo os últimos e os primeiros e os que estão entre uns e outros uma vez mais o braço sobre o ombro e o corpo sobre o corpo

Uma vez mais tudo o que uma vez foi ou muitas as pegadas de hoje na marca dos pés antigos uma vez mais a mão no gesto começado e interrompido e assim sucessivamente

Uma vez mais a ida e o regresso e agora a esperada fadiga entre duas altas montanhas num chão de pedra onde a sombra de repente fica enquanto o corpo se dissolve no ar

Assim olhar apartado a própria sombra com olhos invisíveis e sorrir disso enquanto as pessoas perplexas procuram onde nada está

E uma criança objectiva se aproxima e estende as mãos para a sombra que fragilmente retém o contorno ainda mas não já o cheiro do corpo sumido

Uma vez mais enfim o mundo o mundo algumas coisas feitas contadas tantas não e sabê-lo

Uma vez mais o impossível ficar ou a simples memória de ter sido

Consoante se conclui de nada haver debaixo da sombra que a criança levanta como uma pele esfolada


(final de O Ano de 1993, 1975 / ilustração da 2ª edição: editorial Caminho, 1987)

20.6.10


O dia 26 de Maio de 2000, fui ver agora, calhou a uma sexta-feira. Lembro-me de que nesse dia estava aquele calorzinho ameno de Primavera, tão habitual em Lisboa. Decorria a Feira do Livro e, durante a tarde, lá fui para o Parque Eduardo VII. Deviam ser umas 3 horas quando me apercebi de que José Saramago estava junto ao pavilhão da Caminho para dar autógrafos. E sem ninguém a fazer fila, o que para mim foi surpreendente - nunca tinha pedido um autógrafo a Saramago, exactamente por causa das filas. Comprei o Ensaio sobre a Cegueira, que lhe apresentei para me assinar, juntamente com o Memorial do Convento, que andava a ler e que trazia na pasta. E fui-lhe pedindo desculpa por ser um exemplar usado, pois tinha-o comprado num alfarrabista. Saramago, então, sorriu-me e disse: «eu também comprei muitos livros em alfarrabistas e devo muito a isso.»

Neste momento, não posso deixar de associar a morte de Saramago com o fecho do espaço da Trama, uma livraria que também era alfarrabista e onde encontrei belas preciosidades.

19.6.10

Hoje o dia correu genericamente bem, apesar de termos sofrido uma emboscada dos homens de Arroyo que nos dizimou gravemente.
(de um conto de Woody Allen)


Mais logo, na Rua de S. Filipe Nery, junto ao Largo do Rato, vai decorrer a festa de despedida de um dos espaços mais bonitos e acolhedores da cidade de Lisboa nos últimos 914 dias.
Trata-se da livraria da Catarina Trama e do Ricardo Trama, dois irmãos cheios de inteligência, afecto e simpatia que transformaram o seu apelido no nome de uma preciosa livraria, onde se podiam encontrar os títulos mais óbvios e os mais rebuscados, mas onde também se podia ouvir música, dançar, ficar sentado (ou de pé) a olhar para o ar ou a conversar descontraidamente - além dos cafés com nome de escritores. A Trama, tal como os muitos amigos e simpatizantes a conheciam, vai fechar. Mas os irmãos Trama prometem reabrir noutro local.
Aquele 25B foi espaço de subversão e de encontro. De subversão porque de encontro. Espaço de afectos. Aos profetas das desgraças todas resta dizer que a Trama é um sucesso, a Trama ultrapassou a crise, a Trama é sustentável. Porque a Trama não é apenas um negócio.

Até já. Abraço do
senhor cliente.

[na foto: os irmãos Trama e, algures ao fundo, Jorge Fallorca]
ÓSSIP MANDELSTAM


Um friozinho faz cócegas na nuca,
é impossível ver de imediato:
também a mim me corta o tempo como
a ti se desgasta e camba o salto.

A si mesma se vence a vida, o som
derrete pouco a pouco, falta sempre
qualquer coisa, até falta o tempo
para ter qualquer coisa que se lembre.

Dantes era melhor, é bem verdade;
esse velho sussurrar de outrora
em nada se pode comparar,
ó sangue, ao teu sussurrar de agora.

Pelos vistos não é gratuito
este leve mexer dos lábios,
e abanam, mexem-se os ramos
que condenaram a ser cortados.

1922


(de Fogo Errante - antologia poética, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, Relógio d'Água editores, 2001)

18.6.10



[tenho quase a certeza de que foi o primeiro poema de Saramago que conheci e quase a certeza de que foi, cantado por Manuel Freire, através do João e do Pedro Tolentino, teria eu uns 15 ou 16 anos]

JOSÉ SARAMAGO


OUVINDO BEETHOVEN


Venham leis e homens de balanças,
mandamentos d'aquém e d'além mundo.
Venham ordens, decretos e vinganças,
desça em nós o juízo até ao fundo.

Nos cruzamentos todos da cidade
a luz vermelha brilhe inquisidora,
risquem no chão os dentes da vaidade
e mandem que os lavemos à vassoura.

A quantas mãos existam peçam dedos
para sujar nas fichas dos arquivos.
Não respeitem mistérios nem segredos
que é natural os homens serem esquivos.

Ponham livros de ponto em toda a parte,
relógios a marcar a hora exacta.
Não aceitem nem queiram outra arte
que a prosa de registo, o verso acta.

Mas quando nos julgarem bem seguros,
cercados de bastões e fortalezas,
hão-de ruir em estrondo os altos muros
e chegará o dia das surpresas.


(de Os Poemas Possíveis, 1966)

16.6.10

MARGARIDA FERRA


Corredor


Se volto cedo
talvez chegue a tempo
do silêncio.
Ou ainda o som dos passos
livres pela rua que desce,
quase cai, livres,
para continuar plana depois.

Antes,
o som metálico das chaves,
as outras e a que abre.
No trinco, e mesmo assim
o silêncio.
Ou ainda a campainha da loja em frente,
quando o vento lhe agita as franjas coloridas,
esse vento ou uni mais alto,
na árvore, cortina da sala.

A porta aberta, passagem
demasiado estreita,
metade da casa
é dos outros.
Do meu lado, no fim
do maior caminho, só o rádio partido
e a luz dos primeiros dias.


(de Curso intensivo de jardinagem, &etc, 2010)

14.6.10

CARLOS EDMUNDO DE ORY


— A terra é das carícias —


A terra é das carícias
do herói e do medroso
dos vivos os nascidos
com lágrimas ou com dinheiro
Tantos mortos levam consigo
para a morte um dente de ouro
As dores repugnantes
Os sopros de inspiração
O cretino e o kantiano
Os que deixam sobre a mesa
o génio e suas medalhas
e num recanto do quarto
a amante despenteada
Acordamos com dois olhos
sem nunca ver a mandrágora
nem o trono dos relâmpagos
Pisamo-nos os calcanhares
para ir à missa à fábrica
Sentimos a solidão
no cinema e na retrete
E tantos milhões de camas
para um sonho só um pão
Dormir depois de comer
Comer depois de dormir
A tristeza da alcachofra
o plátano desnudando-se
Preciosas são as pedras
e as pedras preciosas
A visão de um cimo branco
ou de uma mulher despida
E o sol e o cemitério


(mudado para português por Herberto Helder, in Doze Nós numa Corda, Assírio & Alvim, 1997)

12.6.10

FERNANDO ESTEVES PINTO


A ausência é um desejo do silêncio.
Um encontro incomunicável do corpo com as coisas.
Como escutar os sons do leite na profundidade dos seios.

Libertas o pensamento lentamente à espera do dia.
Vem das sombras crescendo o lugar da dúvida.
Dos olhos começa a distância do caminho.

Aqui nasce o tremor das pálpebras,
os anéis da claridade lenta.
A legibilidade fria do vazio.

Através do contacto físico do corpo
subsiste a impenetrável construção do poema.


(de Área Afectada, Temas Originais, 2010)

11.6.10

DANIEL FARIA


Falo daquilo que vejo, embora possas pensar que sou cego
seguindo as mãos - sim, toco as palavras nas suas superfícies
e utensílios.

A primeira palavra que os olhos viram, agora que a recordo,
parecia uma imagem - sim, um som desenhado como um fóssil
(falo de fóssil, mesmo
que ele demore muito a aparecer no que digo),
um som do tamanho de um azulejo: agora que me lembro que era uma palavra
que brilhava nos meus olhos ao vê-la
(ver uma palavra era uma planta muito diferente,
um oxigénio muito difícil de se respirar).

Sim, agora vejo que falo, embora possas pensar que sigo pelo tacto a escrita.
Sim, eu leio e decifro. E agora sei que oiço as coisas devagar.


(de Homens que são como Lugares mal Situados, Fundação Manuel Leão, 1998)

10.6.10


A partir de agora, a convite da Inês Ramos, passo a colaborar com o blogue Porosidade Etérea.
Espero estar à altura da responsabilidade.