14.7.10

SILVA CARVALHO


O POEMA COMO AUSÊNCIA DE POEMA

É como se não houvesse mundo,
é como se não houvesse homem,
mas o quê? Ignoro-o. A noite
alastra perdidos os seus mantos
no conluio das figuras e dos tropos,
a noite perpassa como um silêncio
que se desconhece de tanto passar
despercebido. É como se não houvesse mundo,
é como se não houvesse homem
na possibilidade deste poema,
que haverá então?

Algum cão ladra lá fora e distrai o pensamento,
algum relógio faz-se notar no silêncio
do apartamento, mas o que me apraz assinalar
é a luz de um candeeiro difluindo pela sala
até que o seguimento "de estar"
se instala
na evidência da língua e do homem.
Algum mundo sem homem existe na imensidão
do firmamento, galáxias descobertas
onde se descobre a perplexidade do homem.
É como se não houvesse noite, haver dia
a dia a experiência de uma presença
que dói até onde não há mais sensibilidade
para o sofrimento.

Até que. Até onde. Até aqui nada mal
para o bem que se deseja, viver na plenitude
da consciência a consciência plena
de um homem, mesmo se através de um mau poema.
São os ritmos que me encantam, são
as subidas e as descidas de um tom,
pena não haver notações musicais
na convenção poema!
Pena não haver um poema onde há
tantas palavras perplexas por não alcançarem
um sentido, pávidas por se sentirem exploradas
na explosão de uma mais íntima emoção.

É como se houvesse um homem e um mundo
onde há apenas o desespero na sua dimensão
mais casual, menos abstracta, mais nociva.
É como se houvesse na noite uma noite outra
impossível de ser identificada, uma noite
do mundo no homem, uma noite do homem
no mundo: é como se não houvesse poema no poema!

27/5/93


(de A EXPERIÊNCIA DA EXPERIÊNCIA, in TETRALOGIA FÁTICA, edições Aquário, 2005)

12.7.10

(clicar para aumentar)

Vou ali a Torres Vedras ao Lançamento da Sítio #6
e celebrar também os 5 anos da LivroDoDia

9.7.10

ALEXANDRE O'NEILL

CARTA-PREFÁCIO
PARA VINICIUS DE MORAES

Amigo:

Quando estiveste, da primeira vez, por aqui dando show, umas granfas (loiras e morenas notáveis, como diria Mestre Carlos, mas granfas), comentando os preços da boate onde, em duas ou três sessões, te produziste com a tua turma, disseram ou fizeram dizer: «Quem não tem dinheiro, não tem Vinícius.» Vinícius, vícios... Não ligues. Olha que elas dispunham de muito bago. Estavam era a ser desajeitadas na maneira de te homenagear. Algumas conheciam de ti o poeta encaixilhado no sério. Charmoso, mas, apesar de tudo, respeitável-respeitoso. Usavam o teu «Soneto do Amor Total», não como tabatière à musique, nem como máquina de pensar, mas como caixinha de arroubos, entre as muitas outras que sempre trazem na molinha, com coisinhas para pôr ou tirar dor de cabeça.
Dessas, umas quantas mostraram-se decepcionadas, ofendidas contigo por teres descido do livro à boate, do soneto ao samba. E fizeram constar a decepção, a ofensa que sentiam. Não ligues. Estavam era mordidinhas de inveja perante a quantidade de liberdade que tu, em cada noite, produzias!
Marcus Vinicius, eu vi-te aquém e além-palco, con-vivi-tigo. No Alentejo, que agora, mais que nunca, ai de nós, é um adjectivo, vi-te, convivi-te no teu simplório convívio. Estavas em construção, como sempre não definitivo. Tua felicidade, teu riso mais riso, era entre esse pessoal amigo.
Há muita gente ainda por aí (tenho medo que aumente!) que de ti o que quer é o catorze, quer dizer o soneto, e rejeita teu outro meio de comunicar, que afinal é o mesmo: tocantar.
Perceba, por uma vez, essa gentalha, que o Vinicius poeta e o Vinicius sambista são da mesma igualha!

São


o operário


em construção


Abração

ALEXANDRE O'NEILL

Lisboa, Nov. 75



(in Vinicius de Moraes, O Operário em Construção e outros poemas, selecção e prefácio de Alexandre O'Neill, publicações Dom Quixote, 1986)





VINICIUS DE MORAES


Pátria Minha

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.
Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.
Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!
Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!
Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a ilha
Brasil, talvez.
Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
«Pátria minha, saudades de quem te ama...
Vinicius de Moraes.»

(in O Operário em Construção e outros poemas, selecção e prefácio de Alexandre O'Neill, publicações Dom Quixote, 1986)

7.7.10

AUGUSTO CABRITA


(in O Sol e o Menino dos Pés Frios, de Matilde Rosa Araújo, 4ª edição: edições Ática, 1980)

6.7.10

SEBASTIÃO DA GAMA


CONVITE A SER-SE MOÇO


Não!
—que há-de vir nova sorte;
que estou na casa dos vinte,
a minha Noiva é moça e confiante,
e todas as manhãs
surgem de cada tronco mais rebentos
que o Sol baptiza.

NÃO! AINDA NÃO! Reprime,
Jovem, essa grande vontade de chorar,
não vá julgar-te a Vida algum estranho
por quem passe indiferente e distraída.
Como há-de agasalhar-te,
como há-de, Jovem,
se te não reconhece por seu filho?...

AINDA NÃO!
Agora, esquece
o que tu crês motivo pra chorar
(seja tristeza, Jovem, ou saudade),
reprime o choro e merece
a tua mocidade...


(de Serra-Mãe, 1945)
MATILDE ROSA ARAÚJO / SEBASTIÃO DA GAMA

[...] Eras tu, Sebastião; tu glorioso, apesar do teu corpo mudo de menino de tua mãe. Tu que me disseste: «E quando a morte vier diz-lhe que não; diz-lhe que és moça e não cumpriste ainda. Vês, querida amiga, é por causa de momentos assim, em que te resignas a ela, que é preciso a gente escrever, mesmo com certa casca literária, uma «largada». Porque mocidade é insurreição, protesto contra o que não está direito, vontade de erguer monumentos, desassombro para contrariar a morte. Negas a tua mocidade — não a mereces, quando, em momentos que eu muito bem compreendo, aceitas a morte como uma boa irmã. E sabes tu por que motivo a morte, surda ao teu abandono, às boas vindas que lhe cicias, se vai para outros caminhos? É porque ainda a não mereces. Nós não merecemos a morte ainda, Matilde. Que é que nós fizemos? Que lágrimas enxugámos? A que bocas demos pão? Que remédios trouxemos para curar o «mal profundo da alma»? Claro, minha filha, que alguma coisa fizemos. A nossa torre de marfim é bem rasgada de janelas. Mas o «alguma coisa» que fizemos é tão débil, tão mínimo... Ver Nápoles e morrer — dizem. Fazer alguma coisa e morrer — devemos dizer nós, gente nova. Tu perguntaste-me, quando te disse o «Convite a ser-se moço»: «Porque rimaste no fim?» Achei fora de propósito a pergunta... Mas, se meditasse um minuto, talvez respondesse que para fixar melhor aqueles últimos versos.
É preciso merecer a mocidade, é preciso merecer a mocidade, é preciso merecer a mocidade. E o processo não é dizer que sim à morte.
Quantas vezes me insurjo contra mim, Matilde, porque me não sinto verdadeiramente moço; é que a minha vida tem mais horas de sangue morno do que sangue latejante... E eu queria ser era forte, era moço, era construtivo. Não para que dissessem, num elogio: Aquele é forte, é moço, é construtivo. Antes para sentir que era útil. Tanta vez tenho vergonha de mim, me sinto mesquinho!» E conta. E continua : «...agora não quero mais senão fixar uma coisa: é que podem todos gritar, como têm gritado, que sou um indiferente, um desinteressado dos... que me cercam — que eu sinto tranquila a minha consciência. E para tal me basta que saiba, de ciência certa, que não sou indiferente, que me não desinteresso. Valem, para mim, muito mais as acções do que as palavras. E tenho e certeza de que sou humano e do meu tempo nas minhas relações com os outros. Para muitos desses outros não basta — queriam qualquer ismo para designar a minha maneira de ser; qualquer ismo moderno. Mas paciência. E sobretudo é cedo demais para julgar quem é mais interessado.
E também já estou a escrever demais e sério demais. A isto me levou o nevoeiro que amanheceu na Arrábida. Desculpa. Eu preferiria, de facto, contar-te uma história de crianças. Olha, esta, a que a Joaninha assistiu: «Eu gostava de ser flor. E tu?» Bem é verdade: «O melhor de tudo são as crianças».
As crianças. Era isso, Sebastião. Era tudo isto: o sol alado, glorioso, que morreu ontem. Era esta tua força perante a vida, este teu merecer a morte, gloriosa e final como mereceste. É isto que nos afasta. Tu mereceste-la inteira [...]

(in Távola Redonda - folhas de poesia, fascículos 16 e 17 [edição de homenagem a Sebastião da Gama], 30 de Abril de 1953 - da edição fac-similada: Contexto editora, 1989)

2.7.10

PAULO NOZOLINO

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COMUNICADO
/ DEVOLUÇÃO DO PRÉMIO AICA/MC

Recuso na sua totalidade o Prémio AICA/MC 2009 em repúdio pelo comportamento obsceno e de má fé que caracteriza a actuação do Estado português na efectiva atribuição do valor monetário do mesmo. O Estado, representado na figura do Ministério da Cultura (DGARTES), em vez de premiar um artista reconhecido por um júri idóneo pune-o! Ao abrigo de “um parecer” obscuro do Ministério das Finanças, todos os prémios de teor literário, artístico e científico não sujeitos a concurso são taxados em 10% em sede de IRS, ao contrário do que acontece com todos os prémios do mesmo cariz abertos a candidaturas.
A saber: Quem concorre para ganhar um prémio está isento de impostos pelo Código de IRS. Quem, sem pedir, é premiado tem que dividir o seu valor com o Estado!
Na cerimónia de atribuição do Prémio foi-me entregue um envelope não com o esperado cheque de dez mil euros, como anunciado publicamente, mas sim com uma promessa de transferência bancária dessa mesma soma, assinada por Jorge Barreto Xavier, Director Geral das Artes. No dia seguinte, depois do espectáculo, das luzes e do social, recebo um e-mail exigindo-me que fornecesse, para que essa transferência fosse efectuada, certidões actualizadas da minha situação contributiva e tributária, bem como o preenchimento de uma nota de honorários, onde me aplicam a mencionada taxa de 10%, cuja existência é justificada pelo Director Geral das Artes como decorrendo de um pedido efectuado por aquela entidade à Direcção-Geral dos Impostos para emitir “um parecer no sentido de que, regra geral, o valor destes prémios fosse sujeito a IRS”.
Tomo o pedido de apresentação das certidões como uma acusação da parte do Estado de que não tenho a minha situação fiscal em dia e considero esse pedido uma atitude de má fé. A nota de honorários implica que prestei serviços à DGARTES. Não é verdade. Nunca poderia assinar tal documento.
Se tivesse sido informado do presente envenenado em que tudo isto consiste não teria aceite passar por esta charada.
Nunca, em todos os prémios que recebi, privados ou públicos, no país ou no estrangeiro, senti esta desconfiança e mesquinhez. É a primeira vez que sinto a burocracia e a avidez da parte de quem pretende premiar Arte. Não vou permitir ser aproveitado por um Ministério da Cultura ao qual nunca pedi nada. Recuso a penhora do meu nome e obra com estas perversas condições. Devolvo o diploma à AICA, rejeito o dinheiro do Estado e exijo não constar do historial deste prémio.

Paulo Nozolino
1 de Julho de 2010


Retirado daqui. Não receiem seguir o link, é um site completamente seguro, apesar do disparatado aviso do blogger.

29.6.10

CARLOS QUEIROZ


APELO À POESIA


Porque vieste? — Não chamei por ti!
Era tão natural o que eu pensava,
(Nem triste, nem alegre, de maneira
Que pudesse sentir a tua falta...)
E tu vieste,
Como se fosses necessária!

Poesia! nunca mais venhas assim:
Pé ante pé, cobardemente oculta
Nas ideias mais simples,
Nos mais ingénuos sentimentos:
Um sorriso, um olhar, uma lembrança...
— Não sejas como o Amor!

É verdade que vens, como se fosses
Uma parte de mim que vive longe,
Presa ao meu coração
Por um elo invisível;
Mas não regresses mais sem que eu te chame,
— Não sejas como a Saudade!

De súbito, arrebatas-me, através
De zonas espectrais, de ignotos climas;
E, quando desço à vida, já não sei
Onde era o meu lugar...
Poesia! nunca mais venhas assim,
— Não sejas como a Loucura!

Embora a dor me fira, de tal modo
Que só as tuas mãos saibam curar-me,
Ou ninguém, se não tu, possa entender
O meu contentamento,
Não venhas nunca mais sem que eu te chame,
— Não sejas como a Morte!


(de Desaparecido, 1935)

27.6.10


Poemas transmitidos oralmente por Silvina da Conceição Leal (27/06/1910 – 27/09/1997), minha Avó.


Quando Salomão morreu
Deu o corpo à sepultura
Na caveira lhe puseram
Uma árvem de grande altura
Casa cheia tem fartura
Não sou só eu que o digo
Vão as galinhas ao trigo
Quem paga são os pardais
O burro tem atafais
E também tem seus estribos
Na praça se vendem figos
P´ra contentar os rapazes
No mar voam alcatrazes
Também lá se pescam gaivotas
Menina das penas tortas
Todos lhe chamam caneja
Vão-se as sezões com desejos
E as feridas com unguentos
Roda o moinho é com o vento
Quem faz a teia é a aranha
Esta cantiga é tamanha
Que não tem cabo nem fim
Num raminho de alecrim
Que se dá aos namorados
Se forem muito amiguinhos
Por Deus serão ajudados
Fazem-se as armas
É p’rós soldados
E também p’rós caçadores
Menina se tem amores
Diligente deve andar
Faz-se a gaita é p’ra tocar
E o pente é p’rá cabeça
Menina não endoideça
Que ‘inda pode ser feliz
Porque tem tamanho nariz
Que lhe vai da testa ao seio
Todo o mundo fala e diz
Que tem mais de palmo e meio
«Já mo vieram gabar
P’rá bigorna dum ferreiro
E também dum ferrador
P’rá rabiça dum arado
E p’ró cajado dum pastor.»

(transcrito de memória)


Recebi há bocadinho
Uma carta do priminho
A primeira
Que alegria
Eu contá-lo não devia
Mas no entanto
Dizer-lhes vou
Como isto começou
(Não digam nada ao meu avô)
O priminho
Costumava ir dez, doze vezes por mês
A casa dos avós jantar
Pedia para ficar à mesa
Sentado a meu lado
Com a cadeira muito chegada para mim
E com o pé tocava-me assim
O atrevido um dia
Diz-me baixinho ao ouvido
«Ai priminha, o meu desejo,
Agora, era dar-te um beijo»
Eu fiz-me muito corada
À mamã não contei nada
Só ao priminho é que disse
«Isso é uma patetice.
Se me pretende namorar
Com ideias de casar
Deve ter muito juízo
E esperar o tempo preciso
Em que o papá lhe dará a minha mão
Eu por mim não direi que não
Podemos ser, enfim, uns namorados
Como muitos que por aí vejo
Deve ir passear a meu lado
Também me deve escrever»
Um certo dia
Em que eu pensava
O priminho ter-me abandonado
Sinto bater à porta
Umas pancadinhas medrosas
Era ele! O priminho!
Com certo ar de medo
Trazia nas suas mãos uma carta
Subscritada
Que dizia o seguinte:
«Minha encantadora prima
(Bravo!
E o priminho já se anima
A tratar-me por encantadora
Mas enfim, vamos ao resto)
Vou participar a teu papá
Sem consultar com a mamã
Para te comprar uma boneca
Que o Matos Moreira tem na montra
Pois às crianças
Se deve comprar
Bonecas para brincar»
Ó, eu criança?
Olha o maroto!
Mas não cai em saco roto
Sem pau nem pedra o castigo
Vou já, já,
Mandar por aí um criado
Com o retrato que me deu
Para em troca o meu
Nem pintado o quero ver
Quem tanto me fez sofrer
Com ofensivos gracejos
Não me volta a roubar beijos
Como ‘inda há pouco
O maroto fez
O maroto esta manhã
Como a tempo não fugi
Deu-me três beijos aqui
Que eu bem senti
Todos três
Mas se voltar outra vez
Há-de ficar em jejum
Não me rouba mais nem um!!

(transcrito de gravação)


– Que bonita, esta moça
De corada como está
Desde que vim do Brasil
‘Inda não vi outra cá
Isto é cor da menina
Ou pintura que lhe dá

– É porque o senhor não vê bem
Ou bom da vista não vai
Ainda que lave o rosto
Esta cor daqui não sai

– Já vejo que é cor natural
Que faces rosadas tem
Vou-lhe a meter um partido
Se a menina lhe convém
Ir comigo p’ró Brasil
Se não tiver pai nem mãe

– Obrigado, meu senhor
Mas não posso aceitar
Toda a vida tive medo
De passar águas do mar

– O mar é uma brincadeira
Não custa nada a passar
Até dá gosto à gente
Quando vai a balançar
Lembra-me certas coisinhas
Quando me ponho a cismar

[ai… aqui é que me falta não sei o quê]

– Vem comigo, não te importes
Que o Brasil é bem bonito
E assim que tu lá chegares
Eu compro-te um periquito

– Evita de me prometer
Com isso não me leva lá
Periquitos que eu deseje
Também há muitos por cá
Mais lindos e com mais graça
Do que o Brasil tem por lá

– Até eu também tenho um
Que te posso fazer presente
Quando vê moças bonitas
Até pula de contente

– Até pula de contente
Eu em si acho tolice
O que poderia ele fazer
Se não o ajuda velhice?

– A um homem da minha idade
Ninguém de mim faça troça
Eu sou velho de bom tempo
Lidei com gente na roça
Nunca foi muito de meu costume
Meter-me a trabalho que não possa

– Se se acha com coragem
De todo o trabalho fazer
Veja se tem rendimentos
Para me dar de comer
Vestidos para vestir
E teatro p’ra me entreter

– Nunca te há-de faltar nada
Comer bem, beber melhor
Vestidos de seda fina
E teatro do maior

– Fiz-me muito esquisita
E fui sempre muito forte
Vou fazer muitas festinhas
Ao periquito do velhote

(transcrito de gravação)


Adeus, adeus ameixeira
Adeus ameixas e tudo
Sabe Deus quem chegará
A outro dia de Entrudo

(transcrito de gravação)

24.6.10

JOÃO RUI DE SOUSA


RUMOROSAS VOZES


Rumorosas vozes vinham
e depois paravam.

Talvez fossem só lágrimas caindo.
Talvez campos de sal que nos desciam
desde um horizonte de clausura
até às pálpebras:
para mostrarem como a vida estala
quando a alegria morre ou não cintila
em braços esplendorosos, na redondez
de um colo, na casa que é bem nossa
e pousa na cabeça,
e mesmo na grata circunstância
de trabalharmos tanto
no trato de um jardim desordenado
— sem árvores alinhadas nem canteiros,
sem corações opressos
por rectilíneas áleas.


(de Quarteto para as próximas chuvas, publicações Dom Quixote, 2008)

23.6.10

JOANA BÉRTHOLO

[...] não se pode dar ouvidos à minha irmã Karenyina.
- Porquê?
- Ela é boa pequena. Bonita como há poucas. Mas é meio-louca. Por isso é que o povo gosta tanto dela. Desde pequenina que só sabe abrir a boca para contar mentiras. Por isso é que o povo gosta tanto dela. Porque de vez em quando, acerta.
Acerta como?
- Conta histórias de coisas que ninguém sabe. E depois quando se vai a ver, são verdade.
[...]

(excerto de Diálogos para o fim do mundo, editorial Caminho, 2010 - o campo da palavra)

21.6.10

GRAÇA MORAIS


JOSÉ SARAMAGO



30

Uma vez mais os lugares conhecidos os lugares de solidão e de morte os centímetros quadrados de tortura as cores do sangue até à sua final cor de terra

Uma vez mais o infinito combate as batalhas aquelas que se ganharam e essas outras humildes perdidas e de que não se quer falar

Uma vez mais os suspiros sobretudo os últimos e os primeiros e os que estão entre uns e outros uma vez mais o braço sobre o ombro e o corpo sobre o corpo

Uma vez mais tudo o que uma vez foi ou muitas as pegadas de hoje na marca dos pés antigos uma vez mais a mão no gesto começado e interrompido e assim sucessivamente

Uma vez mais a ida e o regresso e agora a esperada fadiga entre duas altas montanhas num chão de pedra onde a sombra de repente fica enquanto o corpo se dissolve no ar

Assim olhar apartado a própria sombra com olhos invisíveis e sorrir disso enquanto as pessoas perplexas procuram onde nada está

E uma criança objectiva se aproxima e estende as mãos para a sombra que fragilmente retém o contorno ainda mas não já o cheiro do corpo sumido

Uma vez mais enfim o mundo o mundo algumas coisas feitas contadas tantas não e sabê-lo

Uma vez mais o impossível ficar ou a simples memória de ter sido

Consoante se conclui de nada haver debaixo da sombra que a criança levanta como uma pele esfolada


(final de O Ano de 1993, 1975 / ilustração da 2ª edição: editorial Caminho, 1987)

20.6.10


O dia 26 de Maio de 2000, fui ver agora, calhou a uma sexta-feira. Lembro-me de que nesse dia estava aquele calorzinho ameno de Primavera, tão habitual em Lisboa. Decorria a Feira do Livro e, durante a tarde, lá fui para o Parque Eduardo VII. Deviam ser umas 3 horas quando me apercebi de que José Saramago estava junto ao pavilhão da Caminho para dar autógrafos. E sem ninguém a fazer fila, o que para mim foi surpreendente - nunca tinha pedido um autógrafo a Saramago, exactamente por causa das filas. Comprei o Ensaio sobre a Cegueira, que lhe apresentei para me assinar, juntamente com o Memorial do Convento, que andava a ler e que trazia na pasta. E fui-lhe pedindo desculpa por ser um exemplar usado, pois tinha-o comprado num alfarrabista. Saramago, então, sorriu-me e disse: «eu também comprei muitos livros em alfarrabistas e devo muito a isso.»

Neste momento, não posso deixar de associar a morte de Saramago com o fecho do espaço da Trama, uma livraria que também era alfarrabista e onde encontrei belas preciosidades.

19.6.10

Hoje o dia correu genericamente bem, apesar de termos sofrido uma emboscada dos homens de Arroyo que nos dizimou gravemente.
(de um conto de Woody Allen)


Mais logo, na Rua de S. Filipe Nery, junto ao Largo do Rato, vai decorrer a festa de despedida de um dos espaços mais bonitos e acolhedores da cidade de Lisboa nos últimos 914 dias.
Trata-se da livraria da Catarina Trama e do Ricardo Trama, dois irmãos cheios de inteligência, afecto e simpatia que transformaram o seu apelido no nome de uma preciosa livraria, onde se podiam encontrar os títulos mais óbvios e os mais rebuscados, mas onde também se podia ouvir música, dançar, ficar sentado (ou de pé) a olhar para o ar ou a conversar descontraidamente - além dos cafés com nome de escritores. A Trama, tal como os muitos amigos e simpatizantes a conheciam, vai fechar. Mas os irmãos Trama prometem reabrir noutro local.
Aquele 25B foi espaço de subversão e de encontro. De subversão porque de encontro. Espaço de afectos. Aos profetas das desgraças todas resta dizer que a Trama é um sucesso, a Trama ultrapassou a crise, a Trama é sustentável. Porque a Trama não é apenas um negócio.

Até já. Abraço do
senhor cliente.

[na foto: os irmãos Trama e, algures ao fundo, Jorge Fallorca]
ÓSSIP MANDELSTAM


Um friozinho faz cócegas na nuca,
é impossível ver de imediato:
também a mim me corta o tempo como
a ti se desgasta e camba o salto.

A si mesma se vence a vida, o som
derrete pouco a pouco, falta sempre
qualquer coisa, até falta o tempo
para ter qualquer coisa que se lembre.

Dantes era melhor, é bem verdade;
esse velho sussurrar de outrora
em nada se pode comparar,
ó sangue, ao teu sussurrar de agora.

Pelos vistos não é gratuito
este leve mexer dos lábios,
e abanam, mexem-se os ramos
que condenaram a ser cortados.

1922


(de Fogo Errante - antologia poética, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, Relógio d'Água editores, 2001)