25.9.10

ANTONIO BENEYTO


6

Existe algo naquele homem. Parece que não deseja ver-me e transforma-se numa mesa. Sabe que escrevo sobre uma coisa plana e quer que o faça sobre ele. E não sabe ou não compreende que escrevo a carta a Genoveva no local onde me encontro: por vezes, em cima de uma flor; ou sobre o ramo de uma árvore, fazendo equilíbrio. Que formosura. Quando o outro homem, o que está vestido de azul, me chamar já serei muito velho. Por onde ou com quem estiver nesse preciso momento. Faz tempo que não rezo e o Natal está aí, nas patas da mesa. Penso que rezar é caminhar pela vida; movendo o corpo e fazendo com que o teu sapato se desgaste de imediato. E também a mesa onde se escreve e que as unhas da alma já não cresçam, e que ninguém, absolutamente ninguém, te recorde. E ver a regra, e a carteira cheia de envelopes, e de papéis, e pisa-papéis, e Pisamorena*, e papéis escritos, e use esta papeleira, e pegadas desconhecidas. Existe tanto silêncio quando se quer rezar, quando se quer fazer o amor à fêmea que brutalmente, desconcertadamente, se abre e se fecha como o camião do lixo. Ela coseu-me com beijos depois de me coser o forro do casaco. Agora descanso.



* Bar em Barcelona onde se dança Flamenco.

(tradução minha - original de Textos para leer dentro de un espejo morado, 1975)

22.9.10

VINDEIRINHO


g_


de repente ganha vida uma angústia de pedra milen
ar da falta de memória -

grandes espingardas abandonadas em disposição quase gráfica
num salão enorme de pianos de
cauda - uma grinalda de televisões de ecran panorâmico e
uma aparelhagem
dvd

visão de baratas, uma casa abandonada no
edifício do

vento. viemos todos ver o filme, ouvir a
rajada de tiros, os vasos de flores
partidos, andas pela casa ou
vindo a voz das sombras, de

repente e passas a mão pelos meus cabelos - esqueci
me do teu nome, do teu ritmo drum n'
bass. dormes

durante a madrugada, dormes um
milénio deitada no sofá, cansada, com um gato ao colo e a
imagem fica des
focada - olhas pela varanda a paisagem
amanhã poderei acender um cigarro, não fumar um
cigarro, enquanto se conduz o automóvel pela
alameda e hoje é um dia um pouco mais ou
menos como os
outros e as imagens desvanecem como arco-íris fugazes,
apenas o alcatrão de uma estrada em numa viatura seguindo pela
chuva -
um dia um pouco mais ou
menos como os outros
o decreto de lei, os cidadãos virtuais, um
ficheiro em branco que de re

pente

ganha vida a


(de Domésticos, Black Sun editores, 2001)

21.9.10

PEDRO PROENÇA



ANTÓNIO POCINHO


O Polvo é que andava muito deprimido. Então não é que, em Terra, o consideravam um peixe mafioso, em virtude dos seus tentáculos?... Ele que nunca tinha estado minimamente ligado à Mafia. Era uma grande injustiça, uma calúnia pela qual ia pedir uma indemnização em tribunal. O seu advogado, o Pargo Legítimo, pedia ainda uma pena de dois meses de conserva em momo de tomate para todos aqueles que fossem apanhados a cbamar "polvo" a qualquer associação de malfeitores. Quanto a este processo, estou convencido de que o polvo vencerá, porque um polvo unido jamais será vencido.
Ainda por cima, o Polvo é conhecido no mar alto precisamente por ser o oposto do mafioso. Está certo que se serve dos seus tentáculos para almoçar, mas, fora das refeições, cada um daqueles oito braços são o instrumento da gentileza, da bondade e da dedicação ao trabalho. Eles servem sobretudo para cumprimentar, acariciar, dar, distribuir, fazer coisas, para o que não tem mãos a medir. No mar alto, chamar polvo a alguém é um elogio. Ser um polvo significa ser uma jóia de pessoa. Trabalhar que nem um polvo significa trabalhar muito.
Como devem calcular, o Polvo é muito solicitado para todo o tipo de trabalhos manuais, especialmente reparações e mudanças. Com os seus oito braços, ele consegue executar simultaneamente várias tarefas. A última vez que o tive cá em casa, arranjou-me ao mesmo tempo o esquentador e a televisão, enquanto atendia o telemóvel e fumava dois cigarros. Sim, imaginem, dois cigarros. Um deles era um daqueles cigarros medicinais para deixar de fumar.


(ilustração e excerto de texto de Quanto custa criar uma sardinha, edições Fenda, 1999)

20.9.10

IVAN LAUCIK


ATÉ ÀS GRUTAS


Respirar
nos socalcos dos rochedos,
à noite.
No átrio de ar frio,
fosforescente de brilho intocável.

Entrámos pelos portões desfeitos.
É mais do que um toque,
mais do que um rito.

Tremor
de si próprio?
No silêncio do espaço da chuva
a luz desnuda-se até ao fio
e esfuma-se na claridade.

Descemos pelos filamentos de vidro
que se ramificavam como as asas das crónicas.

Êxtase puro, profundo.
Polpa de silêncio invernal
explodindo na camada de movimento
através de sons.
Noite plena de imagens
no fluir do olhar.

Levámo-las connosco?
Essas estrelas negras que rodam?
A dolorosa persistência da língua?
Fendas de calor nas paredes,
bocas cheias de terra.
E na luz frágil: vermes?
Chama branca e violácea?

Movimento
solto de si próprio.
Simples fios
capazes de florir na noite.


(de Mobilis in mobile , tradução colectiva (Outubro 1997) revista e apresentada por Pedro Mexia, Quetzal editores, 1999)

19.9.10

FRANCISCO BRINES


O ESTRANHO HABITUAL


A casa, branca e grande, vazia do seu dono,
permanece. Silvam os pássaros; os muros, um olor.
Quem volta sofre com o desterro da casa.
Aqui descobriu o mundo; lugar para morrer.
Andou por cidades inóspitas; nelas só aprendeu
desprendimento; e até a si mesmo se estranhou.
Reflecte: terá amado a vida?
Supôs amar o instante e só amou sua carne
solitária, ou amou talvez a carne que o amou.
Por certo tudo fora desejo insatisfeito,
e sua esperança foi apenas nostalgia
do que viria depois; assim foi o futuro
como a lembrança: um fantasma de luz; e o outro,
sombra. A casa está vazia do seu dono
e ele chega desamado. O horto é aroma
de flor de laranjeira. Sobe as escadas e na sala
vê o mar escurecer, a inquieta lonjura.

E de novo surpreende, no jardim, quem o olha
e o que nunca lhe fala,
esse veloz ancião de cabelos brancos,
constante companhia de seus últimos anos,
esse ancião demente que o segue, ligeiro dia e noite,
presente como areia de um relógio,
agora hóspede estranho da casa, distante e sem convite,
recluso no jardim, sem nunca se deter,
e sempre que o olha aquele olha-o,
sem sorriso e expressão,
pois é cego e é surdo, e tão-pouco é mortal.


(tradução de José Bento, in Ensaio de uma Despedida - Antologia (1960-86), Assírio & Alvim, 1987 - documenta poetica / original de Insistencias en Luzbel, 1977, com dedicatória "A Manolo Borrás")



ÀLEX SUSANNA


A ÚLTIMA LUZ


La casa, blanca y grande, vacia de su dueno,
permanece. Silban los pájaros; las tapias, un olor.
Quien regresa se duele del destierro de la casa.

...........................................................F. Brines

Não passa o tempo, passam as coisas.
Homens, mulheres, árvores, crianças
que se aproximam, se afastam e se esquecem,
e descobrimos que tudo foi sucedendo
de um modo similar desde um remoto início.
Mas o tempo não, esse não passa;
passam as coisas e a dor cresce dentro de nós
e também nós passamos, e outros chegam
e trazem o prazer e depois levam-no.
Assim tudo passa - e a vida e a morte,
e aquilo que mais queremos
(só passa aquilo que se ama).
Por isso nada passa, fora de nós,
de ti, de mim, tornamo-nos velhos e preguiçosos
e queríamos acreditar que tudo se mantém
mas o corpo é mais débil cada dia,
a memória mais frágil,
e parece que tudo, inevitavelmente,
conhece o seu outono e o seu último inverno.
E afinal nada passa, ou quase nada:
só nós passamos
e em vez disso continuarão as casas,
os quartos onde vivemos tantas horas
a ler e a falar, a beber, a rir,
amando-nos, dormindo...
Perdurarão os objectos, sempre tão dóceis
ao nosso olhar - uma cadeira, um jarrão,
uma antiga gravura, a lareira, uma fotografia -,
e as esquinas, as praças,
as ruas tortuosas do bairro antigo
onde tão frequentemente vagueámos
em busca da última luz, a pedra dourada,
o jardim escondido,
...........................e perdurarão, finalmente,
os caminhos entre as cepas e as praias,
onde soubemos esquecer-nos de nós mesmos
e fomos felizes de tanto esquecimento.
Perdurará tudo, ou quase tudo:
só nós passaremos,
sombras incertas de alva enevoada,
longínquas chamas de um fogo provocado,
seixos lançados no fundo de um negro poço
que ninguém poderá fazer sair da sombra.


(de Palácio de Inverno / Palau d'hivern, 1987, in Os Anéis do Tempo, tradução de Egito Gonçalves, Limiar, 1995 - Os Olhos e a Memória)

18.9.10

MANUEL DE FREITAS


TRISTES TROPOS


para o Fernando Luís Sampaio

Diabo. Fugiu-me pela janela
que não estava aberta
um oxímoro em forma de tambor.
Como percuti-lo agora,
a braços (catacrese vossa) com
um gelo trincado e 40 graus de sono?

Distracção não foi, nem modo
de sucumbir que se resolva assim,
nas dobras frouxas e cansadas
de um anacoluto reles.
Falemos, oh sim, do corpo,
quando se repara e não faz mal sequer
que já nada espera — de si ou dos outros.

Meras contingências, acasos de acaso
feitos que outrora fulguravam
por obrigação ou medo
na pressa metonímica de um beijo
cor da morte. Habituamo-nos
a perder, vereis, como células desfocadas
que odeiam resignadamente
o relâmpago da manhã.

Era uma metáfora, eu sei,
senti melhor do que vocês
a sua baba quente e desajustada
sobre os ombros onde um cancro sonha,
trazendo aliterações tristes
àquele que findando fica.

Podia ser eu, não podia?, a
genuflectir quiasmos em tempo
de musas e de vírus complacentes
que se nos não matarem
a morte o fará, descansem.

Leram decerto Montaigne, João Paulo
Segundo, Laura Ashley, e não
se repetem souvent estes dias
de entranhas calcinadas
e de enxofre disfarçando cinzas.

Por isso me calo, imaginando
uma palinódia em zinco pós-moderno
mais propícia, enfim, aos vossos zeugmas morais.


(de Game Over, &etc, 2002)

11.9.10

WISLAWA SZYMBORSKA


FOTOGRAFIA DE 11 DE SETEMBRO


Atiraram-se dos andares em chamas.
Um, dois, ainda alguns,
mais acima, mais abaixo.

A fotografia deteve-os na vida,
preservou-os
sobre a terra ruMo à terra.

Cada um ainda na íntegra,
com rosto individual
e sangue bem guardado.

Ainda há tempo
para os cabelos esvoaçarem
e do bolso caírem
chaves e alguns trocos.

Ainda estão ao alcance do ar,
no âmbito dos lugares
que acabaram de se abrir.

Só duas coisas posso por eles fazer:
descrever este voo
e não acrescentar a última frase.


(de Instante, tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio Neves, Relógio d'Água, 2006)

6.9.10

DORA RIBEIRO


um poeta se faz no silêncio
em bocas sem palavras
onde as horas são becos escuros
e os lábios difíceis marcas do tempo

um poeta se faz no oco do mundo
em lugares expostos e secretos
minúsculos
mas incendiáveis


(de Outros Poemas, 1997 - in o poeta não existe, Angelus Novus / Cotovia, 2005 - Colecção Inimigo Rumor)

1.9.10

Olhar à volta é a tua função
E, entretanto,
Colocar as mãos sobre o alimento
E contar do sonho e da esperança.

Após as solenidades,
Hás de ir ao encontro
Dos que estão sentados olhando as mãos.

29.8.10

IRENE LISBOA


Escrever


Se eu pudesse havia de transformar as palavras
em clava.
Havia de escrever rijamente.
Cada palavra seca, irressonante, sem música.
Como um gesto, uma pancada brusca e sóbria.
Para quê todo este artifício da composição sintáctica e métrica?
Para quê o arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, secas e bárbaras, pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo.
Vejo, admiro, desejo?
Ou sim ou não.
E como isto continuando.

E gostava para as infinitamente delicadas coisas
do espírito...
Quais, mas quais?
Gostava, em oposição com a braveza do jogo da
pedrada, do tal ataque às coisas certas e negadas...
Gostava de escrever com um fio de água.
Um fio que nada traçasse.
Fino e sem cor, medroso.

Ó infinitamente delicadas coisas do espírito!
Amor que se não tem, se julga ter.
Desejo dispersivo.

Vagos sofrimentos.
Ideias sem contorno.
Apreços e gostos fugitivos.
Ai! o fio da água, o próprio fio da água sobre
vós passaria, transparentemente?
Ou vos seguiria humilde e tranquilo?


(de Outono havias de vir, 1937)

27.8.10

[recuperando séries antigas - gatos mortos]

RUI MANUEL AMARAL


O gato morto


Um homem batia num gato morto. Batia-lhe com toda a força, ventilando ao mesmo tempo os seus sentimentos de desprezo por meio dos piores insultos que jamais foram dirigidos a um gato. Ora, estando morto, o bicho evidentemente não reagia. Mas nem por isso o homem parecia disposto a parar. Pelo contrário: cada vez mais encarniçado, batia-lhe umas vezes nas costas, outras nas patas, outras no focinho, puxando-lhe outras vezes a cauda e os bigodes. Numa palavra, assentava-lhe bem as costuras. Isto prolongou-se durante longos minutos, só abrandando quando se sentiu fatigado e quando já não havia no corpo do bicho um lugar sequer que não estivesse macerado. Foi então que de repente o gato se lançou furiosamente sobre o homem e lhe esgadanhou a cara com tal ímpeto que só por um incrível rasgo de sorte lhe não arrancou o nariz e as orelhas.

(daqui)
[recuperando séries antigas - gatos mortos]

INÊS LOURENÇO


FELINUS


A Maria Tobias era preta
e branca. Na parte branca era
Tobias e era Maria na preta. Morou
connosco cinco anos. No sexto, numa
quinta-feira santa pôs-se a dormir
depois de um longo jejum. Ficaram-nos
nas mãos festas desabitadas e os poucos
haveres: uma malga, uma manta, um bebedouro,
que não logramos enviar
para a nova morada.


(de Coisas que nunca, &etc, 2010 - originalmente publicado aqui / mais sobre a gata Tobias aqui)

26.8.10

[recuperando séries antigas - gatos mortos]

BOHUMIL HRABAL

[...] O tio Pepin ficava sentado toda a noite, junto do aparador, completamente imóvel, atrás dele sentava-se o velho gato Celestino, roído pelo tempo do mesmo modo que a cara do tio; aquele gato, quando era novo, dormia sempre debaixo das roseiras e das peónias do jardim, sozinho, ele tinha tratado de quase todas as gatas dos arredores... bastava-lhe ficar fora de casa quinze dias. Ao regressar das suas escapadelas, gritava durante todo o caminho: «Abram a porta, vou para casa! Preparem o melhor que têm para me oferecer!...», e tinha tudo o que queria, como o tio Pepin... arisco, não deixava que lhe fizessem festas e, se tal acontecia, o Celestino atacava imediatamente e vencia sempre, como o soldado austríaco, chegou até a atacar o pai, saltando-lhe para as costas, quando este o repreendia com a vassoura na mão. Tinha a cara tão marcada das brigas como o tio Pepin tinha a cara cheia de rugas por causa das vadiagens nocturnas e do levantar de manhã cedo, do trabalho pesado na lavagem dos tonéis, nas caldeiras, nos frigoríficos e nos esgotos. Agora lá estavam sentados lado a lado, o tio Pepin apalpou a cabeça do gato e perguntou baixinho: «Estás aqui?», e o gato ronronava e rezingava, sentado, encostado atrás do tio, como um mocho nos ombros de uma vidente, o gato estava feliz e o tio também. Todas as noites se sentavam assim, sozinhos, falavam apenas um com o outro, já não conseguiam comunicar com mais ninguém. Depois aconteceu que, por duas vezes seguidas, o tio não conseguiu encontrar, às apalpadelas, a cabeça do Celestino e, por duas vezes, ninguém respondeu grunhindo à pergunta: «Estás cá?». Então o tio Pepin deixou definitivamente de andar, já nem se levantava da cama, exactamente como o Celestino, o velho gato, que já não voltou a casa, porque os velhos gatos não morrem em casa.

(excerto de A Terra onde o Tempo Parou, tradução de Ludmila Dismánova e Mário Gomes, edições Afrontamento, 1990 - fixões)

25.8.10

RAFAEL DIONÍSIO


ESTE É O MAR DE ANTEONTEM


este é o mar de anteontem
assim, plano, pleno, em respirar
já houve assim antes quando a cabeça para baixo
quando a impulsão da água faz da vertical
do mergulho para estar noventa graus é
essa espécie de descorporização

ou a alucinação ou a miragem
ou a suspensão num jardim de xisto
ou as cores míopes das algas

com os sentidos se me dizes desligados
dos olhos que dissolver na água,
num movimento inabitual que nós,
as criaturas da gravidade, assim,
para o fundo é aquático, o corpo
todo em desaparece anteontem,
com essa desencarnação da mente,
da mente corpo, isto assim é exacto:
é a sublimação

(in Ópio, vol. 2.1 - Inverno 2000/1)

24.8.10

[recuperando séries antigas - cebolas e Prémio Nobel]

HAROLD PINTER

[...]

- Que é que tens aqui? - perguntou Len, abrindo o armário. Tens alguns pickles? Sabes o que eu fiz no outro dia? Mostrei a um gajo que trabalha comigo, um estudante de Oxford, um dos teus poemas. Tínhamos estado à espera do Irish Mail e recebemos cada um uma gorjeta. E então mostrei-lhe um dos teus poemas.
- O que é que ele achou? - perguntou Mark.
- Olhou para o relógio. Disse que era melhor atravessarmos para a linha sete. O problema com este tipo de pessoas é que quando lêem um poema nunca abrem a porta e entram. Contentam-se em inclinar-se e espreitar pela fechadura. Não fazem mais nada.
- São as pessoas inteligentes - disse Mark.
- Pois. Também vi as coisas deles. E lúcido, está bem. Ninguém o nega. Mas quando se quer palpar a qualidade, não há ali nada. Pegas naquilo como num pedaço de pano e vê-se através dele.
Não consigo falar com essa gente. Como podia dizer àquele gajo que uma frase no teu poema não era em inglês, mas em chinês. É chinês. Aquela frase é chinês. Como lhe ia dizer isso?
- Que frase?
- Não interessa. Agora não me lembro.
Beberam.
- O problema - disse Len - é que não consigo seguir as referências deles. Sou um estrangeiro. Estás a ver, a minha reacção à poesia é como aquelas velhas a comer cebolas e a fazer tricot enquanto a guilhotina cai. É o que é. Que queres dizer? Não gosto da palavra estilo. Não sei o que significa. Não gosto da palavra estilo nem gosto da palavra função.
- Esta gente - disse Mark - quer que tudo encaixe na grelha de palavras cruzadas deles e não gostam quando alguma peça não encaixa, é tudo. Que vão para o diabo. As cabeças deles são como retretes de quintal, mesmo que a merda deles saia embrulhada em seda e cetim.
Pegou numa beata do cinzeiro e agitou-a no ar.
- É isto que vale esse tipo de gente.
- Disso, não percebo nada.
- De que vale reprimir o nosso descontentamento? - disse Mark. - Tens de estar preparado para condenar e desprezar, Len. É assim que se limpam os pratos.
- Não acredito.
- Bem, como vai esse negócio da poesia? A tua, quero eu dizer.
- Acabou.
- Bancarrota? Nem sequer uns trocos no cofre?
- Sim, mas sem valor. Também mostrei a esse tipo um dos meus poemas. Desde essa altura, nunca mais olhou para mim. Tomou como um insulto pessoal o eu ter-lhe sequer mostrado aquilo. Sabes como é que eu escrevo um poema? Sento-me na sala e ponho-me a olhar para os cantos. Às tantas levanto-me e espremo um limão, sai uma gota de sumo, e aí está o poema. Que valor tem isso?
- Não há regras imutáveis.
- Não.
Mark afastou uma cortina e olhou para a escuridão da noite.
- Sabes o que faz essa gente? - disse Len. - Saltam de palavra em palavra, como se fossem alpondras de vau.
Deu uns passos pela sala, a demonstrar.
- Como alpondras de vau. Mas diz-me uma coisa. Que fazem eles quando chegam a uma linha sem nenhuma palavra? És capaz de me responder? Que fazem eles quando chegam a uma linha sem nenhuma palavra? Podes-me dizer?
Mark acabou de beber a cerveja.
- Quanto a ti - disse Len - vou-te dizer o que tu fazes quando escreves um poema. Carregas no botão B e recebes o teu dinheiro de volta.

(excerto de Os Anões, tradução de José Lima, publicações Dom Quixote, 2006 - Ficção Universal)