2.10.10

GREGORY CORSO


POETAS PEDINDO BOLEIA NA AUTO-ESTRADA


Claro que tentei dizer-lhe
mas ele virou a cara
_____sem uma desculpa.
Disse-lhe que o céu persegue
_____o sol
E ele sorriu e disse:
_____«Para que serve isso.»
Eu sentia-me como um demónio
_____de novo
Por isso disse: «Mas o oceano persegue
_____os peixes.»
Desta vez riu-se
_____e disse: «Suponho que
__________os morangos foram
_______________empurrados para uma montanha.»
Depois disso vi que a
_____guerra estava declarada...
Então lutámos:
Ele disse: «A carroça das maçãs como um
____________________anjo numa vassoura
_______________racha & lasca
____________________velhos tamancos holandeses.»
Eu disse: «O relâmpago vai cair no velho carvalho
_______________e libertar os fumos!»
Ele disse: «Rua louca sem nome.»
Eu disse: «Assassino careca! Assassino careca! Assassino careca!»
Ele disse, perdendo mesmo a cabeça,
__________«Fogões! Gasolina! Divã!»
Eu disse, sorrindo apenas:
__________«Sei que Deus voltaria a cabeça
__________se me sentasse calado e pensasse.»
Acabámos por evaporar-nos,
_____odiando o ar!


(in Antologia da Novíssima Poesia Norte Americana, selecção, tradução, prefácio e notas de Manuel de Seabra, editorial Futura, 1973)
SANDOR CSOÓRI


CARTA AO POETA AMERICANO GREGORY CORSO


Percorreria todo o mundo contigo,
Corso,
descarrilador do tempo,
valentão do século vinte.
A tua camisola de riscas lembra uma farda de prisioneiro,
de presidiário que desertou da poesia,
apóstolo do adultério.

Vamos, anda, calça de um tiro o teu sapato de desporto
rumo à Lua,
ao deserto do Sahara
e à capital da nossa alegria: Spoleto!

Na praça da Catedral é noite.
Cubos de mármore nadam no copo da escuridão,
como os cubos de gelo
num whisky um pouco amargo.

Esvaziemos a cidade de um trago.

Menotti não compõe hoje música,
convida para um serão,
no seu jardim, rameiras milionárias
esperam os sátiros
com forcados de poesia -
Corso,
a tua mão é um forcado,
a tua boca é um lança-chamas,
Sabes! És mais capaz de praguejar
Do que o papa capaz de rezar,
vem, armemos um escândalo esta noite.

*

Pode ser bom roubar um carro
já que não se pode roubar a imortalidade,

e tocar os sinos com latas de conserva
já que não se pode fazê-lo com a perna do Cristo.

*

Joguemos - Tu gostas de jogar:
Furemos os olhos um ao outro,
talvez assim sejamos mais amáveis
do que os que sorriem.
Estilhacemos as tuas bombas para estrelar ovos
e a Europa pode entusiasmar-se com uma nova arte culinária.

*

Imbecil! Imbecil! - gritemos ao
Senador-Urso Polar,
aos chefes do governo que passam o fim-de-semana
num cano de canhão.
oh, fins-de-semana!
oh, domingos!
oh, Casas Brancas! Parlamentos!
das vossas conchas de caracol por toda a parte
deslizam tanques
e na sua trilha mucosa caem de costas os poetas.
Imbecis! Imbecis - gritemos aos poetas
que caíram de costas,
eles não merecem o pão,
não merecem as mulheres,
não merecem a morte.

*

Já balbuciamos tantas vezes
majestosamente
que a nossa boca está inchada.
Corso, afundemos as nossas línguas
como um porta-aviões.
Sejam outros a fazer estrondear
as harpas celestes que voam,
e sejam os marcianos a tocar os tambores de Saturno.

Tudo pode acontecer-nos,
se ficarmos aqui;
tudo o que já nos aconteceu.
Vamos,
sejamos nós a marcha
que vagabundeia por toda parte,
muda de pátria para amar a do outro,
assina o mar, como um postal,
e descansa nas cidades,
para que também as cidades descansem
e não pede perdão
se for processado por aquela marcha
que chegou a amar no sétimo dia.


(de Com cisnes sob o fogo do canhão, versões de Egito Gonçalves, sobre tradução literal de Pál Ferenc e revisão de Mária Demeter, Limiar, 1997 - os olhos e a memória)

26.9.10

LUIS MANUEL GASPAR



IBN ABDUN DE ÉVORA


JOGO DO DESTINO


Aflige o Destino, depois do olhar, com marcas.
Porquê chorar agora por sombras e quimeras?

Cuidado! Tem cuidado! Nunca é demais lembrar-te:
Entre o dente e a garra do leão não adormeças!

Não deixes que a vida te iluda e entorpeça,
Se o condão dos seus olhos é vigiar sem trégua.

Oh, noites! Queira Deus afastar-nos do seu ócio,
Noites que a Sorte muda, com mão traiçoeira.

O seu prazer engana: é flor que traz no seio
A víbora que ágil se atira a quem a colhe.

De tanta dinastia que Deus favorecera
O que ficou? Há rastos? Pergunta à tua memória!


(ilustração e poema in O Selo - Revista de Cultura Islâmica e Universal, nº 2, 11 de Julho 1993/21 de Muharram 1414, «magistralmente transcriada do original por Doina Zugravesco, em estreita colaboração com o Prof. Adel Sidarus» - original in Estudos Árabes n.º 1-1982, Publicações "Universidade de Évora")

25.9.10

ANTONIO BENEYTO


6

Existe algo naquele homem. Parece que não deseja ver-me e transforma-se numa mesa. Sabe que escrevo sobre uma coisa plana e quer que o faça sobre ele. E não sabe ou não compreende que escrevo a carta a Genoveva no local onde me encontro: por vezes, em cima de uma flor; ou sobre o ramo de uma árvore, fazendo equilíbrio. Que formosura. Quando o outro homem, o que está vestido de azul, me chamar já serei muito velho. Por onde ou com quem estiver nesse preciso momento. Faz tempo que não rezo e o Natal está aí, nas patas da mesa. Penso que rezar é caminhar pela vida; movendo o corpo e fazendo com que o teu sapato se desgaste de imediato. E também a mesa onde se escreve e que as unhas da alma já não cresçam, e que ninguém, absolutamente ninguém, te recorde. E ver a regra, e a carteira cheia de envelopes, e de papéis, e pisa-papéis, e Pisamorena*, e papéis escritos, e use esta papeleira, e pegadas desconhecidas. Existe tanto silêncio quando se quer rezar, quando se quer fazer o amor à fêmea que brutalmente, desconcertadamente, se abre e se fecha como o camião do lixo. Ela coseu-me com beijos depois de me coser o forro do casaco. Agora descanso.



* Bar em Barcelona onde se dança Flamenco.

(tradução minha - original de Textos para leer dentro de un espejo morado, 1975)

22.9.10

VINDEIRINHO


g_


de repente ganha vida uma angústia de pedra milen
ar da falta de memória -

grandes espingardas abandonadas em disposição quase gráfica
num salão enorme de pianos de
cauda - uma grinalda de televisões de ecran panorâmico e
uma aparelhagem
dvd

visão de baratas, uma casa abandonada no
edifício do

vento. viemos todos ver o filme, ouvir a
rajada de tiros, os vasos de flores
partidos, andas pela casa ou
vindo a voz das sombras, de

repente e passas a mão pelos meus cabelos - esqueci
me do teu nome, do teu ritmo drum n'
bass. dormes

durante a madrugada, dormes um
milénio deitada no sofá, cansada, com um gato ao colo e a
imagem fica des
focada - olhas pela varanda a paisagem
amanhã poderei acender um cigarro, não fumar um
cigarro, enquanto se conduz o automóvel pela
alameda e hoje é um dia um pouco mais ou
menos como os
outros e as imagens desvanecem como arco-íris fugazes,
apenas o alcatrão de uma estrada em numa viatura seguindo pela
chuva -
um dia um pouco mais ou
menos como os outros
o decreto de lei, os cidadãos virtuais, um
ficheiro em branco que de re

pente

ganha vida a


(de Domésticos, Black Sun editores, 2001)

21.9.10

PEDRO PROENÇA



ANTÓNIO POCINHO


O Polvo é que andava muito deprimido. Então não é que, em Terra, o consideravam um peixe mafioso, em virtude dos seus tentáculos?... Ele que nunca tinha estado minimamente ligado à Mafia. Era uma grande injustiça, uma calúnia pela qual ia pedir uma indemnização em tribunal. O seu advogado, o Pargo Legítimo, pedia ainda uma pena de dois meses de conserva em momo de tomate para todos aqueles que fossem apanhados a cbamar "polvo" a qualquer associação de malfeitores. Quanto a este processo, estou convencido de que o polvo vencerá, porque um polvo unido jamais será vencido.
Ainda por cima, o Polvo é conhecido no mar alto precisamente por ser o oposto do mafioso. Está certo que se serve dos seus tentáculos para almoçar, mas, fora das refeições, cada um daqueles oito braços são o instrumento da gentileza, da bondade e da dedicação ao trabalho. Eles servem sobretudo para cumprimentar, acariciar, dar, distribuir, fazer coisas, para o que não tem mãos a medir. No mar alto, chamar polvo a alguém é um elogio. Ser um polvo significa ser uma jóia de pessoa. Trabalhar que nem um polvo significa trabalhar muito.
Como devem calcular, o Polvo é muito solicitado para todo o tipo de trabalhos manuais, especialmente reparações e mudanças. Com os seus oito braços, ele consegue executar simultaneamente várias tarefas. A última vez que o tive cá em casa, arranjou-me ao mesmo tempo o esquentador e a televisão, enquanto atendia o telemóvel e fumava dois cigarros. Sim, imaginem, dois cigarros. Um deles era um daqueles cigarros medicinais para deixar de fumar.


(ilustração e excerto de texto de Quanto custa criar uma sardinha, edições Fenda, 1999)

20.9.10

IVAN LAUCIK


ATÉ ÀS GRUTAS


Respirar
nos socalcos dos rochedos,
à noite.
No átrio de ar frio,
fosforescente de brilho intocável.

Entrámos pelos portões desfeitos.
É mais do que um toque,
mais do que um rito.

Tremor
de si próprio?
No silêncio do espaço da chuva
a luz desnuda-se até ao fio
e esfuma-se na claridade.

Descemos pelos filamentos de vidro
que se ramificavam como as asas das crónicas.

Êxtase puro, profundo.
Polpa de silêncio invernal
explodindo na camada de movimento
através de sons.
Noite plena de imagens
no fluir do olhar.

Levámo-las connosco?
Essas estrelas negras que rodam?
A dolorosa persistência da língua?
Fendas de calor nas paredes,
bocas cheias de terra.
E na luz frágil: vermes?
Chama branca e violácea?

Movimento
solto de si próprio.
Simples fios
capazes de florir na noite.


(de Mobilis in mobile , tradução colectiva (Outubro 1997) revista e apresentada por Pedro Mexia, Quetzal editores, 1999)

19.9.10

FRANCISCO BRINES


O ESTRANHO HABITUAL


A casa, branca e grande, vazia do seu dono,
permanece. Silvam os pássaros; os muros, um olor.
Quem volta sofre com o desterro da casa.
Aqui descobriu o mundo; lugar para morrer.
Andou por cidades inóspitas; nelas só aprendeu
desprendimento; e até a si mesmo se estranhou.
Reflecte: terá amado a vida?
Supôs amar o instante e só amou sua carne
solitária, ou amou talvez a carne que o amou.
Por certo tudo fora desejo insatisfeito,
e sua esperança foi apenas nostalgia
do que viria depois; assim foi o futuro
como a lembrança: um fantasma de luz; e o outro,
sombra. A casa está vazia do seu dono
e ele chega desamado. O horto é aroma
de flor de laranjeira. Sobe as escadas e na sala
vê o mar escurecer, a inquieta lonjura.

E de novo surpreende, no jardim, quem o olha
e o que nunca lhe fala,
esse veloz ancião de cabelos brancos,
constante companhia de seus últimos anos,
esse ancião demente que o segue, ligeiro dia e noite,
presente como areia de um relógio,
agora hóspede estranho da casa, distante e sem convite,
recluso no jardim, sem nunca se deter,
e sempre que o olha aquele olha-o,
sem sorriso e expressão,
pois é cego e é surdo, e tão-pouco é mortal.


(tradução de José Bento, in Ensaio de uma Despedida - Antologia (1960-86), Assírio & Alvim, 1987 - documenta poetica / original de Insistencias en Luzbel, 1977, com dedicatória "A Manolo Borrás")



ÀLEX SUSANNA


A ÚLTIMA LUZ


La casa, blanca y grande, vacia de su dueno,
permanece. Silban los pájaros; las tapias, un olor.
Quien regresa se duele del destierro de la casa.

...........................................................F. Brines

Não passa o tempo, passam as coisas.
Homens, mulheres, árvores, crianças
que se aproximam, se afastam e se esquecem,
e descobrimos que tudo foi sucedendo
de um modo similar desde um remoto início.
Mas o tempo não, esse não passa;
passam as coisas e a dor cresce dentro de nós
e também nós passamos, e outros chegam
e trazem o prazer e depois levam-no.
Assim tudo passa - e a vida e a morte,
e aquilo que mais queremos
(só passa aquilo que se ama).
Por isso nada passa, fora de nós,
de ti, de mim, tornamo-nos velhos e preguiçosos
e queríamos acreditar que tudo se mantém
mas o corpo é mais débil cada dia,
a memória mais frágil,
e parece que tudo, inevitavelmente,
conhece o seu outono e o seu último inverno.
E afinal nada passa, ou quase nada:
só nós passamos
e em vez disso continuarão as casas,
os quartos onde vivemos tantas horas
a ler e a falar, a beber, a rir,
amando-nos, dormindo...
Perdurarão os objectos, sempre tão dóceis
ao nosso olhar - uma cadeira, um jarrão,
uma antiga gravura, a lareira, uma fotografia -,
e as esquinas, as praças,
as ruas tortuosas do bairro antigo
onde tão frequentemente vagueámos
em busca da última luz, a pedra dourada,
o jardim escondido,
...........................e perdurarão, finalmente,
os caminhos entre as cepas e as praias,
onde soubemos esquecer-nos de nós mesmos
e fomos felizes de tanto esquecimento.
Perdurará tudo, ou quase tudo:
só nós passaremos,
sombras incertas de alva enevoada,
longínquas chamas de um fogo provocado,
seixos lançados no fundo de um negro poço
que ninguém poderá fazer sair da sombra.


(de Palácio de Inverno / Palau d'hivern, 1987, in Os Anéis do Tempo, tradução de Egito Gonçalves, Limiar, 1995 - Os Olhos e a Memória)

18.9.10

MANUEL DE FREITAS


TRISTES TROPOS


para o Fernando Luís Sampaio

Diabo. Fugiu-me pela janela
que não estava aberta
um oxímoro em forma de tambor.
Como percuti-lo agora,
a braços (catacrese vossa) com
um gelo trincado e 40 graus de sono?

Distracção não foi, nem modo
de sucumbir que se resolva assim,
nas dobras frouxas e cansadas
de um anacoluto reles.
Falemos, oh sim, do corpo,
quando se repara e não faz mal sequer
que já nada espera — de si ou dos outros.

Meras contingências, acasos de acaso
feitos que outrora fulguravam
por obrigação ou medo
na pressa metonímica de um beijo
cor da morte. Habituamo-nos
a perder, vereis, como células desfocadas
que odeiam resignadamente
o relâmpago da manhã.

Era uma metáfora, eu sei,
senti melhor do que vocês
a sua baba quente e desajustada
sobre os ombros onde um cancro sonha,
trazendo aliterações tristes
àquele que findando fica.

Podia ser eu, não podia?, a
genuflectir quiasmos em tempo
de musas e de vírus complacentes
que se nos não matarem
a morte o fará, descansem.

Leram decerto Montaigne, João Paulo
Segundo, Laura Ashley, e não
se repetem souvent estes dias
de entranhas calcinadas
e de enxofre disfarçando cinzas.

Por isso me calo, imaginando
uma palinódia em zinco pós-moderno
mais propícia, enfim, aos vossos zeugmas morais.


(de Game Over, &etc, 2002)

11.9.10

WISLAWA SZYMBORSKA


FOTOGRAFIA DE 11 DE SETEMBRO


Atiraram-se dos andares em chamas.
Um, dois, ainda alguns,
mais acima, mais abaixo.

A fotografia deteve-os na vida,
preservou-os
sobre a terra ruMo à terra.

Cada um ainda na íntegra,
com rosto individual
e sangue bem guardado.

Ainda há tempo
para os cabelos esvoaçarem
e do bolso caírem
chaves e alguns trocos.

Ainda estão ao alcance do ar,
no âmbito dos lugares
que acabaram de se abrir.

Só duas coisas posso por eles fazer:
descrever este voo
e não acrescentar a última frase.


(de Instante, tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio Neves, Relógio d'Água, 2006)

6.9.10

DORA RIBEIRO


um poeta se faz no silêncio
em bocas sem palavras
onde as horas são becos escuros
e os lábios difíceis marcas do tempo

um poeta se faz no oco do mundo
em lugares expostos e secretos
minúsculos
mas incendiáveis


(de Outros Poemas, 1997 - in o poeta não existe, Angelus Novus / Cotovia, 2005 - Colecção Inimigo Rumor)

1.9.10

Olhar à volta é a tua função
E, entretanto,
Colocar as mãos sobre o alimento
E contar do sonho e da esperança.

Após as solenidades,
Hás de ir ao encontro
Dos que estão sentados olhando as mãos.

29.8.10

IRENE LISBOA


Escrever


Se eu pudesse havia de transformar as palavras
em clava.
Havia de escrever rijamente.
Cada palavra seca, irressonante, sem música.
Como um gesto, uma pancada brusca e sóbria.
Para quê todo este artifício da composição sintáctica e métrica?
Para quê o arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, secas e bárbaras, pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo.
Vejo, admiro, desejo?
Ou sim ou não.
E como isto continuando.

E gostava para as infinitamente delicadas coisas
do espírito...
Quais, mas quais?
Gostava, em oposição com a braveza do jogo da
pedrada, do tal ataque às coisas certas e negadas...
Gostava de escrever com um fio de água.
Um fio que nada traçasse.
Fino e sem cor, medroso.

Ó infinitamente delicadas coisas do espírito!
Amor que se não tem, se julga ter.
Desejo dispersivo.

Vagos sofrimentos.
Ideias sem contorno.
Apreços e gostos fugitivos.
Ai! o fio da água, o próprio fio da água sobre
vós passaria, transparentemente?
Ou vos seguiria humilde e tranquilo?


(de Outono havias de vir, 1937)

27.8.10

[recuperando séries antigas - gatos mortos]

RUI MANUEL AMARAL


O gato morto


Um homem batia num gato morto. Batia-lhe com toda a força, ventilando ao mesmo tempo os seus sentimentos de desprezo por meio dos piores insultos que jamais foram dirigidos a um gato. Ora, estando morto, o bicho evidentemente não reagia. Mas nem por isso o homem parecia disposto a parar. Pelo contrário: cada vez mais encarniçado, batia-lhe umas vezes nas costas, outras nas patas, outras no focinho, puxando-lhe outras vezes a cauda e os bigodes. Numa palavra, assentava-lhe bem as costuras. Isto prolongou-se durante longos minutos, só abrandando quando se sentiu fatigado e quando já não havia no corpo do bicho um lugar sequer que não estivesse macerado. Foi então que de repente o gato se lançou furiosamente sobre o homem e lhe esgadanhou a cara com tal ímpeto que só por um incrível rasgo de sorte lhe não arrancou o nariz e as orelhas.

(daqui)
[recuperando séries antigas - gatos mortos]

INÊS LOURENÇO


FELINUS


A Maria Tobias era preta
e branca. Na parte branca era
Tobias e era Maria na preta. Morou
connosco cinco anos. No sexto, numa
quinta-feira santa pôs-se a dormir
depois de um longo jejum. Ficaram-nos
nas mãos festas desabitadas e os poucos
haveres: uma malga, uma manta, um bebedouro,
que não logramos enviar
para a nova morada.


(de Coisas que nunca, &etc, 2010 - originalmente publicado aqui / mais sobre a gata Tobias aqui)