18.10.10

Foi apresentada, no passado dia 9, a antologia O Prisma das Muitas Cores, com poemas de amor de 135 autores de Portugal e do Brasil. Foi organizada pelo Victor Oliveira Mateus e tem prefácio de António Carlos Cortez. A ilustração da capa é de Júlio Cunha e tem a chancela da Editora Labirinto. Nela consta um poema meu, que transcrevo.



Os teus olhos abertos são do tamanho dos meus dedos
E não falam de silêncios nem de sombras
Nem de coisas de sonhar.

Os teus olhos lembram segredos de riso,
Pequenas palavras que se dizem poucas vezes.
É nos teus olhos que sei o rumor da minha história –
Olhos de quem cresce a olhar.

(sei que enquanto me olhas respiras)

Só eu desejo a tua boca,
Pedaço antigo de sede e confronto
Por onde entra a luz jubilosa que respiras.
Da tua boca sei que traz gestos de nomes ditos
Enquanto tudo à volta acontecia.

E com os dedos percorres o sibilar da língua,
Tocas objectos que são a pele do mundo
Com a delicadeza própria de lábios.
E os teus dedos são do tamanho dos meus olhos abertos.

4.10.10

GWENAËLLE STUBBE


47


Não passa de uma história de dentes. Esta cidade!
De dentes fixados sobre mim com toda a rapidez. Que no último segundo
recuperam a sua trajectória.
De todo o modo - Guardai os vossos dentes não preciso deles!
Todos nós somos apanhados nesta cidade, desde que lá estamos postos
pelo mínimo passo. No entanto não vereis aí nenhuma - junção do tipo -
O vosso ar agrada-me. Com vossa licença, vou ficar com ele.
Também esta semana, tenho esta sorte de me estar nas tintas e de passear por

sem laços.
Mesmo que isso circule pelo dobro em cada pedaço de passeio.
E pelo meu único laço, acho que sou livre e conservo com graça nesta grande
cidade, o uso perdido da minha costela.


(tradução de Nuno Júdice, in Encontros de Talábriga - 4º Festival Internacional de Poesia de Aveiro, Limiar, 2003)

3.10.10

ANTERO DE QUENTAL


Tese e Antítese


I

Já não sei o que vale a nova ideia,
Quando a vejo nas ruas desgrenhada,
Torva no aspecto, à luz da barricada,
Como bacante após lúbrica ceia...

Sanguinolento o olhar se lhe incendeia;
Respira fumo e fogo embriagada:
A deusa de alma vasta e sossegada
Ei-la presa das fúrias de Medeia!

Um século irritado e truculento
Chama à epilepsia pensamento,
Verbo ao estampido de pelouro e obuz...

Mas a ideia é num mundo inalterável,
N'um cristalino céu, que vive estável...
Tu, pensamento, não és fogo, és luz!

II

Num céu intemerato e cristalino
Pode habitar talvez um Deus distante,
Vendo passar em sonho cambiante
O Ser, como espectáculo divino.

Mas o homem, na terra onde o destino
O lançou, vive e agita-se incessante:
Enche o ar da terra o seu pulmão possante...
Cá da terra blasfema ou ergue um hino...

A ideia encarna em peitos que palpitam:
O seu pulsar são chamas que crepitam,
Paixões ardentes como vivos sóis!

Combatei pois na terra árida e bruta,
Té que a revolva o remoinhar da luta,
Té que a fecunde o sangue dos heróis!


(de Sonetos, 1886 - conforme edição de 2002 da Imprensa Nacional - Casa da Moeda, da responsabilidade de Nuno Júdice)
ARMANDO SILVA CARVALHO


OS PORTUGUESES


Todo eu sou alemão no pensamento, e antes de o saber
O francês não me deixava mentir
Com palavras de sol cinzento nesta boca insular
Dum condenado à cabeça.

Temos na língua um gosto pelo patético
Que nasce da insuficiência.
Morremos duma glória plasmada na distância,
Dirão os que não morrem para poderem
Contar.

Os que mirram, definham de goela aberta
E deixam no ar a dança gestual
De pequenos fantoches, olhos pasmados numa vida
De Europa entreaberta.

Oh, tomai por mau conselho
A minha fala doendo pelas ruas de Coimbra,
Pelas salas espessas de fumo em Lisboa
Pelas areias e dunas dessa boa Vila do Conde
Adormecida.

Um jovem irrequieto, um doente louco,
Uma cabeça virgem para recados maiores dos outros
Mundos,
Uns olhos magoados pelo sol da solidão.
Dizei-me, camaradas da luz,
Que mais vos posso dar, sem ser canção ou roubo
Do meu corpo,
Incandescente, eléctrico, lucífero?


(de Anthero Areia & Água, Assírio & Alvim, 2010)

2.10.10

GREGORY CORSO


POETAS PEDINDO BOLEIA NA AUTO-ESTRADA


Claro que tentei dizer-lhe
mas ele virou a cara
_____sem uma desculpa.
Disse-lhe que o céu persegue
_____o sol
E ele sorriu e disse:
_____«Para que serve isso.»
Eu sentia-me como um demónio
_____de novo
Por isso disse: «Mas o oceano persegue
_____os peixes.»
Desta vez riu-se
_____e disse: «Suponho que
__________os morangos foram
_______________empurrados para uma montanha.»
Depois disso vi que a
_____guerra estava declarada...
Então lutámos:
Ele disse: «A carroça das maçãs como um
____________________anjo numa vassoura
_______________racha & lasca
____________________velhos tamancos holandeses.»
Eu disse: «O relâmpago vai cair no velho carvalho
_______________e libertar os fumos!»
Ele disse: «Rua louca sem nome.»
Eu disse: «Assassino careca! Assassino careca! Assassino careca!»
Ele disse, perdendo mesmo a cabeça,
__________«Fogões! Gasolina! Divã!»
Eu disse, sorrindo apenas:
__________«Sei que Deus voltaria a cabeça
__________se me sentasse calado e pensasse.»
Acabámos por evaporar-nos,
_____odiando o ar!


(in Antologia da Novíssima Poesia Norte Americana, selecção, tradução, prefácio e notas de Manuel de Seabra, editorial Futura, 1973)
SANDOR CSOÓRI


CARTA AO POETA AMERICANO GREGORY CORSO


Percorreria todo o mundo contigo,
Corso,
descarrilador do tempo,
valentão do século vinte.
A tua camisola de riscas lembra uma farda de prisioneiro,
de presidiário que desertou da poesia,
apóstolo do adultério.

Vamos, anda, calça de um tiro o teu sapato de desporto
rumo à Lua,
ao deserto do Sahara
e à capital da nossa alegria: Spoleto!

Na praça da Catedral é noite.
Cubos de mármore nadam no copo da escuridão,
como os cubos de gelo
num whisky um pouco amargo.

Esvaziemos a cidade de um trago.

Menotti não compõe hoje música,
convida para um serão,
no seu jardim, rameiras milionárias
esperam os sátiros
com forcados de poesia -
Corso,
a tua mão é um forcado,
a tua boca é um lança-chamas,
Sabes! És mais capaz de praguejar
Do que o papa capaz de rezar,
vem, armemos um escândalo esta noite.

*

Pode ser bom roubar um carro
já que não se pode roubar a imortalidade,

e tocar os sinos com latas de conserva
já que não se pode fazê-lo com a perna do Cristo.

*

Joguemos - Tu gostas de jogar:
Furemos os olhos um ao outro,
talvez assim sejamos mais amáveis
do que os que sorriem.
Estilhacemos as tuas bombas para estrelar ovos
e a Europa pode entusiasmar-se com uma nova arte culinária.

*

Imbecil! Imbecil! - gritemos ao
Senador-Urso Polar,
aos chefes do governo que passam o fim-de-semana
num cano de canhão.
oh, fins-de-semana!
oh, domingos!
oh, Casas Brancas! Parlamentos!
das vossas conchas de caracol por toda a parte
deslizam tanques
e na sua trilha mucosa caem de costas os poetas.
Imbecis! Imbecis - gritemos aos poetas
que caíram de costas,
eles não merecem o pão,
não merecem as mulheres,
não merecem a morte.

*

Já balbuciamos tantas vezes
majestosamente
que a nossa boca está inchada.
Corso, afundemos as nossas línguas
como um porta-aviões.
Sejam outros a fazer estrondear
as harpas celestes que voam,
e sejam os marcianos a tocar os tambores de Saturno.

Tudo pode acontecer-nos,
se ficarmos aqui;
tudo o que já nos aconteceu.
Vamos,
sejamos nós a marcha
que vagabundeia por toda parte,
muda de pátria para amar a do outro,
assina o mar, como um postal,
e descansa nas cidades,
para que também as cidades descansem
e não pede perdão
se for processado por aquela marcha
que chegou a amar no sétimo dia.


(de Com cisnes sob o fogo do canhão, versões de Egito Gonçalves, sobre tradução literal de Pál Ferenc e revisão de Mária Demeter, Limiar, 1997 - os olhos e a memória)

26.9.10

LUIS MANUEL GASPAR



IBN ABDUN DE ÉVORA


JOGO DO DESTINO


Aflige o Destino, depois do olhar, com marcas.
Porquê chorar agora por sombras e quimeras?

Cuidado! Tem cuidado! Nunca é demais lembrar-te:
Entre o dente e a garra do leão não adormeças!

Não deixes que a vida te iluda e entorpeça,
Se o condão dos seus olhos é vigiar sem trégua.

Oh, noites! Queira Deus afastar-nos do seu ócio,
Noites que a Sorte muda, com mão traiçoeira.

O seu prazer engana: é flor que traz no seio
A víbora que ágil se atira a quem a colhe.

De tanta dinastia que Deus favorecera
O que ficou? Há rastos? Pergunta à tua memória!


(ilustração e poema in O Selo - Revista de Cultura Islâmica e Universal, nº 2, 11 de Julho 1993/21 de Muharram 1414, «magistralmente transcriada do original por Doina Zugravesco, em estreita colaboração com o Prof. Adel Sidarus» - original in Estudos Árabes n.º 1-1982, Publicações "Universidade de Évora")

25.9.10

ANTONIO BENEYTO


6

Existe algo naquele homem. Parece que não deseja ver-me e transforma-se numa mesa. Sabe que escrevo sobre uma coisa plana e quer que o faça sobre ele. E não sabe ou não compreende que escrevo a carta a Genoveva no local onde me encontro: por vezes, em cima de uma flor; ou sobre o ramo de uma árvore, fazendo equilíbrio. Que formosura. Quando o outro homem, o que está vestido de azul, me chamar já serei muito velho. Por onde ou com quem estiver nesse preciso momento. Faz tempo que não rezo e o Natal está aí, nas patas da mesa. Penso que rezar é caminhar pela vida; movendo o corpo e fazendo com que o teu sapato se desgaste de imediato. E também a mesa onde se escreve e que as unhas da alma já não cresçam, e que ninguém, absolutamente ninguém, te recorde. E ver a regra, e a carteira cheia de envelopes, e de papéis, e pisa-papéis, e Pisamorena*, e papéis escritos, e use esta papeleira, e pegadas desconhecidas. Existe tanto silêncio quando se quer rezar, quando se quer fazer o amor à fêmea que brutalmente, desconcertadamente, se abre e se fecha como o camião do lixo. Ela coseu-me com beijos depois de me coser o forro do casaco. Agora descanso.



* Bar em Barcelona onde se dança Flamenco.

(tradução minha - original de Textos para leer dentro de un espejo morado, 1975)

22.9.10

VINDEIRINHO


g_


de repente ganha vida uma angústia de pedra milen
ar da falta de memória -

grandes espingardas abandonadas em disposição quase gráfica
num salão enorme de pianos de
cauda - uma grinalda de televisões de ecran panorâmico e
uma aparelhagem
dvd

visão de baratas, uma casa abandonada no
edifício do

vento. viemos todos ver o filme, ouvir a
rajada de tiros, os vasos de flores
partidos, andas pela casa ou
vindo a voz das sombras, de

repente e passas a mão pelos meus cabelos - esqueci
me do teu nome, do teu ritmo drum n'
bass. dormes

durante a madrugada, dormes um
milénio deitada no sofá, cansada, com um gato ao colo e a
imagem fica des
focada - olhas pela varanda a paisagem
amanhã poderei acender um cigarro, não fumar um
cigarro, enquanto se conduz o automóvel pela
alameda e hoje é um dia um pouco mais ou
menos como os
outros e as imagens desvanecem como arco-íris fugazes,
apenas o alcatrão de uma estrada em numa viatura seguindo pela
chuva -
um dia um pouco mais ou
menos como os outros
o decreto de lei, os cidadãos virtuais, um
ficheiro em branco que de re

pente

ganha vida a


(de Domésticos, Black Sun editores, 2001)

21.9.10

PEDRO PROENÇA



ANTÓNIO POCINHO


O Polvo é que andava muito deprimido. Então não é que, em Terra, o consideravam um peixe mafioso, em virtude dos seus tentáculos?... Ele que nunca tinha estado minimamente ligado à Mafia. Era uma grande injustiça, uma calúnia pela qual ia pedir uma indemnização em tribunal. O seu advogado, o Pargo Legítimo, pedia ainda uma pena de dois meses de conserva em momo de tomate para todos aqueles que fossem apanhados a cbamar "polvo" a qualquer associação de malfeitores. Quanto a este processo, estou convencido de que o polvo vencerá, porque um polvo unido jamais será vencido.
Ainda por cima, o Polvo é conhecido no mar alto precisamente por ser o oposto do mafioso. Está certo que se serve dos seus tentáculos para almoçar, mas, fora das refeições, cada um daqueles oito braços são o instrumento da gentileza, da bondade e da dedicação ao trabalho. Eles servem sobretudo para cumprimentar, acariciar, dar, distribuir, fazer coisas, para o que não tem mãos a medir. No mar alto, chamar polvo a alguém é um elogio. Ser um polvo significa ser uma jóia de pessoa. Trabalhar que nem um polvo significa trabalhar muito.
Como devem calcular, o Polvo é muito solicitado para todo o tipo de trabalhos manuais, especialmente reparações e mudanças. Com os seus oito braços, ele consegue executar simultaneamente várias tarefas. A última vez que o tive cá em casa, arranjou-me ao mesmo tempo o esquentador e a televisão, enquanto atendia o telemóvel e fumava dois cigarros. Sim, imaginem, dois cigarros. Um deles era um daqueles cigarros medicinais para deixar de fumar.


(ilustração e excerto de texto de Quanto custa criar uma sardinha, edições Fenda, 1999)

20.9.10

IVAN LAUCIK


ATÉ ÀS GRUTAS


Respirar
nos socalcos dos rochedos,
à noite.
No átrio de ar frio,
fosforescente de brilho intocável.

Entrámos pelos portões desfeitos.
É mais do que um toque,
mais do que um rito.

Tremor
de si próprio?
No silêncio do espaço da chuva
a luz desnuda-se até ao fio
e esfuma-se na claridade.

Descemos pelos filamentos de vidro
que se ramificavam como as asas das crónicas.

Êxtase puro, profundo.
Polpa de silêncio invernal
explodindo na camada de movimento
através de sons.
Noite plena de imagens
no fluir do olhar.

Levámo-las connosco?
Essas estrelas negras que rodam?
A dolorosa persistência da língua?
Fendas de calor nas paredes,
bocas cheias de terra.
E na luz frágil: vermes?
Chama branca e violácea?

Movimento
solto de si próprio.
Simples fios
capazes de florir na noite.


(de Mobilis in mobile , tradução colectiva (Outubro 1997) revista e apresentada por Pedro Mexia, Quetzal editores, 1999)

19.9.10

FRANCISCO BRINES


O ESTRANHO HABITUAL


A casa, branca e grande, vazia do seu dono,
permanece. Silvam os pássaros; os muros, um olor.
Quem volta sofre com o desterro da casa.
Aqui descobriu o mundo; lugar para morrer.
Andou por cidades inóspitas; nelas só aprendeu
desprendimento; e até a si mesmo se estranhou.
Reflecte: terá amado a vida?
Supôs amar o instante e só amou sua carne
solitária, ou amou talvez a carne que o amou.
Por certo tudo fora desejo insatisfeito,
e sua esperança foi apenas nostalgia
do que viria depois; assim foi o futuro
como a lembrança: um fantasma de luz; e o outro,
sombra. A casa está vazia do seu dono
e ele chega desamado. O horto é aroma
de flor de laranjeira. Sobe as escadas e na sala
vê o mar escurecer, a inquieta lonjura.

E de novo surpreende, no jardim, quem o olha
e o que nunca lhe fala,
esse veloz ancião de cabelos brancos,
constante companhia de seus últimos anos,
esse ancião demente que o segue, ligeiro dia e noite,
presente como areia de um relógio,
agora hóspede estranho da casa, distante e sem convite,
recluso no jardim, sem nunca se deter,
e sempre que o olha aquele olha-o,
sem sorriso e expressão,
pois é cego e é surdo, e tão-pouco é mortal.


(tradução de José Bento, in Ensaio de uma Despedida - Antologia (1960-86), Assírio & Alvim, 1987 - documenta poetica / original de Insistencias en Luzbel, 1977, com dedicatória "A Manolo Borrás")



ÀLEX SUSANNA


A ÚLTIMA LUZ


La casa, blanca y grande, vacia de su dueno,
permanece. Silban los pájaros; las tapias, un olor.
Quien regresa se duele del destierro de la casa.

...........................................................F. Brines

Não passa o tempo, passam as coisas.
Homens, mulheres, árvores, crianças
que se aproximam, se afastam e se esquecem,
e descobrimos que tudo foi sucedendo
de um modo similar desde um remoto início.
Mas o tempo não, esse não passa;
passam as coisas e a dor cresce dentro de nós
e também nós passamos, e outros chegam
e trazem o prazer e depois levam-no.
Assim tudo passa - e a vida e a morte,
e aquilo que mais queremos
(só passa aquilo que se ama).
Por isso nada passa, fora de nós,
de ti, de mim, tornamo-nos velhos e preguiçosos
e queríamos acreditar que tudo se mantém
mas o corpo é mais débil cada dia,
a memória mais frágil,
e parece que tudo, inevitavelmente,
conhece o seu outono e o seu último inverno.
E afinal nada passa, ou quase nada:
só nós passamos
e em vez disso continuarão as casas,
os quartos onde vivemos tantas horas
a ler e a falar, a beber, a rir,
amando-nos, dormindo...
Perdurarão os objectos, sempre tão dóceis
ao nosso olhar - uma cadeira, um jarrão,
uma antiga gravura, a lareira, uma fotografia -,
e as esquinas, as praças,
as ruas tortuosas do bairro antigo
onde tão frequentemente vagueámos
em busca da última luz, a pedra dourada,
o jardim escondido,
...........................e perdurarão, finalmente,
os caminhos entre as cepas e as praias,
onde soubemos esquecer-nos de nós mesmos
e fomos felizes de tanto esquecimento.
Perdurará tudo, ou quase tudo:
só nós passaremos,
sombras incertas de alva enevoada,
longínquas chamas de um fogo provocado,
seixos lançados no fundo de um negro poço
que ninguém poderá fazer sair da sombra.


(de Palácio de Inverno / Palau d'hivern, 1987, in Os Anéis do Tempo, tradução de Egito Gonçalves, Limiar, 1995 - Os Olhos e a Memória)