28.10.10

NUNO GUIMARÃES


Pax aeternis. A língua
te soletra. Ó longos canaviais,
vias bravias! Os da morte liter-
ária, sob a chuva. Assim invocas
um sentido ao teu excesso
diário. Á previsível
morte literal.

Litoral! Litoral! Manchado
em cristalino, sentimento. De
paisagem madura. Perdurável
no vasto mecanismo visual.
Ó longas vias de canal. Por onde a
vida, a letra, lite-

ratura, se consomem.
Requiescat. Em ti penso o
movimento ausente (desvio,
então, a retina para os longos
campos: roído de verdura
e vento, em movimento). Assim te
esqueço, contrito, em rigidez.
So-

letro o que me é dado ver enquanto
vivo - o objecto — enquanto vivo.
E como pensarás res-
existir a essa língua? Uma
cultura que a prepara, uma morte
entre claustros, requeimada?
Litor-

ais que a letra não domina, que
são lentos, semelhantes
ao teu cego labor: paisagem hirta,
avista, imaculada.
Como pode, sem luz, ser
já tão lúcida? Tão
claramente negativa? Inquieto,
o esquece. E só habita
sobre as árduas costas, litorais.


(de Os Campos Visuais, 1973)

27.10.10

[outros melros LIX]

ROGER WOLFE



A ULTIMA NOITE DA TERRA


O melro de todos os anos voltou a visitar a minha casa
mas eu permaneço aqui.
A sua música não muda, já o escrevi.
No entanto o meu trabalho é constatar o óbvio
e isso é o que o melro me vem recordar.
O tempo passa, as pessoas envelhecem, morrem
pela sua própria mão ou com ajuda.
As palavras vão descendo pelo escoadouro
do que alguém chamou a intra-história.
Tudo flui e perde-se, os rios no mar,
o mar na imensidão inabarcável do cosmos,
o cosmos no nada de onde não deveria ter saído.
Entretanto vamos dando às teclas.
Um tamborilar contra séculos de morte programada
e um futuro de certeira incerteza.
Um batalhão de patéticos amanuenses do esquecimento
exigindo duas camisas para o caminho até ao patíbulo.
O frio não é porém o problema, antes o medo.
E é o melro, na sua ignorância, quem conhece a verdade.
Cumpre sem a mínima estridência
o ritual que a biologia lhe impôs.
E de súbito morrerá. Sem epitáfios, como este,
que hão-de desfazer-se com uma careta indiferente
entre as chamas da última noite da Terra,
quando já ninguém reconhecerá qualquer significado,
se é que algo alguma vez teve significado.


(tradução de Luís Filipe Parrado, in Criatura N.º 5 – Outubro 2010)

26.10.10

HUGO MILHANAS MACHADO


ESTRANHAMENTO


Esta árvore mexe mal
dá impressão que o almoço
não cai bem ou será hora
de encostar à sombra e ficar

É um segredo tautológico
mas a palavra arrepende
como arrepende o tempo mal ganho
nesta estranheza de processos
se o coração arranha
quando o que mal mexe
é a mão e é o braço
que te roubam de abraço
o papel e o mar
postos em vigilância
ao lado das letras

É que choramos


(de As Junções, artefacto, 2010)

25.10.10

ALBERTO PIMENTA


civilidade


não tussa madame
reprima a tosse

não espirre madame
reprima a espirro

não soluce madame
reprima a soluço

não cante madame
reprima a canto

não arrote madame
reprima o arroto

não cague madame
reprima a merda

e quando estourar
que seja devagarinho
e sem incomodar, ok madame?

ok, monsieur.


(de Ascensão de Dez Gostos à Boca, 1977)

24.10.10

MARIA DE LOURDES BELCHIOR


POESIA PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA: A «GERAÇÃO DE 40»
[excerto]

(…)
Comece-se por uma delimitação de campo. A que limites corresponde a imprópria, mas já quase clássica, designação «geração de 40».
Em princípio, dado que o segundo modernismo — o da Presença — se fixa, lato sensu, entre 1927 e 1940, há-de pressupor-se que a chamada «geração de 40» se configura, geneticamente, entre 1936 e 1940 e depois prossegue, por caminhos seus, o rumo ou rumos que escolheu.
Reconheça-se pela precaridade de tais marcos cronológicos que a periodização literária é método, embora legítimo, pobre e falível. Para com mais rigor delimitar o campo abrangido pela designação «geração de 40», talvez fosse conveniente, seguindo o método usado por H. Truyre em Les générátions tittéraires; seriar, por anos de nascimento, os poetas, de modo a obter uma espécie de nomina poetica que sirva de base à caracterização geracional. Insisto: a designação decimal de «geração de 40» é um artifício e só como convenção serve. É que se o conceito de geração implica uma comum tábua de valores para agir e reagir perante as circunstâncias epocais, não se adeqúe o conceito — geração de 40 — aos dados históricos. E se concebermos, como necessária, para a real existência de uma geração literária, uma plataforma de obras que, apesar de divergentes nas intenções e nos propósitos, possuam como resultado uma significação homogénea, dificilmente se aceitará a fórmula «geração de 40».
(…)

(in Os Homens e os Livros II – séculos XIX e XX, editorial Verbo, 1980 – colecção Presenças)



DAVID MOURÃO-FERREIRA


DEPOIMENTO SOBRE A POESIA DA GERAÇÃO DE 50
[excerto]

Em princípio, uma geração literária só será digna deste nome na medida em que possa exibir um conjunto de obras que, embora diversificadas entre si, se mostrem, no plano temporal, portadoras de homogénea significação. Não é isso, porém, o que, até agora, se verifica na chamada geração de 50; e certo é que nela se nos depara, em lugar de nítidos contornos, a fluidez da perífrase; em lugar do sólido edifício, a construção avulsa; em lugar do patente significado, o testemunho da procura, da desorientação, do logro, da fuga reticente, do combate alusivo. E, com estas palavras, acabo, segundo me parece, de sumariamente caracterizar algumas das atitudes típicas da geração de 50 — que é, em suma, a minha geração.
Trata-se, como já se vê, de uma geração bastante dividida.
Negá-lo será tentar estupidamente alçapremar um grupo em prejuízo dos demais; iluminar tão-só meia-dúzia de personalidades para deixar na sombra os restantes comparsas. O processo tem sido muito utilizado; todos o sabemos. Com ele, ocasionalmente apenas pode lucrar a vaidade de uma ou outra vedeta, a propaganda de uma ou outra capelinha. No entanto, de forma alguma se obterá assim a visão clara dos problemas; nem tão-pouco se contribuirá, de modo positivo, para o futuro esclarecimento da história literária que, bem ou mal a nosso grado, todos estamos realizando. Porque a verdade é esta: todos, pelo simples facto de vivermos, e pelas constantes opções que viver implica, fazemos história; e nós, os que escrevemos, pelo simples facto de escrevermos, e pelas constantes opções que escrever implica, simultaneamente fazemos história, lato sensu, e história literária. Não importa sequer que ao futuro não chegue a maior parte dos nossos nomes. Tal circunstância em nada diminui o involuntário papel histórico que nos coube em sorte (pelo simples motivo de termos nascido em determinado lugar e em determinado tempo) e o voluntário papel histórico que pudemos escolher, que quisemos ou não quisemos assumir. A historicidade do ser humano revela-se, portanto, em dois planos: no que lhe é outorgado pelas circunstâncias e no que resulta da tomada de posição — da escolha — perante essas mesmas circunstâncias.
A minha geração fugiu à guerra,
Por isso a paz que traz não tem sentido
— diz António Manuel Couto Viana, num poema do seu livro Mancha Solar. E estes dois versos — não os restantes, mas estes dois — poderiam ser subscritos por qualquer outro poeta da minha geração, na medida em que definem uma situação prévia que é afinal comum. (…)

(in Motim Literário, editorial Verbo, 1962 – colecção Presenças)



M. ALBERTA MENÉRES / E. M. DE MELO E CASTRO

INTRODUÇÃO
[excerto]

2.°) — A segunda baliza que surgiu pela força das circunstâncias, foi a que define as condições de admissão na Antologia. O critério de um limite de idade não nos pareceu válido perante o carácter específico da Novíssima Poesia de 1945 a 1971, porque nela encontramos lado a lado, como estreantes igualmente válidos, perante uma problemática idêntica e com simultaneidade de vivência. Poetas de mais de 60 anos e de menos de 25. Só isto bastaria para inutilizar as artificiais barreiras de idade, pois nem sequer podemos demonstrar ou afirmar perante as respectivas qualidades das obras poéticas que formam esta Antologia, que um Poeta de 40 ou 50 anos tenha mais experiência humana ou literária que um de 20 ou 30, sem nos colocarmos numa situação conselheiral e pseudo-académica, cujo ridículo é evidente. Além disso, tal critério tende a fomentar falsas distinções e barreiras a que nenhuma base crítica preside. Ante o enorme volume de Poetas possivelmente candidatos, julgámos que o que poderia conferir uma certa experiência literária e também humana, seria a publicação de pelo menos um livro de criação poética que se tenha mostrado válido e activo perante o nosso trabalho de recolha e compilação, e tenha manifestado qualidades suficientes para que o seu Autor valha no conjunto da Antologia. Portanto uma condição indispensável para a inclusão nesta terceira edição foi, sem uma única excepção, a publicação de um livro de criação poética. Conhecemos perfeitamente o óbice deste critério, que se encontra no seguinte: poder deixar-se na sombra algum bom Poeta que ainda não tenha publicado nenhum livro e só tenha colaborado em revista, etc. A isto diremos que esta Antologia se estende por mais de 25 anos de revelações de Poetas, e que a grande época de revistas literárias já passou: ela foi 1950, 1951, 1952, como se verá mais adiante. De então para cá, mercê de circunstâncias alheias ao próprio fenómeno poético, parece mais fácil a publicação de livros individuais, que de revistas e periódicos literários, e por isso talvez a enorme quantidade de livros publicados, além de um natural e crescente interesse pela Poesia, da parte de um público que, embora sempre limitado, está em expansão. E o facto é que os Poetas dispõem actualmente de muitos recursos de publicação, quer em colecções comerciais e particulares, quer em edições de Autor. E podemos dizer que só não publica os seus poemas, o Poeta de mérito que realmente não está interessado nisso. Por outro lado, uma Antologia panorâmica só se pode fazer de forças vivas e culturalmente actuantes, e por isso só pode ter em conta Poetas que entrem realmente na polémica da existência e da acção cultural.

(in Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa, livraria Moraes editora, 3ª edição, revista actualizada e com uma nova introdução: 1971 – Círculo de Poesia)

18.10.10

Foi apresentada, no passado dia 9, a antologia O Prisma das Muitas Cores, com poemas de amor de 135 autores de Portugal e do Brasil. Foi organizada pelo Victor Oliveira Mateus e tem prefácio de António Carlos Cortez. A ilustração da capa é de Júlio Cunha e tem a chancela da Editora Labirinto. Nela consta um poema meu, que transcrevo.



Os teus olhos abertos são do tamanho dos meus dedos
E não falam de silêncios nem de sombras
Nem de coisas de sonhar.

Os teus olhos lembram segredos de riso,
Pequenas palavras que se dizem poucas vezes.
É nos teus olhos que sei o rumor da minha história –
Olhos de quem cresce a olhar.

(sei que enquanto me olhas respiras)

Só eu desejo a tua boca,
Pedaço antigo de sede e confronto
Por onde entra a luz jubilosa que respiras.
Da tua boca sei que traz gestos de nomes ditos
Enquanto tudo à volta acontecia.

E com os dedos percorres o sibilar da língua,
Tocas objectos que são a pele do mundo
Com a delicadeza própria de lábios.
E os teus dedos são do tamanho dos meus olhos abertos.

4.10.10

GWENAËLLE STUBBE


47


Não passa de uma história de dentes. Esta cidade!
De dentes fixados sobre mim com toda a rapidez. Que no último segundo
recuperam a sua trajectória.
De todo o modo - Guardai os vossos dentes não preciso deles!
Todos nós somos apanhados nesta cidade, desde que lá estamos postos
pelo mínimo passo. No entanto não vereis aí nenhuma - junção do tipo -
O vosso ar agrada-me. Com vossa licença, vou ficar com ele.
Também esta semana, tenho esta sorte de me estar nas tintas e de passear por

sem laços.
Mesmo que isso circule pelo dobro em cada pedaço de passeio.
E pelo meu único laço, acho que sou livre e conservo com graça nesta grande
cidade, o uso perdido da minha costela.


(tradução de Nuno Júdice, in Encontros de Talábriga - 4º Festival Internacional de Poesia de Aveiro, Limiar, 2003)

3.10.10

ANTERO DE QUENTAL


Tese e Antítese


I

Já não sei o que vale a nova ideia,
Quando a vejo nas ruas desgrenhada,
Torva no aspecto, à luz da barricada,
Como bacante após lúbrica ceia...

Sanguinolento o olhar se lhe incendeia;
Respira fumo e fogo embriagada:
A deusa de alma vasta e sossegada
Ei-la presa das fúrias de Medeia!

Um século irritado e truculento
Chama à epilepsia pensamento,
Verbo ao estampido de pelouro e obuz...

Mas a ideia é num mundo inalterável,
N'um cristalino céu, que vive estável...
Tu, pensamento, não és fogo, és luz!

II

Num céu intemerato e cristalino
Pode habitar talvez um Deus distante,
Vendo passar em sonho cambiante
O Ser, como espectáculo divino.

Mas o homem, na terra onde o destino
O lançou, vive e agita-se incessante:
Enche o ar da terra o seu pulmão possante...
Cá da terra blasfema ou ergue um hino...

A ideia encarna em peitos que palpitam:
O seu pulsar são chamas que crepitam,
Paixões ardentes como vivos sóis!

Combatei pois na terra árida e bruta,
Té que a revolva o remoinhar da luta,
Té que a fecunde o sangue dos heróis!


(de Sonetos, 1886 - conforme edição de 2002 da Imprensa Nacional - Casa da Moeda, da responsabilidade de Nuno Júdice)
ARMANDO SILVA CARVALHO


OS PORTUGUESES


Todo eu sou alemão no pensamento, e antes de o saber
O francês não me deixava mentir
Com palavras de sol cinzento nesta boca insular
Dum condenado à cabeça.

Temos na língua um gosto pelo patético
Que nasce da insuficiência.
Morremos duma glória plasmada na distância,
Dirão os que não morrem para poderem
Contar.

Os que mirram, definham de goela aberta
E deixam no ar a dança gestual
De pequenos fantoches, olhos pasmados numa vida
De Europa entreaberta.

Oh, tomai por mau conselho
A minha fala doendo pelas ruas de Coimbra,
Pelas salas espessas de fumo em Lisboa
Pelas areias e dunas dessa boa Vila do Conde
Adormecida.

Um jovem irrequieto, um doente louco,
Uma cabeça virgem para recados maiores dos outros
Mundos,
Uns olhos magoados pelo sol da solidão.
Dizei-me, camaradas da luz,
Que mais vos posso dar, sem ser canção ou roubo
Do meu corpo,
Incandescente, eléctrico, lucífero?


(de Anthero Areia & Água, Assírio & Alvim, 2010)

2.10.10

GREGORY CORSO


POETAS PEDINDO BOLEIA NA AUTO-ESTRADA


Claro que tentei dizer-lhe
mas ele virou a cara
_____sem uma desculpa.
Disse-lhe que o céu persegue
_____o sol
E ele sorriu e disse:
_____«Para que serve isso.»
Eu sentia-me como um demónio
_____de novo
Por isso disse: «Mas o oceano persegue
_____os peixes.»
Desta vez riu-se
_____e disse: «Suponho que
__________os morangos foram
_______________empurrados para uma montanha.»
Depois disso vi que a
_____guerra estava declarada...
Então lutámos:
Ele disse: «A carroça das maçãs como um
____________________anjo numa vassoura
_______________racha & lasca
____________________velhos tamancos holandeses.»
Eu disse: «O relâmpago vai cair no velho carvalho
_______________e libertar os fumos!»
Ele disse: «Rua louca sem nome.»
Eu disse: «Assassino careca! Assassino careca! Assassino careca!»
Ele disse, perdendo mesmo a cabeça,
__________«Fogões! Gasolina! Divã!»
Eu disse, sorrindo apenas:
__________«Sei que Deus voltaria a cabeça
__________se me sentasse calado e pensasse.»
Acabámos por evaporar-nos,
_____odiando o ar!


(in Antologia da Novíssima Poesia Norte Americana, selecção, tradução, prefácio e notas de Manuel de Seabra, editorial Futura, 1973)
SANDOR CSOÓRI


CARTA AO POETA AMERICANO GREGORY CORSO


Percorreria todo o mundo contigo,
Corso,
descarrilador do tempo,
valentão do século vinte.
A tua camisola de riscas lembra uma farda de prisioneiro,
de presidiário que desertou da poesia,
apóstolo do adultério.

Vamos, anda, calça de um tiro o teu sapato de desporto
rumo à Lua,
ao deserto do Sahara
e à capital da nossa alegria: Spoleto!

Na praça da Catedral é noite.
Cubos de mármore nadam no copo da escuridão,
como os cubos de gelo
num whisky um pouco amargo.

Esvaziemos a cidade de um trago.

Menotti não compõe hoje música,
convida para um serão,
no seu jardim, rameiras milionárias
esperam os sátiros
com forcados de poesia -
Corso,
a tua mão é um forcado,
a tua boca é um lança-chamas,
Sabes! És mais capaz de praguejar
Do que o papa capaz de rezar,
vem, armemos um escândalo esta noite.

*

Pode ser bom roubar um carro
já que não se pode roubar a imortalidade,

e tocar os sinos com latas de conserva
já que não se pode fazê-lo com a perna do Cristo.

*

Joguemos - Tu gostas de jogar:
Furemos os olhos um ao outro,
talvez assim sejamos mais amáveis
do que os que sorriem.
Estilhacemos as tuas bombas para estrelar ovos
e a Europa pode entusiasmar-se com uma nova arte culinária.

*

Imbecil! Imbecil! - gritemos ao
Senador-Urso Polar,
aos chefes do governo que passam o fim-de-semana
num cano de canhão.
oh, fins-de-semana!
oh, domingos!
oh, Casas Brancas! Parlamentos!
das vossas conchas de caracol por toda a parte
deslizam tanques
e na sua trilha mucosa caem de costas os poetas.
Imbecis! Imbecis - gritemos aos poetas
que caíram de costas,
eles não merecem o pão,
não merecem as mulheres,
não merecem a morte.

*

Já balbuciamos tantas vezes
majestosamente
que a nossa boca está inchada.
Corso, afundemos as nossas línguas
como um porta-aviões.
Sejam outros a fazer estrondear
as harpas celestes que voam,
e sejam os marcianos a tocar os tambores de Saturno.

Tudo pode acontecer-nos,
se ficarmos aqui;
tudo o que já nos aconteceu.
Vamos,
sejamos nós a marcha
que vagabundeia por toda parte,
muda de pátria para amar a do outro,
assina o mar, como um postal,
e descansa nas cidades,
para que também as cidades descansem
e não pede perdão
se for processado por aquela marcha
que chegou a amar no sétimo dia.


(de Com cisnes sob o fogo do canhão, versões de Egito Gonçalves, sobre tradução literal de Pál Ferenc e revisão de Mária Demeter, Limiar, 1997 - os olhos e a memória)