30.12.10
Ambições
não tenho
mas alguém corre sòzinho
nos meus sonhos
amargo medíocre
esta mensagem
torpedos
que alcanço
garantias não tenho
mas alguém
se encontra sòzinho
nos meus sonhos
e é tudo
(de Teclado Universal e outros poemas, 1953; in Cá & Lá, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1985 - Biblioteca de Autores Portugueses)
27.12.10
A Festa da Abundância I, 2005(?)120x160 cm
Carvão e pastel sobre papel
Centro de Arte - Colecção Manuel de Brito, Algés
A Festa da Abundância II, 2005(?)Carvão e pastel sobre papel
160x120 cm
Centro de Arte - Colecção Manuel de Brito, Algés
RUI ALMEIDA
A Festa da Abundância (díptico de Graça Morais)
Olhai as gaivotas que se alimentam
Dos restos da fast-food e dos detritos,
Olhai-as na sua avidez,
Apartando-se umas às outras,
Ferindo-se entre si,
Para acumular mais do que podem conter
Em seus escassos corpos.
E contudo,
Não ocupam altos cargos
Em conselhos de administração
Ou direcções partidárias,
Nem traficam influências
Nos corredores da hipocrisia.
Porventura sereis vós menos do que elas?
(in Nada Onde Pousar o Sonho, coordenação e edição de João Tomaz Parreira, Desafio Miqueias, 2010)
20.12.10
PAI AMÉRICO
ERA de uma vez num hotel de categoria, em certo lugar da nossa Pátria muito amada. Corria o verão. Na terra havia mais hotéis; muitos hotéis, todos povoados – muito que falar e pouco que fazer. Nestes sítios a que chamam termas, o que mais custa é matar o tempo. Já assim era com os romanos. Lança-se mão de tudo. Cada dia vem com seu programa e todos com infinitos números. Eis um. Naquele hotel e naquele dia foi assim.
Um grupo de senhoras da nossa melhor sociedade, como a Imprensa costuma pôr e elas gostam, levanta-se e vai em roda colher donativos, para um almoço aos farrapõezitos da localidade. Contaram o dinheiro, hilariantes e entregaram à Gerência, com instruções do almoço. No dia seguinte aparece o aviso pregado no lugar deles, a comunicar que as Ex.mas Senhoras Donas Fulana, Sicrana e Beltrana, não se pouparam a trabalhos e que vão oferecer hoje, às tantas, um almoço a doze crianças pobrezinhas. Tudo está à espera. Imediatamente após o serviço dos hóspedes, a Gerência manda armar a mesa em uma sala do dito hotel com quatro janelas para a rua, escancaradas, para que se veja bem. A mesa apresenta-se com tudo; absolutamente tudo quanto diz respeito a um almoço de circunstância. Estão doze talheres. Um terceto, coloca-se em posição. Os criados aprumam-se. As pequeninas vítimas entram na sala. Vai começar o sacrifício. A seguir à sopa vem o primeiro prato, vem o segundo, vem sobremesa; – tormentos que as crianças não merecem a ninguém. Elas não saboreiam. Não sabem estar. Nada lhes aproveita. É um triste suplício, como os pequeninos semblantes dizem.
A sinfonia toca. Os creados rodopiam. As senhoras da comissão miram-se, extasiadas; e dezenas de outros farrapõezitos do lugar, que não foram convidados, espreitam pelas janelas, em bicos-de-pé, esfaimados!
Terminou. Os pequeninos torturados estão amarrados às cadeiras, cada um à sua, até passar a hora dos discursos. Em regra, as senhoras destas comissões, levam muito a mal que não se lhes diga nada, e um senhor da assistência exaltou o acto.
Novo aviso elucidou os hóspedes de quanto se houvera gasto e assim acabou o dia ao qual, no meu entender, não se pode chamar perfeito. Ora muito bem. Estamos em frente de uma das inúmeras paradas de caridade que os olhos dos nossos tempos andam afeitos a ver, e ninguém dá fé do mal que se pratica no mundo, com esta espécie de bem-fazer.
Nenhum de entre a assistência era analfabeto; tudo gente de certa responsabilidade. Mais. O senhor do discurso foi, até, buscar à doutrina de S. Paulo dois pontos que tratam da esmola e com eles, enalteceu a cerimónia! Ninguém viu o mal.
Tudo fez coro, acharam muito certo.
Eu estava. Assisti a tudo quanto se fez e quanto se disse, dum cantinho da sala, muito triste por me encontrar só; – tão perto e tão distante.
Se me tivessem dado o dinheiro e a liberdade de agir, havia de chamar todas as crianças pobres do povoado – todas, porque todas necessitavam, e dar-lhes uma refeição quente, à maneira do povo, só que um nadinha mais abundante e melhor adubada; – era dia de festa. Havia de os colocar em sítio onde estivessem absolutamente livres; comentassem a seu modo o sabor do caldo e do pão; falassem uns para os outros; rissem a bandeiras despregadas, pois seria verdadeiramente uma festa deles e não festança dos mais.
Havia de mandar os criados mai-la sinfonia para os seus respectivos lugares, que ele não há no mundo música mais bela do que a feita com as notas alegres da criança pobre, diante dum prato de sopa quente, servido com muito amor. Assim havia de fazer. Mais. Enquanto perguntasse a cada um o nome que tem, havia de perguntar ao mundo do nosso tempo, quando é que chega a hora em que cada criança tenha dentro da sua casa e em cima da sua lareira, uma tijela de caldo e um bocado de pão. Então, sim, poderíamos fazer festas, que a Caridade folga com a justiça, como ensina a verdade eterna.
Salvo melhor opinião dos mestres, afigura-se-me que não se devia jamais mostrar à criança pobre um mundo a que não poderá honestamente chegar, nem possuir. As orgias desmoralizam; são fontes de revolta e fazem revoltados. Fica-nos bem ser pobres e ensinar a criança a amar e a respeitar o seu estado de pobreza, não venha ela amanhã a cair na miséria e a fazer um mundo de miseráveis.
(de Doutrina, gráficas da Casa do Gaiato, 1956)
29.11.10
[...]
(excerto do Propósito, in Escola Formal - tópicos de pedagogia, Guimarães editores, [1958])
23.11.10
VERTENTES
a Herberto Helder
As palavras esperam o sono
e a música do sangue sobre as pedras corre
a primeira treva surge
o primeiro não a primeira quebra
A terra em teus braços é grande
o teu centro desenvolve-se como um ouvido
a noite cresce uma estrela vive
uma respiração na sombra o calor das árvores
Há um olhar que entra pelas paredes da terra
sem lâmpadas cresce esta luz de sombra
começo a entender o silêncio sem tempo
a torre extática que se alarga
A plenitude animal é o interior de uma boca
um grande orvalho puro como um olhar
Deslizo no teu dorso sou a mão do teu seio
sou o teu lábio e a coxa da tua coxa
sou nos teus dedos toda a redondez do meu corpo
sou a sombra que conhece a luz que a submerge
A luz que sobe entre
as gargantas agrestes
deste cair na treva
abre as vertentes onde
a água cai sem tempo
(de Voz inicial, 1961)
21.11.10
TEMPO DE NÃO
Exausta fujo as arenas do puro intolerável
Os deuses da destruição sentaram-se ao meu lado
A cidade onde habito é rica de desastres
Embora exista a praia lisa que sonhei
(de Ilhas, 1989)
JOSÉ BLANC DE PORTUGAL
«TEMPO DA HISTÓRIA»*
TEM PODA? HISTÓRIA...
Claro que tem poda...
A poesia é arborícola
O poeta um silvícola
E tem que andar na moda...
Mas quanto à glória...
História...
*Título de Exercícios Temporais de Tomaz Kim
(de Enéadas / 9 novenas, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1989 - Biblioteca de Autores Portugueses)
ADÍLIA LOPES
Tempo de não
tem pó de não?*
*Sophia e José Blanc de Portugal
(de Apanhar Ar, Assírio& Alvim, 2010 - poesia inédita portuguesa)
TEMPO DA HISTÓRIA
Ao princípio, o viril desflorar do medo,
Lúcida loucura e cobiça e fé e garbo
A rematar uma nação quatro séculos alfim,
Sem medir quantas lanças, quanto sangue.
Declamaram-se versos de epopeia
Espontânea e sem freio.
Amaram-se corpos de sol e canela
E de sal e tufões, o leito.
Desfolhada a rosa-dos-ventos,
Ficou ainda a memória viva
A reter, donairoso, o sonho.
Da rosa-dos-ventos, agora,
Suas pétalas e a loucura e o garbo
Que lábaro, que labéu, que lamúria?
(de Exercícios Temporais, 1966)
20.11.10
IMPREVISTO NO MAPA
Que estranho
estar a visitar-te onde não estás
recuar de repente para que passes
e tudo tão imóvel
tudo tão estreito
tão repreensível
e porém uma figura se desembaraça
da treva
e é o magneto
o grito avermelhado que fica
a rodar no anfiteatro
em que eu sou o louco
e tu a vírgula que não me deixa
terminar
(abriu-se a gaveta
as sombras têm o mesmo tamanho
os nervos andam à solta)
agora que te vejo
até onde não te vejo
e essa é a extensão dos meus sentidos
agora que me esquivo
do golpe silencioso dos teus braços
descubro que me coube
a parte mais terrível da aurora
aquele minuto que se comprime
e sangra pelos cabelos
aquele erguer-se a rua
pela rosácea
da expectativa
um espectáculo existiu
e cada um sabia o seu papel
funâmbulos ou piruetas ao acaso
não importa
eu tinha os teus lábios
tu encontravas-me como um velho relógio
de parede
ao entrar no mar
os grandes olhos do nosso entendimento
verdes olhos de vagabundo ao sol
para unicamente
esta noite
para unicamente esta noite
para unicamente esta noite te dizer
que eu sou o homem no escuro
eu sou o sol a aquecer-se nos teus bolsos
eu trago a minha canção aberta
à radiação dos últimos vestígios
do corpo
sessenta mil velas
para unicamente esta noite
para unicamente esta noite te dizer
os holofotes acenderam-se
os holofotes acenderam-se
as minhas mãos viram as tuas mãos
(de Prisão e paixão de Egon Schiele, &etc, 2005)
15.11.10
já foram neve sinos as portas desta casa em sombra
já foram neve sinos as portas desta casa em sombra
que a pútrida folhagem do outono abandonou
agora movem-se no sono dágua dos meus olhos
que a luz da tarde tão cegadora evaporou
pequenos bichos larvas começam a lavrá-las
finas poeiras já se amontoam na pedra das soleiras
fulvas rosáceas tessituras delicadas rendas
com que se vestem as aves pólen das madeiras
as portas que foram desta casa tão olorosa outrora
na purga do salitre é que se expurgam cinzas
mais as gramíneas da noite constelações azedas
só restam lousas o oiro velho que há nas cornijas
mas na memória hão-de restar ventos alíseos facas
com que as lavercas as suas patas vão escarvar
lameiros negros hei-de encontrar as suas tocas
onde meus olhos os destas portas se irão deitar
mas não tão cedo acres que ainda estão mortas
suas resinas alguém virá com lumes dágatas
dentro de casa erguer as portas varandas altas
que já rolam rolas nos seus casulos pratas
de águas soltas pérolas vastas encherei as arcas
neve sonora a destas portas sombrias naves
hão-de queimá-las as tuas asas? alguém virá com suas brasas?
meus olhos folhas hão-de levá-las na seda magra destas aves
(de Polaroides, in Obra Poética, &etc, 1999)
13.11.10
EXAME DE POESIA
Quando só na escuridão da noite urino
penso quieta a dúvida numa vida antiga
Porquê de noite tenho tanto medo na alma?
O céu fita-nos a andar e estamos na vida.
Vem loucura às minhas pupilas vem loucura
Febre de exílio nas margens de meus olhos
Põe o manto escarlate na minha alma
despedaça o meu tímpano o meu tórax
corta-me a jugular.
Espero-te com os punhos com os dentes
com os olhos cerrados:
loucura peristilo divino
ângulo facial de actor de morte
anfisbena demónio sem sentido
É teu sentido uma delícia extrema.
Nesta noite de ouro neste inverno
Nesta noite dura e fria ponho
minhas mãos de diamante e minhas pernas
sobre a almofada e sobre a colcha
chamo chamo
Não ao sonho nem à eterna escuridão
mas à porta em que morre minha mãe
Quero dobrar a espinha
tristíssima e divina.
(tradução de José Bento, in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea, Assírio & Alvim, 1985 - documenta poetica)
11.11.10
Humana vida estar na poeira agitação
Exactamente como bacia meio insecto
Todo o dia avançar girar girar
Não deixar sua bacia meio
Imortais não poder obter
Preocupações planos sem esgotado
Anos meses como corrente água
Num instante estar velho
A vida humana situa-se na agitação da poeira
Exactamente como um insecto no meio de uma bacia
O dia todo avança girando girando
Não sai do meio da bacia
Os imortais não podem ter
Preocupações planos sem fim
Anos meses são como água que corre:
De repente está-se velho
(in O vagabundo do Dharma / 25 poemas de Han-Shan, Caligrafias de Li Kwok-Wing; Tradução do chinês de Jacques Pimpaneau; Versões poéticas de Ana Hatherly, Cavalo de Ferro, 2003)
Vive o homem a vida numa tigela de poeira
É como bichinhos dentro de um jarro
Todo o dia andando à volta
Nunca sai lá de dentro.
Não nos calha a ventura
Só temos em sorte desgraças
O tempo parece um rio
Que corre. Um dia, acordamos velhos.
(in Uma Antologia de Poesia Chinesa por Gil de Carvalho, Assírio & Alvim, 1989 e 2010 - Assíria)
7.11.10
JOSÉ SANTIAGO NAUD
BARCELONA
Sagrada Família
Aqui de movo se recupera o Cristo
e nova a natureza se redime.
Abstracção, a reta
cede passo à espiral
mas são os montes que descem o foco de luz
centrado entre os picos e o espaço.
Tudo quanto — familiar
ou altivo — homem pode conter
aqui se inicia. Tanto génio em preconceito
vencido torna o tempo possível e faz
com que a origem reverta. Depois dessa
força é mudar de vida.
(de Conhecimento a Oeste, Moraes editores, 1974 - Círculo de Poesia)
1.11.10
Canção dos Hipocampos
Somente a menina cega
foi quem viu os hipocampos
passeando pelos campos,
verdes campos, verdes mares
bravios de minha terra
onde mais nada gorgeia
nas frondes das carnaúbas,
lá em cima das palmeiras,
debaixo dos laranjais.
El-rei decretou agora
que toda a ave canora
que cantar, morre na hora;
e para mor segurança
chamou feras estrangeiras
para poluir palmeiras,
nossos bosques, nossas várzeas
onde não tem mais flores
nem tampouco sabiás.
Sorrindo, a menina cega,
no desprimor desta praia,
desenhou uma jandaia,
rabiscou um sabiá,
enxergando na cegueira
mais que a humanidade inteira
pelos campos hipocampos
como uma turba de vândalos
desembuçados dos céus.
El-rei cauteloso dita
do alto do trono asfáltico,
o século que viu a pomba
viu um Pablo e sua pomba
e mais dois Pablos safados;
por isso, no meu reinado,
nenhum passarinho canta,
se cantar, a morte é certa
na mira do meu fuzil.
Somente a menina cega
percebeu que os hipocampos
comiam cravos, crisântemos
e douradas borboletas.
Em cismar sozinha à tarde,
naquela tarde fagueira,
ela viu como pastavam
e vomitavam lirismo
pelas ventas de metal.
El-rei, vigilante e esperto,
bradou, “Me tragam poetas!”
principalmente os românticos,
e cozinhem suas barbas
em molho de água e sal;
e se forem tão imberbes
que não engrossem a sopa,
tragam-me as neves de antanho
que os anos não trazem mais.
Pouco a pouco os hipocampos
avançavam pelos campos,
e a meiga menina cega
nada podia fazer
senão vê-los e temê-los
aguardando sua hora
e a hora de todo o mundo
neste reino à beira mar.
(de Cantigas e Canções 1977-1993 / in Poemas Seletos, Fundação Casa de Jorge Amado, 1996 - Casa de Palavras)
28.10.10
Pax aeternis. A língua
te soletra. Ó longos canaviais,
vias bravias! Os da morte liter-
ária, sob a chuva. Assim invocas
um sentido ao teu excesso
diário. Á previsível
morte literal.
Litoral! Litoral! Manchado
em cristalino, sentimento. De
paisagem madura. Perdurável
no vasto mecanismo visual.
Ó longas vias de canal. Por onde a
vida, a letra, lite-
ratura, se consomem.
Requiescat. Em ti penso o
movimento ausente (desvio,
então, a retina para os longos
campos: roído de verdura
e vento, em movimento). Assim te
esqueço, contrito, em rigidez.
So-
letro o que me é dado ver enquanto
vivo - o objecto — enquanto vivo.
E como pensarás res-
existir a essa língua? Uma
cultura que a prepara, uma morte
entre claustros, requeimada?
Litor-
ais que a letra não domina, que
são lentos, semelhantes
ao teu cego labor: paisagem hirta,
avista, imaculada.
Como pode, sem luz, ser
já tão lúcida? Tão
claramente negativa? Inquieto,
o esquece. E só habita
sobre as árduas costas, litorais.
(de Os Campos Visuais, 1973)
