5.1.11

MALANGATANA


Cântico dos cânticos, 1997
34x33,5 cm
Técnica mista



RUI ALMEIDA



ALGUMA IMAGENS TIRADAS DE MALANGATANA


Ventres e olhos de dor
Na África da alegria
Sexos devorantes
Prazer isolado

Há uma tristeza a chegar ao fim
Uma esperança que não se vê
Senão na força de continuar a olhar.

31/10/1999

3.1.11

PABLO NERUDA


NÃO HÁ ESQUECIMENTO

(SONATA)

Se me perguntais onde estive,
devo dizer «Acontece».
Devo falar do chão que as pedras escurecem,
do rio que permanecendo se destrói:
não sei senão as coisas que os pássaros perdem,
o mar que ficou para trás ou minha irmã chorando.
Porquê tantas regiões, porquê um dia
se junta a outro dia? Porquê uma negra noite
se acumula na boca? Porquê mortos?
Se me perguntais de onde venho, tenho que conversar com coisas gastas,
com utensílios demasiado amargos,
com grandes animais muitas vezes já podres
e com meu angustiado coração.

Não são as lembranças que se atravessaram,
nem é a pomba amarelenta que no esquecimento dorme,
mas sim faces com lágrimas,
dedos na garganta, e o que se desmorona das folhas:
a escuridão de um dia decorrido,
de um dia alimentado com o nosso triste sangue.

Eis aqui violetas, andorinhas,
tudo o que nos agrada e aparece
nos doces cartões de visita de longa cauda
onde passeiam o tempo e a doçura.
Mas não penetremos para além desses dentes,
não mordamos as cascas que o silêncio acumula,
pois não sei que responder:
há tantos mortos,
e tantos molhes que o sol rubro partia,
e tantas cabeças que batem nos navios,
e tantas mãos que encerraram já beijos,
e tantas coisas que desejo esquecer.


(tradução de José Bento, in Antologia de Pablo Neruda, editorial INOVA, 1973 - original de Residencia en la tierra, 1933)

30.12.10

FERNANDO LEMOS


Ambições
não tenho
mas alguém corre sòzinho
nos meus sonhos

amargo medíocre
esta mensagem
torpedos
que alcanço
garantias não tenho
mas alguém
se encontra sòzinho
nos meus sonhos

e é tudo


(de Teclado Universal e outros poemas, 1953; in Cá & Lá, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1985 - Biblioteca de Autores Portugueses)

27.12.10

GRAÇA MORAIS

A Festa da Abundância I, 2005(?)
120x160 cm
Carvão e pastel sobre papel
Centro de Arte - Colecção Manuel de Brito, Algés

A Festa da Abundância II, 2005(?)
Carvão e pastel sobre papel
160x120 cm
Centro de Arte - Colecção Manuel de Brito, Algés



RUI ALMEIDA


A Festa da Abundância (díptico de Graça Morais)


[cf. Mt 6, 26 e Lc 12, 24]

Olhai as gaivotas que se alimentam
Dos restos da fast-food e dos detritos,
Olhai-as na sua avidez,
Apartando-se umas às outras,
Ferindo-se entre si,
Para acumular mais do que podem conter
Em seus escassos corpos.

E contudo,
Não ocupam altos cargos
Em conselhos de administração
Ou direcções partidárias,
Nem traficam influências
Nos corredores da hipocrisia.

Porventura sereis vós menos do que elas?


(in Nada Onde Pousar o Sonho, coordenação e edição de João Tomaz Parreira, Desafio Miqueias, 2010)

Foi lançada recentemente a antologia poética Nada onde pousar o sonho, com edição de João Tomaz Parreira. Esta obra conta, além de um texto de Fernando Pessoa, com poemas inéditos do próprio coordenador e de Clélia Mendes, Brissos Lino, Lurdes Saramago Chappell, João de Mancelos, Júlia Lemos, Rui Almeida, Rui Miguel Duarte, Florbela Ribeiro, Helena Branco e João Pedro Martins.
Os autores, que o prefaciador Rui Miguel Duarte apresenta como «poetas e cidadãos que não entendem as injustiças nem se resignam com uma sociedade e com um mundo liberal, de poderes políticos e económicos antropófagos», ofereceram os seus direitos sobre os textos deste livro, cuja venda reverte a favor do Projecto Miqueias.

O livro pode ser adquirido através de pedido para: desafio.miqueias@gmail.com com indicação do nome e morada para envio.

O Desafio MIQUEIAS é uma campanha internacional para mobilizar os cristãos a favor das comunidades pobres e socialmente excluídas e para influenciar os líderes das nações a cumprir as promessas públicas, de forma a alcançar os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio e reduzir a pobreza extrema para metade até 2015.

20.12.10

[ao cuidado do Professor Cavaco]

PAI AMÉRICO

ERA de uma vez num hotel de categoria, em certo lugar da nossa Pátria muito amada. Corria o verão. Na terra havia mais hotéis; muitos hotéis, todos povoados – muito que falar e pouco que fazer. Nestes sítios a que chamam termas, o que mais custa é matar o tempo. Já assim era com os romanos. Lança-se mão de tudo. Cada dia vem com seu programa e todos com infinitos números. Eis um. Naquele hotel e naquele dia foi assim.

Um grupo de senhoras da nossa melhor sociedade, como a Imprensa costuma pôr e elas gostam, levanta-se e vai em roda colher donativos, para um almoço aos farrapõezitos da localidade. Contaram o dinheiro, hilariantes e entregaram à Gerência, com instruções do almoço. No dia seguinte aparece o aviso pregado no lugar deles, a comunicar que as Ex.mas Senhoras Donas Fulana, Sicrana e Beltrana, não se pouparam a trabalhos e que vão oferecer hoje, às tantas, um almoço a doze crianças pobrezinhas. Tudo está à espera. Imediatamente após o serviço dos hóspedes, a Gerência manda armar a mesa em uma sala do dito hotel com quatro janelas para a rua, escancaradas, para que se veja bem. A mesa apresenta-se com tudo; absolutamente tudo quanto diz respeito a um almoço de circunstância. Estão doze talheres. Um terceto, coloca-se em posição. Os criados aprumam-se. As pequeninas vítimas entram na sala. Vai começar o sacrifício. A seguir à sopa vem o primeiro prato, vem o segundo, vem sobremesa; – tormentos que as crianças não merecem a ninguém. Elas não saboreiam. Não sabem estar. Nada lhes aproveita. É um triste suplício, como os pequeninos semblantes dizem.

A sinfonia toca. Os creados rodopiam. As senhoras da comissão miram-se, extasiadas; e dezenas de outros farrapõezitos do lugar, que não foram convidados, espreitam pelas janelas, em bicos-de-pé, esfaimados!

Terminou. Os pequeninos torturados estão amarrados às cadeiras, cada um à sua, até passar a hora dos discursos. Em regra, as senhoras destas comissões, levam muito a mal que não se lhes diga nada, e um senhor da assistência exaltou o acto.

Novo aviso elucidou os hóspedes de quanto se houvera gasto e assim acabou o dia ao qual, no meu entender, não se pode chamar perfeito. Ora muito bem. Estamos em frente de uma das inúmeras paradas de caridade que os olhos dos nossos tempos andam afeitos a ver, e ninguém dá fé do mal que se pratica no mundo, com esta espécie de bem-fazer.

Nenhum de entre a assistência era analfabeto; tudo gente de certa responsabilidade. Mais. O senhor do discurso foi, até, buscar à doutrina de S. Paulo dois pontos que tratam da esmola e com eles, enalteceu a cerimónia! Ninguém viu o mal.

Tudo fez coro, acharam muito certo.

Eu estava. Assisti a tudo quanto se fez e quanto se disse, dum cantinho da sala, muito triste por me encontrar só; – tão perto e tão distante.

Se me tivessem dado o dinheiro e a liberdade de agir, havia de chamar todas as crianças pobres do povoado – todas, porque todas necessitavam, e dar-lhes uma refeição quente, à maneira do povo, só que um nadinha mais abundante e melhor adubada; – era dia de festa. Havia de os colocar em sítio onde estivessem absolutamente livres; comentassem a seu modo o sabor do caldo e do pão; falassem uns para os outros; rissem a bandeiras despregadas, pois seria verdadeiramente uma festa deles e não festança dos mais.

Havia de mandar os criados mai-la sinfonia para os seus respectivos lugares, que ele não há no mundo música mais bela do que a feita com as notas alegres da criança pobre, diante dum prato de sopa quente, servido com muito amor. Assim havia de fazer. Mais. Enquanto perguntasse a cada um o nome que tem, havia de perguntar ao mundo do nosso tempo, quando é que chega a hora em que cada criança tenha dentro da sua casa e em cima da sua lareira, uma tijela de caldo e um bocado de pão. Então, sim, poderíamos fazer festas, que a Caridade folga com a justiça, como ensina a verdade eterna.

Salvo melhor opinião dos mestres, afigura-se-me que não se devia jamais mostrar à criança pobre um mundo a que não poderá honestamente chegar, nem possuir. As orgias desmoralizam; são fontes de revolta e fazem revoltados. Fica-nos bem ser pobres e ensinar a criança a amar e a respeitar o seu estado de pobreza, não venha ela amanhã a cair na miséria e a fazer um mundo de miseráveis.


(de Doutrina, gráficas da Casa do Gaiato, 1956)

29.11.10

ÁLVARO RIBEIRO


[...]
Ler um livro é difícil; ler até ao ponto, ou até à ponta, em que se passa das afirmações comprovadas para as verdades ocultas. Ler é pensar, ou repensar, o que o autor escreveu. Faz-se mister, para isso, ler com o auxílio de um questionário, registar no manuscrito a distinção exacta entre as questões insolutas e os problemas resolvidos; mas como só um ou outro estudioso se dispõe a tal interrogatório, para avaliar o que conseguiu saber, prevalece a discussão superficial dos argumentos que exemplarmente emergem aqui ou além, e a crítica literária dá por julgado um livro qualquer ao fim de uma rápida e fácil leitura.
O escritor desanima ao verificar que o seu pensamento corre minorado ou adulterado nas vozes anónimas que formam a opinião pública. Nenhuma escola, nenhum partido, nenhuma seita manifestará benevolência para com o homem extravagante que pensa de modo diferente dos outros, nem quererá atraí-lo para o seu grémio. Esta verdade reflecte-se no conhecido provérbio: O saber não ocupa lugar. De aí a tendência, para negar justiça àquele que for sincero no falar e no escrever. A liberdade de pensamento é assim diariamente limitada pela crítica moral, política e religiosa, num processo que só terminará pelo nivelamento final das inteligências.
Diz-se que a história fará justiça, mas a lição da história não produz efeito de reconforto sentimental. Os mesmos erros perduram, depois de reconhecidos, e reproduzem-se por uma necessidade que a vontade humana não consegue travar. Corrigir o erro seria, para muitos estudiosos, regressar ao passado e revogar o presente; corrigir o erro seria, para outros, proceder a um desmentido; preferem todos avançar sempre para um futuro imaginado, levados talvez por inconscientes motivos de opção.
Esperam aqueles que não agem. Esperando assimilam doutrinas que os verdadeiros e os falsos profetas vão propagando de geração em geração. Transferir o messianismo é a lei mental da cultura portuguesa.
[...]


(excerto do Propósito, in Escola Formal - tópicos de pedagogia, Guimarães editores, [1958])

23.11.10

ANTÓNIO RAMOS ROSA


VERTENTES


a Herberto Helder



As palavras esperam o sono
e a música do sangue sobre as pedras corre
a primeira treva surge
o primeiro não a primeira quebra

A terra em teus braços é grande
o teu centro desenvolve-se como um ouvido
a noite cresce uma estrela vive
uma respiração na sombra o calor das árvores

Há um olhar que entra pelas paredes da terra
sem lâmpadas cresce esta luz de sombra
começo a entender o silêncio sem tempo
a torre extática que se alarga

A plenitude animal é o interior de uma boca
um grande orvalho puro como um olhar

Deslizo no teu dorso sou a mão do teu seio
sou o teu lábio e a coxa da tua coxa
sou nos teus dedos toda a redondez do meu corpo
sou a sombra que conhece a luz que a submerge

A luz que sobe entre
as gargantas agrestes
deste cair na treva
abre as vertentes onde
a água cai sem tempo

(de Voz inicial, 1961)

21.11.10

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


TEMPO DE NÃO


Exausta fujo as arenas do puro intolerável
Os deuses da destruição sentaram-se ao meu lado
A cidade onde habito é rica de desastres
Embora exista a praia lisa que sonhei


(de Ilhas, 1989)


JOSÉ BLANC DE PORTUGAL


VI. 5
«TEMPO DA HISTÓRIA»*
TEM PODA? HISTÓRIA...

Claro que tem poda...
A poesia é arborícola
O poeta um silvícola
E tem que andar na moda...
Mas quanto à glória...
História...

11.2.66


*Título de Exercícios Temporais de Tomaz Kim


(de Enéadas / 9 novenas, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1989 - Biblioteca de Autores Portugueses)


ADÍLIA LOPES


Tempo de não
tem pó de não?*


*Sophia e José Blanc de Portugal


(de Apanhar Ar, Assírio& Alvim, 2010 - poesia inédita portuguesa)
TOMAZ KIM


TEMPO DA HISTÓRIA


Ao princípio, o viril desflorar do medo,
Lúcida loucura e cobiça e fé e garbo
A rematar uma nação quatro séculos alfim,
Sem medir quantas lanças, quanto sangue.

Declamaram-se versos de epopeia
Espontânea e sem freio.
Amaram-se corpos de sol e canela
E de sal e tufões, o leito.

Desfolhada a rosa-dos-ventos,
Ficou ainda a memória viva
A reter, donairoso, o sonho.

Da rosa-dos-ventos, agora,
Suas pétalas e a loucura e o garbo
Que lábaro, que labéu, que lamúria?


(de Exercícios Temporais, 1966)

20.11.10

VASCO GATO


IMPREVISTO NO MAPA


Que estranho
estar a visitar-te onde não estás
recuar de repente para que passes
e tudo tão imóvel
tudo tão estreito
tão repreensível

e porém uma figura se desembaraça
da treva
e é o magneto
o grito avermelhado que fica
a rodar no anfiteatro
em que eu sou o louco
e tu a vírgula que não me deixa
terminar

(abriu-se a gaveta
as sombras têm o mesmo tamanho
os nervos andam à solta)

agora que te vejo
até onde não te vejo
e essa é a extensão dos meus sentidos
agora que me esquivo
do golpe silencioso dos teus braços
descubro que me coube
a parte mais terrível da aurora
aquele minuto que se comprime
e sangra pelos cabelos
aquele erguer-se a rua
pela rosácea
da expectativa

um espectáculo existiu
e cada um sabia o seu papel
funâmbulos ou piruetas ao acaso
não importa
eu tinha os teus lábios
tu encontravas-me como um velho relógio
de parede
ao entrar no mar
os grandes olhos do nosso entendimento
verdes olhos de vagabundo ao sol
para unicamente
esta noite

para unicamente esta noite
para unicamente esta noite te dizer
que eu sou o homem no escuro
eu sou o sol a aquecer-se nos teus bolsos
eu trago a minha canção aberta
à radiação dos últimos vestígios
do corpo
sessenta mil velas
para unicamente esta noite
para unicamente esta noite te dizer

os holofotes acenderam-se
os holofotes acenderam-se

as minhas mãos viram as tuas mãos


(de Prisão e paixão de Egon Schiele, &etc, 2005)

15.11.10

LUIS PIGNATELLI


já foram neve sinos as portas desta casa em sombra


já foram neve sinos as portas desta casa em sombra
que a pútrida folhagem do outono abandonou
agora movem-se no sono dágua dos meus olhos
que a luz da tarde tão cegadora evaporou

pequenos bichos larvas começam a lavrá-las
finas poeiras já se amontoam na pedra das soleiras
fulvas rosáceas tessituras delicadas rendas
com que se vestem as aves pólen das madeiras

as portas que foram desta casa tão olorosa outrora
na purga do salitre é que se expurgam cinzas
mais as gramíneas da noite constelações azedas
só restam lousas o oiro velho que há nas cornijas

mas na memória hão-de restar ventos alíseos facas
com que as lavercas as suas patas vão escarvar
lameiros negros hei-de encontrar as suas tocas
onde meus olhos os destas portas se irão deitar

mas não tão cedo acres que ainda estão mortas
suas resinas alguém virá com lumes dágatas
dentro de casa erguer as portas varandas altas
que já rolam rolas nos seus casulos pratas

de águas soltas pérolas vastas encherei as arcas
neve sonora a destas portas sombrias naves
hão-de queimá-las as tuas asas? alguém virá com suas brasas?
meus olhos folhas hão-de levá-las na seda magra destas aves


(de Polaroides, in Obra Poética, &etc, 1999)

13.11.10

CARLOS EDMUNDO DE ORY


EXAME DE POESIA


Quando só na escuridão da noite urino
penso quieta a dúvida numa vida antiga
Porquê de noite tenho tanto medo na alma?
O céu fita-nos a andar e estamos na vida.

Vem loucura às minhas pupilas vem loucura
Febre de exílio nas margens de meus olhos
Põe o manto escarlate na minha alma
despedaça o meu tímpano o meu tórax
corta-me a jugular.

Espero-te com os punhos com os dentes
com os olhos cerrados:
loucura peristilo divino
ângulo facial de actor de morte
anfisbena demónio sem sentido
É teu sentido uma delícia extrema.

Nesta noite de ouro neste inverno
Nesta noite dura e fria ponho
minhas mãos de diamante e minhas pernas
sobre a almofada e sobre a colcha
chamo chamo
Não ao sonho nem à eterna escuridão
mas à porta em que morre minha mãe

Quero dobrar a espinha
tristíssima e divina.


(tradução de José Bento, in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea, Assírio & Alvim, 1985 - documenta poetica)

11.11.10

HAN SHAN




Humana vida estar na poeira agitação

Exactamente como bacia meio insecto

Todo o dia avançar girar girar

Não deixar sua bacia meio

Imortais não poder obter

Preocupações planos sem esgotado

Anos meses como corrente água

Num instante estar velho




A vida humana situa-se na agitação da poeira
Exactamente como um insecto no meio de uma bacia

O dia todo avança girando girando
Não sai do meio da bacia

Os imortais não podem ter
Preocupações planos sem fim

Anos meses são como água que corre:
De repente está-se velho


(in O vagabundo do Dharma / 25 poemas de Han-Shan, Caligrafias de Li Kwok-Wing; Tradução do chinês de Jacques Pimpaneau; Versões poéticas de Ana Hatherly, Cavalo de Ferro, 2003)


Vive o homem a vida numa tigela de poeira
É como bichinhos dentro de um jarro
Todo o dia andando à volta
Nunca sai lá de dentro.
Não nos calha a ventura
Só temos em sorte desgraças
O tempo parece um rio
Que corre. Um dia, acordamos velhos.


(in Uma Antologia de Poesia Chinesa por Gil de Carvalho, Assírio & Alvim, 1989 e 2010 - Assíria)

7.11.10

(foto daqui)


JOSÉ SANTIAGO NAUD



BARCELONA


Sagrada Família

Aqui de movo se recupera o Cristo
e nova a natureza se redime.
Abstracção, a reta
cede passo à espiral
mas são os montes que descem o foco de luz
centrado entre os picos e o espaço.
Tudo quanto — familiar
ou altivo — homem pode conter
aqui se inicia. Tanto génio em preconceito
vencido torna o tempo possível e faz
com que a origem reverta. Depois dessa
força é mudar de vida.


(de Conhecimento a Oeste, Moraes editores, 1974 - Círculo de Poesia)