5.3.11

J. M. G. LE CLÉZIO


[…]
Beleza viva, beleza que existe por si mesma, sem ter de ser reconhecida, exibida, vendida; chega, natural, semelhante à linguagem, da profundidade maior do tempo, sem que seja preciso mudar-lhe um só fragmento. Depois, do outro lado do tempo vai, no centro do próprio porvir, inalterável beleza que é a única liberdade humana.
Basta de arte, basta de expressões individuais! Mas sim: estar unidos, e em conjunto saber ler.
As proezas da ciência, as proezas da linguagem, as proezas dos conquistadores: tudo sem dúvida falsas vitórias, visto não saberem senão subjugar os que as realizam. Os heróis não triunfam, são vítimas das suas próprias palavras.
Mas os que não são heróis, os índios: vivem, assim, cada qual em seu lado, não inventam nada. Não querem conquistar o mundo, não pretendem persuadir as multidões. Não querem dominar com as suas palavras, com as suas vozes. Instintivamente, o homem índio elimina tudo o que o separe, tudo o que o pudesse tornar superior. Não lhe importa a análise, a história, a missão. Encontra-se de imediato no interior do mundo, no centro da vida. Não precisa seguramente de livros, nem de quadros – todo o homem é um livro, é um quadro. A perfeição, a lógica, as ideias novas, isso que é? O índio leva na pele, à sua volta, nos signos quotidianos, a expressão da beleza, a liberdade.
É isso o que dizem os índios, e não queremos ouvi-los: TODA A GENTE É INTELIGENTE.

(excerto de Índio Branco, tradução de Júlio Henriques, Fenda edições, 1989 – Títulos do Tesouro)
MARIA REGINA LOURO / MIGUEL SERRAS PEREIRA


ENDEREÇO E ENVIO

Não, que se desiludam os pregoeiros e arautos da necessidade como prova ou regra, não escrevemos ou lemos por nos ser impossível fazer outra coisa, tal como também não é em lugar de outra coisa, na ausência ou à falta de melhor que lemos já mais livros do que lembramos ainda, ou escrevemos agora estas páginas.
As necessidades da sobrevivência são poucas e as poucas que podemos enumerar ainda duvidosas: não têm história nem explicam nada, como haviam de ser pedra de lei dos nossos destinos?
Pelo contrário, os desejos são muitos e múltipla a singularidade de cada um. Se, para além da sobrevivência, temos necessidade de alguma coisa é do desnecessário ou, dito afirmativamente, desse supérfluo ou excesso, desse cultivo apaixonado dos detalhes, dessa arte de não deixar que grande coisa alguma seja tudo, que foram postos à conta da futilidade das mulheres (e tanto mais quanto menos sérias as julgaram), no rol das condenáveis mas, apesar de todas as opressões, inextinguíveis «preocupações» femininas.
É por e para novas bárbaras, para as e os que as topam, que escrevemos se o fazemos também para alguém. Os que leiam por obediência ou por saber a que lei obedecer não têm falta de códigos e outros «livros em geral» para digerir e assimilar, e que os assimilem ou integrem nesta ou naquela facção dominante do Império. Por uma vez, tomando o ar um pouco teatral de quem se lhes dirige, gostaríamos de pedir-lhes que neste simulacro de livro não procurem regras de equivalência nem artigos de código: o que escrevemos não é sério, não tem «fim da História» nem programa de governo. O aviso está feito.
Mais delicado, porém, quereríamos que fosse o explicitar da trémula ousadia que nos leva agora a dizer inconfessável o quanto, ao longo destas páginas, nos inspirou a imaginação de outras paixões, em relação a nós outras, e a expectativa de por elas – quem? – virmos a ser lidas.


(excerto de Novas Bárbaras, Assírio & Alvim, 1979 – Cadernos Peninsulares / Literatura)

24.1.11

GONÇALO M. TAVARES


CANTO II

94

Bloom passeia em Paris e vê coisas que o fazem pensar
noutras coisas.
Se até os tecidos ricos e a seda se reduzem a combinações
apenas mais estéticas dos nossos bem conhecidos
átomos sujos, para quê o espanto diante de Paris?
E até a catedral, a imponente catedral é, afinal de contas,
uma estaca, como toda a arquitectura,
uma estaca religiosa, bem enterrada no sítio certo, respeitada
e exigindo discursos mansos, mas estaca, sempre,
violentamente enterrada em Paris.

95
Toda a arquitectura é violência, portanto,
pensa Bloom.
Ao contrário dos animais rápidos, como o cavalo,
que não magoam a terra, apenas ganham impulso e avançam.
E há ainda as pedras. Falar em pedras preciosas, sim,
e por que não também em planetas preciosos,
ervas daninhas preciosas ou chimpanzés de luxo?
O que brilha mais de noite? Aquilo a que dás atenção
é o que mais brilha.
Sempre foi assim. E Bloom sabe-o bem.

[...]

106
Sim, é verdade que o comércio meteu a Natureza
em caixas com um preço. Mas tal não é terrível nem
sequer desagradável. Bem pior são certas crianças
que arrancam uma das patas a um sapo que teve o azar
de servir de objecto aos exercícios ingénuos de seres vivos
com seis anos. Entre ser vendida inteira
por comerciantes careiros ou ser fragmentada por crianças
que não sabem o valor do dinheiro, a Natureza
optará sempre pelo pacífico capitalismo.

107
Porque o capitalismo sabe que uma mercadoria
sem uma das patas vale menos:
por isso não arranca patas ou orelhas,
ou cabeças inteiras, à dentada. Mas se valesse mais até arrancavam
uma das patas da Torre Eiffel — exclamou Jean M.
Não te iludas com monumentos nem com cerimónias.
A estética terminou. Ficou o dinheiro.
Os homens são génios do bem para o ouro,
génios do mal para a paisagem.


(de Uma Viagem à Índia, editorial Caminho, 2010)

23.1.11

ANTÓNIO BARAHONA


COMENTÁRIO ALCORÂNICO


Quanto aos poetas, os que erram seguem-nos.
Não tens visto como eles vagueiam pelos vales
E como dizem isso que não praticam?


Alcorão

Vagueio pelos vales a falar sozinho:
não me lavo, não rezo, não me lembro
de Deus: apenas fumo o meu cachimbo
e saboreio Deus que sabe a fumo

Devagaroso a falar à pressa deliro
e digo o que não faço e faço o que não digo,
contraditório, incoerente, obsessivo,
mas verdadeiro eco de mim próprio

Que Deus me dê a força da fraqueza
que verga mas não quebra e endireita
mais dúctil do que a vara mais fibrosa

Que Deus me dê os vales mais obscuros,
lá onde a vista alcança só beleza
ao fundo da paisagem dos teus olhos

Lx., 20.VIII.85

(de Noite do meu inverno, ΙΧΘΥΣ, 2001)
[exemplo a servir de singela manifestação de simpatia para com o Henrique e os editores da Língua Morta, extensível a todos os outros que por aí vão editando como podem, gostam e muito bem lhes apetece]


(excerto do elenco bibliográfico de António Barahona, in Noite do meu inverno, ΙΧΘΥΣ, 2001)

19.1.11

JOSÉ NEWTON ALVES DE SOUSA


Se é a poesia, mais do que um impulso vocacional, uma capacidade que luta por realizar-se expressionalmente, refletindo ora o sujeito, ora o objeto, ou a ação, compreende-se que, antes de tomar forma externa, lírica, épica, satírica ou dramática, já é poesia, mas poesia em procura, poesia transitiva em relação a uma forma, buscada, que será, depois, re-buscada, entendendo-se êste último têrmo, não só no sentido de nova procura, mas também no de aprimoramento formal.
Antes de alguém parir seus poemas, já os viveu e reviveu, já lhes comunicou marca e pessoalidade inconfundíveis, de tal maneira que ninguém mais no mundo será capaz de os reviver e os recriar na mesma medida, no mesmo grau afetivo e na mesma plenitude do verdadeiro autor.
Essa pessoalidade essencial é que faz legítimo o poema, tornando-o irreproduzível, o que não significa inimitável, e único, o que não quer dizer não passível de semelhança com outro.
A poesia, em estado inicial, isto é, a poesia latente ainda, com relação aos outros, mas atualizada, com relação ao autor, já se denuncia pela vida, pelo gesto, pelo ser existencial do poeta, antes que êste a exprima em versos.
O tempo do nascimento do poema nem sempre coincide com o de sua concepção. Nem todo poeta tem pressa de revelar aos outros o que já é síntese de beleza e sofrimento em sua alma. Há, entretanto, uma poesia como que impulsiva, que se não contém pacientemente dentro, mas força uma saída, rompe a película do repouso, para ser corpo exterior atuante.
[…]


(excerto inicial da conferência Considerações sôbre a Poesia de António Gedeão, Centro de Estudos Portugueses, da Faculdade de Filosofia do Crato, 1969)

18.1.11

JOSÉ AGUSTÍN GOYTISOLO


y hoy
te consume
el tédio

Como una nube turbia corrompiéndose
en lentas gotas de barro o de melancolia
como una lluvia antigua
que empapa hasta a los muertos más mezquinos
así el tédio resbala por los muros
forma charcos groseros en las calles
penetra en las iglesias y en los cines
y se filtra en las casas con su olor a desastre.
Un aire de fastidio y de humedad entonces
se apodera de gestos y palabras
se cuelga de los trajes
preside los encuentros de família
viaja en los sucios autobuses
y envuelve la tristísima cíudad desconfiada.
Ah testigo implacable de las horas vacías
aburrimiento enorme que no ocultan
ni la música ambígua de las salas de fiesta
ni el clamor dei estádio
ni el tintineo y charla de las mesas de bar.
Y en médio de una edad de hastío y podredumbre
de espera y rabia oculta
tan solo algunos ninos se divierten
jugando a destruirse por buhardillas de sueno
mientras que afuera sigue
esa lluvia cayendo desconsoladamente
sobre la piel de un mundo en bancarrota.


(de Taller de Arquitectura, 1977)


e hoje
consome-te

o tédio


Como uma nuvem turva a corromper-se
em lentas gotas de barro ou de melancolia
como uma chuva antiga
que ensopa até os mortos mais mesquinhos
assim o tédio escorre pelos muros
forma charcos grosseiros nas ruas
penetra nas igrejas e nos cinemas
e se infiltra nas casas com seu odor a desastre.
Um sopro de náusea e de humidade então
apodera-se de gestos e palavras
suspende-se das roupas
preside aos encontros de família
viaja nos autocarros sujos
e envolve a tristíssima cidade desconfiada.
Ah testemunho implacável das horas vazias
enfado enorme que não é ocultado
nem pela música ambígua dos salões de festas
nem pelo clamor do estádio
nem pelo tilintar e conversa das mesas dos bares.
E a meio de uma idade de fastio e podridão
de espera e raiva oculta
apenas algumas crianças se divertem
brincando a destruir-se em recantos de sonho
enquanto lá fora continua
aquela chuva que cai desconsoladamente
sobre a pele de um mundo em bancarrota.


(tradução minha)

17.1.11

HIERONYMUS BOSCH


Tentações de Santo Antão, c. 1500
Óleo sobre madeira de carvalho
131,5x53 cm / 131,5x119 cm / 131,5x53 cm
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa



JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE


TENTAÇÕES DE SANTO ANTÃO


Lá está o peixe de espada à cinta e o grande fogo em noite
de natal. O capitão da barca voa altos céus e o ovo deu à
luz o pranto das Eríneas. Tudo o que quisermos está aqui: a
virgem cavalgando uma árvore num céu gelado, manto azul,
mãos orantes, segue-a a gadanha da morte e a ave e outra ave
e os peixes e outro peixe. O facho aceso aquece a paisagem,
o descalabro da vida e o humano, de tão humano o quero, diz
em voz baixa o timoneiro enquanto passa sob a neblina.
Sob o som de pesadas botas ninguém, alguém anuncia a mesa
posta: frutos silvestres, pedaços, pedacinhos de ferro: o
grande diospiro abre sob o comando do símio: mendigos,
desejos obsessivos, pequenos monstros desembarcam em murmúrio.
Dias inteiros, séculos ergueram da água baixa e pútrida altas
torres. Perdeu-se de esmolas a cidade e o monge reza, meio-
-louco, fantasiador. Nos campos não há pastos nem rebanhos,
mas os sinos anunciam a ração da tarde e logo a da manhã.
Um manto rubro, uma serpente, as raias, o homem cabeça e pernas
e as figuras anunciam a novidade do feminino corpo nu:
continuam a passar, obstinados, em fúria, agora com lentidão
eterna, os meses e os anos, tempo e sempre mais tempo. O
peçonhento sangue dos humanos é igual ao sangue dos répteis:
gerações erguem gerações e o homem de negro encerrado no focinho
de urso formigueiro leva o alaúde. O mocho contempla a guerra
da noite e todos escutam impronunciável palavra a coberto de
maravilha: coxos, sem orelhas, órbitas vazias e logo plenas
de cega luminosidade; ninguém, todos experimentam a mente do
santo. A longínqua visão reflecte-se. Na gruta, um Cristo
crucificado assiste os animais e as árvores, o devaneio, as
casas, o derruir da verdadeira e profunda identidade. Fascinado,
estático, possuído pelo entusiasmo, o frade morre no
espelho: entre o seu rosto e o teu rosto inscreve-
-se e logo se rasura a pálida e terna forma de um rosto de
criança: traz guelras no exacto lugar da respiração: talvez
por isso não tenha a coragem da esperança quando
acompanha a barca dourada que se desloca para o sol e
de novo aparece e de novo desaparece —
ave do sonho dentro do sonho.


/Hieronymus Bosch, c.1500/


(de Museu das Janelas Verdes, Relógio d'Água editores, 2002)

7.1.11

ALEXANDRE O'NEILL


AUTOCRÍTICA


Ninguém ma pediu e já não está na moda,
pelo menos aquela pressurosa contrição
feita com cálculo e unção, aquela hipócrita
autoflagelação despudorada,
mas já é tempo (para mim) de deitar contas
ao verso e ao seu reverso, de mostrar a língua
a esse médico de quem tenho um pouco,
para ver como vai o foro íntimo
e, por consequência, o verso público.

*

«Nado e criado em Lisboa...» era um começo
não autocrítico, mas autobiográfico.
Sei muito bem que a biografia
explica muita coisa (até a azia!)
mas para quê esquadrinhar os anos
(joguei berlinde, joguei pião e juro aqui
que nunca o fiz para os americanos!)
à cata da raiz, se o que vivi,
para o mal ou para o bem, está aqui?

«Nado e criado em Lisboa...»: rejeitado por
excessivamente circunloquial.
(Comecemos sem mais delongas, prima,
ó volta e meia prima pobre, rima,
que a questão é simples: a poesia
dum tal…)

*

Dizem que me junqueiro, que me tolentino
o até que me paulino,
que tenho tudo e todos no ouvido
e não sou nada original.

Sim senhores, tem visos de verdade!

Serei eu, meu Deus, um ser reminiscente,
um desses semblantes ante os quais manda a prudência
que se pergunte ao botão antes de mais:
— Onde é que eu já vi este tratante?

*

Se pensar bem, o Junqueiro não me diz lá grande coisa.
O seu anticlericalismo fica-se pela batina;
o seu verso é tribunício e eu gosto da surdina
(ou do simulacro de estentor quando ele ajuda à crítica).
O 5 de Outubro já veio e já se foi,
mas não é a lata-de-trovões junqueiriana
que estamos a pedir na circunstância épica
que se aprò... que se aprò... que se aproxima.

Liguei sempre ao Junqueiro (sei porquê)
a conversa de advogado e a conversa de barbeiro.

Um tio advogado recitou-mo quando eu tinha treze anos
e não era mudo e só na rocha de granito;
um barbeiro anarquista, que me fazia a barba
com a estropiada mão bombista,
impingia-me «A Lágrima», mas só ele é que se comovia
com aquela aguadilha que tremia
e ainda hoje deve tremer, tremeluzir
em certas almas litográficas, singelas.

Depois vi o Sérgio desmontar
as peças duma máquina que nem sequer havia
e perdi o Junqueiro de vista.

Será que eu me junqueiro? Pode ser,
já que tenho comido, sem saber,
de muita alpista...

Quanto a esse Tolentino, esse faceto,
devo dizer que nada lhe roubei
mas que podia ser seu neto.

Como neto podia muito bem
ser de Paulino, desse abade
que com certeza me arranjaria mãe.
(Continua o desfile, ó prima, já que a prosa
vai bonita a pretexto de autocrítica...)

*

Cesário diz-me muito: gostava de ferramentas, como eu,
e vê-se que para ele o ser feliz
era lançar, originais e exactos, os seus alexandrinos,
empunhar ferramental honesto
cuja eficácia ele sabia que
não vinha da beleza, mas da perfeita
adequação.
Não tem halo, tem elo e o seu encadeado
é o verso habilmente proseado.
(Que feliz eu seria, ó prima, se o Cesário
me tivesse deixado uma garlopa!)
António Nobre, embora seja muito em inho,
é o grande Só que somos nós,
por isso gosto dele (ai de mim, coitadinho!)
(E em conclusão do megalómano discurso.
ó prima, um bilhete-postal para o Pessoa.
a quem devemos todos tanto, a prima inclusive!)
Muito querido Pessoa, saberias agora
que não basta ser lúcido, merda, que não basta
a gente coser-se com as paredes
e cercar de grandes muros quem se sonha,
que não basta dizer basta de provincianos!

*

Bem sei que tenho sido, não poucas vezes, derrotado pela pressa,
que me espojo na anedota ou a embalo
na folha-de-flandres da conversa,
bem sei que muitos dos meus versos
nem para atacadores.
Sei que não se deve, que não é táctico cuspinhar contra o vento,
que logo, a jusante, um sujeito nos berra:
— Ó cavalheiro sua besta e se faz obséquio fosses cuspir na tua irmã!
Sei que não é bonito jogar ao chinquilho nos salões,
onde há tocheiros, santos, meninada, abstracções, tias
que a minha malha pode ofender, partir.
Sei que o sal das palavras
vai saraivar, às vezes, carne viva.
Sei que a rapariga que vem forrar os cantos
onde os homens se juntam, magote de pexotes,
com a sua esquivança de felino,
não aguenta a palavra com que eu lhe pego na palavra
e à queima-roupa lhe atiro.

*

A poesia é a vida? Pois claro!
Conforme a vida que se tem o verso vem
— e se a vida é vidinha, já não há poesia
que resista. O mais é literatura,
libertinura, pegas no paleio;
o mais é isto: o tolo dum poeta
a beber, dia a dia, a bica preta,
convencido de si, do seu recheio...
A poesia é a vida? Pois claro!
Embora custe caro, muito caro,
e a morte se meta de permeio.

*

De permeio, a morte? Sim, a arrenegada,
venha rebuçada ou escancarada,
a que te ceifa inteiro ou se deita, primeiro,
de esperanças, na tua lástima de cama.

De permeio, pois pois, que isso de morrer
não faz parte de nenhum programa.

E podia fazer?


(de Feira Cabisbaixa, 1965)



RUI KNOPFLI


CONTRIÇÃO

a pretexto de uma mulher de Portinari
que lembra Picasso (ou Antonello?)

Meus versos já têm o seu detractor sistemático:
uma misoginia desocupada entretém os ócios
compridos, meticulosamente debruçada sobre
a letra indecisa de meus versos.
Em vigília atenta cruza o périplo das noites
de olhos perdidos na brancura manchada do papel,
progredindo com infalível pontaria
na pista das palavras e seus modelos.

Aqui se detecta Manuel Bandeira e além
Carlos Drummond de Andrade também
brasileiro. Esta palavra vida
foi roubada a Manuel da Fonseca
(ou foi o russo Vladimir Maiacovsky
quem a gritou primeiro?). Esta,
cardo, é Torga indubitável, e
se Deus Omnipresente se pressente,
num verso só que seja, é um Deus
em segunda trindade, colhido no Régio
dos anos trinta. Se me permito uma blague,
provável é que a tenha decalcado em O'Neill
(Alexandre), ou até num Brecht
mais longínquo. Aquele repicar de sinos
pelo Natal é de novo Bandeira (Porque não
Augusto Gil, António Nobre, João
de Deus?). Estão-me interditas,
com certos ritmos, certas palavras. Assim,
não devo dizer flor nem fruto,
tão-pouco utilizar este ou aquele nome próprio,
e ainda certas formas da linguagem comum,
desde o adeus português (surrealista)
ao obrigatório bom-dia! (neo-realista).
Escrevendo-o quantos poetas, sem o saber,
mo interditavam apenas a mim; a mim, perplexo
e interrogativo, perguntando-me, desolado:
— E agora, José?, isto é, — E agora, Rui?

Felizmente, é pouco lido o detractor de meus versos,
senão saberia que também furto em Vinícius,
Eliot, Robert Lowell, Wilfred Owen
e Dylan Thomas. No grego Kavafi,
no chinês Po-Chu-I, no turco
Pir Sultan Abdal, no alemão
Gunter Eich, no russo André Vozenesensky
e numa boa mancheia de franceses. Que desde
a Pedra Filosofal arrecado em Jorge de Sena.
Que subtraio de Alberto de Lacerda
e pilho em Herberto Hélder e que
— quando lá chego e sempre que posso —
furto ao velho Camões. Que, em suma,
roubando aos ricos para dar a este pobre,
sou o Robin Hood dos Parnasos e das Pasárgadas.

Mas bastando-lhe o pouco que sabe de meus delitos,
e sem esse tanto que ignora, o detractor de meus versos.
relata circunstanciadamente e com detalhes perversos,
a feia história de meus feios actos.
A distracção de grupos sonolentos
acorda enfim para o timbre esquisito do meu nome
(Na sombra envenenada se entretece
o primeiro braçado dos louros que hão-de
cingir-me a fronte...). Por isso não quero mal
ao detractor de meus versos. Antes lhe quero
bem. Pela teimosa persistência do seu trabalho
vigilante é afinal um detractor amoroso,
o sistemático detractor de meus versos.


(de Mangas Verdes com Sal, 1969)

5.1.11

MALANGATANA


Cântico dos cânticos, 1997
34x33,5 cm
Técnica mista



RUI ALMEIDA



ALGUMA IMAGENS TIRADAS DE MALANGATANA


Ventres e olhos de dor
Na África da alegria
Sexos devorantes
Prazer isolado

Há uma tristeza a chegar ao fim
Uma esperança que não se vê
Senão na força de continuar a olhar.

31/10/1999

3.1.11

PABLO NERUDA


NÃO HÁ ESQUECIMENTO

(SONATA)

Se me perguntais onde estive,
devo dizer «Acontece».
Devo falar do chão que as pedras escurecem,
do rio que permanecendo se destrói:
não sei senão as coisas que os pássaros perdem,
o mar que ficou para trás ou minha irmã chorando.
Porquê tantas regiões, porquê um dia
se junta a outro dia? Porquê uma negra noite
se acumula na boca? Porquê mortos?
Se me perguntais de onde venho, tenho que conversar com coisas gastas,
com utensílios demasiado amargos,
com grandes animais muitas vezes já podres
e com meu angustiado coração.

Não são as lembranças que se atravessaram,
nem é a pomba amarelenta que no esquecimento dorme,
mas sim faces com lágrimas,
dedos na garganta, e o que se desmorona das folhas:
a escuridão de um dia decorrido,
de um dia alimentado com o nosso triste sangue.

Eis aqui violetas, andorinhas,
tudo o que nos agrada e aparece
nos doces cartões de visita de longa cauda
onde passeiam o tempo e a doçura.
Mas não penetremos para além desses dentes,
não mordamos as cascas que o silêncio acumula,
pois não sei que responder:
há tantos mortos,
e tantos molhes que o sol rubro partia,
e tantas cabeças que batem nos navios,
e tantas mãos que encerraram já beijos,
e tantas coisas que desejo esquecer.


(tradução de José Bento, in Antologia de Pablo Neruda, editorial INOVA, 1973 - original de Residencia en la tierra, 1933)

30.12.10

FERNANDO LEMOS


Ambições
não tenho
mas alguém corre sòzinho
nos meus sonhos

amargo medíocre
esta mensagem
torpedos
que alcanço
garantias não tenho
mas alguém
se encontra sòzinho
nos meus sonhos

e é tudo


(de Teclado Universal e outros poemas, 1953; in Cá & Lá, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1985 - Biblioteca de Autores Portugueses)

27.12.10

GRAÇA MORAIS

A Festa da Abundância I, 2005(?)
120x160 cm
Carvão e pastel sobre papel
Centro de Arte - Colecção Manuel de Brito, Algés

A Festa da Abundância II, 2005(?)
Carvão e pastel sobre papel
160x120 cm
Centro de Arte - Colecção Manuel de Brito, Algés



RUI ALMEIDA


A Festa da Abundância (díptico de Graça Morais)


[cf. Mt 6, 26 e Lc 12, 24]

Olhai as gaivotas que se alimentam
Dos restos da fast-food e dos detritos,
Olhai-as na sua avidez,
Apartando-se umas às outras,
Ferindo-se entre si,
Para acumular mais do que podem conter
Em seus escassos corpos.

E contudo,
Não ocupam altos cargos
Em conselhos de administração
Ou direcções partidárias,
Nem traficam influências
Nos corredores da hipocrisia.

Porventura sereis vós menos do que elas?


(in Nada Onde Pousar o Sonho, coordenação e edição de João Tomaz Parreira, Desafio Miqueias, 2010)

Foi lançada recentemente a antologia poética Nada onde pousar o sonho, com edição de João Tomaz Parreira. Esta obra conta, além de um texto de Fernando Pessoa, com poemas inéditos do próprio coordenador e de Clélia Mendes, Brissos Lino, Lurdes Saramago Chappell, João de Mancelos, Júlia Lemos, Rui Almeida, Rui Miguel Duarte, Florbela Ribeiro, Helena Branco e João Pedro Martins.
Os autores, que o prefaciador Rui Miguel Duarte apresenta como «poetas e cidadãos que não entendem as injustiças nem se resignam com uma sociedade e com um mundo liberal, de poderes políticos e económicos antropófagos», ofereceram os seus direitos sobre os textos deste livro, cuja venda reverte a favor do Projecto Miqueias.

O livro pode ser adquirido através de pedido para: desafio.miqueias@gmail.com com indicação do nome e morada para envio.

O Desafio MIQUEIAS é uma campanha internacional para mobilizar os cristãos a favor das comunidades pobres e socialmente excluídas e para influenciar os líderes das nações a cumprir as promessas públicas, de forma a alcançar os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio e reduzir a pobreza extrema para metade até 2015.

20.12.10

[ao cuidado do Professor Cavaco]

PAI AMÉRICO

ERA de uma vez num hotel de categoria, em certo lugar da nossa Pátria muito amada. Corria o verão. Na terra havia mais hotéis; muitos hotéis, todos povoados – muito que falar e pouco que fazer. Nestes sítios a que chamam termas, o que mais custa é matar o tempo. Já assim era com os romanos. Lança-se mão de tudo. Cada dia vem com seu programa e todos com infinitos números. Eis um. Naquele hotel e naquele dia foi assim.

Um grupo de senhoras da nossa melhor sociedade, como a Imprensa costuma pôr e elas gostam, levanta-se e vai em roda colher donativos, para um almoço aos farrapõezitos da localidade. Contaram o dinheiro, hilariantes e entregaram à Gerência, com instruções do almoço. No dia seguinte aparece o aviso pregado no lugar deles, a comunicar que as Ex.mas Senhoras Donas Fulana, Sicrana e Beltrana, não se pouparam a trabalhos e que vão oferecer hoje, às tantas, um almoço a doze crianças pobrezinhas. Tudo está à espera. Imediatamente após o serviço dos hóspedes, a Gerência manda armar a mesa em uma sala do dito hotel com quatro janelas para a rua, escancaradas, para que se veja bem. A mesa apresenta-se com tudo; absolutamente tudo quanto diz respeito a um almoço de circunstância. Estão doze talheres. Um terceto, coloca-se em posição. Os criados aprumam-se. As pequeninas vítimas entram na sala. Vai começar o sacrifício. A seguir à sopa vem o primeiro prato, vem o segundo, vem sobremesa; – tormentos que as crianças não merecem a ninguém. Elas não saboreiam. Não sabem estar. Nada lhes aproveita. É um triste suplício, como os pequeninos semblantes dizem.

A sinfonia toca. Os creados rodopiam. As senhoras da comissão miram-se, extasiadas; e dezenas de outros farrapõezitos do lugar, que não foram convidados, espreitam pelas janelas, em bicos-de-pé, esfaimados!

Terminou. Os pequeninos torturados estão amarrados às cadeiras, cada um à sua, até passar a hora dos discursos. Em regra, as senhoras destas comissões, levam muito a mal que não se lhes diga nada, e um senhor da assistência exaltou o acto.

Novo aviso elucidou os hóspedes de quanto se houvera gasto e assim acabou o dia ao qual, no meu entender, não se pode chamar perfeito. Ora muito bem. Estamos em frente de uma das inúmeras paradas de caridade que os olhos dos nossos tempos andam afeitos a ver, e ninguém dá fé do mal que se pratica no mundo, com esta espécie de bem-fazer.

Nenhum de entre a assistência era analfabeto; tudo gente de certa responsabilidade. Mais. O senhor do discurso foi, até, buscar à doutrina de S. Paulo dois pontos que tratam da esmola e com eles, enalteceu a cerimónia! Ninguém viu o mal.

Tudo fez coro, acharam muito certo.

Eu estava. Assisti a tudo quanto se fez e quanto se disse, dum cantinho da sala, muito triste por me encontrar só; – tão perto e tão distante.

Se me tivessem dado o dinheiro e a liberdade de agir, havia de chamar todas as crianças pobres do povoado – todas, porque todas necessitavam, e dar-lhes uma refeição quente, à maneira do povo, só que um nadinha mais abundante e melhor adubada; – era dia de festa. Havia de os colocar em sítio onde estivessem absolutamente livres; comentassem a seu modo o sabor do caldo e do pão; falassem uns para os outros; rissem a bandeiras despregadas, pois seria verdadeiramente uma festa deles e não festança dos mais.

Havia de mandar os criados mai-la sinfonia para os seus respectivos lugares, que ele não há no mundo música mais bela do que a feita com as notas alegres da criança pobre, diante dum prato de sopa quente, servido com muito amor. Assim havia de fazer. Mais. Enquanto perguntasse a cada um o nome que tem, havia de perguntar ao mundo do nosso tempo, quando é que chega a hora em que cada criança tenha dentro da sua casa e em cima da sua lareira, uma tijela de caldo e um bocado de pão. Então, sim, poderíamos fazer festas, que a Caridade folga com a justiça, como ensina a verdade eterna.

Salvo melhor opinião dos mestres, afigura-se-me que não se devia jamais mostrar à criança pobre um mundo a que não poderá honestamente chegar, nem possuir. As orgias desmoralizam; são fontes de revolta e fazem revoltados. Fica-nos bem ser pobres e ensinar a criança a amar e a respeitar o seu estado de pobreza, não venha ela amanhã a cair na miséria e a fazer um mundo de miseráveis.


(de Doutrina, gráficas da Casa do Gaiato, 1956)