29.3.11

MARTA CHAVES


Esta cidade está repleta de pequenos raptos,
de andaimes suspensos no tempo da minha memória.

Nisto,
refaço-me de altíssimas quedas
com um esgar que me mantém refém
do vício.

desta violência de trazer o teu nome nos lábios,
como um sorriso em que me desfaço.


(de onde não estou tu não existes, tea for one, 2009)

15.3.11

Na morte de um Técnico

Em 1987 eu tinha 15 anos e havia uma rádio que emitia aqui da rua, duma vivenda a 50 metros daqui. Era a Rádio Gente Boa (RGB), uma “rádio livre” (variante de “rádio pirata”, expressão mais agressiva), que eu ouvia sistematicamente e em cujos passatempos participava com frequência. Foi para ir buscar o prémio de um desses passatempos que lá entrei uma vez, num sábado de manhã. Só lá estava uma pessoa, a exercer as funções de locutor, técnico, porteiro e o mais que fosse preciso. Sem estar nada combinado, entrevistou-me sobre os temas da actualidade, improvisando um programa que não estava previsto. Estando eu de saída, ele olhou pela janela e viu um rebanho de ovelhas a passar, conduzido por um velho homem de costas vergadas e segurando um cajado (sim, aqui, a poucos quilómetros de Lisboa, em 1987, ainda havia ovelhas e pastores) e não hesitou: pôs no gira-discos um LP daqueles que dava para ficar a tocar meia hora e saiu disparado, de gravador na mão, para entrevistar o pastor.
Este Homem da Rádio chamava-se Jorge Pena e morreu hoje.
Passados uns meses, já em 1988, ano do centenário de Fernando Pessoa, é através da voz do Jorge Pena (já numa outra rádio – Rádio Clube Atlântico – também aqui perto) que dou por mim fascinado, a ouvir um dos vários programas que ele fez para assinalar a efeméride, com as suas leituras dos poemas daquele Poeta. Assim, mais do que os livros escolares, as antologias ou os extensos estudos sobre a sua vida e obra, foi a Rádio que me deu a conhecer Fernando Pessoa (disse-o aqui, já).
Tempos depois, passei de ouvinte a colaborador da rádio e pude comentar esse fascínio com o Jorge, mas num breve encontro, pois ele já estava praticamente a tempo inteiro, como técnico, na TSF, que também ainda não tinha o famoso “alvará de emissão”. A minha experiência na rádio acabou pouco depois e nunca mais o vi. Fui sabendo vagamente que continuava pela TSF. Agora, com a notícia da sua morte, fico a saber que era o chefe do departamento técnico e o mais antigo dos técnicos daquela rádio.

Pode parecer estranho, mas de todas as vezes (e são frequentes) que me lembro do poema Lisbon Revisited (1923), de Álvaro de Campos, não consigo dissociá-lo da voz do Jorge Pena:

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica,
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

12.3.11

KAWABATA BÓSHA


Ali nada senão
O torvelinho de um feto:
Este mundo flutuante.


(tradução de José Alberto Oliveira, in Rosa do Mundo - 2001 poemas para o futuro, Assírio & Alvim, 2001)

11.3.11

DANIEL MAIA-PINTO RODRIGUES


ASSIM VOASSEM


Dizemos às vezes
devagar sobre as pedras
enquanto o musgo alastra
rápido pelos troncos

Assim voassem aves
quando por fim março
abrisse suas portas ao vento

Assim às nuvens
árvores erguessem o verde
Grandes ramos sorvendo o sol


(de Conhecedor de Ventos, 1987)

8.3.11

[no aniversário do seu nascimento]

JOSÉ BLANC DE PORTUGAL


Teoria da incomunicação


Incomunicável me levaram de menino
De casa em casa na casa de meus pais
De terra em terra às casas do Destino
Onde entrando não saímos mais.
Incomunicável a letra dos jornais
Notícias que não me falavam
Do que eu tinha de dizer a esses tais
Que tão cedo de mim me apartavam.
Incomunicável sem culpa formada
Mas já réu de ignotas faltas
A vida era-me adiada
Num hospital onde não dão altas.
Incomunicável à proposta de espera
Nunca a pude igualar a sorte
Esta é agora, e os logos a passar
Eram-me o primeiro ver da morte.
Incomunicável o mudar instante
Incomunicável a transformação
Incomunicável perto e distante
Incomunicável vida e coração
Incomunicável o chorar ou rir
Porque comunicar, eu o sabia,
Não é o mesmo que reproduzir.

II

Incomunicável a esperança que em mim puseram
Os que me quiseram como eu não sou nem era.
Incomunicável o meu querer que eles pudessem
Ver o que quisessem no que eu ia, sendo.
Incomunicável o eu querer agradecer
A única coisa que eu sei fazer:
A injustiça por excesso que posso devolver
Descontadas as custas do processo
Mesmo sem o querer.
Incomunicável o meu amor por tudo
Como podem sequer pensar que ele existe?
Eis-me, cristal impuro e mudo,
Incomunicável, inutilmente triste.

III

Incomunicável... Como? E se o não fosse:
Para quê falar comigo ou com alguém
Se a resposta é sempre a demonstrar
Que me falta toda e qualquer razão
Seja o que pretendo mal ou bem?
Fale de fogo, água, terra ou mar,
Todos me dizem que o meu sim é não,
Todos me falam em pedir sem dar,
Todos propõem sem nada aceitar,
Todos pretendem a si igualar
O que por ser alheio a quem nos escuta
Nem sequer se pode misturar...?
Porquê falar?
Para quê esta aparente luta
Em que o desafio é sempre do vencido
E a vitória do protector
Que julga bem merecido
Tudo que lhe diz seu interlocutor
E nunca sente como própria dor
O que por si não pode ser sentido
E dele faz o justo vencedor
Que nem sequer tenta pesar
Quanto mais comprar o oferecido...?
Para quê falar?
Para quê, ainda, confessar a este papel
O que não é entendido por ninguém?
Para quê, se todo o mal ou bem
É de um só,
De alguém que nada de amável
Tem para ceder do que sentiu
E nem sequer pediu por estar no mundo e vê-lo,
Mas
____sempre
__________inadiàvelmente
______________________incomunicável.


(in Colóquio Letras, número 9 / Setembro de 1972)

7.3.11

CEES NOOTEBOOM


[...] O professor de Neerlandês, bom, se alguém quisesse caricaturar esse tipo humano, podia tomá-lo como modelo. Ensinar aos alunos uma língua que já conheciam desde o útero, perverter a pululação selvagem dessa língua com o matraquear fastidioso de números ordinais, formas duplas de plural, verbos de partículas separáveis, atributos ou locuções preposicionais, ainda se aceita, mas ter o aspecto dum escalope mal passado e falar de poesia, isso é ir longe de mais. E ele não se limitava a falar de poesia, escrevia também poemas. De dois em dois ou de três em três anos saía uma colectânea minúscula das notícias da morna província da sua alma, versos desdentados, comboios de palavras à deriva no branco das páginas. Se acaso viessem a colidir com um só verso de Horácio desintegrar-se-iam sem deixar rasto.


(excerto de A História Seguinte, tradução de Ana Maria Carvalho, Quetzal editores, 1993)

6.3.11

PEDRO TAMEN


17. AINDA ELE:

Não, não sou bom nem sou mau,
apenas estendo as mãos no negro
futuro talvez inexistente
e só a ti encontro,
numa luz súbita e plena
que afinal nada prenuncia.

E sento-me então no fosco adereço
que não sei quem aqui me dedicou
e olho ao longe o nada desta noite
que um dia, sabes, acabará sem mim.


(de Um Teatro às Escuras, publicações Dom Quixote, 2011)

5.3.11

J. M. G. LE CLÉZIO


[…]
Beleza viva, beleza que existe por si mesma, sem ter de ser reconhecida, exibida, vendida; chega, natural, semelhante à linguagem, da profundidade maior do tempo, sem que seja preciso mudar-lhe um só fragmento. Depois, do outro lado do tempo vai, no centro do próprio porvir, inalterável beleza que é a única liberdade humana.
Basta de arte, basta de expressões individuais! Mas sim: estar unidos, e em conjunto saber ler.
As proezas da ciência, as proezas da linguagem, as proezas dos conquistadores: tudo sem dúvida falsas vitórias, visto não saberem senão subjugar os que as realizam. Os heróis não triunfam, são vítimas das suas próprias palavras.
Mas os que não são heróis, os índios: vivem, assim, cada qual em seu lado, não inventam nada. Não querem conquistar o mundo, não pretendem persuadir as multidões. Não querem dominar com as suas palavras, com as suas vozes. Instintivamente, o homem índio elimina tudo o que o separe, tudo o que o pudesse tornar superior. Não lhe importa a análise, a história, a missão. Encontra-se de imediato no interior do mundo, no centro da vida. Não precisa seguramente de livros, nem de quadros – todo o homem é um livro, é um quadro. A perfeição, a lógica, as ideias novas, isso que é? O índio leva na pele, à sua volta, nos signos quotidianos, a expressão da beleza, a liberdade.
É isso o que dizem os índios, e não queremos ouvi-los: TODA A GENTE É INTELIGENTE.

(excerto de Índio Branco, tradução de Júlio Henriques, Fenda edições, 1989 – Títulos do Tesouro)
MARIA REGINA LOURO / MIGUEL SERRAS PEREIRA


ENDEREÇO E ENVIO

Não, que se desiludam os pregoeiros e arautos da necessidade como prova ou regra, não escrevemos ou lemos por nos ser impossível fazer outra coisa, tal como também não é em lugar de outra coisa, na ausência ou à falta de melhor que lemos já mais livros do que lembramos ainda, ou escrevemos agora estas páginas.
As necessidades da sobrevivência são poucas e as poucas que podemos enumerar ainda duvidosas: não têm história nem explicam nada, como haviam de ser pedra de lei dos nossos destinos?
Pelo contrário, os desejos são muitos e múltipla a singularidade de cada um. Se, para além da sobrevivência, temos necessidade de alguma coisa é do desnecessário ou, dito afirmativamente, desse supérfluo ou excesso, desse cultivo apaixonado dos detalhes, dessa arte de não deixar que grande coisa alguma seja tudo, que foram postos à conta da futilidade das mulheres (e tanto mais quanto menos sérias as julgaram), no rol das condenáveis mas, apesar de todas as opressões, inextinguíveis «preocupações» femininas.
É por e para novas bárbaras, para as e os que as topam, que escrevemos se o fazemos também para alguém. Os que leiam por obediência ou por saber a que lei obedecer não têm falta de códigos e outros «livros em geral» para digerir e assimilar, e que os assimilem ou integrem nesta ou naquela facção dominante do Império. Por uma vez, tomando o ar um pouco teatral de quem se lhes dirige, gostaríamos de pedir-lhes que neste simulacro de livro não procurem regras de equivalência nem artigos de código: o que escrevemos não é sério, não tem «fim da História» nem programa de governo. O aviso está feito.
Mais delicado, porém, quereríamos que fosse o explicitar da trémula ousadia que nos leva agora a dizer inconfessável o quanto, ao longo destas páginas, nos inspirou a imaginação de outras paixões, em relação a nós outras, e a expectativa de por elas – quem? – virmos a ser lidas.


(excerto de Novas Bárbaras, Assírio & Alvim, 1979 – Cadernos Peninsulares / Literatura)

24.1.11

GONÇALO M. TAVARES


CANTO II

94

Bloom passeia em Paris e vê coisas que o fazem pensar
noutras coisas.
Se até os tecidos ricos e a seda se reduzem a combinações
apenas mais estéticas dos nossos bem conhecidos
átomos sujos, para quê o espanto diante de Paris?
E até a catedral, a imponente catedral é, afinal de contas,
uma estaca, como toda a arquitectura,
uma estaca religiosa, bem enterrada no sítio certo, respeitada
e exigindo discursos mansos, mas estaca, sempre,
violentamente enterrada em Paris.

95
Toda a arquitectura é violência, portanto,
pensa Bloom.
Ao contrário dos animais rápidos, como o cavalo,
que não magoam a terra, apenas ganham impulso e avançam.
E há ainda as pedras. Falar em pedras preciosas, sim,
e por que não também em planetas preciosos,
ervas daninhas preciosas ou chimpanzés de luxo?
O que brilha mais de noite? Aquilo a que dás atenção
é o que mais brilha.
Sempre foi assim. E Bloom sabe-o bem.

[...]

106
Sim, é verdade que o comércio meteu a Natureza
em caixas com um preço. Mas tal não é terrível nem
sequer desagradável. Bem pior são certas crianças
que arrancam uma das patas a um sapo que teve o azar
de servir de objecto aos exercícios ingénuos de seres vivos
com seis anos. Entre ser vendida inteira
por comerciantes careiros ou ser fragmentada por crianças
que não sabem o valor do dinheiro, a Natureza
optará sempre pelo pacífico capitalismo.

107
Porque o capitalismo sabe que uma mercadoria
sem uma das patas vale menos:
por isso não arranca patas ou orelhas,
ou cabeças inteiras, à dentada. Mas se valesse mais até arrancavam
uma das patas da Torre Eiffel — exclamou Jean M.
Não te iludas com monumentos nem com cerimónias.
A estética terminou. Ficou o dinheiro.
Os homens são génios do bem para o ouro,
génios do mal para a paisagem.


(de Uma Viagem à Índia, editorial Caminho, 2010)

23.1.11

ANTÓNIO BARAHONA


COMENTÁRIO ALCORÂNICO


Quanto aos poetas, os que erram seguem-nos.
Não tens visto como eles vagueiam pelos vales
E como dizem isso que não praticam?


Alcorão

Vagueio pelos vales a falar sozinho:
não me lavo, não rezo, não me lembro
de Deus: apenas fumo o meu cachimbo
e saboreio Deus que sabe a fumo

Devagaroso a falar à pressa deliro
e digo o que não faço e faço o que não digo,
contraditório, incoerente, obsessivo,
mas verdadeiro eco de mim próprio

Que Deus me dê a força da fraqueza
que verga mas não quebra e endireita
mais dúctil do que a vara mais fibrosa

Que Deus me dê os vales mais obscuros,
lá onde a vista alcança só beleza
ao fundo da paisagem dos teus olhos

Lx., 20.VIII.85

(de Noite do meu inverno, ΙΧΘΥΣ, 2001)
[exemplo a servir de singela manifestação de simpatia para com o Henrique e os editores da Língua Morta, extensível a todos os outros que por aí vão editando como podem, gostam e muito bem lhes apetece]


(excerto do elenco bibliográfico de António Barahona, in Noite do meu inverno, ΙΧΘΥΣ, 2001)

19.1.11

JOSÉ NEWTON ALVES DE SOUSA


Se é a poesia, mais do que um impulso vocacional, uma capacidade que luta por realizar-se expressionalmente, refletindo ora o sujeito, ora o objeto, ou a ação, compreende-se que, antes de tomar forma externa, lírica, épica, satírica ou dramática, já é poesia, mas poesia em procura, poesia transitiva em relação a uma forma, buscada, que será, depois, re-buscada, entendendo-se êste último têrmo, não só no sentido de nova procura, mas também no de aprimoramento formal.
Antes de alguém parir seus poemas, já os viveu e reviveu, já lhes comunicou marca e pessoalidade inconfundíveis, de tal maneira que ninguém mais no mundo será capaz de os reviver e os recriar na mesma medida, no mesmo grau afetivo e na mesma plenitude do verdadeiro autor.
Essa pessoalidade essencial é que faz legítimo o poema, tornando-o irreproduzível, o que não significa inimitável, e único, o que não quer dizer não passível de semelhança com outro.
A poesia, em estado inicial, isto é, a poesia latente ainda, com relação aos outros, mas atualizada, com relação ao autor, já se denuncia pela vida, pelo gesto, pelo ser existencial do poeta, antes que êste a exprima em versos.
O tempo do nascimento do poema nem sempre coincide com o de sua concepção. Nem todo poeta tem pressa de revelar aos outros o que já é síntese de beleza e sofrimento em sua alma. Há, entretanto, uma poesia como que impulsiva, que se não contém pacientemente dentro, mas força uma saída, rompe a película do repouso, para ser corpo exterior atuante.
[…]


(excerto inicial da conferência Considerações sôbre a Poesia de António Gedeão, Centro de Estudos Portugueses, da Faculdade de Filosofia do Crato, 1969)

18.1.11

JOSÉ AGUSTÍN GOYTISOLO


y hoy
te consume
el tédio

Como una nube turbia corrompiéndose
en lentas gotas de barro o de melancolia
como una lluvia antigua
que empapa hasta a los muertos más mezquinos
así el tédio resbala por los muros
forma charcos groseros en las calles
penetra en las iglesias y en los cines
y se filtra en las casas con su olor a desastre.
Un aire de fastidio y de humedad entonces
se apodera de gestos y palabras
se cuelga de los trajes
preside los encuentros de família
viaja en los sucios autobuses
y envuelve la tristísima cíudad desconfiada.
Ah testigo implacable de las horas vacías
aburrimiento enorme que no ocultan
ni la música ambígua de las salas de fiesta
ni el clamor dei estádio
ni el tintineo y charla de las mesas de bar.
Y en médio de una edad de hastío y podredumbre
de espera y rabia oculta
tan solo algunos ninos se divierten
jugando a destruirse por buhardillas de sueno
mientras que afuera sigue
esa lluvia cayendo desconsoladamente
sobre la piel de un mundo en bancarrota.


(de Taller de Arquitectura, 1977)


e hoje
consome-te

o tédio


Como uma nuvem turva a corromper-se
em lentas gotas de barro ou de melancolia
como uma chuva antiga
que ensopa até os mortos mais mesquinhos
assim o tédio escorre pelos muros
forma charcos grosseiros nas ruas
penetra nas igrejas e nos cinemas
e se infiltra nas casas com seu odor a desastre.
Um sopro de náusea e de humidade então
apodera-se de gestos e palavras
suspende-se das roupas
preside aos encontros de família
viaja nos autocarros sujos
e envolve a tristíssima cidade desconfiada.
Ah testemunho implacável das horas vazias
enfado enorme que não é ocultado
nem pela música ambígua dos salões de festas
nem pelo clamor do estádio
nem pelo tilintar e conversa das mesas dos bares.
E a meio de uma idade de fastio e podridão
de espera e raiva oculta
apenas algumas crianças se divertem
brincando a destruir-se em recantos de sonho
enquanto lá fora continua
aquela chuva que cai desconsoladamente
sobre a pele de um mundo em bancarrota.


(tradução minha)

17.1.11

HIERONYMUS BOSCH


Tentações de Santo Antão, c. 1500
Óleo sobre madeira de carvalho
131,5x53 cm / 131,5x119 cm / 131,5x53 cm
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa



JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE


TENTAÇÕES DE SANTO ANTÃO


Lá está o peixe de espada à cinta e o grande fogo em noite
de natal. O capitão da barca voa altos céus e o ovo deu à
luz o pranto das Eríneas. Tudo o que quisermos está aqui: a
virgem cavalgando uma árvore num céu gelado, manto azul,
mãos orantes, segue-a a gadanha da morte e a ave e outra ave
e os peixes e outro peixe. O facho aceso aquece a paisagem,
o descalabro da vida e o humano, de tão humano o quero, diz
em voz baixa o timoneiro enquanto passa sob a neblina.
Sob o som de pesadas botas ninguém, alguém anuncia a mesa
posta: frutos silvestres, pedaços, pedacinhos de ferro: o
grande diospiro abre sob o comando do símio: mendigos,
desejos obsessivos, pequenos monstros desembarcam em murmúrio.
Dias inteiros, séculos ergueram da água baixa e pútrida altas
torres. Perdeu-se de esmolas a cidade e o monge reza, meio-
-louco, fantasiador. Nos campos não há pastos nem rebanhos,
mas os sinos anunciam a ração da tarde e logo a da manhã.
Um manto rubro, uma serpente, as raias, o homem cabeça e pernas
e as figuras anunciam a novidade do feminino corpo nu:
continuam a passar, obstinados, em fúria, agora com lentidão
eterna, os meses e os anos, tempo e sempre mais tempo. O
peçonhento sangue dos humanos é igual ao sangue dos répteis:
gerações erguem gerações e o homem de negro encerrado no focinho
de urso formigueiro leva o alaúde. O mocho contempla a guerra
da noite e todos escutam impronunciável palavra a coberto de
maravilha: coxos, sem orelhas, órbitas vazias e logo plenas
de cega luminosidade; ninguém, todos experimentam a mente do
santo. A longínqua visão reflecte-se. Na gruta, um Cristo
crucificado assiste os animais e as árvores, o devaneio, as
casas, o derruir da verdadeira e profunda identidade. Fascinado,
estático, possuído pelo entusiasmo, o frade morre no
espelho: entre o seu rosto e o teu rosto inscreve-
-se e logo se rasura a pálida e terna forma de um rosto de
criança: traz guelras no exacto lugar da respiração: talvez
por isso não tenha a coragem da esperança quando
acompanha a barca dourada que se desloca para o sol e
de novo aparece e de novo desaparece —
ave do sonho dentro do sonho.


/Hieronymus Bosch, c.1500/


(de Museu das Janelas Verdes, Relógio d'Água editores, 2002)