15.5.11

[para uma antologia de bicicletas – 18]

JOSÉ MIGUEL SILVA


EM LUCCA, AS BICICLETAS


Mimados animais de estimação,
em Portugal os automóveis são felizes,
agradecem, quase incrédulos, a sorte
de lhes terem ofertado em passerelle
o mais honroso dos cenários e desfilam
como príncipes de crómio pelas ruas
desertadas de nocivos habitantes.

Aqui sentir-se-iam humilhados
pela ordem de ceder ao musculoso
bipedismo de pessoas a passagem
ou, pior, à irritante placidez
das bicicletas, traquitanas que lograram,
por estranho que pareça, conquistar
a simpatia dos estúpidos humanos
que povoam (é incrível!) a cidade.

Cruelmente desprezados, racionados
como párias, em Lucca os automóveis
não encontram um passeio onde encostar
a fatigada suspensão, uma sombrinha
de jardim, uma oficina, o refrigério
combustível de um amigo que socorra
a sua sede de viver rapidamente.


(de Erros Individuais, Relógio d'Água, 2010)

14.5.11

JEAN ROCHER


b) Leitura horizontal.

[…]

Um vocábulo pode desaparecer num momento dado, definitivamente (fome, depois de Nicolau Tolentino de Almeida; leito, depois de Antó­nio Nobre; mágoa, depois de Guerra Junqueiro; mal, depois de Bocage; pé, depois de Cesário Verde), ou provisoriamente, para reaparecer em seguida. Vamos indicar o vocábulo, o nome do poeta depois do qual ele desaparece e enfim, o nome do poeta a partir do qual ele reaparece: boca: Camões - António Nobre; braço: Rodrigues Lobo - João de Deus; campo: Manuel de Melo - Cesário Verde; carne: Camões - António Nobre; corpo: Correia Garção - Camilo Pessanha; lágrima: Camões - Garrett... Porquê este eclipse? Outros textos não conteriam estas palavras? Não as teriam utilizado outros poetas neste lapso de tempo? Enfim, uma palavra pode aparecer mais tardiamente do que se teria pensado: ânsia, a partir de António Nobre; árvore, a partir de Gomes Leal; astro, a partir de Antero de Quental; aurora, a partir de João de Deus; aventura, a partir de Teixeira de Pascoais; beijo, a partir de Guerra Junqueiro; cidade, a partir de Gomes Leal; criado, a partir de António Nobre; encanto e espaço, a partir de João de Deus; espelho, a partir de Gomes Leal; fumo, a partir de Teixeira de Pascoais; hora, a partir de Nicolau Tolentino de Almeida; idade, a partir de Teixeira de Pascoais; lar, a partir de Gomes Leal; lua, a partir de Garrett; menino, a partir de Guerra Junqueiro; mulher, a partir de João de Deus; ninho, a partir de Gomes Leal; olhar, a partir de Antero de Quental; pecado, a partir de João de Deus; punhal e quarto, a partir de Gomes Leal; seio, solidão e tris­teza, a partir de Antero de Quental; sonho, que nunca mais tinha sido reempregado depois de Camões, reaparece em Gomes Leal, como saudade que encontramos somente em Camões e Nicolau Tolentino de Almeida, mas que começa então uma nova carreira ... Talvez seja preciso rever muitas ideias recebidas. Em 26 listas, somente 7 contêm saudade, 6 fado, 7 pranto, 8 lágrima, que só reaparece com o Romantismo... Estas listas não encerram evidentemente senão uma espécie de amostra, mas é um sinal a fixar; e um estudo dos temas por um lado e das palavras prefe­renciais por outro, mostrará que a poesia portuguesa é certamente menos fatalista e menos dolente do que a representam geralmente.

(excerto da Introdução a Sobre o Vocabulário da Poesia Portuguesa, Fundação Calouste Gulbenkian / Centro Cultural Português (Paris), 1975)

13.5.11

JOSÉ AUGUSTO MOURÃO


o anjo e o vitral


venha o teu anjo
que nos trespasse a alma
de palavras novas

venha o teu anjo
como raio que atravessa o vitral
e não o quebra
e o transfigura

venha o teu anjo
extirpar do corpo
o demónio da surdez e do mutismo
que não guarda a alma
nem o seu jardim canoro

não se tornem as palavras que dizemos
lama ou sapos,
mas evangelho,
alegria do mundo

venha o teu anjo
mostrar o túmulo vazio
de onde o Logos corre
e de onde outros corpos sacramentais
se formam

que do interminável léxico das coisas
a nossa voz te diga
e o nosso corpo te bendiga,
pela hora que passa
e o rosto acreditado


(de dizer DEUS ao (des)abrigo do Nome, Difusora Bíblica, 1991)

25.4.11

JOSÉ GOMES FERREIRA


XXVII


(Entro no café de Monte Carlo. Revolução.)

Então aquela mulher desconhecida que me beijou
com boca de sol de punhal
saltou para cima da mesa
e pôs-se a cantar
com uma rosa na mão
onde ainda retine
o cristal
do coração
de Lenine.

«Ouve»... gritou-lhe um companheiro a meu lado...
deita essa flor fora!
«Foi feita em moldes de perfumes burgueses no centro da Terra
com hábitos de lume secular, beleza dirigida pela seiva
de repetição enigmática».

Então, no meio do café,
a mulher pisou a flor burocrática,
despiu-se
e com simplicidade de nudez de bandeira,
veio para a rua,
misteriosa,
entregar-se à multidão
com o destino de tornar mais livre e puro
o sonho de (todas as flores
no futuro.

Depois, ouviu-se um tiro
de propósito para a mulher cair morta.

Morta de tão longa...

Só nos olhos a mesma chama vermelha
que na rosa foi perfume
e agora na respiração do sol
ateia
magicamente no basalto,
uma raiva de pés de lume
que começou a caminhar, sonâmbula e sozinha,
na luta contra o sonho da solidez morta
que nos rodeia.

E agora dêem-nos armas, palavras, gritos, versos, poetas,
navalhas, baionetas
para destruir
esta maldita teia!


(de Maio-Abril 1968-1975, in Poeta Militante - Viagem do Século Vinte em mim - 3º volume, Moraes editores, 1983)

22.4.11

BISTRA TODOROVA



ANTÓNIO BARAHONA


A Cruz precede sempre o Alfabeto,
depois precede sons, vocabulário
A Cruz não tem nenhum sinal contrário
mais forte do que a Luz no som sangrento

Reaprender a ler com novo método:
decalque de Cavalo, ou de Cordeiro
representado humanamente ethéreo
no Licorne, dador de sangue e sopro

Quem só assina de cruz sabe mais
do que escrever seu nome e outros nomes:
sabe que só sabe escrever sínais
do silêncio, que só é som nas preces

A Cruz: eis nosso Livro aberto em quatro
A Cruz precede e fala o Som do Verbo


(ícone e poema de Rosas Brancas e Vermelhas para um rosário jubilar, Paulinas e Ajuda à Igreja que Sofre, 2000)

21.4.11

DANIEL FARIA (sob o pseudónimo Sérgio de Sempre)


A Casa de Deus

I

Longos degraus tem a primavera
E uma mulher que desce dos outeiros

Traz no seu colo um ramo dessa casa
Festiva onde vem desaguar
O rio sagrado deste vento

No soalho o silêncio derramado
Ou o sangue das palavras que caíram
Sob a face de uma voz que não gritou

No altar as mulheres bordam incenso
Celebram as canções com que embalaram
Os filhos O Deus A vida inteira

II

Casa de Deus

Os homens trazem na cintura velhas ânforas
Querem enchê-las de luz e de silêncio
Só há água nessa casa os homens partem
Não virão senão quando for noite

III

Mão sozinha que espera paciente
Como um berço convida a navegar

Um menino que tem velas mais vento
Virá um dia saber como é o mar

IV

Ouvem-se os cavalos já é noite
Os homens vêm vindimar
Os cabelos longos das mulheres
Que vieram orar pela manhã

Corre! - escrevem nas paredes
Os meninos

Corre!

Escrevem em segredo como quem
Rouba flores p'ra levar às mãos de Deus

V

Eis aberto espaço aberto
A sílaba interior de um nome imberbe

Casa de Deus
A casa das crianças que cresceram
Ou a casa das crianças para sempre

Longos degraus tem a primavera
E uma casa
A de Deus no cimo dos outeiros


(in Legenda para uma casa habitada, Paroquia de Santa Marinha de Fornos (Marco de Canavezes), 2000)

18.4.11




JOÃO CANDEIAS


o testemunho dos olhos


esta gargalhada de mulher não existe
na garganta, sementeira de gargalhadas
mortas e de penas de aves migradoras.
pendente a cabeça passa sobre nuvens
e o torvelinho das vozes sufoca à nascença
o gesto ritual entre os vaga-lumes de nicotina.
é de noite: seja dia: tanta noite, tanto dia.
nas horas do néon a loura seara do corpo, o corpo
ágil, o corpo-desejo estreito, haurindo o sumo
das bocas ígneas de lábios sôfregos, circulares
diálogos estriados de paladares e sons, sede
de lábios no recesso da língua viajando
sensitivas eternidades, língua que resguarda
a voz do sono e as armas que sempre sobram
dos sonhos rebeldes.
perturbante humidade, que chove na rua incontida.
a música, pacific 231 de arthur honegger, toca.
as gatas dançam o ritual do cio e há algures
no espaço um sol que acende luas citrinas
e outro que é pela noite consumido.
a mulher desta gargalhada não existe.
afirmaria afinal a ausência do diálogo
em que apenas participam partículas de som
como campânulas iníquas, implosões de bramidos
e a distância (ab)surda de estar nos olhos fixos
no gume das baionetas vitoriosas, nas esquírolas
das palavras que génios-profetas eternizam.
só os olhares, o testemunho dos olhos

(de Ignição Ozone, espiral, 1984)

16.4.11


Cabeça de uma mulher, talvez de uma domina, Séc. II
[encontrada no sítio de Milreu, junto a Estoi]
Museu Nacional de Arqueologia, Lisboa

JORGE DE SENA


CABECINHA ROMANA DE MILREU


Esta cabeça evanescente e aguda,
tão doce no seu ar decapitado,
do Império portentoso nada tem:
nos seus olhos vazios não se cruzam línguas,
na sua boca as legiões não marcham,
na curva do nariz não há povos
que foram massacrados e traídos.
É uma doçura que contempla a vida,
sabendo como, se possível, deve
ao pensamento dar certa loucura,
perdendo um pouco, e por instantes só,
a firme frieza da razão tranquila.
É uma virtude sonhadora: o escravo
que a possuía às horas da tristeza
de haver um corpo, a penetrou jamais
além de onde atingia; e quanto ao esposo,
se acaso a fecundou, não pensou nunca
em desviar sobre el' tão longo olhar.
Viveu, morreu, entre colunas, homens,
prados e rios, sombras e colheitas,
e teatros e vindimas, como deusa.
Apenas o não era: o vasto império
que os deuses todos tornou seus, não tinha
um rosto para os deuses. E os humanos,
para que os deuses fossem, emprestavam
o próprio rosto que perdiam. Esta
cabeça evanescente resistiu:
nem deusa, nem mulher, apenas ciência
de que nada nos livra de nós mesmos.

Araraquara, 12/1/1963

(de Metamorfoses, seguidas de Quatro Sonetos de Afrodite Anadiómena, 1963)



[Milreu, 10 de Abril de 2011]


[Estoi, Rua da Barroca, 10 de Abril de 2011]

6.4.11

JOSÉ LUIZ TAVARES


11.


Há um tesouro que não enferruja
nas costas da tua mão; embora
a pele entregue às sevícias do curtume.

Deste lado, dimanações do que poderiam
ter sido recônditas juras num domingo
de sinos e renúncia. Revigoram-te
como o riso indubitável dos jovens laureados
cujos crânios ungiste com a erva nova
de setembro, por sob o olhar de um deus menor.

Mas porque já não posso louvar essas velhas
divindades; porque o fuzilante vento apagou
os mínimos sinais dispostos sobre a terra
e o bordão dos prodígios já nenhuma água
traz ao cimo das escarpas;

porque silencioso necrotério a sala onde
arquejante me ensinaste as primeiras letras
(tu que com o sofrimento mantinhas um comércio
astucioso) e ignaros vinham para uma carta

ou um conselho; mas sobretudo porque o que fazia
humano este lugar – velhos de conversa lenta
reaprendendo de novo a leveza da infância;
quatro ou cinco árvores explodindo no ar seco do verão –
soterrou-o um tempo malfazejo;

ou porque talvez tenha razão o fernandes Jorge
e regressar não seja verbo que se conjugue,
desde essa orla onde tudo é demasiadamente
estrangeiro, esquissos da impossível pátria
lavro onde de novo me erguesses
para a mortal vocação de ser homem.


(de Paraíso apagado por um trovão, 3ª edição: US edições, 2010 – 1ª edição de 2003)

5.4.11

JOSÉ AFONSO


Não é meu bem


A cama é boa para dormir
- Não é meu bem
A corda é boa para subir
- Não é meu bem
A morte é santa para cumprir
- Não é meu bem
A louça é cara para partir
- Não é meu bem
A cal é branca para encobrir
- Não é meu bem
A banca é boa para falir
- Não é meu bem
A vida é dura para resistir
- Não é meu bem
A porta é boa para se abrir
- Não é meu bem


(do álbum Fura Fura, 1979)

3.4.11

EDIMILSON DE ALMEIDA PEREIRA


HISTÓRIA ANTI-NATURAL

HOMEM BALA


Um emprego não basta
para sanar as dívidas.
Quanto mais ajusto
tanto preciso ajuntar.
Quando paro, tudo
em mim trabalha.
E já uma outra dívida,
crescendo no sujo
da antiga, se anuncia.
Mal desço na praça
um braço me cobra,
outros me olham.
Tudo em mim se rala.
O que sobra gera
outra promissória.

HOMEM GOL

Falhar é um direito,
em meu caso, um caos.
Se me ausento do lance
é como se acabasse
o gás para o almoço.
Cada boca tem a fome
do juízo final até que o
juiz apite: acabou.
O jogo agora se disputa
mesmo sem partida.
Não há dono do time,
bola também não há.
A tática minha e sua
é atacar na defensiva.

HOMEM MOSCA

Para lições de leveza
nada mais que o corpo.
Se possível um anúncio
em que a sorte nos
convide à sua fazenda.
Para se manter no ar
é preciso músculos
e alguma tolerância.
Nossa natureza é pedra,
se muito, espuma.
Mas não será absurdo
flutuar na palavra
uma vez e outras.

HOMEM RÃ

O início do mergulho
está na ausência da água.
Quando tudo é esgoto
como achar o que se busca:
um braço e um dejeto
são uma só carcaça.
Recuperamos as coisas
em partes e com isso
a luta se reapresenta.
Num braço o corpo,
num chassi a máquina
que o precipitou no rio.
Mergulhar é dar início
a um quebra-cabeças.

HOMEM NU

A mão que me devassa
não colhe senão
fiascos de um tecido.
Há muito me imprimo
em formas anuladas.
As que têm medo
e, sendo muitas, vão
sozinhas ao labirinto.
Onde não há marcas
vigem meus dedos.
O nome que ostento
é um clã de anônimos
associados & filhos.

(in Oiro de Minas a nova poesia das Gerais, selecção de Prisca Agustoni, Ardósia, 2007 - colecção Pasárgada)

2.4.11

HANS MAGNUS ENZENBERGER


E. J. M. (1830-1904)


A sua droga eram os factos. Sempre correcto,
filho de um negociante de vinhos da Cote d'Or, corpulento,
positivista de colarinhos engomados, monóculo,
abotoado, espera, imóvel,
atrás do seu aparelho, por qualquer movimento, à caça
da mais fugaz das presas: a linguagem
dos próprios fenómenos
, um fantasma. Na rue
de l'Ancienne Comédie apresenta-se um novo espectáculo.

O professor aluga palco, sala, bengaleiros.
Tabiques, levantados à pressa: o salão pequeno
com o piano, a oficina mecânica e
(acessíveis por uma série de poleiros) gabinete de trabalho,
cama e arquivo. Resta um espaço enorme,
a pista, encerada a brilhar, e na qual,
diante de panos pretos e brancos, em baloiços,
fios, à luz de candeeiros, se apresentam os factos.

A pomba, atada ao braço de um carrossel,
voa ou algo a faz voar? O rasto
das suas asas é invisível; mas segue-a,
pneumaticamente controlado por um labirinto
de tubos e tambores, um estilete de aço;
tremendo, vai riscando o papel escuro de fuligem.
O que aí escreve e desenha, medindo-se a si mesmo,
é uma alucinação a que se chama «a natureza».

Padrões de elegância matemática, relações
entre frequência e tonalidade muscular, temperatura
e pressão: formas ondulatórias, oscilações, saltos.
Todas as variáveis da locomoção: La machine animale.
No ar e na água. A enguia, o pianista,
o molusco, o coração da salamandra: a tractriz,
a cissóide; curvas de remonte, de intercessão, envoltórias;
espirais, linhas de voo, diagramas... em suma, «o mundo»

é uma ilusão de óptica: nada do que vemos
é «como é», e aquilo que se mostra esconde-se.
Sempre casos mais precisos, instrumentos mais lógicos,
armas mais abstractas. O fisiólogo aponta
com a arma fotográfica automática:
o diafragma abre-se dezasseis vezes por minuto,
e a gaivota branca deixa atrás de si, contra a cortina
preta, uma imagem luminosa sem fim.

Ele ensaia, projecta, constrói a primeira câmara de filmar
do mundo. Não porque queira filmar: quer ver.
Nos Campos Elíseos. um homem desce
da bicicleta; ninguém sabe como.
Só a câmara lenta o pode mostrar. Por isso, ele inventa-a.
O seu teatro enche-se de astrofísicos, médicos,
luminárias da ciência. (Lá mesmo ao fundo da sala,
despercebido, senta-se um certo Edison, capitalista.)

Para estudar um insecto, tenho de construir insectos
E assim o investigador se transforma em demiurgo: falsifica
corações abstractos, pássaros accionados a hélice,
máquinas que respiram. No soalho encerado
rasteja o facsimile de uma cobra. Molda em bronze
o voo da gaivota. Um animal fantástico:
esvoaçar quadridimensional, locomoção congelada,
imobilidade que flui. Tempo que se pode tocar.

Um louco em cujas mãos tudo se transformava em artefacto,
idólatra da ciência da exploração,
cordeiro inocente, terror de Taylor abrindo caminho,
precursor inconsciente de Hollywood, nas horas vagas
artista, inventor contra vontade, Mallarmé
por engano, génio da reprodução: imóvel,
o olho do grande observador observa-nos,
violeta baço, uma íris cega de brometo de prata.


(de Mausoléu, tradução de João Barrento, livros Cotovia, 2004)

31.3.11

ZETHO CUNHA GONÇALVES


PELO MEU NOME


Escavo a esta mão os ventos - da onça,
sustentam a noite: quem contraceno em gesto,
e os seus olhos. Se dou um passo
tropeço noutro passo - simétrico, tropeço
na flecha. O dorso é todo o horizonte,
a sua escultura movediça.

Eu trazia o fogo na cabeça, era um pássaro.
O canto das águas seria a minha voz - a pedra,
Terra
de outra carne,
e osso -
não me houvessem roubado o fogo, não me houvessem
justificado em lenda, pelo meu nome.


(de A Palavra Exuberante, Parceria A. M. Pereira, 2004)

30.3.11

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO


CATALOGO BOTÂNICO DA PRIMAVERA


Principia a estação, com o seu ruído
feito de sons de pássaros, que eu decifro.
Mais difícil sinal são as cores várias,
que despontam cada dia e eu vejo,
ano após ano, iguais e singulares.
Primeiro, um pouco além, o lírio roxo,
que me traz consigo a criança viva
que o colheu e, tal como a um barco,
o fez singrar, só, roxo, macerado,
na água que descia por um rego.
Um lírio com a mão que o cortara
já decepada e presa ao passado,
sem o seu corpo. Vejo as três pétalas
assim a confundir-se com os três dedos,
como se as nossas mãos por vezes vivessem
mais do que os passados corpos.
Depois, foi esta a manhã das camélias
brancas, cravadas com dureza em rostos,
que, ainda de olhos fechados, tocam
as corolas em busca do seu cheiro.
São camélias mortais, e ainda atraem
a face dos mortos, que algum dia
as bafejaram com o seu hálito próximo.
Manchas brancas de círculos informes,
cada círculo contendo outro círculo.
E, no centro de cada rosto, apenas,
em cada Primavera, duram os olhos.

Já caem as glicínias, de alto, sobre
o esplendor do crânio ou do cabelo.
São cachos também roxos, em manhãs
de assombro, por cada dia mais
trazer um diverso cacho pendente.
Misturam-se com a cabeleira antiga
estes cachos de glicínias de hoje.
Mas são absolutos, novos, singulares,
os momentos com a sua luz e cor,
os seus insectos e as suas sombras.
Alguém que os colhera os fez pender
entre cabelos fecundos, de orelhas,
adornos para os filhos da Terra.
Estão, depois dos lírios e das camélias,
para salvar, em cada dia novo,
o viço dos cabelos, mais eternos
do que aja sepultada carne. Carne
de alguém que tinha um nome seu e que
se oferecia, com deleite, ao Tempo.
Só pode ter sido a de parentes, dúbios
coabitantes do ser que relata
esta actual Primavera, com saudade.
A Primavera, que me surpreende
somente por estar a ser olhada.

Se aquela rosa rubra, na manhã
em que surgiu, logo fosse ignorada,
eu não estaria aqui neste papel,
dando-me inteira à nova Primavera.
Recebo-a, olho-a como um visitante,
aliás porque, na sua latada,
ela está perto do meu sólio. Rosa
de repente vista, primeira rosa
na natural frescura. E, também,
o vento lhe tocou, e já a abrem
aquelas mãos que haviam sabido
lançar barcos de pétalas aqui.
Junto da rosa só cabe esta boca,
pronta a beijar com amor as suas línguas
ou a beber a linfa que é da abelha.
Havia uma boca assim, sem a face,
a respirar ao ritmo dessa rosa,
que hoje nasceu fadada para ser
a sempre minha, única, igual.
A cor da rosa mostra-me o lugar
daquela boca, e eu quero sentir-me
aqui e ali. Pois vejo-te, rosa,
e vejo a outra, a que foi beijada.
Assim, não posso mais do que olhar.
Rosas terás em redor, solitária.

– Eis os melros, rasteiros, que insistem
em tornar-se evidentes, saltitando
sobre cômoros de terra. Mas hoje
perante o mistério das flores súbitas,
são como eu, embora não como eu,
com a negra plumagem que os cobre.
Sobre a laje do poço correm dois,
negros contendores no mesmo sprint,
músicos de assobio que eu bem entendo.

E, próximos da rosa, mas alheios,
estão a nascer os narcisos, de amarelas
frisadas campânulas e de sépalas
perto do solo, que se elevam
na luz de cor. Também uma figura
de mulher genuflectida as colhia,
e uma criança, oscilando no riso,
quer ter para si uma flor solar.
Junto aos eternos matizes das pedras,
a cor dos narcisos, nítida, clara,
evoca esses desejos saciados
em tempo ido: o da mulher, prendendo-os
no seu seio, e os da criança, seguindo
o movimento que pertence ao tempo.
Hoje, como hei-de separar os corpos
da haste e da corola dos narcisos,
pois a mancha amarela tem a forma
humana contida em si, curva, erecta.
Salva-me o vermelho vivo da rosa,
que atrai a cor intensa dos narcisos
para contraste, outra tensão,
que eu revivo, amando o beijo da rosa
e a prece ao sol destes narcisos.
Mas outra prece, hesitante, desponta
ao raso dos terrenos, dispersa, ágil.
Flores que vibram esguias e tácteis,
de um vermelho ardente, submissas
como pálpebras, ao cair da noite.
Abrem-se na aurora, comovidas
pela unção da luz, porque se chamam
páscoas. E são amadas, benditas.
Anunciam a passagem eterna
da luz sagrada entre noite e aurora.
A aragem devagar as sacode,
finas folhas e hastes a dançar,
em pleno dia de êxtase, no sono
das corolas exaustas pela noite.

Noutra manhã, eu vejo, deslumbrada,
a poalha da brancura florida
que envolve os troncos velhos da ameixoeira,
flores que o ar conhece e o vento leva,
há muito, para lugares e tempos.
Poalha em que não estão vultos humanos.
Apenas um nó de sombra, atrás
de cada flor, mostra a imagem de antes
ou a espessura de um fruto futuro.
São as flores do jardim que guardam o enigma,
pois cada espécie vista tem em si
um sinal visível de outra estação.
Flores solitárias que, uma a uma, vêm
ligar-se a fragmentos de vida antiga.

– Repetem-se os melros plo empedrado,
a debicar sempre nas pedras húmidas,
sob o fascínio do cálido dia.
Tão nítidos, tão certos, a presença deles
não cabe ao lado de uma flora rara,
a desta Primavera em narração.

Também os loureiros em flor, visíveis
ao longe como nuvens, são visões
completas, com a floração e as folhas
na mesma cor de sempre, indecifrável.
Alguém pega no ramo do loureiro,
num verso clássico, e o dá a toda
a humanidade, pois a memória
da poesia passa de poeta a poeta,
para o mundo. Se o meu relato é vivo
é porque olho c'os outros a Primavera,
e nesta Primavera eu vi melhor,
presa do assombro do que é novo e antigo.
Os meus olhos, o espírito e as mãos
pegam em cada imagem de uma flor,
em cada dia de visão e ganho.
Mas a perda, enfim, virá somar tudo
igual a si mesmo, uno, passado.
E, de repente, uma flor de palavras
muito branca chega até mim, e é
esta estação, nesse florir de goivos.
Uma carta traz-me inscrita as palavras
de Eugénio, goivos, e o seu eflúvio.
Esta transcreve-a ele de Pessanha,
diante de tão nítidos canteiros.
Grata, prendo-me a esses elos vivos
da corrente de vozes, que se oferecem
aos ouvintes, depois de recolherem
o real, o findo, o que foi amado.

Aqui, depois do loureiro, floriu
a acácia, também sem qualquer vulto
escondido no seu florir imenso.
São árvores solitárias, constantes
na pura relação com a luz solar.
E, talvez por fim, neste infinito,
uma inflorescência de gladíolo
rosada, erecta, se tenha aberto.
Vem de um único bolbo, soterrado,
está só, entre a verdura vária.
Junto de si viveram outras hastes
também de gladíolos, há muito tempo.
Braços levaram-nas juntas, consigo,
em braçadas de amor e de alegrias.
Os braços são as linhas de matizes,
unidas em redor da cor suavíssima
das flores de hoje, a florir aqui.
Cada manhã me põe diante dos olhos
nova forma de cor e luz e, às vezes,
figuras esbatidas de outra estação
igual, porém perdida já, inane.

– Melro audaz, que te aproximas mais
de mim, ou do que eu fui e agora sou,
não vejas que eu represento o Tempo.
A tua colheita de grãos e de larvas
seja o teu mais subtil pensamento!

E, afinal, entraste no meu espaço,
num intervalo entre o concreto e o abstracto.

Carcavelos, Março, 1997


(de Cenas Vivas, 2000)

29.3.11

MARTA CHAVES


Esta cidade está repleta de pequenos raptos,
de andaimes suspensos no tempo da minha memória.

Nisto,
refaço-me de altíssimas quedas
com um esgar que me mantém refém
do vício.

desta violência de trazer o teu nome nos lábios,
como um sorriso em que me desfaço.


(de onde não estou tu não existes, tea for one, 2009)