15.6.11

(Groningen, 22 de Maio de 2011)



JOANA SERRADO


10

Da parede


Raspando
da parede
na minha bedstee bordada
eu ergo


13.5 miljoen m3 klei
1.6 miljoen m3 mattresses
1.5 miljoen m3 basalt
105 sleepschepen
60 sleepboten
60 elevatorbakken
37 onderlossers
35 zolderbakken
11 baggermolens
8 kranen
7 perszuigers
3 steentransporteurs
2 transporteurs



Vou fazer uma casa
de raízes estranhas.

Unhas de granito
já não tenho
apenas dedos de fadas
em barro, areia e basalto.

Recuperei
o meu novo país ao mar

Suo o sul
em retenções assalariadas

Um estilete na lama
para assinar
a aurora boreal.

Divisas
Para uma hipoteca de vinte e nove anos em sangue.

Os dictadores
foram-se embora.
Refugiados holandeses no paraíso incendiado.

(Slauerhoff não quer ficar na Holanda
Van Baaren está com os Deuses
Baladas atlânticas
são apenas tumbas.
E os bobos galhofando
na cidade.

Os mortos procuram a sua casa no Mar do Sul
ou Sidney
enquanto Al Galidi come batatas fritas.)

Enquanto eu
retiro
da parede:


croquetes
fricadelas
kipcornen
bamihapjes
nasíballen
krokanten
bouten


para os meus versos estaladiços.

A corrupção da gordura.
A drenagem do Sal.

E os meus músculos defrontarão a gordura
E as minhas estrias atravessarão o horizonte
E a minha pele flácida será quase vinho puro.



Todavia
Rita, irmã de sangue meu,

irei reclamar a minha nova Língua.


E as gruas, Rita, e as gruas
rangem
rangem bravas gruantes

Rita
sem escamotear
o nosso lugar.


(de Emparedada / Uit de muur Een gedichencyclus, Uitgeverij Passage, 2009)

13.6.11

[«O José Sebag também, o que escreveu O Planeta Precário a que ninguém liga bóia, também já lá vai.» - Mário Cesariny, in verso de autografia, edição de Miguel Gonçalves Mendes, Assírio & Alvim, 2004]


JOSÉ SEBAG



O PLANETA PRECÁRIO


a noite cerrou todas as janelas
alastrou um império de improviso para os
cães sem nome sem dono e atirou
longamente o seu queixo de toneladas até
à mancha espalmada do rio

é a sua maneira de nos insultar
a tristonha envergadura da sua queixa

as palavras
que usamos
têm a idade que aparentam

atingidas pela velhice ou pelo descrédito
num alvoroço se oferecem ao abismo

despenhadas rolam
e se confundem com a lava
com a espuma tensa do tempo ainda intacto

para de novo nascerem noutra pátria
mais respirável

ternamente povoar o indómito e triste
hálito
do mais apavorado e generoso bicho

À hora de morrer vai ser necessário
imitar a navegação tumultuosa e resignada
das palavras.

Entre elas e o poeta
um segredo brinca
religioso
trémulo
e imprudente

um segredo amoroso e repugnante

Tu, que de há tanto e tão bem o conheces
melhor te será conservá-lo escondido
até ao momento da surpresa
que a morte branca do medo exige

Cada um de nós, deve ser, não a lei, mas
o galho inopinado e ímpar
o plano imediato da evasão
alucinado e lúcido

Cada um de nós deve ser o momento
de recusar férias à ferida
e de mandar matar todos os parafusos
destronar todas as molas reais
ou irreais
da

respiração artificial

pendurada do tecto
a tua ausência informa: é madrugada
bela notícia confirmada
o céu está menos preto

busto ou explanada
mas só de sombra
a solidão redonda
desta vida parada

não é flor nem bomba
nem página virada
nem a hecatombe
fria e feriai

da charada final
e indesejada!

Falta o indulto especial da tua mão
e tu a dizeres-me, aguda e de assalto:

«A solidão
é nada.»

a cabeça começa por fazer dueto com o teu relógio
crepita sobre a almofada
parece mesmo um gatilho em desuso
uma flecha detida por um hábito lívido

são já os primeiros rumores estremunhados
no tablado das coisas
para onde a luz, como tu, atira os braços
como tu um beijo

enorme e distraída oficina conjugal

é agora a infalível
serpente inofensiva e doméstica do sol
monstro diluviano de capoeira
a farejar
com um aspecto acabrunhado de enfermeiro despedido
a fresta que permita o carnaval

está então na hora?

a cabotagem entre portos diminuídos
tenazmente em circuito cinzento
o tráfego livre dos gestos, enrugado apenas
pelo milagre de um ou outro vizinho mais mumificado
a levar pela mão o cara de brinquedo do filho

a quem acabam por perdoar por não ter ainda convite
e é só entrar

no solfejo nauseante
no cerimonial mercantilista do braço ao peito


(de O Planeta Precário, «editado e destruído pelo autor à saída da tipografia, Açores, 1959. Um exemplar foi enviado para João Gaspar Simões» / in Surrealismo/Abjeccionismo, antologia organizada por Mário Cesariny de Vasconcelos, editorial Minotauro, 1963; edição fac-similada: Salamandra, 1992)

12.6.11

ADÍLIA LOPES


COPIADO DE SOPHIA


Creio
na nudez
da minha vida

E
não me peçam
cartão de identidade
que nenhum outro
senão o mundo
tenho


(de César a César, 2003)


BÉNÉDICTE HOUART


sophia de ti
disseram-me que
recitavas poemas
em voz alta nos eléctricos
que cantavas nas ruas de lisboa
enquanto os teus filhos te procuravam
(viram a mãe, aquela que troca tudo e não confunde nada)
e dançavas frente ao espelho dos teus olhos
sempre sempre ao desafio

ah sophia
sophia eras
sophia és

(passeei pelo teu jardim
tão abandonado estava
deu-me vontade de chorar)


(de aluimentos, edições Cotovia, 2009)


ANA PAULA INÁCIO


Querida Sophia,


Afinal as mónicas continuam
são as de sempre.
Fazem psicanálise e ioga,
cabeleireiro aos sábados e depilação 2 vezes por mês.
Não têm filhos mas adoptam-nos
como dão guarida aos cães
têm-nos de toda a qualidade
e para qualquer situação:
de cego para quando acordam cedo
e o excesso de luz as perturba;
da pradaria se pretendem preciosidades
raridades escondidas;
de água quando temerariamente mergulham
Quelques centimètres plusfond;
Briard
quando precisam de inteligentes
e corajosos ou de pelagem abundante e
algo ondulado como os define
o dicionário Houaiss;
e finalmente de guarda ou de
fila não venha a coisa tornar-se pior.
Por vezes, estes últimos, podem tornar-se pegajosos,
inoportunos, indesejáveis
pelo que recebem o nome de miúdo ou
tinhoso, como o do rabo comprido, o
que também as enfeitiça
por fugir à norma, ao vulgo, ao
tremoço.
São de sempre as mónicas
e quando falam ao telemóvel
usam uma voz recortada
como as mitenes da avó
e nunca amanham peixe
ou se amanham é para utilizar
as escamas em quadros florais
dispostos corredor acima.
Ao peixe comem-no cru,
para experimentar outras culturas.


(de 2010-2011, Averno, 2011)

11.6.11

MANUEL POPPE


O HOMEM QUE PERDEU A FALA


Começou a sentir-se aflito e disse a um amigo:
— Não sei falar.
O amigo respondeu-lhe:
— Estás a falar.
— Isso é o que tu julgas!... Se eu quiser dizer hoje, digo amanhã.
— Estás a dizer hoje!
— E se eu não souber?
Engasgou-se e titubeou, encarnado:
— Sábado... Quinta-feira...Cães... Galinhas!
O amigo riu-se.
— Estás a gozar? Diz lá as coisas como devem ser...
— Palácios...
O amigo condescendeu:
— O.K. Palácios!...
E virou-lhe as costas.
A verdade é que ele deixara de saber falar. As palavras saíam-lhe desgarradas. E foi nesse momento que começou o problema porque gostava de falar com as pessoas. Tentava, mas não podia: já não tinha língua. Esforçava-se e não conseguia.
Foi a um médico que lhe disse:
— O senhor perdeu o uso das cordas vocais.
E repôs os aparelhos no sítio.
— E agora? — acenou.
— Posso operá-lo. Mas não garanto.
— O quê? — acenou ele outra vez.
— Que fale. O senhor perdeu a fala.
Levantou-se da cadeira e agarrou num papel, desenhou um caranguejo.
— Talvez — disse o médico —, uma doença grave.
Fugiu: não queria ser operado.
A vida voltou e custou-lhe muito. Ouvia os outros e não respondia. Eles procuravam-no e ele não era capaz. Tocava-lhes, dançava para que gostassem, mas não conseguia falar. E os outros acabavam por se ir embora. Via os corpos, a afastarem-se, queria-os, mas, sem língua, não chegava ao pé deles, não os prendia, não os abria. Corpos esplêndidos; corpos, pensava, que estavam à espera de quem soubesse oferecer-se-lhes, de quem lhes desse o que queriam. Pensava também que os compreendia melhor do que ninguém. Mas, faltava-lhe a voz.
Um dia meteu uma pedra na boca. Chegou à noite desfeito e na mesma.
"A culpa é minha? O que é que aconteceu? Que mal fiz eu a Deus? Isto não tem remédio?" E veio-lhe vontade de chorar.
Gostava das pessoas. Eram bonitas. Ai!, se não lhe tivessem roubado a voz! Porque ele, dantes, falava! Era um homem interessante! Agora, nem pio. Caretas, gestos. Uma dor, do lado esquerdo. E a troça e a indiferença dos outros. Ou as duas.
— Fala! — gritou-lhe um amigo.
— Não sei... — respondeu-lhe, mudo.
E continuou a passar gente.
— Anda! — disse-lhe uma.
E insistiu:
— Anda!
Não foi... Ficou parado no meio da rua.
— Olha o carro!
Já era tarde.


(de Um Inverno em Marraquexe, Teorema, 20)

8.6.11

A muita gente não terá ocorrido que a escherichia coli tem um papel importante na obra de um dos maiores poetas portugueses do século XX, o que deve ser caso único na literatura europeia.» - Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 8 de Junho de 2011]

VITORINO NEMÉSIO


ESCHERICHIA


Funérea Beatriz de mão gelada
Mas única Beatriz consoladora.
_____________Antero de Quental, SONETOS.
Olha, Daisy: quando eu morrer tu hás-de...
______Álvaro de Campos, Soneto já Antigo.

I

Mandei fazer o electrocardiograma
À minha «Beatriz de mão gelada»:
Mas fui eu, fui eu só que fui à cama,
Eu, claro! não Beatriz, nem Dante, eu nada!

«Mas única Beatriz consoladora»
Então não era a Morte reservada
A quem tem coração pela vida fora
E por ele sobe em hélice aminada?

Em gráfico de sismo a sina veio
Nessa foto cardíaca: — «Receio
Que morra, Daisy!» Não: «Que morra, Dolly!»

Pois eu não sou o Fernando Pessoa
Ou Antero, nem em inglês seu nome soa,
Que minha Musa é Escherichia Coli.

II

Escherichia ou Beatriz, que importa o nome
Se ambos me soam igualmente belos?
A prometida morte nos consome
Como flor prometida nos carpelos.

Assim tu, Escherichia, és meu tormento
E nocturno tremor, Beatriz funérea!
Quem nasceu para casto fingimento
Afinal pode amar uma bactéria.

III

Pego em Escherichia ao colo,
Musa micrónica, etérea,
Mas não já de éter sulfúrico
Senão feminil bactéria.
Por ela todo estremeço
Em suor e ácido úrico!


TUBO DE ENSAIO

Árvores do Canadá, uma por uma,
A caminho de Otawa, de autocarro,
Propõem seus galhos hibernais ainda
À minha angústia já primaveril.
Com tão pouca matéria a fotossíntese,
Que oxigénio de amor espero eu delas,
Com que carbono as poderei amar?
Porque, enfim, eu morrendo dou-me aos bosques,
A tal selva de Dante é a dor da espécie,
E o mezzo dei camin aqui passar.
Só é estranho que fracos pensamentos
Eu verta nestes tubos de ensaiar:
Eu, que, por causa de Escherichia Coli,
Quase não sei (como se diz?) — meiar...
A Poesia é um louco laboratório,
E eu dispo a bata para não chorar.

11 de Maio de 1971.


MICRO-MORAL

No Julho sossegado dos charcos
Um anúrio respinga,
Mas outro é o visco elástico:
Uma ideia, um remorso.
O que o poeta pensa ou sente é que arfa em alvo:
E, de Esopo a Galvani,
Como uma ancila a rã se serve à mesa do homem.

Oh, dócil sujeição dos bichos,
Nossos irmãos moleculares,
Imolando nas aras centrifugadas vida,
Dando o pobre corpinho ao manifesto da Certeza
Que, se não consola a alma,
Ao menos explica e previne:
À santa mesa da Preparação
O pombo traz seu músculo,
O cachalote a fibra,
O ratinho o seu fígado,
O cavalo sua heme,
Cada qual como mãe que ao filhinho amamenta.

Quanto a Escherichia, casta musa, a entranha aos vírus coxos
Cede por nosso amor, maternal, e rebenta.

14 de Julho de 1971.


(de Limite de Idade, 1972)

4.6.11

ROBERT BRINGHURST


O HOMEM MELHOR


Bastante simples. Ao som dele, a cantar-lhes
os nomes, pedras, árvores, mulheres
de meia idade e quase a restante criação
dispararam direito à testa dele e colidiram.

Desde então tem sido
costume a crianças
de ouvido musical
extinguir os olhos.

Marujos e a gente do monte
enterraram o que dele puderam encontrar.
Adolescentes, suicidas
em potência e os feridos

experimentaram os nomes.
Ilesos em cada caso, conforme aconteceu —
como todos os outros — nas próprias
pronúncias deles.

Mais tarde, também, os intérpretes
andaram pelas cidades com versões próprias
e justificações.
Disseram eles, por exemplo, que a canção

fora introduzida por uma certa mulher.
Alguns contaram que a mulher de cabeça ruiva
que o amava se fora embora
e já estava morta quando dera com ela.

Outros insistiram em que ele a matara. Contou ainda
um terceiro uma grande história, coisa fortuita,
segundo a qual ela havia ido em romaria
pelo vale e por lá encontrara, de modo inesperado

mas muito simplesmente, um homem melhor,
com gosto pela conversa
e por xadrez, e de rosto
mais brando e com nome estrangeiro.

Disseram eles que a morte nada tem a ver
com luz moldada ou íngremes
gumes do ar. Disseram eles que ele cantara
a vasta terra aberta e nela caminhara,

fosse para a enterrar ou para a recolher,
e que quase conseguira. Disseram que quando ele escorregara
se encontrava então a subir, e era sua obrigação saber
que para baixo não devia olhar.

Ou disseram que morrera como um mosquito,
da sua própria luminescência,
ou que fora o escuro ou o claro que ele nomeara
e que se tinham ajuntado e o haviam morto.

Lá pelos montes histórias ainda mais singelas contam.
Dizem que a voz dele resplandecia
como uma pedra azul. Alguns dizem
que ele bebia o ar quando sedento

e respirava água. Terão apenas sido
as suas mãos, dizem alguns,
que cederam, esmagadas
quando as palavras acima delas se fecharam;

e durante dias e dias podia ver-se-lhe
a voz a flutuar, perto do sol,
e a água do poço sabia a palavras suas,
vento fora de estação ouvido na semente vigorosa.

Desde então toda a luz
se curvara no silêncio dele.

Desde então tem sido
costume a crianças
de ouvido musical
extinguir os olhos.


(de O Sopro da Flauta d'Osso, in A Beleza das Armas, tradução de Júlio Henriques, edições Antígona, 1994)

1.6.11

ANA LUÍSA AMARAL


UTOPIAS RESPIRÁVEIS


Uma respiração até ao fundo:
oxigenada a memória

Tudo é possível a partir de então,
aí se cuidam: imaginação,
sorumbático livro de pensar
(inspirar fundamente e livres
as amarras do dever)

Vagabundam-se as horas, momentos
de saber tornam-se espaços que
não sendo espaços, são-no de pressentir
em nova geometria:

Linhas desalinhadas, novas linhas
conjugadas num jeito tão desfeito
que chega a ser perfeito esse quadrado

sem cruz, que na cabala dos mortais
é o sinal fechado da ausência de luz

Então se vêem girassóis nocturnos,
então se vêem diurnas cavernas
com teseus aos milhares despedaçados.

E sábios minotauros inspirados
por fios opacos mas fosforescentes
saem à praça do saber das gentes
sem livros, sem riquezas, sem sapatos.


(de Minha Senhora de Quê, 1990)

31.5.11

[outros melros LXI]

JOSÉ RIÇO DIREITINHO


A nova mestra chegou a Vilarinho dos Loivos duas horas depois de o José de Risso ter avisado o Crispim, o filho daquela que o amamentara. Foram ambos esperá-la perto da Vinha do Ribeiro Mouro. Sentaram-se na terra, encostados à cruz de granito da encruzilhada, com os olhos postos na velha ponte de madeira. O ribeiro, onde no Inverno e no início da Primavera alguns rapazes pescavam trutas à mão, não levava água; apenas duas poças reluziam sob o Sol daquele final de tarde. Eles olhavam de vez em quando para a curva do caminho que rodeava parte da Casa da Eira, no lado oposto à ponte. «De que sítio vem ela», perguntou o Crispim enquanto escolhia no chão uma pedra pontiaguda para a fisga do companheiro. «Não sei, mas vai chegar antes de o Sol ter desaparecido», disse o José de Risso espreitando, por entre as borrachas negras da fisga, um melro pousado nos ramos de um freixo.
A professora apareceu, sentada num burro, no mesmo momento em que o pássaro tombou morto da árvore. O Crispim correu a apanhar o melro, a quem a pedra quase arrancara a cabeça. O José de Risso ficou no chão, encostado à pedra da cruz e a seguir com o olhar o animal manco que trazia finalmente a sua nova mestra. Esperou que a rapariga passasse diante dele para se levantar e lhe falar. «Eu puxo-lhe o burro até Vilarinho, senhora», disse-lhe pegando na arreata com uma mão, ao mesmo tempo que com a outra entalava, entre o cós das calças e a barriga, o pássaro morto já sem cabeça. Ela concordou sorrindo.


(excerto de Breviário das Más Inclinações, 1994)

30.5.11

JORGE VELHOTE


PIAZZALE MICHELLANGELO


Silenciosos pássaros esmigalham sementes, espiam
a noite, o secreto labirinto das janelas, o regaço
da água que chameja a terra. Os herbáreos

celebram o ritual da botânica, as sombras, requintados
aromas que os estames de luz, delicadamente,
tecem. Há uma floresta

onde escrevo um momento, o abraço
do amigo, as praias, os animais
da infância. Vêm

com o perturbante olhar, nos tanques, junto à casa,
por entre a cúmplice dormência dos nenúfares, o fascínio
da água, beijam os peixes,

os meninos, com maldições no olhar e bibes muito azuis,
que arborescem no outono, surpreendentemente.


(in Orfeu 4, organização: Amadeu Baptista/Egito Gonçalves, Limiar, Dezembro 1988)

29.5.11

[no 30º aniversário de uma antologia]

ANTÓNIO CAMPOS


LOUVOR DE IRENE LISBOA, POR UNS VERSOS LIDOS NUMA ANTOLOGIA


Descuidados vamos, por um caminho
que debrua as hortas, divide os comoros onde
crescem giestas, madressilvas,
vamos, rentes ao dorso dum riacho
alastrado de caniços, de filamentos que
reverberam o azulado dos óleos,
o brilho dos calcários, o lixo das indústrias.
Florescem as acácias
nas passadas manhãs de Março,
pelas fendas os frios murcham
os rebentos dos goivos, a delicada trama das avencas,
uma sombra lenta aviva manchas cálidas
no musgo ainda húmido dos muros.
Sabes bem que a idílica paz, o sussurro
das finas hastes dos juncos é
um cenário mutável gravado em
trompe-l'oeil no verso destas tardes.
Mudaste o vaso de begónias,
um fino rasto de poeira
abre-se na folha polida da mesa,
o arrumo das coisas, o lugar morno
que lhes damos convida à lassidão.
Vês da janela um carro que desce a rua
a essa hora deserta,
uma luz crua, cruel, tinge
os prédios a perder de vista, desgasta os contornos,
o exausto fulgor dos néons anuncia a manhã.
Um homem sem fortuna, com um nome futuro,
atravessa as avenidas, molha-se da chuva fina
que se volve névoa suja ao tocar o asfalto,
abre com os dentes um sobrescrito,
abre-se à sua volta um círculo de silêncio
feito de acres memórias,
de reprimidas lágrimas de raiva,
de tensos ecos de paz.
A aurora raia nas vidraças,
lembra-se de quem o espera num quieto banco de jardim.
A cidade fervilha, devora-o.


(in Os Poetas do Café, no Café Diplomata, 1981)

28.5.11

[outros melros LX]

AFONSO CRUZ


A questão do melro


ISAAC FOI BUSCAR UMA GARRAFA DE UÍSQUE e beberam aos mortos. Depois adormeceram no sofá.
De repente, Isaac Dresner acordou e agarrou-se ao vestido de Adele.
- O melro.
- Que é isso do melro?
- Preciso de um uísque. Eu, quando era miúdo, fui apenas uma voz, uma coisa sem corpo debaixo da terra. Esqueci-me da claridade e do mundo e um dia saí daquela caverna e vi a luz do dia, a mesma de que Platão fala. Estava no meio de uma loja de pássaros. De canários que eram pardais pintados de amarelo, desbotados; de bengalins mosqueados, de conures e de cabeças-de-ameixa. E lá fora estavam os restos do mundo, o que sobra da guerra, e em cima do que restava do mundo estava um melro. Dei a mão ao Sr. Vogel e, enquanto olhava para o melro, um soldado veio falar comigo. Já não era um homem, aquele soldado, era mais um despojo do mundo, como um resto de comida. Via-se bem nos olhos dele que lá dentro, dentro dele, estava um vazio aberto com bombas. Sabe, menina Varga, quando um homem vive faz assim: conhece todas as assoalhadas da sua casa. Todas. Vai abrindo porta atrás de porta até somente restar uma. E pensa que já só falta aquela assoalhada. Por isso é que há aqueles cientistas que dizem que basta explicar não sei quê para saber tudo. É a assoalhada deles. Todos nós conhecemos a casa onde habitamos, porta atrás de porta. Quer mais uísque? E, dizia eu, que falta apenas uma porta. Um dia, cheios de coragem, resolvemos abri-la. Só falta uma assoalhada. E então deparamo-nos com algo insólito: a porta não dá para assoalhada nenhuma, a porta dá para a rua. Está a ver? Para a rua! E essa rua está cheia de casas cheias, por sua vez, de assoalhadas. Eu, no outro dia, abri essa porta e fiquei ali parado durante minutos. Foi como quando abri o alçapão e subi para a loja de pássaros e depois para a rua. Aquilo era um novo mundo. Como é que nunca tinha visto aquilo? Um mundo inteiro com árvores e tudo, um lugar onde se voa fora de gaiolas. As minhas pernas começaram a tremer e até cheguei a vomitar. Fechei a porta com força, mas tinha entrado um melro. O mesmo melro que tinha visto em miúdo. Este que você não vê.
- Não vejo.
- Está mesmo aqui - apontava para o ombro esquerdo. - Isto é aquele mundo. Se um dia perceber este pássaro, percebo aquela paisagem. É a maior assoalhada que um homem pode desejar, com campos verdes e árvores. Quando era miúdo aquilo era um mundo devastado, mas no outro dia, quando abri a porta, era um sítio bonito como aquelas gravuras das revistas dos jeovás. A única porta que nos falta abrir no nosso apartamento é a da rua. Lembre-se disso, menina Adele, lembre-se disso. Agora vou contar-lhe como foram as últimas palavras do seu avô. Ou melhor, não foram bem as últimas, mas andaram lá perto.

(in A Boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010)

16.5.11

CHARLES SIMIC


CHEGADA TARDIA


O mundo já aqui estava,
Plácido na sua estranheza.
Só faltava que chegasses
No comboio do fim da tarde
Aonde ninguém te esperava.

Uma cidade que ninguém recordava
Por causa da sua insipidez,
Onde te perdeste
Procurando um lugar para ficar
Num labirinto de ruas idênticas.

Foi então que ouviste,
Como se fosse a primeira vez,
O som dos teus passos
Debaixo do relógio de uma igreja
Que tal como tu parara

Entre duas ruas vazias
Brilhando ao sol da tarde,
Dois pedaços modestos de infinito
Para te surpreenderem
Antes de retomares a caminhada.


(de Previsão de Tempo para Utopia e Arredores, tradução de José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim, 2002 - documenta poetica)

15.5.11

[para uma antologia de bicicletas – 18]

JOSÉ MIGUEL SILVA


EM LUCCA, AS BICICLETAS


Mimados animais de estimação,
em Portugal os automóveis são felizes,
agradecem, quase incrédulos, a sorte
de lhes terem ofertado em passerelle
o mais honroso dos cenários e desfilam
como príncipes de crómio pelas ruas
desertadas de nocivos habitantes.

Aqui sentir-se-iam humilhados
pela ordem de ceder ao musculoso
bipedismo de pessoas a passagem
ou, pior, à irritante placidez
das bicicletas, traquitanas que lograram,
por estranho que pareça, conquistar
a simpatia dos estúpidos humanos
que povoam (é incrível!) a cidade.

Cruelmente desprezados, racionados
como párias, em Lucca os automóveis
não encontram um passeio onde encostar
a fatigada suspensão, uma sombrinha
de jardim, uma oficina, o refrigério
combustível de um amigo que socorra
a sua sede de viver rapidamente.


(de Erros Individuais, Relógio d'Água, 2010)

14.5.11

JEAN ROCHER


b) Leitura horizontal.

[…]

Um vocábulo pode desaparecer num momento dado, definitivamente (fome, depois de Nicolau Tolentino de Almeida; leito, depois de Antó­nio Nobre; mágoa, depois de Guerra Junqueiro; mal, depois de Bocage; pé, depois de Cesário Verde), ou provisoriamente, para reaparecer em seguida. Vamos indicar o vocábulo, o nome do poeta depois do qual ele desaparece e enfim, o nome do poeta a partir do qual ele reaparece: boca: Camões - António Nobre; braço: Rodrigues Lobo - João de Deus; campo: Manuel de Melo - Cesário Verde; carne: Camões - António Nobre; corpo: Correia Garção - Camilo Pessanha; lágrima: Camões - Garrett... Porquê este eclipse? Outros textos não conteriam estas palavras? Não as teriam utilizado outros poetas neste lapso de tempo? Enfim, uma palavra pode aparecer mais tardiamente do que se teria pensado: ânsia, a partir de António Nobre; árvore, a partir de Gomes Leal; astro, a partir de Antero de Quental; aurora, a partir de João de Deus; aventura, a partir de Teixeira de Pascoais; beijo, a partir de Guerra Junqueiro; cidade, a partir de Gomes Leal; criado, a partir de António Nobre; encanto e espaço, a partir de João de Deus; espelho, a partir de Gomes Leal; fumo, a partir de Teixeira de Pascoais; hora, a partir de Nicolau Tolentino de Almeida; idade, a partir de Teixeira de Pascoais; lar, a partir de Gomes Leal; lua, a partir de Garrett; menino, a partir de Guerra Junqueiro; mulher, a partir de João de Deus; ninho, a partir de Gomes Leal; olhar, a partir de Antero de Quental; pecado, a partir de João de Deus; punhal e quarto, a partir de Gomes Leal; seio, solidão e tris­teza, a partir de Antero de Quental; sonho, que nunca mais tinha sido reempregado depois de Camões, reaparece em Gomes Leal, como saudade que encontramos somente em Camões e Nicolau Tolentino de Almeida, mas que começa então uma nova carreira ... Talvez seja preciso rever muitas ideias recebidas. Em 26 listas, somente 7 contêm saudade, 6 fado, 7 pranto, 8 lágrima, que só reaparece com o Romantismo... Estas listas não encerram evidentemente senão uma espécie de amostra, mas é um sinal a fixar; e um estudo dos temas por um lado e das palavras prefe­renciais por outro, mostrará que a poesia portuguesa é certamente menos fatalista e menos dolente do que a representam geralmente.

(excerto da Introdução a Sobre o Vocabulário da Poesia Portuguesa, Fundação Calouste Gulbenkian / Centro Cultural Português (Paris), 1975)

13.5.11

JOSÉ AUGUSTO MOURÃO


o anjo e o vitral


venha o teu anjo
que nos trespasse a alma
de palavras novas

venha o teu anjo
como raio que atravessa o vitral
e não o quebra
e o transfigura

venha o teu anjo
extirpar do corpo
o demónio da surdez e do mutismo
que não guarda a alma
nem o seu jardim canoro

não se tornem as palavras que dizemos
lama ou sapos,
mas evangelho,
alegria do mundo

venha o teu anjo
mostrar o túmulo vazio
de onde o Logos corre
e de onde outros corpos sacramentais
se formam

que do interminável léxico das coisas
a nossa voz te diga
e o nosso corpo te bendiga,
pela hora que passa
e o rosto acreditado


(de dizer DEUS ao (des)abrigo do Nome, Difusora Bíblica, 1991)