18.7.11

[a Guerra Civil de Espanha começou há 75 anos]


PABLO PICASSO



Guernica, 1937
349×776 cm
Museo Reina Sofia, Madrid



ANTONIO MACHADO


SONETO


Odiosa mão traçou, oh minha Espanha
— vasta lira, ante o mar, entre dois mares—,
zonas de guerra, cristas militares,
em planícies, outeiros e montanha.

Manes do ódio e da cobardia
cortam a lenha de teus azinhais,
pisam bagos de ouro em teus lagares,
moem o trigo que o teu solo cria.

Outra vez — outra vez! — oh triste Espanha,
quanto se afoga em vento, em mar se banha,
joguete de traição, quanto se encerra

nos templos de Deus mancha o olvido,
quanto acrisola o íntimo da terra
oferece-se à ambição, — tudo vendido!


LEÓN FELIPE


HÁ DUAS ESPANHAS


Há duas Espanhas: a do soldado e a do poeta. A da espada fratricida e a da canção vagabunda. Há duas Espanhas e uma só canção. E esta é a canção do poeta vagabundo:

Soldado, tua é a fazenda,
a casa,
o cavalo
e a pistola.
Minha é a voz antiga da terra.
Tu ficas com tudo e deixas-me nu e errante pelo mundo...
Mas eu deixo-te mudo... mudo!
E como vais tu colher o trigo
e alimentar o fogo
se eu levar a canção?


PEDRO SALINAS


QUE PÁSSAROS?


O pássaro? Os pássaros?
Há um único pássaro no mundo
que voa com mil asas e que canta
com incontáveis trinos, sempre só?
São a terra e o céu espelhos? É o ar
espelho do ar, e o grande pássaro
único multiplica
a sua solidão em aparências mil?
(E por isso
lhe chamamos os pássaros?)

Ou não haverá um pássaro?
E são eles,
fatal plural imenso, como o mar,
bando inúmero, uma enorme onda de asas,
onde a vista procura e a alma quer
distinguir a verdade do pássaro único,
da sua essência sem fim, do uno belo?


VICENTE ALEIXANDRE


DESTINO DA CARNE


São, não é isso. Não olho
um céu do outro lado do horizonte.
Não contemplo uns olhos tranquilos, poderosos,
que acalmam as águas ferozes que aqui bramam.
Não olho essa cascata de luzes que descem
de uma boca até um peito e umas mãos suaves,
finitas, que este mundo encerram, entesouram.

Por toda a parte vejo corpos nus, submissos
ao cansaço do mundo. Carne fugaz que porventura
nasceu para ser chispa de luz, para abrasar-se
de amor e ser o nada sem memória, a formosa
redondez da luz.
E que está aqui, está aqui, flacidamente eterna,
sucessiva, constante, sempre, sempre cansada.

É inútil que um vento distante, com forma vegetal, ou uma língua,
lamba devagar e lentamente o seu volume, o aguce,
o lime, o acaricie, o exalte.
Corpos humanos, rochas cansadas, pardos vultos
que à beira-mar consciência sempre
tendes de que a vida não acaba, não, e se transmite.
Corpos que amanhã repetidos, infinitos, rolais
como uma espuma lenta, desiludida, sempre.
Sempre carne do homem, sem luz! Sempre rolados
desde além, de um oceano sem origem que envia
ondas, ondas, espumas, corpos cansados, orlas
de um mar que não se acaba, sempre ofegante em suas margens.

Todos, multiplicados, repetidos, sucessivos, amontoais a carne,
a vida, sem esperança, monotonamente iguais sob os céus foscos que impassíveis se herdam.
Sobre esse mar de corpos que aqui brotam sem trégua, desabrocham
nitidamente e, mortais, ficam nas praias,
não se vê, não esse rápido batel, ágil veleiro
que com quilha de aço, rasgue, torça,
abra sangue de luz e impetuoso fuja
rumo ao fundo horizonte, rumo à origem
última da vida, ao extremo do oceano eterno
que, humanos, espalha
seus corpos cinzentos. Para a luz, para essa escada ascendente de brilhos
que de um peito benigno para uma boca sobe,
para uns olhos enormes, totais, que contemplam,
para umas mãos silenciosas, finitas, que prendem,
onde cansados sempre, vitais, ainda nascemos.


FEDERICO GARCÍA LORCA


MORTE DE ANTONITO EL CAMBÓRIO


Vozes de morte soaram
perto do Guadalquivir.
Vozes antigas que cercam
voz de cravo varonil.
Cravou sobre as suas botas
dentadas de javali.
Nessa luta dava saltos
esfregados de delfim.
Banhou com sangue inimigo
sua gravata carmim,
mas eram quatro punhais
e teve que sucumbir.
Quando as estrelas espetam
rojões na água de cinza,
e quando os novilhos sonham
com verónicas floridas.
vozes de morte soaram
perto do Guadalquivir.
*
António Torres Herédia,
Cambório de dura crina,
moreno de verde lua,
voz de cravo varonil:
Quem te roubou tua vida
perto do Guadalquivir?
Meus quatro primos Herédias
filhos de Benamejí.
O que em outros não invejavam
já o invejavam em mim.
Sapatos cor de corinto,
e medalhões de marfim,
e esta pele amassada
com azeitona e jasmim.
Ai Antonito el Cambório,
digno duma Imperatriz!
Lembra-te agora da Virgem,
que estás prestes a partir.
Ai Federico Garcia,
procura a Guarda Civil!
Já meu tronco se quebrou
como uma cana de milho.
*
Três golpes de sangue teve
e agonizou de perfil.
Viva moeda que nunca
se haverá de repetir.
Um anjo pálido põe-lhe
a cabeça num coxim.
Outros de rubor cansado
acenderam um candil.
E quando seus quatro primos
chegam a Benamejí,
vozes de morte cessaram
perto do Guadalquivir.


DÁMASO ALONSO


DURA LUZ DE MORTE


A morte não tem passadas
cautelosas, nem gadanha.
A morte é a luz. Que funda
a luz do verão, amada!

Como se adensa nos hortos
que com a sesta se inflamam!
Como o conhecem as rosas!
Botão que desponta, canta-o.

Que profundeza de luz!
Massa de chumbo inflamada,
sobre o sonho da existência,
como pesa, como ameaça!

Quanta sombra num verão,
na luz de um verão! Oh quanta
morte nessa sombra fúlgida,
inexorável, diáfana!

Tal como um cão acossado,
meu coração bate em ânsia
— ardente ferver de terra —
sobre terra, sob a brasa

do céu. Do céu absorto
— rosa de cristal estática —
que vai estalar em estrias
de luz. Pára, luz, aguarda!

Dura terra, terra mãe,
protege-me com teus ramos,
encanta-me com tuas flores,
dilui-me nas tuas águas!

Pois dá inda sombra o álamo
e ainda há flores na sarça,
e a água brota e dois olhos
mudos — ai, amor — me falam.

...Contudo, arestas da tarde
já estalam em cal árdua,
fogos brônzeos, clarins híspidos
e lanças incendiadas.

No fundo da minha angústia
soam trombetas de caça!:
hirtas almas, nos outeiros,
fogem, fogem para nada...

Piedade! Afasta, terra,
minha destruição, olha, cantam
ainda as aves junto ao álveo,
trémulo o vento nas canas!

Nas ramarias dos álamos
— ora tremem, ora param —
há entre jogos de brisa
um frenesi de esperança.

E, amor, em teus tristes olhos,
que terna luz tamisada,
ai como me chama a vida,
que imperiosa me chama,

enquanto desfia a acéquia
— canavial, harpa e flauta —
seu doce engano de música,
piedoso engano! Graças,

álveo, amor, árvores! Jovem,
a minha vida, embalai-a
como a uma folha pequena,
como uma fibra de nada.

Que durma bem! Que não veja
como, soturna, prepara
esses ocres funerais
a fosca luz acerada


RAFAEL ALBERTI


BALADA DO QUE NUNCA FOI A GRANADA


Que longe por mares, campos e montanhas!
Já outros sóis olham minha cabeça branca.
Nunca fui a Granada.

Minha cabeça branca, tantos anos perdidos.
Quero achar os velhos, apagados caminhos,
Nunca vi Granada.

Dai à minha mão um ramo de luz esverdeado.
Uma rédea curta e um galope largo.
Nunca entrei em Granada.

Que gente inimiga povoa seus adarves?
Quem os claros ecos livres de seus ares?
Nunca fui a Granada.

Quem seus jardins hoje aprisiona e põe
cadeias à fala que sai de suas fontes?
Nunca vi Granada.

Vinde vós, que nunca fosteis a Granada.
Há sangue caído, sangue que me chama.
Nunca entrei em Granada.

Há sangue caído do melhor irmão.
Sangue pelos mirtos e água dos pátios.
Nunca fui a Granada.

Do melhor amigo, nas murtas distantes.
Sangue pelo Darro, pelo Genil sangue.
Nunca vi Granada.

Se altas são as torres, alta é a coragem.
Vinde por montanhas, por campos e mares.
Entrarei em Granada.


MANUEL ALTOLAGUIRRE


ELEGIA A FEDERICO GARCÍA LORCA


Esqueço-me de viver se te recordo,
reconheço-me como pó da terra
e incorporo-te em mim, tal como faz
a parte mais próxima de tua campa,
essa terra insensível que suplanta
o amoroso afã de teus amigos.

Acabada tua vida, permanece
com seu total contorno desenhado:
não há porta que ao futuro te conduza.

A árvore de teu nome floresceu
numa incalculável primavera.

A morte é perfeição, acabamento.
Somente os mortos podem ser nomeados.
Nós que vivemos, não possuímos nome.

Os fundeiros míticos da fama
atiram os cantos do teu nome ao mundo
e o lago da vida abre seus olhos
com pálpebras de vidro intermináveis:
Não há montanha ou céu, não há planície,
que em círculos concêntricos não aumente
o eco de teu nome iluminado.

Não é dor fraternal, ou pena humana,
é parte, meu pesar, do sentimento
que faz das estrelas pensativas
flores sobre a noite que te cobre.
Escrevo-te estas palavras separado
do quotidiano sonhar da minha vida,
escrevo de um astro distante onde sofro
tua perda irreparável soluçando.


(in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea, selecção e tradução de José Bento, Assírio & Alvim, 1985 - documenta poetica)

17.7.11

[há dias, assinalando o aniversário de nascimento de Neruda, coloquei aqui poemas seus traduzidos por vários Poetas portugueses. Escapou-me a tradução que Couto Viana fez de As Pedras do Céu, de que fica aqui um poema.]

PABLO NERUDA


XX


É áspera a americana cordilheira,
nevada, hirsuta e dura,
planetária:
o azul dos azuis é ali que jaz,
o azul solidão, azul secreto,
o ninho do azul, o lápis-lazúli,
o esqueleto azul da minha pátria.

A mecha arde, cresce o estalido
e esmigalha-se então o peito à pedra:
depois do dinamite é ténue o fumo
e sob o fumo o ossamento azul
e os terrões de pedra ultramarina.

Oh catedral dos azuis enterrados,
pequeno abalo de cristal azul,
olho do mar coberto pela neve
uma outra vez à luz voltas da água,
ao dia, à pele clara
do espaço,
ao céu azul volta o terrestre azul.


(de As Pedras do Céu, in Por Outras Palavras, traduções de António Manuel Couto Viana, Vega, 1997 / original: Las piedras del cielo, 1970)

16.7.11

MANUEL ANTÓNIO PINA


A QUARTA PORTA


É a solidão
o que o coração procura,
como poderei não
saber o que não sei?

Estou cada vez mais longe de qualquer coisa,
regressarei alguma vez
a tudo o que há-de vir?
O que está atrás de ti

e a tua imagem
que o Futuro persegue.
Este é um lado de tudo
e o outro é o mesmo e o outro.


(de Aquele que quer morrer, 1978 / in Poesia Reunida, Assírio & Alvim, 2001 - documenta poetica)

14.7.11

HUGO MILHANAS MACHADO


COL DU TOURMALET


Desta vez é que é muito embora
não se saiba muito bem porquê
ele vai feroz no alto do Tourmalet
faz lembrar o dia em que te imaginei
e acreditei não querendo a verdade porém

Faz lembrar o dia em que te imaginei
quando digo desta vez é que é
e agora na verdade já nem sei
que piso que vejo e grito é quem
este homem no alto do Tourmalet?


(de As Junções, edições ArteFacto, 2010)

13.7.11

Vens contraciclo a iluminar,
Traçado em arco de incongruências
Dissimuladas por acção do vento
Levando-te, ágil, por outros lugares.

(mas que assombros segues, quais os limites
ao próximo passo no teu caminho?)

Lugares de confluência e de cesura
Onde semeias canto e labirinto,
Fontes da memória sépia que trazes
ao trilho rasgado no campo seco.
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


A MULHER NA CIDADE DO HOMEM


[...]
Quando olhamos para o passado vemos que a contribuição da mulher no mundo da criação é muito limitada. As leis, a filosofia, a matemática, a pintura, a arquitectura, a escultura, a música foram quase exclusivamente criadas por homens. A mulher aparece nalgumas artes como intérprete, raramente como autora.
Isto «parece mostrar» que a capacidade criadora da mulher só existe em planos secundários ou subsidiários.
Mas há uma excepção que nos coloca no centro do problema.
Esta excepção é a poesia.
Sapho, Emily Brontë, Emily Dickinson, Louise Labé são poetas na plenitude da criação. Para além do tempo e das mutilações, um fragmento de Sapho conserva aquele poder de invocação total que é a marca de fogo da grande poesia. E da nossa época não poderei deixar de citar Edith Sitwell, Nelly Sachs, que este ano recebeu o prémio Nobel, Gertrude Von Le Fort, que é um dos grandes poetas da transcendência, e Cecília Meireles que é um dos cimos da moderna poesia brasileira.
Esta excepção que a poesia é coloca-nos no centro do problema por duas razões: porque nos esclarece sobre a situação da mulher, porque nos esclarece sobre a natureza e a vocação de humanidade total da mulher.
A poesia é a arte que menos depende da contingência. Para escrever um poema é preciso ser poeta e depois basta um papel e um lápis.
A poesia pede a liberdade da alma que a alma por si mesma conquista, pede a escolha, a ascese, a atenção do ser a todos os seres e depois basta-lhe um papel e um lápis. O escultor ou o arquitecto para realizarem a sua vocação precisam duma longa aprendizagem com escola, mestre, atelier, público, encomenda e comprador. É por isso que, e isto nos esclarece sobre a situação da mulher, a escultura e a arquitectura, como a música, o teatro e a pintura, são artes que só florescem nos países onde existem circunstâncias propícias à cultura. Pelo contrário, a poesia é a arte que sobrevive e resiste nos países pobres, subdesenvolvidos e ocupados.
Se ao longo de tantos séculos a poesia foi quase a única arte onde a mulher mostrou capacidade criadora, isto não quer dizer que a mulher só era capaz de poesia, mas sim que para ela, como para um país subdesenvolvido ou ocupado, a poesia era a única arte possível. A única arte onde a pura liberdade do espírito criador podia resistir à pressão da contingência.
Se o nome Poesia deriva do verbo «poien» que significa criar é porque é na poesia que a criação se mostra no seu estado mais despojado e nu. O material do poeta é a palavra, a palavra que é por excelência o sinal humano. A poesia parte do verbo, do princípio, parte dum tempo anterior à contingência que é o puro tempo do ser. O espírito poético é o espírito daqueles que a si mesmos se reconhecem não como situação, mas como ser a caminho.
A poesia foi durante séculos a única excepção; mas a chegada do século XX traz consigo algo de novo.
A partir de então a capacidade artística e intelectual da mulher começa a mostrar-se em actividades que, embora não fossem em si mesmas masculinas, pareciam ultrapassar a possibilidade feminina. Todos conhecem o nome de Maria Curie, todos sabem que várias mulheres trabalharam nos cálculos matemáticos dos voos espaciais, todos conhecem a pintura de Maria Helena Vieira da Silva, a escultura de Bárbara Hepworth, Germaine Richier, Louise Nevelson.
No entanto as mulheres não fizeram uma revolução e ninguém fez, para elas, uma revolução. Simplesmente a humanidade avançou. Apesar das guerras, dos conflitos, dos crimes, dos abusos e da terrível pressão das forças de reacção, a nossa época tomou uma consciência nova do valor da vida humana. O nosso tempo não admite que existam vidas sacrificadas nem vidas diminuídas mas exige para cada ser humano o direito à plenitude da sua humanidade. E foi nesta consciência nova que a mulher acedeu àquele plano da criação onde a plenitude da vocação humana se mostra.
É evidente que a parte que a mulher tem tomado no trabalho do mundo moderno contribuiu para a sua emancipação. Mas só por si o trabalho não bastaria pois a mulher sempre trabalhou e em muitas épocas e lugares o trabalho para ela foi apenas uma duplicação da escravatura. Verdadeiramente a libertação da mulher a que estamos a assistir resulta da tomada de consciência da dignidade humana que é a grande e difícil tarefa do século XX.
Pois não existe o problema da mulher, mas sim o problema da humanidade. E é por isso que o Feminismo é um caminho errado e já ultrapassado. Aliás sempre à roda da mulher se criaram falsos problemas.
Assim muitas vezes se tem oposto vocação maternal e vocação criadora. Mas a maternidade é plenitude e não mutilação, é maioridade e não menoridade. E a maternidade que é natureza e vocação é também escolha e responsabilidade. Quanto mais responsável a mulher se sentir pelos filhos que tem, mais responsável se sentirá pelo mundo com que os seus filhos vão viver. E também através dos filhos a mulher compreende que verdadeiramente a sua causa não é a causa da mulher, mas sim a causa da humanidade.


(in A Mulher na Sociedade Contemporânea - colóquios na A. A. da Faculdade de Direito, Prelo editora, 1969 - Cadernos de Hoje)

12.7.11

PABLO NERUDA


BAIRRO SEM LUZ


Vai-se embora das coisas a poesia
ou não a pode a vida condensar?
Ontem – olhando o último crepúsculo –
eu era mancha de musgo entre ruínas.

As cidades – fuligens e vinganças –,
a porcaria cinzenta dos subúrbios,
a oficina que verga as espaldas,
o patrão de olhos túrbidos.

Sangue púrpura sobre as colinas,
sangue sobre as ruas e as praças,
dor de quebrados corações,
podre de fastios e lágrimas.

Um rio abraça o subúrbio
com mão gelada que procura nas trevas:
sobre as suas águas
olham-se as estrelas com vergonha.

E as casas que escondem os desejos
por trás de luminosas janelas,
enquanto lá fora o vento
a cada rosa leva um pouco de lama.

Ao longe... a bruma do esquecimento
– espessos fogos, desfeitos quebra-mares –
e o campo, o verde campo! onde ofegam
os bois e os homens melancólicos.

Eu vou crescendo por entre as ruínas,
a sós remoendo toda a tristeza,
como se o pranto fosse uma semente
e eu o único sulco da terra.


(de Crepusculário, tradução e prefácio de Rui Lage, edições Quasi, 2005 / original: Crepusculario, 1923)


EU FUI MARCANDO...

Eu fui marcando com cruzes de fogo
o atlas branco do teu corpo.
A boca era uma aranha que corria a esconder-se.
Em ti, atrás de ti, temerosa, sedenta.

Histórias para contar-te à beira do crepúsculo
boneca triste e meiga, para que não estivesses triste.
Um cisne, uma árvore, algo longínquo e alegre.
O tempo da vindima, o tempo maduro e frutífero.

Eu que vivi num porto que era de onde te amava.
A solidão percorrida de sonho e de silêncio.
Encurralado entre o mar e a tristeza.
Calado, delirante, entre dois gondoleiros imóveis.

Entre os lábios e a voz, algo vai já morrendo.
Algo com asas de pássaro, algo de angústia e de olvido.
Da mesma forma que as redes não retêm a água.
Boneca minha, quase nem ficam gotas tremendo.
Mesmo assim algo canta entre estas palavras fugazes.
Algo canta, algo sobe até à minha ávida boca.
Oh poder celebrar-te com todas as palavras de alegria.
Cantar, arder, fugir, como um campanário nas mãos de um louco.
Triste ternura minha, mudas-te em quê de repente ?
Quando eu cheguei ao vértice mais atrevido e frio
fecha-se o meu coração como uma flor nocturna.


(de Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada, tradução de Fernando Assis Pacheco, publicações Dom Quixote, 1971 / original: Veinte poemas de amor y una canción desesperada, 1924)


WALKING AROUND

Acontece que me canso de ser homem.
Acontece que entro nas alfaiatarias, nos cinemas,
flácido, impenetrável, como um cisne de feltro
que navega numa água de origem e de cinza.

O odor das barbearias faz-me chorar aos gritos.
Quero apenas um descanso de pedras ou de lã,
quero não ver estabelecimentos nem jardins,
nem mercadorias, lunetas, ascensores.

Acontece que me canso de meus pés e minhas unhas,
do meu cabelo e até da minha sombra.
Acontece que me canso de ser homem.

Todavia, seria delicioso
assustar um notário com um lírio cortado
ou matar uma freira com um soco na orelha.
Seria belo
ir pelas ruas com uma faca verde
e a dar gritos até morrer de frio.

Não quero continuar a ser raiz nas trevas,
vacilante, estendido, a tiritar de sono,
descendo, nas cercas molhadas da terra,
absorvendo e pensando, a comer dia após dia.

Não quero para mim tantas desgraças.
Não quero fazer mais de raiz e de túmulo,
de subterrâneo só, de adega com defuntos,
inteiriçados, e a morrer de angústia.

Por isso a segunda-feira arde como petróleo
quando me vê chegar com cara de prisão,
e uiva no seu decurso qual uma roda ferida,
e dá passos de sangue ardente rumo à noite.

E empurra-me para certos recantos, para certas casas húmidas,
para hospitais onde os ossos saem pela janela,
para certas sapatarias com odor a vinagre,
para ruas espantosas como fendas.

Há pássaros cor de enxofre e horríveis intestinos
pendurados nas portas das casas que eu odeio,
há dentaduras esquecidas numa cafeteira,
há espelhos
que deveriam ter chorado de vergonha e espanto,
há guarda-chuvas em toda a parte, e venenos, e umbigos.

Passeio calmamente, com olhos, com sapatos,
com fúria e esquecimento,
passo, atravesso escritórios e lojas ortopédicas,
e pátios onde há roupa pendurada num arame:
cuecas, toalhas e camisas que choram
lentas lágrimas sórdidas.


(in Antologia de Pablo Neruda, selecção e tradução de José Bento, editorial Inova sarl, 1973 / original de Residencia en la tierra, 1935)


HINO E REGRESSO

Pátria, pátria minha, a ti regressa meu sangue.
Mas peço-te, como o filho cheio de pranto
pede à mãe:
…………...……Acolhe
esta guitarra cega
e esta fronte perdida.
Saí a procurar-te filhos pela terra,
saí a erguer vencidos com teu nome de neve,
saí a erguer uma casa de madeira pura
e a levar a tua estrela aos heróis feridos.

Agora quero dormir na tua substância.
Dá-me uma clara noite de cordas penetrantes,
a tua noite de navio, altura de estrelas.

Pátria minha: quero mudar de sombra.
Pátria minha: quero trocar de rosa.
Quero pôr o braço na tua frágil cintura
e sentar-me nas tuas pedras calcinadas pelo mar
para deter o trigo e olhá-lo por dentro.
Vou escolher a flora delgada do nitrato,
vou fiar o estambre glacial do sino
e olhando a tua ilustre e solitária espuma
tecerei à tua beleza um ramo litoral.

Pátria, pátria minha,
rodeada de água combatente
e neve combatida,
em ti a águia junta-se ao enxofre
e na tua antártica mão de arminho e de safira
uma gota de pura luz humana
brilha incendiando o céu inimigo.

Guarda a tua luz, oh pátria!, mantém
a dura espiga de esperança no meio
do cego ar temível.
Na tua remota terra caiu toda esta luz difícil,
este destino de homens,
que te faz defender uma flor misteriosa,
só, na imensidade da América adormecida.


(in Trocar de Rosa, traduções de Eugénio de Andrade, Na Regra do Jogo, 1980 / original de Canto general, 1950)


III
OLHAR SOBRE A GRÉCIA

Oh lágrimas, ainda não é tempo
de acudirdes aos meus olhos,
de acudirdes aos olhos dos homens,
pálpebras, erguei-vos
da escuridão do sono, claras
ou sombrias pupilas,
olhos sem lágrimas, olhai a Grécia
crucificada em seu madeiro.
Olhai-a toda
a noite, todo o ano, todo o dia,
vertendo o sangue do seu povo,
ferindo as fontes
em seu terrível capitel de espinhos.
Vede, olhos do mundo,
o que a Grécia, a pura,
suporta, a chicotada
do mercador de escravos,
e assim de noite e ano e mês e dia
vede como se levanta a cabeça
do seu povo orgulhoso.
De cada gota
caída do martírio
cresce de novo o homem,
o pensamento tece as suas bandeiras,
a acção confirma pedra a pedra
e mão a mão
a altura do castelo.

Oh Grécia clara,
se em ti a escuridão despejou o seu saco
de estrelas negras, sabes
que em ti própria
está a claridade, que tu recebes
a noite inteira em teu regaço
até que das tuas mãos
a aurora se levante,
voo branco molhado de orvalho.
À sua luz ver-te-emos,
antiga e clara mãe dos homens,
sorrir, vitoriosa,
mostrando-nos outra vez a tua
…………………………………..........…brancura
de estátua, entre os montes.


(de As uvas e o vento, tradução de Albano Martins, Campo das Letras, 2007 / original: Las uvas y el viento, 1954)


Ode à vida

Toda a noite
com um machado
a dor me feriu,
mas o sonho
passando lavou como uma escura água
ensanguentadas pedras.
Hoje estou vivo novamente.
De novo
te levanto,
vida,
sobre os meus ombros.

Ó vida,
taça cristalina,
de súbito
enches-te
de água suja,
de vinho morto,
de agonia, de desgraças,
de pegajosas teias de aranha,
e muitos crêem
que guardarás para sempre
essa cor infernal.

Não é verdade.

Uma noite lenta passa,
passa um só minuto
e tudo muda.
Enche-se
de transparência
a taça da vida.
Um longo trabalho
nos espera.
De um só golpe nascem as pombas.
Se engendra a luz sobre a terra.
Vida, os pobres
poetas
julgaram-te amarga,
não saíram da cama
contigo
com o vento do mundo.

Sofreram os amargores
sem te procurar,
barricaram-se
num negro tugúrio
e foram-se atolando
no luto
dum solitário poço.
Não é verdade, vida,
és
bela
como a minha amada
e tens entre os seios
odor a menta.

Vida
és uma máquina plena,
felicidade, rumor
de tempestade, ternura
de delicado azeite.

Vida,
és como uma vinha:
amealhas a luz e reparte-la
em cacho transformada.

Aquele que te renega
que espere
um minuto, uma noite,
um ano curto ou longo,
que saia
da sua mentirosa solidão,
que indague e lute, junte
as suas mãos a outras mãos,
que não adopte nem proclame
a má-sorte,
que a estilhace dando-lhe
forma de muro,
como à pedra fazem os canteiros,
que a corte
e dela faça
umas calças.
A vida espera
todos aqueles
que amam
o selvagem
odor a mar e a menta
que ela tem entre os seios.


(de Odes Elementares, tradução de Luís Pignatelli, publicações Dom Quixote, 1977 / original: Odas elementales, 1954)


PARA TODOS

De repente não posso dizer-te
o que te deveria dizer,
homem, perdoa-me, saberás
ainda que não escutes as minhas palavras
que não me pus a chorar nem a dormir
e que estou contigo sem te ver
desde há muito e até ao fim.

Eu percebo que muitos pensem,
e Pablo o que faz? Estou aqui.
Se me procurares nesta rua
encontrar-me-ás com o meu violino
preparado para cantar
e para morrer.

Não é por querer deixar alguém
nem aos outros, nem a ti,
e se escutares com atenção, na chuva,
poderás ouvir
que vou e venho e me demoro.
E sabes que devo partir.

Se não se entendem as minhas palavras
não julgues que sou o que outrora fui.
Não há silêncio que não se acabe.
Quando chegar o momento, espera-me,
e que saibam todos que saio
à rua, com o meu violino.


(de Plenos Poderes, tradução de Luís Pignatelli, publicações Dom Quixote, 1975 / original: Plenos poderes, 1962)


Começo por invocar Walt Whitman

É por acção de amor ao meu país
que te reclamo, ó necessário irmão,
velho Whitman da cinzenta mão,

para que, com teu apoio extraordinário,
verso a verso, matemos de raiz
Níxon, o presidente sanguinário.

Sobre a terra não há homem feliz,
ninguém trabalha bem no planeta
se em Washington respira o seu nariz.

Pedindo ao velho bardo que me invista,
os meus deveres assumo de poeta
armado do soneto terrorista,

porque devo ditar sem pena alguma
a sentença até agora nunca vista
de fuzilar um criminoso ingente

que apesar das suas viagens para a lua
já matou na terra tanta gente,
que até foge o papel e a pena se alevanta

ao escrever o nome do maldito,
do genocida, o da Casa Branca.


(de Incitamento ao Nixonicídio e louvor da Revolução Chilena, tradução de Alexandre O’Neill, Agência Portuguesa de Revistas, 1975 / original: Incitación al nixonicidio y alabanza de la revolución chilena, 1973)

5.7.11

PlTÁGORAS


Saberás ainda que os homens
livremente e por si próprios
escolhem os seus males.

Miseráveis que são, não sabem
nem ver nem entender os bens
à sua beira.
Poucos os que aprenderam a
libertar-se de seus males.


Tal é a sorte que perturba
os espíritos dos mortais
rolando em sentidos vários
acabrunhados por males sem fim.

Inata nos homens realmente
a aflitiva Discórdia os
acompanha e prejudica
sem que dela se apercebam.
Não a provoques antes foge
dela, cedendo.


(excertos de Versos de Ouro Que vulgarmente andam em nome de Pitágoras em vulgar traduzidos por J.[osé] B.[lanc de] P.[ortugal], Assírio & Alvim, 1988 - Assíria)

4.7.11

ARTUR PORTELA FILHO


Os cães


O rafeiro chegou ao pé do cão do portão e perguntou-lhe:
— Tu é que és o meu dono?
Como o cão do portão dissesse que não sabia responder, foram os dois lá dentro procurar o cão do jardim e perguntaram-lhe:
— Tu é que és o nosso dono?
Como o cão do jardim dissesse que não sabia responder, foram os três procurar o cão da porta e perguntaram-lhe:
— Tu é que és o nosso dono?
Como o cão da porta dissesse que não sabia responder, foram os quatro procurar o cão da cozinha e perguntaram-lhe:
— Tu é que és o nosso dono?
Como o cão da cozinha dissesse que não sabia responder, foram os cinco procurar o cão do corredor e perguntaram-lhe:
— Tu é que és o nosso dono?
Como cão do corredor dissesse que não sabia responder, subiram os seis a procurar o cão da escada e perguntaram-lhe:
— Tu é que és o nosso dono?
Como o cão da escada dissesse que não sabia responder, subiram os sete a procurar o cão do patamar e perguntaram-lhe:
— Tu é que és o nosso dono?
Como o cão do patamar dissesse que não sabia responder, subiram os oito a procurar o cão da porta e perguntaram-lhe:
— Tu é que és o nosso dono?
Como o cão da porta dissesse que não sabia responder, entraram os nove a procurar o cão do quarto e perguntaram-lhe:
— Tu é que és o nosso dono?
Como o cão do quarto dissesse que não sabia responder, foram os dez procurar o osso e perguntaram-lhe:
— Tu é que és o nosso dono?
O osso ladrou.

(de Três lágrimas paralelas, editorial Caminho, 1987)

3.7.11

JOÃO RUI DE SOUSA


PRELÚDIOS

l


Prelúdios eram. E sobreviviam
ao tão contido tempo
de uma chama.

Na lentidão exacta
em que eles cresciam,
seus pascentes olhos
eram inícios
de directriz e lâmina.


2

No timbre dos começos,
reboam as auréolas e os címbalos
de bem-aventurança.

Felizes, tangem seus anúncios
de vivaz fortuna
(o clarão de um beijo os selará).


3

No alumínio corre,
em discretas tintas de alvorada,
a mão que principia.

Então, as ervas rasas
que a sustentam
tornam-se limos e perfumes
convergentes
no acordeão dos dias.


4

Férteis, os ventos desciam pelas margens,
desciam pelo branco de sublimes paredes.

Férteis, os ventos contornavam as rampas
com a sombra e o som dos clarinetes.


5

Irrompe talvez fácil o piano:
quase em tumulto, lesto e varonil;
ou ávido de plumas, gracioso e frágil.
Mas logo as suas teclas vão voando
em cadências graves, majestosas,
em rumor de calmas andorinhas
procurando poiso em outras margens:

as que, em seu recato, são
mansões de afecto;
as que, meditabundas, são vindima.


6

O amor é um pão nobilitante que
sagrado torna quem à boca o leve
nos dias mais altos: os dias oriundos
de taças erguidas sem palavras,
alçados na festa que os inunda.


7

Eis que de repente se abrem
as absolutas fontes (as pedras
consteladas, firmes, bem defronte
do coração habitado).

Eis que de repente um corpo arde.


8

Tremem as mãos de assombro e de alegria
quando, junto à deusa,
seguem a sua fragrância de amoras,
os seus delicados contornos:

são cálidos caminhos animados
crescentemente em nós.


9

O azul frequenta às vezes as palavras
como se fosse um deus esplendoroso
ou um sino alado, sobrevoante à vida,
ou um fruto essencial a boiar no mosto.

(O azul percorre às vezes a cidade).


(de Quarteto para as próximas chuvas, publicações Dom Quixote, 2008)

1.7.11

[faz hoje 30 anos que morreu um dos maiores Escritores/Poetas portugueses do Séc. XX]


CARLOS DE OLIVEIRA


Noite de verão


I

De súbito, a lua japonesa
desenha na janela
as três colinas dum hai-kai;
e vê-se então
que a sua luz, o círculo
cortado ao meio
no horizonte de cimento,
basta para tornar o ar oxidado
quase cor de rosa;
assim se aprende,
ao anoitecer, como o verão
escreve cidades mais legíveis;
embora breves; sobre
alicerces que flutuam
em torno do leitor nocturno,
e talvez a imagem
do meio círculo que falta
à lua, no horizonte.


II

Tágides trazendo,
do alto mar à água doce,
a escama, o fósforo, da espuma;
e o sal saturado de vento
a explodir no rio,
nas suas rugas;
com a luz eléctrica baixando
às páginas fac-similadas
do pelicano para a esquerda:
círculo completo
que as centrais, as redes,
mantêm tenso e branco
como a lua; já reconstituída;
a desprender-se do horizonte;
tágides, por fim sobre cavalos
claros; nuas; inventando
um som diferente
aos decassílabos.


III

O electrocardiograma lido
como um horóscopo;
o sândalo; as colunas de ouro;
sem esquecer o lírio mosto
a abrir-se, a exalação
do cedro; ou antes:
o amor relido noutros corpos;
no gráfico tão simples,
onde a vertigem surge
com a lentidão quadriculada
dos erros, dos desvios: mais nitidamente
que um bólido fotografado
em Indianápolis; enfim,
no cântico dos cânticos,
há um corpo a corromper-se;
estático; só de se expor ao ar,
a agulha mede-lhe o declínio
a cada pulsação.


IV

Uma criança perde-se
nas dunas; na aridez;
sem decidir
se as nuvens são também
de areia; mas em Roncesvales, no tumulto
das réplicas furiosas; quando a névoa
prolonga pelos despenhadeiros
tubas de corno, gritos;
a linguagem é sem dúvida
uma bruma áspera; silábica;
sobre o suor dos homens,
dos cavalos; quanto às nuvens,
examinando-as bem, parecem
doutra consistência:
areia, talvez não; embora a areia
possa evaporar-se e o vento; sabe-se lá;
a use para dourar as nuvens
ou torná-las mais duras.


V

No ritmo cardíaco
o desdobramento do primeiro
ruído não se acentuou;
mas como tudo pulsa,
o cansaço geral; a erosão;
prossegue ao ritmo da noite;
cada vez mais lento, o ar
desce nos brônquios; este
poema sufocado
respira apenas as sílabas
precisas; digitalis;
digital: o dedo aponta
o coração; a ponta do estilete
apoiada no peito;
ou o cano ósseo do revólver;
acentuou-se, claro; mas,
no meio céu, a lua sobe
sem desbobar o seu ruído.


VI

Leitura organizada
nos três alvéolos essenciais;
que são, o quê? só conhecemos
este número; tridente
dum mar obsessivo, com a terra
ao centro da forquilha,
entre o passado e o futuro:
espuma num e noutro flanco;
as três hastes soltas
do signo romano; ou o algarismo
árabe: as setas dirigindo-se
à esquerda; sempre o coração;
unidas na sua dupla curva;
apenas isto; e uma palavra
de que sabemos pouco: alvéolos,
onde se inserem, nos esperam
insectos; dentes; várias formas
de sermos devorados.


VII

Quanto às paredes impermeáveis,
difícil ler cá fora
o grito entre a pergunta e a resposta;
do nascente, do ocaso,
sobem marés; ao mesmo tempo;
num azul vagaroso que a ascensão
dilui pelas praias da lua,
agora no seu ponto mais alto;
imóvel; calculando os riscos da descida;
difícil ler a densidade
que o silêncio impõe a um corpo
donde se tira o sono
por seringas lentas; gota a gota;
onde se escava a gruta; ou então
se encontra a pedra renitente
às brocas, ao seu aço;
enquanto o verão reescreve a lua
longe do horizonte.


VIII

Hipótese possível:
quanto maior for a distância
mais frágil é o astro;
segunda hipótese, provável:
a atmosfera sabe
que refractar estrelas é um jogo; e ganha-o;
desta deduz-se uma terceira:
blocos de pó irradiante,
endurecidos pelo vácuo,
sentem a sua luz estilhaçar-se
perto de nós; o interruptor,
como a palavra diz,
interrompe a leitura; hipótese:
provoca um frémito na água
da barragem; talvez verificável;
e outra ainda, quase sem sentido:
a sombra; a lâmpada apagada;
a transformar-se em sono.


(excerto de Sub Specie Mortis, de Entre Duas Memórias, 1971, in Trabalho Poético, 3ª edição: livraria Sá da Costa editora, 1998)

29.6.11

ANTÓNIO REBORDÃO NAVARRO


POST-SCRIPTUM

Se a solidão nos rói os ossos,
se temos de negar
e é forçoso viver
entre paredes que não crescem nem mingam,
caminhar e sorrir e criar com esforço
urgentes intervalos para a dor,
em papéis sem mistério
faremos nossa história
tão simples como o bom e o mau tempo.
Entretanto,
falamos, discutimos,
cuspimos na paisagem,
desafiamos a tristeza
e mordemos o corpo da alegria.

(Não sei se tu me vês
quando a insónia te envia
anjos de roxos olhos
que te impelem, atraem
e, súbito, te deixam.

Não quero dizer que te ouço cantar,
porque não ouço,
quando os muros se apertam,
quando encho grandes dias
de silêncio e mais nada.)

Escrevo-te estas linhas de verdade
porque sei que não choras
quando a vida to ordena,
porque sei que és livre
a desprezares
a gordura dos dias.

(Não te dou minhas mãos,
sento-me contigo à mesa que puseste,
que sempre pões em qualquer sítio,
— nos barcos, nos cafés, onde tu estás —
tua ternura é uma longa mesa
onde se sentam todos os vagabundos.)

Dou-te vinte séculos de fome sobre o mundo,
vários milhões de cruzes e cadáveres nos campos,
inumeráveis dramas conjugais,
pavores de toda a espécie
e o esforço que minha mãe faz para não chorar.

Só te envio
o que guardei das quedas mais terríveis,
o olhar para trás, o reter uma lágrima,
o ter trazido na minha mão direita
o frio que cobria a mão de meu pai morto.

Não te falo de coisas ociosas
que nunca possuiremos,
não te falo de roteiros fingidos
nem te envio palavras pelo vento.

Não te peço para me dares a paz
que nunca tive
nem mesmo a que julgava ter e me levaste.

Não te ofereço o único e perfeito
lugar do mundo aonde
talvez ainda exista a felicidade,
mas junto as minhas ruas
de crianças, eléctricos e caixotes de lixo
às tuas ruas de ladrões, prostitutas,
máquinas e polícias.

Mais livre
(ou menos livre?)
do que dantes,
mais sereno
no entanto,
embora
a garganta
se encha
de acerados punhais
e uma ruga
recente
denuncie
que, às vezes,
num só instante
o mundo cresce
mais do que
em milénios,
abro todas as portas
e todas as janelas,
abro todas as veias
ao teu sangue,
vou contigo
por um caminho
por demais luminoso.


(de Aqui e Agora, 1961)

23.6.11

FERNANDO CORREIA PINA


O BIBLIOTECÁRIO SEGUNDO S. LUCAS


Estou tão bem quanto o pode estar
o que respira e ás vezes pensa
na morte inevitável, tarde ou cedo.
Habito entre o êxtase e o medo,
entre o tempo a correr pelo meu curso
e o meu curso desfeito pelo tempo.
Estas estantes são as oliveiras do meu monte...
estes livros são os apóstolos e a multidão...
acodem-me à memória muitas vezes...
Muitas vezes sou todos os homens
sós à beira de um cálice infinito.


(in Poetas e Escritores da Serra de S. Mamede, organização de Ruy Ventura, Amores Perfeitos, 2002 / originalmente da revista A Cidade, nova série, n° 3, 1989)

21.6.11

TIAGO PATRÍCIO


A CATURRITA DO JARDIM TROPICAL DE BELÉM


Ave que passa
que põe e dispõe da luz
que acorda os corpos
sinónimos em Belém
e repassa pela calçada
como se fosse
a beleza inteligível

Ave exótica que descalça
o jardim pela sombra
onde o Verão excessivo
refulge com o olhar trémulo
e me toca debaixo
dos arbustos insulares

Ave que ofusca e reluz
que esconde e aparenta
os sintomas de penas interiores
e um canto sinóptico
de uma insolência elementar


(de O Livro das Aves, edições Quasi, 2009)