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7.3.11

CEES NOOTEBOOM


[...] O professor de Neerlandês, bom, se alguém quisesse caricaturar esse tipo humano, podia tomá-lo como modelo. Ensinar aos alunos uma língua que já conheciam desde o útero, perverter a pululação selvagem dessa língua com o matraquear fastidioso de números ordinais, formas duplas de plural, verbos de partículas separáveis, atributos ou locuções preposicionais, ainda se aceita, mas ter o aspecto dum escalope mal passado e falar de poesia, isso é ir longe de mais. E ele não se limitava a falar de poesia, escrevia também poemas. De dois em dois ou de três em três anos saía uma colectânea minúscula das notícias da morna província da sua alma, versos desdentados, comboios de palavras à deriva no branco das páginas. Se acaso viessem a colidir com um só verso de Horácio desintegrar-se-iam sem deixar rasto.


(excerto de A História Seguinte, tradução de Ana Maria Carvalho, Quetzal editores, 1993)

28.7.08

CEES NOOTEBOOM

ENGODO


A poesia não pode tratar de mim,
nem eu da poesia.
Estou só, o poema está só,
o resto é dos vermes.
Estava à beira das ruas onde moram as palavras,
livros, cartas, notícias,
e esperava.
Sempre esperei.

As palavras, em formas claras ou escuras,
transformaram-se em alguém escuro ou mais claro.
Poemas passam por mim
e reconheciam-se como coisa.
Via-o o via-me.

Esta escravidão não tem fim.
Esquadrões de poemas procuram os seus poetas.
Vão errando sem comando pelo grande distrito das palavras
e esperam o engodo da sua forma
feita, perfeita, fechada,
concentrada e

intangível.

(in Um Mundo Claro, Um dia escuro – Oito Poetas Holandeses, tradução de August Willemsen e Egito Gonçalves, Limiar, 1988 – Os olhos e a memória / original de Aas / Engodo, 1982)

30.8.06

CEES NOOTEBOOM

CAUDA


Olha para as coisas, vê-as
na sua inocência metafísica
incertas da sua existência.

Lembra-te da conversa
no caramanchão, um Verão nórdico,
hortênsias, a razão de uma rã,
rosas, mascaras.
Incenso sem igreja.

Uma borboleta a esvoaçar na China
rasga uma tempestade na Finlândia.
Alguém o disse; ficaste calado.
Era o que tu já sabias.

Quando é que as pinturas se desfazem
do pintor, quando é que a mesma matéria
se transforma noutra ideia? A bruma da tarde
passava pela relva, afogada a alameda, a fonte
e a casa.

Música, o chapinhar de remos,
alguém acende a luz, alguém
que não acredita na penumbra.
A pergunta sem resposta erra
pela janela.

(tradução de Arie Pos, in Poesia em Lisboa 2000, Casa Fernando Pessoa e PEN Clube Português, 2000)