31.12.07

MANUEL DE FREITAS

HANTAÏ, 1992



Ou digamos cravo, cetim
- how beautiful -
destas horas vãs. Entre
o torpor e o excesso,
tão próximos (outra vez) da morte.

Num gesto de penumbra, avanças
- e o meu rosto passa
a ser outra coisa qualquer.
Fugaz sinónimo de beleza

em vez das punhetas do costume.


(de Büchlein für Johann Sebastian Bach, Assírio & Alvim, 2003)

24.12.07

VASCO MIRANDA

ANUNCIAÇÃO



Amigo: a tua próxima presença
Anuncia-me o mistério ainda não revelado.


Virás como o sonho, na noite, caído sobre as pálpebras
E como a alvorada debruçada sobre o mundo...
Virás com o teu verbo quente e a tua mão leal
Para o aperto solidário que nenhum poder separará.
Virás juntar a tua vida à minha vida,
Comer o mesmo pão, sugar o mesmo sol.


E virás, com o silêncio das horas em que as nossas bocas não saberão falar,
Para selarmos num poema eterno o milagre das nossas almas reveladas,
A fecundar a poesia viva as nossas vidas que não queremos estéreis e ignoradas.


(de Luz na Sombra, 1946)

19.12.07

[outros melros XLVIII]


NUNO JÚDICE

ZOOLOGIA: O MELRO


Na gaiola, o melro não tem o bico mais amarelo
do que fora dela. Encolhe-se a um canto,
coitado, e parece envergonhado;
- embora esteja ali por culpa de quem lá o meteu
sabendo que um melro não cai do céu.

Há pássaros assim, que qualquer um
mete numa gaiola, apesar do bico ser amarelo.
Não cantam. Não voam. Não falam.
São pássaros cegos
com a mudez dos oráculos e mudos
com a lucidez dos profetas.

Perfeitamente por acaso, abri-lhe
a gaiola. E ele deixou-se estar, sem sair
nem entrar.


(de Um canto na espessura do tempo, 1992)

15.12.07

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

CLAREIRA


Um branco lunar, prestígios sem certezas
os galos lutadores arrebatam o jardim
é tão rápido um lugar enquanto avança o vento
debaixo de que árvore se pode ver

a chama pousada por um brado
mais forte, mais fraco
passagens de cor vermelha
intensidades, torções

teus olhos buscam na clareira o ponto invisível
um único sentido, infinitas vezes

através de que perguntas, de que respostas
se regressa à partes inseparáveis?

(de A Estrada Branca, Assírio & Alvim, 2005)

14.12.07

ANTÓNIO RAMOS ROSA

A S. JOÃO DA CRUZ


Por uma secreta escada
desceste ao nocturno horto
onde encontraste o Amado
pastor de invioláveis graças
entre perfumadas nascentes.

Sem arrimo e com rumo
da tua cegueira vidente
te consumaste no centro
da divindade obscura,
alma e amor conjugados.

Num cego e escuro salto
subiste e logo desceste
para de novo subires
à indizível essência
de um não sei quê misterioso
ao qual, inteiro, te rendeste.

Pão vivo e fonte eterna
chamaste ao fruto escondido
que o teu desejo aspirava
e nele encontraste guarida
mesmo dentro da noite.

Sabias não haver caminho
para chegar a essa fonte
de que a origem não sabias
e que de tudo era origem
e a que chegaste num lance.

Toda a ciência transcendias
sem entender entendendo
e no puro imo bebias
o sol da profunda noite
em divina companhia.

Nada mais te contentava
que a vida da tua vinha
que lá no alto pairava
e lá no fundo ardia
com o rosto da formosura.

Chegaste aonde não eras
por onde não eras foste,
sempre às escuras na noite
até esse não sei quê
que é a existência da Vida.


(de Os Signos da Amizade, edições Asa, 2004 - colecção pequeno formato)
EDWIN HONIG

Antes que as palavras
pudessem servir de conforto
uma definitiva amargura
dissipá-las-ia


- Ninguém apreende
o que está além de si

nem como
na mão quente
que lhe sustém o pensamento

o gérmen seu irmão
mata instantaneamente


Sempre
além da fala
e da cópula
há a guerra
e a morte


O criminoso
sobrevive à vítima
para se tornar
um homem tranquilo


Nenhum homem é
em si próprio
o inocente
que supõe ser


Há sempre
a guerra

o insignificante
reduzindo a lixo o essencial
o incêndio submerso
em densas espirais

e o desenho diluindo-se
sem o divisarmos
com a plenitude final
já à vista


Não há seres
interiores ou exteriores

só o frenesim dos anseios
bruxuleando
ao longo dos corredores
pelas infindáveis trevas


Na luz
não há coração

só a degradação
e a dissipação
da sempre mesma luz


Sempre
a guerras prestes a eclodir
toda a luz
desaparece de repente

todo o pensamento
se esvazia


Não há
primeiros nem últimos

só o amargo fim


(de Dádivas de Luz, tradução de António Ramos Rosa, editorial Caminho, 1992 - Caminho da Poesia)

11.12.07

FERNANDA BOTELHO
Nasceu no Porto em 1926. Formou-se em Filologia Clássica em Coimbra e em Lisboa. Publicou os primeiros poemas na revista Távola Redonda. Da sua bibliografia apenas consta um volume de poesia, tendo-se destacado, principalmente, na prosa, mas também como tradutora.
Morreu hoje.

"(...) a sua poesia árida, seca, sarcástica, antilírica, é notável, como de uma Emily Dickinson vivendo a sua lucidez na desagregação de uma sociedade e de um mundo, aos quais aplica uma desassombrada e cínica visão, que usa insòlitamente as palavras e os símbolos, numa forma concisa, para sugerir afinal uma personalidade segura de si e da sua perspicácia, ìntimamente entregue a uma intensidade sentimental que desdenhosamente recusa exibir-se. (...)"
(Jorge de Sena, in Líricas Portuguesas)

(ver aqui uma entrevista ao Público, em 2003)


MIOPIA

Sempre que vejo
o que os meus olhos não queriam
ver
(mas que sabem ser verdade)
É sempre este doer.
Como se a minha sensibilidade
estivesse toda no olhar e ver.
Como se a minha revelação
apenas viesse inteira,
para além da fronteira
do que os meus olhos dão.

Sempre que vejo...
Porque me dói assim?
Porque se desprende em mim
essa mágoa-essência
de surpresa retardada?

A minha consciência
está míope e cansada.


RENOVO

Quem falou na eternidade?
(Não espero mais que cinco minutos).
O tempo vai-me ceifando a idade
e aliviando os lutos.

O meu desgosto
foi posto ao lado.

Renasço sempre poderosa
em verso ou prosa,
no berço do sem-cuidado.

(in Távola Redonda, fascículo 4 - 1 de Março de 1950)


AS COORDENADAS LÍRICAS

Desviou-se o paralelo um quase nada
e tudo escureceu:
era luz disfarçada em madrugada
a luz que me envolveu.

A geométrica forma de meus passos
Procura um mar redondo.
Levo comigo, dentro dos meus braços,
oculto, todo o mundo.

Sozinha já não vou. Apenas fujo
às negras emboscadas.
Em cada esfera desenho o meu refúgio
- as minhas coordenadas.


LEGENDA

Como quem sente
na legenda do presente
o fim duma história breve,
vou vivendo um sonho intacto
num pesadelo crescente
uma luz fecunda e leve
nos olhos pardos dum gato.

(de As Coordenadas Líricas, 1951)


LUZ

A mesurável condição humana,
quanto me exige! Quanto proclama
o seu poder em mim!

Tall submissão nem me redime
nem me liquida.
Não é renúncia sublime
nem carícia retribuída.

Não tenho eira nem beira,
vivo nas dobras da terra
e aceito quanto me dão.

Eis o meu nome: toupeira.
- E o meu olhar se descerra
apenas na escuridão.

(in Graal, n.º 2)


ELOGIO DO SONO

Ó noite das mães-noites - os açoites
da sombria harmonia entre o binómio,
o diálogo e o solitário Orfeu!
Entre um anjo ansioso e um bom demónio,
O binómio sou eu.

Mudos por fim caímos, diagonais
entre dois ais do mais lambido pranto
a regar o sorriso do infecundo.

Solta-se então o vendaval dum canto
que varre todo o pó, re-cria o mundo.

(in Líricas Portuguesas - II volume, selecção e apresentação de Jorge de Sena, 1983)

30.11.07

MICHELANGELO MERISI DA CARAVAGGIO



A Morte da Virgem, 1606
óleo sobre tela
369x245 cm
Paris, Museu do Louvre


AMADEU BAPTISTA

CARAVAGGIO: A MORTE DA VIRGEM


Ela é a virgem,
embora tenha conhecido muitos homens
e os seus filhos peregrinem pelo mundo
com lágrimas nos olhos
por não terem mãe.

Já cadáver, encontrei-a no Tibre,
e trouxe-a para aqui para a pintar,
sabendo que os frades não me irão
indultar a ousadia
– hão-de dizer que a tela é indecorosa
e que no meu trabalho nunca largo
o escândalo que me é próprio,
sempre tocado pela lascívia.

Na bacia de cobre está um preparado
com vinagre
para lavar o corpo da defunta,
sendo que aos pés da morta
é Maria Madalena que se vê,
com a cabeça caída
sobre o peito
por ser fundo o desgosto
de ver a amiga morta
– tinham chegado a Roma
há muito tempo
e conheciam-se
de pequenas aventuras nas tavernas,
sendo que às vezes partilhavam a cama
e os clientes,
ou, sendo caso disso, uma manta
no Inverno,
ou algum pão,
escasso,
o mais das vezes.

No centro da pintura estão três apóstolos.
A razão por que um deles está estupefacto
e ergue a mão direita
tem a ver, somente, com o drama
de a morte ser injusta,
usurpe alguém divino,
ou um miserável que não tenha
onde cair morto.

Mateus,
de todos os apóstolos o mais sábio,
porque estudou nos livros e na vida,
sabe que não há bálsamo eficaz
para quem parte,
por muito que tenha já sofrido;
por isso, o represento assim,
inconformado,
com uma mão aberta, e outra fechada:

a vida é tudo o que nos resta
estando vivos – o que vem a seguir
nunca se sabe que dimensões comporta,
mesmo que haja luz no outro lado
e a promessa de bondade seja cumprida.

Ao lado de Mateus, pintei Tiago,
que presume que a mulher não faleceu,
mas só se encontra adormecida
– se deu à luz, um dia,
e os seus filhos estão aí a comprová-lo,
ainda que dispersos pelo mundo,
é porque o transe da morte ultrapassou,
e dorme, apenas, para que conheça a eternidade
e influencie o céu
com a sua doçura perene de mulher.

O outro é Lucas,
que, a olhar em frente,
está a tentar compreender o que é um corpo,
essa engrenagem obscura,
que, sem álibis,
nos reflecte os métodos de Deus
– que dá, a cada um, um modo de sorrir e de chorar,
um modo de sofrer e de amar,
um modo de nascer e de morrer.

Atrás dos três apóstolos,
está disposto o mundo
– é gente que encontrei pelos mercados
e, em silêncio, dá testemunho
de que há na terra um tempo
em que se deve duvidar do que é certo,
sendo que certa há-de estar sempre a morte,
mas, também, o trabalho que aguarda
pelas nossas mãos,
na oficina,
nos campos
ou em casa.

Um é curtidor de peles,
outro negoceia cereais e vinhos,
outro faz cestos, e vende-os pelas praças,
outro é talhante,
um outro é ferrador e é barbeiro,
outro é astrónomo,
outro copista,
outro é soldado,
e outro pede esmola nas vielas,
a gritar a quem passa por piedade.

O mundo, pois.
Onde esteja a morte
é bom que um pintor figure o mundo,
para que no jogo de sombras fique incluso
esse jogo mais duro do confronto
com a realidade,
onde o próprio veludo tem cores cruas.

É isto que os frades me não perdoam
– o meu desassombramento perante o mundo,
a concisão patente no que faço,
chamando-lhe indecência
e insinuando que vesti de vermelho esta mulher
por gozo pessoal e por volúpia.

Não é verdade.
Antes de mais, porque a encontrei assim.
Depois, porque pensei que numa mulher não há pecado,
seja ela quem for e de onde venha.
Por último, porque tratando-se da virgem,
só mesmo o sangue a pode vestir,
o sangue espesso e forte,
de modo que quem olhar esta pintura
saiba o que vê, imediatamente:

uma mãe
que o sofrimento jamais abandonou,
em tudo o que viveu
– os perigos que há ao dar à luz,
a fuga para o Egipto,
a ameaça concreta no Sinédrio,
a árdua resistência necessária
para perscrutar em qualquer cruz
a iniquidade que o destino alcança.

Inchado,
maculado,
desfigurado
tem o seu rosto esta mulher morta,
adormecida.

E eu sou Caravaggio,
que luto, denodadamente, com a arte
para que a tragédia,
sagrada ou profana,
se represente igual à sua gravidade,
cantem, ou não, os anjos as hossanas,
goste-se, ou não se goste, do que faço.

A vida é turbulência
– e é assim que chega às minhas telas,

e é assim que o que pinto,
entre claros e escuros,
me proclama.

(de Poemas de Caravaggio, inédito - vencedor do Prémio Nacional de Poesia Natércia Freire, 2007)

29.11.07


O poeta Amadeu Baptista foi galardoado com o Prémio Nacional de Poesia Natércia Freire 2007, promovido pela Câmara Municipal de Benavente, com a obra "Poemas de Caravaggio".

Foram ainda atribuídas Menções Honrosas às obras "Principia Matemathica", de Carlos Rodrigo da Silva Vaz, "As Limitações do Amor são Infinitas", de Rui Costa e "A Educação do Mal", de Fábio Nunes Viana Mendes Pinto.

Este prémio, no valor de cinco mil euros, foi atribuído pelo segundo ano consecutivo, e é patrocinado pela Companhia das Lezírias.

(também anunciado aqui, aqui, aqui, aqui e aqui)

25.11.07

FERNANDO GRADE

COZINHA EM PÓ



Este domingo breve vai trazer
zângãos ou (apenas) bagos de uva.
A água sobe do peixe
não sabe a ratos brancos nem a goivo
sabe a peixes.
E o rosto que lanças aos javalis?

Os teus dentes rápidos de madressilva
são a minha única metáfora:
salsa misteriosa como festivas carroças
zunindo fuziladas de morangos.

A arte bucólica do azinho ao absinto
não passa de um compêndio
para melhor esfaquear os duendes!

Todos tivemos o nosso
almoço
de pedras, pequeno
fascínio de aves degoladas em casto puré
de castanha, o som do banquete ainda é pólen
em salas que - das ruínas - guardaram o calor bom
dos bolos.

De noite, à luz de velas azuladas, os répteis zelam
com os seus moncos manhosos.
E a paz dos rosais esteja convosco.

Nisto, pardo e rubro, o rio
esfacela as próprias piranhas
enquanto a água do peixe
não sabe a ratos brancos nem a goivo
sabe a peixes.

Quando será que as montanhas
virão beber
à minha triste mão?

Estoril
- 17 e 19 de Outubro de 1985


(de Alma Burra, edições Mic, 1987)

24.11.07

LUIZA NETO JORGE


I


O poeta é um animal longo
desde a infância



II

Começaria por ser
um movimento lento sob a treva



III

Povoadas estão as salas
por crias não humanas
roedoras criaturas
causticando



IV

Vinde animais míticos
ou os místicos com seu santo atento
os que escoiceiam no pino do outono
hermafroditas
raptores de mulheres
os procriadores de crianças
os heráldicos
tampas de caixão
os homens por equívoco
os voadores voláteis
súcubos
satanazes
vinde selvagens animais
dentro dos ossos
vorazes



V

Não aceito as classes zoológicas
nada que lhes facilite
a tão terrestre permanência
tão aérea tão aquática
tão misteriosa tão cósmica
circulação
a tão cheia de facilidades naturais
de naturais dons da natureza
dos prados dos rochedos das águas doces
das almofadas

Entre deitar-me e levantar-me
sento-me ajoelho-me acrobato
aprendo uma infinidade de gestos que
me conduzem a um sem número de situações
mais densas
e umas impiedades do corpo e quantas
duras dores de dentes
transportadas ao espírito que me eliminam
do outro reino animal

Um animal (qualquer)
se alça a pata espessa sobre o mundo
atormenta


(da sequência Outra Genealogia, in O Seu a Seu Tempo, 1966)

23.11.07

JOSÉ TERRA

O vocábulo exacto, os capilares
por onde passe o vento e o sangue,
o líquido solar ou este súbito
desejo de extermínio.

Assim, quando vós, palavras hirtas,
estalardes, e meu canto for
fragmentos dispersos sob a cinza,
- Adeus! oh barcos onde nunca fui,
ameias onde resisti.

(de Canto Submerso, Portugália editora, 1956)

22.11.07

JOSÉ SARAMAGO

O primeiro poema


Água, brancura e luz da madrugada,
E nardos orvalhados, olhos tardos,
E regressos de longe, lentos, vagos,
De espiral que se expande, ou nebulosa.
Assim diria que o mundo se criou:
Gesto liso das mãos do universo
Com perfumes e auras que anunciam,
Noutras mãos de quimera, outro verso.

(de Provavelmente Alegria, 1970)

13.11.07

MARIA VELHO DA COSTA

É hoje um dia em que a mediania disto me parece não insuportável, como todos a dizemos, mas injusta. Injusta como tudo o que deveras se não entende e contudo se nomeia. Todos os nomes e todos os juízos e todas as análises me parecem passar ao lado. Tomámos de mão todos os instrumentos comuns, o saber que a história não vagueia, e temos ajustadas as grelhas das ciências humanas ao que vemos. Paira sobre nós um grande susto singular e onde não temos cólera, temos razão. A nossa cólera volveu-se um discurso dela. A boçalidade de toque lírico e aguçado que era a nossa cobriu-se afinal de uma modéstia atilada e verbosa e apressamo-nos, os de melhores intenções, a que a ela se substitua o desejo de consumir o razoável supérfluo. Onde antes a única fonte de corrupção era o luxo, o que era ainda pujança, hoje corrompe-se pela afirmação do relativamente necessário. Dir-me-á que em toda a parte. Mas antes deste ponto, cada núcleo de gentes teve a sua traição peculiar a perpetrar, o seu campo de mortos intransmissíveis, seu canto particular a serenar. A nós, coube-nos a prematura paixão da honestidade, a aprendizagem da aptidão algébrica e um grande aborrecimento sossegado e assexuado.

(excerto de Maina Mendes, 1969)

1.11.07

[evocando todos os santos]

CRISTINA CAMPO

MISSA ROMANA

I

Inerme como nenhum lírio
no luminoso
sudário
sobe o Calvário
teologal
penetra na sarça
ela crepita há milénios
sempre oculta
na odorosa nuvem da língua.

Curvado por terríveis
ventos
beija em silêncio sagradas feridas
eleva, mostra
puras mãos trespassadas
mendiga paz
entre polegar e indicador
um fio sobre o abismo do Verbo mantém.

Da ossada dos mártires
trituração de alegria
cresce
a raiz de Jessé
desabrocha no cálice abrasado
e na branca lua
onde se cruzam o sangue e
o estandarte
surgindo vacilam seus
joelhos.

Sobre a pedra angular
que estilhaça a morte
eleva-a à altura das lágrimas
e repousa-a
com materno terror
sobre estigmas, esses lábios
que curam
a vida.

Em torno ao pasto
mortal
nas orlas de Deus
silvam serpentes mordem o corporal
nos quatro ângulos do conopeu
retraem-se as folhas
dos céus
fendas danificam os pilares.

Assediados
à porta
marcados pelo cheiro da peste
fingem e vendem com gracejos
a enfermos e disformes
da probática
pia
a sua suave máscara de suplicio.


II

Falcoeiro do Céu
sobre cuja mão levantada
o Eterno Predador investe
ávido de prisões...


III

Onde vai
este Cordeiro
que aos virgens é dado
seguir onde quer que vá
este Cordeiro
que está direito e morto
sobre o livro dos assinalados
ab origine
mundi?

Não se pode nascer mas
pode-se permanecer
inocente.

Onde vai
este Cordeiro
que a nós que o supliciamos não é dado
seguir com os assinalados
nem fugir
mas soluçando suavemente conceber
no escuro seio da mente
usque ad consummationem
mundi?

Não se pode nascer mas
pode-se morrer
inocente.

(de Poemas Dispersos, in O Passo do Adeus, tradução e prefacio de José Tolentino Mendonça, Assírio & Alvim, 2002 - documenta poetica)

31.10.07

[a propósito da passagem de 105 anos]

ADÉLIA PRADO

Agora, ó José


É teu destino, ó José,
a esta hora da tarde,
se encostar na parede,
as mãos para trás.
Teu paletó abotoado
de outro frio te guarda,
enfeita com três botões
tua paciência dura.
A mulher que tens, tão histérica,
tão histórica, desanima.
Mas, ó José, o que fazes?
Passeias no quarteirão
o teu passeio maneiro
e olhas assim e pensas,
o modo de olhar tão pálido.
Por improvável não conta
o que tu sentes, José?
O que te salva da vida
é a vida mesma, ó José,
e o que sobre ela está escrito
a rogo de tua fé:
"No meio do caminho tinha uma pedra"
"Tu és pedra e sobre esta pedra"
A pedra, ó José, a pedra.
Resiste, ó José. Deita, José,
dorme com tua mulher,
gira a aldraba de ferro pesadíssima.
O reino do céu é semelhante a um homem
como você, José.

(de Bagagem, 1976)
[um verso que se ouve por estes dias]


vai desarmar a flor queimada








30.10.07

YVETTE K. CENTENO

VOZES


Vozes
contra as paredes

nessas vozes
não se pode nadar

o fluido é espesso
misto de alga
e de esgoto
destroçar
das paixões

praia
ao fim da tarde

nadando
com a maré vaza
na direcção da rocha
onde os deuses
se escondem

(de Entre Silêncios, Pedra Formosa, 1997 - colecção Arco Imperfeito)

BRITO CAMACHO

«Ali as enxertias são coisa trivial, não umas pequenas enxertias, como fazem os cirurgiões da Europa, mas enxertias do mais largo alcance, e da mais apurada technica.»

(excerto de Pó da Estrada, livraria editora Guimarães & C.ª, 1930)


Passo ao José do Carmo Francisco (aqui ou aqui, tanto faz...), à Lídia, ao Marco, ao Miguel (aqui ou aqui, tanto faz...) e ao Nuno.

Regras:
1. Pegue no livro mais próximo, com mais de 161 páginas – implica aleatoriedade, não tente escolher o livro;
2. Abra o livro na página 161;
3. Na referida página procurar a 5.ª frase completa;
4. Transcreva na íntegra para o seu blogue a frase encontrada;
5. Aumentar, de forma exponencial, a improdutividade, fazendo passar o desafio a mais 5 bloggers à escolha.

29.10.07

EVA CHRISTINA ZELLER

O MAR NÃO CONHECE O MAR


o mar não conhece as profundidades
nenhum azul nem conhece as suas ondas
o mar não é soberbo nem
manso nem amargo
não conhece o sabor do vento nem da espuma
o mar não vê nenhum sol
nem terra nem seixos
o mar não ama o céu
nem a lua
o mar não se conhece

(de Sigo a Água, tradução e prefácio de Maria Teresa Dias Furtado, Relógio d'Água, 1996)

28.10.07

SALETTE TAVARES

RAJADA


É grande o grande no mar grande e mar
é verde azul cinzento ar
é vida desespero na areia a enterrar
sem terra
só de claro e agreste o meu vagar.
Passado o trilho que o dia me ensinou
passadas dunas tão limpas pelo vento
a sombra me desenha em rente quente
o todo fogo sol que me detém
tangente.
Breves os passos corridos
e perdidos
leves de areia roçando-me na face
vestido o vento
inteira esteira de poeira me desfaço.

(de Quadrada, 1967)

27.10.07

EMILY DICKINSON

Experiência para mim
É cada qual que eu encontro.
Será que contém um Fruto?
A Imagem de uma Noz

Aparece numa Árvore,
Igualmente plausível;
Mas Miolo é requisito
Para Esquilos e p'ra Mim.



c. 1865

(in 80 Poemas de Emily Dickinson, tradução e apresentação de Jorge de Sena, edições 70, 1978)

26.10.07

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

A REGRA DO JOGO


Adivinham-se tempos difíceis:
obsessão apoderou-se das tribos;
uma vírgula pode ser um crime,
a ameaça esconde-se numa frase incompleta.
Os jornais encheram-se de notícias peregrinas,
os editoriais ponderam. Murmura-se
nas fileiras, a especulação prospera.
Com um salário que é como mau tecido,
depois da primeira lavagem, o funcionário público
poupa na fruta, no tabaco, no queijo. Amanhã,
de comboio, a História enfrentará o seu destino,
ou, pelo menos, uma cópia que levará tempo
(medido em lustros) a rasurar.

(de Nada Tão Importante Que Não Possa Ser Dito, Assírio & Alvim, 2007)

25.10.07

GRÉCIA ANTIGA

Niki tis Samothrakis / Vitória de Samotrácia
Paris, Museu do Louvre


MARIA ÂNGELA ALVIM


VITÓRIA DE SAMOTRÁCIA


Não aqui, - além é que existes. Teu vôo
demais amplo na extensão dos olhos
de tão curto olhar,
em tempo de pausa acompanhamos.

Mito
anjo
graça
alma de dança
teu corpo era paixão na pedra.

... Param os passos,
espraia-se o mar
onde arrebatas as vestes do vento,
ó vertigem de ser e de estar!

(de Barca do Tempo (1950-1955), 1962 - in Superfície / toda poesia, Assírio & Alvim, 2002)
GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

- O que tem, compadre? - perguntou.
O coronel suspirou.
- É Outubro, compadre.

(excerto de Ninguém Escreve ao Coronel, tradução de José Colaço Barreiros, 1990)

23.9.07

DAVID MOURÃO-FERREIRA

EQUINÓCIO


Chega-se a este ponto em que se fica à espera
Em que apetece um ombro o pano de um teatro
um passeio de noite a sós de bicicleta
o riso que ninguém reteve num retrato

Folheia-se num bar o horário da Morte
Encomenda-se um gim enquanto ela não chega
Loucura foi não ter incendiado o bosque
Já não sei em que mês se deu aquela cena

Chega-se a este ponto Arrepiar caminho
Soletrar no passado a imagem do futuro
Abrir uma janela Acender o cachimbo
para deixar no mundo uma herança de fumo

Rola mais um trovão Chega-se a este ponto
em que apetece um ombro e nos pedem um sabre
Em que a rota do Sol é a roda do sono
Chega-se a este ponto em que a gente não sabe

(de Do Tempo ao Coração, 1966)

22.9.07

BORIS VIAN

QUERO UMA VIDA EM FORMA DE ESPINHA


Quero uma vida em forma de espinha
Num prato azul
Quero uma vida em forma de coisa
No fundo dum sítio sozinho
Quero uma vida em forma de areia nas minhas mãos
Em forma de pão verde ou de cântara
Em forma de sapata mole
Em forma de tanglomanglo
De limpa-chaminés ou de lilás
De terra cheia de calhaus
De cabeleireiro selvagem ou de édredon louco
Quero uma vida em forma de ti
E tenho-a mas ainda não é bastante
Eu nunca estou contente

(in Canções e poemas, tradução de Irene Freire Nunes e Fernando Cabral Martins, Assírio & Alvim, 1997 - Rei Lagarto)

21.9.07

[para o Hugo, a propósito de relâmpagos]

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

OS AMIGOS


Voltar ali onde
A verde rebentação da vaga
A espuma o nevoeiro o horizonte a praia
Guardam intacta e impetuosa
Juventude antiga -
Mas como sem os amigos
Sem a partilha o abraço a comunhão
Respirar o cheiro a alga da maresia
E colher a estrela do mar em minha mão

1993

(de Musa, 1994)

19.9.07

JOSÉ AUGUSTO SEABRA

Não cedas à leveza estéril do vento, quando uma respiração fácil te impele ao abandono dos remos e à ancoragem horizontal do olhar, rendido à ondulação flácida, sem prumo. Endurece a espalda das vagas, flectindo as suas vértebras dolentes, até ao âmago da espuma, amuralhada no dorso mineral do ar.

(de Fragmentos do delírio, Eurosigno publicações, 1990)
ALEXANDRE SARRAZOLA

Cruz Quebrada - Dafundo


quatro papagaios mignons cruzam o céu da Cruz Quebrada
verdes e lestos sobre as antenas dos prédios
contra a brancura concreta dos estendais dos terraços
desaparecem dolorosamente como caças japoneses
em acrobacias crepusculares (numa fita muda)

aqueles dois nonagenários (nonagenários era em 89)
de bom grado os guardariam nos olhos: mãos dadas,
a fumar: dando idílicos passeios em círculos
nos quadrados de relva entre os prédios;
eram os dois chineses; tinham vindo de Maputo aonde
haviam chegado de Goa; ele, sempre de boné vermelho,
tinha combatido na de 39-45 ao lado dos japoneses;
eram donos daquele restaurante na Avenida Brasília:
"O Suíça"

ficávamos a ver as mãos dela nas dele, sobre o tampo
de contraplacado azul claro da mesa do café: muito mirrados
a perderem-se no olhar um do outro

quatro papagaios mignons contra o céu da Cruz Quebrada
(cheios de swing)
como figuras envernizadas entre as demais pinceladas baças
um instante de ornitoepifania (em movimento):
eis que rompem o azul sobre os cafés da praça
e me privam da memória dos velhos

(de Thaumatrope, Averno, 2007)

18.9.07

RAUL DE CARVALHO

O perfume que às vezes, à noite, resvala
da madeira para o coração.

Cuidado, coração, não morras:
tudo de ti depende.

Que coisa há, coração,
que não dependa de ti,
de tuas pétalas contínua, continuamente trémulas?

Coração, eu te coloco
no galo de oiro,
no cimo, no cimo da torre!

Coração, eu te coloco
na origem.

Casa imóvel dos músculos,
cérebro sempre cheio,
olhos, olhos meus preferidos
por que substituís
a boca -

É verdade que sois
uma e a mesma
porção de fatalidade?

Peito engolindo
sem dar por isso
o ar da manhã:

Há um sorriso
para trocar
por outro sorriso:

Há uma criança
que quer ser teu filho:

Há um dia que quer
ser bom para ti!

Com versos semelhantes aos teus
eu podia produzir
a tranquilidade.

Com essa desesperada confiança
que tens em ti nos outros na existência em Deus
eu podia produzir
a tranquilidade.

Com esse teu inimitável modo
de ler versos humanos em tom divino
eu podia produzir
a tranquilidade.

Com o teu sangue e o meu
eu podia produzir
a tranquilidade.

IV-55.

(de Poemas inactuais, 1971)
AQUILINO RIBEIRO

... Olhem sempre em frente, olhem o Sol, não tenham medo de errar, sendo originais, iconoclastas e anti, o mais anti que puderem, e verdadeiros, fugindo aos velhos caminhos trilhados de pé posto e a todas as conjuras dos velhos do Restelo. Cultivem a inquietação como fonte de renovamento

[palavras proferidas na homenagem que lhe foi prestada na Sociedade Portuguesa de Escritores - citado por António Valdemar, Expresso-Actual, 15 de Setembro 2007, p. 12 - conforme citado (e sublinhado) por masson, no Almocreve da Petas]

17.9.07

JOÃO CAMILO

I


1

É de manhã, os pássaros
cantam. De que infinito guardaram
a nostalgia? Enquanto a desconhecida dorme ainda
ao lado da janela. E eu contemplo o cimo das árvores.

2

Ao lado da janela dormes.
Desconhecida.
E um rio, como esquecer, separa-te da luz.
Um peixe ou pássaro descansa na tua orelha,
a folha - ou som? - é cor nos teus seios.

3

O cabelo desviado da fronte
a construir a margem da orelha.
O seio nu no lençol branco,
página de livro nova
no cheiro e no olhar.
Ventre liso, céu, mar,
viola,
onde se esconde o acorde. Ao lado
da janela dormes. Desconhecida,
e eu sopro sobre as folhas do arbusto,
na solidão do silêncio.

4

O tambor do revólver
roda
à volta no teu sangue.
Melro inquieto das tuas veias.
O ponto de mira no cano
da pistola
descobriu o meu olhar,
acompanha-me:
quotidiano como os minutos
e segundos
do nosso encontro
na escada.

5

As tuas pernas tocam a claridade.
No calor da noite.
Perto das florestas,
na inclinação das colinas.
E aprendes com que colorir-nos
o dia.
Enquanto os teus cabelos acariciam o terror

E despertas repousada.

6

Os teu cabelos alongam-se,
roubam a cor à árvore
(é outono)
e a luz e brilham.
No esconderijo da noite.
O sono: estás distante,
tão calma.
Na sombra das árvores o silêncio
das colmeias
inquieta o pólen das flores.

7

Ao lado da janela,
desconhecida dormes.
Com o sono
- ponte de vidro -
E o teu pé nu.
E o ar que te respira
deixa de esperar

o azul da luz do dia.

8

As árvores em frente de casa
não perderam de vista o teu cabelo.
Imitam
o método de cair no ombro,
a linha, a curva lenta, a cor,
o sobressalto de tocar a orelha.
E eu?

9

Da adolescência das tua pernas,
da sua solidão,
o pequeno caminho conhece a sombra:
calor do mármore.
E o silêncio
- luz e água,
tensão -

que nelas se move.

10

Longe das florestas dormes
desconhecida.
Distante das montanhas,
das colinas.
O algodão do sonho separa-te da sombra,
um arbusto - ou árvore? - adormece no teu rosto.
E eu?

11

A água das fontes,
o calor dos campos,
pulsam no teu corpo.
Desconhecida,
no refúgio do quarto descubro o teu olhar.
Lago escondido, visto
do cimo da montanha?
Página, arbusto, árvore,
folha, peixe, som,

rio,
floresta,
melro.


(de Para a Desconhecida, 1983)

14.9.07

EGON SCHIELE


Árvore de outono com brincos de princesa, 1909
óleo sobre tela
88,5 x 88,5 cm
Darmstadt, Hessisches Landesmuseum




valter hugo mãe

"árvore de outono com brincos de princesa"

no quadro onde
as árvores adoptam os
filhos

por momentos
onde eu passei a falar
com as folhas sem aprender
a voar sem aprender
a voar ou a bulir as
pressas do vento

onde o que existe no meu passado
se escusa e o que habita os dias
se chama chão e sentado
no frio que vem da luz

por momentos escondo
o peito, terreno onde os
filhos se plantam e se
encheu de ar

onde o quadro é uma mancha clara
que egon não sabe explicar.


(de egon schiele, auto-retrato de dupla encarnação, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, 1999 - colecção Explicação das Árvores)

10.9.07

[outros melros XLVII]

[dois melros ou o mesmo?]



EÇA DE QUEIROZ

Jacinto adiante, na égua tarda, murmurava:
- Ah! que beleza!
E eu atrás, no burro, com as pernas bambas, murmurava:
- Ah! que beleza!
Os espertos regatos riam, saltando de rocha em rocha. Finos ramos de arbustos floridos roçavam as nossas faces, com familiaridade e carinho. Muito tempo um melro nos seguiu, de choupo para castanheiro, assobiando os nossos louvores. Serra bem acolhedora e amável... - Ah! que beleza!

(excerto do conto Civilização, publicado pela primeira vez na Gazeta de Notícias, entre 16 e 23 de Outubro de 1892)


Jacinto adiante, na sua égua ruça, murmurava:
- Que beleza!
E eu atrás, no burro de Sancho, murmurava:
- Que beleza!
Frescos ramos roçavam os nossos ombros com familiaridade e carinho. Por trás das sebes, carregadas de amoras, as macieiras estendidas ofereciam as suas maçãs verdes, porque as não tinham maduras. Todos os vidros de uma velha casa, com a sua cruz no topo, refulgiram hospitaleiramente quando nós passámos. Muito tempo um melro nos seguiu, de azinheiro a olmo, assobiando os nossos louvores. Obrigado irmão melro! Ramos de macieira, obrigado! Aqui vimos, aqui vimos! E sempre contigo fiquemos, serra tão acolhedora, serra de fartura e de paz, serra bendita entre as serras!

(excerto de A Cidade e as Serras, publicado pela primeira vez, postumamente, em 1901)

29.8.07

VASCO GRAÇA MOURA

A sua poesia é o palco das suas fragilidades?


Não. É a expressão das minhas possibilidades.

(entrevista ao Jornal de Notícias, 25 de Agosto de 2007)

28.8.07

JOÃO CABRAL DE MELO NETO

OS RIOS DE UM DIA


Os rios, de tudo o que existe vivo,
vivem a vida mais definida e clara;
para os rios, viver vale se definir
e definir viver com a língua da água.
O rio corre; e assim viver para o rio
vale não só ser corrido pelo tempo:
o rio o corre; e pois com sua água,
viver vale suicidar-se, todo o tempo.

2.
Pois isso, que ele define com clareza,
o rio aceita e professa, friamente,
e se procuram lhe atar a hemorragia,
ou a vida suicídio, o rio se defende.
O que um rio do Sertão, rio interino,
prova com sua água, curta nas medidas:
ao se correr torrencial, de uma vez,
sobre leitos de hotel, de um só dia;
ao se correr torrencial, de uma vez,
sem alongar seu morrer, pouco a pouco,
sem alongá-lo, em suicídio permanente
ou no que todos, os rios duradouros:
esses rios do Sertão falam tão claro
que induz ao suicídio a pressa deles:
para fugir na morte da vida em poças
que pega quem devagar por tanta sede.

(de Educação pela pedra, 1966)
EDUARDO PRADO COELHO

Porque se move, escreve. E dos blocos desgarrados dessa escrita resultam livros que surgem como provisórias plataformas de encontro em que, como diz Eduardo Lourenço, criticado e crítico amorosamente se justificam pela «invenção mútua de existência».


(excerto de A Língua da Água, in A Mecânica dos Fluidos, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1984)

27.8.07

ALBERTO DE LACERDA


A terra tem túmulos a mais

Mas os teus olhos
Ressuscitam tudo

Tu e eu
Morreremos
De excesso de eternidade

19-5-1967


(da sequência Ariel e a Luz, in Oferenda II, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1994)

12.8.07

DOMINGUEZ ALVAREZ

O Bispo, 1933
óleo sobre tela
Colecção de Menéres Campos




MIGUEL TORGA

Porto, 8 de Maio [de 1944]


O BISPO


Soturno como um cipreste,
O triste bispo que eu sou
É pintado.
Diante de Compostela,
Meu bispado,
Ali estou na minha tela,
Magro, pálido e parado.

Olhos cavados de fé
Nariz curvo e descaído,
Boca rasgada e torcida,
Até na tinta se vê
Que não anda bem na vida
Quem já no céu está perdido.

A fogueira arde por dentro
Da batina e da romeira...
A fogueira...
O lume que reconcentro
Numas brasas da lareira.

Ninguém se salva comigo,
Porque eu próprio me condeno.
No quadro, o meu inimigo
É um postigo...
Um simples olhar sereno.

Foi o pintor Alvarez
Que me pintou tal e qual:
Inquisitor castelhano
A fazer um entremês
Mais humano
Em Portugal.

(de Diário III, 1946)

11.8.07

MIGUEL FLÓRIAN

ESTA LÍNEA QUE PARECE ALEJARSE



Esta línea que parece alejarse
no es el mar,
ni el corazón tampoco.


La brisa de la noche,
en el estío,
a veces nos devuelve
sílabas semejantes,
parecidas fronteras.


El mar abandona en el alma
guijarros, caracolas,
palabras como éstas

(pero más verdaderas)


(de Anteo, Colección de Poesía "Juan Ramón Jiménez", 1994)



ESTA LINHA QUE PARECE AFASTAR-SE

Esta linha que parece afastar-se
não é o mar,
nem tão pouco o coração.


A brisa da noite,
no estio,
por vezes devolve-nos
sílabas semelhantes,
fronteiras parecidas.


O mar abandona na alma
seixos, búzios,
palavras como estas

(porém mais verdadeiras)



(tradução minha)

10.8.07

HELGA MOREIRA



É hora de endurecer palavras
num regime de tempo
Hora de entardecer agonias
e recrutar pântanos de verdade


Hora de silêncios consultados
Hora breve em tempo demorado
Hora de já é tempo sem tempo de espera


Hora de fragilidade quebrada


É hora das horas que não se viveram


(de Cantos de Silêncio, 1978)

9.8.07

[Havemos de ser úteis como mortos há muito]



JOÃO VÁRIO
Pseudónimo de João Manuel Varela, que utilizou também os pseudónimos Timóteo Tio Tiofe e G. T. Didial. Nasceu em 1937, no Mindelo, em Cabo Verde.
Uma síntese da sua Vida e Obra pode ser encontrada aqui.
Morreu na madrugada de ontem, na sua cidade natal.


CANTO TERCEIRO

E assim rodamos de objecto em objecto
Como seres concebidos no alto inverno,
Tal o círculo das coisas e as coisas do seu tempo,
Porque um homem pode matar-se,
E, se nos matamos, porque seres
Concebidos no alto inverno,
Sem a farinha deste ano e esta pausa aguda
(Oh tal lassidão, o decúbito, a ansiedade!),
Podemos ceder ao tempo e seu tempo o tremor
E a vaidade que não exigem de objecto
Em objecto, qual tempo que não exige
Esse giro fulminante e essa pausa aguda,
Tal, se nos matamos, há tal coisa de verão
Para citar e criamos mais depressa
E cedo rodamos de objecto em objecto
E não o negam os que vêm no verão.
Que vos dizíamos nós?
Nessa altura da vida
Tivemos medo à sabedoria.
(Sob seu sumário prestígio, a alma, lembrança
E ela, decide
Sua necessidade de privilégio, de fruta e algo
Que omitimos.
E não saberemos que é impossível, impossível.
Ao movimento narrado de ter a vida,
Somos sem deuses, e vagos.
Oh o que amáramos
Não fosse a unidade
A que a alma nos força!
A noção, à mão, o cânone, à porta,
E o valor do rosto quando dorme:
Facto, ode ou cárie
Que comemoram a longevidade).
E eis que as casas se enchem dos ossos
Que perdemos, medindo a terra
Com os crânios que a vida perde porque é outra,
E o repouso das paredes que vão cegando
Crânio e terra, família e ambos. Tal os
Ossos arrefecem sem a chuva, como ela,
E as terra que os cobre nos cobre menos
Ou abre do nosso lado outra terra vizinha
Da terra que vamos dando com os ossos,
A chuva, o cobri-la hoje, terra
Ou chuva que outra coisa não cobriu, ontem.
Quando morríamos, ou cobre hoje, quando
O suicídio nos acode
E arrefecemos com ela, diz-se,
E outra vítima em nós, assim e alheia.
E em toda a parte a urna é a mesma,
E a língua que enche o túmulo
É o tumulto que persegue as crianças
Sobre a terra dos pais, a pá maior e a loucura
Tal espera outras trevas para a profecia,
O dogma, o granizo que desabam sobre o soro
Dos rostos, pasmos óbvios sem o horror dos discípulos,
A versão de seu deus e nossa inocência de adultos,
Adobe ou adubo que a boca arrasta
Na saliva para a hóstia povoada
Que não o tempo, mas seu tempo,
Doeu ou deu no peito largo, chão,
Não cristão, que bebe e morde
Da água desta celha, veste desta roupa na corda
E esfrega a terra deste mundo
Sobre seu corpo de pobre, como óleo,
(Só quando imutáveis mortos nos legássemos,
Nos não aterre essa capitulação
Que amamos proibir. Com efeito,
O que blasfemamos é inominado. Entanto,
Se de símbolos, e lúgubres,
Os pactos tecemos com a alma,
Tê-la é tão só a dimensão sua
E alheá-la, reduzida).
E tudo que a nós, presságio,
Pasmos, perdulário instinto,
Regressa,
Circunscreve-nos à tradição
Aleatória
De em pura fatalidade concluir a alma.

(Eis a vítima, nosso saco de gâmetas e de enzimas,
Com agosto arrastando vidro e pedra,
Coentro e alho pelas portas dos vivos,
Tal cadáver ou mó desta ternura
Com que outrora arávamos sua estéril vida
De mês nosso estéril mês de vida, às portas das vítimas,
Tal a profissão menor, as gengivas
E as jovens da cidade falando de Plotino).

Para a culpa que em nós se inconstitui
Absolve-nos, legando-nos
A desespero menos fortuito
Que exaustão ou remorso. Contudo,
Nem de tão sepultos
Nos logramos menos vulneráveis.
O falso alarme, o lucro, a ofensa,
O opróbrio, a tolerância, a escolha,
Pecadores apenas e tal como pecadores,
Coisas que repetíramos, coisas que ficaram,
Coisas de ostentação e de verbo alto,
Coisas do humor, da páscoa, públicas coisas,
E coisas de primavera transacta, de semana santa,
Coisas porque nos matamos ao pedido do óbulo,
E coisa de redacção privada.
Qual vantagem ou cumplicidade ou acordo póstumo,
À entrada da ilha, no principio da igreja, à hora
De sair com os utensílios para a prece,
Para a preguiça, para a carícia e para a gratidão
Na revolta e no massacre reflectimos,
A vantagem, a cumplicidade, o hábito, olvidados
Ou amando os únicos rostos, indigência como fruto
Que ao seu sentido coube, tal
A luxúria, a nudez, o vexame, a volúpia,
O habito, o tédio, a monotonia, a inveja,
O tédio, o mau humor, o hábito, o tédio,
A vontade de viver e o temor de morrer,
E a vantagem, a cumplicidade e o acordo póstumo. Tal
O vício é um novo presente para os crimes nossos
E sob a alegoria da tarde e a amizade do meio-dia,
Impetuosíssimos, discorremos sobre a família,
As horas de sono e os meses de gestação
E de trabalho árduo, tal sua paz,
Paz certa, paz outra, paz amplíssima e paz grande.

Trata-se do ócio, da diferença, do baptismo, ó homens.

(Tudo chegou com o engano, a data do parto,
A primeira fome, o engano,
A data do parto é um mais triste coito).

Pagãos votivos e, de votivos, concussos,
O que restituímos de conclusão e apocalipse
Não assimila na razão e no desígnio
A desfigura que nos sobrevive - crime
Ou tutela do pão que a reminiscência promove.
Pois que o tempo que nos traímos
Não supõe corpos supérfluos,
O conhecimento é a só mesma dor
Com que nosso próprio abandono confundimos.
Sabemos, pois, que o que falta é um pouco de utilidade.
A réplica, o inverno imediato, a escuridão alta
E os primeiros surtos do favor, os meses e os anos
De setembro brusco, e as últimas mesas e o vinho
Chegando com a estupefacção, a impotência,
E a réplica, o inverno imediato e a escuridão alta.

Porque de ser modo ou tal tempo ou tal
Celebridade, a vergonha, o desprezo, a falência,
A chave do regresso e a opressão do regresso,
Desde regresso e desde regressar, regressando
(A solidão do outono e a fatalidade do outono,
Outono ou outono, outono sempre,
Outono se assemelhando, outono semelhante,
A solidão de ter e de não ter feito,
Sendo mais nada em nada, ou nada,
E tempo de considerar que morremos),
Porque de ser modo ou tal tempo ou tal
Celebridade, eis que para cima do robusto vaso do sangue
Sangue em si próprio e acima de outro sangue,
Elevamos, a meio do casto outono, a cabeça sonora.
A recusa, o bem da luta, o morto e seu morto.
Tal os mortos nossos, nem sempre
Mortos sempre ou mortos connosco ou com morte
Por que morreram. Tal um pouco são
Da hospitalidade que o corpo inclina para a sombra
Que o usa, ao meio-dia, o gozo, a arma,
E a terra e as varizes que os usam. Mortìssimamente
Mortos.

Pois sem beber é da atenção e do alarme que falamos,
Sem eles bebendo, porque menos bebem,
Ao fundo do diário sangue bebendo, porque há os que menos bebem,
Tal necessidade e fecho ou desnecessidade e desfecho.
E tal é o sangue no fundo do sangue, seu sangue por dois,
Sangue outro que duplo, sangue com advento do sangue,
Ou sangue que esquecemos de beber, bebendo.

Quando junho começa e se fala
De mutilações e de outubro,
O homem o domingo recebe
Como quem mutilações e domingo
Reflecte, pois a alma se lembra de junho,
E está alta, menos alta, através de estar-se lembrando,
Outubro lembrando.

É, pois, um outro soleníssimo inverno. Inverno e sua corda
E cabaz de nos observar com a mão, de nos tomar
Por outra vida, sua vida de inverno e sua
Inverníssima vida, e de inverno,
De inverno ouvindo. E
Homens destes tempos, sem a excelência deles,
Homens precários, lassos, mais,
Enquanto seguíamos, baços, falsos, entre estevas e o século,
De longe seguíamos a mulher aguardando
Seu sexto filho,
O choro, o vento e a venda em seu ventre,
Ventre seguindo de longe, ventre ou ventre, ventre
Sempre, ventre a esmo.

(Por certo, a planta dos pés de um homem
De nada vale neste mundo. Pois
Que são o seu rectângulo de ruído,
Sua tensão de carne, agosto, o camelo
E o fundo da agulha, como se diz?)

Tudo conhecemos agora que o sol cai e é a simples razão de cair
E hesitar connosco. O sol, sem de ser sol tal,
Sol tanto, sol aquele do solo, do solstício, do sono,
Do desenvolvimento, de sol tal.

Ah dignidade! acreditamos valores de abominação
E de dezembro.
Tempo grande e oramos. Aula e beijo,
E ninguém precipita sua sesta de crente,
E sabemos que vamos cumprindo como fidelidade
O que a fidelidade com alta sapiência cumpriria.
E tal é o assunto.

Que preceito, pois, que celeridade ou feitio
Que frio será, homem, tua totalidade?

Não insistimos mais sobre estarmos tristes e morrermos.
A herança, o jogo, o frenesi, o gesto,
O apetite, o negocio, apetite
De destruição e de vantagem,
De continuar e de sobreviver.
Também o triunfo, o prazer, o prazo de morrer
E de ganhar, de acabar e de recomeçar,
E o gozo da obediência. Tal
A paz. Paz e mito numeroso
A mesa desdobrando sobre a notícia, o sarcasmo,
O dolo ao sétimo dia de junho,
Mês da impaciência e de canto triste, mês
Com verão e da sua teoria do verão e do tempo,
Mês velocíssimo.
A jornada, o aniversario, o arrependimento.
Tal o alimento por baixo do alimento,
O alimento acima do alimento. Alimentìssimamente.
Festa e espelho. A recepção
O sucesso, o tempo. Tempo grande.
Tal há os que menos bebem, porque menos bebem, porque menos bebem,
Sem eles bebendo, ou bebendo, tal
Não há imortalidade
E não podemos pagar a reminiscência.
Porque pasmos e hábitos vacilam em nós
O limite e as lembranças.
E enquanto instituímos os signos
E nos louvamos nos mortos imortais,
A alma, génese e ela,
Decide sua necessidade de privilégio, de fruta e algo
Que omitimos. Tal
Memória ou memórias,
Memórias como salário
Ou cântaros de sacrifício,
No signo dos gémeos, ao vigésimo terceiro ano
Do principio do signo,
Humanas razões de censura e audiência,
E o auxilio, o prazo grande, a possibilidade
Porque da morte nos ficou esse dom
De a pensarmos como coisa sua,
Coisa por que a pensamos e acaso não a exprime
Porque a designamos.

Há muito passado no estar aqui com o tempo.
Fim e reconhecimento, e não sofrendo mais do que o tempo concede,
Fim de novo e reconhecimento de novo,
E tudo é crime, ou crime sempre, crime ou crime,
Criminosìssimamente crime,
Quando arriscamos a intensidade, comemorando.
Aumento a festa, ou cilício, e tempo de cair a tempo de seguir,
Tempo de mal cair e tempo de mal seguir,
Oh amamos tanto, amamos tanto estar aqui com o tempo
E sabendo que há nisso pouco passado.
Porque maiores que os desígnios da medida e, divididos
Em dois por eles, com eles indo, se por eles
Ganhamos o tempo, pedimos a forma mais fácil
De indagar que vamos morrer e, um dia, se
O tempo for deles e, a memória, de outros,
Havemos de ser úteis como mortos há muito,
Sem que a causa, o delírio, a designação,
O julgamento nossa medida abandonem,
Dividida em duas por eles, e ganhando constância.

Depois, depois faremos ou fará o tempo, por sua vez,
Aquele blasfemíssimo comentário,
E então consta que amámos.

(de Exemplo Geral, 1966 - in Líricas Portuguesas – quarta série, selecção prefácio e notas de António Ramos Rosa, Portugália editora, 1969)

5.8.07

JORGE VELHOTE

A vertigem das rosas e da luz


ao Egito Gonçalves


Agora o mar é uma grade na clausura do coração, uma planície
minuciosa, uma essência atando os vidros contra o frio,
uma caligrafia gratificando os odores da chuva e da pele, que escorrem no olhar.

Agora as aves descarnam os últimos rostos na barreira do silêncio,
sobre a ilha infindável da memória chega a doçura lenta das tuas mãos,
a vertigem das rosas e da luz, as palavras na sombra mais luminosa dos regatos
fosforescentes de relâmpagos e serpente.

O dia é uma ferida nua, numa labareda de conchas, é pura a carne das pedras,
às vezes o canto dos rouxinóis pára de súbito, nós calámo-nos mais cegos, junto à
quietude da água e da noite, dos muros e do musgo, na melodiosa melancolia da
memória e da ironia.

Que fazer diante do imenso abismo senão amar.

(in Saudade - revista de poesia, n.º 1 / Dezembro de 2001)

1.8.07

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

CAMÕES E A TENÇA


Irás ao Paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce

Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou ser inteiramente

E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto

Irás ao Paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência

Este país te mata lentamente

(de Dual, 1972)

30.7.07

Vamberto Freitas - Bem sei que esta pergunta se torna cansativa, mas aí vai ela: achas que ainda existe espaço para a intervenção político-cultural de um poeta e/ou escritor na sociedade actual, ou o reinante economicismo do momento vai vencer(-nos) todos?

Emanuel Jorge Botelho - A luta entre economicismo (nomeadamente na sua versão tecnocrática e castradora) e a intervenção do escritor, do poeta, é uma luta desigual.
O poeta está (de longe...) à frente. Mas só poderá erguer o troféu da palavra quando a sua sede encontrar, não o coice do vinagre, mas a água do afago, e do desejo.
Jean Cocteau escreveu que "o poeta não procura nenhuma admiração; quer ser acreditado."
Engatando Cocteau na tua questão, eu diria, metaforicamente, que nada se resolverá enquanto a "crença" dos destinatários não for capaz de (assumidamente) destronar os idolatras do "credito".

(entrevista conduzida por Vamberto Freitas, datada de 1993 e recolhida em Mar Cavado: Da Literatura Açoriana e de Outras Narrativas, edições Salamandra, 1998)
EMANUEL JORGE BOTELHO

(«O Grito» de Munch, revisitação)


8

vem de longe a calamidade, a imaginária sombra
dos lábios próxima do grito. era assim já a subida do sangue
e nós de bibe e coiro traçado
aos ombros. não nos pesava ainda a luxúria dos caules
aposta opaca na ardósia das consoantes. a ponte secular entre uma sílaba que se ganha ao hálito dos canaviais
era uma madeira a resistir ao meio dia, o líquido engomado e branco que árvore, irmã?
dava tanta casa a essa fala verde
próxima de todas as margens. sentada na mesa
a mão sempre baixa, vogal do funcho

(de Cesuras, Gota de Água e Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982)


EDVARD MUNCH


O Grito, 1893
têmpera sobre cartão
83.5 cm x 66 cm
Oslo, Munch-museet




EUSEBIO LORENZO BALEIRÓN

E. MUNCH: «O grito»


O tempo é um estadio
entre o tempo e a morte.

A luz un punto esvaído
en dirección ao vento.

O silencio ten ollos
e míranos do fondo do bosque.

Eu xogo con peixes de trapo,
salouco un anaco no escuro
e berro cara ao río con todas as miñas forzas.

(de Os Dias Olvidados, 1985)

29.7.07

[Ah, este homem procura as cores mais secas do nosso entendimento]


RUY BELO

OH AS CASAS AS CASAS AS CASAS


Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas

(de Homem de Palavra[s], 1969)


[Casa onde Nasceu Ruy Belo, São João da Ribeira / Rio Maior - 28 de Julho de 2007]


AMADEU BAPTISTA

ROYAL LABEL BLACK


(a Ruy Belo)

Este homem procura as cores mais secas do nosso entendimento;
vai connosco até à rua; responde-nos
um cigarro primeiro, uma construção na areia, depois um ferro
a espetar nas dunas e no mar
enquanto o mar houver e a paz durar;
come connosco à nossa própria mesa; ama a nossa mulher
e experimenta o odor da nossa casa aonde os nossos filhos
lhe entram pelos joelhos, o cobrem de carícias, lhe atiram
a satisfeitíssima bola de brincarmos aos adultos quando é tarde
ou os dias apresentam um cariz de pouca chuva.

Divide o nosso frango, a frugal fruta, as sobras do almoço
e sai-nos portas dentro quando o pôr-do-sol, a solução do sol, o sol
das terras de portugal e das noites de madrid
dialoga connosco, connosco estabelece a nítida fronteira
entre aeroportos, casas - oh as casas - e a mulher que,
podendo ser a de um estivador, do camisola amarela, desse
irreverente basquetebolista que por um grande azar não é das nossas relações,
foi, é, será sempre a mulher
encontrada e perdida na poeira, nas arcas, nas infâncias multicoloridas
que parcimoniosamente nos excedem.

Procura, sim, procura as cores do nosso entendimento;
bebe do nosso vinho; vai à missa connosco; veste-nos
a pele de lobos esfaimados nesta selva de ratos onde os ratos
se confundem com navalhas, intelectuais empalhados, inquiridores
por conta d'outrem (e própria), só para que o amor
um pouco sobreviva, exíguo e tenso; ri
às bandeiras despregadas como só um menino, como só
alguém que sabe da poda pode rir
enquanto os táxis, o choro, as dores de consciência
- que afinal não há, embora os cais... - atravessam o meio-dia, desesperadamente.

Ah, este homem procura as cores mais secas
do nosso entendimento; limpa-se
às nossas toalhas; chega
ao extremo de utilizar a escova privada da nossa privadíssima higiene; rompe
os nossos sapatos (meias inclusive); joga
à pancada connosco, ao eixo; e rouba-nos a carteira
como só quem sabe sorrir pode roubar-nos, pode
assinar de cruz por nós, solucionar
o problema da nossa talvez habitação
sem prestígio nenhum, ao menos uma praia de consolação em que morrer

com o mesmo à vontade, modéstia e alegria
deste homem que procura,
procura as cores mais secas do nosso entendimento.

(de Green Man & French Horn, in A jovem poesia portuguesa / 2, Limiar, 1985 - colecção Os Olhos e a Memória)

26.7.07

LÊDO IVO

PALHA DOURADA


Somos o que a perfeição
nos deixa ser.
As abelhas zumbem
na tarde de verão
e o mundo é vão:
mão que escorrega
no corrimão;
raio de sol
no chão.

Somos tudo o que se esvai:
a sombra, o grito,
o amor, a fumaça.
O dia passa
como um gavião.
E a tua mão
pousa afinal,
palha dourada,
na minha mão.

(de Crepúsculo Civil, editora Record, 1990)

23.7.07

ANA HATHERLY

Só mãos verdadeiras escrevem poemas verdadeiros.
Não vejo nenhuma diferença de princípio entre
um aperto de mão e um poema.
(Paul Celan)



A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se

O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita

O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende

E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta

(de O Pavão Negro, Assírio & Alvim, 2003)

22.7.07

PAUL ÉLUARD

DOMINGO À TARDE


Enlaçavam-se os domínios arqueados de uma aurora cinzenta, num país cinzento, sem paixões, tímido,

Enlaçavam-se os céus implacáveis, os mares interditos, as terras estéreis,

Enlaçavam-se os galopes incansáveis de cavalos magros, as ruas onde já não passavam os carros, os cães e os gatos moribundos,

Aureolavam-se as aparências, os dias infindáveis, dias sem luz, as noites absurdas,

Aureolava-se a esperança de uma neve definitiva, marcando na fronte o ódio,

Adensavam-se os astros, adelgaçavam-se os lábios, alargavam-se as frontes como mesas inúteis,

Curvavam-se os cumes acessíveis, adoçavam-se os mais insípidos tormentos, comprazia-se a natureza numa única função,

Respondiam-se os mudos, escutavam-se os surdos, olhavam-se os cegos

Nestes domínios confundidos onde até as lágrimas só se miravam em espelhos lamacentos, neste país eterno que misturava os países futuros, neste país onde o sol ia sacudir as suas cinzas.


(Tradução de António ramos Rosa, in Antologia, edições Tempo, [s/d] - original de Poésie et Vérité, 1942)

18.7.07

AMADEU BAPTISTA

LUDWIG VAN BEETHOVEN: ODE AN DIE FREUDE, DA SINFONIA No. 9


Não sei se isto é um hino e os anjos
precisam deste instrumento
para ampliar o silêncio. O que sei
é que chega de longe esta surpresa
de poder segmentar em força o coração
que em mim pulsa e eu não sei
de onde vem quando na música
pressinto um tema que só aos anjos pode pertencer
pela pujante candura dos acordes
e a humilde magnificência da alegria.

Tudo quanto ignoro é que está bem.


(de O Bosque Cintilante, Juntas de Freguesia de S. Lourenço e de S. Simão (Azeitão), 2007 - Prémio Nacional Sebastião da Gama)

16.7.07

RUTE MOTA
Nasceu em 1980.
Publicou prosa e poesia no DN Jovem e contos nas revistas Periférica e Pessoal. Tem publicado na revista on-line Minguante e colaborou na antologia poética Poesia no Porto Santo (P.E.N. Clube Português, 2006), com a tradução, a partir do francês, de alguns poemas de Maram al-Masr. Mantém o blog Esta distância que nos une.



Falam-me de náufragos
e de barcos à deriva –
e é o meu nome como uma prece.

Falam-me dos barcos e dos gritos
dos homens – e eu simulo o sono
como se deles não soubesse.


_____________


Memorando para o presente infinitivo:

abrir janelas nas linhas contínuas como paredes

afastar-me e deixar à terra a guarda
da imperturbável hibernação dos bichos

deixar as palavras expostas
para que ardam ou gelem ou se recuperem

e só depois voltar à casa
ao desarranjo possível dos quadros.


_____________


Esse gato ―
senhor único
do meu colo.

Patas brancas
majestosas ―
não me iludo.

Outro trono
não conhece
que não o sol.

Anoitece ―
a terra toda
submetida.

_____________


Se a voz, pequeno segredo
se desfaz –
na voz, outros segredos
se levantam.

_____________


Do silêncio, se é de vidro,
faço estilhaços ― e não lamento:
que reflictam gumes e lâminas
fiapos multiformes, gritos
luzes se ainda as houver.


(de Nenhuma Palavra nos Salva, editora Livro do Dia, 2007)

8.7.07

ANTÓNIO RAMOS ROSA

Cavalo, cavalo da terra, saltas sobre
toda a pobreza chã ou obstáculo.
O vigor da palavra é evidência acesa
é saber-te do chão até à crina.

Quem te arranca a força de raiz
em que vale te cavam ou te calam,
de perfil ou de fronte és cavalo sempre,
cavalo de sempre.

O teu nome é uma parede que nos fala
sobre o teu silêncio. E é um nome
que não se excede e horizontal se lê,
a prumo.

(de Ciclo do cavalo, Limiar, 1975)

4.7.07

[a propósito da poesia russa num certo blog]

BORIS PASTERNAK

INSÓNIA

Que horas são? É escuro. Quase as três.
Parece que não torno a fechar os olhos.
O pastor da aldeia faz estalar o chicote à alvorada.
O vento frio soprará na janela
que dá para o pátio.
E estou só.
Não é verdade. Com
toda a onda penetrante do teu
ser puro, tu estás comigo.

(in Poetas Russos, tradução e prólogo de Manuel Seabra, Relógio d'Água, 1995)

2.7.07

Um milhão / Um milhão

Enquanto o locutor do Telejornal informa que o novo livro de Harry Potter já tem um milhão de exemplares encomendados, mesmo antes de ser publicado, em rodapé refere-se que há um milhão de desalojados no Paquistão.

27.6.07

ANTÓNIO MEGA FERREIRA

POEMA


Uma nota só, de desordem persistente,
a vibrar no abismo das coisas,
no mapa dos delitos;
acarinhando o pequeno remorso precioso
dos fins por atingir;
dobrando o tempo numa curvatura baixa
que cinge os tornozelos
da fugidia esfinge;
uma nota só, de correcção insidiosa,
na dádiva natural do tempo já vivido,
de dor aflitiva pela palidez das coisas
e o seu nome por dizer.

Falando sempre, sempre lamentando
o que ficou por decidir.

(de O Tempo que nos Cabe, Assírio & Alvim, 2005)

21.6.07

EDMUNDO DE BETTENCOURT

O MUNDO EXISTE


Sob a ameaça de faltar-me o ar,
paralisar, o vento,
mudo, escoar-se o mar,

ergue-se mais,
à desfilada corre mais meu pensamento.

Subjugando os ares,
passa além de montanhas e de mares,
adiantado por eles e com eles,
pois não quer só espontâneo movimento.

E ao pavor de uma ilusão que o persegue,
ao pesadelo do nada sempre esquivo,
segue...
para um momento descansar
onde não seja um morto-vivo!

(de Ligação (1936-1962), in Poemas de Edmundo de Bettencourt, 1963)

18.6.07

GASTÃO CRUZ

3


Junho é um mês funesto
com o céu coberto
de armas

Da secura de junho
ninguém ainda morre
em cada corpo a boca
envolve os dentes mansos

(de Escassez, 1967)

14.6.07

GIANLORENZO BERNINI

Extâse de Santa Teresa, 1647-52
mármore
3,5 m
Roma, Santa Maria della Vittoria



PEDRO MEXIA

SANTA TERESA DE BERNINI


Bernini. É essa a forma
que nos vem
ao espírito. E a explicação
de Juan de Yepes:
estes versos usam o profano
como símile. Aqui,
o inverso. Teresa
não é Teresa, o mármore
outra matéria. Outra.
Pálpebras que se abrem
dentro doutras,
pálpebras, em orbita, desorbitadas,
o maor todo que vem
ao dentes. A voz
de Teresa, que não é Teresa,
que não é voz.
Vem do fundo. Vem.
Estes versos usam o sagrado
como símile, usam
Bernini, o rosto transposto
e transportado, suspenso
de duras âncoras.
E o amor todo
que vem aos dentes.

(de Senhor Fantasma, Oceanos, 2007)

13.6.07

AL BERTO

8


borboletas filiformes sobrevoam estes regatos tardios
escondem-se nos torrões da terra lavrada e desovam
plátanos espalham folhas semelhantes a complicados mapas topográficos

mais além
um acampamento cigano

caminho para a noite mas não tenho frio
é só o início dum provável outono
o acampamento recorta-se em contraluz
quando agressivos insectos trabalham recantos nómadas da memória

os ciganos possuem a sabedoria dos fogos acesos ao entardecer
quem poderá afirmar que um deles
o mais jovem
não aprende o mistério das cartas?
ou a mágica vida das linhas da mão?
a essa hora transmite-se de pai para filho
a arte dos insuspeitos ofícios do coração

as casas surgem de repente iluminadas por dentro
a paisagem envolveu-se de solidão
pressinto a força perfumada da terra subindo
ao medo da recente noite

(de TRABALHOS DO OLHAR, 1979/82, in O Medo, Assírio & Alvim, 1997)

[«vocês precisam é de Saramago... muito»

aconselho a audição de um singular documento disponibilizado por PCD no blog da Frenesi, que também aconselho]
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

SONETILHO DO FALSO FERNANDO PESSOA


Onde nasci, morri.
Onde morri, existo.
E das peles que visto
muitas há que não vi.

Sem mim como sem ti
posso durar. Desisto
de tudo quanto é misto
e que odiei ou senti.

Nem Fausto nem Mefisto,
à deusa que se ri
deste nosso oaristo,

eis-me a dizer: assisto
além, nenhum, aqui,
mas não sou eu, nem isto.

(de Claro Enigma, 1951)

10.6.07

ARTUR PORTELA FILHO

DIA DA PÁTRIA - DIA DA POESIA?


Junho de 1972

No dia 10 de Junho, António Quadros escrevia, no seu «Caderno Diário» do «Diário de Notícias», sob o título «O Dia da Poesia», o seguinte:
«...Já repararam? Nos outros países, o Dia Nacional é a data comemorativa de uma Revolução, do Nascimento de um Regime político, do início de uma Autonomia nacional, etc... Entre nós, comemorando-se um poeta, comemora-se Portugal. De algum modo, é toda uma nação que decide representar-se simbolicamente, não como vinculada primordialmente às contingências da vida política, mas antes a algo de muito mais profundo e intemporal: a Poesia dum Poeta que morreu há quatrocentos anos, uma obra imaterial, feita de palavras, de ideias e de sonhos.»

Certo.
Camões é um poeta.
O Dia de Portugal é o Dia de Camões.
Logo, o Dia de Portugal é o Dia da Poesia.
Embora - sem que se queira pôr em causa nem o Dia de Portugal nem Camões - se possa adiantar que há muitas maneiras de ler, e de fazer ler, Camões.
É fundamentalmente poética a leitura da sua ideologia?
É, sequer, essencialmente poética a leitura da sua poesia?
A imaterialidade de Camões pretende-se que continue a sê-lo?
Os sonhos de Camões querem-se como tais?
A intemporalidade de Camões é o que mais importa?
Camões lírico ou Camões épico?
Camões total ou Camões parcial?
Camões genial ou Camões instrumental?
Camões coragem ou Camões geografia?
Camões povo ou Camões pompa?
Camões amor ou Camões Alcácer?
Camões futuro ou Camões memória?
A ideia de Pátria não é discutível - o que é discutível são as ideias discutíveis de Pátria.
A ideia de Camões não é discutível - o que é discutível são os excessos de revivalismo camoniano.
E, no entanto, Camões é, para o povo português, o mais célebre dos desconhecidos.
E, porém, «Os Lusíadas» são, para o povo português, - o mais famoso dos livros fechados.
Oculto um sob uma barragem de retórica.
Despromovido o outro a dicionário de ênfase.
Despoetizados.
Feitos ideologia. Feitos motivação.
Mas quanto vale, hoje, a ideologia de Camões?
Mas que força tem, hoje, como motivação, Camões?
Com a atenção toda mobilizada para o facto de que Camões morreu há quatrocentos anos, esquece-se que Camões viveu há quatrocentos anos. O que será a sua grandeza. Mas, também, a sua circunstancia. A sua inevitável inserção cultural, ideológica, civilizacional. O seu limite.
E, apesar de tudo, ele há imensos Camões.
Há o Camões insuportável do senhor Dom João III.
Há o Camões enfático do senhor Visconde de Almeida Garrett.
Há o Camões republicano do Ultimatum.
Há o Camões tricaneiro do sr. Leitão de Barros.
Há o Camões cronológico do sr. Hernâni Cidade.
Há o Camões militarizado do sr. António José Saraiva.
Há o Camões liceal do sr. Sérvulo Correia.
Camões gesso. Camões bronze. Camões feriado. Camões Adamastor. Camões pagão. Camões cristão.
Só não há - Camões povo.
Porque não há povo nos «Lusíadas» - só heróis?
Ou porque entre o verdadeiro Camões e nós está esse colossal obstáculo que é - uma certa interpretação dos «Lusíadas»?
Se Camões fosse, só, a Lírica seria ele alguma data?
Dia da Poesia?
Celebra-se João Ruiz de Castelo Branco, Bernardim Ribeiro, Rodrigues Lobo?
Celebra-se João de Lemos, Soares de Passos, João de Deus?
Celebra-se Antero, Junqueiro, Cesário?
Sequer, coerentemente, Afonso Lopes Vieira, António Sardinha, Américo Durão?
Ou, antes, uma certa ideia da Poesia - a Épica?
Ou, antes, uma certa ideia da Epopeia - estrita, literal, restituída?
Camões é um élan - não é um programa.
Camões é uma época - não é o destino.
O destino aos Portugueses.
Dia de Portugal - Dia da Poesia?
Ou Dia de Portugal - Dia dos Portugueses?
O passado não se sabe de cor - analisa-se.
O futuro não se lê - faz-se.

(de A Funda - 2.º volume, editora Ática, 1972)