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17.3.18


WANG WEI


Visita ao mosteiro da compreensão

O carreiro que passa pelo meio dos bambus começa nas terras baixas
No Pico de Lótus fica a morada da compreensão
Desde a janela o olhar abarca as terras de Ch’u
Para além da floresta reúnem-se nove rios.

Sentados de pernas cruzadas, sobre as ervas tenras
Por entre os pinheiros altos ecoam os salmos
Habitamos o vazio, longe dos dogmas da doutrina
A contemplar o mundo entendemos o não-nascimento.


Visita ao Mestre zen Tsao do mosteiro do Dragão Azul

Velho decrépito,
Vagarosamente encontro a sala da meditação
Desejo interroga-lo sobre o sentido do espírito original,
Já avisado contra o erro de encontrar o vazio.

Nos seus olhos celestes reflectem-se montanhas e rios
O seu corpo santo encarna o universo
Não me espanta se o calor tórrido se dissipa
Ele sabe levantar o vento sobre a terra.


(de Habitar o Vazio, versões de Manuel Silva-Terra, editora Licorne, 2018)

17.11.13

HAN SHAN


37

Os ricos cheios de trabalho, preocupações,
lutam por tudo, contentam-se com nada.
Mesmo com arroz bolorento nos celeiros,
incapazes de emprestar uma malga a um pobre.
Só pensam nos bens, no lucro,
transformam pano reles em seda de primeira.
Um dia todos irão dar um último suspiro,
só as moscas lhes apresentarão condolências.


(tradução de António Graça de Abreu, in "DiVersos - Poesia e Tradução" - N.º 15, Junho de 2009)

16.11.13

LI BAI


A Orquídea Solitária

Uma orquídea solitária
desabrochou um dia num jardim vazio,
rodeada de ervas e tristeza.
Outrora a Primavera tépida,
agora o Outono frio.
A geada embranquece a terra,
murcham as folhas verdes,
extingue-se a flor.
Se não soprar a brisa
quem aspirará as résteas de perfume?


(in Poemas de Li Bai, tradução, prefácio e notas de António Graça de Abreu, Instituto Cultural de Macau, 1990)

6.12.11


LI BAI


Ode à Lua na montanha Emei

A Lua de Outono, em quarto crescente,
       brilha sobre a montanha Emei,
sua claridade pálida cai
       e corre com as águas do rio Ping.
Deixo Qingsi, esta noite,
       rumo às Três Gargantas do Grande Rio.
Passo diante de Yuzhou e penso em vós,
       não fui capaz de vos dizer adeus.


____
[nota do Tradutor:] Considerado há vários séculos um dos mais perfeitos de toda a poesia chinesa, eis um poema de "impossível" tradução. Trata-se de uma despedida, Li Bai aos 26 anos pede desculpa a um amigo por não o haver visitado. As referências geográficas e os topónimos (todos na província de Sichuan), que em chinês cadenciam rima e ritmo, desfiguram o poema, em qualquer outra língua.
A Lua, do alto do céu, observa a Terra inteira e aproxima os amigos ou amantes distantes, basta que ambos, em lugares diferentes, olhem a Lua exactamente a uma mesma hora. Este poema, dada a inexistência de géneros masculino e feminino na língua chinesa, pode ser dedicado não a um amigo mas a uma mulher, transformando-se num poema de amor.




Ode à Lua na montanha Emei
(desenho de autor desconhecido para um poema de Li Bai)


(in Poemas de Li Bai, tradução, prefácio e notas de António Graça de Abreu, Instituto Cultural de Macau, 1990)

11.11.10

HAN SHAN




Humana vida estar na poeira agitação

Exactamente como bacia meio insecto

Todo o dia avançar girar girar

Não deixar sua bacia meio

Imortais não poder obter

Preocupações planos sem esgotado

Anos meses como corrente água

Num instante estar velho




A vida humana situa-se na agitação da poeira
Exactamente como um insecto no meio de uma bacia

O dia todo avança girando girando
Não sai do meio da bacia

Os imortais não podem ter
Preocupações planos sem fim

Anos meses são como água que corre:
De repente está-se velho


(in O vagabundo do Dharma / 25 poemas de Han-Shan, Caligrafias de Li Kwok-Wing; Tradução do chinês de Jacques Pimpaneau; Versões poéticas de Ana Hatherly, Cavalo de Ferro, 2003)


Vive o homem a vida numa tigela de poeira
É como bichinhos dentro de um jarro
Todo o dia andando à volta
Nunca sai lá de dentro.
Não nos calha a ventura
Só temos em sorte desgraças
O tempo parece um rio
Que corre. Um dia, acordamos velhos.


(in Uma Antologia de Poesia Chinesa por Gil de Carvalho, Assírio & Alvim, 1989 e 2010 - Assíria)

9.5.10

LI SHANG-YIN

CHUVA NA PRIMAVERA

Deito-me vestido de branco, a Primavera aproxima-se.
Penso na Cidade das Portas Brancas, onde não posso estar.
Os teus aposentos vermelhos, ocultos pela chuva, acossados pelo frio.
Recordo esse dia distante, em que parti.
As noites são longas, intervalos breves de sono.
Envio-te este presente, um par de brincos de jade -
Contemplo um ganso solitário, entre a vastidão das nuvens.


(de Chuva na Primavera e outros poemas, tradução de José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim, 2001 - Gato Maltês)

16.2.07

(atribuído a) TSEHHAS

O GRANDE PREFÁCIO
(Day Dzuy)


1. A poesia é fruto duma ideia. A ideia está na alma; quando expressa em palavras, torna-se poesia.
2. Os sentimentos que se agitam na alma, traduzem-se em palavras. Quando a palavra não basta, recorre-se às exclamações. Se nem estas chegam, canta-se; e por fim, instintivamente, encontramo-nos a gesticular e a dançar.
3. As emoções traduzem-se em sons, os quais, combinados com arte, se tornam música. Em tempos em que reina a ordem, as músicas são calmas, com tendência para alegres. O bom governo é harmonia. Se reina a desordem, a música vai de queixosa a impaciente, porque há discórdia no governo. Se um estado vira à ruína, então a música é triste e preocupada, pois o povo está em aflição.
4. Por isso mesmo, para exprimir correctamente os êxitos ou os fracassos da governação, para mover o céu e a terra, e despertar os Espíritos dos Mortos, não há como a poesia.
5.Com ela regulam os antigos Reis as obrigações de maridos e mulheres, inculcam a obediência e reverencia aos filhos, asseguram o respeito de todas as relações sociais, prestigiam a eficácia transformadora da educação e promoveram a civilidade e os bons costumes.
6. É por isso que no Livro dos Cantares há 6 estilos: o da sátira (phoq), do idílio (bhoes), do apólogo (pi), o épico (xheq), o parenético (ngah) e o panegírico (dzõw).
7. Nas sátiras (phoq), os Superiores moralizam os súbditos, e estes satirizam aqueles. O principal nelas é o estilo, em que a censura é habilmente insinuada. Ouve-se sem ofensa; mas isso basta para que o alvejado tenha mais conta consigo. Por isso é que se chma “Phoq”: árias ou virações.
8. Quando os governos entram em decadência, as regras da boa educação e equidade são descuradas e a educação pública torna-se deficiente. Daí regimes diversos nos diversos Estados, e variedade de costumes nas famílias. Isso dá origem a uma alteração no estilo da sátira e da parenese.
9. Os cronistas dos Estados, atentos aos sintomas de êxito ou de fracasso, e pesarosos com a alteração das relações sociais, lamentando os rigores das penas infligidas, exprimiram esses sentimentos em sátiras aos Superiores, com a ideia de mudar o curso das coisas, voltando-se aos bons costumes antigos.
10. Tais sátiras, embora alteradas (pyen phoq), para dar expressão ao sentimento, não saíram dos limites das conveniências. Tal expressão do sentimento é natural ao povo. O facto de ser comedida, deve-se aos Reis antigos.
11. As sátiras referem-se a um Estado e às obrigações dum Soberano.
12. Quando se trata do Império todo, e de morigerar os costumes em geral, entra o estilo parenético (ngah). Parenese quer dizer moralizar. Expõem-se as causas do êxito ou do fracasso da coisa pública. E como na Governação há coisas de maior e de menor importância, daí a distinção entre Parenese Menor e Maior (Siau Ngah e Day Ngah).
13. Os hinos (dzõw) chamam-se assim porque louvam os modelos duma virtude perfeita, levando aos Espíritos dos Antepassados o conhecimento dos seus feitos.
14. Formam os Hinos a IV parte do cancioneiro. Começam os Cantares.

(in Livro dos Cantares / She Keng, tradução de Joaquim A. Guerra, S. J., Jesuítas Portugueses, 1979)

18.11.05

TAO YUANMING

BEBENDO VINHO
O Número Sete


Crisântemos no Outono, a mais bela cor.
Com orvalho ainda - os colho, e faço-os
Flutuar neste que afoga cuidados:
- Põe-me bem longe do mundo.
Encho, sozinho, um copo de vinho,
Se fica vazio, deita por ele o jarro.
Põe-se o sol, tudo o que é vivo sossega,
Aves de volta entram no bosque cantando.
Assobio na varanda do leste, alegremente:
Encontrei de novo o sentido à vida.

(tradução de Gil de Carvalho, in Uma Antologia da Poesia Chinesa, Assírio & Alvim, 1989)

4.11.03

XIN QIJI
(1140-1207)

«A ESCRAVA FEIA»

Na juventude eu não sabia
Qual era o sabor da melancolia.
Gostava de subir aos altos pavilhões,
E fazer lá versos muito melancólicos.
Porém agora, tendo-lhe conhecido
O gosto, já não quero
Falar mais dela, não,
Digo apenas: «Um dia fresco, que belo Outono.»

(in Uma Antologia de Poesia Chinesa por Gil de Carvalho, Assírio & Alvim, 1989 - tradução do antologiador)

20.7.03

POESIA CHINESA (III)

YAO JINGMING

Nasceu em Pequim, em 1958.
Tem um mestrado em Literatura Portuguesa e é professor assistente da Universidade de Macau.
Já traduziu para chinês muitos poetas portugueses e co-organizou, em 1999, a Antologia de Poetas de Macau.

NÃO ME ACORDES

A noite deita-se comigo
na fenda do tempo

Os dedos do luar
penteando os cabelos do sonho

Oh, meu amor
podes passar pelo meu sonho
podes ficar no meu sonho
mas não me acordes

NA MINHA PÁTRIA

Na minha pátria
a porcelana tem dez mil formas
mas qualquer delas é tão frágil
como a incurável ferida

Na minha pátria
todas as sedas são pele de água
tecida pela morte do bicho da seda
no inumerável cair das folhas

Na minha pátria
quase todos têm ao peito um bule de chá
mas o chá tão milenar
mesmo em gesto de alquimia
nunca torna o tempo num reino tranquilo

A NOITE ACORDA DIFERENTE

A noite acorda diferente
na gramática da brisa

As pupilas suportam
a solidão solar

Com o vocabulário dos dedos
a mão fala com o vagar do ar

Seguro na estância tão clara
o corpo abre a porta mais serena

(in Poesia em Lisboa 2000, Casa Fernando Pessoa e P.E.N. Clube Português, 2000 - Tradução do Autor)
POESIA CHINESA (II)

AUTOR DESCONHECIDO

Poemas datados da dinastia Cheu (1066-211 a.C.)

1.
Na delicada cor do lotus
há duas metades de sombra e claridade
pelas quais a água se imolou.

2.
Essas pombas que se alimentam mansamente
das mãos de uma pobre viúva
não são mais do que pobres pombas
arriscando a sua brancura.

3.
No último planeta do céu
um peixe nada até ao centro.

(in Os Herdeiros do Vento - Antologia Apócrifa, Litexa, 1984 - traduções de Joaquim Pessoa)
POESIA CHINESA (I)

HÁN YÚ

Nasceu em 768, na actual província de Héán.
Foi o grande líder do movimento literário da sua época.
Ferveroso confucionista, foi exilado em Cantão devido aos seus ensaios contra a doutrina budista, mas depois alcançou o lugar de ministro do exército.
Morreu em 824.

SOBRE OS CAVALOS

Só depois de ter existido Bó Lè é que começaram a surgir cavalos velozes. Têm existido incontáveis cavalos velozes, mas alguém como Bó Lè raramente existe. É essa a razão por que, embora nasçam muitos cavalos notáveis, eles nada recebem para além do desprezo dos servos, acabando por morrer nos estábulos sem terem sido considerados como cavalos velozes.
Os cavalos velozes conseguem ingerir grandes quantidades de painço numa só refeição, mas os tratadores não sabem alimentá-los de acordo com o seu apetite. Tais cavalos poderiam tornar-se muito velozes mas, como não comem o suficiente, as suas forças falham e as suas capacidades não desabrocham. Nem mesmo se lhes pode exigir que cheguem ao nível dos cavalos vulgares, quanto mais exigir que sejam especialmente velozes!
Conduzem-nos contrariando a sua maneira de ser, alimentam-nos em desacordo com o seu apetite e batem-lhes sem procurar compreender a sua vontade. Por fim, empunhando um chicote, aproximam-se e exclamam na sua frente: «não há cavalos valorosos no mundo!»
Será assim? Não haverá cavalos valorosos no mundo ou isso acontece apenas porque ninguém é capaz de os reconhecer?

(in O Rosto do Vento Leste - doze textos de prosa clássica chinesa, Assírio & Alvim, 1993 - tradução de Cláudia Ribeiro e Zhang Zhèng-Chun)

ESCRITO A CAMINHO DO EXÍLIO QUANDO CHEGUEI À PASSAGEM DE LANTIAN - E MOSTRADO AO MEU SOBRINHO XIANG

Um memorial, pela manhã, submetido aos nove degraus do céu.
À tardinha, banido pelo Chaozhou a oito mil li de distância!
Por causa do nosso sacro governante, queria eu afastar o mal;
Nunca pensei, velho corpo decrépito que sou, vir a lamentar
[os dias que me restam.
As nuvens pairam sobre a cordilheira de Qin
- Para que lado fica a minha casa?
A neve bloqueia a passagem de Lan,
Não avança o meu cavalo.
Tens uma razão, ao vires até tão longe comigo,
- Tem a bondade de tirar os meus ossos das margens do fétido rio.

[n. do trad.: "os 'nove degraus do céu' são o trono imperial"]

(in Uma Antologia de Poesia Chinesa, por Gil de Carvalho - Assírio & Alvim, 1989)