CHARLES SIMIC
CHEGADA TARDIA
O mundo já aqui estava,
Plácido na sua estranheza.
Só faltava que chegasses
No comboio do fim da tarde
Aonde ninguém te esperava.
Uma cidade que ninguém recordava
Por causa da sua insipidez,
Onde te perdeste
Procurando um lugar para ficar
Num labirinto de ruas idênticas.
Foi então que ouviste,
Como se fosse a primeira vez,
O som dos teus passos
Debaixo do relógio de uma igreja
Que tal como tu parara
Entre duas ruas vazias
Brilhando ao sol da tarde,
Dois pedaços modestos de infinito
Para te surpreenderem
Antes de retomares a caminhada.
(de Previsão de Tempo para Utopia e Arredores, tradução de José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim, 2002 - documenta poetica)
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16.5.11
13.12.08
CHARLES SIMIC
(in Previsão de tempo para utopia e arredores, tradução de José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim, 2002 – documenta poetica)
O tempo dos poetas menores está a chegar. Adeus Whitman, Dickinson, Frost. Bem-vindos vós cuja fama nunca passará da família mais chegada, e talvez um ou dois amigos íntimos reunidos depois do jantar à volta de um jarrão de rude vinho tinto... enquanto as crianças adormecem e se queixam do barulho que fazes ao vasculhar os armários à procura dos teu poemas antigos, com medo que a tua mulher os tenha deitado fora na limpeza da última primavera.
Neva, diz alguém que espreitou a noite escura e que, depois, também se volta para ti quando te preparas para ler, de uma forma algo teatral e uma face que cora, o longo e tortuoso poema de amor cuja estrofe final (que não sabes) falta sem remissão.
- segundo Aleksandar Ristóvič
(in Previsão de tempo para utopia e arredores, tradução de José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim, 2002 – documenta poetica)
9.5.04
[outros melros XVII]
CHARLES SIMIC
PRIMAVERA
Foi isto que vi - restos de neve no chão,
Três melros a espanejar-se,
E a minha vizinha que sai de casa em combinação
A pôr as camisas do marido a secar.
A aragem da manhã torna-lhe difícil pendurá-las.
Levanta-lhe a roupa bem acima dos joelhos,
Ela teve de parar o que estava a fazer
E deu uma bela gargalhada, enquanto se tapava.
(tradução de José Lima, in Di Versos 2 - Primavera-Verão de 1997)
CHARLES SIMIC
PRIMAVERA
Foi isto que vi - restos de neve no chão,
Três melros a espanejar-se,
E a minha vizinha que sai de casa em combinação
A pôr as camisas do marido a secar.
A aragem da manhã torna-lhe difícil pendurá-las.
Levanta-lhe a roupa bem acima dos joelhos,
Ela teve de parar o que estava a fazer
E deu uma bela gargalhada, enquanto se tapava.
(tradução de José Lima, in Di Versos 2 - Primavera-Verão de 1997)
1.3.04
[personagens recorrentes I]
CHARLES SIMIC
ÁLGEBRA DO INÍCIO DA NOITE
A louca prosseguia desenhando Xs
Com um pau de giz escolar
Nas costas de pares inadvertidos,
De mãos dadas rumo a casa.
Era inverno. Já escurecera.
Não se conseguia ver-lhe a cara,
Embuçada como estava e furtiva
Como se fosse levada pelo vento, com asas de corvo.
O giz ter-lhe-ia sido dado por uma criança.
Tentava-se descobri-la na multidão,
Esperando que fosse muito séria, muito pálida,
Com uma lasca de ardósia negra no bolso.
(in Previsão de Tempo para Utopia e Arredores, tradução de José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim, 2002)
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
TEOREMA
Diante do espelho vê rostos além do seu
e a loucura é reconhecê-los entre os mortais
esses rostos silenciosos e esquivos
tão fácil seria chamá-los
celestes
Mas ela era terrena tão por terra
conduzia a ondulação dos sentimentos
não a entendem?
Ela deixava quebrar os vasos só para os ouvir
porque tudo tem uma voz mesmo as coisas mudas
e o silêncio é uma ímpia forma de desobediência
Ela marcava um por um
Umbrais códices colheres
Para que tudo estivesse unido
Sob o frio ordenado do visível
De noite porém afundava-se no lago
e lá adormecia
De noite levava a espingarda à janela
e ficava a ouvir não os tiros
mas o incrível silêncio que sucede a cada tiro
De noite dizia-se vacilante e perdida
Depois vinha o dia e a rasura
a repetida ordenação que os acentos concedem
às palavras
a quase paixão que jamais tocava os seres
sempre só a sua representação
(de Longe Não Sabia, Presença, 1997 - colecção forma)
CHARLES SIMIC
ÁLGEBRA DO INÍCIO DA NOITE
A louca prosseguia desenhando Xs
Com um pau de giz escolar
Nas costas de pares inadvertidos,
De mãos dadas rumo a casa.
Era inverno. Já escurecera.
Não se conseguia ver-lhe a cara,
Embuçada como estava e furtiva
Como se fosse levada pelo vento, com asas de corvo.
O giz ter-lhe-ia sido dado por uma criança.
Tentava-se descobri-la na multidão,
Esperando que fosse muito séria, muito pálida,
Com uma lasca de ardósia negra no bolso.
(in Previsão de Tempo para Utopia e Arredores, tradução de José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim, 2002)
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
TEOREMA
Diante do espelho vê rostos além do seu
e a loucura é reconhecê-los entre os mortais
esses rostos silenciosos e esquivos
tão fácil seria chamá-los
celestes
Mas ela era terrena tão por terra
conduzia a ondulação dos sentimentos
não a entendem?
Ela deixava quebrar os vasos só para os ouvir
porque tudo tem uma voz mesmo as coisas mudas
e o silêncio é uma ímpia forma de desobediência
Ela marcava um por um
Umbrais códices colheres
Para que tudo estivesse unido
Sob o frio ordenado do visível
De noite porém afundava-se no lago
e lá adormecia
De noite levava a espingarda à janela
e ficava a ouvir não os tiros
mas o incrível silêncio que sucede a cada tiro
De noite dizia-se vacilante e perdida
Depois vinha o dia e a rasura
a repetida ordenação que os acentos concedem
às palavras
a quase paixão que jamais tocava os seres
sempre só a sua representação
(de Longe Não Sabia, Presença, 1997 - colecção forma)
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