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16.3.18

«MARTÍRIO DE SANTA ÚRSULA E DAS ONZE MIL VIRGENS» (c. 1522), do MESTRE DO RETÁBULO DE SANTA AUTA / «MARTÍRIO DE SANTA ÚRSULA» (1610), de MICHELANGELO MERISI DA CARAVAGGIO
em memória de Marielle Franco

Onze somos tantas como onze mil,
Nesta recusa de conceder
Nossos corpos e nossos sorrisos
E nossa esperança à sedução
De um príncipe poderoso. Uma só
Serei diante do mais brutal
Dos tiranos e aceitarei a seta

Que me está destinada, não
Sem que antes diga que não reconheço
O medo e continuarei negando
A sistemática prática da intimidação
Pela violência, mesmo depois
De o meu peito ser atingido; porque
Somos onze e onze mil e mais

Fortes do que a insanidade
Dos vossos olhos deixados na penumbra,
Virados para nós sem que vejam
Sequer quantas somos, onze e mais
Do que as onze mil nas ruas, passando,
Todas, cada uma dizendo com sua voz,
Cada uma mostrando a pele do rosto

E o cabelo solto. Continuaremos,
Uma só de nós, sorrindo enquanto
Nos considerarem estrangeiras, mulheres
Daqui, que a nós pertencemos e que
Esperamos, mais do que a justiça,
A ternura,
A presença de cada corpo

Na vida à qual pertence. E somos
Onze vezes as outras mil que foram
Daqui e aqui ignoradas, somos todas
As que numa voz podem ser ditas, contra
A morte da inocência por sistema. Uma
Só somos, juntas, não fugindo da seta
De um poder 
só, escondido, que tudo ignora.



27.2.18

Sabei que a História nunca
Deu razão a ninguém, nem a ninguém
A tirou. A posteridade, tal como
A conhecemos e praticamos
É coisa americana, sabe
A rebuçado de coca-cola e vem

(quando vem) embrulhada
Em plásticos pequeninos, daqueles
Que fazem barulho
Na fila de trás do cinema, entre
As mãos de uma senhora idosa.
Nunca a História (reparai

na maiúscula inicial, no alto
conceito que está em causa)
Foi capaz de conferir
Estatuto de primazia ou firmar
No consciente colectivo a pureza
Dos tidos por bons. Alguns

O asseguram, em teses académicas
Até; desencantam provas
Tão verosímeis e evidentes, aplicam
Placas toponímicas a assegurar
Tais certezas. Dos desejos mal ou nunca
Cumpridos não reza

Essa História, disciplina dos simples,
Manipanso de trazer no bolso
Para consolar a validade da sorte. Aos
Escarros e às deselegâncias
Resta remanescerem em frases
De autocarro e mercearia,

Dichotes de folheto falado entre
Outras basófias de dia-a-dia. Não
Serão o bocejo nem a dor de dentes
Do herói das letras
(ou das artes, em geral) a ser
Tratados condignamente

Em efeméride; antes o luzidio
Soneto, uma ou outra contra-senha
Inaugural dalgum movimento
Mais ou menos importante, mais
Ou menos representativo de toda
Uma geração. Nunca foi

Justa a História, à qual tudo perdoamos
Em nome da erudição, a cuja
Letra damos eventual valor fiduciário
Com que pagamos a boa
Consciência inconsciente dos clássicos.
E não escapamos ao ruído, ao tal

Rumor estrepitoso durante o filme todo;
Incomodados mas sempre presentes,
Para não perder o final
Nem deixar cair a ilusão de mais
Uma obra concluída
A figurar nos futuros almanaques

Com listas de títulos e autores
Compulsadas por amanuenses entediados,
Dedos cotejantes induzidos
Por vigilantes entidades especializadas
Na heterodoxa afasia
Que tanto alívio dá à memória.


21.1.18




«A DOR» (1934), de HEIN SEMKE


De que deus és crente, mulher,
Que versículo te verga, diante
Do mundo, a dignidade? De olhos
Abertos para o chão, de mãos
Firmes sendo apoio do teu próprio
Corpo, mulher, permaneces.
Talvez possas caminhar, talvez
Um dia atravesses (solidão) para
O avesso dessa fé, na evidência
Dessa dor, rasgo que não é caminho. O
Pescoço curvado, a cabeça reduzida
À altura dos ombros,
És menos aqui do que podias ser.
Para que falta de lucidez
Te inclinas assim? Saberias
Melhor da luz noutro corpo.
Ou nesse mesmo, noutra posição,
Noutro jeito de se encontrar, forma
A aproximar-se da alegria. Em que
Sofrimento crês tu, filha
De um outro ventre, como o teu, deste
Bronze de silêncio?




16.10.17

Sim, as vítimas da fome
E de calamidades vistosas,
Os quase mil ou quase vinte mil
Ou outro quase número
De famélicos, mortos ou desalojados,
Contabilizados pelo repórter no local,
Em directo,
Prontos a marchar sobre a consciência,
Sensibilizada,
Até ao próximo bloco de anúncios.


(de Apoios Coloquiais, in «em delírio há vinte anos / non nova sed nove», 2011)

17.9.17

Novo livro


A Pedra não pode ser coração, do lado esquerdo, 2017

São só 100 exemplares e as encomendas podem ser feitas através do email editoradoladoesquerdo@gmail.com.
O lançamento é no dia 23 às 18h00, na Livraria Miguel de Carvalho, em Coimbra (Adro de Baixo, 6).

2.6.14

"Temor Único Imenso"

Tenho o gosto de vos informar que o meu novo livro de poesia, Temor Único Imenso, será apresentado, pelo Henrique Fialho, no próximo dia 7 de Junho, pelas 16h00, na Biblioteca Orlando Ribeiro (Antigo Solar da Nora), Estrada de Telheiras 146 (Lisboa - 2 minutos a pé da estação de metro de Telheiras).

Está a ser editado pela Editora Labirinto, inaugurando a colecção Contramaré, coordenada pelo Victor Oliveira Mateus.

Quem não puder ou não quiser ir, pode encomendar directamente à editora pelo telefone 919283265 ou pelo email editoralabirinto@gmail.com. Para adquirir terá de ser mesmo através da editora ou num dos locais onde seja distribuído - a venda não passa por mim, pelo que peço que compreendam que não poderei guardar exemplares para ninguém.

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15.4.14



[EDUARDO GAGEIRO, 25-4-74, Terreiro do Paço]

Não há mais mãos que valham o silêncio
Do que as visíveis na fotografia
Do momento em que um Homem trinca o lábio
Inferior. Fica a fracção desses sonhos

Somando aleatoriamente letras
E números do acaso da História
(eme, é, dezanove, dezanove)
Contada aos olhos atentos, contada

De memória em fragmentos junto ao
Mesmo Tejo da infância de nós
Todos. Uma matrícula de carro

De combate, a voz de gente calada
A caminho de outro dia, de outra
Vida trazida para a fraternidade.

2.3.14



DESESPERO
(5 desenhos de ROGÉRIO RIBEIRO, num livro oferecido pelo Amadeu Baptista)


I
É impossível saber
Quantos nomes temos
Num só corpo.

Impossível também a voz
Que ama, a mão que toca,
Tudo, todos, sempre,

Alterando timbres,
Deixando suceder as cores
Constatando a impossibilidade.




II
O desequilíbrio acontece
Sempre em nós próprios
Na presença do outro,

De quem ali está, incerto,
Presença a confirmar
Ausência. O vazio

Alheio a nós, do outro lado
Do desamparo. E o corpo
A não saber chegar ao chão.


III
A ânsia de alguma coisa,
Nada, a sede de ter
Um rosto visível. Não

O quase limite de estarmos
Todos
Debaixo do mesmo céu,

Dentro de uma esquadria
Demasiado exígua. Não
Apenas a sobrevivência.



IV
Não perceber, não reconhecer
Quem, quantos de nós
Estamos vivos. Desejar

A forma do próprio rosto
Ainda – até quando? –,
Para não a perder. Esticar

Os braços
Como quem grita sabendo
Que nunca será ouvido.



V
Ainda o rosto, ainda
A forma dele
Simplificada à margem

De uma fuga ou
Vislumbre de ausência.
O nada de um corpo

É não ser visto. Uma
E outra são o mesmo,
Desconexas.


Desespero, 2003
Acrílico s/ papel
56 cm X 76 cm
(reproduzidos a partir de Rogério Ribeiro / Desenho, Galeria Municipal de Montemor-o-Novo, 2005)

16.4.12


O vento a fazer-me chorar, o vento
Solução fácil para a descoberta
Da desilusão. O vento é a perda
Do corpo arrumado, dos dedos limpos,

A dar-me conta da força que tenho
Em cada fenda nos lábios. O vento
Coisa invisível, macia, letal,
Sopro em mim de fora, desordenado.

O vento é sal, subida, espécie de onda
A cobrir saudades na praia mansa
Em que os pés se enterram na vaga areia.

E muda, o vento, quando agita árvores
De grande porte, de folhas incertas.
Muda para ser o que é, silente.

1.4.12



[Poesia Incompleta - logótipo, por Luis Manuel Gaspar]


Duas pedras.

De que bolso sai
(para que regaço regressa?)
Cada uma?

18.2.12

'Caderno de Milfontes' já disponível


Tenho o gosto de informar que o meu novo livro de poemas, Caderno de Milfontes, já pode adquirido.
Sendo uma edição restrita (apenas 150 exemplares), a editora Volta d'Mar (sediada na Nazaré e da responsabilidade do Luís Paulo Meireles e do Mário Galego) optou por fazer as vendas apenas através de contacto directo (ver abaixo).
Através do link podem ficar a conhecer também os outros livros já editados ou a editar por eles.



pedidos para
apartado 93
2450 nazaré

6.2.12


RUI ALMEIDA

[em memória da Bia]

AS GATAS

A que está prenha é branca
E estende a pata da frente,
Deitada na mesa
No lugar onde a frincha dos cortinados
Permite uma faixa de sol.

As duas pequenas brincam,
Descobrindo cada pormenor do mundo,
Brigam em cima do tapete colorido,
À vista da mãe que lhes dedica
A mais felina indiferença.

É um outro silêncio o abrigo
De cada uma;
Este é o seu tempo,
O que lhes sustenta a vida


(de Caderno de Milfontes, no prelo)




18.1.12


Talvez nada.

Tão mais incerta é a vida
Quanto a consciência que dela temos.

Levantarmo-nos é ir, a vaga
Sensação de ter ideias,

Sonhos, medo, um futuro.
Talvez o sem fundo de existir

Obrigue a deixar para os outros
O entretém de continuar a sentir

O vazio.

8.8.11

Desprevenidos perante um poema
Procuramos segurança numa margem
Tentando o equilíbrio na forma dos pés
Sobre o gelo liso.

Há um breve arrumar de vestígios,
Depois. Há uma vida inteira,
Compacta, a surgir, deslizando, nossa,
E evitando a queda, reagindo.

São passagens, pontes, cordas gastas,
Por onde vamos da falta de medo
À vigilância. Terra empapada

Feita de regressos, evocações,
Pontos distantes de recomeço,
Surpresa sempre como somos.


No comboio para o Porto, 24-3-2011

13.7.11

Vens contraciclo a iluminar,
Traçado em arco de incongruências
Dissimuladas por acção do vento
Levando-te, ágil, por outros lugares.

(mas que assombros segues, quais os limites
ao próximo passo no teu caminho?)

Lugares de confluência e de cesura
Onde semeias canto e labirinto,
Fontes da memória sépia que trazes
ao trilho rasgado no campo seco.

5.1.11

MALANGATANA


Cântico dos cânticos, 1997
34x33,5 cm
Técnica mista



RUI ALMEIDA



ALGUMA IMAGENS TIRADAS DE MALANGATANA


Ventres e olhos de dor
Na África da alegria
Sexos devorantes
Prazer isolado

Há uma tristeza a chegar ao fim
Uma esperança que não se vê
Senão na força de continuar a olhar.

31/10/1999

27.12.10

GRAÇA MORAIS

A Festa da Abundância I, 2005(?)
120x160 cm
Carvão e pastel sobre papel
Centro de Arte - Colecção Manuel de Brito, Algés

A Festa da Abundância II, 2005(?)
Carvão e pastel sobre papel
160x120 cm
Centro de Arte - Colecção Manuel de Brito, Algés



RUI ALMEIDA


A Festa da Abundância (díptico de Graça Morais)


[cf. Mt 6, 26 e Lc 12, 24]

Olhai as gaivotas que se alimentam
Dos restos da fast-food e dos detritos,
Olhai-as na sua avidez,
Apartando-se umas às outras,
Ferindo-se entre si,
Para acumular mais do que podem conter
Em seus escassos corpos.

E contudo,
Não ocupam altos cargos
Em conselhos de administração
Ou direcções partidárias,
Nem traficam influências
Nos corredores da hipocrisia.

Porventura sereis vós menos do que elas?


(in Nada Onde Pousar o Sonho, coordenação e edição de João Tomaz Parreira, Desafio Miqueias, 2010)

18.10.10

Foi apresentada, no passado dia 9, a antologia O Prisma das Muitas Cores, com poemas de amor de 135 autores de Portugal e do Brasil. Foi organizada pelo Victor Oliveira Mateus e tem prefácio de António Carlos Cortez. A ilustração da capa é de Júlio Cunha e tem a chancela da Editora Labirinto. Nela consta um poema meu, que transcrevo.



Os teus olhos abertos são do tamanho dos meus dedos
E não falam de silêncios nem de sombras
Nem de coisas de sonhar.

Os teus olhos lembram segredos de riso,
Pequenas palavras que se dizem poucas vezes.
É nos teus olhos que sei o rumor da minha história –
Olhos de quem cresce a olhar.

(sei que enquanto me olhas respiras)

Só eu desejo a tua boca,
Pedaço antigo de sede e confronto
Por onde entra a luz jubilosa que respiras.
Da tua boca sei que traz gestos de nomes ditos
Enquanto tudo à volta acontecia.

E com os dedos percorres o sibilar da língua,
Tocas objectos que são a pele do mundo
Com a delicadeza própria de lábios.
E os teus dedos são do tamanho dos meus olhos abertos.

1.9.10

Olhar à volta é a tua função
E, entretanto,
Colocar as mãos sobre o alimento
E contar do sonho e da esperança.

Após as solenidades,
Hás de ir ao encontro
Dos que estão sentados olhando as mãos.