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21.6.14

LÍDIA JORGE


Muitos são aqueles que apresentam razões fortes para duvidar, mas eu tenho a certeza de que Portugal existe. Ainda há pouco tempo atravessei o território de Norte a Sul, demorei sete horas, sempre a abrir, as auto-estradas funcionaram na perfeição, e por onde elas passavam havia bandeiras verde-rubras hasteadas em locais inimagináveis - encostas de montanhas, cimo de palheiros, telhados de igrejas e até em carros de bois, atadas aos fueiros da frente, eu as vi a acenar, como se a paisagem fosse uma parada. Isto aconteceu um mês depois de a Selecção Portuguesa ter ido à Suíça como favorita e os rapazes se terem portado mal. Quando perguntei a uma funcionária da estação de serviço por que razão ainda mantinham a bandeira arvorada no alto dos cedros, ela olhou-me com um certo desprezo - "Que importância tem? Não é por perdermos que deixamos de ser portugueses." Já no regresso da viagem, vim a olhar para os campos e a pensar no poema que José Emílio Pacheco escreveu sobre o seu país. Vou procurar traduzir para português o que ele pensou em castelhano do México.

Não amo a minha pátria
O seu fulgor abstracto e inacessível.
Porém (ainda que soe mal) daria a minha vida
Por dez dos seus lugares, certas pessoas,
Portos, bosques de pinheiros, fortalezas,
Uma cidade desfeita, cinzenta, monstruosa,
Várias figuras da sua história, montanhas
e três ou quatro rios.

Eu também.


(início do primeiro capítulo de Contrato Sentimental, Sextante Editora, 2009)

23.5.12

OCTAVIO PAZ


QUATRO CHOUPOS

Como atrás de si mesma, vai esta linha
pelos horizontes confins se perseguindo,
e, no poente sempre fugitivo
em que se busca, se dissipa

- como esta mesma linha,
pelo olhar levantada,
forma todas as letras
numa coluna diáfana
resolvida em não tocada,
nem ouvida, nem degustada, mas pensada,
flor de vogais e consoantes

- como esta linha que não pára de se escrever,
e, antes de se consumar, reganha corpo,
sem cessar de fluir, mas p'ra cima:

os quatro choupos.
                           Aspirados
pela altura vazia, e, ali em baixo,
num charco feito céu, reduplicados,
os quatro são um só choupo,
e são choupo algum.

                          Atrás, copas em chamas
que se apagam - a tarde, à deriva -
outros choupos, feitos andrajos espectrais,
interminavelmente ondulam,
intermináveis, de imóveis.

O amarelo desliza para o rosa,
no violeta, a noite se insinua.

Entre o céu e a água,
há franjas azuis e verdes:
sol e plantas aquáticas,
caligrafia flamejante,
escrita pelo vento.
É um reflexo, noutro suspenso.

Trânsitos: pestanejar do instante. 
O mundo perde corpo, 
é uma aparição, é quatro choupos, 
quatro moradas melodias.

Frágeis ramos trepam pelos troncos.
São um pouco de luz, e outro tanto de vento.
Vaivém imóvel. Com os olhos,
oiço-os murmurar palavras de ar.

O silêncio segue com o ribeiro, 
com o céu regressa.

É real o que vejo: 
quatro choupos sem peso, 
plantados em vertigem. 
Uma fixidez que se precipita 
para baixo, para cima, 
para a água do céu do remanso, 
num esbelto afã sem desenlace, 
enquanto o mundo zarpa no obscuro.

Pulsar de claridades últimas:
quinze minutos confinados,
que Cláudio Monet viu de uma barca.

Na água, abisma-se o céu, 
em si mesma se afunda a água, 
o choupo é um tiro opalino: 
não é sólido, este mundo.

Entre ser e não ser, a erva titubeia,
aligeiram-se elementos,
os contornos se esfumam,
lampejos, reflexos, reverberações,
cintilar de formas e presenças,
névoa de imagens, eclipses,
isto, que vemos: as miragens que somos.


(de Árvore Adentro, tradução de Luís Alves da Costa, Vega, 1994)

26.3.06

OCTAVIO PAZ

MAIÚSCULA


Flameja o esganicristério da alva. Primeiro ovo, primeiro bicar, carnificina e alvoroço! Voam penas, abrem-se asas, incham velas, mergulham remos na madrugada. Ah, luz sem brida, encabritada luz primeira. Desmoronamentos de cristais irrompem do monte, tímbales rompetímpanos quebram-se à minha frente.
Não sabe a nada, não cheira a nada a alvorada, a menina cega às apalpadelas pelas ruas, a menina ainda sem nome, ainda sem rosto. Chega, avança, titubeia, vai pelos corredores. Deixa um rasto de rumores que abrem os olhos. Perde-se nela mesma. E o dia esmaga com o grande pé colérico uma estrela pequena.

(de águia ou sol?, tradução de Rui Rosado, Hiena editora, 1985 - colecção Cão Vagabundo)

31.3.04

OCTAVIO PAZ

APARIÇÃO


Voam aves radiantes destas letras. Amanhece a desconhecida em pleno dia, sol rival do sol, e irrompe entre os brancos e negros do poema. Pia na espessura do meu assombro. Pousa no meu peito com a mesma suavidade inexorável da luz que reclina a fronte sobre uma pedra abandonada. Estende as asas e canta. A boca é um pombal de que lhe brotam palavras sem sentido, fonte deslumbrada pelo seu próprio brotar, brancuras atónitas de ser. Logo desaparece.
Inocência entrevista, que cantas na encosta do poente à hora em que eu sou um rio que desaparece no obscuro: que frutos picas aí em cima? Em que ramos de que árvore cantas os cantos da altura?


DAMA HUASTECA

Ronda pelas margens, nua, saudável, recém saída do banho, recém nascida da noite. No seu peito ardem jóias arrancadas ao verão. Cobre-lhe o sexo a erva murcha, a erva azul, quase negra, que cresce nos bordos do vulcão. No seu ventre uma águia estende as asas, duas bandeiras inimigas enlaçam-se, repousa a água. Vem de longe, do país húmido. Poucos a viram. Direi o seu segredo: de dia, é uma pedra ao lado do caminho; de noite, um rio que flui às costas do homem.

(de águia ou sol?, Hiena editora, 1985 - tradução de Rui Rosado)

29.12.03

OCTAVIO PAZ

SILÊNCIO


Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios se emudecem.

(de Libertad bajo palabra, 1960 / traduzido por Luís Pignatelli e incluído em Antologia Poética, publicações Dom Quixote, 1984 - Poesia Século XX)