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2.9.18


PAUL ELUARD


A AURORA DISSOLVE OS MONSTROS

Ignoravam
que a beleza do homem é maior do que o homem

Viviam para pensar pensavam para se calarem
Viviam para morrer eram inúteis
Ocultavam a sua inocência na morte

Tinham posto em ordem
sob o nome de riqueza
sua miséria sua bem-amada

Mastigavam flores e sorrisos
Só encontravam um coração na ponta das carabinas

Não percebiam a injúria dos pobres
Dos pobres amanhã sem problemas

Sonhos sem sol tornavam-nos eternos
Mas para que a nuvem se transformasse em lama
Desciam deixavam de fazer frente ao céu

A noite do seu reino a sua morte a sua bela sombra miséria
Miséria para os outros

Esqueceremos estes inimigos indiferentes
Em breve uma multidão
Repetirá baixinho a chama clara
A chama para nós dois unicamente paciência
Para nós dois em toda a parte o beijo dos vivos.


(in Algumas das Palavras, traduções de António Ramos Rosa e Luiza Neto Jorge, Publicações Dom Quixote, 1969 / original de Le lit la table, 1944)

14.11.15

PAUL ÉLUARD


CORAGEM

Paris tem frio Paris tem fome
Paris já não come castanhas na rua
Paris anda vestido de velha
Paris dorme de pé sem ar no metropolitano
Ainda mais sofrimento é imposto aos pobres
E a sabedoria e a loucura
De Paris infeliz
É o ar puro é o fogo
É a beleza é a bondade
Dos seus trabalhadores famintos
Não peças socorro Paris
Estás vivo com uma vida sem igual
E por detrás da nudez
Da tua palidez da tua magreza
Tudo o que é humano se revela nos teus olhos
Paris minha bela cidade
Fina como uma agulha forte como uma espada
Ingénua e sábia
Tu não suportas a injustiça
Para ti só existe a desordem
Vais liberta-te Paris

Paris bruxuleante como uma estrela
Nossa esperança sobrevivente
Vais liberta-te da fadiga e da lama
Irmãos tenhamos coragem
Nós que não usamos capacetes
Nem botas nem luvas nem somos bem educados
Um raio se acende em nossas veias
Os melhores de nós morreram por nós
E eis que o sangue dos que morreram nos volta ao coração
E de novo é a manhã uma manhã de Paris
O extremo da libertação
O espaço da Primavera que nasce
A força idiota está na mó de baixo
Estes escravos nossos inimigos
Se compreenderem
Se forem capazes de compreender
Erguer-se-ão.


(in Algumas das Palavras, tradução de António Ramos Rosa e Luiza Neto Jorge, 2.ª ed.: Publicações Dom Quixote, 1977 / original de Au rendez-vous allemand, 1942)

25.10.15

RAYMOND QUENEAU / ALAIN RESNAIS


LE CHANT DU STYRÈNE 

O temps, suspends ton bol, ô matière plastique !
D'où viens-tu ? Qui es-tu ? et qu'est-ce qui explique
Tes rares qualités ? De quoi es-tu donc fait ?
Quelle est son origine ? En partant de l'objet
Retrouvons ses aïeux ! Qu'à l'envers se déroule
son histoire exemplaire.

Voici d'abord le moule.
Incluant la matrice, être mystérieux,
il engendre le bol ou bien tout ce qu'on veut.
Mais le moule est lui-même inclus dans une presse
qui injecte la pâte et conforme la pièce.
Ce qui présente donc le très grand avantage
d'avoir l'objet fini sans autre façonnage.

Le moule coûte cher : c'est un inconvénient -
mais il peut re-servir sur d'autres continents

Le formage sous vide est une autre façon
d'obtenir des objets : par simple aspiration.

A l'étape antérieure, adroitement rangé,
Le matériau tiédi est en plaque extrudé.

Pour entrer dans la buse il fallait le piston
et le manchon chauffant - ou le chauffant manchon
Auquel on fournissait - Quoi ? Le polystyrène
vivace et turbulent qui se hâte et s'égrène.
Et l'essaim granulé sur le tamis vibrant
fourmillait tout heureux d'un si beau colorant.

Avant d'être granule on avait été jonc,
joncs de toutes couleurs, teintes, nuances, tons

Ces joncs avaient été suivant une filière
un boudin que sans fin une vis agglomère
Et ce qui donnait lieu à l'agglutination ?
Des perles colorées de toutes les façons.
Et colorées comment ? Là devient homogène,
le pigment qu'on mélange à du polystyrène.

Mais avant il fallut que le produit séchât
et, rotativement, le produit trébucha.

C'est alors que naquit notre polystyrène
polymère produit du plus simple styrène.
Polymérisation : ce mot, chacun le sait,
désigne l'obtention d'un complexe élevé
de poids moléculaire. Et dans un autoclave
machine élémentaire à la panse concave
les molécules donc s'accrochant, se liant
en perles se formaient. Oui, mais - auparavant ?
Le styrène n'était qu'un liquide incolore
Quelque peu explosif et non pas inodore.

Et regardez-le bien : c'est la seule occasion
pour vous d'apercevoir le liquide en question.

Le styrène est produit en grande quantité
A partir de l'éthyl-benzène surchauffé.
Faut un catalyseur comme cela se nomme
oxyde ou bien de zinc ou bien de magnésium.

Le styrène autrefois s'extrayait du benjoin
provenant du styrax, arbuste indonésien.

De tuyau en tuyau ainsi nous remontons
à travers le désert des canalisations
vers les produits premiers, vers la matière abstraite
qui circulait sans fin, effective et secrète.

On lave et on distille et puis on redistille
et ce ne sont pas là exercices de style
l'éthylbenzène peut - et doit même éclater
si la température atteint certain degré.

Il faut se demander maintenant d'où proviennent
ces produits essentiels : éthylène et benzène.
Ils s'extraient du pétrole, un liquide magique
qu'on trouve de Bordeaux jusqu'au coeur de l'Afrique.

Ils s'extraient du pétrole et aussi du charbon.
Pour faire l'un et l'autre, et l'autre et l'un sont bons.
Se transforment en gaz, le charbon se combure
et donne alors naissance à ces hydrocarbures.

On pourrait repartir sur ces nouvelles pistes
et rechercher pourquoi et l'un et l'autre existent.
Le pétrole vient-il de masses de poissons ?
On ne sait pas trop ni d'où vient le charbon.
Le pétrole vient-il du plancton en gésine ?
Question controversée... obscures origines...

Et pétrole et charbon s'en allaient en fumée
Quand le chimiste vint qui eut l'heureuse idée
de rendre ces nuées solides et d'en faire
d'innombrables objets au but utilitaire.
En matériaux nouveaux ces obscures résidus
Sont ainsi transformés. Il en est d'inconnus
qui attendent encore un travail similaire
pour faire le sujet d'autres documentaires.

17.12.13

GHÉRASIM LUCA


OS GRITOS VÃOS

Ninguém a quem dizer
que nada temos a dizer
e que o nada que dizemos
continuamente
o dizemos a nós mesmos
como se nada nos disséssemos
como se ninguém nos dissesse
nem mesmo nós
que nada temos a dizer
ninguém
a quem poder dizê-lo
nem mesmo nós

Ninguém a quem dizer
que não temos nada a fazer
e que nada mais fazemos
continuamente
o que é um modo de dizer
que não fazemos nada
um modo de não fazer nada
e de dizer o que fazemos

Ninguém a quem dizer
que não fazemos nada
que nada fazemos
senão o que dizemos
nada quer dizer



(tradução de Miguel Serras Pereira, in Sud-Express - poesia francesa de hoje. Relógio D'Água, 1993)

10.6.13

HENRI MICHAUX


PEQUENO

Quando me virem,
Passem ao largo,
Não sou eu.

Nos grãos de areia,
Nos grãos dos grãos,
Na farinha invisível do ar,
Num grande vácuo que se alimenta de sangue,
Aí é que eu vivo.

Oh! não tenho de que me envaidecer: Pequeno! Pequeno!
E se me apanhassem,
Fariam de mim o que quisessem.



 

 (de As Minhas Propriedades, trad. de José Carlos González, Fenda, 1999)

28.2.12


PAUL ÉLUARD


«A POESIA DEVE TER COMO FIM A VERDADE PRÁTICA»

Aos meus amigos exigentes

Se vos digo que o sol na floresta
É como um ventre que se entrega num leito
Acreditais e aprovais os meus desejos

Se vos digo que o cristal de um dia de chuva
Continua a soar na languidez do amor
Acreditais e alongais o tempo-amor

Se vos digo que nas ramagens do meu leito
Faz ninho um pássaro que jamais diz sim
Acreditais compartilhais minha inquietação

Se vos digo que no golfo de uma fonte
Gira a chave de um rio entreaberto o verde
Acreditais-me e mais compreendeis-me.

Mas quando canto sem rodeios a minha rua
E meu país como rua sem fim
Já não me acreditais e partis p'ra o deserto

Pois caminhais sem alvo sem saberdes que os homens
Precisam estar unidos e ter esperança e lutar
P'ra explicar o mundo e para o transformar

Com uma só batida do coração vos levo
Estou fatigado vivi e vivo ainda
Mas espanto-me de falar p'ra vosso agrado
Quando vos queria libertar p'ra vos unir
Não só à alga e ao junco da aurora
Mas aos nossos irmãos que constroem a luz.


(in Poemas Políticos, tradução de Carlos Grifo, editorial Presença, 1973)

20.2.12


EDMOND JABÈS


A MÁSCARA E OS DIAS

I

Não se constrói sobre a pedra côncava. (Ainda menos sobre a neve dos picos?)
As recordações vêm aumentar o seu poder sobre o homem à medida que o objectivo se esfuma.
(Muralhas de sempiternas manifestações de força. Basta a obstinação de uma lágrima, basta um nada de ar decidido para que o ferimento seja mortal.)
Amanhã é o dia dos ladrões.
Dos nossos múltiplos rostos, o único persiste; rochedo onde se apoia a fadiga do mar.

II

O porto mantém a sua palavra. (Manterá o cinto dos afogados?)
Na beira do abismo, cintilante coroa de exílio.
Os mortos participam connosco na eclosão dos enigmas em garfo que arranham o espaço.


(in A obscura Palavra do Deserto – Uma Antologia, selecção e tradução de Pedro Tamen, livros Cotovia, 1991 – original de Je Bâtis ma Demeure, 1959)

29.11.11

GUILLEVIC


COISAS

Pratos de faiança, usados,
De onde o branco se escapa,
Viestes novos
Para nossa casa.

Aprendemos imenso
Desde esse tempo.


SUBÚRBIO

A custo de pé se mantêm os muros 
Ao longo desta rua
Íngreme, cheia de curvas.

Dir-se-ia que vieram todos, os do bairro,
Enxugar as mãos gordurosas no rebordo das janelas,
Antes de em conjunto penetrarem na festa
Onde parecia cumprir-se o seu destino.

Vê-se um comboio a arrastar-se por cima da rua,
Vêem-se luzes a acender-se,
Vêem-se quartos sem espaço.

Por vezes uma criança chora
Na direcção do futuro.


ELEGIA

Bebemos às escondidas
Em copos intactos
Vinho que talvez
Fosse para nós.

Bebemos às escondidas
Por entre as turbas
Que se moviam para o sol.

Era à saída dos nossos labirintos
E faltava-nos firmeza nas mãos.

As delícias do azul reservavam-se para a colina,
O cimo das árvores
E o ocioso gavião.

Tivemos a nossa hora e julgámos possível
Proteger as planícies e o próprio espaço.

Amámos às escondidas
E soubemos que não pode curar-se
Em pouco tempo alegria excessiva.


(in Poesias, tradução de David Mourão-Ferreira, editora Ulisseia, 1965 - originais de Terraqué, 1942)

22.4.10

SAINT JOHN-PERSE

IX


De parcela em parcela do tempo parcial, o pássaro criador do seu voo sobe escadas invisíveis e ganha altura...

Como se fora uma corrente de escovém, desde a nossa profundidade nocturna, enquanto ganha o largo, puxa a si o traço interminável do homem que não pára de lhe agravar o peso. Do alto segura o fio da nossa vigília. E uma noite soltará esse pio sei lá de onde, que em sonhos faz erguer a cabeça ao adormecido.

Chegámos a vê-lo no velino de uma aurora: ou de passagem, negro — quer dizer branco — no espelho de uma noite de outono, com os gansos bravos dos velhos poetas Song, e deixava-nos sem fala no bronze dos gongues.
De ser inteiro tende para lugares sem paragem. É nosso emissário e quem nos inicia. «Senhor do Sonho, conta-nos o sonho!...»

Porém ele, vestido com pouco cinzento ou a despir-se dele para um dia nos explicar melhor a inaderência da cor — em todo este leite de uma lua parda ou verde e de feliz semente, em toda esta claridade de nácar verde ou rósea, que é também a do sonho por ser a dos pólos e das pérolas no fundo do mar — ele navegava diante do sonho e dava esta resposta: «Chegar mais longe!...»

Entre os animais que não deixaram de habitar o homem como uma arca viva, o pássaro, com um piar muito prolongado, com o seu incitamento ao voo, foi o único a dotar o homem de uma nova audácia.

(de Pássaros, tradução de Aníbal Fernandes, Hiena editora, 1994)

8.2.10

HENRI MICHAUX

— E é sempre —


E é sempre o lanho feito com a lança
o enxame de vespas que ataca os olhos
a lepra
e é sempre o flanco aberto

e é sempre o enterrado vivo
e é sempre o tabernáculo partido
o braço fraco como um cílio contra o rio
e é sempre a noite que volta
o espaço vazio que espiona

e é sempre a velha correia
e é sempre o enterrado vivo
e é sempre o balcão desmoronado.
O nervo trilhado no fundo do coração que recorda
o pássaro-baobá a chicotear o cérebro
a torrente onde o ser se precipita

e é sempre o encontro no meio da tempestade
e é sempre a orla do eclipse
e é sempre atrás do renque das células
o horizonte recuando, recuando...


(mudado para português por Herberto Helder, in Doze Nós Numa Corda, Assírio & Alvim, 1997)

30.8.09

PAUL ÉLUARD

GRITAR


Aqui a acção simplifica-se
Derrubei a paisagem inexplicável da mentira
Derrubei os gestos sem luz e os dias impotentes
Lancei por terra os propósitos lidos e ouvidos
Ponho-me a gritar
Todos falavam demasiado baixo falavam e escreviam
Demasiado baixo

Fiz retroceder os limites do grito

A acção simplifica-se

Porque eu arrebato à morte essa visão da vida
Que lhe destinava um lugar perante mim

Com um grito

Tantas coisas desapareceram
Que nunca mais voltará a desaparecer
Nada do que merece viver

Estou perfeitamente seguro agora que o Verão
Canta debaixo das portas frias
Sob armaduras opostas
Ardem no meu coração as estações
As estações dos homens os seus astros
Trémulos de tão semelhantes serem

E o meu grito nu sobe um degrau
Da escadaria imensa da alegria

E esse fogo nu que me pesa
Torna a minha força suave e dura

Eis aqui a amadurecer um fruto
Ardendo de frio orvalhado de suor
Eis aqui o lugar generoso
Onde só dormem os que sonham
O tempo está bom gritemos com mais força
Para que os sonhadores durmam melhor
Envoltos em palavras
Que põem o bom tempo nos meus olhos

Estou seguro de que a todo o momento
Filha e avó dos meus amores
Da minha esperança
A felicidade jorra do meu grito

Para a mais alta busca
Um grito de que o meu seja o eco

(in Algumas das palavras, tradução de António Ramos Rosa e Luiza Neto Jorge, 2ª ed.: publicações Dom Quixote, 1977 – poesia século XX)

30.5.09

JOÃO CÉSAR MONTEIRO



(imagem de Fragmentos de um Filme-Esmola, 1972)



FRANCIS PONGE


A LARANJA


Como na esponja há na laranja uma aspiração a retomar a forma depois de ter sofrido a prova da expressão. Mas enquanto a esponja o consegue sempre, a laranja nunca: porque as suas células estoiraram, os seus tecidos rasgaram-se. Enquanto que só a casca se restabeleceu languidamente na sua forma, graças à sua elasticidade, um líquido de âmbar derramou-se, acompanhado por um frescor e perfume suaves, é certo, – mas muitas vezes também pela consciência amarga de uma expulsão prematura de caroços.

Será necessário tomar partido entre estas duas maneiras de suportar mal a opressão? – A esponja é apenas músculo e enche-se de vento, de água limpa ou suja, consoante: essa ginástica é ignóbil. A laranja sabe melhor, mas é demasiado passiva, – e esse sacrifício odorífero... é de facto vender-se barato ao opressor.

Mas não é um dizer que baste sobre a laranja o ter lembrado a sua particular maneira de perfumar o ar e de deliciar o seu carrasco. É preciso pôr o acento na coloração gloriosa do líquido que daí resulta, e que, melhor do que o sumo de limão, obriga a laringe a abrir-se largamente para a prolação da palavra como para a ingestão do líquido, sem nenhuma careta apreensiva por dentro da boca, uma vez que ele não faz com que as papilas se arrepiem.

Além disso, fica-se sem palavras para confessar a admiração que merece o invólucro deste terno, frágil e róseo balão oval nesse espesso mata-borrão húmido cuja epiderme extremamente fina mas muito pigmentada, acerbamente sápida, é suficientemente rugosa para prender dignamente a luz na perfeita forma do fruto.

Mas no fim de um demasiado breve estudo, conduzido tão redonda e expeditamente quanto possível, – é preciso chegar ao caroço. Este grão, com a forma de um minúsculo limão, apresenta no exterior a cor da madeira branca de limoeiro, no interior um verde de ervilha ou de rebento tenro. É nele que se reencontram, depois da explosão sensacional da lanterna veneziana de sabores, cores e perfumes que o balão frutado em si mesmo constitui, – a dureza relativa e o verdor (não aliás inteiramente insípido) da madeira, do ramo, da folha: bem pequena suma, embora com certeza a razão de ser do fruto.

(in Alguns Poemas, tradução de Manuel Gusmão, edições Cotovia, 1996 – original de Le parti pris des choses / O partido tomado pelas coisas, 1942)

12.6.08

[para juntar a estes]

ARTHUR RIMBAUD

Vogais


A negro, É branco, I vermelho, U verde, Ó azul: vogais,
Direi um dia destes vossas ocultas origens:
A, negro colete peludo das moscas infernais
Voltejando em volta de fedores que dão vertigens,

Golfos de sombra. É, canduras de tendas e vapores evanescentes,
Lanças de glaciares orgulhosos, reis brancos, arrepios de umbelas,
I, púrpuras, sangue cuspido, riso de bocas belas
Em plena cólera ou bebedeiras penitentes.

U, ciclos, vibrações divinas dos mares malcheirosos
Paz dos pastos cheios de animais, paz das rugas
Por alquimia impressas na fronte dos grandes estudiosos;

Ó, clarim supremo, cheio de ruídos e estranhas fugas,
Silêncios atravessados pelos Anjos e pelos Mundos:
- Ó Ómega, raio violeta dos seus olhos fundos!

(“subvertido para português” por Manuel Alegre, em Rouxinol do Mundo, publicações Dom Quixote, 1998)

10.2.08

[Pretendo continuar #1.
O Blogger limitou o acesso ao “E Deus criou a Mulher”, do Miguel Marujo (com SirHaiva). Em jeito de homenagem e solidariedade, inicia-se aqui uma novena de desagravo.]

RONSARD

Pequeno umbigo, meu pensar te adora


Pequeno umbigo, meu pensar te adora,
meu olho não, que nunca houve esse bem,
umbigo que és de quem merece bem
que grã cidade lhe ergam aí fora:

Sinal divino, em que divino mora
o andrógino laço e o retém,
quanto a ti, ó meu bem, quanto também
ledo a teus gémeos flancos honro agora.

Nem a bela cabeça, olhos ou fronte,
nem doce riso, ou mão que faz em fonte
meu coração e em choros me traz ganho,

me podiam, tão belas, contentar
sem esperança um dia de apalpar
teu paraíso onde o prazer amanho.

(tradução de Vasco Graça Moura, in Alguns Amores de Ronsard, Bertrand editora, 2003)

22.9.07

BORIS VIAN

QUERO UMA VIDA EM FORMA DE ESPINHA


Quero uma vida em forma de espinha
Num prato azul
Quero uma vida em forma de coisa
No fundo dum sítio sozinho
Quero uma vida em forma de areia nas minhas mãos
Em forma de pão verde ou de cântara
Em forma de sapata mole
Em forma de tanglomanglo
De limpa-chaminés ou de lilás
De terra cheia de calhaus
De cabeleireiro selvagem ou de édredon louco
Quero uma vida em forma de ti
E tenho-a mas ainda não é bastante
Eu nunca estou contente

(in Canções e poemas, tradução de Irene Freire Nunes e Fernando Cabral Martins, Assírio & Alvim, 1997 - Rei Lagarto)

22.7.07

PAUL ÉLUARD

DOMINGO À TARDE


Enlaçavam-se os domínios arqueados de uma aurora cinzenta, num país cinzento, sem paixões, tímido,

Enlaçavam-se os céus implacáveis, os mares interditos, as terras estéreis,

Enlaçavam-se os galopes incansáveis de cavalos magros, as ruas onde já não passavam os carros, os cães e os gatos moribundos,

Aureolavam-se as aparências, os dias infindáveis, dias sem luz, as noites absurdas,

Aureolava-se a esperança de uma neve definitiva, marcando na fronte o ódio,

Adensavam-se os astros, adelgaçavam-se os lábios, alargavam-se as frontes como mesas inúteis,

Curvavam-se os cumes acessíveis, adoçavam-se os mais insípidos tormentos, comprazia-se a natureza numa única função,

Respondiam-se os mudos, escutavam-se os surdos, olhavam-se os cegos

Nestes domínios confundidos onde até as lágrimas só se miravam em espelhos lamacentos, neste país eterno que misturava os países futuros, neste país onde o sol ia sacudir as suas cinzas.


(Tradução de António ramos Rosa, in Antologia, edições Tempo, [s/d] - original de Poésie et Vérité, 1942)

22.4.06

[outros melros XXXIV - creio ser a este poema que se refere Mário de Carvalho no texto antes aqui publicado]

JEAN-BAPTISTE CLÉMENT

Le temps des cerises


Quand nous chanterons le temps des cerises,
Et gai rossignol, et merle moqueur
Seront tous en fête.
Les belles auront la folie en tête
Et les amoureux du soleil au coeur...
Quand nous chanterons le temps des cerises,
Sifflera bien mieux le merle moqueur

Mais il est bien court, le temps des cerises,
Où l'on s'en va deux cueillir en rêvant
Des pendants d'oreille !
Cerises d'amour aux robes pareilles,
Tombant sur la feuille en gouttes de sang.
Mais il est bien court le temps des cerises,
Pendants de corail qu'on cueille en rêvant!

Quand vous en serez au temps des cerises,
Si vous avez peur des chagrins d'amour,
Evitez les belles.
Moi qui ne crains pas les peines cruelles,
Je ne vivrai point sans souffrir un jour...
Quand vous en serez au temps des cerises,
Vous aurez aussi vos peines d'amour.

J'aimerai toujours le temps des cerises :
C'est de ce temps là que je garde au coeur
Une plaie ouverte.
Et dame Fortune, en m'étant offerte,
Ne pourra jamais fermer ma douleur...
J'aimerai toujours le temps des cerises
Et le souvenir que je garde au coeur.


O tempo das cerejas

Quando cantarmos no tempo das cerejas,
E o feliz rouxinol mais o melro gozão
Andarem em festa.
As formosas terão tolice na testa
E os namorados sol no coração...
Quando cantarmos no tempo das cerejas,
Assobiará melhor o melro gozão

Mas passa depressa, o tempo das cerejas,
Quando os namorados colhem, a sonhar,
Brincos de princesa!
Cerejas de amor de igual beleza,
Caem sobre as folhas, qual sangue a pingar.
Mas passa depressa, o tempo das cerejas,
Brincos de coral colhidos a sonhar!

Quando vos chegar o tempo das cerejas,
Se tiverdes medo das coitas d'amor,
Evitai formosas.
Mas eu que não temo penas dolorosas,
Não hei de perder um só dia de dor...
Quando vos chegar o tempo das cerejas,
Haveis de ter também vossas coitas d'amor.

Sempre adorarei o tempo das cerejas:
Guardo desse tempo no meu coração
Uma chaga aberta.
E mesmo a Fortuna, posta como oferta,
Jamais poderá tirar-me esta aflição...
Sempre adorarei o tempo das cerejas
E esta memória no meu coração.

(tradução minha)

4.6.05

BLAISE CENDRARS

(...)
Quand on voyage on devrait fermer les yeux
Dormir j'aurais tant voulu dormir
Je reconnais tous les pays les yeux fermés à leur odeur
Et je reconnais tous les trains au bruit qu'ils font
(...)

(excerto de Prose du Transsibérien et de la Petit Jeanne de France, 1913)

24.2.05

VERLAINE

CHANSON D'AUTOMNE

Les sanglots longs
Des violons
De l'automne,
Blessent mon coeur
D'une langueur
Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l'heure,

Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure;

Et je m'en vais
Au vent mauvais
Qui m'emporte
Deçà, delà
Pareil à la
Feuille morte

(de Poèmes Saturniens, 1866)


JAMES JOYCE

TRANSLATION OF VERLAINE'S "CHANSON D'AUTOMNE"

A voice sings
Like viol strings
Through the wane
Of the pale year
Lulleth me here
With its strain.

My soul is faint
At the bell's plaint
Ringing deep;

I think upon
A day bygone
And I weep.

Away! Away!
I must obey
Thid drear wind,
Like a dead leaf
In aimless grief
Drifting blind

(datado de "1900-1902")


CANÇÃO DE OUTONO

O pranto longo
Dos violinos
Do Outono
Fere-me a alma
Com um langor fino
Sempre igual

Já sufocando,
Pálido, quando
Bate a hora

Ainda me lembro
De antigos tempos
E então choro;

E vou-me embora
Por um mau vento
Que me leva
Sem rumo, lento,
Tal como leve
Folha morta

(tradução de Fernando Pinto do Amaral, in Poemas Saturnianos e Outros, Assírio & Alvim,1994 - documenta poetica)

10.2.05

JEAN-CLARENCE LAMBERT

"FRAGMENTOS E LEGENDAS"

As palavras por vezes refugiam-se
no interior da boca
por detrás dos dentes

Enquanto esperas, diz ele, toma atenção
às coisas que não tiveram começo
a isso que é tão negro como o coração.

Estamos em desacordo, eu e a minha sombra.

Em todas as coisas faço parte do abismo.

Uma temporada fora do inferno,
sob as estrelas frias.

Movimentos impecáveis em direcção ao inacessível.

Transportar o que sobra dos acontecimentos para outro
presente, se possível anterior.

E tudo isto acontece na fenda entre a questão e a resposta.

(tradução de Casimiro de Brito, in Poesia em Lisboa 2000, Casa Fernando Pessoa e P.E.N. Clube Português, 2000)