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14.5.19


JOÃO MOITA


Sentado ao fogo, junto da minha mulher, inquilina da minha solidão, recordo os anos da juventude. Nessa altura, o mosto fermentava nas caves da idade, e nós aguardávamos o vinho maduro com a impaciência dos sóbrios. Tudo foi preparação. Os enforcados amavam as nossas travessias, as mães rezavam com as mãos postas sobre o linho corrompido pelo sal. Onde as aves desertavam, erguíamos um templo de suspeita e sedução. Eram os dias do amor e do arrependimento. Hoje sei que a embriaguez é só esta indiferença com que pressinto o sangue nos dedos da minha mulher, que borda, e que a sabedoria nos abandona no fim. Ainda esta noite comungarei com deus. Amanhã serei as uvas frescas na videira.

(Rembrandt, Tobias e Sua Mulher)


(de Fome, in Uma Pedra sobre a Boca, Guerra & Paz, 2019)




19.8.18


MÁRIO AVELAR


APRIL LOVE – ARTHUR HUGHES

a José Tolentino Mendonça

Esmagado ainda pelo peso
da cor, da mancha sufocando o espaço
sobre Saulo… a conversão, como
Caravaggio a concebeu… absorto,
no meu rumo íntimo
para Damasco, regressava
de Santa Maria del Popolo, pela
Via del Corso, quando a voz
De um anjo me interpelou…
a mim, apenas a mim, nos versos
do meu amigo Francesco:

E qualcosa rimane,
fra le pagine chiare,
fra le pagine scure.

Seria o seu rosto como
o céu de abril?

Dela retive apenas
a silhueta sentada
numa cadeira de rodas.

Revi-a meses depois,
ao regressar uma vez mais de
Santa Maria del Popolo.
Na Via del Corso, pois bem.

Agora, que o espanto
se ausentara, olhei-a
sem pudor, detive-me no
rosto cortado pelas rugas –
não era este o de um céu de abril.

Entre a alegria e a dor,
perplexo fiquei perante a
prótese metálica… e a velha
guitarra acústica.

Mas a voz… a voz, essa era ainda a
de um anjo.


(de No Rumor das Imagens, in Coreografando Melodias no Rumor das Imagens, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2018)



24.7.16

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE


CRIPTOPÓRTICO

Quem pudera viver sempre pelos dias do
verão, quando o mar é a pele que sentimos
e o sol fica a amassar a erva dos caminhos
nas lojas, nos corredores sob o chão de
Aeminium, sob a vaga luz de uma lucerna
— o âmbar do azeite — o pão escuro,
a doce tâmara, uma cesta de sal, as cores
vesperando de tapetes esperam o repouso, a
conversa, notícia do Império — Caracala
manda assassinar Gela, seu irmão — a
um canto o vendedor de cerâmica de verniz
vermelho e figuras
sob outro alvéolo, os que se dispunham a
celebrar sacrifícios, danças, péan por um
deus por um herói. A água corria das
ânforas, pérolas frias, semelhantes ao gelo
e o vinho, uvas esmagadas deixavam nos
lábios um sabor doce, acidulado de sombras
— as essências ardiam nos turíbulos —
eram vagos, então aqueles que passavam na
cripta, entre um e outro piso. Hoje,
quando regresso ao calor ténue dessa luz
coada, a vida, não mais essa outra vida que
não tenho já, mas que terá sido a tristeza e a
alegria com as quais agradei e frustrei o
génio que me foi dado outrora — também
hoje chegará um verão pelo som dos passos
da ligeira sandália e se fundeará na aeternitas
imperii

* Alicerce do fórum romano. C. 40-50 d. C.


E DE REPENTE IRROMPE A RUA

E de repente irrompe a rua da cidade
aquela que se chama do Cabido
a de S. Salvador, com o
pequeno largo — vejo-as do extenso
vidro da janela. Na igreja escreveram
zona antifascista
um pouco mais abaixo, a roxo, praxe
sedativo n.º 1 em Coimbra

duas vizinhas descem para a Rua do Loureiro, se
acaso nestas ruas ainda vive alguém
num andar esconso, no desvão dos cafés manhosos —
nas mesas cai a dama de espadas
a juventude regressa noite fora — entre
uma porta e uma janela cega
passeia-se o desenho de um gato preto
líquenes nos beirais, a culpa venial
de mais um dia que passa, denso, varrido por clareira
de rogos. E

se nos virarmos
o grande teatro da Capela do Tesoureiro
à nossa espera
como se estivéssemos em tribuna eleita
bem em frente a imagem de Fortuna, festão de pedra.

Vai o olhar pela rua que foi dos açougueiros. Estreitos
quintais entre muros, ancoradouro de laranjas
o casario estremece nos versos de António Nobre
transporta carta selada
leva escrita a distinção entre a morte e o acto de viver.
Na outra margem o que resta de olival e de bosque.


(de Mirleos, Relógio d'Água, 2015)

26.10.14



AMADEU BAPTISTA


ISAÍAS

Quem quer que sejas, persevera.
Ainda que o templo seja destruído
e sejam pavorosas as notícias,
permanece na luta, da fé ou do instinto.
Que os teus dedos marquem
a página em que estiveres para que perdures,
para que te defendas dos ferros da ameaça,
do desterro,
do açoite feroz,
da escravatura.
Ah, persevera.
Em ti, no que vês e não vês
à tua volta, no labirinto interior
em que te perdes, nas areias escaldantes
do deserto, no arco assírio que te malbarata,
em todo o mal que vês ratificado
pelos que te governam,
nos actos levianos da ganância,
nas ímpias acções que vês nos pios,
hás-de encontrar a luz,
a luz que te desola mas te ergue.
Ah, persevera.
Porque não mais haverá
violência sobre a terra e haverá vinho.
Porque se há-de alargar o lugar
da tua tenda e há-de segurar-se a tua estaca,
e a paz dos teus oficiais há-de fazer-se,
e dos teus magistrados a justiça,
e o desamparo esquecerás para sempre.



(de Sistina, Edita-Me editora, 2014)

16.10.14




FERNANDO ECHEVARRÍA


AUTO-RETRATO DE REMBRANDT

1
A TELA OCULTA O OUTRO DE SI MESMO.
Que vai surdindo dela, da perdição de análise
que está no espelho lendo
a figura perdida, já só quase
ver o fora por dentro,
enquanto ver perdura em sua idade.
Cada minúcia incita no momento
a luz do objecto visto. E a do transe
duma veia infalível a que o peso
instrumental se iluminasse.
E, do fundo do outro de si mesmo,
o ver se vê. Com o só dentro de exterioridade.

2
E A DISCRIÇÃO DE VER DOMINOU TANTO
que a implacável doçura da velhice
se esqueceu de ir chegando,
com o uso da roupa, a essa luz humilde
de crânio coroado
de indiferença à encenação sensível.
E essa indiferença cumpre-se no trato
do porte diligente que a atenção atinge
e deixa iluminar-se até no pano,
gasto no uso que exige
a paciência esquecida no trabalho.
E que o estudo a claridade erige.

3
QUE A DISCRIÇÃO TAMBÉM É LUZ. DESPRENDE-SE
tanto da roupa como da paciência
com que se espera que o olhar se entregue
ao ajuste objectivo que a tristeza
instaura à volta de cada coisa. A ergue
à só indiferença de si mesma.
Não é luz que jubile. Apenas serve.
Cumpre a penumbra duma árdua empresa
em que tufos minúsculos somente
difundem uso de quase só emergência.
De aí as formas surdem. Quase nem se
desembacia o lume da surpresa.

4
OU É A SURDA SURPRESA DO VAGAR
que pelo escuro dos castanhos sobe
até um cinzento por que não se dá
nem na camisa, nem no rubro pobre
do manto casual.
Que na paleta quase que se escondem,
como se funde na mudez das mãos
a inteligência agora quieta. Porque
espera que ver as mova instrumentais
e só então acordem
a esse sono sobrenatural
que volve humilde o poderio ao homem.

5
O SILÊNCIO COMEÇA DESDE BAIXO.
É de onde aponta a escuridão das linhas
que vão gerar essa estrutura de ângulos
difícil, mas de fundação precisa.
O pincel o sigilo vai ao canto
mais fosco alimentar. E traz acima
o nascimento vertical do traço
que o silêncio da tela em sua orla afinca
e, a custo, faz recrudescer o alto
vagar de ver. A independência pia
com que, do outro de si mesmo, tanto
a distância de ver se determina.

6
E, AÍ, A LUZ, DIR-SE-IA QUE DE DENTRO
da operação de estar a ver nos vem.
E quanta baste para nós lhe vermos
a claridade exterior. E o trem
de sono que a brancura deixa ao centro
da indiferença com que já se vê.
Mas que prolonga o horizontal acerto
da tela que na tela é tenso. E é
rectângulo que diz o descoberto,
enquanto o inferior é só refém
duma paleta que lhe adumbra o peso
e nutre o luto arcaico do pincel.

7
E UM OUTRO, DE VERTICAL DIFUSO
e de uma escuridão lenta de ofício,
de onde se arranca um quase eco de rubro
a um castanho profundo a abrir a vinho.
Mas de onde se adivinha sobretudo
que a vibração do escuro nos vai vindo,
até a cabeça destacar o vulto,
só iluminado quanto for preciso
para que em ver desembacie o estudo
a independência. Esse lugar vazio
que os outros de si mesmos vê no mundo
onde de si se vêem desprendidos.



(de Uso de Penumbra, 1995)

19.7.14

DAVID HOCKNEY



A Bigger Splash, 1967

Acrílico s/ tela

242,5 cm X 243,9 cm
Tate, Londres
 

JOSÉ EDUARDO AGUALUSA


Já é noite quando entro em casa. Vera Regina acha-me um ar estranho. Palavras dela:
«Estás com um ar estranho.»
Não me pergunta nada. Tenho em casa, na parede da sala de visitas, uma cópia em tamanho real de A Bigger Splash, 243,8 cm por 243,8 cm, que David Hockney pintou em 1967. Pago a um jovem artista para me fazer cópias exactas das minhas obras preferidas. Os meus amigos acham isso de muito mau gosto. Tomás, por exemplo, costuma cuspir numa tela de Edward Hopper - ou melhor, no caso, do Lúcio Falaz, é esse o nome do jovem falsário -, Rooms by the Sea, que mandei colocar no escritório: 
«Acho mais honestas as flores de plástico.»
Eu também não gosto de flores de plástico - porque não são flores. Um óleo sobre tela, porém, é um óleo sobre tela. Uma aguarela é uma aguarela. Se eu fosse muito rico comprava os originais. Se eu fosse pobre não comprava pósteres. Os pósteres, sim, são flores de plástico. Sento-me em frente de A Bigger Splash, a cópia, e demoro-me a vê-la. É uma composição simples. Uma casa, duas palmeiras, uma cadeira de lona, e, em primeiro plano, uma prancha e a piscina. Alguém acabou de saltar, mas não se vê corpo nenhum, apenas a água em desordem. O silêncio, um súbito splash, e o silêncio de novo. Eu ainda não mergulhei de vez, penso, estou suspenso no ar. Aquele é o meu retrato amanhã. Um pouco de água em convulsão e o peso puro do mistério no instante seguinte. 


(excerto do conto "A Bigger Splash", in Catálogo de Sombras, 5ª ed.: Publicações Dom Quixote, 2009 - 1ª ed. de 2003)

2.3.14



DESESPERO
(5 desenhos de ROGÉRIO RIBEIRO, num livro oferecido pelo Amadeu Baptista)


I
É impossível saber
Quantos nomes temos
Num só corpo.

Impossível também a voz
Que ama, a mão que toca,
Tudo, todos, sempre,

Alterando timbres,
Deixando suceder as cores
Constatando a impossibilidade.




II
O desequilíbrio acontece
Sempre em nós próprios
Na presença do outro,

De quem ali está, incerto,
Presença a confirmar
Ausência. O vazio

Alheio a nós, do outro lado
Do desamparo. E o corpo
A não saber chegar ao chão.


III
A ânsia de alguma coisa,
Nada, a sede de ter
Um rosto visível. Não

O quase limite de estarmos
Todos
Debaixo do mesmo céu,

Dentro de uma esquadria
Demasiado exígua. Não
Apenas a sobrevivência.



IV
Não perceber, não reconhecer
Quem, quantos de nós
Estamos vivos. Desejar

A forma do próprio rosto
Ainda – até quando? –,
Para não a perder. Esticar

Os braços
Como quem grita sabendo
Que nunca será ouvido.



V
Ainda o rosto, ainda
A forma dele
Simplificada à margem

De uma fuga ou
Vislumbre de ausência.
O nada de um corpo

É não ser visto. Uma
E outra são o mesmo,
Desconexas.


Desespero, 2003
Acrílico s/ papel
56 cm X 76 cm
(reproduzidos a partir de Rogério Ribeiro / Desenho, Galeria Municipal de Montemor-o-Novo, 2005)

5.1.14

JOSÉ DO CARMO FRANCISCO


SOBRE UMA FOTOGRAFIA DE NUNO FERRARI

Há um homem que caminha contra o movimento do Mundo.
O trabalho, a pressa de chegar, o jogo das obrigações, deixam-no, por agora, indiferente.
Ele vira as costas ao trânsito da Vida e caminha para a máquina, para o magnésio que lhe dará a revelação duma serena amargura.
A sua Vida está suspensa nesse momento preciso.
Lesionado, impedido de jogar, toca nele, dentro dele, uma música triste.
Por isso se afasta do rio, do silêncio da água ou da neblina da manhã já alta.
As colunas do cais são um termómetro gigante a medir a amargura duma exclusão.

Há um homem que caminha contra o movimento do Mundo.
Apanhado na trama secreta dum acaso infeliz, desloca memórias de tardes entre sol e pó, à procura dos longos abraços dos companheiros a correr do outro lado do campo.
Por isso não olha de frente a objectiva, não se enquadra nas sombras, nas rugas, na duvidosa estrada do futuro.
Imaginamos que ao lado passaram aves, rápidas, tensas, como urgentes vírgulas no tempo deste homem. Passam ou passaram a caminho do Sul mas este homem não teve a esperança do calor, nem do sal das praias ou do corpo efémero das ondas.
O seu olhar era amargo, demasiado real para o magnésio da verdade, demasiado forte para a revelação dum pequeno mundo a ser destruído.


(de Mesa dos Extravagantes, O Mirante, 1996)

23.12.13

[no dia em que passam 125 anos sobre o corte da orelha de VAN GOGH] 

FERNANDO GUIMARÃES


VAN GOGH: «AUTO-RETRATO COM A ORELHA LIGADA»

O corte numa orelha. Esta rasura
que pode ser da morte, tão vizinha
de todo o corpo, enquanto principiam
as colheitas que vinham revelar

a cicatriz mais perto das searas,
o ruído que passa pela gaze
porosa, as ligaduras que no rosto
o fecham para sempre, mesmo quando

não existem sequer. Qualquer imagem
é sempre igual porque nela se via
aquilo que em segredo procuramos

até que se encontrasse o mesmo sítio
onde fique contida a própria dor
só para ser arada nestes campos.



(de Os Caminhos Habitados, Afrontamento, 2013)

9.5.12

ANTÓNIO DACOSTA


Está calor em Évora, 1983
acrílico sobre tela
146 x 114 cm


ARTUR GOULART


Pequena serenata eborense para Dacosta
(em três andamentos)

I

Chegou notícia da tua morte.
Morte aparente a tua, António,
fingida sem fingimento,
que de verdade se faz a tua estrada,
ausente, mas presente
como há muito tempo
em Paris, em Évora ou onde te escondes,
longe da ilha, mas na ilha sempre.


II - Uma romana em Évora

Lento se arrasta o espectro da cidade
- Liberalitas Julia dizem -
Caem encantados os últimos sons da tarde
Dorido corre o sonho feito grito e cor.
Romana em Évora branca compostura
Parede-pano-planície lavada em sol
Inviolado passado marítima candura.


III - Está calor em Évora!

Gémeas esperanças de branco e de ternura
no apetecível espelho sobrevive
longa trança de azulejos.

Está calor em Évora!

Sente-se o sol redondo absoluto
no dourado recinto esvoaçam
incontidos os desejos.

Está calor em Évora!

Arde violenta a pedra
a sombra entorpece sonolenta o cio
da terra em fresco desabafo
apenas as fontes e as palavras...

Está calor em Évora!

Dezembro 1990

(de No fio das palavras, Santa Casa da Misericórdia da Vila das Velas, 2010)



5.2.12


FERNANDO LANHAS


auto-retrato, 1973

JOSÉ VIALE MOUTINHO


HOMENAGEM AO PINTOR FERNANDO LANHAS
  
1

dele é o grande livro dos astros
as linhas da idade pertencem-lhe
assim como todos os museus da terra
e o crânio do homem de cromagnon

vejamos as horas que restam no saber
do tempo nestes relógios de sol vivo
como evoluiu o linho o trigo o milho
quanto vale um minuto isolado por aí

como se passa da cor à ausência dela
no espelho das cinzas nos tecidos
o fogo acabado de descobrir os olhos
postos numa boneca de louça antiga

esquece-se das chaves do automóvel
as casas suspensas nos estiradores
uma porta que não existe ainda oca
tudo tão relativo como a ampulheta


2

servem-nos os melhores vinhos o lápis
que traduz o chapéu de palha da madeira
essa estrada por entre os arvoredos
deus se existe vai no porta-bagagens

adiante no tablier ninguém escuta as
perdas e os danos o inquieto barro
que se permite no largo de s. joão novo
num palácio de nasoni entre muralhas

de que me lembro e aonde devo guardar
este barco dos anos trinta este folheto
de monstros de há trezentos anos a lua
naquele tempo não imaginava a sua morte

quantas vezes voltamos ao lugar onde
nem a sibila adivinharia as sombras
com os nossos números de ordem astros
de um universo perdido nas palavras


(desenho e poema in Retrato de Braços Cruzados, editorial Caminho, 1989)

4.12.11

RENÉ MAGRITTE


La reproduction interdite, 1937

óleo sobre tela

Museum Boijmans Van Beuningen, Rotterdam



EMANUEL JORGE BOTELHO


s/ «LA REPRODUCTION INTERDITE»
de René Magritte


nos olhos
a sede em lágrima, oculta

um sudário em asterisco,
de vinagre


(de Perguntas Queimadas, edições Bumerangue, 1996 - colecção guarda-rios)

13.10.11

JOAN MIRÓ



Le soleil rouge ronge l'araignée, 1948
óleo sobre tela
Nahmad Collection, Suiça

RAUL DE CARVALHO


(Joan Miró, Le soleil rouge ronge l'araignée)


Foi Deus que me disse
que existe uma aranha
que existe o sol
que existe um pintor
e que Deus deu a alma a esse pintor
para que ele com estes quatro elementos
a aranha o sol e a vontade de Deus
pudesse fazer com uma teia de aranha
uma constelação
semear dentro dela
sementes de alegria
a alegria que está nascendo
no sol na aranha na alma nos olhos

Foi Deus que me disse
que a alegria tem olhos!

Constantemente me salvo!
Mas é sempre à minha custa

Fico sempre com um pouco
mais de sombra no olhar

Quando julgo que chegou
enfim a minha vez

Ouvir um coração a bater
é o bastante para

Saltar ao eixo apanhar amoras
acreditar que em minhas mãos
o suor é mais brilhante do que o sol

E dizer-te —
Amor o teu sorriso
neste momento é eterno!


(de Mesa da Solidão, 1955)


21.9.11

JÚLIO RESENDE

(imagem daqui)




ANTÓNIO OSÓRIO


OS MENINOS DE JÚLIO RESENDE

Os meninos de Júlio Resende ignoram a morte? Jogam, divertem-se, voam. E voam tão alto que Resende exara a palavra perfeita: «Os meninos no voo das estrelas.» Crianças, no Nordeste do Brasil, pobres e gloriosas.

Revejo-me nelas de modo diferente. Igualmente ágil e exultante, dentro de um baloiço, também eu voava. E pareceu-me que esse júbilo chegava ao ponto de tocar no próprio tempo, irremediável erro, porque o tempo é de todas as nossas personagens a mais acompanhante e a mais indiferente.

Vendo os meninos, recordo outras coisas, que me davam o mesmo sentido da alegria. Tocar na areia da praia, escorrê-la pelo corpo; ver a chegada firme, longa, majestosa das ondas na praia de Tróia, que foi a primeira praia; ouvir a Odisseia e os sonetos de Camões; o prazer inacabável da leitura. Eis os instrumentos de voo, que me fizeram como sou, reconhecido e atormentado.

Os meninos de Júlio Resende continuam vivos. O contentamento deles acompanha-nos. Num pedaço de papel, colocado sobre leve armação, uma cruzeta de cana, soltam ao vento o papagaio, e sabiamente brincam com o voo das aves, porque tudo isso os conduz perto das estrelas. O mundo da natureza e o mundo dos homens inspiram os jogos das crianças, mas a si próprias voltam, livres de mágoa.


(de Libertação da Peste, Gótica, 2002)

11.9.11

RUY VENTURA

presença


a luz desenha no espaço
duas colunas de sombra.
a memória coloca no olhar
duas colunas de fogo
que as asas devolveram
à poeira das origens.
sangue e voo
sobrepõem-se à imagem
obstruindo a presença da luz
na tinta e no coração.
traços e cores
dispensam, no entanto, a linha
do horizonte. na ascensão da tela
restituem, sem matéria,
a presença do edifício –
sem vidro, sem aço
com carne, sangue e memória
na inscrição do mundo.
[WTC de Jorge Martins]

(de  Instrumentos de Sopro, edições Sempre-em-Pé, 2010)


JORGE MARTINS



[sem título], 1975 / 6
acrílico
90x126 cm

16.4.11


Cabeça de uma mulher, talvez de uma domina, Séc. II
[encontrada no sítio de Milreu, junto a Estoi]
Museu Nacional de Arqueologia, Lisboa

JORGE DE SENA


CABECINHA ROMANA DE MILREU


Esta cabeça evanescente e aguda,
tão doce no seu ar decapitado,
do Império portentoso nada tem:
nos seus olhos vazios não se cruzam línguas,
na sua boca as legiões não marcham,
na curva do nariz não há povos
que foram massacrados e traídos.
É uma doçura que contempla a vida,
sabendo como, se possível, deve
ao pensamento dar certa loucura,
perdendo um pouco, e por instantes só,
a firme frieza da razão tranquila.
É uma virtude sonhadora: o escravo
que a possuía às horas da tristeza
de haver um corpo, a penetrou jamais
além de onde atingia; e quanto ao esposo,
se acaso a fecundou, não pensou nunca
em desviar sobre el' tão longo olhar.
Viveu, morreu, entre colunas, homens,
prados e rios, sombras e colheitas,
e teatros e vindimas, como deusa.
Apenas o não era: o vasto império
que os deuses todos tornou seus, não tinha
um rosto para os deuses. E os humanos,
para que os deuses fossem, emprestavam
o próprio rosto que perdiam. Esta
cabeça evanescente resistiu:
nem deusa, nem mulher, apenas ciência
de que nada nos livra de nós mesmos.

Araraquara, 12/1/1963

(de Metamorfoses, seguidas de Quatro Sonetos de Afrodite Anadiómena, 1963)



[Milreu, 10 de Abril de 2011]


[Estoi, Rua da Barroca, 10 de Abril de 2011]

17.1.11

HIERONYMUS BOSCH


Tentações de Santo Antão, c. 1500
Óleo sobre madeira de carvalho
131,5x53 cm / 131,5x119 cm / 131,5x53 cm
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa



JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE


TENTAÇÕES DE SANTO ANTÃO


Lá está o peixe de espada à cinta e o grande fogo em noite
de natal. O capitão da barca voa altos céus e o ovo deu à
luz o pranto das Eríneas. Tudo o que quisermos está aqui: a
virgem cavalgando uma árvore num céu gelado, manto azul,
mãos orantes, segue-a a gadanha da morte e a ave e outra ave
e os peixes e outro peixe. O facho aceso aquece a paisagem,
o descalabro da vida e o humano, de tão humano o quero, diz
em voz baixa o timoneiro enquanto passa sob a neblina.
Sob o som de pesadas botas ninguém, alguém anuncia a mesa
posta: frutos silvestres, pedaços, pedacinhos de ferro: o
grande diospiro abre sob o comando do símio: mendigos,
desejos obsessivos, pequenos monstros desembarcam em murmúrio.
Dias inteiros, séculos ergueram da água baixa e pútrida altas
torres. Perdeu-se de esmolas a cidade e o monge reza, meio-
-louco, fantasiador. Nos campos não há pastos nem rebanhos,
mas os sinos anunciam a ração da tarde e logo a da manhã.
Um manto rubro, uma serpente, as raias, o homem cabeça e pernas
e as figuras anunciam a novidade do feminino corpo nu:
continuam a passar, obstinados, em fúria, agora com lentidão
eterna, os meses e os anos, tempo e sempre mais tempo. O
peçonhento sangue dos humanos é igual ao sangue dos répteis:
gerações erguem gerações e o homem de negro encerrado no focinho
de urso formigueiro leva o alaúde. O mocho contempla a guerra
da noite e todos escutam impronunciável palavra a coberto de
maravilha: coxos, sem orelhas, órbitas vazias e logo plenas
de cega luminosidade; ninguém, todos experimentam a mente do
santo. A longínqua visão reflecte-se. Na gruta, um Cristo
crucificado assiste os animais e as árvores, o devaneio, as
casas, o derruir da verdadeira e profunda identidade. Fascinado,
estático, possuído pelo entusiasmo, o frade morre no
espelho: entre o seu rosto e o teu rosto inscreve-
-se e logo se rasura a pálida e terna forma de um rosto de
criança: traz guelras no exacto lugar da respiração: talvez
por isso não tenha a coragem da esperança quando
acompanha a barca dourada que se desloca para o sol e
de novo aparece e de novo desaparece —
ave do sonho dentro do sonho.


/Hieronymus Bosch, c.1500/


(de Museu das Janelas Verdes, Relógio d'Água editores, 2002)

5.1.11

MALANGATANA


Cântico dos cânticos, 1997
34x33,5 cm
Técnica mista



RUI ALMEIDA



ALGUMA IMAGENS TIRADAS DE MALANGATANA


Ventres e olhos de dor
Na África da alegria
Sexos devorantes
Prazer isolado

Há uma tristeza a chegar ao fim
Uma esperança que não se vê
Senão na força de continuar a olhar.

31/10/1999

27.12.10

GRAÇA MORAIS

A Festa da Abundância I, 2005(?)
120x160 cm
Carvão e pastel sobre papel
Centro de Arte - Colecção Manuel de Brito, Algés

A Festa da Abundância II, 2005(?)
Carvão e pastel sobre papel
160x120 cm
Centro de Arte - Colecção Manuel de Brito, Algés



RUI ALMEIDA


A Festa da Abundância (díptico de Graça Morais)


[cf. Mt 6, 26 e Lc 12, 24]

Olhai as gaivotas que se alimentam
Dos restos da fast-food e dos detritos,
Olhai-as na sua avidez,
Apartando-se umas às outras,
Ferindo-se entre si,
Para acumular mais do que podem conter
Em seus escassos corpos.

E contudo,
Não ocupam altos cargos
Em conselhos de administração
Ou direcções partidárias,
Nem traficam influências
Nos corredores da hipocrisia.

Porventura sereis vós menos do que elas?


(in Nada Onde Pousar o Sonho, coordenação e edição de João Tomaz Parreira, Desafio Miqueias, 2010)

8.5.10

JACKSON POLLOCK


Eyes in the Heat, 1946
óleo sobre tela
54x43 cm
Colecção Peggy Guggenheim, Veneza




MARIA TERESA DUARTE MARTINHO


Um quadro

(Eyes in the Heat, Jackson Pollock)

Se fosse um padrão,
teria sido papel abstracto com as cores do Natal
(servira, por exemplo,
para forrar gavetas e livros,
espalhando ideias de pintura,
até entre os que diziam não a ver).
Se fosse um tecido,
era lã e dava uma saia em viés.
Se fosse um espelho,
seríamos, por exemplo,
nós todos,
cada um abraçado ao seu rodopio


(de Visões e Demonstrações, edições Vendaval, 2006)