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DYLAN THOMAS
A MÃO QUE ASSINOU O PAPEL...
A mão que assinou o papel derrubou uma cidade;
Cinco dedos soberanos decidiram a sorte,
Duplicaram os mortos, dividindo um país;
Foram cinco reis a dar a um rei a morte.
A mão poderosa levou a um ombro caído
Quando as falanges dos dedos se crisparam;
Um bico de pato pôs fim ao crime
Que pôs fim àqueles que falaram.
A mão que assinou o tratado trouxe febre,
Fez crescer a fome, vieram gafanhotos;
Grande é a mão que determina
Com um garatujar, o número de mortos.
Os cinco reis contam os mortos mas não saram
Chagas que já endureceram; nem podem afagar.
A mão governa a dor como outra mão o céu;
Nas mãos não há lágrimas que chorar.
(tradução de Victor Palla in Poemas do Inglês, Ler editora, 1985)
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18.4.06
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26.12.05
DYLAN THOMAS
The Hand that Signed the Paper
The hand that signed the paper felled a city;
Five sovereign fingers taxed the breath,
Doubled the globe of dead and halved a country;
These five kings did a king to death.
The mighty hand leads to a sloping shoulder,
The finger joints are cramped with chalk;
A goose's quill has put an end to murder
That put an end to talk.
The hand that signed the treaty bred a fever,
And famine grew, and locusts came;
Great is the hand the holds dominion over
Man by a scribbled name.
The five kings count the dead but do not soften
The crusted wound nor pat the brow;
A hand rules pity as a hand rules heaven;
Hands have no tears to flow.
(publicado pela primeira vez em 25 Poems, 1936)
A MÃO ASSINOU O PAPEL
A mão assinou o papel e abateu uma cidade;
Cinco dedos soberanos colectaram a respiração,
Dobraram o globo de mortos e desertaram meio país;
Estes cinco reis fizeram morrer um rei.
A mão poderosa leva a um ombro curvado,
Os nós dos dedos crispam-se com cal;
Uma pena de ganso pôs fim ao assassínio
Que pôs fim às falas.
A mão assinou o tratado e gerou uma febre,
E cresceu a fome e vieram os gafanhotos;
Grande é a mão que tem domínio sobre
Os homens por um nome garatujado.
Os cinco reis contam os mortos sem suavizar
A crosta da ferida, sem acariciar o rosto;
Mão que governa a mágoa qual a mão que governa o céu;
As mãos não têm lágrimas para chorar.
(tradução de Joaquim Manuel Magalhães, in Dylan Thomas - consequência da literatura e do real na sua poesia, Assírio & Alvim, 1981 - Cadernos Peninsulares / ensaio)
A MÃO AO ASSINAR ESTE PAPEL
A mão ao assinar este papel arrasou uma cidade;
cinco dedos soberanos lançaram a sua taxa sobre a respiração;
duplicaram o globo dos mortos e reduziram a metade um país;
estes cinco reis levaram a morte a um rei.
A mão soberana chega até um ombro descaído
e as articulações dos dedos ficaram imobilizadas pelo gesso;
uma pena de ganso serviu para pôr fim à morte
que pôs fim às palavras.
A mão ao assinar o tratado fez nascer a febre,
e cresceu a fome, e todas as pragas vieram;
maior se torna a mão que estende o seu domínio
sobre o homem por ter escrito um nome.
Os cinco reis contam os mortos mas não acalmam
a ferida que está cicatrizada, nem acariciam a fronte;
há mãos que governam a piedade como outras o céu;
mas nenhuma delas tem lágrimas para derramar.
(tradução de Fernando Guimarães, in A mão ao assinar este papel, Assírio & Alvim, 1990 - Gato Maltês)
A MÃO QUE ASSINOU O PAPEL...
A mão que assinou o papel destruiu uma cidade;
cinco soberanos dedos tributaram a respiração,
de mortos duplicaram o mundo, a meio cortaram um país:
estes cinco reis provocaram a morte de um rei.
A poderosa mão conduz a um ombro descaído;
sofrem de cãibras as junturas dos dedos engessados.
Uma pena de pato pôs fim ao morticínio
que tinha posto fim às negociações.
A mão que assinou o tratado engendrou febre,
e aumentou a fome, e vieram gafanhotos:
grande é a mão que sobre todos impera
com o gatafunho de um nome.
Os cinco reis contam os mortos, mas não acalmam
a crosta das f'ridas nem a fronte afagam.
Há mãos que regem a piedade, outras o céu:
só não as há que vertam lágrimas.
(tradução de David Mourão-Ferreira, in Vozes da Poesia Europeia - III / Colóquio Letras número 165 - Setembro-Dezembro 2003)
The Hand that Signed the Paper
The hand that signed the paper felled a city;
Five sovereign fingers taxed the breath,
Doubled the globe of dead and halved a country;
These five kings did a king to death.
The mighty hand leads to a sloping shoulder,
The finger joints are cramped with chalk;
A goose's quill has put an end to murder
That put an end to talk.
The hand that signed the treaty bred a fever,
And famine grew, and locusts came;
Great is the hand the holds dominion over
Man by a scribbled name.
The five kings count the dead but do not soften
The crusted wound nor pat the brow;
A hand rules pity as a hand rules heaven;
Hands have no tears to flow.
(publicado pela primeira vez em 25 Poems, 1936)
A MÃO ASSINOU O PAPEL
A mão assinou o papel e abateu uma cidade;
Cinco dedos soberanos colectaram a respiração,
Dobraram o globo de mortos e desertaram meio país;
Estes cinco reis fizeram morrer um rei.
A mão poderosa leva a um ombro curvado,
Os nós dos dedos crispam-se com cal;
Uma pena de ganso pôs fim ao assassínio
Que pôs fim às falas.
A mão assinou o tratado e gerou uma febre,
E cresceu a fome e vieram os gafanhotos;
Grande é a mão que tem domínio sobre
Os homens por um nome garatujado.
Os cinco reis contam os mortos sem suavizar
A crosta da ferida, sem acariciar o rosto;
Mão que governa a mágoa qual a mão que governa o céu;
As mãos não têm lágrimas para chorar.
(tradução de Joaquim Manuel Magalhães, in Dylan Thomas - consequência da literatura e do real na sua poesia, Assírio & Alvim, 1981 - Cadernos Peninsulares / ensaio)
A MÃO AO ASSINAR ESTE PAPEL
A mão ao assinar este papel arrasou uma cidade;
cinco dedos soberanos lançaram a sua taxa sobre a respiração;
duplicaram o globo dos mortos e reduziram a metade um país;
estes cinco reis levaram a morte a um rei.
A mão soberana chega até um ombro descaído
e as articulações dos dedos ficaram imobilizadas pelo gesso;
uma pena de ganso serviu para pôr fim à morte
que pôs fim às palavras.
A mão ao assinar o tratado fez nascer a febre,
e cresceu a fome, e todas as pragas vieram;
maior se torna a mão que estende o seu domínio
sobre o homem por ter escrito um nome.
Os cinco reis contam os mortos mas não acalmam
a ferida que está cicatrizada, nem acariciam a fronte;
há mãos que governam a piedade como outras o céu;
mas nenhuma delas tem lágrimas para derramar.
(tradução de Fernando Guimarães, in A mão ao assinar este papel, Assírio & Alvim, 1990 - Gato Maltês)
A MÃO QUE ASSINOU O PAPEL...
A mão que assinou o papel destruiu uma cidade;
cinco soberanos dedos tributaram a respiração,
de mortos duplicaram o mundo, a meio cortaram um país:
estes cinco reis provocaram a morte de um rei.
A poderosa mão conduz a um ombro descaído;
sofrem de cãibras as junturas dos dedos engessados.
Uma pena de pato pôs fim ao morticínio
que tinha posto fim às negociações.
A mão que assinou o tratado engendrou febre,
e aumentou a fome, e vieram gafanhotos:
grande é a mão que sobre todos impera
com o gatafunho de um nome.
Os cinco reis contam os mortos, mas não acalmam
a crosta das f'ridas nem a fronte afagam.
Há mãos que regem a piedade, outras o céu:
só não as há que vertam lágrimas.
(tradução de David Mourão-Ferreira, in Vozes da Poesia Europeia - III / Colóquio Letras número 165 - Setembro-Dezembro 2003)
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27.10.04
DYLAN THOMAS
POEMA NO SEU ANIVERSÁRIO
Na semente de mostarda do sol,
Junto ao rio caudaloso e à cachoeira do mar
Onde veloz voa o cormorão,
Na sua casa em andas hasteada entre os bicos
E o arandel dos pássaros
No grão de areia deste dia na ladeira da cova da baía
Ele celebra e troça
O lenho à deriva dos seus trinta e cinco ventos tornados idade;
Garças elevam-se e lanceiam.
Debaixo e em redor de si vão
Solhas, gaivotas, com rastos moribundos e frios,
Fazendo o que lhes é dito,
Maçaricos estridentes nas ondas com safios
Lidam nas suas vias para a morte,
E o versejador na sala de longa língua,
Que tange o sino do seu aniversário,
Labuta para a cilada das suas chagas;
Garças, caules de campanário, abençoam.
Na queda da lã de sementes do cardo,
Ele canta caminho à angústia; voa o tentilhão
Nos cursos de garras de falcões
Num céu rapace; pequenos peixes deslizam
Por quelhos e conchas de cidades
De navios naufragados para pastos de lontras. Ele
Na sua casa torta e torturada
E nas espiras cinzeladas do seu ofício avista
Garças, sudários que caminham.
O manto do rio interminável
De vairões volteando a tecer as suas rezas;
E sabe que no mar lá longe,
Ele que moureja para o seu fim acocorado e eterno
Debaixo duma nuvem serpente,
Os golfinhos mergulham de dorso no pó,
As crespas focas raiam para o fundo
A matar e o seu próprio sangue que tinge a maré
Que bem que desliza na boca polida.
Num cavernoso, agitado
Silêncio de onda, o choro branco do ângelus toa.
Trinta e cinco sinos cantam tangidos
Em cicatriz e caveira, naufragados amores seus
Das estrelas cadentes guiados.
E o dia de amanhã chora numa grade cega
Que o terror rasgará em pedaços
Antes dos grilhões rebentarem num martelo em chamas
E o amor escancarar o escuro
E livremente vai perdido
Na famosa luz desconhecida do grande
Deus fabuloso e amado.
O escuro é um caminho e a luz é um lugar,
O céu que nunca foi
Nem nunca será é sempre verdadeiro,
E, nesse vazio de sarça,
Miríades como as amoras nos bosques
Os mortos crescem para a Sua alegria.
No lugar onde poderia errar nu
Com os espíritos da baía em ferradura
Ou os mortos costeiros dos astros,
Medula de águias, raízes de baleias
E quilhas dos gansos bravos,
Com Deus abençoado e incriado e o seu Espírito,
E cada alma um sacerdote Seu,
Logrado e chantre no jovem aprisco do Céu
Ser em tremente paz de nuvem,
Mas o escuro é um longo caminho.
Ele, na terra da noite, sozinho
Com todos os vivos, reza,
Sabe como o foguete do tempo vai soprar
Os ossos para fora das colinas
E os rochedos ceifados sangrar e a sanha
Das últimas águas estilhaçadas coicear
Mastros e peixes para as quietas rápidas estrelas,
Sem fé e até Ele
Que é a luz do velho
Céu em forma de ar onde as almas braveiam
Como cavalos na espuma:
Oh, possa eu chorar a meio da vida com as preces
Das garças druidas e consagradas
A viagem para a ruína que tenho de trilhar,
Madrugueiros barcos retidos em terra,
Mesmo assim, a clamar com a língua delapidada,
Conto em voz alta minhas bênçãos:
Quatro elementos e cinco
Sentidos, e o homem um espírito apaixonado
Enredando-se no vórtice deste lodo
Até ao reino que há-de vir, suave, sino, nimbo
E os perdidos domos ao luar
E o mar que esconde os seus secretos eus
Na funda base negra feita de ossos,
Canção das esferas na carne das conchas,
E sobre todas esta última bênção,
Quanto mais perto me movo
Para a morte, homem só em cascos com rombos,
Mais alto o sol floresce
E o mar retalhado e em ruínas exulta;
E cada onda do caminho
E cada tempestade enfrento, e toda a terra então,
Com fé mais triunfante
Do que sempre houve desde que foi dito o mundo,
Tece a sua manhã de louvor,
Ouço as impetuosas colinas
Erguerem-se festivas e mais viçosas ao cair das bagas
Castanhas e as cotovias do orvalho cantarem
Mais alto no trovão súbito deste maio e quão
Mais arqueadas de anjos cavalgam
As ilhas em fogo com as almas dos homens! Oh,
Mais santas que seus olhos
E meus homens fulgentes nunca mais sozinhos
Enquanto me faço ao mar para morrer.
(tradução de Joaquim Manuel Magalhães, em apêndice a Dylan Thomas - consequência da literatura e do real na sua poesia, Assírio & Alvim, 1982 - o original pode ser visto aqui)
POEMA NO SEU ANIVERSÁRIO
Na semente de mostarda do sol,
Junto ao rio caudaloso e à cachoeira do mar
Onde veloz voa o cormorão,
Na sua casa em andas hasteada entre os bicos
E o arandel dos pássaros
No grão de areia deste dia na ladeira da cova da baía
Ele celebra e troça
O lenho à deriva dos seus trinta e cinco ventos tornados idade;
Garças elevam-se e lanceiam.
Debaixo e em redor de si vão
Solhas, gaivotas, com rastos moribundos e frios,
Fazendo o que lhes é dito,
Maçaricos estridentes nas ondas com safios
Lidam nas suas vias para a morte,
E o versejador na sala de longa língua,
Que tange o sino do seu aniversário,
Labuta para a cilada das suas chagas;
Garças, caules de campanário, abençoam.
Na queda da lã de sementes do cardo,
Ele canta caminho à angústia; voa o tentilhão
Nos cursos de garras de falcões
Num céu rapace; pequenos peixes deslizam
Por quelhos e conchas de cidades
De navios naufragados para pastos de lontras. Ele
Na sua casa torta e torturada
E nas espiras cinzeladas do seu ofício avista
Garças, sudários que caminham.
O manto do rio interminável
De vairões volteando a tecer as suas rezas;
E sabe que no mar lá longe,
Ele que moureja para o seu fim acocorado e eterno
Debaixo duma nuvem serpente,
Os golfinhos mergulham de dorso no pó,
As crespas focas raiam para o fundo
A matar e o seu próprio sangue que tinge a maré
Que bem que desliza na boca polida.
Num cavernoso, agitado
Silêncio de onda, o choro branco do ângelus toa.
Trinta e cinco sinos cantam tangidos
Em cicatriz e caveira, naufragados amores seus
Das estrelas cadentes guiados.
E o dia de amanhã chora numa grade cega
Que o terror rasgará em pedaços
Antes dos grilhões rebentarem num martelo em chamas
E o amor escancarar o escuro
E livremente vai perdido
Na famosa luz desconhecida do grande
Deus fabuloso e amado.
O escuro é um caminho e a luz é um lugar,
O céu que nunca foi
Nem nunca será é sempre verdadeiro,
E, nesse vazio de sarça,
Miríades como as amoras nos bosques
Os mortos crescem para a Sua alegria.
No lugar onde poderia errar nu
Com os espíritos da baía em ferradura
Ou os mortos costeiros dos astros,
Medula de águias, raízes de baleias
E quilhas dos gansos bravos,
Com Deus abençoado e incriado e o seu Espírito,
E cada alma um sacerdote Seu,
Logrado e chantre no jovem aprisco do Céu
Ser em tremente paz de nuvem,
Mas o escuro é um longo caminho.
Ele, na terra da noite, sozinho
Com todos os vivos, reza,
Sabe como o foguete do tempo vai soprar
Os ossos para fora das colinas
E os rochedos ceifados sangrar e a sanha
Das últimas águas estilhaçadas coicear
Mastros e peixes para as quietas rápidas estrelas,
Sem fé e até Ele
Que é a luz do velho
Céu em forma de ar onde as almas braveiam
Como cavalos na espuma:
Oh, possa eu chorar a meio da vida com as preces
Das garças druidas e consagradas
A viagem para a ruína que tenho de trilhar,
Madrugueiros barcos retidos em terra,
Mesmo assim, a clamar com a língua delapidada,
Conto em voz alta minhas bênçãos:
Quatro elementos e cinco
Sentidos, e o homem um espírito apaixonado
Enredando-se no vórtice deste lodo
Até ao reino que há-de vir, suave, sino, nimbo
E os perdidos domos ao luar
E o mar que esconde os seus secretos eus
Na funda base negra feita de ossos,
Canção das esferas na carne das conchas,
E sobre todas esta última bênção,
Quanto mais perto me movo
Para a morte, homem só em cascos com rombos,
Mais alto o sol floresce
E o mar retalhado e em ruínas exulta;
E cada onda do caminho
E cada tempestade enfrento, e toda a terra então,
Com fé mais triunfante
Do que sempre houve desde que foi dito o mundo,
Tece a sua manhã de louvor,
Ouço as impetuosas colinas
Erguerem-se festivas e mais viçosas ao cair das bagas
Castanhas e as cotovias do orvalho cantarem
Mais alto no trovão súbito deste maio e quão
Mais arqueadas de anjos cavalgam
As ilhas em fogo com as almas dos homens! Oh,
Mais santas que seus olhos
E meus homens fulgentes nunca mais sozinhos
Enquanto me faço ao mar para morrer.
(tradução de Joaquim Manuel Magalhães, em apêndice a Dylan Thomas - consequência da literatura e do real na sua poesia, Assírio & Alvim, 1982 - o original pode ser visto aqui)
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