FERNANDO GRADE
BECO DE CÂNDIDOS SARILHOS
Cidade de becos, pedra preta, lontras.
O que as pessoas cospem ou pensam
ou dizem é sempre pouco.
Ver julgar diverte-me.
Mas são apenas fardos de palha, palavras
à procura de uma bala.
E um dia as balas serão belas.
O pai traz o guarda-chuva, a boina e as bandeiras.
A prima traz o medo e a fruta táctil.
A má escondeu as bonecas no meio do restolho.
Mãe beijada.
Mãe vassoura.
Oh mãe de perfumados frutos castos.
Há-de ser fogosa a obra ida sogra.
Não acredito senão em carroças sonolentas
e a água que criei era de moscas.
Cuspi no dia manso por atalhos de água.
Ao fundo — no feno —, os vícios continuam:
o pai traz o porco cálido e as canastras;
a mãe tem um avental rigoroso como as serpentes e os beijos.
Não acredito que numa noite de muito vento
os remorsos não desçam das árvores
e peguem fogo ao teu caminho.
Não era de veludo o lobo que criaste,
17-3-1984
(de Alma Burra, edições Mic, 1987
Mostrar mensagens com a etiqueta Fernando Grade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Fernando Grade. Mostrar todas as mensagens
11.2.10
25.11.07
FERNANDO GRADE
COZINHA EM PÓ
Este domingo breve vai trazer
zângãos ou (apenas) bagos de uva.
Os teus dentes rápidos de madressilva
são a minha única metáfora:
salsa misteriosa como festivas carroças
zunindo fuziladas de morangos.
A arte bucólica do azinho ao absinto
não passa de um compêndio
para melhor esfaquear os duendes!
Todos tivemos o nosso
almoço
de pedras, pequeno
fascínio de aves degoladas em casto puré
de castanha, o som do banquete ainda é pólen
em salas que - das ruínas - guardaram o calor bom
dos bolos.
De noite, à luz de velas azuladas, os répteis zelam
com os seus moncos manhosos.
E a paz dos rosais esteja convosco.
Nisto, pardo e rubro, o rio
esfacela as próprias piranhas
enquanto a água do peixe
não sabe a ratos brancos nem a goivo
sabe a peixes.
Quando será que as montanhas
virão beber
à minha triste mão?
Estoril
- 17 e 19 de Outubro de 1985
(de Alma Burra, edições Mic, 1987)
COZINHA EM PÓ
Este domingo breve vai trazer
zângãos ou (apenas) bagos de uva.
A água sobe do peixeE o rosto que lanças aos javalis?
não sabe a ratos brancos nem a goivo
sabe a peixes.
Os teus dentes rápidos de madressilva
são a minha única metáfora:
salsa misteriosa como festivas carroças
zunindo fuziladas de morangos.
A arte bucólica do azinho ao absinto
não passa de um compêndio
para melhor esfaquear os duendes!
Todos tivemos o nosso
almoço
de pedras, pequeno
fascínio de aves degoladas em casto puré
de castanha, o som do banquete ainda é pólen
em salas que - das ruínas - guardaram o calor bom
dos bolos.
De noite, à luz de velas azuladas, os répteis zelam
com os seus moncos manhosos.
E a paz dos rosais esteja convosco.
Nisto, pardo e rubro, o rio
esfacela as próprias piranhas
enquanto a água do peixe
não sabe a ratos brancos nem a goivo
sabe a peixes.
Quando será que as montanhas
virão beber
à minha triste mão?
Estoril
- 17 e 19 de Outubro de 1985
(de Alma Burra, edições Mic, 1987)
1.4.07
[outros melros XLV]
FERNANDO GRADE
"OS MELROS AZUIS SÓ CHEGAM AMANHÃ"
(excerto de crónica incluída em O Bairro Cercado, Universitária editora, 1998)
FERNANDO GRADE
"OS MELROS AZUIS SÓ CHEGAM AMANHÃ"
(...) Ferreira (chamo-lhe assim, por uma questão de pudor), era um contumaz vendedor de pássaros, mormente melros - sua especialidade -, para os quais utilizava um reclamo sui generis:
"Olhem bem esta maravilha!!! São os melros mais bonitos do mundo!!! Ainda mais bonitos que os melros azuis que vendi ontem..."
A verdade é que o Ferreira estava convencido do que afirmava. Tinha os olhos atravessados por uma névoa... Desregulava..., a espaços. E os passantes faziam chacota.
- Oh senhor Ferreira - metia-se um rapazola na conversa satírica -, quais deles é que são mais azuis, as mélroas ou os melros?
À volta, a matula ria. Os melros são sempre pretos, a plumagem negra, como o pássaro dentirrostro de que fala o poeta Abílio Guerra Junqueiro. Eternamente pretos, de carvão, e com o bico amarelo vivaz, aqueles melros azuis do Ferreira eram bons acicates para a hilaridade das pessoas, e davam a medida de alguma loucura mansa que circulava no sangue do vendilhão de pássaros...
Muitos anos a fio, não soube patavina do bom Ferreira. Teria morrido? Uma destas tardes - que espanto! -, defronte da igreja da Memória... ecce homo! Era ele em carne e osso, terrivelmente mais velho, as três gaiolas do costume, e mais escalavradas, e, dentro, melros melros, negríssimos de dorso, o bico da cor dos limões... Olho para a paisagem ao redor, e tremo. Sim, foi ali mesmo que os Távoras, ou alguém por eles, ou outros que a História camuflou, desferiam arcabuzadas sobre o rei José, e não o liquidaram. O rei galaró vinha da cama da amante, e...
Entretanto, o Ferreira grita:
Venham ver, venham ver, estes são os melros mais bonitos do mundo!!!...
O nosso herói encontra-se naquele sítio histórico; sem o saber, está fora do tempo, desconhece, porventura, que a igreja foi mandada erigir pelo Marquês, em acção de graças pelo facto de o rei dos Braganças não ter sido fuzilado na emboscada. Observo melhor: ao pé das três gaiolas com melros, o Ferreira colocou uma cadela cheia de carraças, bicho gordo, fedorento. O pêlo esparramado de cebo e porcarias diversas. Junto dos melros canoros, a cadela tetuda e nauseabunda constitui um quadro confrangedor: trata-se de o óptimo e o reles baixo. (...)
Reparo no incomum, os seus olhos de louco a haver, recordo-me que os ossos do Marquês de Pombal se encontram enterrados naquela igreja, e arremesso aos céus manchados de muitos pântanos...
- Oh meu bom Ferreira, então não tem melros azuis para vender! pergunto-lhe, como se o tivesse visto pela última vez há quinze dias.
O homem responde, responde sempre, os olhos lívidos de pedra:
- Os melros azuis só chegam amanhã.
(excerto de crónica incluída em O Bairro Cercado, Universitária editora, 1998)
Subscrever:
Mensagens (Atom)