31.8.03

[gosto muito de inventários I]

MANUEL DE FREITAS

Poema Sumário das tabernas de Lisboa

Rua de São Marçal n.º 56, rua de Campo de
Ourique n.º 39, rua de São Bento n.º
432, rua da Cruz dos Poiais n.º 25A. Calçada
do Combro n.º 38B, rua da Atalaia n.º13,
rua de São Miguel n.º 20, rua da
Rosa n.º 123. Travessa do Conde de Soure n.º 7,
travessa dos Remolares n.º 21, rua do
Jardim do Tabaco n.º3, rua da Regueira n.º 40,
rua das Escolas Gerais n.º 126, rua de Santa
Catarina n.º 28. Largo do Chafariz de Dentro n.º 23,
rua Sampaio Bruno n.º 25, travessa de São
José n.º 27, beco dos Toucinheiros n.º 12-A. Rua
Cidade de Rabat n.º 9, travessa do Alcaide
n.º 15-B, calçada de São Vicente n.º 12,
rua das Flores n.º 6, travessa da Espera n.º 54.

Praça das Flores n.º 5

(de Todos Contentes e Eu Também, Campo das Letras, 2000)

28.8.03

Poema quase incompleto

Poema quase incompleto

os aquedutos extravasam dentro
das cidades iluminadas por
ÁNGEL CRESPO

Nasceu em 1926, em Ciudad Real, Espanha.
Autor de uma importante obra poética, publicada ao longo de mais de quarenta anos, traduziu rigorosamente para o castelhano grandes nomes da literatura mundial, incluindo alguns lusófonos, como Pessoa ou Guimarães Rosa. Foi também crítico e director de revistas literárias, além de Professor de Literatura Comparada em diversas universidades.
Morreu em 1995, em Barcelona.


NOCTURNO

La rosa, como un jarro de agua fresca en lo oscuro,
lo mismo que una música que ardía y se ha cerrado,
puede huir de la mano que sin querer se acerca
y anidar en el hueco que un suspiro le cava:
la rosa, que conoce el vuelo del olvido
apenas a unas plumas las alas se insinúan;
la rosa, única y todas, diamante e instrumento:
no el lirio, experto en todas las traiciones florales.


(de Délficas, in Iniciación a la sombra, Hiperión, 1996)


NOCTURNO

A rosa, como um jarro de água fresca no oculto,
igual a uma música ardendo que se fechou,
pode escapar-se da mão que sem querer se aproxima
e aninhar-se no vazio que um suspiro lhe cava:
a rosa, que sabe o voo do esquecimento
somente a umas penas as asas se insinuam;
a rosa, única e todas, diamante e instrumento:
não o lírio, sabedor de todas as traições florais.

(tradução minha)

26.8.03

[estive dois dias à procura deste soneto que me ocorreu no Caminho]

DANTE ALIGHIERI

(...) Foi quando, tendo-se eles [os peregrinos] afastado da minha vista, me propus fazer um soneto em que me manifestara o que comigo dizia; e a fim que parecesse mais piedoso, me propus de dizer como se a eles tivesse falado; e disse este soneto que começa: Pregrinos pensativos que passais. E disse "peregrinos" segundo a larga significação do vocábulo; que peregrinos se podem de dous modos entender, um largo e um estreito: o largo, quando é peregrino quem fora de sua pátria esteja; no estreito, não se entende peregrino se não quem vai a casa de Santiago ou dela volve. E é de saber que por três modos propriamente se chamam as pessoas que vão em serviço do Altíssimo: chamam-se palmeiros, quando vão a ultramar, de onde muitas vezes trazem a palma; chamam-se peregrinos, quando vão à casa de Galiza, por ter sido a sepultura de Santiago mais longe de sua pátria do que qualquer dos mais apóstolos; chamam-se romeiros, quando a Roma vão que era onde iam estes que eu chamo peregrinos.
Este soneto não dividirei, sendo assaz manifesta sua razão.

Pregrinos pensativos que passais,
talvez cuidando em coisa não presente,
vindes assim de tão remota gente
como à primeira vista aparentais,

que sem chorar agora atravessais
o centro da cidade tão dolente,
como aquelas pessoas cuja mente
ignora a gravidade de horas tais?

Se quedásseis a ouvi-lo, o coração
por certo suspirando bem me diz
que em lágrimas havíeis de ficar.

Ela perdeu a sua Beatriz,
sobre quem as palavras têm condão
de pôr todos os outros a chorar.

(do capítulo XL de Vita Nuova - tradução de Vasco Graça Moura, Bertrand, 1995)

25.8.03

HAROLDO DE CAMPOS

Nasceu em 1929, em São Paulo, Brasil.
Foi um dos teóricos do movimento concretista do Brasil, que tantas influências iria gerar a nível mundial, sobretudo através do Grupo Noigandres que fundou com seu irmão Augusto de Campos e com Décio Pignatari. Tradutor, entre outros, de James Joyce e de Ezra Pound, foi também ensaísta.
Publicou mais de 30 livros, ao longo de mais de 50 anos de escrita, mas é difícil encontrar obras suas em Portugal.
Morreu no dia 16 deste mês.

Sonêto de Bodas

Luar de cópas e marfins renhidos
Tua nudez a riste contra o mar.
Violetas roucas sôbre os teus soluços.
E rosas tênues e papoulas de ar.

Um novo deus conjura os vaticínios,
E eu sorvo o mês, em taças contra o mar,
Tua nudez orçada em meus espelhos,
E rosas tênues e papoulas de ar.

Quem te ensinara o diapasão das noivas
embevecido em lírios de ninar?
Ó Bem-Amada, quem te apascentara

Nos mansos trigos dêsse apascentar?
Plumas de outono para as tuas bôdas
Que desfloresces nos porões do mar.

(de Auto do Possesso, 1950 - in A Nova Poesia Brasileira, Escritório de Propaganda e Expansão do Brasil em Lisboa, 1960)


de sol a sol
soldado
de sal a sal
salgado
de sova a sova
sovado
de suco a suco
sugado
de sono a sono
sonado

sangrado
de sangue a sangue

(poema publicado originalmente em 1962 e reproduzido in Antologia da Novíssima Poesia Brasileira - selecção e notas de Gramiro de Matos e Manuel de Seabra, livros Horizonte)


Transideração
Ungaretti Conversa com Leopardi


Um leão: ruivando arde -
na voz do leão - Leopardi
(céu noturno em Recanati)
virando constelação:
Odi, Melisso... E o leão
resgata a um fausto de estrelas
caídas, a lua jamais cadente
e a Ursa, magas centelhas.
Depois, o leão (a Leopardi
tendo dado o que lhe cabe)
passa a medir o infinito
ou desmedi-lo: ao longe
daquela estrela (tão longe)
ao longe daquela estrela.


Nosferatu: Nós / Torquato

Putresco

Putresco

Putresco

torquato: teus últimos dias de paupéria me

vermicegos enrolam a substância da treva
vampiros cefalâmpados
(disse)

mas agora put
resco
put
(horresco
referens)
resco
sco
sc
o

(estes dois últimos foram copiados de uma página da internet, onde não se faz referência da origem ou da data)
[ontem, no Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto pude constatar como um simples busto de gesso pode transmitir o espírito sofrido de uma obra inteira. Refiro-me ao busto de Ruben A. pelo escultor Salvador Barata Feyo]

RUBEN A.

Nasceu em Lisboa em 1920.
Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas, foi: professor do ensino secundário; leitor em King's College, Universidade de Londres; funcionário da Embaixada do Brasil; Administrador da Imprensa Nacional-Casa da Moeda; Director-Geral dos Assuntos Culturais do Ministério da Educação e Cultura, depois do 25 de Abril.
Foi ainda ficcionista, dramaturgo, historiador, crítico literário e divulgador cultural.
Morreu em Londres, em 1975.

(...)
Eu preocupei-me sempre comigo, essa é a principal razão da minha existência. Fui assim e pelos anos que me restam tenho cá ainda muito material para trabalhar. Não ofendo ninguém com esta maneira de ser; deixo mesmo a outros mais matéria para se espraiarem, não meto o bedelho na vida alheia - e isto dói àqueles que desde o pequeno-almoço se preocupam com o que os outros fazem. Eu só me preocupo comigo, o resto é uma paisagem humana com altos e baixos, rios e desertos, lagos e oceanos. O que me interessa sou eu, ver cá para dentro e debruçar-me no poço fundo. Ao começo não se enxerga quase nada, daí a pouco os olhos ficam mais habituados e as formas a desenhar-se; aparecem limos, umas flores nascem dos sítios mais ingratos, o reflexo sobe e desce, a atmosfera ilumina-se de uma luz muito especial que os nossos olhos atiram por aquele mundão abaixo. Pois esse poço não tem fundo; por mais que eu lhe beba os ingredientes não consigo secá-lo. Surge sempre matéria inesperada, que nasce de geração espontânea; das paredes do poço coisas novas ressumam que se vão precipitando na fundura.
Posso dizer, pela experiência que tenho tido, que viver assim debruçado cá para dentro é apaixonante. Mundo que não conhece maldades, não se perverte de encontro a outros, que se deslumbra ao registar vários eus transitando em várias épocas e enriquecendo a estrutura de um eu que vai progredindo, incólume, exacto, fio de navalha na sua própria alma.
(...)

(do prólogo a O Mundo à Minha Procura, 2ª ed: Assírio & Alvim, 1992 - 1ª ed: 1966)
No fim de uma das jornadas do Caminho de Santiago vi que me tinham enviado um SMS a dizer que tinha morrido Sérgio Vieira de Mello.
Duas coisas me ocorreram:
a maneira como um amigo meu timorense se referia a ele apenas como "o Sérgio", ainda antes de o conhecer pessoalmente;
o comentário de um brasileiro que conheci no albergue da juventude de Madrid: "deve ser a única pessoa que dá ao mundo uma imagem civilizada do nosso país".
Isso, e o facto, já referido por muitos, de a sua imagem e postura, naturalmente, transmitirem serenidade, confiança e alegria.

22.8.03

[em Santiago de Compostela]

Cheguei ontem de uma caminhada de seis dias, a pé (cerca de 110 km desde Valença do Minho).

Caminhar purifica. As dores nos pés dao outro sentido à vida.
Peregrinar é a melhor metáfora para a vida.

É-se feliz quando se consegue chegar ao próximo passo.

14.8.03

RUY CINATTI

LINHA DE RUMO

Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Encontro-me parado...
Olho em redor e vejo inacabado
O meu mundo melhor.

Tanto tempo perdido...
Com que saudade o lembro e o bendigo:
Campos de flores
E silvas...

Fonte da vida fui. Medito. Ordeno.
Penso o futuro a haver.
E sigo deslumbrado o pensamento
Que se descobre.

Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Desterrado,
Desterrado prossigo.
E sonho-me sem Pátria e sem Amigos,
Adrede.
FERNANDO SYLVAN

Nasceu em Dili, Timor-Leste, em 1917.
Veio para Portugal aos 6 anos. A sua vida ficou marcada pela constante luta pela liberdade e dignidade dos povos, tendo sido participante de inúmeros encontros e signatário de várias petições e protestos. Foi desde 1975 até à morte presidente da Sociedade de Língua Portuguesa.
Morreu na véspera de Natal de 1993.



IN MEMORIAM

O Dia chegou
mas
quantos
não chegaram ao Dia

(in Boca do Inferno nº 5 - Maio de 2000)



lisboa dia da raça junho de 72

CORRIGENDA

Nenhum povo é grande por ter apenas fastos a contar,

Mas pelas liberdades que soube viver
E pelo amor que tiver para dar



junho 72

POEMA HORRÍVEL

- Posso falar?
- Não!

(de Tempo Teimoso, edição do Autor 1974)


HISTÓRIA PARA AS CRIANÇAS PORTUGUESAS

Era uma vez
um país que nunca mais o era...
E estava à vossa espera.

E está.

(de Meninas e Meninos, edição do Autor, 1979)


MANIFESTO MAUBERE

A cultura é a memória
de um povo que não morre!

A acção é a história
de um povo que não morre!

Ouviram?
Ouviram bem?

A vida é a liberdade
de um povo que não morre!

A independência é a vontade
de um povo que não morre!

Ouviram?
Ouviram bem?

A justiça é a oferta
de um povo que não morre!

A luta é a descoberta
de um povo que não morre!

Ouviram?
Ouviram bem?

(de Cantogrito Maubere, edição do Autor, 1981)

13.8.03

ANTOINE DE SAINT-EXUPÉRY

Nasceu em Lião, França, em 1900.
Teve a sua primeira experiência de voo aos 12 anos e aos 22 a aviação torna-se-lhe indispensável.
Além da aviação dedicou-se também à engenharia aeronáutica, à reportagem (Moscovo, 1935 e Guerra Civil de Espanha, 1936-37) e à escrita literária, o que o torna num dos grandes autores do século XX.
Desapareceu durante uma missão de reconhecimento aéreo fotográfico durante a II Guerra Mundial, a norte da Córsega.



(...)
Mas acontece que, hoje, o respeito pelo homem, condição da nossa ascensão, está em perigo. As rupturas do mundo moderno conduziram-nos às trevas. Os problemas são incoerentes, as soluções contraditórias. A verdade de ontem morreu, a de amanhã ainda está por edificar. Nenhuma síntese válida se vislumbra, e cada um de nós só detém uma parcela da verdade. À falta de uma evidência que as imponha, as religiões políticas recorrem à violência. E sucede que, à força de nos dividirmos quanto aos métodos, nos arriscamos a já não reconhecer que nos apressamos em direcção ao mesmo fim.
O viajante que transpõe a montanha, seguindo a direcção de uma estrela, se se deixar absorver em demasia pelos problemas da sua escalada, arrisca-se a esquecer qual a estrela que o guia. Se já só age por agir, não irá a parte nenhuma. A funcionária da catedral, caso se preocupe demasiado avidamente com o aluguer das suas cadeiras, corre o risco de se esquecer que serve um deus. Do mesmo modo, se me encerrar em qualquer paixão partidária, arrisco-me a esquecer que uma política só tem sentido com a condição de estar ao serviço de uma evidência espiritual. Saboreámos, nas horas de milagre, uma certa qualidade das relações humanas: aí está para nós a verdade.
(...)

(de Carta a um Refém, 1995, Grifo - versão de Francisco G. Ofir)
[este livro, publicado pouco tempo antes da morte do seu Autor, em 1943, é uma reflexão a partir da sua visita a Lisboa e arredores em 1940, a que dá a forma de carta endereçada ao seu amigo judeu Léon Werth, a quem já dedicara O Princepezinho]

12.8.03

FALHAS

Falhas todos temos
Mas crónicos remorsos são por demais indesejáveis
Se agiste mal corta essa
Mas tenta pensar melhor da próxima vez
Não te deixes cair em tentações melancólicas
Porque rebolar no lodo só serve
para te sujares


letra: Tim
música: Xutos & Pontapés
SAM SHEPARD

Nasceu em Novembro de 1943, em Fort Sheridan, Illinois, nos Estados Unidos da América.
É um dos mais importantes dramaturgos e guionistas da actualidade.


3.30 da manhã

será um galo
ou uma mulher gritando na distância

será o céu negro da noite profunda
ou o quase azul-escuro dentro da madrugada

será um quarto de motel
ou a casa de alguém

será o meu corpo vivo
ou morto

será o Texas
ou Berlim-Oeste

afinal
que horas são

a que pensamentos
posso chamar meus aliados

e se suspendesse
todo o pensamento

uma pausa honesta
num espaço vazio

deixem-me navegar a estrada
de cabeça vazia

só uma vez

não estou a suplicar

não estou a pôr-me de joelhos

não estou em condições de dar luta.

9/12/80
Fredericksburg, Texas



Bom, agora vamos direito ao assunto
Dizes
Que te sentes despedaçada porque não podes escrever
Ou
Não podes escrever porque te sentes despedaçada

Dizes
Que estes tempos te tornaram cínica
Ou
Estes tempos confirmam o teu cinismo

Bom, agora deixa-me dizer uma coisa
Preferia andar a laçar novilhos
A discutir política contigo

Preferia estar perdido de bêbedo
Debaixo do atrelado de um camião

O teu desespero é mais chato
Que o Merv Griffin Show

A tua hipócrita choradeira
As tuas soluções baratas para a criminalidade

Deixa-te de manias e cozinha
Faz do teu tempo
O que quiseres
Mas não queimes o meu.

2/80
Santa Rosa, Ca.



no chão de joelhos
cotovelos espetados dentro da noite

é verdade
esta profunda ligação
é deveras verdade

a terra liberta uma mensagem
exala-a
e enche-me se a respiro

texugos
coelhos mortos
o calor do dia que a terra ressuma

estás num comboio algures
bem te vejo olhando pela janela
lá fora algures Salt Lake City

e eu para aqui estou
debruçado da janela.

29/4/81
Homestead Valley, Ca.



desde a relva alta, alta
até à esquina do parque
vejo-te que me estudas

eu vejo-te quando tu não sabes que estou a olhar
e cada olhar que te roubo
deixa-me um dia mais novo

Ultimamente tem sido difícil apanhar-te
ou então sou eu que estou a ficar velho
um dos dois está com certeza a perder

6/11/81
Homestead Valley, Ca.



(de Crónicas Americanas, 2ª ed: s/d, Difel - tradução de José Vieira de Lima)
[Muitos temas deste livro, de 1982, que inclui poemas e pequenos contos, estão na base da peça Superstitions e de Paris, Texas, o filme de Wim Wenders de cujo argumento Shepard é autor.
O primeiro dos poemas acima foi musicado pelos Trovante e incluído no seu último álbum, Um destes dias...]
ANTONIO GAMONEDA

Nasceu em Oviedo, Espanha, em 1931.


La luz hierve debajo de mis párpados.

De un ruiseñor absorto en la ceniza, de sus negras entrañas
musicales, surge una tempestad. Desciende el llanto a las
antiguas celdas, advierto látigos vivientes

y la mirada inmóvil de las bestias, su aguja fría en mi corazón.

Todo es presagio. La luz es médula de sombra: van a morir
los insectos en las bujías del amanecer. Así

arden en mí los significados.


(de Arden las Pérdidas, Abril de 2003, Tusquets editores - Nuevos textos sagrados)



A luz ferve-me debaixo das pálpebras.

De um rouxinol absorto na cinza, das suas negras entranhas
musicais, surge uma tempestade. Desce o canto às
antigas celas, advirto látegos com vida

e o olhar imóvel das bestas, a sua agulha fria em meu coração.

Tudo é presságio. A luz é medula de sombra: vão morrer
os insectos nos castiçais do amanhecer. Assim

ardem em mim os significados.


[tradução minha - há outro poema seu aqui]
[de uma exposição que vi em Barcelona - uma reflexão que pode ser útil ao ‘metabloguismo’ e não só - tradução minha]

DEPOIS DA NOTÍCIA - documentários pós-media

As novas práticas documentais deixaram de ser património do informador profissional.
Estão representadas por artistas, cineastas, ficcionistas, antropólogos visuais, etnógrafos amadores e cidadãos anónimos que põem em circulação as suas próprias imagens. Diversamente do que ocorre nos meios de comunicação dominantes, estes documentários sobrepõem-se ao momento da informação e de debate. Constituem uma intervenção na realidade, um novo activismo da representação.

Esta é a época em que o acontecimento já não significa a resolução de um problema, mas a abertura de novas possibilidades.
Séries fotográficas, vídeos, arquivos audiovisuais, interactivos, Internet e televisão, assim como a literatura, os itinerários urbanos e os webloggers, ampliam o espectro das práticas documentais e, além disso, contribuem para que se avance para lá da versão fechada que a notícia dá do acontecimento.

“Depois da notícia”, depois do acontecimento e da imagem mais mediática, pode haver outras formas de cobertura.

(do guião da exposição Després de la notícia / Después de la noticia / After the news - Centro de Cultura Contemporánea de Barcelona - 24/07 a 02/11 de 2003)