27.1.05

Hoje, no Público, Augusto M. Seabra lembra a célebre frase de Théodor Adorno: "Depois de Auschwitz não é mais possível escrever poesia.", referindo que tal máxima viria a ser contrariada, citando alguns exemplos: David Rousset, Primo Levi, Robert Antelme e Paul Celan.
Não refere, infelizmente, aquele que creio ser o melhor dos exemplos: Nelly Sachs (1891-1970), uma judia alemã que testemunhou os sofrimentos dos seus irmão de raça e crença e que o pôs em palavras numa obra poética intensa, mas também cheia de esperança, vindo a receber o Nobel da Literatura em 1966.

24.1.05

NATÉRCIA FREIRE

O ÚLTIMO DIA


Haverá penas, lágrimas, adeuses
no sótão velho da abafada Lua.
Para os ouvidos lentos dos malteses
um realejo tocará na rua.

Sob o capricho em onda, do Milagre,
fulge o Anjo de cílios descaídos.
Das mãos lhe escorre um rio cor de almagre
que inunda a Lua de astros pervertidos.

Qual um quadro já baço, de cem anos,
a luz do gás desenha, mansa e triste,
uma orquestra de tímidos ciganos,
para a canção do amor que não existe.

(À janela da Lua, debruçados,
são os maltese puros e alados.)

Ressoa em lume, a velha carruagem,
pela calçada que conduz à vida.
Os maltese suspeitam da viagem;
mas têm a mão suapensa e distraída.

Quando o último dia começar
no sótão velho da abafada Lua,
haverá penas, lágrimas, adeuses,
e para os ouvidos lentos dos malteses
um realejo tocará na rua.

(de Poemas, 1957)

20.1.05

JORGE DE SENA

SEM DATA


Esta voz com que gritei às vezes
não me consola de só ter gritado às vezes.

Está dentro de mim como um remorso, ouço-a
chiar sempre que lembro a paz de segurança estulta
sob mais uma pedra tumular sem data verdadeira.

Quando acabava uma soma de silêncios,
gritava o resultado, não gritava um grito.

Esta voz, enquanto um ar de torre à beira-mar
circula entre as folhas paradas,
conduz a agonia física de recordar a ingenuidade.

Apetece-me explicar, agora, as asas dos anjos.

27/Janeiro/1942

(de Perseguição, 1942)

18.1.05

[outros melros XXI]



THE BEATLES

BLACKBIRD


Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise

Blackbird singing in the dead of night
Take these sunken eyes and learn to see
All your life
You were only waiting for this moment to be free

Blackbird fly, blackbird fly
Into the light of the dark black night
Blackbird fly, blackbird fly
Into the light of the dark black night
You were only waiting for this moment to arise
You were only waiting for this moment to arise

(Lennon/McCartney, The White Album, 1968)

17.1.05

FERNANDO ECHEVARRÍA

A luz inerte susta
o horizonte. Baixo negrume de caruma
surpreende-se por trás do
nevão. Aonde, escura,
a mágoa afunda o pasmo.
E este o bosque. A oculta
Imensidade de halo
Que a luz inerte susta,
exígua, como o campo.

15.1.05

CARLOS ALBERTO MACHADO

MATÉRIA


I
Palavras
para te contar uma ausência
perdidas
palavras na desolação da ilha
palavras presas
e eu nelas.

II
Disseste há palavras forradas de silêncio
mas os homens acreditam nas palavras
com significados ou nos significados das palavras
nas falésias batidas pelo vento e pelo mar no Inverno
descobrimos vestígios de esponjas multicolores
antigos pensamentos
cedendo à força dos nossos desejos.

III
Agora que tenho o lápis na mão
paro para pensar como será a pedra
imóvel perante o desejo branco
abandono por momentos o desvario
olho o teu seio raiado de azul
a boca sôfrega que engole destinos
deixo deslizar à toa o bico do lápis
guio-me por vozes sussurradas longe
falam-me da matéria e das suas formas
a vontade desusada macula os sentidos
o meu tempo está a chegar ao fim
no papel desvendam-se mapas os rios
de sangue da minha mão incendiada.

IV
Desconheço por onde as palavras me levam
talvez pela escuridão dos açougueiros
estas palavras delidas como as carnes
corrompidas nas bancas do Mercado Velho
quero desfeiteá-las uma a uma arrancar-lhes
esperanças sonhadas embebê-las em venenos
sentidos da noite onde a sua matéria se inventa
despedaço entre os dedos uma jaca madura
na garganta o vinho da palma alivia-me
de uma aspereza antiga digo
por onde me levam as palavras
entre carreiros de dejectos
procuro a foz.

V
Datas todos os teus poemas
mas omites a hora e o local
exactos
como nos crimes
os dias as horas os locais
vão-se arrumando a desjeito a tua obra
nunca há-de ser Completa
precisas sempre de imagens novas
para a vida se descompor mais a teu gosto
o próximo passo será o da decomposição
os corpos mergulhados em ácidos novos
eis como a ideia se adapta a preceito
de uma necessária renovação da palavra.

VI
Assinaste o teu nome
em papel sufocante
impressão bem à vista
xix escudos por página
um livro repleto
de palavras amestradas
pra oferecer no Natal
ou isso ou umas peúgas.

(de Ventilador, Elefante Editores, 2000)

4.12.04

JOSÉ BENTO

RESPIGO: OUTRA ESTAÇÃO

30.


Novembro apagou nas buganvílias
seus nomes brancos, roxos, escarlates.

É mais difícil regressar a casa:
o caminho disfarçou, emudeceu
seu rosto nos muros e nas grades.

- Por onde seguiremos
sem que o outono espesso nos traspasse?

(de Um Sossegado Silêncio, edições Asa, 2002 ? pequeno formato)

27.10.04

DYLAN THOMAS

POEMA NO SEU ANIVERSÁRIO


Na semente de mostarda do sol,
Junto ao rio caudaloso e à cachoeira do mar
Onde veloz voa o cormorão,
Na sua casa em andas hasteada entre os bicos
E o arandel dos pássaros
No grão de areia deste dia na ladeira da cova da baía
Ele celebra e troça
O lenho à deriva dos seus trinta e cinco ventos tornados idade;
Garças elevam-se e lanceiam.

Debaixo e em redor de si vão
Solhas, gaivotas, com rastos moribundos e frios,
Fazendo o que lhes é dito,
Maçaricos estridentes nas ondas com safios
Lidam nas suas vias para a morte,
E o versejador na sala de longa língua,
Que tange o sino do seu aniversário,
Labuta para a cilada das suas chagas;
Garças, caules de campanário, abençoam.

Na queda da lã de sementes do cardo,
Ele canta caminho à angústia; voa o tentilhão
Nos cursos de garras de falcões
Num céu rapace; pequenos peixes deslizam
Por quelhos e conchas de cidades
De navios naufragados para pastos de lontras. Ele
Na sua casa torta e torturada
E nas espiras cinzeladas do seu ofício avista
Garças, sudários que caminham.

O manto do rio interminável
De vairões volteando a tecer as suas rezas;
E sabe que no mar lá longe,
Ele que moureja para o seu fim acocorado e eterno
Debaixo duma nuvem serpente,
Os golfinhos mergulham de dorso no pó,
As crespas focas raiam para o fundo
A matar e o seu próprio sangue que tinge a maré
Que bem que desliza na boca polida.

Num cavernoso, agitado
Silêncio de onda, o choro branco do ângelus toa.
Trinta e cinco sinos cantam tangidos
Em cicatriz e caveira, naufragados amores seus
Das estrelas cadentes guiados.
E o dia de amanhã chora numa grade cega
Que o terror rasgará em pedaços
Antes dos grilhões rebentarem num martelo em chamas
E o amor escancarar o escuro

E livremente vai perdido
Na famosa luz desconhecida do grande
Deus fabuloso e amado.
O escuro é um caminho e a luz é um lugar,
O céu que nunca foi
Nem nunca será é sempre verdadeiro,
E, nesse vazio de sarça,
Miríades como as amoras nos bosques
Os mortos crescem para a Sua alegria.

No lugar onde poderia errar nu
Com os espíritos da baía em ferradura
Ou os mortos costeiros dos astros,
Medula de águias, raízes de baleias
E quilhas dos gansos bravos,
Com Deus abençoado e incriado e o seu Espírito,
E cada alma um sacerdote Seu,
Logrado e chantre no jovem aprisco do Céu
Ser em tremente paz de nuvem,

Mas o escuro é um longo caminho.
Ele, na terra da noite, sozinho
Com todos os vivos, reza,
Sabe como o foguete do tempo vai soprar
Os ossos para fora das colinas
E os rochedos ceifados sangrar e a sanha
Das últimas águas estilhaçadas coicear
Mastros e peixes para as quietas rápidas estrelas,
Sem fé e até Ele

Que é a luz do velho
Céu em forma de ar onde as almas braveiam
Como cavalos na espuma:
Oh, possa eu chorar a meio da vida com as preces
Das garças druidas e consagradas
A viagem para a ruína que tenho de trilhar,
Madrugueiros barcos retidos em terra,
Mesmo assim, a clamar com a língua delapidada,
Conto em voz alta minhas bênçãos:

Quatro elementos e cinco
Sentidos, e o homem um espírito apaixonado
Enredando-se no vórtice deste lodo
Até ao reino que há-de vir, suave, sino, nimbo
E os perdidos domos ao luar
E o mar que esconde os seus secretos eus
Na funda base negra feita de ossos,
Canção das esferas na carne das conchas,
E sobre todas esta última bênção,

Quanto mais perto me movo
Para a morte, homem só em cascos com rombos,
Mais alto o sol floresce
E o mar retalhado e em ruínas exulta;
E cada onda do caminho
E cada tempestade enfrento, e toda a terra então,
Com fé mais triunfante
Do que sempre houve desde que foi dito o mundo,
Tece a sua manhã de louvor,

Ouço as impetuosas colinas
Erguerem-se festivas e mais viçosas ao cair das bagas
Castanhas e as cotovias do orvalho cantarem
Mais alto no trovão súbito deste maio e quão
Mais arqueadas de anjos cavalgam
As ilhas em fogo com as almas dos homens! Oh,
Mais santas que seus olhos
E meus homens fulgentes nunca mais sozinhos
Enquanto me faço ao mar para morrer.

(tradução de Joaquim Manuel Magalhães, em apêndice a Dylan Thomas - consequência da literatura e do real na sua poesia, Assírio & Alvim, 1982 - o original pode ser visto aqui)

26.10.04

ANTÓNIO RAMOS ROSA

Há uma certa cegueira vidente no poema e na palavra silenciosa
que o precede e o move. Sem essa parte obscura a palavra
imobilizar-se-ia na evidência da sua visão. Por isso, escrever é
avançar, de ruptura em ruptura, através de um domínio obscuro
onde, a cada passo, se nos depara algo imprevisível. O poema
não reproduz nem designa porque o seu movimento se antecipa à
cristalização dos conceitos e das enunciações póstumas. O seu
objectivo não é o real, mas a energia nascente que incorpora na
sua dinâmica substância. O que se retira ou se retrai é idêntico ao
que se manifesta e se ausenta na sua própria manifestação. Nunca
a palavra é uma doação integral da presença mas o seu horizonte
mantém-se na abertura viva a si própria e ao mundo que a rodeia
no interior do seu círculo inaugural.

(de Relâmpago de nada, Labirinto, 2004)
ANIVERSÁRIOS REDONDOS d'OUTUBRO

dia 17: António Ramos Rosa fez 80 anos - assinalado pelo Mil Folhas desta semana, com Inéditos e um texto de Fernando Pinto do Amaral;

dia 21: 150 anos do nascimento de Jean-Arthur Rimbaud - assinalado pelo Quartzo, que nos informa que existe um site oficial da efeméride;

amanhã: 90 anos do nascimento de Dylan Thomas.

20.10.04

ANTÓNIO OSÓRIO

LXXIV: O POETA É UM PINTOR CEGO
(MIGUEL ÂNGELO)

Cego de palavras.
Intempéries, da verdade.
Chuva
futura, manancial
de nuvens.

Palavras ígneas:
acendalha, carqueja,
lava impreterível.

Ou constrangidas:
pureza, embalsamar o tempo,
amor desdobrável.

Palavras desgraçadas:
orfanato, coval, magarefe
untuoso de sangue.

Ou felizes:
filodendro, verdelha, cordeiro
dormindo no dorso de sua mãe.

Palavras proibidas:
absoluto, garganta
do rio, vidente do insolúvel.

E outras cegas palavras:
a imunidade
(orgulhosa) do suplicante.
O resgate - ilacerável, imenso.

(de Décima Aurora, 1982)
Textos demasiado longos, demasiado curtos, demasiado alinhados, demasiado desalinhados, demasiado presentes, demasiado ausentes, demasiado sociais, demasiado espirituais, demasiado heréticos, demasiado profanos, demasiado atabalhoados, demasiado perfeitinhos, demasiado iconoclastas, demasiado ortodoxos.

19.10.04

EUGÈNE IONESCO

Sejamos vivos, estejamos presentes no instante como estávamos há dez anos, há vinte anos, há cinquenta anos, sessenta anos. O instante de há muito tempo não era nem mais longo nem mais curto que o instante de hoje.
Que verdade profunda a que se diz sobre La Palice: «Um quarto de hora antes da morte, ainda ele estava vivo.» Todos nós nos encontramos um quarto de hora ou não, um quarto de hora ou mais, antes da morte. Toodos vivemos em momentos tão longos, tão curtos, em tão numerosos instantes, tão numerosos instantes, inúmeros instantes...
Deitada, ao meu lado, lê. Serenamente. O meu amor não é irreal, o amor não é irreal. A vida do amor é de uma realidade irrefutável. Tenho agora a certeza de que o amor é eternamente irrefutável.

(in A Busca Intermitente, tradução de Manuel João Gomes, Difel, 1990)

6.10.04

[a propósito e em complemento da evocação que faço na Terra da Alegria, deixo aqui um soneto de um homem lúcido, generoso e bom]

Padre ABEL VARZIM

Que fazes tu aí, oh! Cristo antigo,
Pregado nessa Cruz, eternamente?
Liberta a tua mão omnipotente,
Desprega esses teus pés... e vem comigo!

Não sabes que, sem Ti, nada consigo?
Não vês que fazes falta a tanta gente?
Oh! vem de novo como antigamente,
Viver connosco e nós contigo!

Não vens? Não queres ouvir a humilde prece
Num Mundo que, sem Ti, desaparece,
Vencido pela morte e pela dor?

Não vens? Não pode a Cruz ficar sozinha?
Pois bem: Permite, então, que seja minha!
Eu fico nela... e desce Tu, Senhor!

(publicado pela primeira vez por Domingos Rodrigues em Abel Varzim - Apóstolo Português da Justiça Social, Rei dos Livros, 1990)

[e isto anda tudo ligado: o Miguel desabafa sobre a necessidade do sobressalto para ultrapassar a dificuldade da oração quando o Tim constata que "o Amor é talvez a chave que desequilibra a favor do Bem os pratos da balança do acaso", frase que remete para o que o Lutz nos dirá na próxima 2ª feira]

5.10.04

RAUL BRANDÃO

[excerto de O MEU DIÁRIO - 9 de Outubro de 1910]

Oh meu Deus; nestas ocasiões é que eu queria ver por dentro estes homens lívidos e com um sorriso estampado na cara, que sobem e descem as escadas dos ministérios, para aderirem à República! É este e aquele, os que estão ameaçados de perderem os seus lugares, as altas situações, o poder. Os tipos não importam - o que importa é o fantasma que transparece atrás da figura; o que importa é o monólogo interior, as verdadeiras palavras que não se pronunciam, o debate que não tem fim, o que nestas ocasiões ruge lá dentro sem cessar. Escutá-los a todos! possuir o Dom mágico de ouvir através das paredes e dos corpos!... Toda a noite, toda a noite de Cinco de Outubro quantos perguntaram ansiosos: - Quem vai vencer? onde é o meu lugar?... Bem me importam a mim as tragédias e as mortes!... Interesses, ambição, medo, tantos fantasmas que nem eu supunha existir e que levantam a cabeça!...
Não há nada que chegue a estes momentos históricos em que o fundo dos fundos se agita e remexe, para cada um se avaliar e saber o que vale uma alma...
E o desfile segue - o desfile dos que sobem as escadarias dos ministérios, dos que descem as escadarias dos ministérios, uns já com o olhar de donos, mas vacilantes ainda, sem poderem acreditar na realidade, outros com um sorriso estampado que lhes dói. Estamos todos lívidos por fora e por dentro...

(incluído no "Tomo II" de Memórias - edição de José Carlos Seabra Pereira, Relógio d'Água, 1999 - Obras Clássicas da Literatura Portuguesa / Séc. XX)